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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Homem com Antenas de Visionário

Mais uma boa notícia (abaixo).
Nove contos escritos entre 1979 e 2011 por mais um dos autores do meu Olimpo e que empresta as suas palavras à epígrafe deste blogue à beira do colapso (nem de propósito!), editados em português pela Sextante.



Dilema Gaspar/Vladimir Ilyich: Que fazer? Dois Bukowski (Alfaguara); McEwan (Gradiva); as memórias de Rushdie, aka Franz Anton, a meticulosidade histórica da cruel Némesis sobre a hubris hitleriana de Kershaw (ambos editados na Dom Quixote); o último romance de Mrs. Auster, Siri Hustvedt (Asa); a reedição dos dois calhamaços do pós-guerra de Popper (Edições 70); e agora este.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

De uma vida (auto)esventrada em blogues e redes

«Se revelares tudo, puseres a nu todos os sentimentos, implorares compreensão, perdes uma coisa crucial para a tua percepção de ti mesmo. Precisas de saber coisas que os outros não saibam. É o que ninguém sabe acerca de ti que te permite conheceres-te a ti mesmo.»
Don DeLillo, Ponto Ómega, p. 70 [Porto: Sextante, 1.ª edição, Março de 2011, 121 p.; tradução de Paulo Faria; obra original: Point Omega, 2010.]

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PEN/Saul Bellow Award 2010

Merecido este prémio de carreira na ficção americana atribuído, na minha humilde opinião, ao melhor escritor da actualidade, Don DeLillo, curiosamente enquanto me vou deleitando com a leitura de As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March), numa excelente edição da Quetzal, escrito em 1953 pelo excelso autor que deu o nome à distinção.
DeLillo, de ascendência italiana, nasceu no distrito do Bronx, na sua Nova Iorque, a 20 de Novembro de 1936: Submundo (Underworld, 1997; ed. port. Sextante), Ruído Branco (White Noise, 1985; ed. port. Presença / Sextante), Os Nomes (The Names, 1982; ed. port. Relógio D’Água), Mao II (1991; ed. port. Relógio D’Água), Libra (1988; ed. port. Presença) ou Cosmópolis (Cosmopolis, 2003; ed. port. Relógio D’Água) já mereciam esta distinção (romances ordenados de acordo com a minha preferência, deixando três de fora que já tive a oportunidade de ler, mas que conjugam mal com os acima referidos, pelo menor brilho – por ler, remanescem seis de um total de 16 romances já publicados pelo autor galardoado, os cinco primeiros da sua carreira, a que se junta o de Cleo Birdwell, não entrando em linha de conta com Point Omega, o seu último, publicado este ano e a ser editado nos próximos meses em Portugal).
Três dos quatro melhores romancistas norte-americanos contemporâneos vivos, seguindo as palavras proferidas num artigo de opinião de 2003 pelo erudito de Harvard, Harold Bloom (Philip Roth em 2007, Cormac McCarthy em 2009 e agora Don DeLillo), já receberam o prémio, neste momento fica em falta a sua atribuição a Thomas Pynchon, para se fazer o pleno dos “4 Grandes”, com o patrocínio do pai Bellow, o melhor deles todos.
Parabéns de um admirador portuense.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

festina lente

«Recebia a reforma de professor, mais o pequeno rendimento de um plano de poupança livre de impostos, e ainda os juros de uma velha caderneta bancária com os números escritos em caracteres simpáticos, entrecortados e pouco nítidos.
As estações sucediam-se numa amálgama, cada ano era uma névoa atordoada. Como o tempo nos livros. Num livro, o tempo escoa-se no hiato de uma frase, muitos meses e anos. Escrevendo uma palavra, passa uma década. Não é assim tão diferente aqui fora, na idade dele, no mundo sem margens.»
Don DeLillo, Submundo, p. 240. [Porto: Sextante, 1.ª edição, Abril de 2010, 840 pp.; tradução de Paulo Faria; obra original: Underworld, 1997]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um DeLillo por Bolaño

Ele é por e-mail, por banners publicitários em flash, por blogues arregimentados à causa comercial sob a capa do prazer estético-literário, por t-shirts, pins, marcadores ou posters com a cara cadavérica do sujeito, pela conversa de circunstância leitor-livreiro de pseudo-douto-aconselhamento, que só falta mesmo o papel higiénico Renova negro de folha dupla com o fácies do malogrado escritor chileno chupando sofregamente um pitillo, enquanto profere “por favor, ler antes de borrar” (e aqui deixo ficar bem vincado um apelo à semântica pela inquietação que me provoca a queda na boçalidade), que, por vezes, dou por mim a odiar o que não se pode, ou melhor, o que não se consegue execrar pela destreza literária, a genialidade rara de uma prosa assombrosa. E, acrescente-se a tudo atrás relatado, com um nome inconcebível, um trava-língua principalmente para a mais pachorrenta ou adormecida no piedoso mutismo: Roberto Bolhanho… perdão, Bolhano… hum, hã… Bolano, Bolaño? ¡Eso es! Não se pode desdenhar do que, efectivamente, se gostou com um frémito de puro deleite e que, além de mais, até se traduziu de forma selvagem neste espaço irascível: “A Praia”, ou “A Cozinha Literária de Bolaño”.
Vem aí o Terceiro Reich, mas para ser sincero, o momento pede que me embrenhe no Submundo do também aliterante Don DeLillo, com ou sem bunker bafiento e uma Walther PPK para apressar a coisa, prometido há meses pela Sextante, mas até agora sem quaisquer resultados práticos.
Será que, após a compra da casa liderada por João Rodrigues pela Porto Editora, o dito cujo ficou esquecido no prelo, pronto a ser devorado por ratazanas e crocodilos (com a devida vénia a Pynchon) letrados e recenseadores que pululam nas correntes subterrâneas do meio editorial português?
[feedback] Pede-se a comparência à secção de “ménage” de Benny Profane [som de fundo: uma canção dos Keane à escolha do leitor].
Nota: na imagem, ao centro, figura um Araripesuchus rattoides que habitou a terra no período Cretáceo (sucedeu o Jurássico) da era geológica do Mesozóico, mais conhecido por “ratcroc”.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pensar nos interstícios

