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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Parágrafos Redundantes

Como de uma obra para outra o deslumbramento se torna em abominação literária.
Um exemplo da dissipação da palavra impressa numa manta de retalhos norueguesa premiada, a que chamaram romance:
«Eu sabia exa[c]tamente qual a cabana que queria. Disse-lhe o número. Ela [a recepcionista/proprietária] abriu a porta, pousou o balde no vestíbulo e vi-a a tirar a chave do quadro na parede que tinha várias fileiras de pequenos ganchos, um número para cada gancho e o mesmo número na placa plástica presa ao porta-chaves.»
Per Petterson, Maldito seja o rio do tempo, p. 208.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Junho de 2013, 237 pp; tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Jeg forbanner tidens elv, 2008 – se bem que, por preguiça ou por falta de pilim para pagar a um tradutor de norueguês/português, a editora tenha optado por traduzir da tradução em língua inglesa: I Curse the River of Time.]

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Traições e Engano



Já anda por aí um novo velho livro de Roth, o Philip – embora duvide e suplique para que essa dúvida tenha razão de ser, sim, é o tal que anunciou ao mundo que terminou o seu período de escrita com o maravilhoso Némesis –, o livro intitula-se Engano e não é um equívoco se nos aflorar da mente que já o vimos por terras de Portugal, traduzido na nossa língua: pois, chamava-se Traições, numa versão em capa floreada.
Deception é uma novela de Roth originalmente publicada em 1990 e traduzida em Portugal, no ano seguinte, por Filomena Andrade e Sousa para a Bertrand. Agora, o livro reedita-se com Engano pela Dom Quixote, com tradução de Francisco Agarez, acompanhado de um preço inacreditável de 16,90 euros (dispõe de 208 páginas, mais 32 que a edição da Bertrand, dando-se o facto curioso de que a narrativa de ambos se inicia, precisamente, na mesma página, a 9 – faz-se render o peixe com letra de corpo... Gobern).
Quando em Maio do ano anterior a Dom Quixote iniciou, ao que parecia, a publicação da opera omnia do escritor de Newark, com o aparecimento do fabuloso Goodbye, Columbus (a primeira obra de Roth; publicada em 1959), tudo parecia indicar que se seguiria a tradução do 1.º romance do autor, Letting Go de 1962, seguindo-se o 2.º – e o único cujo protagonista é uma mulher – When She Was Good de 1967.
Pura ilusão.
Note-se, não sou contra a repetição de traduções. Por vezes, a repetição consegue inculcar-nos outra perspectiva da obra que outrora lêramos e de cuja leitura fixáramos doutrina – sem ler o original, não sabemos se por diminuição ou aumento da traição do traduttore. Porém, sou contra o desperdício de traduções sempre que se verifiquem estas duas condições em simultâneo: (1) obras que já existem aceitavelmente traduzidas no mercado nacional e (2) quando grande parte da obra do autor em questão – e neste caso, quase unanimemente considerada como brilhante – ainda não se encontra editada na nossa língua – há um apagão luso de Roth entre 1962 e 1990, com a excepção de O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy's Complaint).

Para efeitos comparativos o bom, o mau e o vilão (o original, a perda na tradução, e a tradução, já de si perdida, e agora desperdiçada segundo a minha impugnável reflexão – carregar na imagem para a ampliar):


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

39 anos, 7 meses e 3 dias

Não se trata de um filme romeno, nem tão-pouco da minha idade (sou infelizmente mais velho, embora cerca de 8 meses, para que conste), mas do tempo que decorreu entre a publicação original e a edição em Portugal de uma transgressão literária que, mesmo na actualidade, continua a fazer torcer várias mentes e a vergar à humilíssima condição de falível humano os reaccionários semideuses defensores do realismo flaubertiano (e há um muito na moda) – como se isto fosse uma competição interescolar ou de mensuração perimetral e da extensibilidade máxima do órgão da soberba na eterna refrega pela masculinidade.

É somente isto:
«Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.»
Com chancela da Bertrand e tradução de Jorge Pereirinha Pires, eis a tão magistral, como polémica, obra de Thomas Pynchon, que motivou mesmo uma suspensão de atribuição do prémio Pulitzer em 1974, embora a obra tivesse sido unanimemente eleita pelo júri nomeado para a categoria de “Ficção” – a talho de foice, constituído pelos escritores e críticos literários Elizabeth Hardwick (1916-2007) e Alfred Kazin (1915-1998), e pelo escritor, ensaísta, eminente académico e crítico cultural Benjamin DeMott (1924-2005) , porém enfaticamente rejeitado pelos visionários membros do Conselho de Administração dos referidos galardões.

domingo, 20 de maio de 2012

Roth dobra o cabo das tormentas em Portugal


Espero que não seja apenas um fogacho, um daqueles lampejos que sói iluminar algumas cabeças de responsáveis editoriais em Portugal, e que se agarre o touro pelos cornos publicando paulatinamente toda a obra do maravilhoso Philip Roth que, vergonhosamente, ainda não se viu enformada pela língua de Camões neste lado do Atlântico.
Foi em 1959 que Roth lançou a sua primeira obra, constituída por uma novela e cinco contos e que desde logo colocou em rebuliço o mundo das letras norte-americanas.
Em pouco mais de meio século, com 27 obras de ficção originalmente publicadas – não entrando em consideração com as dezenas de contos e ensaios, e as obras de não-ficção –, e com a publicação garantida da sua opera omnia pela Library of America, o injustiçado não-Nobel, à maneira luso-heteróclita e descontando o republicadíssimo O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy’s Complaint), só tem obra publicada a partir da sua novela dialógica de 1990 Traições (Deception), editada pela Bertrand, embora ainda não exista a publicação que se lhe seguiu: Operation Shylock (1993).
Em suma, Roth tem apenas 48% da sua obra de ficção publicada em Portugal, em que 44% se refere, apenas, aos últimos 22 anos da sua actividade literária de 53.
Amanhã, está prometido, dobrar-se-á o tormentoso cabo da metade. Uma boa esperança, espero que não vã:        

«A primeira vez que vi a Brenda, pediu-me que lhe tomasse conta dos óculos. Deu uns passos até à extremidade da prancha de saltos e fitou a piscina com olhos enevoados; até podia estar vazia, que a Brenda, míope como era, não teria dado por nada. Fez uma belíssima entrada na água e, passado um momento, estava a nadar de regresso à margem da piscina, a cabeça, de cabelos curtos e acobreados, erguida no prolongamento do corpo como uma rosa na ponta de um caule comprido. Içou-se para a margem fazendo deslizar o corpo e veio ter comigo. – Obrigada – disse, de olhos aquosos mas não por causa da água. Estendeu a mão e pegou nos óculos, mas só os pôs depois de virar costas e começar a andar. Fiquei a vê-la afastar-se. De repente apareceram-lhe as mãos atrás das costas. Agarrou os fundilhos do fato de banho com o polegar e o indicador de cada mão e com um gesto rápido repôs no lugar a carne que tinha ficado à vista. Ferveu-me o sangue nas veias.
Nessa noite, antes de jantar, telefonei-lhe.
»
Philip Roth, “Goodbye, Columbus”, Goodbye, Columbus e cinco contos, pág. 15.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, 2012, 304 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Goodbye, Columbus; 1959.]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os preços

