terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Óscares 2010 – nomeações


Resumidamente, que por enquanto o tempo escasseia, eis a lista dos nomeados para a 82.ª edição de entrega dos Óscares da Academia de Hollywood, que decorrerá no próximo dia 7 de Março no Kodak Theatre, em Los Angeles (por ordem decrescente de nomeações):
9 nomeações
Avatar, de James Cameron
Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow (The Hurt Locker)
8 nomeações
Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino (Inglourious Basterds)
6 nomeações
Nas Nuvens, de Jason Reitman (Up in the Air)
Precious, de Lee Daniels (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)
5 nomeações
Up – Altamente!, de Pete Docter e Bob Peterson (Up)
4 nomeações
Distrito 9, de Neill Blomkamp (District 9)
Nove, de Rob Marshall (Nine)
Star Trek, de J.J. Abrams
3 nomeações
Crazy Heart, de Scott Cooper
A Jovem Vitória, de Jean-Marc Vallée (The Young Victoria)
Uma Outra Educação, Lone Scherfig (An Education)
A Princesa e o Sapo, de Ron Clements e John Musker (The Princess and the Frog)
2 nomeações
The Blind Side, de John Lee Hancock
O Fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson (Fantastic Mr. Fox)
Um Homem Sério, de Joel e Ethan Coen (A Serious Man)
Invictus, de Clint Eastwood
O Laço Branco, de Michael Haneke (Das Weisse Band)
The Last Station, de Michael Hoffman
The Messenger, de Oren Moverman
Parnassus – O Homem que Queria Enganar o Diabo, de Terry Gilliam (The Imaginarium of Doctor Parnassus)
Sherlock Holmes, de Guy Ritchie
1 nomeação
Coco avant Chanel, de Anne Fontaine
Coraline e a Porta Secreta, de Henry Selick (Coraline)
Estrela Cintilante, de Jane Campion (Bright Star)
Harry Potter e o Príncipe Misterioso, de David Yates (Harry Potter and the Half-Blood Prince)
Il Divo – A Vida Espectacular de Giulio Andreotti, de Paolo Sorrentino (Il Divo)
In the Loop, de Armando Iannucci
Julie e Julia, de Nora Ephron (Julie & Julia)
Paris 36, de Christophe Barratier (Faubourg 36)
The Secret of Kells, de Tomm Moore e Nora Twomey
A Single Man, de Tom Ford
Transformers: Retaliação, de Michael Bay (Transformers: Revenge of the Fallen)
Visto do Céu, de Peter Jackson (The Lovely Bones)


Melhor Filme Estrangeiro
  • Alemanha, O Laço Branco, de Michael Haneke (Das weisse Band // The White Ribbon);
  • Argentina, El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella (The Secret in Their Eyes);
  • França, Um Profeta, de Jacques Audiard (Un Prophète // A Prophet);
  • Israel, Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani;
  • Peru, La teta asustada, de Claudia Llosa (The Milk of Sorrow).
Desenvolvimentos para mais tarde.


Nota: para mais informações, consultar o sítio oficial dos Óscares ou a notícia em português.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Uma história de violência… perdão, de 65 milhões

[via Reflexão Portista; perfilados na imagem, com os cargos que ocupavam na altura, (04/Março/2002, na campanha eleitoral do PSD para as Legislativas de 17 de Março, no denominado “jantar-comício do desporto”) da esquerda para a direita, temos: Fernando Seara (presidente da Câmara de Sintra); Luís Filipe Vieira (director de futebol do Benfica e grande higienista paliteiro pós-repasto – uma adivinha: em que comício se apresentou o homem do palito nas Autárquicas de Outubro de 2009? E contra quem?) Pedro Santana Lopes (presidente da Câmara de Lisboa); António Rola (ex-árbitro, funcionário do Benfica, de pé); e Manuel Vilarinho (presidente do Benfica, que no calor da festividade se estatelou ao comprido ao tentar chutar uma bola – homem que nos habitou mal (porque agora resta o vazio) a uma regularidade de momentos de diversão, por exemplo, sete anos volvidos foi protagonista desta excelente intervenção em directo para a RTP, e ainda eram 9 da manhã…)]
Recomendação: Antes da leitura da notícia completa do JN, convém dar um pequeno destaque sobre um novo conceito, a “im(p)unidade vermelho-desportiva” (de facto, como diz o pobre cântico, ninguém os pára):

«A outra parcela dos 18 milhões resulta do compromisso da Câmara de pagar, através da EPUL, os ramais de ligações às infra-estruturas de subsolo para o estádio. Isto valeu ao Benfica oito milhões de euros, sendo que 80% das facturas que cobrou à EPUL respeitavam a serviços de consultoria: só 20% tinham a ver com os ramais. De resto, parte das facturas tinha data anterior ao contrato-programa (…)
Nenhuma irregularidade detectada nas facturas do Benfica foi valorizada, para efeitos de responsabilização criminal dos dirigentes do clube.»
in Jornal de Notícias, 28/Janeiro/2009.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Morreu o pai de “Holden Caulfield”


[Nova Iorque, 1 de Janeiro de 1919 – Cornish, NH, 27 de Janeiro de 2010]
Em vida deixou-nos dois romances (À Espera no Centeio/Uma Agulha no Palheiro – The Catcher in the Rye, 1951; Franny e ZooeyFranny and Zooey, 1961), uma colectânea de contos (Nove Contos – Nine Stories, 1953) e duas novelas, publicadas inicialmente em 1955 e 1959, respectivamente, na revista The New Yorker, condensadas mais tarde num só livro, (Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira e Seymour: Uma Introdução – Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour: An Introduction, 1963). Segundo se dizia, após a fuga definitiva às luzes da ribalta em 1953, nunca parou de escrever, tendo prometido que iria deixar os imensos manuscritos como legado para publicação póstuma – esperando que tenha abandonado a prodigiosamente enfadonha “família Glass”.
Um pequeno mimo do alter ego:
«Os actores com a sua simples presença convencem-me sempre, para meu horror, de que a maior parte do que até agora escrevi sobre eles é falso. É falso porque escrevo sobre eles com um amor inalterável (mesmo agora, ao escrevê-lo, também isto se torna falso), mas com variável talento, e este talento variável não retrata os actores reais de modo vivo e correcto, perdendo-se antes apagadamente neste amor que nunca se satisfará com tal talento e que por isso pensa que está a proteger os actores ao impedir este talento de se exprimir.
»É como se (para o descrevermos figurativamente) um autor se tivesse enganado ao escrever uma palavra e esse erro de escrita tomasse consciência de si mesmo. Talvez não fosse um erro, mas, num sentido muito mais elevado, uma parte essencial de todo o texto. É como se, então, este erro de escrita se revoltasse contra o autor, movido pela animosidade que lhe dedica, como se o proibisse de o corrigir e como se dissesse: “Não, não permito que me apagues, quero manter-me como um testemunho contra ti, de que não passas de um bem fraco escritor”.»
J.D. Salinger, “Seymour: Uma Introdução”, in Carpinteiros, Levantai… op. cit., p. 79
[Algés: Difel, Outubro de 2006, 168 pp; tradução de José Lima]

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Óscares – Melhor Filme Estrangeiro (Parte II)



Em cima do acontecimento, revelei aqui os nove filmes de língua estrangeira pré-seleccionados para integrarem a listagem final de cinco candidatos aos Óscares, a ser divulgada no próximo dia 2 de Fevereiro em Hollywood. Prometi mais considerações, mas antes disso relembro a lista, de certa forma mais arrumada em relação ao texto anterior.

Eis, então, os 9 Semifinalistas (por ordem alfabética do país de origem):
  • Alemanha, O Laço Branco, de Michael Haneke (Das weisse Band // The White Ribbon);
  • Argentina, El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella (The Secret in Their Eyes);
  • Austrália, Samson & Delilah, de Warwick Thornton;
  • Bulgária, Svetat e golyam i spasenie debne otvsyakade, de Stephan Komandarev (The World Is Big and Salvation Lurks around the Corner);
  • Cazaquistão, Kelin, de Ermek Tursunov;
  • França, Um Profeta, de Jacques Audiard (Un Prophète // A Prophet);
  • Holanda, Oorlogswinter, de Martin Koolhoven (Winter in Wartime);
  • Israel, Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani;
  • Peru, La teta asustada, de Claudia Llosa (The Milk of Sorrow). 
Algumas observações:
  1. A família Kennedy & afins aglutinados da lusa intelligentsia (Soares & Barroso), viu, não sei com que estado de espírito, o filme realizado por um dos seus rebentos ser preterido pela Academia. Para a 82.ª edição dos Óscares de Hollywood, o nosso venerado e certeiro ICA escolheu o pseudo-pós-modernista (que linda palavra composta) Um Amor de Perdição, realizado por Mário Barroso (nome que foi buscar o melhor aos dois mundos atávicos). Por lá chamaram-lhe Doomed Love, representante, entre outros 64, deste Doomed Country pelo espectro da mediania. Com ou sem assombração paralisante, o nosso país ficou de fora. Já é um clássico que convém alimentar anualmente – sinceramente, não sei se, por alguma vez – e se foi, quantas –, um filme do Mestre Oliveira foi nomeado para enfrentar a concorrência mundial.
  2. Destaco também alguma burrice espanhola nesta edição. Com efeito, quando todos esperavam a nomeação do extraordinário filme de Almodóvar – que deixou a crítica cinematográfica americana uma vez mais rendida à excelência do realizador manchego –, o filme designado para o concurso foi o último realizado pelo madrileno Fernando Trueba, El baile de la Victoria, que nos leva à eterna discussão – embora salutar porque ocupa tempo com inanidades poucos gastadoras de energia cerebral – entre Cinema e Literatura (e as cabras continuam a comer metros de celulóide…) O aclamado realizador de Bela Época (Belle Epoque, 1992; vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro em 1994) resolveu adaptar para o grande ecrã o miserável romance de 2003 do escritor chileno Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (El baile de la Victoria), que deve ter deixado a sua marca no autor, porque desde então não publicou obra alguma – entre nós, o livro foi editado pela Dom Quixote no início de 2007, com tradução de João Colaço Barreiros. Com tão fraca matéria-prima não há milagres, e Trueba não é Hitchcock (o autor da imagem das “cabras num manjar de celulóide”) que da mediocridade literária ou dramatúrgica fazia obras de arte inultrapassáveis.
  3. Uma vez mais, a Itália – o país recordista no número de estatuetas arrecadas nesta categoria, definitivamente instituída em 1956 – apostou num filme de Giuseppe Tornatore, que nunca, por incrível que possa parecer, foi sequer nomeado para qualquer categoria destes prémios da Academia de Hollywood – e basta recordar apenas três filmes: Cinema Paraíso, Estão todos bem ou A Lenda de 1900. Este ano, o filme candidato (já eliminado da competição) seria a grande produção autobiográfica Baaria.
  4. A 2.ª fase de selecção, que irá eleger os cinco filmes finalistas para a noite de 7 de Março, irá decorrer no fim-de-semana de 29 a 31 deste mês, com a projecção diária de três dos nove semifinalistas perante os não identificados olhos de elementos pertencentes a duas comissões de peritos cinematográficos: uma originária da terrinha, Los Angeles; e a outra constituída por mentes preclaras de Nova Iorque.
  5. Em antevisão, julgo que a competição irá resumir-se a Haneke e Audiard, fazendo fé nos críticos, e julgando pelos meus olhos, nada parciais, já que não vi os restantes sete. Se bem que haja uma Teta que pode revelar-se indiscreta e enfrentar a parelha…
  6. Finalmente, gostaria de me rui-santificar (neologismo que significa “autopromover”, “armar-se em bom ou convencer-se de que se é muito bom”, mas com a particularidade de existir uma falácia na sua origem que resulta da exposição mediática ad nauseam: consiste em transformar, por insistência, a podridão na mais fresca e angelical das inocências), referindo-me ao fabuloso título do filme em representação da Bulgária, por mim traduzido para o inglês (rui-santifiquei-me mas usei a versão sinónima de “espetar uma mentira com ar grave e sério”, desculpa ), retraduzindo-o para português “O mundo é grande e a Salvação espreita ao virar da esquina”, principalmente se houver uma Maria José Morgado em cada uma delas, ou até duas, a vender “O Menino da Lágrima”, a plastificar documentos e a fechar os olhos ao comércio de escutas-lacradas-on-demand para reprodução público-privada ou em pay-TV.
  7. Como depois de um advérbio de modo conclusivo, surge sempre uma vontade inusitada de dizer mais qualquer coisinha, resolvi prosseguir com mais um par de pontos. E para dizer neste de que gosto, especialmente, da Mama Assustada (título meu, lubricamente traduzido, apesar da tragédia que ela, a teta, simboliza no filme), 2.ª longa-metragem da jovem realizadora peruana Claudia Llosa (sobrinha de Mario Vargas Llosa). Surge como um sério candidato ao Óscar, depois de haver conquistado no Berlinale de 2009 o Urso de Ouro e o prémio do júri da FIPRESCI, capaz de esbotetear a primazia do duo referido no ponto 5.
  8. Toda a informação detalhada nos pontos anteriores foi retirada dos vídeos legendados inseridos na conta do nigeriano Hollypulha no YouTube (irmão do famoso jovem ugandês correspondente do Correio da Manhã), apesar de a sua transcrição estar disponível há muito. Mas como um bom néscio, iletrado, e sobretudo estúpido (coitado de mim) precisei, como acontece com as crianças que, ontogeneticamente, ainda se encontram nos dois primeiros estádios de desenvolvimento – o sensório-motor e o pré-operatório – definidos por Piaget, de umas imagens com bonecos e uma certa animação (do género canal Baby First) para entender o que outrora estava reduzido a caracteres e me inteirar do que já era conhecido há bastante tempo sob a forma de transcrição – podia enveredar pela segunda e única faceta disto tudo, ser um pulha e fingir que não conhecia as transcrições ilegais publicadas em todos os jornais há anos, para com uma admiração abichanada soltar um “aaah!” enquanto levava a mão histrionicamente à boca, que escandaleira… Vou já escrever um artigo no meu cantinho bem pago e dizer, de forma vaga, que estou ofendidíssimo com a justiça, alguns jornalistas e com crime em geral, avisando que a prática de determinados e seleccionados crimes faz mal às pessoas, e nós, como dizia o Nuno Gomes, somos humanos como as pessoas.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Óscares – Melhor Filme Estrangeiro (semifinalistas da 82.ª edição)