Jardelizar um texto. Ele prossegue. Este fragmento humano que, por vezes, escreve neste espaço, com intervalos entre textos cada vez maiores – os intervalos, claro está –, não assinalou os 50 anos da morte do estimadíssimo argelino do Combat – denegrido pela esquerda vesga, vulgo sartriana, que após a morte lhe dedicou uma elegia pungente de falsa admiração – e, para agravo do eu (ou ele? o dele) já macerado, deixou passar em claro o desaparecimento físico, imortalizado na tela, de Sax von Stroheim, mas que por inversão nome/apelido dos estetas apreciados preferiu ser conhecido por Éric Rohmer (1920-2010); Maurício Henrique deixou moral e finalmente a casa de Maud – e quantas Claires, em doces movimentos rotulares, existirão no éter para amimar o Mestre? (na imagem, le genou) – para se encontrar com o grande Francisco, que abalou cedo nos idos de 1984, onde ainda deixou o João-Lucas, o Cláudio e o Tiago (ou Jaime, para quem preferir esta parte da raiz bifurcada), na casa dos oitenta a transpirar beleza por todos os poros. Desistam da reputada beleza nabokoviana da parelha Astrea & Celadon, com os seus toques mamilares subtis, do corpo enquanto arte – até ver, encaixa-se no que vem a seguir.
E vou tendo notícias sobre os que ainda me alegram a vida pela arte que vão lançando a cada nova etapa de suas vidas. Há um Point Omega de um pós-modernista muito odiado pelo reaccionário de Harvard, aquele sebento emproado que escreve panfletos na New Yorker, e cuja carneirada se agarra para calibrar os seus gostos literários – ó pobreza de espírito. De alfa a ómega… a idiotia no seu estado mais puro dos literatos de pacotilha.
E aquela abertura que há pouco passou pelos meus olhos num inglês burilado por fluxos que emergem das profundezas do subconsciente, dava um filme do mago Jarmusch… mas não deu já? Axioma: Sem limites, não há controlo; rédea solta a uma realidade arbitrária e subjectiva, não artificial mas imaginária, cujos reflexos são mais vívidos que os objectos reflectidos.
Vejamos:
«A vida real não é redutível às palavras faladas e escritas, por ninguém, nunca. A vida real desenrola-se quando estamos sós, a pensar, a sentir, perdidos na memória, sonhadoramente autoconscientes, os momentos submicroscópicos. Ele disse isto por mais do que uma vez, Elster fê-lo, de diferentes formas. A sua vida surgiu, disse ele, quando se sentou a fitar uma parede em branco, reflectindo sobre o jantar.
»Uma biografia de oitocentas páginas não é nada mais que uma conjectura sem vida, disse ele.
»Eu quase acreditava nele sempre que ele proferia este tipo de coisas. Ele dizia que nós fazemos isto o tempo todo, todos nós, começamos a ser nós próprios sob a força de pensamentos correntes e imagens difusas, indagando indolentemente sobre quando iremos morrer. Esta é a forma como vivemos e pensamos, quer a reconheçamos ou não. Estes são os pensamentos desordenados que nos sobrevêm quando olhamos através da janela do comboio, as pequenas e enfadonhas manchas de pânico meditativo.»
Don DeLillo, Point Omega [Scribner, February 2010, 128 pp.; tradução livre: AMC].
E vejo, por aqueles olhos orientais transversais (cuja perfeita perpendicularidade vulvar – ah, o eu concupiscente e ominoso – não se olvida da bela compatriota, ficara gravada no limiar do consciente que se enraíza na fantasia, materializada em cena babélica-stoniana) que se cruzam num faiscar diáfano com a fleuma assassina de Bankolé, os moinhos de vento tecnológicos nas planícies inóspitas da Andaluzia enquadradas por uma janela do comboio de alta velocidade: «Aqueles que julgáramos connosco, não estão entre nós.»

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Start spreading the news...

Vivo no presente, e os inexoráveis saltos e sobressaltos que o futuro traz a esta actualidade – que não é a mesma desde que comecei a escrever este texto vacilante, tal como a vontade de o acabar – obrigam-me a corrigir determinadas excitações incisivas perpetradas num passado recente, embora, muitas vezes – como é o caso –, não se revistam dessa qualidade de um paroxismo efervescente, mas de uma mais tranquila irritada constatação – a antinomia, tal como a idiotia, tem os seus malefícios; pelo sucedido peço perdão.
Bertrand, loja das Antas, por volta das 17 horas do dia de ontem. Corri os olhos pelo espectáculo multicor de capas, lombadas, brindes e cartazes sobredimensionados de autores ufanosos por ostentarem a sua prima do mestre-de-obras, com uma voracidade inaudita, sentindo o fôlego entrecortado, o coração em arritmia, a adrenalina a esvair-se como o pó pelas narinas sôfregas de Keith Richards, e detive-me na secção das “novidades” – acho que deverá estar próximo o futuro, que se fará anunciar por uma apocalíptica trombeta joanina, em que irei ver uma livraria com 500 metros quadrados de área útil cujas estantes apenas estarão forradas de novidades… saídas do prelo ontem, tal é a vertigem editorial nos dias que correm em Portugal. Encontrei-o. De capa azul celeste de fim de tarde outonal, eis o objecto para confirmação das minhas apreensões literárias. Abri a badana da contracapa e li:

«A publicar: Submundo.» (Sextante Editora)

Mas não fiquei por aí. Também li a ficha técnica e verifiquei que a revisão literária mudou de género – impossibilidade física (esqueçam as cirurgias de reconversão) de coincidir com a de antanho.
Fechei os olhos. Suspirei. Voltei a abri-los. Necessitava, como de pão para a boca de um acto puramente masoquista, pungente como o cilício nas pernas roliças e peludas dos fiéis de São Josemaría Escrivá. Foi então que agarrei no último livro de Nicholas Sparks (exposto aos magotes, como se não houvesse amanhã) e li as primeiras frases… uma tontura, seguida de uma forte náusea deixaram-me à beira do precipício do achaque estético em público, soltando gritos à Castelo Branco – não o da Plácido e da Cadeia da Relação – o outro(a), o José… Tomei uma resolução, e à João Vieira Pinto, dei um passo em frente.
Ponto final.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Aquilo que eu temia