Já aqui tenho elogiado algumas editoras que têm vindo a recuperar os grandes nomes da literatura universal, editando as suas obras até hoje inéditas em Portugal (ou caídas no olvido rumo aos alfarrabistas há dezenas de anos). Por mera preguiça, não fui verificar os meus escassamente incontáveis textos anteriores, e já não sei se a Ulisseia, agora chancela do grupo editorial Babel de Paulo Teixeira Pinto, já foi vítima dos meus elogios ou agraciada com a minha descomprometida verrina. Todavia, recorro à depauperada memória mais fresca para informar que a dita já foi objecto sacrificial por louvor aquando da publicação recente do Ham on Rye de Bukowski, com tradução do meu amigo invisível (apenas blogosférico) Manuel A. Domingos – o problema da coisa, isolamo-nos atrás destes muros cintilantes de cristais líquidos, e cremos que somos imensamente apreciados e até populares, apesar de o infalível contador não deixar a sombra de uma dúvida.
Volto à Ulisseia, trazendo-a ao pelourinho do aplauso pelas obras entretanto publicadas, com especial destaque do viciante deleite que retiro da leitura lenta e cuidada, quase como um meticuloso exercício de degustação, de Break It Down – Demolição da autora norte-americana Lydia Davis – a “ex” do Paul Auster, a sua companheira de viagem em tradução por França no início dos anos 70 do século passado (não sei se, com ele, ficou a conhecer o mestre Beckett), compartilhadora da fome que o judeu de Newark descreve nos suas memórias, e mulher entre 1974 e 1978, mãe do agora atinado (creio eu) Daniel Auster –, com uma tradução, que até chateia pela irrepreensibilidade, pelo nosso guardião do universo borgiano, José Mário Silva. [Frontispício da obra, acima reproduzido.]
De minha parte, enquanto leitor passivo – de nenhuma forma participante na elaboração da política editorial da referida editora –, espero que se continue a traduzir a obra desta autora, até há bem pouco tempo passível de ser conotada (e luso-conjecturada) com a mulher do intangível criador de vestuário desportivo, com lojas abertas ao público. E, como refere José Luís Peixoto no prefácio a este livro de histórias breves quando refere a tradução, também eu sou defensor do primeiro lado [cf. subcapítulo ‘Prefácio’ do “Prefácio”, de Break It Down – Demolição], e apugilista dessa prática (pronto a defender a ideia num ringue de boxe à laia de um Mailer a levar uns ganchos mortíferos de Vidal – e não me enganei, e até faço um apelo à Porto Editora para que na próxima revisão do seu dicionário introduza o vocábulo tão ouvido nas tertúlias erudito-futebolísticas deste país), que afinal é bem mais habitual em Portugal.
Gostaria de ter terminado o texto no parágrafo anterior, mas o título impede-me, apenas por uma questão de pudor (prefiro-o, neste caso, à honra): duzentas e cinco páginas impressas em edição brochada custam dezanove euros e cinquenta cêntimos – dezanove cêntimos a folha impressa. Considero um verdadeiro exagero e abstenho-me de enquadrar a questão na conjuntura socioeconómica do país (pois bem, acabei de o fazer). Aliás, sem ter feito uma exaustiva análise comparada, a generalidade dos livros da Babel merecem que os preços sejam sovados…
Máxima surfista modificada e aumentada: destruam os preços e não os livros (e a carteira de quem os compra).

sábado, 6 de novembro de 2010

Um Passo

Por muito lixo traduzido que continue a proliferar pelos escaparates das livrarias portuguesas, é inegável, sem necessidade de recorrer a métodos econométricos para confirmar a hipótese, que o mercado editorial português tem melhorado significativamente no que se refere à publicação de títulos de autores estrangeiros há muito consagrados na literatura universal. Não associo, contudo, este fenómeno de melhoria à concentração de inúmeras editoras em grandes grupos económicos – aliás, seguir por esse caminho, como justificativa, poderia redundar na mais acerba das minhas críticas em forma de texto, apresentando alguns exemplos de casas editoriais, outrora respeitadas, que de momento pouco produzem e que, ao invés de expandir a sua carteira de obras literárias, têm deixado cair ao nível extremo da indigência os direitos de publicação que possuem dos seus mais eminentes autores e limitam-se a republicar, com um restyling, as obras que já, por vezes há décadas, dispunham no seus stocks livreiros.
Por diversas vezes salientei aqui o fantástico trabalho da neófita Ahab, do trabalho da Quetzal em trazer as obras de ficção nunca antes publicadas no nosso país de figuras de topo da literatura mundial, do exercício da liberdade editorial como política de excelência da Antígona, mas há mais. Já temos neste país imediatista, e citando apenas alguns nomes que agora vêem a luz do dia em português de Portugal: Bukowski, Pynchon, Fante, Gaddis, Denis Johnson ou Cheever. Foram editadas algumas (ainda não todas) das obras mais marcantes de Hamsun, DeLillo, Bellow ou Updike. Faltam muitos outros, mas porventura não convém ralhar nesta casa de pobre (talvez não consiga evitar) – as migalhas já são substanciais, estão, por isso, em vias de mudar de denotação.
O pouco do muito que falta – «não está traduzido em português. Este artigo é uma ternurenta forma de pressão (de que estão à espera, miseráveis?)», Rui Catalão na Ípsilon referindo-se à não edição em Portugal do glorificado segundo e último romance (completo) escrito pelo tristemente desaparecido David Foster Wallace – já poderá ser objecto de comemoração, mas sem excessos para que não prolifere a tradução asinina, traidora e mesmo até assassina da arte literária, potenciados pela pressa da corrida ao escaparate. E não é só DFW, autores como Norman Rush, Malamud, Vollmann, Matthiessen ou Barthelme continuam sem ver a luz do dia na literata Lusitânia, e o que dizer então de Henry James, Thomas Hardy, de Willa Cather ou de George Eliot?
Bom, mas uma excelente notícia surgiu esta semana, materializada no livro publicado pela Ulisseia que é representado pela imagem que adorna este texto. Mais um magnífico pequeno passo que vai engrandecendo aos poucos a nossa parca bibliografia em português de obras consagradas de autores estrangeiros – com a tradução a cargo de um bukowskiano indefectível que muito aprecio e que atesta a qualidade do trabalho realizado: Manuel A. Domingos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mais próximos