Foram ontem (dia 20) anunciados, pela Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, os nove dos sessenta e cinco filmes a concurso que passaram a integrar a lista de semifinalistas candidatos ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, de onde sairão, no próximo dia 2 de Fevereiro, os cinco nomeados para a sessão de entrega das estatuetas douradas, a realizar no Kodak Theatre no dia 7 de Março (8 de Março, à 1 da manhã, hora de Lisboa) [nota: por preguiça, fiz copy & paste da introdução do texto similar do ano passado].
Eis os 9 Semifinalistas (por ordem alfabética do país de origem):
  • Alemanha, “The White Ribbon”, de Michael Haneke;
  • Argentina, “El Secreto de Sus Ojos”, de Juan Jose Campanella;
  • Austrália, “Samson & Delilah”, de Warwick Thornton, director;
  • Bulgária, “The World Is Big and Salvation Lurks around the Corner”, de Stephan Komandarev;
  • Cazaquistão, “Kelin”, de Ermek Tursunov;
  • França, “Un Prophète”, de Jacques Audiard;
  • Holanda, “Winter in Wartime”, de Martin Koolhoven;
  • Israel, “Ajami”, de Scandar Copti and Yaron Shani;
  • Peru, “The Milk of Sorrow”, de Claudia Llosa.

Mais desenvolvimentos, irritações e pilhérias, assim como amanhar aquela lista de acordo com as estreias em Portugal e os seus títulos originais, ficam para amanhã. Agora vou dormir. Boa Noite.

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Para que conste (uma terapia)

Uma das formas que tenho vindo a aplicar para enfrentar a minha mente sobrepujada com assuntos de ordem vária que me perturbam, por outras palavras, um método para tentar reduzir ao mínimo os reveses, sentidos como tal, qualquer que seja a sua origem, consiste na sua exteriorização – inter alia, um desabafo em tom de grito de revolta audível em praça pública, uns murros num saco de boxe, umas buzinadelas auxiliadas por gestos fálicos e impropérios enquanto embarrilado no trânsito infernal desta cidade – através, não de uma escrita rebarbativa no blogue, mas de textos que se reduzam a uma simbologia aglutinadora das falsidades e iniquidades que pululam à frente dos meus olhos e que, cada vez que digito o seu endereço, consiga apaziguar a minha sentida frustração de, pela minha insignificância, não poder desencadear uma guerra de paus e pedras contra esses viciosos do poder (político, jurídico e mediático).
Por tudo o que atrás expus, e para não falar com toda a carga da violência que em mim se vem armazenando sobre um dos assuntos que me apoquenta de momento, figurará na coluna do lado direito deste blogue um singelo contador, devidamente emoldurado, como válvula de escape. Sem adjectivos para certificar a qualidade de: A Bola, o Record, o Correio da Manhã, o Rui Santos, os moderadores e comentadores desportivos da SIC, e muito menos a turba de opinadores escolhida a dedo, cujo ódio visceral ao meu clube é o principal propulsor para os seus panfletos viscosos (pronto, adjectivei), onde pontificam o Daniel Oliveira e os bobos do regime (2.ª adjectivação, paro por aqui, prometo) Quintela e Góis (que há muito deveriam ter levado com processos-crime por injúrias, calúnias e difamação ao meu clube), e até por insultos (não gratuitos, pagos e bem pagos com o dinheiro do Bava e da Golden Share) às inteligência e paciência de todos nós portugueses, por nos entrarem pela casa dentro, sem pedir licença, a proferir barbaridades como “o pinheiro manso de Natal” (é bravo, porra!) e o Rei Mago “Belchior” (é Melchior, ó ignaros!).
Bom, e agora, somando às irritações janeireiras a candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República (nunca o espectro da emigração sem retorno andou tão perto por estas bandas), terei de encontrar outro lenitivo em Java. Mais tarde, se por cá andar, explicarei as minhas razões para tamanha repugnância pelo personagem, que, à laia de um Gil Vicente, encarna bem num estereótipo que uma vez tive de enfrentar com todas as forças pelo grau de ambiguidade posicional – chamar-lhe-ia, pela imagética e não só, “Colosso de Rodes”.
Fim.

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Globos de Ouro 2009 – Vencedores [corrigido]

Numa sessão enfadonha apresentada pelo auto-cómico Rick Gervais – desde que semi-emigrou tornou-se insuportável – há sempre momentos apelativos. Em abono da verdade, referindo apenas os mais significativos, os pontos altos da noite costumam residir nas tortuosas gincanas, entre mesas atafulhadas de álcool e de correntes de miasmas de hálito fétido de ressentimento dos que ficaram sentados, que os intervenientes premiados têm de percorrer para subir ao palco e agradecer… ao dinheiro (engloba todo espectro daquilo que ele move, incluída a auto-promoção) e aos animais de estimação.
Pois, terminou há pouco no Beverly Hilton em Hollywood a 67.ª edição dos Globos de Ouro, atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA). Eis os vencedores na subdivisão “Cinema”:
- O Laço Branco (Das Weisse Band; Alemanha), de Michael Haneke
Melhor Filme (Língua Estrangeira)
- Avatar, de James Cameron (2 G.O.)
Filme (Drama)
Realizador – James Cameron
- Crazy Heart, de Scott Cooper (2 G.O.)
Actor (Drama) – Jeff Bridges
Canção Original
- Up – Altamente! (Up), de Pete Docter e Bob Peterson (2 G.O.)
Banda Sonora Original – Michael Giacchino
Filme (Animação)
- The Blind Side, de John Lee Hancock (1 G.O.)
Actriz (Drama) – Sandra Bullock
- Julie e Julia (Julie & Julia), de Nora Ephron (1 G.O.)
Actriz (Comédia ou Musical) – Meryl Streep
- Nas Nuvens (Up in the Air), de Jason Reitman (1 G.O.)
Argumento – Jason Reitman e Sheldon Turner
- Precious (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire), de Lee Daniels (1 G.O.)
Actriz Secundária – Mo'nique
- A Ressaca (The Hangover), de Todd Phillips (1 G.O.)
Filme (Comédia ou Drama)
- Sacanas Sem Lei (Inglourious Basterds), de Quentin Tarantino (1 G.O.)
Actor Secundário – Christoph Waltz
- Sherlock Holmes, de Guy Ritchie (1 G.O.)
Actor (Comédia ou Musical) – Robert Downey Jr.

Até aos Óscares (nomeações a 2 de Fevereiro; cerimónia de entrega a 7 de Março).

sábado, 16 de Janeiro de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas


Pode parecer que, em tempos recentes, este blogue se acomodou na crista de uma vaga, aparentemente libertadora, de pedoterapia regressiva – um imergir curativo na massa obscura e decerto informe da minha mente, onde se preservam as cicatrizes da pressão de forças contrárias que moldaram o meu ego. Porém, a frase que ilumina o título não é nova – ó luz do mundo (recomenda-se o lenitivo óleo sobre tela de Holman Hunt). Uma só (e breve) ablução involuntária no rio sagrado da doutrina cristã na tenra idade, ministrada por um afanoso proselitista, confere ao púbere prosélito uma certeza da sua prolação há, pelo menos, 1977 anos. Assim nos transformam em objectos de fé que almejam alcançar o estatuto de pobres santos das agruras do mundo, todavia alegres na nossa vivência. Mas como dizia Michaux, num dos seus opúsculos místicos dedicados à repressão do eu, mesmo os santos alegres por vezes não conseguem escapar às violências.
Retornemos à frase. Um título. Ela acha-se lá no primeiro de Gutenberg, na repartição dos sinópticos – exceptua-se, por isso, o apocalíptico. E dá-me imenso jeito para esboçar uma tentativa de gracejo pela ambiguidade semântica e apertar O Laço Branco. A pureza que advém da Palavra. Só que Haneke subverteu a palavra, embora filmando como Dreyer, inóspito, austero e perfeccionista, optou pela desesperança e a indelével crueldade da Reforma, ao sobrelevar a mácula sem redenção, nem por força de uma directa intervenção divina – o deus ex machina dreyeriano de Ordet.
Uma parábola negra? Era uma vez um austríaco, nascido numa aldeia dos arrabaldes de Linz que se tornou alemão…
Es war einmal um alemão de Munique de nascimento (onde tudo começou, porventura nascido bem perto da Bürgerbräukeller ou da Löwenbräukeller) que se tornou austríaco e assim cresceu na aldeia de Wiener Neustadt…
Uma aldeia-tipo, situada no norte da Alemanha, incubadora da malignidade: Eichwald. A acção decorre em pleno advento das atrocidades do século alemão (1913-1914). Elíptico, tal como as secura e indiferença daquela assembleia imperturbável ante a sordícia de um passado recente bárbaro e criminoso (ver imagem), contrastando com a perturbadora surdez, sob o negro que se dissemina aos olhos atónitos do espectador, no fade out final – o habitual apelo exegético de Haneke.
Em suma, permite-se até ao mais pueril dos exegetas uma interpretação reducionista em apenas uma frase: «A liberalização do onanismo teria evitado o holocausto.»
Notas:
  1. Não tendo visto dois dos cinco filmes candidatos ao Globo de Ouro de “Melhor Filme em Língua Estrangeira” – acho inacreditável que o (segundo dizem) monumental Baaria de Tornatore não tenha ainda data marcada para a sua estreia em cinema no nosso país –, prevejo, ainda assim, pelo que pude ver dos três que restam, uma votação cerrada que ditará o seu vencedor no próximo domingo. Embora conceda uma preferência milimétrica a Um Profeta (Un Prophète) de Audiard, não posso afastar o maravilhoso e inesquecível drama enredado de Almodóvar e este Haneke (Palma de Ouro em Cannes em 2009) – todos tão diferentes entre si, nos planos técnico, ético e estético, o que dificulta a tarefa do prognóstico.
  2. É de recordar o subtítulo original de O Laço Branco: «Eine Deutsche Kindergeschichte» escrito, numa lentidão estudada, a vermelho sangue no genérico inicial num cursivo indecifrável («Uma história alemã para crianças».)