Há mais de um ano quando a neófita e desde logo louvável Sextante Editora entrou na denominada velocidade de cruzeiro editorial – após um arranque atribulado, em que se viu forçada a mudar de nome para evitar possíveis confusões com outras editoras no mercado, e escolheu este que corresponde a uma editora brasileira –, publicaram-se, numa base sistemática, obras originais de autores nacionais, que acabaram mais tarde por ser objecto de atribuição de importantes prémios literários, e optou-se por uma escolha criteriosa de obras, na sua maioria inéditas em Portugal, de autores estrangeiros consagrados. Enquadram-se neste último caso nomes como Cheever, Echenoz, A.S. Byatt, Pasternak, Truman Capote, Le Clézio e o meu mui estimado autor norte-americano Don DeLillo.
Em Novembro de 2007, a Sextante publicava O Homem em Queda (Falling Man), o último romance do ilustre escritor nova-iorquino – pessoa responsável pela epígrafe deste blogue – publicado originalmente em Maio desse mesmo ano nos Estados Unidos, com uma tradução exemplar de Paulo Faria (aliás, em harmonia plena com o seu padrão de trabalho).
Em suma, o meu júbilo pelo anúncio, embora não tenha tido paralelo após leitura pela qualidade do romance de DeLillo  – em boa verdade revelou-se uma pequena decepção –, deveu-se mais à oportunidade temporal da sua publicação – meio ano após a publicação original, o que é raro no meio editorial nacional –, como também pela escolha do mencionado tradutor, Paulo Faria, um dos poucos nomes cuja inscrição nas primeiras páginas de um livro me deixam a firme certeza de não ter de ingerir um (ou vários) Xanax por uma tradução exasperante.
A talho de foice, dada a minha comprovada listomania – que alguém, não me lembro de quem (deve constar de um dos textos deste blogue, cuja bela preguiça não me permitiu encontrá-lo), condenou os colegas listómanos ao padecimento da síndrome de Asperger – apresentarei, num dia destes, uma pequena (dada a escassez de matéria-prima) relação  dos melhores tradutores nacionais.
Na badana da contracapa do dito romance, houve um conjunto de caracteres que se destacou pelo brilho ofuscante da asseveração que aí era produzida, pelo menos para um delilliano (um verdadeiro trava-línguas):
«Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
Assim que li aquela badana, perguntei-me por que motivo se duplicaria a publicação de uma obra [Ruído Branco] que ainda estava perfeitamente acessível no mercado livreiro, na sua versão de 1991 da Presença? Seria pela sua constatada tradução mais que sofrível, encomendando para o efeito a sua retradução a um notável tradutor da nossa praça?
A segunda resposta afigurava-se-me positiva. De facto, a tradução de White Noise (1985) de Rui Wahnon, tal como ocorreu com a de Libra (1988), é de exasperar um santo bibliófilo, moderadamente apreciador das obras de DeLillo. E o mercado literário e os seus consumidores só têm a ganhar com traduções posteriores que procurem corrigir as traduções existentes e com isso captar, de forma mais eficaz, a verdadeira essência, o espírito que o autor emprestou à obra.
Ruído Branco é, na realidade, um romance arrebatador, profundamente envolvente, admirável na gestão das expectativas do leitor, no recobro do seu fôlego, em suma, é uma obra genial engendrada por um colosso literário. Das oito* entre as catorze obras de ficção escritas por Don DeLillo – deixando de parte os contos e as peças de teatro – que tive a feliz oportunidade de ler, aquela é, sem sombra de dúvida e na minha pessoalíssima opinião, a melhor obra do autor de Nova Iorque, com a qual, este, até aos dias que correm, venceu o seu único National Book Award (o de 1985).
É oficial. Acabei de receber a informação enviada pela própria editora:
«Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»

Aconteceu o que temia depois de ler aquela badana, cuja informação transcrevi. Underworld, considerada a magnum opus de DeLillo, iria ficar para segundo plano. E esta predição baseou-se, essencialmente, em dois factores:
  1. As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
  2. A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).

Mas o choque foi ainda maior, quando no dito auto de notícia pude ler «Tradução do inglês / por Rui Wahnon». Ai, não!
Resta saber se rectificada pelo próprio que, é justo dizer-se, partilhou responsabilidades com o trabalho de revisão de um talvez adormecido Fernando Cunha Rebelo, ou dissecada por um revisor literário mais atento e conhecedor das falhas da tradução de 91. Se assim não for, pese embora a mudança de editora, trata-se de uma mera reimpressão em casa nova, que não acrescenta nada de positivo à obra traduzida, apenas perpetua o erro; ao invés da recomendável reedição de uma obra-prima da literatura americana traduzida com zelo e mestria que não faça desmerecer esse epíteto em português e que lhe foi merecidamente aposto pela versão original em língua inglesa.
Quanto a Underwold (1997)**, só me resta esperar, de preferência deitado em colchão ortopédico não vá o diabo tecê-las.

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*Nota, obras lidas de DeLillo: Cão em Fuga (1978), Os Nomes (1982), Ruído Branco (1985), Libra (1988), Mao II (1991), O Corpo Enquanto Arte (2001), Cosmópolis (2003) e O Homem em Queda (2007).
**Nota, honras e prémios literários concedidos à obra Underworld: finalista vencido do National Book Award 1997 (perdeu para O Regresso do Soldado – Cold Mountain de Charles Frazier), do Pulitzer Prize for Fiction de 1998 (perdeu para o memorável Pastoral Americana de Philip Roth) e do concurso pontual, realizado em 2006, pelo The New York Times – Best Work of American Fiction of the Last 25 Years (perdeu para Beloved de Toni Morrison, autora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993); venceu o American Book Award em 1988, o Jerusalem Prize (1999), o William Dean Howells Medal (2000) e o Riccardo Bacchelli International Award (2000).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bartleby Sphere, foi há 27 anos

Nove da manhã. A efeméride anunciava-se na rádio e, ante a voracidade dos contratos publicitários da estação, cerca de 30 segundos de um som etéreo foram considerados suficientes para lhe render a homenagem. O dia de hoje marca os 27 anos da morte de um dos mais icónicos e bartlebianos (síndrome que o atacou no momento em que a sua carreira atingia o auge) pianistas e compositores de Jazz de sempre: a 17 de Fevereiro de 1982, morria em Weehawken, Nova Jérsia, Thelonious Sphere Monk, Jr. (1917-1982); conjuntamente com o eterno “Bird” Charlie Parker, um dos pais fundadores do Bebop.
A sua última actuação ao vivo tinha ocorrido numa fugaz aparição em 1976 no famoso Bradley’s, em Greenwich Village em Nova Iorque, onde tocou apenas duas músicas e saiu de forma intempestiva da sala. Nas palavras do seu amigo pianista e compositor Randy Weston (n. 1926) «Ele [Monk] veio, exteriorizou a beleza e saiu.» [cf. The Nesuhi Ertegun Jazz Hall of Fame (Jazz at Lincoln Center Hall of Fame); tradução: AMC].

