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sábado, 21 de setembro de 2013

Só ele...

«Hoje é o último dia de Outono. Os dias que temos tido têm sido doces, comparativamente. O fim-de-semana passado, agora muito mais passado do que alguma vez antes, foi azul e avesso às nuvens, com o sol desdenhoso do dever calorífico e entregue à vocação, sempre mais show business, da iluminação.»
Miguel Esteves Cardoso, "Acaba o Outono", Como é Linda a Puta da Vida, p. 95.
[Porto: Porto Editora, 2.ª edição, Maio de 2013, 246 pp.]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sátira de um exílio

A Ulisseia acaba de lançar no mercado nacional o primeiro livro da trilogia que finalizou a obra de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor maldito pela sua associação ao governo fantoche do Regime de Vichy durante a ocupação alemã de parte da França entre 1940 e 1944 e pelas suas ideias marcadamente racistas, xenófobas e anti-semitas.
Trata-se de uma reedição há muito aguardada no mercado editorial português – o mesmo livro havia sido publicado pela Dom Quixote em 1992, sob o título De Castelo em Castelo, actualmente encontrava-se esgotado – que recebeu desta feita o título de Castelos Perigosos (D’un château l’autre, 1957).
Castelos Perigosos retrata, em forma de romance, escrito na primeira pessoa, o picaresco do exílio do autor entre 1944 e 1945 em Sigmaringen, no Estado Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, em companhia dos colaboracionistas do governo de Vichy, onde aquele tentava retomar o exercício da sua profissão de médico – Céline era Doutor em Medicina desde 1924, pela École de médecine de Rennes.
A trilogia completa-se com os romances Nord (1960) e Rigodon (1969; publicado postumamente), todos sob a chancela da Gallimard – romances ainda inéditos em Portugal, sabendo-se que, segundo a Ulisseia, a segunda obra da trilogia já se encontra no prelo (ou, pelo menos, na vizinhança da tipografia) sob o título Norte; esperando que a mesma editora venha a publicar num futuro próximo o terceiro volume, ampliando assim a sensatez demonstrada com a publicação dos dois primeiros.
Apesar da profunda náusea e do menosprezo que poderão assaltar a mente mais empedernida, pelo terrível passado panfletário que fizeram do autor um torcionário intelectual, associado a um dos regimes mais hediondos que a História da humanidade jamais conheceu, Céline é quase unanimemente considerado pela crítica e pelos seus pares como um dos melhores escritores franceses de todo o século XX; consideração que em muito contribuíram as suas duas primeiras e notáveis obras, ainda publicadas na era pré-Vichy: Viagem ao Fim da Noite (Voyage au bout de la nuit, 1932; ed. port. Ulisseia) e Morte a Crédito (Mort à crédit, 1936; ed. port. Assírio & Alvim).

Sem conseguir resistir à transcrição, deixo aqui ficar o primeiro e longo parágrafo da obra que deu origem a este texto:
«Para falar com franqueza, aqui entre nós, eu ainda acabo pior do que comecei… Oh! não comecei muito bem… nasci, repito, em Courbevoie, Sena… repito-o pela milésima vez… depois de muitas andanças chego ao fim da vida realmente muito mal… a idade, dir-me-á você… a idade!… pois claro!… com sessenta e três anos feitos, torna-se muito difícil refazer a vida… ganhar de novo clientela… aqui ou em qualquer outro sítio!… já me esquecia de lhe dizer!… sou médico… a clientela médica, e isto que fique entre nós, em confidência, não é apenas uma questão de ciência e de consciência… mas sim, em primeiro lugar, e acima de tudo, de encanto pessoal… encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!… uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!»
Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, pp. 7-8.
[Lisboa: Ulisseia, Setembro de 2008, 362 pp.; tradução de Clara Alvarez; obra original: D’un château l’autre, 1957].