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Pensar nos interstícios

Jardelizar um texto. Ele prossegue. Este fragmento humano que, por vezes, escreve neste espaço, com intervalos entre textos cada vez maiores – os intervalos, claro está –, não assinalou os 50 anos da morte do estimadíssimo argelino do Combat – denegrido pela esquerda vesga, vulgo sartriana, que após a morte lhe dedicou uma elegia pungente de falsa admiração – e, para agravo do eu (ou ele? o dele) já macerado, deixou passar em claro o desaparecimento físico, imortalizado na tela, de Sax von Stroheim, mas que por inversão nome/apelido dos estetas apreciados preferiu ser conhecido por Éric Rohmer (1920-2010); Maurício Henrique deixou moral e finalmente a casa de Maud – e quantas Claires, em doces movimentos rotulares, existirão no éter para amimar o Mestre? (na imagem, le genou) – para se encontrar com o grande Francisco, que abalou cedo nos idos de 1984, onde ainda deixou o João-Lucas, o Cláudio e o Tiago (ou Jaime, para quem preferir esta parte da raiz bifurcada), na casa dos oitenta a transpirar beleza por todos os poros. Desistam da reputada beleza nabokoviana da parelha Astrea & Celadon, com os seus toques mamilares subtis, do corpo enquanto arte – até ver, encaixa-se no que vem a seguir.
E vou tendo notícias sobre os que ainda me alegram a vida pela arte que vão lançando a cada nova etapa de suas vidas. Há um Point Omega de um pós-modernista muito odiado pelo reaccionário de Harvard, aquele sebento emproado que escreve panfletos na New Yorker, e cuja carneirada se agarra para calibrar os seus gostos literários – ó pobreza de espírito. De alfa a ómega… a idiotia no seu estado mais puro dos literatos de pacotilha.
E aquela abertura que há pouco passou pelos meus olhos num inglês burilado por fluxos que emergem das profundezas do subconsciente, dava um filme do mago Jarmusch… mas não deu já? Axioma: Sem limites, não há controlo; rédea solta a uma realidade arbitrária e subjectiva, não artificial mas imaginária, cujos reflexos são mais vívidos que os objectos reflectidos.
Vejamos:
«A vida real não é redutível às palavras faladas e escritas, por ninguém, nunca. A vida real desenrola-se quando estamos sós, a pensar, a sentir, perdidos na memória, sonhadoramente autoconscientes, os momentos submicroscópicos. Ele disse isto por mais do que uma vez, Elster fê-lo, de diferentes formas. A sua vida surgiu, disse ele, quando se sentou a fitar uma parede em branco, reflectindo sobre o jantar.
»Uma biografia de oitocentas páginas não é nada mais que uma conjectura sem vida, disse ele.
»Eu quase acreditava nele sempre que ele proferia este tipo de coisas. Ele dizia que nós fazemos isto o tempo todo, todos nós, começamos a ser nós próprios sob a força de pensamentos correntes e imagens difusas, indagando indolentemente sobre quando iremos morrer. Esta é a forma como vivemos e pensamos, quer a reconheçamos ou não. Estes são os pensamentos desordenados que nos sobrevêm quando olhamos através da janela do comboio, as pequenas e enfadonhas manchas de pânico meditativo.»
Don DeLillo, Point Omega [Scribner, February 2010, 128 pp.; tradução livre: AMC].
E vejo, por aqueles olhos orientais transversais (cuja perfeita perpendicularidade vulvar – ah, o eu concupiscente e ominoso – não se olvida da bela compatriota, ficara gravada no limiar do consciente que se enraíza na fantasia, materializada em cena babélica-stoniana) que se cruzam num faiscar diáfano com a fleuma assassina de Bankolé, os moinhos de vento tecnológicos nas planícies inóspitas da Andaluzia enquadradas por uma janela do comboio de alta velocidade: «Aqueles que julgáramos connosco, não estão entre nós.»

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Mann


Escuso-me de, aqui e agora, falar sobre o efeito que as obras do realizador norte-americano, nascido em Chicago em 1943, produzem em mim, um misto de admiração vertiginosa e de regalo cinéfilo pela forma como Michael Mann modela os cenários, em que câmara e actores parecem pertencer a um corpus uno, indiviso, criando no espectador uma sensação de movimento perpétuo de imagens cuja origem sugere um passe de magia, inescrutável e sem interesse na sua indagação porquanto estragaria o feitiço que nos fixou ao ecrã.
Escuso-me de falar da sua filmografia, dos encantos e das frustrações, da decepção com o mais recente Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009).
Gostaria apenas de aqui deixar a confissão de um vício e a última consequência na reiteração desse vício: sempre que qualquer canal televisivo nacional transmite um filme cujo assombro ultrapassou a fronteira por mim delineada entre o bom e a obra-prima, por mais vezes que o tenha visto, mesmo que aquele seja parte integrante da minha vasta filmoteca, que está à mão de semear, não consigo deixar de assistir à transmissão da obra até ao fim, aturando os infindáveis intervalos e prejudicando as horas de sono que tanta falta me farão no dia seguinte quando, libertado das amarras etéreas da arte, regresso ao mundo para produzir e retirar os proventos que me permitem pagá-las.
Foi assim na última quarta-feira à noite. A TVI – estação televisiva pródiga nos espaços publicitários desmedidos – transmitia O Informador (The Insider, 1999). Enfiado na cama, de auscultadores sem fios amarrados à cabeça – ao lado havia quem protestasse: outra vez!? Deixa-me dormir… –, não perdi nenhum dos cerca de 150 minutos desse filme-portento, bastante subavaliado perante a restante filmografia do realizador. Tudo nele é perfeito: a fotografia de Dante Spinotti, o minucioso argumento urdido pelo próprio Mann e Eric Roth, a música divina sobretudo da minha mui estimada Lisa Gerrard e de Pieter Bourke – impossível ficar indiferente perante “Sacrifice” –, as célebres guitarradas de Santaolalla em “Iguazu”, as orquestrações de Revell, as sublimes interpretações de Russell Crowe, Plummer e Pacino – no caso deste, talvez seja a sua última grande interpretação até aos dias que correm –, e a mão, que tudo uniu, de Mann.
Vi o filme talvez pela 14.ª ou 15.ª vez. Continuo a descobrir pormenores que conseguem fazer o que até ao momento me parecia sempre impossível: engrandecê-lo. O fotograma representado em cima é um entre vários pontos de zénite cinematográfico: o quadro familiar que se esfumou pela dissensão, a opção pelo dever altruísta de denúncia da prática de um crime sobre a comunidade e o zelo, egoísta, dos interesses exclusivamente familiares – Crowe ficou só, emoldurado pelo negrume da noite, onde um segurança privado vela no jardim pela sua integridade física, mas que jamais conseguirá salvaguardar a liberdade perdida por uma família destroçada. Wigand (Crowe) está só naquele quadro de desolação, onde uns fotogramas antes estivera acompanhado por Liane (Diane Venora), que fugiu e o afastou das suas filhas para sempre.
Será porventura um cliché, uma dúvida que emerge em milhares de lares no momento em que os caminhos se bifurcam, mas apetece-me dizer: felizes aqueles que passam por este mundo isentos de opções dilacerantes, mas, por muito paradoxal que isso possa afigurar-se a esses que vivem evitando o risco, perante a tranquilidade de espírito que advém da luta contra tudo o resto que emerge como confortável, escolhi a infelicidade.

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

O “Zé do Boné”: 25 Anos



Era ainda muito novo… mas, até ao último fôlego do meu ser, ninguém me poderá roubar a imagem do fim do jejum de 19 anos e da alegria esfusiante de milhares de portistas nas ruas da cidade terminado o desafio da última jornada com o Braga (4-0), que culminou, na época seguinte, com o inesquecível jogo com o Barreirense (4-1), numa tarde tórrida de um domingo de fim de Primavera no desaparecido Estádio da Antas, onde, com apenas 6 anos, assisti da arquibancada, na companhia da minha família (pais, avós, tios e primos direitos) e de diversos casais amigos de meus pais, à conquista do bicampeonato: 1977/78 e 1978/79 (que, segundo rezam as crónicas, um tal de Manaca não deixou que fosse “tri”).
Na alegria e na tristeza… com apenas 12 anos, numa tarde fria e cinzenta de Janeiro, postei-me no passeio da praça Teixeira de Pascoaes e assisti ao cortejo fúnebre que partiu da Igreja de Santo António das Antas (local onde fui baptizado, junto ao antigo Estádio) e que por mim passou, num silêncio carregado produzido por dezenas de milhares de pessoas cuja atmosfera jamais esquecerei. Uma torrente de pesar provinda da rua de S. Crispim descia a Carlos Malheiro Dias, encetando a subida pela Constituição até ao Marquês, e que se dirigia ao cemitério de Agramonte na Boavista (a cerca de 5 quilómetros do ponto de partida). Já o carro que transportava o eterno “Zé do Boné” desaparecia no horizonte sob os plátanos do Marquês e a multidão que o seguia a pé parecia inextinguível, ainda não havia cessado em S. Crispim. Uma massa compacta de cabeças parecia formar um rio pardacento que, de forma lúgubre, inundara a Constituição. Uma imagem angustiante pela causa que a motivou, porém memorável pela homenagem sentida que milhares de pessoas vindas de todo o país quiseram prestar ao “Mestre” prematuramente desaparecido: o tal que, em democracia, mudou para sempre o rumo do futebol português e a dimensão do meu clube do coração, o Futebol Clube do Porto.

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Literatura: Os Melhores Livros de 2009