Volto ao célebre artigo de Don DeLillo de onde foram retiradas as palavras que constam da epígrafe deste blogue (e integram o segundo texto da 3.ª fase da minha vida na blogosfera: Nunca Mais), e volto, por força das palavras impressas, a O Náufrago de Thomas Bernhard, o abismo do isolamento – que DeLillo afirma ser uma forma abreviada de uma execução dentro da lei –, talvez simbolizado pela Moenchsberg [tradução literal na versão inglesa Monk’s Mountain (A Montanha do Monge)]:

«[…] Moenchsberg, a que se chama também o Monte do Suicídio porque é o que há de mais apropriado para um suicídio e, realmente, três ou quatro suicidas por semana, pelo menos, despenham-se do seu cume. Os suicidas sobem no elevador instalado no interior do monte, dão meia dúzia de passos e precipitam-se sobre a cidade. Sempre me senti fascinado por aqueles que vinham esborrachar-se na rua, e eu próprio subi muitas vezes ao Moenchsberg, a pé ou no ascensor (como aliás também o Wertheimer), na intenção de me atirar dele abaixo, mas não me atirei (e o Wertheimer também não!). Por várias vezes estive pronto a atirar-me, mas, tal como o Wertheimer, nunca cheguei a fazê-lo. Voltei as costas ao precipício. É evidente que até hoje houve muitos mais a voltar as costas do que a saltar, pensei.»
Thomas Bernhard, O Náufrago, p. 12.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1987, 144 pp; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Der Untergeher, 1983)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Espírito das Alternativas

«– Mas eu queria dizer – sou um homem em pedaços, mutilado.
– Facilmente exasperado.
– Sabes bem como é. Sou oprimido, empurrado, atormentado, maçado, importunado, incomodado…
– Por quê? Pela consciência?
– Bom, por uma espécie de consciência. Não lhe tenho o respeito que tenho à minha consciência. É a parte pública de mim próprio. Vai até lá muito dentro. É o mundo interiorizado, em resumo é isso.
»
Saul Bellow, Na Corda Bamba, pág.166
[Lisboa: Círculo de Leitores, 1.ª edição, Junho de 1977, 193 pp. (tradução de Maria Adélia Silva Melo; obra original: Dangling Man, 1944]

Talvez seja da acalmia que se produz com aquele período a que se convencionou chamar “férias” – e talvez seja esse o único qualificativo capaz de traduzir o artifício, humanamente engenhoso… ou demasiadamente humano, basta, da tal suspensão de responsabilidades profissionais.
Não me convence. Nem nunca me convenceu, porque nunca o senti como um período de verdadeiro descanso. Não estou suficientemente longe de mim para apaziguar um espírito que se mortifica pela sua impiedosa imagem pública. Não preciso de férias. Necessito apenas que a liberdade que fui construindo para o meu eu me deixe, pelo menos, desfrutar da sensação de imponderabilidade, de anarquia – e que bem se emparelha este último com o termo “servidão”.
O isolamento, como ensaia DeLillo através da alusão de Bernhard a Glenn Gould (vide epígrafe deste blogue), cria instantaneamente essa ilusão de liberdade; efémera, desfaz-se como uma traça em pó depois de sovada, que, de forma cega e obstinada, vai dilacerando a nossa roupagem.
Assalta-me o terrível dilema bellowniano da liberdade individual frente às exigências do contrato social. Sou senhor de mim e sinto-me pouco grato por isso.

Reflectindo sobre os méritos alcançados (autodeterminação) pela minha forma de vida.
[contraponto]

«Hurray for regular hours!
And for the supervision of the spirit!
Long live regimentation!
»
Saul Bellow, Dangling Man
(New York: Penguin Books, October, 1996, p. 183)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Áries

Rui PereiraPoderia ser o título de um novo romance de Don DeLillo – uma sequela do aclamado Libra de 1988, uma narrativa semificcional sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, enquanto desfilava no seu Lincoln descapotável na Elm Street em Dallas, reconstruindo a figura de Lee Harvey Oswald (de signo Balança) e uma teia de conspirações de ex-agentes da CIA e de exilados cubanos, que o usaram como instrumento, em busca de uma desforra da calamitosa invasão da Baía dos Porcos.
Oswald depois de haver sido detido no próprio dia do assassinato, viria, dois dias depois, a ser alvejado mortalmente no abdómen por Jack Ruby, um conhecido dono de um clube de striptease de Dallas e com ligações à máfia, com relações privilegiadas com a polícia local, na garagem da esquadra de polícia, onde o primeiro se preparava para ser transferido para a prisão mais próxima.
Áries, ou Carneiro como é usado na nossa língua, regula astrologicamente a vida e a cabeça de um homem, chamado Rui Carlos Pereira – a importância dos três nomes… –, que por coincidência ou teoria conspirativa é o Ministro da Administração Interna da país da impunidade: Portugal – a propósito, e como recordar é viver, José António Cerejo escrevia este artigo no Público a 17 de Abril de 1999, onde, entre outros, surge por casamento e pelas (múltiplas) funções exercidas o nosso inefável homem dos aventais, na altura director do SIS que investigava a Universidade Moderna (todavia, não consta do seu breve currículo disponível na página oficial do Governo o exercício das funções de docência neste estabelecimento de ensino).
Ontem, o nosso ministro comparou o caso do homem baleado em plena esquadra de Portimão, ao assassinato de Oswald por Ruby, depois de o primeiro haver assassinado J.F. Kennedy, apenas e somente o 35.º Presidente dos E.U.A. Para além de haver revelado algumas debilidades indesculpáveis no conhecimento de factos históricos ocorridos há quase 45 anos, este homem depois de mais um dos inúmeros disparates verbais na tentativa de explicar o inexplicável, continua à frente de um dos ministérios chave para a necessária tranquilização da sentidamente insegura população portuguesa.