Como dizia o MEC, por outras palavras, mas cujo sentido é o que se segue, se fôssemos a eliminar todos os livros de todos os autores com gigantescos esqueletos no armário – pederastas, nazis, estalinistas, assassinos, toxicómanos, bêbados, adúlteros, burlões, etc. – ficaríamos reduzidos às excepcionais obras de Samuel Beckett, que, segundo ele – e eu confirmo, por aquilo que conheço de um dos meus autores favoritos, residente no meu top-5 literário –, era um santo.
Entretanto, para quem já leu, vai lendo ou faz tenções de ler as obras fundamentais de Pound, Gorki, Bernard Shaw ou Jünger (para não sair da linha acusatória celiniana), este livro não irá legitimar, de forma alguma, a hediondez doutrinária perfilhada pelo autor francês.

sábado, 8 de novembro de 2008

A intimidação dos poderosos

A Destruição do Leviatã, de Gustave Doré, 1865Intróito
Depois de ter lido
isto e isto do Eduardo Pitta no seu blogue Da Literatura, germinou em mim uma vontade incomensurável de falar, de gritar, de exteriorizar a revolta que casos como este e similares me provocam, me revolvem as entranhas e me fazem, por vezes, estiolar em palavras de desprezo perante este país de capelinhas e sacristias, onde uma pequena turba de oligarcas dedilha os fios que fazem mover os nossos braços e pernas como se fôssemos marionetas.
Irei falar um pouco das vicissitudes de um processo desta natureza, eminentemente persecutória, que está escrito nos seus contornos quase kafkianos. E, de seguida, recupero um texto – cujo título original deu o nome ao de hoje –, à laia de ensaio, passe o possível pretensiosismo, que havia escrito, por catarse (outros queriam-no para publicação, a que resisti com alguma veemência, dada a minha indisponibilidade física e mental, não literal, para servir de Martim Moniz), em Fevereiro de 2004. Hoje, ao ler os textos do Eduardo, sabia que o houvera escrito e que estaria arrumado com centenas de outros numa das pastas abandonadas do disco rígido do meu computador; apenas cheguei lá pelo título – neste caso aparece com o subtítulo “Do Poder: a incubação dos medíocres”.

Do Processo
É esta a resignação perante uma coisa cuja denominação há muito deixou de corresponder à sua etimologia (percebe-se no final, pela circularidade).
Um exemplo cabal desse desfasamento materializa-se no processo disciplinar consubstanciado no direito do trabalho. A putativa protecção do trabalhador nestes casos, não passa disso mesmo, de uma presunção de atribuição de determinados direitos de defesa que jamais poderão ser exercidos, quer no campo meramente interno – na condução do processo disciplinar tout court, que cabe única e exclusivamente à empresa dirigir, com um instrutor parcial (de partidário) nomeado para o efeito –, quer no plano externo quando a decisão de despedimento é tomada e se recorre aos tribunais para recuperação do vínculo e de todas as prerrogativas anteriores que a mera existência desse vínculo englobava.
A lei obriga a manifestação expressa do desejo de despedir na, usualmente rocambolesca, “Nota de Culpa”. Findo o processo de inquérito, segue-se o tribunal, com a interposição do procedimento cautelar de suspensão do despedimento. A vitória aí alcançada poderá, segundo dizem, ser um prenúncio para a vitória final, mas quase sempre se trata de um presente envenenado, uma vez que nada mais repõe que não seja o direito à retribuição.
Depois chega a acção declarativa (a chamada de "principal"), o processo de impugnação desse despedimento: a verdadeira tortura. Advogados, petições, juízes, requerimentos, audiências preliminares, tentativas de conciliação, audiência de partes, arrolamento de testemunhas, adiamentos por falta de douta agenda, expedientes dilatórios, etc. Custas, taxas de justiça, preparos, honorários, telefonemas, deslocações… dois anos, na melhor das hipóteses. Em suma, o despedido via processo disciplinar é condenado a pelo menos dois anos de tortura enquadrada nos beneplácitos e nas concessões da monstruosa máquina judicial portuguesa.
Todavia, o pior chega com o impedimento de entrada do visado nas instalações onde durante anos, talvez décadas, exerceu a sua actividade profissional; onde deixou todo o seu suor, as suas ideias, a sua dedicação e natural socialização dentro de um ambiente controlado que, fatalmente, criou uma teia de relações pessoais. É precisamente aí que se inicia a tortura chinesa da difamação e da injúria: dentro das instalações, “no escurinho do cinema” (sem dropes de anis), longe da vista e do coração do terrível aviltador do status quo, sem qualquer hipótese de defesa, inicialmente difundida pelos donos do poder e perpetrada diariamente nos corredores através do boato e da inócua maledicência, e depois propagada até por aqueles que um dia havíamos reputado como colegas de trabalho dignos da nossa confiança e até, em alguns casos, como amigos fora do círculo restrito das relações profissionais. É precisamente aí que ficamos a conhecer, sem hipótese de remissão, a mesquinhez da natureza humana, a baixeza, a vileza, o grau de maleabilidade moral de seres intrinsecamente reptilários.
Já não me recordo de quem o disse, mas louvo-lhe a coragem por haver proferido a seguinte frase: «frequento muito pouco a natureza humana». Atribuo, hoje em dia, um valor imensurável à independência e à sujeição mínima perante uma hierarquia. Como diz o Miguel Esteves Cardoso na última Ler, prefiro ser «autor de mim próprio» nem que isso faça de mim materialmente mais pobre.
Sem conhecer a visada, e tão-pouco vislumbrar a hipótese de algum dia a poder vir a conhecer; sem conhecer o processo em causa, mas divisando, infelizmente, os contornos que por ora assume e que, mais tarde, irá decerto assumir, gostaria de manifestar a minha solidariedade a Joana Morais Varela, que de um momento para outro se viu despojada de um projecto que erigiu e ajudou a retirar, em definitivo, a Colóquio/Letras dos escombros da ociosa intelectualidade lusa.