Um balanço (Ano IV)
Mais um fim de ano e pela quarta vez consecutiva chegou a altura de, neste blogue, fazer um pequeno balanço sobre as minhas predilecções literárias baseando-me nos livros que tive a oportunidade de ler e que foram editados durante o ano que agora termina.
Foi assim que começou a minha actividade na blogosfera: uma espécie de partilha sobre as sensações, mais ou menos agradáveis, decorrentes da leitura de determinado livro. Na altura defini como critério – discutível, pois claro, como deveriam ser todos os outros que nos são impostos, fazendo apelo à minha veia libertária – escrever sobre livros publicados em Portugal durante o ano corrente. Poupava-me tempo e esforço, e era o suficiente para obter as minhas doses de escapismo de periodicidade curta: divagar e colocar no ciberespaço os meus devaneios sobre livros, literatura, autores e críticos. Porém, desde muito cedo, apercebi-me de que discorrer sobre os méritos e as fraquezas de um livro não era terreno fácil. Não falo, é evidente, das fortes condicionantes endógenas de natureza técnico-científica que fatalmente me poderiam afectar no campo da teoria da literatura. Sou, nunca o escondi, um homem das finanças empresariais, que divergiu, no campo estritamente académico, das letras no ensino complementar do secundário, numa altura em que a literatura era para mim o Eça dos Maias, o Garrett de As Viagens…, ou os Lusíadas – mortinhos por chegar ao canto IX. Falo, isso sim, sem atavios ou eufemismos, daqueles que procuram nos outros a base de todas as suas frustrações, ou porque querem escrever e não podem, ou porque escrevem e não conseguem. Aprendi que elaborar um texto sobre um livro era uma arma de arremesso aos hermeneutas da palavra escrita, aos recenseadores do regime, aos letrados que gostam dos numerus clausus no mister opinativo. Ou então, acusado sem defesa, um trampolim para o conforto, ou tentativa vã e ignara de me pôr em bicos de pés para arranjar uma mesada numa revista, jornal ou suplemento da especialidade – esses falavam de uma forma criptodiletante de Dante Gabriel Rossetti, de De Quincey, do Dr. Johnson ou até de Saussure como se fossem parceiros de uma jogatina do mais alto calibre literário, mas que na realidade desconheciam o que ia mais além dos chavões de circunstância. A vontade foi-se esfumando, diminuía a cada retorno. Até que acabou, por fim.
Regressando ao que aqui me trouxe e como mero exercício de recordação, eis os meus livros de ficção preferidos (regra 1 por ano) desde que iniciei a minha actividade na blogosfera:
  • 2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis, Gradiva (Never Let Me Go, 2005);
  • 2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação, Assírio & Alvim (Priglasheniye na kazn, 1936);
  • 2007 – (2 obras ex aequo) Colm Tóibín, O Mestre, Dom Quixote (The Master, 2004) + Jonathan Littell, As Benevolentes, Dom Quixote (Les Bienveillantes, 2006);
  • 2008 – Robert Musil, O homem sem qualidades, vols. I e II, Dom Quixote (Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942).
Durante o corrente ano mencionei, entre romances, novelas, contos, ensaios, memórias, biografias ou relatos dialógicos, um total de 47 livros editados (ou reeditados) em Portugal em 2009 – excepto num caso, não houve qualquer texto que se aproximasse sequer de uma análise crítica. Assim, quando anteriormente do lado direito do blogue figurava uma listagem de livros devidamente classificados, com a respectiva hiperligação ao texto, hoje surge apenas uma listagem, hierarquizada, é verdade, mas despida de qualquer texto de suporte. Só me resta hierarquizar ainda mais aqueles que mais me disseram no exercício do meu prazer (não carnal) preferido: ler.
Com efeito, durante o ano de 2009 distribuí os 47 livros publicados nesse ano por 6 categorias (“5+1” como prefiro chamar, já que a classificação máxima é atribuída a título excepcional): 3 obras-primas (6 estrelas); 15 livros com “Muito Bom” (5 estrelas); 11 com “Bom” (4); 9 com a designação “A Ler” (3); 7 com “Medíocre” (2); e 2 com “Mau” (1).
Pela primeira vez farei a distinção entre as categorias de “Ficção” e de “Não-Ficção”.
Mas antes de prosseguir, deixo aqui ficar uma breve homenagem ao “colosso” como se lhe referiu há uns meses Philip Roth –, que partiu nos idos de Janeiro deste ano, com as próprias palavras desse “colosso” sem Nobel, e que definem toda a sua brilhante literatura de ficção (sem tradução por motivos de não profanação das palavras):

«I’ve led in some ways a sheltered life. I’ve not been wounded in Italy like Hemingway and I’ve never fought marlin at see. I’m a product of the nearly forty years of Cold War. So naturally I’ve written about domestic, rather peaceable matters, while trying always to elicit the violence and tension that does exist beneath the surface of even the most peaceful-seeming life. That is, I think I see human life as basically difficult and paradoxical. Just being a thinking animal puts us into a paradoxical and somewhat painful situation: we are a death-foreseeing animal and an animal of mental appetite; we have a Faustian side, always wanting more or something else.»
James Plath (editor), Conversations with John Updike. Jackson, MS: University Press of Mississippi, May, 1994, 308 pp. (citação: p. 192)

Dez Melhores Livros de Ficção de 2009 (por ordem de preferência):
  1. John Updike, Coelho em Paz , Civilização (Rabbit at Rest, 1990);
  2. Thomas Mann, A Montanha Mágica, Dom Quixote (Der Zauberberg, 1924);
  3. Cormac McCarthy, Suttree, Relógio D’Água (1979);
  4. Paul Auster, Invisível, Asa (Invisible, 2009);
  5. David Lodge, A Vida em Surdina, Asa (Deaf Sentence, 2008);
  6. Daphne du Maurier, O Outro Eu, Relógio D’Água (The Scapegoat, 1957);
  7. Ernesto Sabato, O Túnel, Relógio D’Água (El túnel, 1948);
  8. Sebastian Barry, Escritos Secretos, Bertrand (The Secret Scripture , 2008);
  9. John Fante, Pergunta ao Pó, Ahab (Ask the Dust, 1939);
  10. Atiq Rahimi, Pedra-de-Paciência, Teorema (Syngué sabour. Pierre de patience, 2008).
Menções Honrosas
  • Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe, Cotovia (2009);
  • Kazuo Ishiguro, Nocturnos, Gradiva (Nocturnes, 2009).
Cinco Melhores Livros de Não-Ficção de 2009 (por ordem de preferência):
  1. Ian Kershaw, Hitler: Uma Biografia, Dom Quixote (Hitler, 2008);
  2. Umberto Eco & Jean-Claude Carrière, A Obsessão do Fogo, Difel (N’espérez pas vous débarrasser des livres, 2009);
  3. Thomas Bernhard, Os Meus Prémios, Quetzal (Meine Preise, 2009);
  4. Slavoj Zizek, Violência – Seis Notas à Margem, Relógio D’Água (Violence: Six Sideways Reflections, 2008);
  5. Jean Daniel, Com Camus – Como aprender a resistir, Temas e Debates (Avec Camus : Comment résister à l’air du temps, 2006).
Menção Honrosa
  • David Lodge, A Consciência e o Romance, Asa (Consciousness and the Novel, 2003).

Um bom ano de 2010.

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Cinema: Os Melhores de 2009, e as necessárias irritações


De acordo com o compromisso aqui estabelecido no passado dia 18, e não querendo defraudar os milhares (talvez, centenas) de leitores que aqui se ligam diariamente, hoje é o dia da ostentação dos dez filmes que estrearam durante o ano de 2009 em salas de cinema portuguesas e que mais contribuíram para manter ou aumentar a minha doentia cinefilia.
Não considerando os três filmes que estrearão amanhã – estes serão incluídos na minha grelha apreciativa de 2010, dada a impossibilidade (séria) de os qualificar sem os ter visto –, foram exibidos 275 filmes inéditos em salas de cinema portuguesas durante o ano de 2009. Desse total tive o privilégio de poder assistir a 75 (cerca de 27,3% dos filmes estreados, e mais 6 que o total do ano passado).
Etapas seguidas para a conquista da lista dos “10+” de 2009:
1.ª etapa) Seria certamente menos longa e difícil, não fora a minha preguiça, se a cada deslocação ao cinema correspondesse uma entrada em folha de cálculo do(s) filme(s) no dia em que os vi; criaria, assim, uma relação de actualização permanente (tal como faço com os livros que li e que foram editados durante o ano em causa). Assim, num marasmo de títulos, cuja maioria nada me dizia, tive de identificar os que vi na realidade. E se de alguns é difícil esquecer-me, pela qualidade extraordinária ou, ao invés, pelo carácter horripilante que deixa marcas profundas, quase insanáveis, na psique de um cinéfilo, há outros cujo grau de originalidade é tão baixo que apenas deixam uma sensação difusa de os ter visto – e para o rigor da coisa, exige-se uma investigação às sinopses, ao elenco e restante equipa técnica. Resultado final: vi 75 em 275 filmes possíveis.
2.ª etapa) Entre os 75 filmes limitei-me a assinalar os que me tinham impressionado quer positiva, quer negativamente, deixando de fora aqueles que considerei como “indiferentes”, isto é, os que não me deixaram gravada uma sensação nem de encanto, nem de irritação (ou fúria cinéfila). Resultado: considerei 47 dos 75 filmes como “não indiferentes”, para o melhor (23 filmes) ou para o pior (24 filmes).
3.ª etapa) Para estatística pessoal, dividi os 47 filmes atrás referidos segundo o critério “origem da produção”, havendo criado duas subclasses: (1) “filmes produzidos nos Estados Unidos” – 35 filmes; (2) “filmes produzidos fora dos Estados Unidos” – 12 filmes.
4.ª etapa) Em simultâneo com a etapa anterior, verifiquei que entre aqueles que considerei como “bons” ou “muitos bons” (23, número apurado na 2.ª etapa), 16 foram produzidos nos EUA e 7 fora dos EUA – deixando de lado a origem da produção dos 28 filmes que considerei como “indiferentes” (que nunca apurei), 45,7% (16/35) dos filmes americanos seleccionados mereceram nota positiva, face a 58,3% (7/12) dos filmes não-americanos.
5.ª etapa) Os 23 filmes escolhidos como os melhores, passaram por duas triagens sucessivas. Na 1.ª triagem passaram 17 dos 23 filmes com hipóteses de integrar a listagem final de os “10+”, 12 americanos e 5 não-americanos. Os dez filmes seleccionados na 2.ª triagem deram origem a uma listagem de repartição desigual (em termos absolutos), atendendo ao critério geográfico da produção: 8 filmes americanos e 2 filmes não-americanos.
Sem mais delongas e verborreia estatística, eis:
Os Dez Melhores Filmes de 2009 (por ordem de preferência):
  1. Gran Torino, de Clint Eastwood (Gran Torino, 2008);
  2. Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino (Inglourious Basterds, 2009);
  3. Os Limites do Controlo, de Jim Jarmusch (The Limits of Control, 2009);
  4. Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar (Los abrazos Rotos, 2009);
  5. O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher (The Curious Case of Benjamin Button, 2008);
  6. Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow (The Hurt Locker, 2008);
  7. Deixa-me Entrar, de Tomas Alfredson (Låt den rätte komma in, 2008);
  8. Duplo Amor, de James Gray (Two Lovers, 2008);
  9. O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme (Rachel Getting Married, 2008);
  10. Histórias de Caçadeira, de Jeff Nichols (Shotgun Stories, 2007). 
Menções Honrosas
Gostaria de destacar os 7 filmes que foram rejeitados no apertado crivo da 2.ª triagem da 5.ª etapa, que poderiam, numa alteração (bem provável) de humor, integrar a listagem acima referida dos “10+” de 2009, mexendo sobretudo com as últimas posições. Ei-los, organizados por ordem alfabética do título em português:
  • Andando, de Hirokazu Koreeda (Aruitemo aruitemo, 2008);
  • Frost/Nixon, de Ron Howard (2008);
  • Milk, de Gus Van Sant (2008);
  • A Nova Vida do Senhor O’ Horten, de Bent Hamer (O’ Horten, 2007);
  • Sinédoque, Nova Iorque, de Charlie Kaufman (Synecdoche, New York; 2008);
  • Tetro, de Francis Ford Coppola (2009);
  • Vingança, de Götz Spielmann (Revanche, 2008).

