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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um Pecado Sinonímico


Levantou-se o habitual alarido na imprensa lisboeto-espalhafatosa – mas há-a de outro tipo? A dos bas-fonds do poder – quando o sujeito passivo da epinotícia é o Governo ou as suas instituições, e o activo um dos seus elementos mais próximos.
Na TVI o episódio mereceu maior destaque, em minutos, que a derrapagem nos números de (de)crescimento do PIB ou de acréscimo na taxa de desemprego. No Público gastaram-se 1.700 caracteres para dizer, logo no seu título, que «Ex-secretário de Estado avisa que vai mandar o fisco “tomar no cu”».
A mim preocupa-me apenas a expressão. Eu teria dito “apanhar” ou “levar”, é mais rasteirinha, bem mais portuguesa, vernacular. Mas sendo o Francisco um homem ecuménico por natureza, tão lido por nós, os do rectângulo, como pelos nossos irmãos do outro lado do Atlântico, desculpa-se o “tomar”; e este, é o único pecado detectável no seu texto, venial, apenas susceptível de causar algum tipo de proctalgia aos mais sensíveis.
“Cu” também goza de um riquíssimo campo semântico, mas adequa-se ao contexto, embora “olho” se encaixasse melhor neste baixo ciclópico país, terra em que os dois de cima, há muito, deixaram de ver, e como em tempos disse Vasco Pulido Valente, os que tinham um e poderiam ser reis, tiveram de o vazar, porque a mediocridade reinante a cada esquina não permite esse arrojo.
No entanto, é urgente resolver outra questão que, por analogia, pode traduzir-se em ineficácia fiscalizadora: como será possível mandar esses zelosos e temerários fiscais tomar, apanhar, levar no cu (perdoem-me a exergásia), se quem tem cu tem medo?

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Ludicrous, They Say

Ludicrous (Ing.) = Lúdrico (Port.), que por metátese passou a Lúdicro:

«adjetivo
1. relativo a divertimento público; espetáculo
2. Derivação: por extensão de sentido. Uso: pejorativo.
maneira cômica, risível de se expor; merecedor de escárnio; ridículo»
Do lat. ludìcrus,a,um ‘dos jogos públicos, de jogo, de divertimento’»
in Dicionário Houaiss da língua portuguesa

Esta será a primeira vez – e provavelmente a última – que irei mencionar neste blogue o dito Caso Madeleine – classifico-o como grotesco desde o seu início…
E se só agora a ele me refiro, isso deve-se ao constatado efeito de enriquecimento da língua portuguesa ao possibilitar o alargamento do campo lexical no seu uso corrente. Veja-se o exemplo acima.
Ponto final.

Engrimanço ânglico? Veremos…

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Morto de morte matada

Hoje, na Bertrand das Antas, enquanto verificava as novidades editoriais, deparei-me com um livro, sobre o qual já havia lido a notícia da sua publicação num jornal da especialidade, cujo título seria susceptível de fazer intervir a Super Zezinha com a sua equipa especial do MP: Matei um homem.

Folheei-o e logo me apeteceu desfolhá-lo. Vejamos a abertura (não sei se vos acontecerá o mesmo, mas, depois de a ler, fui assaltado por uma sensação de déjà-vu):

«Matei um homem. Não me importei. Não foi por mal nem por bem. Apeteceu-me. Podia ter morto dois, ou três, ou sei lá quantos. Podia ter morto uma mulher. Calhou ser aquele. Não o escolhi. Não o conhecia. Matei-o.» Alexandra Carita, Matei um homem (Alêtheia) [destaques meus]

Hoje, mataram o português. Uma epidemia de irregularização de particípios passados varre o país de Norte a Sul. O “empregue” e o “empregado”. O “aceite” e o “aceitado”. O “morto” e o “matado”. A primeira forma verbal de cada par, para os verbos “empregar”, “aceitar” e “matar”, corresponde ao respectivo particípio passado irregular; a segunda forma, refere-se ao particípio passado regular.
Se matar um homem já é coisa grave, tê-lo morto é ainda pior, porque para além da consumação de um crime contra a vida de um ser humano, acto legal e moralmente condenável, assassina-se o português sem dó nem piedade.
Podia ter matado dois, mas só um estava morto.
Podia ter matado uma mulher, porém só um cão foi morto.

Regra para memória futura: com os verbos “haver” ou “ter” utiliza-se sempre o particípio passado regular; com os verbos “ser” ou “estar” usa-se o particípio passado irregular – isto se os verbos dispuserem de um particípio passado irregular.
A tal patologia lusa da irregularização aguda é um caso grave… Hum! Digamos que, esdrúxulo, pela criatividade revelada. Vejamos:
Eu tinha marco muitos golos…
Tu tinhas passo o exame se…
Todos os dias ouvimos coisas desta natureza.
Bom, adiante.
Acaso já vos disse que já escrevi as primeiras frases do meu romance. Elas aqui ficam

Tratem-me por Ismael. [1] Dentro em breve estarei apesar de tudo bem morto finalmente. Talvez para o mês que vem. [2] O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. [3] Mais ou menos tudo isto aconteceu. [4]
Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze. [5] Sou um homem doente… Sou um homem mau. [6] Enterrei hoje a minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. [7] Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado. Foi este o ultimato, o exasperante, inacreditável e absolutamente imprevisto ultimato (…) [8] Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. [9] No dia seguinte ninguém morreu. [10]

Nota: Houve uma alma diligente e rigorosa que me obrigou a postar estas notas… não percebo a necessidade:
[1] Herman Melville, Moby Dick.
[2] Samuel Beckett, Malone está a morrer.
[3] Jean-Paul Sartre, A Náusea.
[4] Kurt Vonnegut, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças.
[5] George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.
[6] Fiodor Dostoievski, Cadernos do Subterrâneo.
[7] Vergílio Ferreira, Alegria Breve.
[8] Philip Roth, Teatro de Sabbath.
[9] Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido.
[10] José Saramago, As Intermitências da Morte.