As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gaddis

Uma notável recensão. Acabei de a ler há poucos minutos. Não sei se foi ou não foi hoje publicada na edição impressa da Ípsilon – para o caso não interessa, está acessível na rede –, e se a menciono com atraso, isso não lhe retira a pertinência e nem prejudica o propósito destas curtas linhas que aqui pretendo deixar. O texto crítico a que me refiro é de João Bonifácio que discorre, de forma admirável, sobre o mais recente romance publicado pela venerável editora portuense Ahab: Ágape, Agonia (Agapē Agape), quinta e última obra de ficção do escritor norte-americano William Gaddis (1922-1998), terminada no ano da sua morte, mas apenas publicada em 2002.
No quarto parágrafo, Bonifácio, crítico temerário, escreveu uma asserção susceptível de causar algum estrépito na turba dos ungidos pelos literários óleos da lusa mediocridade, decerto com consequências sísmicas nas suas infelizes doxologias, embora JB, muito longe de ser um novato ou crítico inexperiente, haja feito a devida ressalva – não vá o diabo tecê-las e garantir-lhe o enxofre pestilento de mais uma polémica estéril e morrinhenta (adjectivo meteorológico):
«Se nos é permitida a insolência, não nos recordamos de melhor primeiro capítulo que o de abertura de “Carpenter’s Gothic”».
Não foi necessário fazer um grande esforço de memória para me recordar desse capítulo e dos parágrafos que o delimitam; recordação que me fez despertar uma saudade que me irá levar a uma releitura muito em breve. Lembrei-me de um pássaro, o deus ex machina surpreendentemente deslocado para o início da narrativa, mas que deambula estropiado, alma penada num círculo borgiano, ao longo das entrecruzadas e alienadas conversas telefónicas. É um simples e genial desvario literário, que começa assim:
«O pássaro – um pombo-correio ou uma pomba brava? (ela sabia que havia pombos por ali) – esvoaçou pelos ares, sem cor definida, no crepúsculo. Aquilo que ela confundiu inicialmente com um trapo velho bateu as asas na cara do mais novo dos rapazes, que sacudiu a lama da face atingida, agarrou o pássaro e atirou-o para um dos amigos. Este improvisou um bastão com um ramo e divertiu-se a atirá-lo ao ar até ficar pendurado na copa de uma árvore. Depois abanou-a e o pássaro caiu por entre um turbilhão de folhas numa poça de água formada pela chuva da noite anterior. Voltou a agarrá-lo e prosseguiu a sua brincadeira cruel. Parecia um volante de badmington, cujas penas caíam a cada pancada do bastão, até que por fim chocou contra uma placa amarela que assinalava um beco, na esquina da casa onde as crianças costumavam brincar àquela hora do dia.
»Quando o telefone tocou, já ela se tinha afastado e tentava refazer-se do que acabava de presenciar.»
William Gaddis, Gótico Americano, p. 5 [Lisboa: Difusão Cultural, Fevereiro de 1991, 270 pp; tradução de Muriel Alves Brazil; obra original: Carpenter’s Gothic, 1985]
Fante, Stuparich, Solstad, Sherwood Anderson e agora Gaddis, com promessa de reedição da obra atrás referida Carpenter’s Gothic – embora pedisse, egoisticamente, uma troca por pelo menos um dos calhamaços The Recognitions (1955), com quase mil páginas na versão original, ou J R (1975), com mais de setecentas – assim se vai fazendo a Ahab.
Numa época em que o meio editorial português no campo da ficção e da poesia se concentra em três grupos (LeYa, Babel e Porto Editora), há umas pequenas ilhas onde ainda prolifera a qualidade literária e que, acima de tudo, nos garantem a diversidade. A Ahab é a mais recente nesse arquipélago, onde com critério e obstinação vai combatendo os monstros neptuninos informes que foram engordando à custa do filistinismo tão curial à época do lixo metamorfoseado em caracteres impressos em livro ou em bytes numa consola de livros digitais.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Beat to its socks

Pode ler-se, num círculo autocolante aposto à capa da edição portuguesa de mais uma entre dezenas de biografias e livros de memórias sobre o pai beatnik Jack Kerouac, a seguinte frase: «Primeira biografia em português» a rodear o nome do autor biografado, que surge estampado a vermelho e encimando o recorte vazio dos emblemáticos sinais de trânsito que demarcam as estradas norte-americanas.
Apesar de a edição brasileira do mesmo livro datar de 2007, não belisca de forma alguma a veracidade da frase promocional. Na realidade, e nos dias que correm, também no Brasil é a única biografia de Kerouac disponível na língua de Camões.
Para quem conhece outros livros versados sobre a vida do autor de Pela Estrada Fora, para além de alguns factos que, à custa da reiteração, fazem parte do folclore que rodeou aquele bando de desordeiros, toxicómanos, bêbados, pederastas, criminosos (também escreviam livros e pintavam), e que são do conhecimento de alguém com o mínimo interesse na coisa literária, especialmente na literatura americana da segunda metade do século XX, o livro de Yves Buin é uma síntese de biografias de maior fôlego – cito as do lynchiano Barry Gifford e a de Gerald Nicosia, que aliás são profusamente referenciadas por Buin ao longo do texto; como os testemunhos oculares escritos pelos companheiros de viagem do próprio biografado, também eles parte integrante do ruidoso movimento Beat: destaco, neste caso, as obras de John Clellon Holmes ou as de Joyce Johnson (Glassman), assim como as referências cruzadas da omnipresente Carolyn Cassady (mulher de Neal Cassady durante quinze anos e mãe dos seus três filhos – o inspirador do magnum opus de Kerouac, na pele de “Dean Moriarty” – e vértice de um sórdido triângulo luxurioso completado por aqueles).
A obra apresentada por Buin é um apanhado, como uma súmula académica pronta a servir de única base de estudo ao estudante mais indolente, da tortuosa biografia de Kerouac. O livro do pedopsiquiatra francês – e é curioso o prefixo profissional, já que, no auge do movimento cultural retratado, o biógrafo poderia ter sido de uma utilidade ímpar pelos diversos traumas decerto infundidos por aquele bando a inúmeros potenciais clientes – em nada acrescenta ao já publicado, para além de, por um lado e porventura num esforço de síntese, funcionar como um repositório de nomes sem qualquer referência biográfica (prática comummente conhecida por name dropping, que pode ser bem mais viciante que o consumo de yage), e, por outro, se tratar de um texto cronologicamente confuso, sem um marco histórico definido, com recurso a analepses e prolepses consecutivas, que por vezes faz distar dois parágrafos em duas ou mais dezenas de anos. E para dar o remate final poderia trazer à colação a objectividade do investigador que, na prática, sai prejudicada por uma longa narrativa que espremida se assemelha a uma espécie de elegia ao inocente mago literário canuck, apesar de nela se evidenciar uma posição íntima, como um severo ralhete paternalista, de censura pelos excessos cometidos.
Mas o pior não está no texto publicado originalmente pela Gallimard em 2006. A sua edição portuguesa é um verdadeiro desastre: uma tradução miserável, o que indica uma revisão literária ausente ou negligente. Ao longo das trezentas páginas não há um par que não escape a, pelo menos, um erro ortográfico e/ou de sintaxe, e até a um enxame de erros nitidamente tipográficos. É simplesmente inadmissível e ultrajante para o leitor luso, aquele que, em vias de extinção, gasta os seus parcos recursos na aquisição de uma obra com esta especificidade literária, apresentar um livro cujo chorrilho de asneiras torna quase impraticável a sua leitura. Se há casos em que mesmo uma má tradução não implica inexequibilidade da leitura, este seguramente que não é um deles. Muito do que foi dito nos parágrafos anteriores poderá, admito, advir do estado de irritação crescente à medida que me fui embrenhando no livro – erros de género e de número, então, são aos magotes, assim como, é assaz perceptível uma espreitadela, talvez à laia de muleta, na edição brasileira, bem patente no emprego de alguns termos apenas usados por terras de Vera Cruz. Aos responsáveis da editora atrevo-me a lançar um desafio: retirem, rápida e prontamente, a 1.ª edição do mercado, façam uma revisão literária, remodelem a capa com a aposição de uma frase do género “nova tradução” ou “2.ª edição revista”.
A beatitude lusa compadece-se destes casos, sem que se vislumbre qualquer hipótese de usar o qualificativo como um catalisador do engrandecimento do espírito, como defendia Kerouac e Clellon Holmes para a sua embrionária geração; talvez fosse preferível começarmos por adoptar e a adaptar, de uma vez por todas, como uma fatalidade, a origem do termo criado, em primeira mão, pelo beatnik Herbert Huncke, neste caso como a nação estéril, derrotada ou prostrada: beat to its socks.
Referência bibliográfica:
Yves Buin, Jack Kerouac – Biografia. Lisboa: Bertrand, Abril de 2010, 301 pp; tradução de Ana Godinho; obra original: Kerouac, 2006.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Bellow ao quadrado