Do Poder: a incubação dos medíocres
Muitas vezes, a forma mais vil de se obter o poder, ao contrário do popularmente determinado, não é aquela onde se o conquista pela força. Ela advém de um sistema genericamente considerado como o mais “humanamente benigno”, a democracia.
Winston Churchill disse, mais ou menos por estas palavras, que «a democracia é o pior de todas as formas de governo, com excepção de todos as outras que a História já deu a conhecer ao mundo».
A inquietação implícita nesta frase leva-nos ao reconhecimento cabal das falhas dos sistemas democráticos.
Arriscar-me-ia a afirmar que a democracia, na sua fase de maturidade, conduz à alienação das massas, ao triunfo dos medíocres e à permanente insatisfação das franjas populacionais que lutam por ideias de transparência, honestidade e de desenvolvimento sustentado da condição humana.
Cada acto eleitoral deveria corresponder a um acto de renovação da esperança dos eternos insatisfeitos com a classe governativa. Quando falo de classe governativa não me circunscrevo àquela que administra e representa os destinos da nossa pátria, seja ela qual for. O conceito é mais abrangente, incluindo as micro-relações de poder que vamos enfrentando na nossa vivência quotidiana.
O respeito pela democracia plena determinaria “1 Homem – 1 voto”. Empiricamente, afigura-se-nos como a solução mais generosa no sentido de garantir a participação plural de todos os membros que compõem uma dada comunidade ou uma dada organização no processo de tomada de decisão. Todavia, o somatório das vontades individuais não é igual à vontade colectiva, na medida em que o jogo da procura pela solução consensual implica, à partida, cedências de alguns desejos de cariz pessoal para benefício da colectividade.
Parece um simples truísmo, mas convém salientar que é impossível conciliar posições individuais quando estas se revelam antagónicas, sob pena de o próprio sistema democrático não funcionar. Logo, os grupos formam-se por pessoas que têm valores, comportamentos, atitudes e objectivos similares. Agrupam-se, em primeiro lugar, pela identificabilidade.
Depois de constituídos os grupos, que normalmente se arrogam de representativos de determinadas franjas sociais, há a definição da acção comum de forma a seduzir os indecisos e engrossar fileiras para a conquista da vitória final, que se poderá facilmente traduzir pela conquista do poder – é todo um léxico marcial que mais bem se adequa à explicação da génese do poder.
Inicia-se o processo de governação, normalmente começa-se por satisfazer as clientelas políticas, distribuem-se os poleiros, hierarquizados pela notoriedade, poder de influência e pelo pretenso grau de operacionalidade ou mais-valia técnico-científica. Posteriormente, tomam-se decisões de fundo e afastam-se algumas vozes críticas que, potencialmente, pelas suas integridade e idoneidade, podem constituir um entrave à governação. Arrebanham-se os volúveis e os medíocres com promessas vãs de status social, de engrandecimento da reputação e/ou com estabilidade governativa, já que geralmente o seu valor de mercado é acessível.
Quem detém o poder governa para si e para os seus e intimida os oponentes que, de forma resistente, ainda perduram, quais obstáculos, no horizonte de poder dos dirigentes.
Ao ostracismo são votados os que permanecem com as suas convicções e, o pior de tudo, são apontados a dedo, pelos neodominados partidários da elite governamental, como destruidores da instituição ou da comunidade a que pertencem e das suas vidinhas conformistas.
Usualmente, vigora a tese da intimidação pelo bem colectivo – que para os poderosos significa a eternização no poder, manutenção do status quo e conservação ou expansão do açambarcamento de privilégios extraordinários –, que é divulgada, amedrontando: "o bem colectivo" poderá ser destruído pelos, por si denominados, com direito a comunicação explícita usando os gratuitos megafones do poder, “difamadores” e/ou “sequiosos de poder”, de forma a garantirem a imposição das suas vontades individuais.