Muitos filmes ficaram por ver (segundo a estatística acima referida, cerca de 200), a maioria deles por falta de tempo e do dom da ubiquidade, e muitos deles por não terem chegado às salas de cinema da Invicta. Entre os não vistos, alguns poderiam haver influenciado a lista final, de acordo com a crítica e com a análise de pessoas cuja opinião reputo de cinefilamente válida. Por isso destaco, por ordem alfabética do título em português, 10 filmes que não vi e que possivelmente poderiam alterar a lista final dos “10+”:
  • Afterschool – Depois das Aulas, de Antonio Santos (Afterschool, 2008);
  • Almoço de 15 de Agosto, de Gianni Di Gregorio (Pranzo di Ferragosto, 2008);
  • Desgraça, de Steve Jacobs (Disgrace, 2008);
  • Distrito 9, de Neill Blomkamp (District 9, 2009);
  • Histórias de Cabaret, de Abel Ferrara (Go Go Tales , 2007);
  • Júlia – Uma Vida de Sombras, de Erick Zonca (Julia, 2008);
  • A Mulher sem Cabeça, de Lucrecia Martel (La mujer sin cabeza, 2008);
  • Ne change rien, de Pedro Costa (2009);
  • As Praias de Agnès, de Agnès Varda (Les plages d’Agnès, 2008);
  • Tempos de Verão, de Olivier Assayas (L’heure d’été, 2008).
Por último, os últimos. Os muito maus entre os piores. Seleccionei um conjunto de entre os 24 filmes que considerei manifestamente medíocres (19 americanos / 5 não-americanos). Um conjunto de filmes que é conjuntamente uma verdadeira dor de alma pela constatada pobreza de espírito dos ufanos produtores (o primeiro da lista, ou seja, o pior, até deu em 8 Óscares, 7 BAFTAs e 4 Globos de Ouro da HFPA), um atentado ao nervo óptico (ao par) e uma incontrolável irritação pelo tempo e dinheiro despendidos a pedir um punching bag para descarga. Ei-los, organizados do pior ao menos mau:
  1. Quem Quer Ser Bilionário?, de Danny Boyle (Slumdog Millionaire, 2008);
  2. Bobby Z, de John Herzfeld (The Death and Life of Bobby Z, 2007);
  3. A Verdade e o Medo, de Peter Hyams (Beyond a Reasonable Doubt, 2009);
  4. Sem Medo de Morrer, de Vadim Perelman (The Life Before Her Eyes, 2007);
  5. Ágora, de Alejandro Amenábar (Agora, 2009);
  6. Os Irmãos Bloom, de Rian Johnson (The Brothers Bloom, 2009);
  7. Os Informadores, de Gregor Jordan (The Informers, 2008);
  8. S1nais do Futuro, de Alex Proyas (Knowing, 2009);
  9. RocknRolla – A Quadrilha, de Guy Ritchie (RocknRolla, 2008);
  10. Elegia, de Isabel Coixet (Elegy, 2008).
Não poderia terminar sem o recentemente instituído prémio “Limão Soderbergh”, bem ao estilo dos Razzies da Golden Raspberry Award Foundation, especialmente criado, neste caso, para premiar o realizador norte-americano, natural da Geórgia, o emproado armado em intelectual e camaleão cientista da coisa cinematográfica, Steven Soderbergh, que num só ano (o de 2009, claro) conseguiu introduzir 3 dos seus filmes entre os piores exibidos em Portugal:
  • O Argentino (Che: Part One, 2008);
  • Guerrilha (Che: Part Two, 2008);
  • O Delator! (The Informant!, 2009).
Fossem mais os filmes estreados (com esta qualidade) de realizadores como Rod Lurie (A Verdade…), Paul Schrader (Adam…), Ed Harris (Appaloosa), Larry Charles (Bruno), Stephen Frears (Chèri), Richard Eyre (O Outro…) ou Shane Meadows (Isto é…), e o limão iria temperar aqui os seus milionários subprodutos.
Resta-me terminar, suspirando:
«Esta vida no vale nada. Sem limites, não há controlo.»

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Música: O Melhor de 2009


Depois do desfile de textos curtos que justificaram as minhas escolhas no campo musical (pop/rock) no ano de 2009, chegou a altura prometida de os hierarquizar segundo o grau de satisfação que cada obra me proporcionou, apesar do tempo quase escasso para as ouvir sem interrupções e outros ruídos que, eventualmente, prejudicaram a listagem final. Muito ficou por ouvir, noutros casos muitos discos foram escutados com a sensação de tempo perdido.
Sem mais delongas, eis a lista:
Dez Melhores Álbuns Musicais de 2009 (por ordem de preferência):
  1. The Flaming Lips – Embryonic (Warner)
  2. The xx – xx (Young Turks)
  3. Patrick Watson – Wooden Arms (Secret City)
  4. Yeah Yeah Yeahs – It's Blitz! (Interscope)
  5. Sonic Youth – The Eternal (Matador)
  6. Animal Collective – Merriweather Post Pavilion (Domino)
  7. Placebo – Battle for the Sun (Play It Again Sam)
  8. The Legendary Tigerman – Femina (Metropolitana)
  9. Pearl Jam – Backspacer (Island)
  10. Chester French – Love the Future (Star Trak)
Menções Honrosas
Para além dos dez atrás referidos, há outros álbuns que merecem uma citação, não só por convalidação do trabalho anterior que sempre me agradou (no caso dos três primeiros), como pela descoberta (tardia) de novos intérpretes com a abertura de horizontes musicais (no caso do quarto), que o inexorável envelhecimento vai permitindo – note-se que a lista que se segue está disposta por ordem alfabética dos intérpretes:
  • Air – Love 2 (Virgin)
  • Arctic Monkeys – Humbug (Domino)
  • Pink Martini – Splendor in the Grass (Naïve)
  • St. Vincent – Actor (4AD) (a descoberta da fantástica texana de 27 anos, uma verdadeira one-woman-show – porquanto St. Vincent é ele própria –, Annie Clark. Para seguir com atenção nos próximos trabalhos.)
Decepções

  • Julian Casablancas – Phrazes for the Young (RCA) (muito esperado álbum a solo do líder dos The Strokes, bom para tocar nas pista de carrinhos de choque).
  • The Veils – Sun Gangs (Rough Trade) (é incrível a ascensão e queda vertiginosa da banda londrina, uma tragédia em três álbuns).
Mais que decepcionantes (sem ideias novas, repetitivos, exercícios burlescos de autopastiche a apelar a uma reforma urgente ou a uma retirada silenciosa), lista que poderia ser traduzida pela expressão “já não há pachorra” – disposta por ordem alfabética dos intérpretes:
  • Depeche Mode – Sounds of the Universe (Mute)
  • Eels – Hombre Lobo (Vagrant)
  • Franz Ferdinand – Tonight (Domino)
  • Morrissey – Years of Refusal (Decca)
Nota final: Muitos foram os autores e os respectivos álbuns que aqui não foram mencionados, e no entanto escutados. Na sua maioria, e na minha pessoalíssima e íntima apreciação, por falta de invocação do númen musical. Podia dar o exemplo dos incensados Camera Obscura, ou os novíssimos Them Crooked Vultures, e no caso mais flagrante, aqueles que marcaram o ano pela presença assídua em qualquer listagem elaborada pelos críticos da especialidade nacionais ou estrangeiros, os Grizzly Bear.
Para o ano há mais.

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

E as cabeças rolaram (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.

“Zero”
Yeah Yeah Yeahs It’s Blitz! (Interscope)
E ao terceiro álbum de originais o trio nova-iorquino conseguiu de facto convencer-me. A voz de Karen O., remissiva a outros campeonatos da era punk britânica, com a sua limpidez envolve toda a atmosfera onde quer que soltem as suas notas; as reminiscências e sobretudo as referências não param de cair em catadupa – escuso-me aqui de nomeá-las, e embora pareça o ensaio de uma ironia grosseira, ouçam “Hysteric”. It’s Blitz consagra a aplicação no mundo da música pop da teoria darwiniana da evolução, que aqui é jogada a uma velocidade supersónica, porém quase imperceptível, na adaptação de uma banda ao espírito do tempo. Os Yeah Yeah Yeahs adaptaram-se à electrónica, e saíram do bas-fond urbano para o centro de um clube de elite com uma exclusiva lista de convidados. Mas a rebeldia, apesar das decapitações, estão lá, em “Zero”, “Shame and Fortune”, “Heads Will Roll”, ou por exemplo, na soberba “Dull Life”. Depois, o que fica? Todo o álbum, harmónico, compacto, bem produzido, mas é imprescindível ouvir “Skeletons” ou “Runaway”, para atestar da possibilidade de uma transição pacífica, sem nunca perder a basilar, a alma do álbum, onde Karen e os seus genes coreanos transmitem, em todo o seu esplendor, a serenidade oriental: “Little Shadow”.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Reviver o passado em VeddersHead (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.
 
“The Fixer”
Pearl Jam Backspacer (Universal/Island)
O título seria injusto se não acrescentasse um McCreadyShire. A eterna dupla que ajudou a abalar as fundações da minha juventude nos idos primeiros anos da década de 90. Por muitos efeitos de produção, contratações bombásticas e exaustividade promocional, jamais veremos o ressurgir de um Ten (1991) ou um Vitalogy (1994), ou mesmo de um Versus (1993) – tal como nunca mais teremos um Bossanova ou um Doolittle daqueles quatro de Boston, a melhor banda de sempre, depois dos outros, efémeros, de Manchester. Em bom português, a mesma água não corre duas vezes debaixo da mesma ponte. O que temos? Vedder já com 45 anos e McCready com 43. Os loucos anos do grunge são uma memória longínqua, podemos perpetuá-la, mas dificilmente aceitaríamos, nós os trintões e quarentões deste mundo, a mimese de um espectro que se esfumou. Não foi isso que aconteceu com Backspacer, o 9.º álbum de originais dos Pearl Jam, longe vão os tempos de Seattle, dos cabelos desgrenhados e das camisas de flanela aos quadrados. É porém na voz arrastada de Vedder e nos acordes de McCready que o devaneio de uma geração ainda encontra os seus referenciais – para uma amostra “The Fixer”, o 1.º single extraído do álbum, cujo vídeo foi realizado pelo californiano Cameron Crowe. E este álbum fica aqui bem na companhia dos restantes nove; seria um sacrilégio deixar de fora “The End” ou “Just Breathe” «Yes I understand that every life must end, / As we sit alone, I know someday we must go, / I’m a lucky man to count on both hands / The ones I love (…)» E nela me revejo num filme recentemente realizado por Sean Penn, e cujo espírito de libertação perpassa por cada palavra dita, por cada frase cantada por Vedder. E é aí que eles, depois destes anos todos, ainda se encontram, no lado selvagem: «This situation, which side are you on?» (“Got Some”).
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

sábado, 26 de Dezembro de 2009

Estrondoso (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.

“Crystalised”
The xx xx (Young Turks)
O título poderia exprimir as minhas constantes fugas juvenis que parecem brotar de uma reserva, decerto inexaurível, ocultada por uma força superior nos confins da minha mente. The xx é o nome de uma banda de Londres, recentemente formada, cujo primeiro álbum de originais, xx – de produção quase artesanal –, saiu no Verão de 2009 para o mercado discográfico. Quatro pós-adolescentes, a meio do projecto da idade adulta, criaram um dos mais sensacionais álbuns de estreia dos últimos anos. Com uns laivos de Breeders – apesar da componente vocal masculina –, são no entanto uns Sonic Youth britânicos, mais macios, com um som mais limpo e menos ousado – talvez aqui, se haja verificado alguma temeridade de iniciado –, mas não menos entusiasmantes que os veteranos nova-iorquinos. “Intro”, a música instrumental de abertura, parece não soar a nada de novo; certamente, já a ouvimos em outros locais, sem a associarmos à jovem banda londrina, porque a voracidade propagandística arrebanhou-a com unhas e dentes para ornamentar os seus objectos menos vigorosos. E o que dizer de “Stars”? E de “Crystalised”? “Night Time”?... Neste momento, destaco “VCR” das restantes, o que não quer significar que na próxima semana não surja outra a ocupar o topo das minhas preferências – é sempre assim neste tipo de álbuns, nada é definitivo, todas as certezas qualificativas sobre cada peça que integra o todo é de sobremaneira instável. Uma obra-prima. 
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Tequila com pouco Sunrise (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.