Foi apenas hoje que, enquanto perscrutava os escaparates de uma livraria concorrente, mais asseada, diversificada e arrumada, para somar à minha onerosa (de certo modo, utópica) lista de desejos para os Dias do Aderente Fnac nas próximas quinta e sexta-feira – nos tempos que correm, não são despiciendos os 19% de desconto sobre o preço de capa –, reparei numa nova edição de um romance de Bellow no mercado editorial português. Trata-se do admiravelmente urdido Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak, 1987), talvez o último romance de grande fôlego do autor canadiano de nascença, embora americano crónico desde tenra idade.
Bellow é responsável por um dos mais saudáveis dilemas no meu habitual e íntimo exercício de classificação da obra de um autor em que pelo menos dois terços daquela hajam passado pelo meu crivo estético-literário; e esse dilema mostrou o seu aspecto de dolorosa indecisão – como se escolher um romance em detrimento de outros se tornasse um caso de vida ou de morte, talvez uma vacuidade neste mundo filistino, a tender inexoravelmente para o absoluto do qualificativo – quando na minha passagem relâmpago pelo Facebook (a um ano de distância a desistência após três meses afigura-se-me cada vez mais como um acto prudente e ajuizado, um bem-haja para mim) me propuseram que, à queima-roupa, postasse uma listagem com os meus 10 ou 15 romances preferidos, sem muito pensar ou discernir para não contaminar a imposta espontaneidade. Assim o fiz e de imediato fui criticado, porque para além de ter efectuado trabalhos manuais de “copiar e colar” de um texto que havia escrito há alguns anos, tive de colocar um asterisco à frente da obra de Bellow porque não me conseguia decidir entre três das suas obras como a minha favorita, por onde vagueava com firmeza a acima mencionada; e, assim, a que figurava no arrolamento tornava-se perfeitamente intermutável com as outras duas, sem que a tal lista corresse riscos de desmoronamento por atentado à integridade da minha curta reflexão.
Mas voltemos aos escaparates da dita livraria, verifiquei com surpresa que a Quetzal editou o Morrem Mais de Mágoa, com nova tradução, quando uma outra de responsabilidade da editora Livros do Brasil circula ainda sem rupturas no mercado, com uma excelente tradução (aliás é seu apanágio) de Fernanda Pinto Rodrigues – e não é de todo necessário entrar neste caso, e como me parece óbvio, com o critério da pobreza estética das edições antigas da colecção “Dois Mundos” nesta editora (ver imagem) –, recuperando a de 1989 do Círculo de Leitores – jovem de 21 anos. De imediato, averiguei se nas badanas ou na contracapa existia um manifesto sobre a continuidade de publicação das obras do Prémio Nobel da Literatura de 1976. Para meu contentamento, a Quetzal irá continuar a publicar Bellow, embora no meu entender tenha começado mal, e esta apreciação não se prende só com a duplicação de Morrem Mais de Mágoa no, parco em qualidade, mercado editorial luso (a potência do título é hiperbólica), mas com a tríade de obras inacreditavelmente ainda não publicadas em Portugal:
  • The Adventures of Augie March (1953);
  • Humboldt’s Gift (1975);
  • The Dean’s December (1982).
E depois, nada me garante que as que se seguem não sejam aquelas que duas editoras, agora do grupo LeYa, a Texto e a Teorema, tinham vindo a publicar de forma sistemática desde o ano 2000, antes da mediática aquisição.
E para terminar, mais uma pequena irritação – apenas aplacada pela exposição do primeiro parágrafo desta notável obra, logo a seguir –, desta feita, julgo que de origem tipográfica, na badana da capa da nova edição, Bellow viveu quase 100 anos, nasceu na província do Quebeque, no Canadá, em 1905…

«[O] ano passado, quando atravessava uma crise na sua vida, o meu tio Benn (B. Crader, o famoso botânico) mostrou-me um cartoon de Charles Addams. Era um cartoon trivial, bom para um sorriso, mas o Tio estava embeiçado por ele e queria discuti-lo minuciosamente. A mim não me apetecia analisar um cartoon. Ele insistiu. Mencionou-o relacionando-o com tantas coisas que me irritei e encarei até a ideia de mandar emoldurar o mamarracho e oferecer-lho no dia dos seus anos. Pendura-o na parede e livra-te dele, pensei. De vez em quando, Benn conseguia bulir-me com os nervos, daquele modo que só uma pessoa que ocupa um lugar especial na nossa vida consegue. Ele ocupava, sem sombra de dúvida, um lugar especial. Eu amava o meu tio.»
Saul Bellow, Morrem Mais de Mágoa, p. 7 [Lisboa: Livros do Brasil, 1990, 353 pp.; tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.]