Confesso. Não sei quem de mim merece um maior sentimento de comiseração, se os medíocres que sabem que são medíocres, ou aqueles que, devido à ignorância, se acham autorizados a intervir pelo bem comum. Estes últimos são os coitados que interferem nas nossas vidas com a consciência tranquila de que contribuíram de forma decisiva para a comunidade. Os primeiros são os parasitas da sociedade, aqueles que cedem, que recuam, que deambulam neste mundo esquecendo amigos, parentes, vizinhos, colegas de profissão, e, mais grave ainda, os valores mais nobres e elevados da sinceridade, honradez, amizade, compaixão, integridade e, acima de tudo, da lealdade nas relações humanas, que deveriam ser orientadores do seu comportamento nas suas mesquinhas vidas.
A democracia emprenha intimidadores, concebe medíocres e afasta aqueles com opiniões próprias.

Mas haverá melhor sistema!? (voltar a "Do Processo")

(Imagem:A Destruição do Leviatã” gravura de Gustave Doré, 1865, para a Bíblia Sagrada: Isaías, 27)

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Coisas que te fascinavam (III)

A Tua revista de culto, com aqueles que admiravas: Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Miguel Esteves Cardoso, para além dos textos de Agustina.
Assinei a revista. Tinha dezoito anos e tu apenas quinze e – lembras-te? –, na tua pueril impertinência, conseguias levar-me ao desespero se, no dia em que ela chegava à caixa de correio, não te desse pelo menos uma hora de leitura – que rica arma para quando nos zangávamos…
Lembras-te da crónica do MEC no n.º 10? Era aquela sobre o prurido jornalístico em nomear marcas de produtos e serviços.
Lembras-te do quadro com as marcas perfiladas por ordem alfabética, com um “obrigado” em cada apartado?
Até veio um “obrigado” à Doc Martens, orgulhosamente, e para grande desgosto dos nossos pais, os meus sapatos favoritos.