“Sacred Trickster”
Sonic Youth The Eternal (Matador)
O título deste texto segue o mito urbano do cliente achavascado que se dirige ao bar num ímpeto de doseador versado. Com The Eternal há um pecadilho que, certamente não advirá da mudança da editora de sempre, a Geffen, não se verificou com o extraordinário Rather Ripped de 2006: pouco Thurston Moore e cabriolas da doidinha Kim Gordon, para muito Ranaldo. Mas esta é a história da banda criada em 1981 em Nova Iorque e que se prolongou pelos seus já dezasseis álbuns de originais: o trio que sobressai do quinteto numa espécie de dialéctica de amor/repulsa e que se sintetiza em obras de arte. Se políticos fossem, eu votaria em Moore, mas procuraria garantir uma oposição responsável Gordon/Ranaldo, mesmo em possíveis formações com maiorias negativas. “Thunderclap for Bobby Pyn” é excelente, a mais sonic-youthiana e a única canção cantada exclusivamente por Moore. Mas seria uma blasfémia anticonstitucional dizer que quando os três se juntam, como em “Poison Arrow” ou em “Anti-Orgasm”, a criação perde qualidade. E Gordon está muito bem sozinha em “Calming Snake”, na poderosíssima e erecto-pixiana “Sacred Trickster”, e na épica “Massage the History”. Mas foi na coligação Moore/Ranaldo que o álbum se abalançou ao éter com a icónica “Antenna”. Em suma, «Oil dripping on my head / Let's go back to bed…», se exceptuarmos a “Walkin Blue”, The Eternal ganha como regra para audição obrigatória. E, em boa verdade vos digo, nada melhor que coleccionar ementas e ouvir Sonic Youth no dia de Natal… feliz e santo.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Declaração de Impossibilidade de Plágio

Há pouco mais de uma hora adquiri a edição de hoje do jornal Público, que contém, por antecipação (amanhã é dia de Natal), o suplemento Ípsilon.
No Ípsilon, tal como acontece todos os anos, os diversos críticos elaboram uma série de listagens consensuais sobre os melhores do ano em cada ramo de arte, tratado habitualmente pelo suplemento nas suas edições semanais.
Este ano, no topo da lista dos melhores álbuns de originais de música pop, surgem os Animal Collective, com o álbum Merriweather Post Pavilion. O texto que acompanha a referência à obra de arte do agora trio – após a saída da banda de Deakin –, formado por Panda Bear, Avey Tare e o Geologist, foi escrito pelo crítico musical Vítor Belanciano.
Quis o destino que, neste blogue, o anúncio a conta-gotas (um por dia, entre os “10+”) dos “Melhores Álbuns de 2009” reservasse para o dia 24 de Dezembro a revelação do álbum supramencionado dos Animal Collective, cujo texto se assemelha ao de Belanciano. Nesse sentido, é conveniente esclarecer que não só o texto foi escrito antes de 19 de Dezembro deste ano – dia em que começou a série de revelações dos elementos que constituem a lista final por ordem aleatória –, como também só li o texto de VB muito depois da hora pré-programada (que ocorreu a 18 de Dezembro) para publicação do texto deste blogue: neste caso as 14 horas e 5 minutos (em que, como no dia 29 se verá, o preciso minuto após as 14 horas não foi escolhido ao acaso, contém uma pista para os mais atentos).
Feita a minha exoneração de responsabilidades plagiárias, só me resta desejar um Bom Natal a todos os que me visitam e deixar-vos, como forma de entretenimento, o trompe-l’oeil da capa dos AC: para todos aqueles que se horrorizam com a exuberância consumista do Natal, sempre podem trocar de vistas.

Extinção? O Urso Panda e os sons da América (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.
 
“Summertime Clothes”
Animal Collective Merriweather Post Pavilion (Domino)
A partir da saudável loucura electrónica, Person Pitch (2007) provinda dos samplers de Panda Bear, sob o espectro inspirador que pairava no ar da, por nós sempre pronta a recusar, portugalidade, surgiu Merriweather Post Pavilion. O álbum recebeu o nome da arena helénica, ao ar livre, projectada por Frank Gehry – deve haver dedo do menino-guerreiro nisto, até porque o tribalismo psicadélico é a marca indelével deste álbum, onde até existe um leão em coma. Mas, regressando à estratosfera, MPP é o culminar (o aperfeiçoamento) do experimentalismo e da improvisação que já vinha de Strawberry Jam de 2007. Com este álbum, levado por alguns críticos e ouvintes ao paroxismo laudatório, os Animal Collective parecem conseguir captar, pela música e pelos ritmos esfusiantes, o coração da América profunda escondida nas raízes da sua historiografia: ouça-se, a título de exemplo, a faixa prodigiosa “Also Frightened”. E depois (ou antes de tudo) é impossível ficar-se indiferente perante o colosso bem urdido em notas que se liquefazem e que através de um diligente dedo que controla a gravidade seguem os trilhos sulcados na terra que formam a teia de “My Girl”. Um excelente álbum, que fui aprendendo a gostar ao longo de todo este ano, nunca por insistência, apenas a ele ia voltando, destapando o véu que guardava o nobre produto de degustação em plena fase de maturação. No vídeo, “Summertime Clothes”, assim, sem mais palavras.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Tranquilidade (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.


“Fireweed”
Patrick Watson Wooden Arms (Secret City)
Patrick Watson (n.1979), californiano por acaso, quebequense pelo sangue, é o dono de uma voz extasiante que se disseminou pelo meu mundo melómano por via secundária. De facto, fiquei a conhecer Watson pela sua inolvidável participação no álbum de 2007, Ma Fleur, dos The Cinematic Orchestra. E quem não conhece a viciante música, “To Build A Home”, criado pelo maravilhoso bando de artífices musicais comandados pelo britânico Jason Swinscoe? Foi pelos Cinematic que cheguei a Watson, e que fiquei a saber que Patrick Watson é uma espécie de vagabundo no mundo da música, ajuntando-se com vários autores de renome internacional, mas também é o nome do quarteto musical que ele lidera e que este ano lançou o seu terceiro álbum: Wooden Arms. Tranquilidade. Sigo os conselhos de Paulo Bento, e relaxo perante este ansiolítico, de olhos fechados, imaginando que, deitado numa espreguiçadeira numa varanda que se impõe sobre os socalcos, com o som baixo do leitor de CD, a leve e amena brisa das noites de Setembro do Douro, onde o cheiro da uva em fermentação se mistura com o da esteva, me afaga o rosto e a mão que segura o cálice de Porto tão velho como os anos que levo à superfície desta loucura terrena. Wooden Arms é irrepreensível de princípio ao fim. Qual Rufus, qual quê! Apenas o trágica e tristemente desaparecido Buckley, talvez. “Fireweed”, é simplesmente mágica – 1.ª música do álbum, apenas o 3.º single a ser-lhe extraído. Para ver e ouvir com atenção.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

O nosso Homem Tigre (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.

 

“Life Ain’t Enough for You”
The Legendary Tigerman Femina (Metropolitana)
No início de Outubro deste ano, enquanto perambulava pela secção livreira de uma das lojas Fnac do Grande Porto, ia absorvendo, com algum deleite, uns sons saídos das colunas de um dos pontos que costumam anunciar as novidades discográficas ou cinematográficas. Abandonei os livros e parti na demanda do som etéreo. A jornada não durou muito. Mesmo ali ao lado, era Paulo Furtado metamorfoseado no seu one-man-show The Legendary Tigerman. Na altura escrevi isto. Hoje venho materializar a suspeita que me assaltou no momento: Femina é um dos meus álbuns preferidos de 2009, e o único (posso já garantir) com marca portuguesa.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência; 
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

O regresso dos lábios ardentes (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.

 
“I Can Be a Frog”
The Flaming Lips Embryonic (Warner)
Com alguma consciência do sucedido, atrevo-me a dizer que já quase me havia esquecido da existência deste grupo norte-americano que, entretanto, já leva no seu pecúlio 12 álbuns 12 de originais. Muito se tem falado de Coyne & Companhia devido ao esperadíssimo remake de um dos melhores álbuns de todos os tempos, The Dark Side of the Moon, produzido em 1973 pelos eternos Pink Floyd. Porém, entre anúncio e prenúncios, surgiu finalmente no princípio do Outono, Embryonic, o 12.º álbum de originais do grupo que floresceu em Oklahoma. Com a colaboração da maravilhosa Karen O. em 3 músicas e dos MGMT em 1, este duplo álbum é um verdadeiro desafio ao mais empedernido dos resistentes: a distorção contínua, os sons pungentes retirados dos mais diferentes objectos orgânicos ou inorgânicos – um pigarreio, uma interferência de um telemóvel, uma voz fria e sem cor que nos chega de um auricular de um telemóvel, o ruído do escasso silêncio –, alternados, em algumas músicas, com acordes zen a apelar à meditação, e outros arreigadamente psicadélicos, deixarão porventura mossa no cérebro mais são. Contudo, é na sua audição em repetição sucessiva que damos conta que já nos encontramos embryonicizados… já é tarde para dar um passo atrás, até porque atrás é o abismo de uma vida pardacenta, de uma rotina fracturante. Não havendo encontrado a minha música preferida – a que se destaca por muito pouco do conjunto, dado o todo inebriante – para postar o som original em vídeo, a psicadélica, com laivos curtisianos, e música de abertura do álbum “Convinced of the Hex”, deixo ficar a desconcertante “I Can Be a Frog” com Karen O. ao telefone. Talvez apareça por aqui em breve com os seus Yeah Yeah Yeahs…
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Uns atormentados de Harvard (“10+” de 2009)

Desde o passado dia 19, por volta das 14 horas, este blogue tem vindo a revelar, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.




“She Loves Everybody”
Chester French – Love the Future (Star Trak)
Em 2003 dois caloiros de Harvard juntaram os seus dotes musicais, e nos estúdios da universidade foram gravando algumas músicas dispersas que, num ápice, se tornaram sucessos, catapultando o dueto para as capas das revistas da especialidade. Em 2009, lançam o seu primeiro álbum, disputado por algumas editoras. A partir de então, o dueto desmultiplicou-se em entrevistas, e correram o país fazendo as primeiras partes de espectáculos de bandas já estabelecidas e bem conhecidas no mercado, como é o caso dos Blink 182. A música dos Chester French – nome do escultor responsável por obras bem conhecidas como o Lincoln Memorial em Washington D.C. ou memorial a John Harvard, hoje colocado no Harvard Yard na porta do University Hall –, é difícil de catalogar, apesar da sonoridade distintamente pop da sua canção mais famosa (e que figura no vídeo que acompanha este texto), está entre o country, os sons jazzísticos, o hip-hop e a música electrónica. Não é um álbum de fácil digestão, nem verdadeiramente homogéneo. Curiosamente, o disco abre com uma calma e curta melodia – “Introduction” – cantada num português arrevesado “Sou, eu sou atormentado…” Vamos a ver o que o futuro lhes reserva: se a bonança ou a tormenta.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. No passado dia 19, todos os álbuns nomeados ficaram agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

sábado, 19 de Dezembro de 2009

Um placebo com efeitos renovados (“10+” de 2009)

A partir de hoje, e sempre por volta das 14 horas, este blogue revelará, por ordem perfeitamente aleatória, os 10 melhores álbuns (de originais) musicais de 2009.


“The Never-Ending Why”
Placebo Battle for the Sun (Play It Again Sam)
Não é nenhuma novidade a minha afeição, a raiar a idolatria teenager, por esta banda de Londres, formada em 1994. São os resquícios de rapaz na agitação da idade de pré-adulto, que ainda mantêm a chama acesa pelo andrógino Brian Molko, com a sua tessitura de voz inimitável. Este foi o primeiro álbum produzido com as novas aquisições da banda: o fabuloso Steve Forrest que substituiu na bateria o incompatibilizado Steve Hewitt e a polivalente e irrequieta Fiona Brice (que formalmente não faz parte do trio londrino como membro permanente). Ao longo de todo o álbum sobressai toda a envergadura de Forrest, havendo transformado o som eminentemente guitarrísticos e estrídulos dos álbuns anteriores, num tom mais dançável, sem no entanto destruir a identidade da banda – mudança que faz ver a bandas como os Green Day que não se conseguem libertar das amarras dos sons ásperos dos primeiros anos, perdendo o público que outrora lhe foi fiel.
Notas:
  1. No dia 29 de Dezembro será divulgada a lista dos “Dez Melhores”, organizada por ordem de preferência;
  2. A partir de hoje, todos os álbuns irão ficar agendados no Blogger para publicação, logo sem hipótese de ajustamento por influências externas, para surgirem na hora determinada (por voltas das 14 horas) em cada dia.