quinta-feira, 22 de abril de 2010

É pau, é pedra (corrigido)

É a literatura a descaminho.
Não são, felizmente as Águas de Março, fechando o Verão, mas os seus Meados no hemisfério Norte que anunciam a Primavera – época de bulício da natureza e do alvor de uma vida que se renova, ou quase…
Em Portugal, é também significado de livros em catadupa – não há carteira que resista à torrente livreira de frontispícios engalanados com prémios e encómios expelidos, como cinzas vulcânicas – que actual – por gente validada. Novidades editoriais. Livros fechando o Inverno da modorra comercial pós-natalícia.
Vejamos. Surgiu o incensado Booker de Mantel, e já se anuncia (para amanhã) o Submundo do notável DeLillo. Publicou-se em simultâneo mundial o mais recente de McEwan; chegou finalmente, com atraso de décadas, a fazer jus à instituição do título que a designa, o(s) Correios de Bukowski (Post Office, 1971)*; ou o Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson. Biografias de Kerouac e de Orwell, e mais uns ensaios deste último. Um Bolaño fraquinho, porém inédito. O Hooligan de Manea. Tolstói e Turguéniev (ou Turguénev, vá lá entendam-se, doutos do cirílico russo, quanto à transliteração do mais ocidental dos seus filhos literários oitocentistas) a rodos. A última compilação de contos do recentemente desaparecido Updike, quando se anuncia o Volume II dos contos de Cheever pela Sextante. Reedição do 2.º romance de Auster (data de 1987), negro, sombrio e devastador, que mesmo a ilustrada Moura Pinheiro apresentou como novidade do autor de Newark. O alter-ego de Banville para os policiais. Antes disso houve Jean Rhys, Coetzee, e Valter Hugo Mãe, nos portugueses apreciados. E, por fim, o destaque para o regresso de Martin Amis à grande literatura, com A Viúva Grávida (The Pregnant Widow), publicado em Fevereiro em Inglaterra e apenas dois meses depois em Portugal (edição Quetzal, saúde-se):
«O único romance que ela elogiava sem reservas era Meados de Março1. Porque Lily era uma criatura do mundo mediano.»
Martin Amis, A Viúva Grávida, p. 42
[Lisboa: Quetzal, Abril de 2010, 533 pp.; tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro.]
Talvez tenha havido uma electrocussão arbórea – raios cataclísmicos das águas de Março, conduzidas à terra pelo tronco enraizado –, porque a nota do tradutor “1”, postada logo após “Meados de Março”, remete-nos, em pé de página, para Middlemarch. Um caso de gravidez literária, com viúvas mas sem hiatos e herdeiro, porque histérica – abusando, sem remorsos, das águas correntes de Herzen (1812-1870).
Naquele excerto, Amis procurou jogar ironicamente com as palavras, na descrição da activista igualitária de género Lily, conjugando-a com a leitura compulsiva dos clássicos da literatura inglesa por Keith – personagem principal do romance e seu namorado, projecção do autor (mas não o seu superego, essa é outra história): trocadilho entre “Middlemarch” e “middleworld” (esta última traduzida por “mundo mediano”), em que a primeira surge sempre grafada com maiúscula e é citada em várias ocasiões ao longo das mais de quinhentas páginas que compõem a obra.
Ora, o inventivo e esdrúxulo Meados de Março é, tão-só e somente, a obra-prima da escritora vitoriana George Eliot (pseudónimo de Mary Anne Evans, 1819-1880), traduzida para português há várias décadas – recentemente reeditada pela Portugália, com prefácio de Jorge de Sena – como A vida era assim em Middlemarch. Pois, Middlemarch é uma vila ficcional criada por Eliot onde decorre a trama do romance entre 1830 e 1832, que a autora localizou nas Midlands inglesas (zona geográfica central de Inglaterra, entre as zonas norte e sul do país) – obra considerada por Amis, como o melhor romance de língua inglesa.
Se a moda pega, passaremos a ter mais literalismos proparoxítonos, como por exemplo, “Sussex” por “Sexo da Sue”, ou “Cornwall” por “Muro de Milho”, ou até “Blackburn” pelo intolerante e cruel “Queima de Negros”. E não se procurem exemplos sancionadores da asneira, por exemplo, Eugenides, com o seu Pulitzer Middlesex, não é para aqui chamado, porquanto, em boa verdade, o hermafroditismo é a base do seu romance.
E assim vamos andando, rindo e cantando neste acabrunhado país, onde a capital, a imensa cidade-prelo – como significação da fuga e da concentração nesse local, banhado pelo Tagus e o seu Straw Sea, das editoras nacionais –, poderá a partir de hoje literalizar-se em “Hornylily” – curiosamente a tal personagem do “mundo mediano” de Amis, que percorreu a narrativa em “meados” de qualquer coisa –, onde a sugestão de lubricidade poderá funcionar com factor captador de receitas extraordinárias provenientes do turismo anglófono.
Nota – não resisto a postar mais um exemplo sublime de confrontação entre a ficção (no que respeita ao romance inglês) e a realidade ficcionada no romance de Amis, corporizada na batalha dos pensamentos voluptuosos do jovem Keith perante Scheherazade e Gloria (mamas e rabo, respectivamente), com mais um exemplo de literalismo (pelo menos, felicite-se, há coerência do princípio ao fim):
«“E nunca te hei-de perdoar pela Rosamond Vincy”, disse ela [Lily] (retomando a discussão deles acerca do romance por ela preferido – Meados de Março). “Está lá a bela Dorothea, e tu vais atrás daquela cabra gananciosa da Rosamond Vincy. Que arruina [sic] o Lydgate. Badalhocas e vilões. É só disso que tu agora gostas – badalhocas e vilões.”» (p. 386)
*[Correcção, 23/4 às 11:10] Fui, felizmente, alertado por e-mail para um erro de facto cometido neste texto: a primeira publicação em Portugal de Correios de Charles Bukowski é de 2002 e foi da responsabilidade da extinta editora Canguru, com tradução de Marisa Mourinha. Apesar de a referida publicação ter escapado ao conhecimento do grande público – no qual me incluo, sendo um grande admirador da obra do impetuoso autor germano-americano –, isso não invalida que não se corrija o erro (crasso) que aqui cometi, ao referir-me, de forma indirecta, ao carácter inédito da publicação de 2010 da Antígona, com tradução de Rui Lopes.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Infinidades