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Finalistas do Booker Prize de 2008 (anunciados ontem)

  • Amitav Ghosh – Sea of Poppies;
  • Aravind Adiga – The White Tiger;
  • Linda Grant – The Clothes on Their Backs;
  • Philip Hensher – The Northern Clemency;
  • Sebastian Barry – The Secret Scripture;
  • Steve Toltz – A Fraction of the Whole.

Com a excepção de Sebastian Barry (finalista em 2005), todos os outros são estreantes na lista dos finalistas do galardão máximo a premiar uma obra em língua inglesa, originalmente publicada no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou na Irlanda
Sinal dos tempos na literatura anglo-saxónica? Os novos romances dos autores consagrados John Berger e Salman Rushdie ficaram-se pela lista dos semifinalistas.
O vencedor será anunciado depois do habitual jantar no Guildhall em Londres no próximo dia 14 de Outubro.

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Nota importante: prossegue o interlúdio retemperador neste blogue. O autor continua com as suas férias até ao dia 22 de Setembro, altura em que se serão respondidos os e-mails e os comentários deixados nas respectivas caixas em anexo aos textos publicados.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Cleo Birdwell*

Se me pedissem, em tom de desafio, para descobrir a que revista internacional o bilingue Rogério Casanova* pertence ou pertenceu – nem que tivesse sido apenas por uma semana (claro está, na de 20 de Abril deste ano) – ao respectivo conselho editorial, a minha resposta seria óbvia, A Cebola:



*pseudónimos.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nunca mais... regresso

Auto-ilusão com uma ligeira fragrância a megalomania, assumidamente na sua variante narcísica, de índole redentora – e neste caso, como em quase todos, a “redenção” sobreexcede o qualificativo pachequista de “salvífico” na escala do serviço divino.
E a maneira mais fácil de me libertar desta perífrase, ou dos nós que não se desatam na impudica desnudação do eu, subsume-se a uma citação:

«Compreendo-os muito bem; a tua seriedade perturba-os.» (pág. 600 de uma obra com referência final).

Domingo, 6 de Abril – e peço as devidas desculpas pela semelhança com o título de um romance de uma compiladora de caracteres que sempre me conseguiu levar a um estado de perplexidade, para não dizer de aversão, literária, apriorística; a um julgamento sem defesa, talvez advindo da constatação empírica da qualidade dos seus consumidores (chamar-lhes leitores implicaria, no sentido restrito da coisa literária, apodar os seus livros de Literatura e tudo isso seria uma promoção que não pretendo de forma alguma consagrar).
Ora, como dizia, nesse domingo de Abril queria com toda a minha vontade haver encerrado em definitivo, porque me consumia (abra-se a vastidão do campo semântico da palavra), a minha curta actividade na blogosfera – embora os mais de dois anos e meio, com algumas intermitências, possam desmentir o atributo, porém existem aqueles que já por cá andam há cinco ou mais anos, e nem sequer se chateiam…
Nunca mais! E como sói trair-nos a realidade… Estou de volta após 26 dias de ausência, que, a somar aos 70 ulteriores (entre o encerramento do Porque e o nascimento do In Absentia), perfazem o belo número de 96, ou 8 dúzias, ou a parelha oralmente amuada, ou veja-se a estação 48 (a metade) – cf. Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault – pertencente à 5.ª sefira “Gebura” (Força, Julgamento ou Poder) da Árvore da Vida da Cabala, a 2.ª dos sefirot que correspondem aos atributos emocionais da Criação, em que se manifesta a intransigência divina perante o incumprimento da Lei.

Nos primeiros dias deste breve interstício – ainda não assumido como tal, dado o valor absoluto que um nunca mais costuma assumir na minha vida, assaz diferente do galicismo liniano jamais –, houve apenas uma pessoa que, entendendo a razão subjacente à minha decisão, me enviou um e-mail, em manifestação de apelo, para que não desistisse de dar voz às tais inquietações através da escrita, que poderia ser, se a falta de tempo fosse factor determinante, mais espaçada, sem a urgência diarista.
É verdade: uma só pessoa… valeu por todas e esse alguém, que não importa quem e que nem sequer irei revelar a identidade, trata-se apenas de um grande amigo invisível, de “0’s” e “1’s”, que fisicamente se encontra a 300 quilómetros de distância.
Porventura, a situação não pedia tanto… bastava a lembrança do envio de um singelo abraço nas curtas distracções do globo ocular nas suas incontáveis circunvoluções diárias ao próprio umbigo.

Perspicácia no apelo: a primeira epígrafe tudo diz sobre a caminhada na beira do perigoso abismo, pelo triunfo ardentemente pretendido da ascese, o isolamento absoluto referido por Vila-Matas em “A Glória Solitária” (cf. Exploradores do Abismo, Teorema, 2008), tendo por base o fabuloso ensaio de Don DeLillo, “Counterpoint: Three Movies, a Book, and an Old Photograph”, referindo-se a uma certa estirpe de bartlebianismo em Glenn Gould, Thomas Bernhard e a notável versão ficcionada da vida de Gould em O Náufrago (Der Untergeher, 1983), em que DeLillo acaba por estabelecer o paralelismo com o enormíssimo Thelonious Monk (a enigmática referência de Bernhard às Monk Mountains) e o seu tenebroso emudecimento nos últimos seis anos da sua vida.
Depois, Sophia, como sempre e para sempre, como em todos os outros, e como em qualquer dos outros não iniciados, um poema que traduz, pela interpretação eminentemente pessoal que dele faço, o meu estado de espírito no momento. Uma evolução anímica, espiritual que percorre o largo espectro da sua soberba e admirável obra poética – trata-se, não escondo, depois de Camões e Pessoa – incomparáveis pela desmesura que só os próprios nomes encerram –, dos poetas da minha pessoalíssima preferência.