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

As listas de 2009

Já se tornou num hábito inultrapassável, quanto mais não seja pela preguiça de actualizar o blogue com textos que poderiam exigir um maior esforço de abstracção – e aqui apenas se seleccionam textos cuja qualidade (atente-se na polissemia do vocábulo) esteja assegurada –, irão ser publicadas as listas das minhas preferências musicais, cinéfilas e literárias que se estrearam neste pequeno rectângulo, com ilhas adjacentes, durante o ano de 2009.
Se nos livros não haverá grandes surpresas, já que a listagem dos livros editados em Portugal foi sendo actualizada desde o dia 1 de Janeiro deste ano, com a respectiva nota qualificativa, e figurou sempre na coluna do lado direito deste blogue; no cinema e na música, e dada a escassez de textos de suporte publicados, a novidade será quase total.
A terminar mais um ano civil de actividade na blogosfera, considerei que deveria salientar que, pela primeira vez, nenhum dos livros apreciados foi acompanhado de um texto, à laia de recensão – já fui acusado de me querer pôr em bicos de pés, logo faço-lhes a vontade –, que justificasse o espanto, a aversão ou a indiferença pela prosa neles vertida. Facto este que também se ficou a dever aos 211 dias de pausa para reflexão, apenas quebrada por algumas derivas culturais postadas no meu mural do Facebook, durante a minha pequena incursão por essa rede social insatisfatória e predadora de tempo – que, a talho de foice, será objecto de um filme a estrear no próximo ano, realizado pelo meu reverenciado David Fincher.


A datas para a publicação das listas:
  • Música – dia 29 de Dezembro (terça-feira) – lista dos 10 melhores álbuns musicais inéditos produzidos em 2009, com referência a algumas decepções. (Nota: a partir de amanhã, tal como fiz no final de 2008, irá ser apresentada até ao dia 28, uma sequência de dez textos diários com cada um dos referidos dez álbuns, por ordem aleatória de preferência.)
  • Cinema – dia 30 de Dezembro (quarta-feira) – lista dos 10 melhores filmes estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção. Incluirá, também, uma lista das 10 aberrações cinematográficas do ano.
  • Literatura – dia 31 de Dezembro (quinta-feira) – listas dos 10 melhores livros de ficção e dos 5 melhores de não-ficção publicados em Portugal durante o ano. Trata-se apenas de atribuir uma ordem de preferência (hierarquia do gosto pessoal) aos livros que figuram na coluna lado direito deste blogue.
Nota: apesar da onda avassaladora de balanços da década em revistas, jornais, blogues e até na televisão, não será aqui divulgada nenhuma lista sobre a curiosa década de 9 anos. Por embirração matemática, a 1.ª década do 3.º Milénio, logo do século XXI, iniciou-se a 1 de Janeiro de 2001 e só termina a 31 de Dezembro de 2010. Por curiosidade, aqui fica a pergunta: em que década do século XX se deu a implantação da república em Portugal, na 1.ª ou na 2.ª?

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

4



Começou com o Porque, continuou com o In Absentia e em princípio acabará com o inabalável Nunca Mais. Todos se inspiraram em Sophia, ostentando diferentes epígrafes, que revelaram os meus estados de alma no momento inaugural de cada espaço de divagação.
Evolução temporal e alguns dados estatísticos (fonte: Sitemeter):
  • Porque, criado a 17 de Dezembro de 2005, encerrado a 23 de Setembro de 2006. Foram publicados 535 textos e contou com 33.862 visitantes (45.123 de páginas visitadas). Poema de Sophia: “Porque”; epígrafe de Bernardo Soares (Pessoa), Livro do Desassossego: «Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.»
  • In Absentia, criado a 2 de Dezembro de 2006, encerrado a 6 de Abril de 2008. Foram publicados 457 textos e contou com 43.649 visitantes (57.817 de páginas visitadas). Poema de Sophia: “Ausência”; epígrafe de Raymond Carver, do conto “Jerry, Molly e Sam”: «Ele ficou ali sentado. Pensou que, bem vistas as coisas, não se sentia muito mal com a sua consciência. O mundo estava cheio de cães. Havia cães e havia cães. Com alguns cães não havia nada a fazer.» (Sob a fina camada do título do blogue, pairou um alto-relevo dos primeiros versos do poema “The Fascination of What’s Difficult”, de William Butler Yeats.)
  • Nunca Mais, criado a 30 de Abril de 2008, sempre na iminência de encerrar. Foram publicados 302 textos, incluindo este, e contou com 30.386 visitantes (38.608 de páginas visitadas) até às 13 horas de hoje. Poema de Sophia: “Nunca Mais”; Epígrafe de Don DeLillo (verificou-se uma pausa para reflexão entre 24 de Fevereiro e 23 de Setembro deste ano)
  • Somatório dos hiatos temporais entre a criação e a extinção de blogues, e pausa para reflexão: 305 dias (70+24+211), em 1461 dias possíveis.
  • Dias de actividade: 1156
  • Número total de visitantes: 107.897 (141.548 de páginas visitadas)
E, assim, quis assinalar a passagem do quarto ano, recorrendo a uma espécie de tuning blogosférico para ilustrar a efeméride. E, porventura, através dos ensinamentos que logrei obter por esta experiência que se estendeu pelo último quadriénio, o tuning, pese embora o germanismo, seja a expressão efectiva para alguma da blogosfera dita de referência: muito espaventosa, munida de atavios de um deslumbramento ofuscante e que pungem o ouvido mais delicado por uma barulheira ensurdecedora, mas que apenas cobrem, dissimulam, a pobreza de espírito, a fraqueza intelectual e o arrivismo impetuoso dos escribas.
Não tenho dúvidas de que as generalizações são perigosas, porquanto atingem todos sem excepção, mas no lado direito deste texto suponho que existe uma lista bastante extensa daqueles que não incluo no grupo de tuning da blogosfera lusa – a esmagadora maioria ficou de fora dada a limitação humana do número de blogues que conheço.
Os restantes são aqueles que medem a blogosfera pelos amiguismos potencialmente ascensores ao Olimpo opinativo bem pago, e que se distinguem dos restantes porque ritualmente praticam o “deslincamento” – a arma de arremesso, o qualificativo de menosprezo em acção.
Era um prazer deslincar… A frase não é nova, foi devidamente profanada para servir o fim deste texto pirómano. A que temperatura ardem os blogues? Talvez à temperatura do sobreaquecimento neuronal perante algo que não se entende, ou que se julga entender como agente promotor do enfraquecimento da média qualitativa dos poucos blogues que surgem no arrolamento: tida como a fina-flor da blogosfera, carregada de uma erudição ímpar, que dá vontade de ostentar pelo aplauso que forçosamente advirá da criteriosa selecção que captou o sublime da opinião publicada em hipertexto.
No princípio fui banido do arrolamento de um blogue, cujo promotor se convenceu da sua eminência literária, guindado pela bajulação nauseante dos “delta menos”. Esse acto foi a faísca que fez disparar o lança-chamas do deslincamento: «I love the smell of napalm in the morning.» já dizia o Duvall. Enfim, o horror. O horror.
«You can either surf, or you can fight!»
Fight, fight, fight… Ladeiras, vales de lágrimas, lugares antinómicos e quejandos. Não se pode agradar a todos. E logo agora que o Technorati resolveu entrar de férias… por inabilidade dos seus programadores. «In a war there are many moments for compassion and tender action.» Mesmo seguindo o conrado-coppoliano “Kurtz”, aproveitando a alegoria para o “unlink back”my tender moment of joy between bloggers – há sempre um gosto amargo de fel, como cantava a Bethânia, em jeito de grito de alerta.
Enfim, avancemos. É tempo de comemoração, e acresce que atravessamos a quadra da paz e da harmonia fraterna entre os homens. O anúncio foi feito – 4 anos. Agradeço, antecipadamente, as centenas de mensagens de felicitações recebidas.
PS – obrigado ao construtor bávaro de Ingolstadt, pela utilização abusiva do emblema que há uns tempos simbolizou uma importante revolução tecnológica, aproveitada hoje para passear e ostentar as máquinas no asfalto liso das ruas das nossas cidades.

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Os amigos da Revolução

Há anos, surgiram nos Estados Unidos – o Império do Mal, responsável por todos os cataclismos à escala global: políticos, económicos, sociais, culturais, ambientais, tecnológicos –, pela evolvente propiciatória da livre iniciativa e do mercado concorrencial, empresas privadas que se dedicam à limpeza das “zonas de crime”: lavam carpetes, tapam os buracos de balas perdidas, repõem o stock de picadores de gelo (quiçá de picaretas mexicanas, com a marca de água do NKVD) e de conjuntos lustrosos de facas de cozinha; só não garantem a desinfecção do idealismo e da mitomania do coitadinho – está ainda para surgir um insecticida iconoclasta. Mas sobre a mitomania revolucionária, deixo as despesas do verbo a quem conhece (por palavras e actos) o assunto por dentro, Olivier Rolin (n. 1947):
«Vocês têm vinte anos, são românticos, revoltados, ignorantes, esforçam-se por amar os ídolos da revolução mundial (há ainda, na época, qualquer coisa no mundo que usa esse nome “Revolução Mundial”), Marx ou Mao, alguns vão ainda mais longe no seu zelo e tentam convencer-se de que gostam de Estaline. Mas há em vocês uma inquietação, no fundo dessa zona livre e sonhadora que habita no vosso íntimo e que resiste ao culto dos líderes, à cobarde admiração pelos vencedores. Vocês são muito ignorantes, e no entanto sentem que a Revolução é um gesto cuja grandeza prometaica [sic] não resiste à sua própria vitória, que a Revolução vitoriosa vê o tempo dos burocratas e dos polícias suceder ao dos heróis, e que não há grande Revolução a não ser nos primeiros momentos incrédulos, e depois de ser assassinada. Rosa Luxemburgo lançada ao Landwehrkanal, num dia de gelo e de sangue em 1919, Che Guevara deitado como um Cristo deposto da cruz no lavadouro do hospital de Valegrande: o que há de menos vulgar e de menos servil em vocês pressente que é eles serem vencidos o que os faz tão gloriosos. A República espanhola, a Comuna de Paris, a sua história é para vocês uma epopeia porque é feita apenas de derrotas. E ninguém te emociona mais do que aqueles que são duplamente derrotados, porque foram mortos por uma causa na qual deixaram de acreditar. Fazes bem em defender-te, a personagem que te fascina já não é a do militante, mas a muito mais romântica, a do aventureiro. Porque tu desejas, ao mesmo tempo, a fraternidade e a solidão. Tu também te sentes “desenraizado” do mundo. Sombrio, intransigente, apaixonado, desesperado, Rossel* é um dos heróis dos teus vinte anos idealistas e teatrais.» [destaque a bold de minha autoria]
Olivier Rolin, Um caçador de leões, pp. 87-88
[Lisboa: Sextante, 1.ª edição, Outubro de 2009, 198 pp; tradução de Tiago França; obra original: Un chasseur de lions, 2008.]

*[nota minha]: Louis Rossel (1844-1871), coronel do Exército Francês, o único oficial a juntar-se à Comuna de Paris (em Março de 1871), como resistente à invasão prussiana da França, e a capitulação desta perante Guilherme I e o seu chanceler Otto Bismarck. Morreu fuzilado perante ordens do presidente Adolphe Thiers, que esmagou a insurreição e destruiu a Comuna quarenta dias depois de haver sido instituída.