Moderada e incoerentemente publicado em Portugal, não é de surpreender que o último romance do já sexagenário escritor irlandês John Banville (n. 1945) não seja notícia ou, pelo menos, objecto de bulício literário no meio editorial nacional – dois advérbios de modo a abrir o texto para provocar estrondosos arrepios aos escrupulosos guardiães da língua portuguesa, e (ai, e a vírgula a seguir à conjunção copulativa…) por, gramaticalmente, ser tão ao gosto do autor em questão (suponho ser dele a maior sucessão de advérbios de modo que pude ler numa obra de ficção, em cujo uso García Márquez manifestava uma enorme repulsa ou, pelo menos, relutância, embora os haja utilizado profusamente na sua primeira autobiografia, Viver para Contá-la).
Em 2005, Banville vence inesperadamente o seu, por enquanto único, Booker Prize, com a novela, mascarada de romance, por jeito regulamentar conferido pelo júri do mencionado galardão, O Mar (The Sea; entre nós publicado(a) em 2006 pela Asa – na altura, editora símbolo do orgulho literário e da independência literária portuenses –, ainda fora do caldeirão LeYa), num ano cujo sexteto finalista foi até hoje, na minha única e inderrogável perspectiva, um dos mais ilustres desde 1969 (annus mirabilis em que o Booker começou a ser atribuído).
Mas a literatura irlandesa tem sido um problema luso. Beckett, Joyce e, em certa medida, Bernard Shaw à parte e nas suas épocas, continuamos a publicar de forma episódica e errática os grandes autores contemporâneos do país da Harpa Gaélica. Se Portugal contasse no mercado editorial mundial, Banville até nem teria muitas razões para se queixar pelo constatado esquecimento hibérnico que assola o cantinho literário luso; lembremo-nos, por exemplo e para citar apenas alguns dos mais recentes ou contemporâneos, Sebastian Barry ou Colm Tóibín ou até mesmo, vogando para terras do Ulster, pelo mundo dos mortos e por tempos mais remotos, o aclamado Flann O’Brien (1911-1966), pseudónimo mais reconhecido de Brian O’Nolan, cuja obra-prima, assim universalmente considerada, At Swim-Two-Birds (1939) continua por publicar no mercado nacional, onde na sua algaraviada deprecatória se ouvem os sons abafados da ainda 6.ª língua mais falada em todo o mundo.
Mais de quatro anos volvidos, Banville volta a publicar um romance, libertando-se do seu heterónimo (pelo menos, nas suas confissões, pressentem-se os sintomas de desmultiplicação do eu, processo eminentemente pessoano) Benjamin Black. Banville é um autocrítico implacável, duro e, por vezes, tão severo, que as suas palavras autodepreciativas roçam os cenários conjecturais mais hórridos da autoflagelação. Black é prolífico, simples, redutor e escreve romances policiais, cujas palavras surgem como torrentes – segundo confissão do próprio – erigindo como epítome o belga, literariamente fértil, Georges Simenon e a obra das obras La neige était sale (1948), na opinião do escritor irlandês.
Por agora, jaz, constrangido, na minha pilha dos livros de leitura futura, a novel edição da Asa do primeiro romance de Black na era de fecundidade do alter-ego de Banville – O Segredo de Christine (Christine Falls, 2006). A seu tempo apreciá-lo-ei palavra por palavra, arabesco por arabesco. Todavia, para um banvilliano confesso, por maior que seja o menosprezo do próprio autor pela sua obra publicada – que se fosse outro a dizê-lo, lembro-me por exemplo de Auster, seria interpretado como um exercício da mais descarada forma de auto-indulgência de apelo à piedade pelo desgraçado –, os sintomas de ressaca de banviallina já se manifestam, catalisados pelo nervo óptico, tal é a quantidade de lixo estrangeiro que, hoje em dia, por aqui se publica. Só quem não leu o devastador, melancólico e sombrio (pois claro, está no título) Eclipse (2000) ou, por exemplo, os concatenados O Livro da Confissão (The Book of Evidence, 1989) e Fantasmas (Ghosts, 1993), é que pode vituperar estas curtas linhas de pura e irrestrita afeição literária.
Banville, o artista perturbado com o seu passado literário, lançou mão do seu predilecto e fonte de inspiração Heinrich von Kleist (1777-1811), baseando o seu romance mais recente na peça de teatro burlesca Anfitrião (Amphitryon, 1807), que o ilustre e desassossegado alemão foi beber à fonte inexaurível de Molière, que já vinha do romano Plauto, precedido, segundo se diz (não existe escrito), pelo génio criativo do grego Sófocles. O romance chama-se The Infinities, usando como referência a imortalidade olímpica.
Eis um pequeno excerto (1.º parágrafo) da, por agora, elogiadíssima obra, com tradução cá da casa – apesar do temor (e tremor) inicial em arruinar (dantescamente condenado às chamas do círculo nono do Inferno, traditore) as palavras etéreas que saem daquela pena:

«De entre as coisas que criámos para que eles se possam sentir desassombrados, o alvorecer é a que funciona melhor. Quando a escuridão é coada pelo ar, como suaves e finas partículas de pó, e a luz começa a espalhar-se, vagarosamente, a partir do Oriente, nesse instante todos, excepto os mais miseráveis entre a humanidade, recobram forças. É um espectáculo que nós, imortais, desfrutamos, esta pequena ressurreição diária; muitas vezes juntamo-nos nas muralhas das nuvens e fitamo-los, os nossos pequeninos, à medida que se agitam para acolher o novo dia. Que silêncio, então, se abate sobre nós, o triste silêncio da nossa inveja. Muitos deles continuam a dormir, claro, alheados do encantador truque matutino da nossa prima Aurora, mas há sempre os insones, os enfermos agitados, os mal-amados a dar voltas nas suas camas solitárias, ou apenas os madrugadores, os atarefados, com os seus alongamentos, os seus duches frios e as suas chaveninhas aparatosas de ambrósia negra. Sim, todos aqueles que o testemunham saúdam o alvorecer com alegria, ou quase todos, se exceptuarmos, claro, os homens condenados, para quem a primeira luz será a última sobre a Terra.»
John Banville, The Infinities, p. 1 [tradução livre: AMC, 2010]
[London: Picador, September, 2009, 304 pp.]

