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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pritzker 2012?


«por […] construir uma ponte entre o Oriente e o Ocidente.»

Agraciem-no antes com o Pritzker do próximo ano (o deste está tomado pelo nosso ESM), e ele próprio ainda não entende como ajudou a construir a ponte se nasceu e cresceu no Japão, fala japonês (o que é, desde logo, um feito notável), come comida japonesa (e que lhe faça bom proveito, por aqui é sinal pequeno-burguês de bom gosto: peixe cru por 200 euros) e faz todas as coisas que fazem os japoneses, mas (importante adversativa) gosta de Jazz e da literatura ocidental de Dostoievski a Stephen King (valha-me um qualquer Kami xintoísta, de Pessoa a Rebelo Pinto à escala lusa).
Sim, venceu em Março passado o Prémio Internacional da Catalunha, que conseguiu a proeza de meter no mesmo saco Harold Bloom e Stephen King por via referencial de Haruki Murakami. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PEN/Saul Bellow Award 2010

Merecido este prémio de carreira na ficção americana atribuído, na minha humilde opinião, ao melhor escritor da actualidade, Don DeLillo, curiosamente enquanto me vou deleitando com a leitura de As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March), numa excelente edição da Quetzal, escrito em 1953 pelo excelso autor que deu o nome à distinção.
DeLillo, de ascendência italiana, nasceu no distrito do Bronx, na sua Nova Iorque, a 20 de Novembro de 1936: Submundo (Underworld, 1997; ed. port. Sextante), Ruído Branco (White Noise, 1985; ed. port. Presença / Sextante), Os Nomes (The Names, 1982; ed. port. Relógio D’Água), Mao II (1991; ed. port. Relógio D’Água), Libra (1988; ed. port. Presença) ou Cosmópolis (Cosmopolis, 2003; ed. port. Relógio D’Água) já mereciam esta distinção (romances ordenados de acordo com a minha preferência, deixando três de fora que já tive a oportunidade de ler, mas que conjugam mal com os acima referidos, pelo menor brilho – por ler, remanescem seis de um total de 16 romances já publicados pelo autor galardoado, os cinco primeiros da sua carreira, a que se junta o de Cleo Birdwell, não entrando em linha de conta com Point Omega, o seu último, publicado este ano e a ser editado nos próximos meses em Portugal).
Três dos quatro melhores romancistas norte-americanos contemporâneos vivos, seguindo as palavras proferidas num artigo de opinião de 2003 pelo erudito de Harvard, Harold Bloom (Philip Roth em 2007, Cormac McCarthy em 2009 e agora Don DeLillo), já receberam o prémio, neste momento fica em falta a sua atribuição a Thomas Pynchon, para se fazer o pleno dos “4 Grandes”, com o patrocínio do pai Bellow, o melhor deles todos.
Parabéns de um admirador portuense.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Suttree

Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.
Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.

E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]

Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):

«Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.

Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):

  • O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
  • Outer Dark (1968);
  • Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
  • Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
  • Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
  • Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
  • The Crossing (1994);
  • Cities of the Plain (1998);
  • Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
  • A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).

Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).