O que isto irá ter de diferente?
Não sei. Por enquanto. Pretendia-o menos turbulento, sem beliscar a incisividade necessária no momento certo em que me der ganas de vociferar, escrevendo, sobre o confronto vivido e real com o impudor, o arrivismo, a sordícia, a mediocridade e, em suma, com a injustiça, como a fonte criadora e simultaneamente o efeito desses pecados, vícios e imperfeições tão lusos.

Termino como comecei, com uma citação de uma já sentida obra-prima que por estes dias irei terminar:

«Hoje em dia parece que quase só há escritores, e poucas pessoas que lêem livros […] quantos livros saem anualmente dos prelos? Se bem me lembro acho que só na Alemanha são cerca de cem por dia. E nascem mais de mil novas revistas todos os anos! Toda a gente escreve, toda a gente se serve de todas as ideias como se fossem suas, quando lhes convém. Ninguém pensa na responsabilidade que devemos ter para com o todo! Desde que a Igreja perdeu a influência que tinha, não há autoridade neste nosso caos. Não há ideias culturais nem uma ideia de cultura. Nestas circunstâncias, é perfeitamente natural que os sentimentos e a moral andem à deriva, sem âncora, e o mais firme dos homens comece a vacilar.»
Robert Musil, O homem sem qualidades, pág. 728. (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2008, vol. I, 843 pp.; tradução de João Barrento; obra original: Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942.)

Regresso agora ao passado: Dia 17 de Dezembro de 2005, escrevia o meu primeiro texto na blogosfera, inventava o Porque e publicava o manifesto que ainda hoje não perdeu validade:

«Porque escrevo»

Para soltar a minha raiva;
Para exorcizar os espíritos ocultos que habitam em mim;
Para libertar a ansiedade que sufoca o meu corpo;
Para exprimir os meus desassossegos, dúvidas e tristezas,
Para os poder transformar em momentos de quietude, de certeza e de alegria:
Humanidade, firmeza e júbilo!
Para os poder difundir e gastá-los à tripa forra,
Para não ter de prestar contas:
A uma douta hierarquia,
Ao Estado,
À pátria,
Ao mundo…
A Deus!
Bastar-me-á um leitor:
Porque escrevo e assim quero resistir!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tiro de partida: Maratona

Provavelmente, o livro na imagem será o último dos editados em 2007 que irá ser objecto de apreciação aqui neste blogue. São 895 páginas quase desprovidas de parágrafos, carregadas de caracteres que formam palavras esparsamente visíveis a olho nu.
Inicia-se a maratona literária cujos primeiros vestígios da linha de meta serão talvez divisados nas cercanias da consoada, tudo dependerá da minha condição física e espiritual ao quilómetro trinta…
Até lá, com alguma hipótese de cumprimento, e sem que disso se faça uma promessa política – leia-se mentira –, divulgarei as minhas notas de prova sobre o confuso e atarantado Homem em Queda de DeLillo e do empolgante Aprender a rezar na Era de Técnica, escrito pelo talentoso e incansável, nas imediações de Borges – é a minha opinião –, Gonçalo M. Tavares. Na realidade, o último livro da tetralogia "O Reino" é uma obra a roçar a perfeição, pela profundidade da reflexão, pela genialidade do simbolismo e, sobretudo, pelas suas originalidade e criatividade; porventura, face ao actual panorama das letras lusas, tratar-se-á de um romance inigualável nos tempos mais próximos – infelizmente, Agustina não é eterna...



«(…) as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo.»
Jonathan Littell, As Benevolentes (Dom Quixote, 1.ª ed., pág. 13; trad. Miguel Serras Pereira).

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

DeLillo, Gore Vidal, entre outros

Aproxima-se o Natal e as editoras nacionais lançam em barda as suas apostas mais seguras, retidas, durante pelo menos uma temporada, entre a tradução e a impressão – basta não ignorar a ficha técnica e reparar no ano de aquisição dos direitos de publicação.
Por aqui, numa altura em que se redobram os afazeres académicos, não há tempo para tanto livro, nem se vislumbra a iminência de um milagre da multiplicação das duas dúzias de horas que compõem o dia para satisfazer esta sofreguidão bibliómana.
Destaco dois livros, de dois autores norte-americanos, Don DeLillo (n. 1936, completa amanhã 71 anos) e Gore Vidal (n. 1925), um romance e um livro de memórias, respectivamente:



E depois há mais. Tempo e dinheiro – e já agora, que a saúde o permita, graças a quem tiver o poder para me a dar (ou tirar). Precisava de me reformar e já agora que o seu efeito, o pilim, fosse equivalente à jubilação dourada e merecida por três anos, árduos e penosos, a exercer funções no Banco de Portugal…

  • Christopher Hitchens – Deus não é grande (Dom Quixote) – já o comecei a ler em inglês, terminá-lo-ei na nossa língua.
  • Cormac McCarthy – Este país não é para velhos (Relógio D’Água)
  • Don Delillo – O Homem em Queda (Sextante) – o meu Nobel…
  • Gonçalo M. Tavares – Aprender a rezar na Era da Técnica (Caminho) – quarto livro de O Reino (livros negros); Os três primeiros, por ordem cronológica de publicação: Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Aguardo a sua leitura com alguma ansiedade, especialmente pela qualidade e pelo arrojo literários revelados com os dois últimos.
  • Gore Vidal – Navegação ponto por ponto (Casa das Letras) – em fase de leitura
  • Haruki Murakami – Dança, Dança, Dança (Casa das Letras) – obra que surgiu no seguimento de Em busca do carneiro selvagem; a avaliar por este último, não promete...
  • José Luís Peixoto – Cal (Bertrand) – acabei de o ler: desencanto e frustração, para quem, como eu, espera muito deste homem
  • Sandor Márai – A Mulher Certa (Dom Quixote)
  • Zadie Smith – Uma questão de beleza (Dom Quixote) – confirmar a destreza demonstrada em Dentes Brancos e a exultante crítica literária com este, o terceiro romance da autora (On Beauty, 2005).