Um mimo simbolicamente banvilliano (ou banvillianamente simbólico?)
Obras de John Banville editadas em Portugal, organizadas cronologicamente (data de publicação da obra original), da mais antiga à mais recente:
  • Doutor Copérnico (Dom Quixote; obra original: Doctor Copernicus, 1976) – inacreditavelmente, sem seguimento com as restantes duas obras que completam a “Trilogia das Revoluções”, literatura e ciência: Kepler (1981) e The Newton Letter (1982);
  • O Livro da Confissão (Quetzal; obra original: The Book of Evidence, 1989);
  • Fantasmas (Dom Quixote; obra original: Ghosts, 1993): neste caso, ficou por publicar o último livro da sua segunda trilogia, “Frames” – dada a carga semântica deste título, optei por o deixar em inglês, porquanto se refere não só à simples “moldura” de um mero quadro (roubado pelo omnipresente e brutal narrador no 1.º livro), como também à “urdidura” ou “trama”, bem como ao referencial temático da relação entre a arte (pintura) e a literatura, intertextualidade e descrição minuciosa do objecto artístico –, trilogia, então, constituída por este e pelo livro precedente, e ainda pelo não publicado Athena (1995);
  • O Intocável (Dom Quixote; obra original: The Untouchable, 1997);
  • Eclipse (Ulisseia; obra original: Eclipse, 2000);
  • O Impostor (Ulisseia; obra original: Shroud, 2002);
  • Imagens de Praga: Retratos de uma Cidade (Asa; obra original: Prague Pictures: Portrait of a City, 2003);
  • O Mar (Asa; obra original: The Sea, 2005);
  • O Segredo de Christine (Asa; obra original: Christine Falls, 2006) – publicada sob o pseudónimo Benjamin Black.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Do país em que foi mesmo a última

E por fim, reedita-se em Portugal (pelas mãos da Asa, o que outrora fora da Presença) o único romance de Paul Auster que, caso dotado da sua singularidade lusa, não se encontrava acessível em português europeu aos novos leitores, a não ser através do acervo literário das bibliotecas ou, com alguma sorte, do stock dos alfarrabistas.
Trata-se da obra No País da Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987), o 2.º romance do autor de Newark, publicado originalmente no mesmo ano em que se forjava – reunião num só volume de três histórias – a sua obra mais emblemática, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987) e que, ainda hoje, serve de diapasão para a sua restante obra e retém uma horda de fanáticos espalhados por todo o mundo, especialmente na Europa não anglófona.
Eis a distopia de uma das mais marcantes personagens de Auster, Anna Blume – que, de quando em vez, surge nas suas deambulações auto-referenciais e metaficcionais noutros romances mais recentes –, em busca do irmão misteriosamente desaparecido numa região sem nome, inóspita, devastada pelos inescapáveis vícios da natureza humana.
No País das Últimas Coisas lê-se de um só fôlego, austero – e austeriano, dois qualificativos que o acaso tornou sinónimos –, intimidante e comovedor. Em jeito de confissão, este foi um dos poucos livros em que profanei, pela exasperação da lentidão editorial nacional, o meu princípio de leitura de obras literárias de ficção “apenas em português”, porquanto o castelhano e o inglês são parte obrigatória das minhas leituras profissionais diárias, e prazer e trabalho não se coadunam com o meu sentimento de paz de espírito alcançado com a leitura de um bom livro.
Nota (à laia de conselho estafado): para os exegetas da literatura comparada e que pela primeira vez terão o privilégio de acesso à obra, suponho ser desnecessário cotejar esta com as de Houellebecq (A Possibilidade de uma Ilha), Atwood (Órix e Crex – O Último Homem) e, mais recentemente, de Cormac McCarthy (A Estrada); em primeiro lugar, pelo desfasamento temporal – quase vinte anos – entre esta e aquelas, e depois, segundo o mesmo critério, pela catalogação – com a já experimentada intenção de a menorizar – desta na “moda dos romances distópicos”, sem referir, por exemplo, as antecessoras de Huxley, Orwell ou Bradbury, e sem que haja, todavia, a real necessidade de alargar o espectro às de intervenção alienígena, tendo por epítome Wells.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um DeLillo por Bolaño

Ele é por e-mail, por banners publicitários em flash, por blogues arregimentados à causa comercial sob a capa do prazer estético-literário, por t-shirts, pins, marcadores ou posters com a cara cadavérica do sujeito, pela conversa de circunstância leitor-livreiro de pseudo-douto-aconselhamento, que só falta mesmo o papel higiénico Renova negro de folha dupla com o fácies do malogrado escritor chileno chupando sofregamente um pitillo, enquanto profere “por favor, ler antes de borrar” (e aqui deixo ficar bem vincado um apelo à semântica pela inquietação que me provoca a queda na boçalidade), que, por vezes, dou por mim a odiar o que não se pode, ou melhor, o que não se consegue execrar pela destreza literária, a genialidade rara de uma prosa assombrosa. E, acrescente-se a tudo atrás relatado, com um nome inconcebível, um trava-língua principalmente para a mais pachorrenta ou adormecida no piedoso mutismo: Roberto Bolhanho… perdão, Bolhano… hum, hã… Bolano, Bolaño? ¡Eso es! Não se pode desdenhar do que, efectivamente, se gostou com um frémito de puro deleite e que, além de mais, até se traduziu de forma selvagem neste espaço irascível: “A Praia”, ou “A Cozinha Literária de Bolaño”.
Vem aí o Terceiro Reich, mas para ser sincero, o momento pede que me embrenhe no Submundo do também aliterante Don DeLillo, com ou sem bunker bafiento e uma Walther PPK para apressar a coisa, prometido há meses pela Sextante, mas até agora sem quaisquer resultados práticos.
Será que, após a compra da casa liderada por João Rodrigues pela Porto Editora, o dito cujo ficou esquecido no prelo, pronto a ser devorado por ratazanas e crocodilos (com a devida vénia a Pynchon) letrados e recenseadores que pululam nas correntes subterrâneas do meio editorial português?
[feedback] Pede-se a comparência à secção de “ménage” de Benny Profane [som de fundo: uma canção dos Keane à escolha do leitor].
Nota: na imagem, ao centro, figura um Araripesuchus rattoides que habitou a terra no período Cretáceo (sucedeu o Jurássico) da era geológica do Mesozóico, mais conhecido por “ratcroc”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Start spreading the news...

Vivo no presente, e os inexoráveis saltos e sobressaltos que o futuro traz a esta actualidade – que não é a mesma desde que comecei a escrever este texto vacilante, tal como a vontade de o acabar – obrigam-me a corrigir determinadas excitações incisivas perpetradas num passado recente, embora, muitas vezes – como é o caso –, não se revistam dessa qualidade de um paroxismo efervescente, mas de uma mais tranquila irritada constatação – a antinomia, tal como a idiotia, tem os seus malefícios; pelo sucedido peço perdão.
Bertrand, loja das Antas, por volta das 17 horas do dia de ontem. Corri os olhos pelo espectáculo multicor de capas, lombadas, brindes e cartazes sobredimensionados de autores ufanosos por ostentarem a sua prima do mestre-de-obras, com uma voracidade inaudita, sentindo o fôlego entrecortado, o coração em arritmia, a adrenalina a esvair-se como o pó pelas narinas sôfregas de Keith Richards, e detive-me na secção das “novidades” – acho que deverá estar próximo o futuro, que se fará anunciar por uma apocalíptica trombeta joanina, em que irei ver uma livraria com 500 metros quadrados de área útil cujas estantes apenas estarão forradas de novidades… saídas do prelo ontem, tal é a vertigem editorial nos dias que correm em Portugal. Encontrei-o. De capa azul celeste de fim de tarde outonal, eis o objecto para confirmação das minhas apreensões literárias. Abri a badana da contracapa e li:

«A publicar: Submundo.» (Sextante Editora)

Mas não fiquei por aí. Também li a ficha técnica e verifiquei que a revisão literária mudou de género – impossibilidade física (esqueçam as cirurgias de reconversão) de coincidir com a de antanho.
Fechei os olhos. Suspirei. Voltei a abri-los. Necessitava, como de pão para a boca de um acto puramente masoquista, pungente como o cilício nas pernas roliças e peludas dos fiéis de São Josemaría Escrivá. Foi então que agarrei no último livro de Nicholas Sparks (exposto aos magotes, como se não houvesse amanhã) e li as primeiras frases… uma tontura, seguida de uma forte náusea deixaram-me à beira do precipício do achaque estético em público, soltando gritos à Castelo Branco – não o da Plácido e da Cadeia da Relação – o outro(a), o José… Tomei uma resolução, e à João Vieira Pinto, dei um passo em frente.
Ponto final.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Aquilo que eu temia

Há mais de um ano quando a neófita e desde logo louvável Sextante Editora entrou na denominada velocidade de cruzeiro editorial – após um arranque atribulado, em que se viu forçada a mudar de nome para evitar possíveis confusões com outras editoras no mercado, e escolheu este que corresponde a uma editora brasileira –, publicaram-se, numa base sistemática, obras originais de autores nacionais, que acabaram mais tarde por ser objecto de atribuição de importantes prémios literários, e optou-se por uma escolha criteriosa de obras, na sua maioria inéditas em Portugal, de autores estrangeiros consagrados. Enquadram-se neste último caso nomes como Cheever, Echenoz, A.S. Byatt, Pasternak, Truman Capote, Le Clézio e o meu mui estimado autor norte-americano Don DeLillo.
Em Novembro de 2007, a Sextante publicava O Homem em Queda (Falling Man), o último romance do ilustre escritor nova-iorquino – pessoa responsável pela epígrafe deste blogue – publicado originalmente em Maio desse mesmo ano nos Estados Unidos, com uma tradução exemplar de Paulo Faria (aliás, em harmonia plena com o seu padrão de trabalho).
Em suma, o meu júbilo pelo anúncio, embora não tenha tido paralelo após leitura pela qualidade do romance de DeLillo  – em boa verdade revelou-se uma pequena decepção –, deveu-se mais à oportunidade temporal da sua publicação – meio ano após a publicação original, o que é raro no meio editorial nacional –, como também pela escolha do mencionado tradutor, Paulo Faria, um dos poucos nomes cuja inscrição nas primeiras páginas de um livro me deixam a firme certeza de não ter de ingerir um (ou vários) Xanax por uma tradução exasperante.
A talho de foice, dada a minha comprovada listomania – que alguém, não me lembro de quem (deve constar de um dos textos deste blogue, cuja bela preguiça não me permitiu encontrá-lo), condenou os colegas listómanos ao padecimento da síndrome de Asperger – apresentarei, num dia destes, uma pequena (dada a escassez de matéria-prima) relação  dos melhores tradutores nacionais.
Na badana da contracapa do dito romance, houve um conjunto de caracteres que se destacou pelo brilho ofuscante da asseveração que aí era produzida, pelo menos para um delilliano (um verdadeiro trava-línguas):
«Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
Assim que li aquela badana, perguntei-me por que motivo se duplicaria a publicação de uma obra [Ruído Branco] que ainda estava perfeitamente acessível no mercado livreiro, na sua versão de 1991 da Presença? Seria pela sua constatada tradução mais que sofrível, encomendando para o efeito a sua retradução a um notável tradutor da nossa praça?
A segunda resposta afigurava-se-me positiva. De facto, a tradução de White Noise (1985) de Rui Wahnon, tal como ocorreu com a de Libra (1988), é de exasperar um santo bibliófilo, moderadamente apreciador das obras de DeLillo. E o mercado literário e os seus consumidores só têm a ganhar com traduções posteriores que procurem corrigir as traduções existentes e com isso captar, de forma mais eficaz, a verdadeira essência, o espírito que o autor emprestou à obra.
Ruído Branco é, na realidade, um romance arrebatador, profundamente envolvente, admirável na gestão das expectativas do leitor, no recobro do seu fôlego, em suma, é uma obra genial engendrada por um colosso literário. Das oito* entre as catorze obras de ficção escritas por Don DeLillo – deixando de parte os contos e as peças de teatro – que tive a feliz oportunidade de ler, aquela é, sem sombra de dúvida e na minha pessoalíssima opinião, a melhor obra do autor de Nova Iorque, com a qual, este, até aos dias que correm, venceu o seu único National Book Award (o de 1985).
É oficial. Acabei de receber a informação enviada pela própria editora:
«Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»

Aconteceu o que temia depois de ler aquela badana, cuja informação transcrevi. Underworld, considerada a magnum opus de DeLillo, iria ficar para segundo plano. E esta predição baseou-se, essencialmente, em dois factores:
  1. As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
  2. A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).

Mas o choque foi ainda maior, quando no dito auto de notícia pude ler «Tradução do inglês / por Rui Wahnon». Ai, não!
Resta saber se rectificada pelo próprio que, é justo dizer-se, partilhou responsabilidades com o trabalho de revisão de um talvez adormecido Fernando Cunha Rebelo, ou dissecada por um revisor literário mais atento e conhecedor das falhas da tradução de 91. Se assim não for, pese embora a mudança de editora, trata-se de uma mera reimpressão em casa nova, que não acrescenta nada de positivo à obra traduzida, apenas perpetua o erro; ao invés da recomendável reedição de uma obra-prima da literatura americana traduzida com zelo e mestria que não faça desmerecer esse epíteto em português e que lhe foi merecidamente aposto pela versão original em língua inglesa.
Quanto a Underwold (1997)**, só me resta esperar, de preferência deitado em colchão ortopédico não vá o diabo tecê-las.

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*Nota, obras lidas de DeLillo: Cão em Fuga (1978), Os Nomes (1982), Ruído Branco (1985), Libra (1988), Mao II (1991), O Corpo Enquanto Arte (2001), Cosmópolis (2003) e O Homem em Queda (2007).
**Nota, honras e prémios literários concedidos à obra Underworld: finalista vencido do National Book Award 1997 (perdeu para O Regresso do Soldado – Cold Mountain de Charles Frazier), do Pulitzer Prize for Fiction de 1998 (perdeu para o memorável Pastoral Americana de Philip Roth) e do concurso pontual, realizado em 2006, pelo The New York Times – Best Work of American Fiction of the Last 25 Years (perdeu para Beloved de Toni Morrison, autora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993); venceu o American Book Award em 1988, o Jerusalem Prize (1999), o William Dean Howells Medal (2000) e o Riccardo Bacchelli International Award (2000).