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Há pouco mais de duas horas foram anunciadas as nomeações para 67.ª edição dos Globos de Ouro, organizada pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, e cuja entrega ocorrerá no Beverly Hilton, em Hollywood, no próximo dia 17 de Janeiro, pelas 17 horas PST (18 de Janeiro, à 1 hora da madrugada, hora de Lisboa).
Para quem acompanha o fenómeno cinematográfico de Hollywood, não houve surpresas de maior. Todavia, evidencio a categoria “Melhor Filme Estrangeiro” pela fortíssima concorrência que se faz adivinhar dados os filmes, as críticas e os nomes envolvidos nas suas realização e produção.
Por outro lado e em resumo, destaca-se dos demais um conjunto de nove filmes que receberam três ou mais nomeações (entre os quais dois estrearam durante o corrente ano em Portugal, fazendo, sem qualquer hesitação, parte dos melhores filmes que vi em 2009 – lista a divulgar no final do ano):


Nas Nuvens // Up in the Air – 6 nomeações
(estreia a 11/02/2010 em Portugal)
Actor (Drama) – George Clooney
Actriz Secundária – Anna Kendrick
Actriz Secundária – Vera Farmiga
Argumento – Jason Reitman
Filme (Drama)
Realizador – Jason Reitman
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Nove // Nine – 5 nomeações
(estreia a 14/01/2010 em Portugal)
Actor (Comédia ou Musical) – Daniel Day-Lewis
Actriz (Comédia ou Musical) – Marion Cotillard
Actriz Secundária – Penélope Cruz
Canção Original
Filme (Comédia ou Musical)
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Avatar – 4 nomeações
(estreia a 17/12/2009 em Portugal)
Banda Sonora Original – James Horner
Canção Original
Filme (Drama)
Realizador – James Cameron
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Sacanas Sem Lei // Inglourious Basterds – 4 nomeações
Actor Secundário – Christoph Waltz
Argumento – Quentin Tarantino
Filme (Drama)
Realizador – Quentin Tarantino
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Amar... É Complicado // It’s Complicated – 3 nomeações
(estreia a 04/03/2010 em Portugal)
Actriz (Comédia ou Musical) – Meryl Streep
Argumento – Nancy Meyers
Filme (Comédia ou Musical)
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Estado de Guerra // The Hurt Locker – 3 nomeações
Argumento – Mark Boal
Filme (Drama)
Realizador – Kathryn Bigelow
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Invictus – 3 nomeações
(estreia a 28/01/2010 em Portugal)
Actor (Drama) – Morgan Freeman
Actor Secundário – Matt Damon
Realizador – Clint Eastwood
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Precious: Based on the Novel Push by Sapphire – 3 nomeações
(sem estreia marcada para Portugal)
Actriz (Drama) – Gabourey Sidibe
Actriz Secundária – Mo’Nique
Filme (Drama)
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A Single Man – 3 nomeações
(estreia a 18/02/2010 em Portugal)
Actor (Drama) – Colin Firth
Actriz Secundária – Julianne Moore
Banda Sonora Original – Abel Korzeniowski

Melhor Filme Estrangeiro
  • Abraços Desfeitos // Los Abrazos Rotos (Espanha), de Pedro Almodóvar
  • Baaria (Itália), de Giuseppe Tornatore (sem estreia marcada – PT)
  • O Laço Branco // Das Weisse Band (Alemanha), de Michael Haneke (estreia PT – 07/01/2010)
  • La nana (Chile), de Sebastián Silva (sem estreia marcada – PT)
  • Um Profeta // Un prophète (França), de Jacques Audiard (estreia PT – 31/12/2009)
Nota final: Este ano, Martin Scorsese receberá o prémio honorário Cecil B. DeMille.

sábado, 12 de Dezembro de 2009

European Film Awards 2009


Foram hoje entregues, no Jahrhunderthalle em Bochum na Alemanha, as estatuetas relativas à 22.ª edição dos prémios de cinema europeu, da Academia Europeia de Cinema (EFA).
O realizador alemão Michael Haneke (n. 1942) foi o grande vencedor, arrecadando 3 estatuetas com o filme O Laço Branco (Das Weisse Band). A sua estreia em Portugal está marcada para o próximo dia 7 de Janeiro.
Com este filme, segundo a crítica, o mais sério candidato ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, Haneke já havia vencido em Cannes a Palma de Ouro.
De notar que o SlumBoyle – realizador perito em cloacas – ainda mexe e ganhou mais dois prémios: um em partilha e outro o da popularidade.
Eis a listagem dos vencedores – (prémios precedidos do adjectivo “Melhor”):


Filme Europeu
O Laço Branco (Das Weisse Band), de Michael Haneke
Realizador Europeu
Michael HanekeO Laço Branco (Das Weisse Band)
Actriz Europeia
Kate WinsletO Leitor (The Reader), de Stephen Daldry
Actor Europeu
Tahar RahimUm Profeta (Un prophète), de Jacques Audiard
Argumentista Europeu
Michael Haneke O Laço Branco (Das Weisse Band), de Michael Haneke
Director de Fotografia Europeu
Anthony Dod Mantle (por 2 filmes) – Anticristo (Antichrist), de Lars Von Trier & Quem quer ser bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle
Compositor Europeu
Alberto IglesiasAbraços Desfeitos (Los abrazos Rotos), de Pedro Almodóvar
Revelação Europeia (Filme)
Katalin Varga, de Peter Strickland
EFA Prémio de Excelência
Francesca Calvelli (pela Montagem) – Vincere, de Marco Bellocchio
EFA Filme de Animação Europeu
Mia et le Migoo, de Jacques-Rémy Girerd (França)
Prémio da Crítica EFA – Pémio Fipresci
Andrzej Wajda [nota: realizador e argumentista polaco, nascido em 1926; entre outros prémios, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1981 pelo filme O Homem de Ferro (Czlowiek z zelaza); e do Óscar Honorário da Academia de Hollywood em 2000).
EFA Documentário – Prémio Arte
The Sound of Insects: Record of a Mummy, de Peter Liechti (Suíça)
EFA Curta-Metragem
Poste Restante, de Marcel Lozinski (Polónia)
EFA Prémio de Carreira
Ken Loach [nota: realizador e argumentista britânico, nascido em 1936; entre outros prémios, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2006, pelo filme Brisa de Mudança (The Wind That Shakes the Barley).]
Prémio Europeu de Carreira – Cinema do Mundo
Isabelle Huppert [nota: actriz francesa, nascida em 1953; entre outros prémios, venceu: o prémio para Melhor Actriz no Festival de Cannes de 2001, pelo filme A Pianista (La pianiste), de Michael Haneke; e do César de 1996 para Melhor Actriz pelo filme A Cerimónia (La cérémonie), de Claude Chabrol – entre 1976 e 2006 foi nomeada mais 12 vezes para este prémio para outros tantos filmes. É a 3.ª estatueta que arrecada no festival da EFA, tendo sido as restantes conquistadas em 2002 por 8 Mulheres (8 femmes), de François Ozon (em conjunto com as restantes 7 actrizes); e em 2001 pelo filme A Pianista (La pianiste).]
Filme (Prémio – Escolha do Público)
Quem quer ser bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Seguidismo crítico

«Parece que os críticos do Reino Unido gostaram realmente de Invisível, o último romance de Paul Auster, e eu dei por mim a pensar se valeria a pena analisá-lo – já não leio um livro dele desde O Livro das Ilusões (2002) – quando, na New Yorker, James Wood veio a terreiro e zurziu no livro.» [tradução livre: AMC, 2009]
Estas palavras pertencem a Christopher Tayler, postadas no blogue da London Review of Books no passado dia 9, sítio onde, em conjunto com outros peritos em assuntos artístico-literários, escreve sobre livros e supostamente sobre Literatura.
Tayler, de 34 anos, para além de colaborar com a LRB, é o crítico-chefe de ficção literária no jornal londrino The Guardian.
Todo o texto é hiperbólico, escrito num estilo de tragicomédia, cujo excerto atrás traduzido revela, à partida, uma debilidade preocupante – que muitos julgavam exclusiva dos críticos literários portugueses, vide as recensões em que se nota, num impudor ostensivo, um cunho eminentemente sintético, uma espécie de súmula dos textos produzidos pelos principais críticos anglófonos e, até, por alguns francófonos de reputação assegurada –, a subordinação da opinião de determinados críticos à concepção e ao pensamento provindos dos putativos donos da crítica literária. Porém, pensar que essa debilidade evidente é um caso exclusivo do recenseador e da publicação em questão, não só seria uma mentira muito mal amanhada, como branquearia todo o comportamento de uma nova horda recenseadora que se fundou com o endeusamento do crítico britânico James Wood e as suas repreensões (sovas eruditas) estético-literárias. É, aliás, com este personagem das letras contemporâneas que esse depauperamento, eucalíptico, da crítica se tornou flagrantemente chocante.
O caso não é de agora, Wood com a sua prosa inteligente e aparentemente dominadora do fenómeno, fomentou a ortodoxia literária que tem circunstanciado a análise crítica da ficção que se vai publicando por esse mundo fora.
Umberto Eco, referindo-se aos repetidos episódios inscritos na História universal de queima pública de livros – de Savonarola a Hitler, entre outros –, fala de uma censura promovida por um tipo de totalitarismo (pensamento único, se quisermos), em que o fomentador, longe de pensar que a fogueira extinguirá a obra queimada, assume um papel de demiurgo com vista a moldar e a purgar todo pensamento cultural de uma determinada comunidade. E esse é precisamente o perigo do anátema woodiano, promotor de um pernicioso unanimismo. 
Se provas faltassem para o seguidismo messiânico, onde se professa uma liturgia de estrita observância – usando da censura, do sarcasmo e dos ataques ad hominem –, benzendo-se, em contínua persignação supersticiosa e aduladora, todo o objecto de talento que fuja ao dogma do criador, leia-se para o efeito o artigo completo deste crítico em incubação (embora, como se afirmou, estejamos a falar do editor-chefe da secção de literatura de ficção no The Guardian) que, por vontade própria, não pretende sair da proveta, porquanto se sente aconchegado pelas palavras do deus criador – o curioso subtítulo deste texto é “Eu fui um adolescente fanático por Auster”.
As ondas sísmicas do abalo provocado pelo texto “covas rasas” – uma alusão à sepultura metaficcional em que August Brill introduziu Owen Brick no romance Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008) como exercício de diversão dos pensamentos tenebrosos que o assaltavam diariamente na titânica luta contra a insónia –, parte integrante do n.º 89, volume 35, da New Yorker, fizeram-se sentir um pouco por todo lado, basta para isso efectuar uma pequena e breve pesquisa na Internet num qualquer motor de busca. Para além dos diversos textos de recriminação dedicados ao emérito professor de crítica literária de Harvard, ressuscitaram algumas mentes cuja planura argumentativa não consegue fugir da mera corroboração: “eu sempre disse”, “até que enfim alguém pôs o dedo na ferida”. Como se não houvesse uma passado, um autor, toda uma obra que não deixou de ser escrutinada com encómios, indiferença ou duras críticas, fazendo tábua rasa de toda a sua biobibliografia, em suma, da própria história recente da literatura.
Mas, para nosso profundo pesar, estes são os campeões da nova crítica contemporânea, os filhos dilectos de qualquer publicação literária ou com pretensões a assumir esse estatuto; todos umbilicalmente ligados por um gritante minimalismo conceptual: “Shallow Thinking”.
PS – o acaso – um tema tão caro a Auster nas suas efabulações –, talvez o acaso (e quero continuar ingénuo) fez com que James Wood, nas habituais listas de final do ano, nomeasse o livro de contos de Lydia Davis como o melhor do ano no campo da ficção. As palavras são dele: «Este ano fiquei excitado com as “Collected Stories” de Lydia Davis. […] Davis é divertida, mordaz, autodepreciativa (até auto-repulsiva) e muito bem-humorada.» [tradução livre: AMC, 2009] Acaso sabem, os poucos que me lêem, com quem foi casada a autora supramencionada no início dos anos 70 e com quem compartilhou a experiência de vida de fome e atribulações em França, tendo gerado um filho em comum chamado Daniel? Bingo! Isso mesmo, um tal de Paul Benjamin Auster, nascido a 3 de Fevereiro de 1947 em Newark, Nova Jérsia. Usando uma frase feita, estafada, o velho cliché que se usa sem itálicos, qual Adamastor woodiano, apetece perguntar, abusando da retórica: Há coisas fantásticas, não há?