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Of Rats and Men*

«Os ratos são quase tão fecundos como os germes. […] Crescem rapidamente e são capazes de procriar desde os quatro meses de idade […] um rato de quatro anos é mais velho do que um homem de noventas anos. “Os ratos que sobrevivem além dos quatro anos são dos bichos mais sabidos e mais cínicos que há à face da terra. […] Uma ratoeira não é nada para eles, por mais habilmente que tenha sido montada. […] são capazes de detectar um isco envenenado a um metro de distância. Estou convencido de que alguns deles sabem ler.»**
Joseph Mitchell, O Fundo da Baía, “Ratos da Beira-Rio”, pág. 80.

Zbigniew HerbertÉ curioso que as usem como cobaias para proteger e perpetuar uma espécie cujo código genético lhes é tão familiar. Tão idiossincraticamente familiar. Tão indistintamente próximo. Uma turba de roedores parasitários que dão abrigo a outros parasitas mais insignificantes, alguns verminosos, pegajosos, escorregadios ou estaladiços. Uns papa-hóstias, outros pedreiros livres, outros ainda materialistas dialécticos, anarcas, conservadores, neoconinhas, comichosos, ranhosos e bexigosos… e no entanto, todos roem. São os patrulheiros do sectarismo, mais reaccionários que os patrulhados. São os do pensamento único, intolerantes à diferença, travestidos de defensores da moral pública ou da liberdade de expressão; dos direitos liberdades e garantias; da sociedade civil; da liberdade, da igualdade e da fraternidade; das mãos limpas; da puta que os pariu; são, enfim, todos tão lúcidos e esclarecidos, sapientes e eruditos… foda-se, até citam nomes e textos, amalgamas de letras subitamente dotadas de vida e por isso sujeitas às mais do que necessárias distorções; tantas fontes, que não há sede que resista; arremessam-nas e esperam pela resposta. Acordam de manhã e cagam filósofos, políticos, escritores. Estão convencidos da clarividência do seu pensamento, de possuírem a mais preclara das cabeças – trabalhassem mais com as de baixo, estariam aquelas menos poluídas. Boçal, eu?
Ah, e que bem dizia Pessoa, transformado em Bernardo Soares – epígrafe do meu anterior blogue… cito, corto e colo… tanta lucidez, ou convencimento dela… perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.

A minha divisa passou a ser a ratazana…

Cito, sem pruridos sectários, o grande poeta polaco Zbigniew Herbert, via DeLillo (o meu Nobel***):

Too old to carry arms and fight like the others—

they graciously gave me the inferior role of chronicler
I record—I don't know for whom—the history of the siege

I am supposed to be exact but I don't know when the invasion began
two hundred years ago in December perhaps yesterday at dawn
everyone here suffers from a loss of the sense of time

all we have left is the place the attachment to the place
we still rule over the ruins of temples specters of gardens and houses
if we lose the ruins nothing will be left

I write as I can in the rhythms of the interminable weeks
monday: empty storehouses a rat became the unit of currency
tuesday: the mayor murdered by unknown assailants
wednesday: negotiations for a cease-fire the enemy has imprisoned our messengers
we don't know where they are held that is the place of torture
thursday: after a stormy meeting a majority of voices rejected
the motion of the spice merchants for unconditional surrender
friday: the beginning of the plague saturday: our invincible defender
N.N. committed suicide sunday: no more water we drove back
an attack at the eastern gate called the Gate of the Alliance

all of this is monotonous I know it can't move anyone

I avoid any commentary I keep a tight hold on my emotions I write about the facts
only they it seems are appreciated in foreign markets

yet with a certain pride I would like to inform the world
that thanks to the war we have raised a new species of children
our children don't like fairy tales they play at killing
awake and asleep they dream of soup of bread and bones
just like dogs and cats

in the evening I like to wander near the outposts of the City
along the frontier of our uncertain freedom
I look at the swarms of soldiers below their lights

I listen to the noise of drums barbarian shrieks
truly it is inconceivable the City is still defending itself
the siege has lasted a long time the enemies must take turns
nothing unites them except the desire for our extermination
Goths the Tartars Swedes troops of the Emperor regiments of the Transfiguration
who can count them
the colors of their banners change like the forest on the horizon
from delicate bird's yellow in spring through green through red to winter's black

and so in the evening released from facts I can think
about distant ancient matters for example our
friends beyond the sea I know they sincerely sympathize
they send us flour lard sacks of comfort and good advice
they don't even know their fathers betrayed us
our former allies at the time of the second Apocalypse
their sons are blameless they deserve our gratitude therefore we are grateful
they have not experienced a siege as long as eternity
those struck by misfortune are always alone
the defenders of the Dalai Lama the Kurds the Afghan mountaineers

now as I write these words the advocates of conciliation
have won the upper hand over the party of the inflexibles
a normal hesitation of moods fate still hangs in the balance

cemeteries grow larger the number of defenders is smaller
yet the defense continues it will continue to the end
and if the City falls but a single man escapes
he will carry the City within himself on the roads of exile
he will be the City

we look in the face of hunger the face of fire face of death
worst of all—the face of betrayal

and only our dreams have not been humiliated

Zbigniew Herbert (1924-1998), Report from the Besieged City, 1982 (tradução do polaco por Bogdana Carpenter e John Carpenter)****.


Notas:
*Com a cortesia de Steinbeck e da sua obra Of Mice and Men (1937).
**Referência bibliográfica completa: Joseph Mitchell, O Fundo da Baía, “Ratos da Beira-Rio”. Porto: Ambar, 1.ª edição, Março de 2007, 219 pp. (tradução de José Lima; obra original: The Bottom of the Harbor, 1960; Capítulo: “Os Ratos da Beira-Rio, “The Rats of the Waterfront”, crónica publicada, sob outro título, na revista The New Yorker, Maio de 1944).
***Pronto, revelei. E desta já não posso fugir.
****No caso de haver tradução portuguesa, comunicar à redacção, obrigado.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

O Dia da Memória

Faltam 5 dias…
Maio, dia 15, dia de estreia mundial do 14.º romance de Don DeLillo (n. 1936, Nova Iorque), depois de (1) Americana, 1971; (2) End Zone, 1972; (3) Great Jones Street, 1973; (4) Ratner's Star, 1976; (5) Players, 1977; (6) Running Dog, 1978; (7) The Names, 1982 (Os Nomes, Relógio D’Água); (8) White Noise, 1985 (Ruído Branco, Presença); (9) Libra, 1988 (Libra, Presença); (10) Mao II, 1991 (Mao II, Relógio D’Água); (11) Underworld, 1997; (12) The Body Artist, 2001 (O Corpo enquanto Arte, Relógio D’Água) e (13) Cosmopolis, 2003 (Cosmópolis, Relógio D’Água).

O primeiro Grande a escrever sem rodeios sobre o Dia da Memória: 11/09/2001.
Sem mais palavras, o incompreensível fragor que emudeceu o mundo…

«It was not a street anymore but a world, a time and space of falling ash and near night. He was walking north through rubble and mud and there were people running past holding towels to their faces or jackets over their heads. They had handkerchiefs pressed to their mouths. They had shoes in their hands, a woman with a shoe in each hand, running past him. They ran and fell, some of them, confused and ungainly, with debris coming down around them, and there were people taking shelter under cars.

The roar was still in the air, the buckling rumble of the fall. This was the world now. Smoke and ash came rolling down streets and turning corners, busting around corners, seismic tides of smoke, with office paper flashing past, standard sheets with cutting edge, skimming, whipping past, otherworldly things in the morning pall.
»
Don DeLillo, The Falling Man (Scribner).

sábado, 5 de maio de 2007

Auto...

«O risco profissional a longo prazo de fazermos espectáculo de nós próprios consiste em, a dada altura, também comprarmos o bilhete.»

Uns são auto-indulgentes, outros auto-referenciais, outros ainda auto-iludidos e a nova estirpe, que brotou da terra como um géiser incontinente – que metáfora tão fraquinha, a roçar os limites do irrepreensivelmente deplorável (lá está!) –, os autodepreciadores.

Eu explico (soberba, aí vem a auto-referência). Terminada a leitura de Salammbô de Flaubert – mais tarde colocarei aqui a minha avaliação (auto-ilusão, ou seja, megalomania, com laivos de alguma histrionia…) –, pronto para regressar a mais umas linhas – poucas, talvez mais um artigo – do Caranguejo de Eco e para escolher o próximo livro que nos próximos tempos me acompanhará nas noites em que o buliçoso mulherio que comigo reparte o lar estiver, justa e convenientemente, a dormir a sono solto.
Segui o critério – sempre a postos para uma pequena derrogação – e percorri as lombadas do cemitério dos livros não lidos – dava um bom título! – peguei em DeLillo – não, o próprio, que, para além de não gostar de andar com desconhecidos ao colo, julgo eu deambula no momento pelos subúrbios de Nova Iorque – Cosmópolis, para finalmente poder imolar-me numa troca de mimos literários com o Rogério. No entanto, numa espécie de epifania arcangélica, uma lombada em tons de ciano, com letras impressas a negro encimadas pelo logótipo da Teorema, fez-me recuar e reflectir sobre o motivo daquela, em concreto, estar postada ao lado das lombadas dos “não lidos”.
Auto-expliquei-me: com o excepcional ano editorial de 2005 em Portugal, lembro-me que para não ter de rogar a um deus desconhecido que os dias tivessem 48 horas, deixei o último romance de Bret Easton Ellis, Lunar Park, no triste recanto do olvido este tempo todo, ofuscado por outros, porventura menores, não lhe havendo servido de nada a grossa lombada fosforescente que ampara as cerca de 420 páginas.
Bom, a triste conclusão: a tal epifania levou-me finalmente à sua desfloração (outra bela metáfora!)

Enfim, termino com o belo início autobiográfico do livro que não tem uma abertura. Ou melhor, até tem e para não recorrer a uma auto-referência sobre as frases de abertura, aqui fica:

«“Fazes uma esplêndida imitação de ti próprio.”
«Esta é a primeira linha de
Lunar Park e, na sua brevidade e simplicidade, deveria ser um regresso à forma, um eco, da linha de abertura do meu romance de estreia, Menos Que Zero.
«“As pessoas têm medo de se fundir nas auto-estradas de Los Angeles.”
«Desde então, as frases de abertura dos meus romances – por mais bem compostas que fossem – tinham-se tornado demasiado complexas e ornamentadas, carregadas de uma ênfase pesada e inútil nos pormenores.
» (pág. 9)

Ah, é verdade! A citação inicial pertence, segundo BEE – olha, o Abelha! – (epígrafe, pág. 7) ao romance de 1978 Panama do escritor norte-americano Thomas McGuane, considerado como o mais autobiográfico do autor... autor.

Referência bibliográfica:
Brest Easton Ellis, Lunar Park. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Outubro de 2005, 413 pp. (tradução de Maria Augusta Júdice; obra original: Lunar Park, 2005).

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Convalescença

Ponho o nariz fora de casa. Tento recuperar, socializando-me, os dias perdidos entre arrepios sísmicos e o terrível esforço para ler uma página de um livro que dure menos que o triplo do tempo habitualmente despendido – houve tempo, não pensei sequer em dinheiro, mas ia-me rareando a saúde.
D… DeLillo… Cheira a mofo! Serei eu? Edição da Editorial Presença de 1991… Eu: 18 ou 19 anos, caloiro… 1.ª Guerra do Golfo…

Obrigado!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Benjamin sobre A Noite do Oráculo

Através deste texto do Rogério Casanova – não o tal do Fórum Nacional, mas o autor de um dos melhores blogues de língua portuguesa – descobri algumas ligações de vídeo para o Charlie Rose Show distribuído pela PBS (Public Broadcasting Service).

Como é óbvio accionei, desde logo, a palavra-chave e obtive
estes 17 minutos de enfeitiçamento (início no minuto 35) retirados do referido programa, transmitido no dia 4 de Março de 2004:
Fala-se do ficcionado Sidney Orr, dos famosos cadernos portugueses, das histórias dentro da história, do doloroso processo de escrita e da angústia do escritor, da amizade incondicional com o mestre Don DeLillo e do pacto de não-agressão, de D. Quixote como A Obra de ficção, da troca de dedicatórias entre Benjamin (Leviathan) e DeLillo (Cosmopolis) e, finalmente, o amor… Nunca ouvi este tipo a falar sobre esse tipo de coisas tão... amor...!