«Na crónica que se segue fazem-se referências a várias marcas e serviços. São as marcas e os serviços a quem devo grande parte da alegria da minha vida. São muitas. Não sei se isto é ou não publicidade. Sei é que estou a dizer a verdade.
As referências que farei às marcas e aos serviços a quem estou grato não foram pagas nem encomendadas nem sugeridas. Menciono-as por gratidão. Devo-lhes muito. Mais do que paguei por elas. Nalguns casos, estaria disposto a pagar uma pequena quantia em dinheiro pelo prazer de mencioná-las.
Obrigado, sim? Não sou um filisteu. Nenhum produto me trouxe o que me trouxeram os livros de Beckett ou da Agustina ou do João Miguel Fernandes Jorge. Mas também não sou parvo. Há muitos escritores de quem eu gosto que contribuíram menos para a minha felicidade (Gide, Chandler, Camilo) do que certos produtos como, por exemplo, o Volkswagen 1200, o Lexotan, o whisky Jamesons ou a Polaroid SX-70. Trocaria o usufruto vitalício de qualquer destas coisas pela impossibilidade de ler quaisquer daquelas obras. É horrível, não é? Mas é verdade. E eu tenho de dizer a verdade, mesmo que fique mal visto.
O dever do jornalista é dizer o que sabe. No caso do colunista, o que acha. Para mim não há diferença entre dizer bem de um filme e dizer bem de um sabonete. Se posso opinar que vale a pena ver o Rivette mais recente porque não poderei opinar que o Pears é um excelente sabonete e que vale a pena tomar banho nele? É publicidade? Para o Rivette também é preciso gastar dinheiro e beneficiar certas empresas para vê-lo, mas ninguém diz que é publicidade.
Porquê? Porque é arte? Esqueçamos o problema da definição, que só por si complicava as coisas. Finjamos que sabemos o que a arte é. Sendo assim sei que a Lídia Jorge é escritora e escreve romances que fazem parte da nossa literatura. Sei também que tem os seus admiradores. Eu não gosto, mas admito que tenha mau gosto. Sou é forçado a dizer esta verdade: que tenho muito mais respeito pela empresa que produz o leite Vigor. Aliás, para ser sincero, tenho mais respeito e acho que fazem mais falta à nossa sociedade os iogurtes Danone (de que gosto pouco) do que toda a obra literária e jornalística da Lídia Jorge.
O que interessa na vida não é distinguir o que é artístico do que é comercial, nem o que é jornalístico do que é publicitário e a razão não é por cada vez se confundirem mais. O que interessa é procurar distinguir o que é bom do que é mau e o que é verdade do que é mentira. O facto de ser impossível saber estas coisas com certeza não torna o objectivo menos nobre.
Já se sabe que tudo depende de tudo e que cada um tem a sua opinião mas, mesmo assim, há verdades mais verdadeiras que outras. É verdade, por exemplo, que os vinhos da Casa Ferreirinha são melhores que os vinhos da Camillo Alves. É verdade que Jorge Luis Borges escrevia melhor que Ferreira de Castro. É verdade que a comida para gatos da marca Whiskas é, segundo a opinião dos meus dois gatos, melhor do que a comida da Felix. É também verdade que um bom carpinteiro vale mais que um mau advogado, um bom contabilista mais que um matemático medíocre e um bom pintor de tabuletas mais que um péssimo poeta. Ou seja: não é por aquilo que as coisas calham ser (filmes ou marcas de jeans, profissões artísticas ou comerciais, notícias ou opiniões) que são mais ou menos susceptíveis de terem valor.
Como restaurante o Beira-Mar, em Cascais, é melhor do que o restaurante Muchaxo no Guincho. Isto é verdade. Mas também é verdade que, como restaurante português, o Beira-Mar tem, na minha opinião, um papel mais importante na nossa cultura que os romances da Lídia Jorge. (Peço desculpa a esta escritora pela insistência – não é alguém com quem eu embirre especialmente). Na minha opinião, seria pior que se perdesse a maneira de fritar os filetes de pescada que são servidos no Beira-Mar do que se se perdesse a maneira de escrever da Lídia Jorge.
Acho obsceno que eu possa dizer, como jornalista, que o professor Cavaco Silva é o melhor primeiro-ministro deste século, mas não possa dizer que a melhor manteiga portuguesa é a Atlântida. Acho obsceno que me seja permitido meter o nariz na política do governo irlandês, sem saber nada acerca do assunto, mas que me seja vedado recomendar o whisky irlandês Tullamore Dew que se vende no duty-free de Dublin e de Londres, acerca do qual sei até mais do que devia saber.
Acho obsceno que os jornalistas se pronunciem livremente sobre a política, que tem consequências fundamentais para a nossa vida comum, mas que se coíbam de confessar aos leitores se preferem o serviço da Avis ou da Hertz. Quando vejo, por exemplo, o espaço e a atenção que se tem dedicado ao PRD ao longo dos últimos anos, pergunto se não teria sido mais proveitoso e honesto aproveitar para publicitar o Hotel do Buçaco, ou o restaurante Pedro dos Leitões ou a Água do Luso? Há milhares de excelentes instituições portuguesas, de carácter comercial ou não, que não só não têm dinheiro para comprar publicidade, como podem morrer sem ela. São editoras, sapatarias simpáticas, fabricantes de bagaço, costureiras, tipografias, tascas, explorações agrícolas, industriais de calçado, companhias de táxis, lojas de segunda mão, viveiros de marisco… e não acaba.
No entanto se eu, como jornalista, me limitasse a publicitar as marcas e empresas pobres também estaria a faltar à verdade. E as ricas? Quero lá saber se a Lacoste gasta milhões de francos em publicidade todos os anos. Fabricam óptimas camisas de ténis. Como camisas são tão boas como o licor de ginja de Alcobaça fabricado por David Lopes que não tem muito dinheiro para gastar em publicidade. Tanto um como o outro merecem o meu apoio. Igualmente.
O dever do jornalista é dizer o que julga saber. Se, por pruridos anticomerciais, não revela aos seus leitores que achou excelente um acontecimento qualquer, está a exercer sobre si mesmo uma espécie de censura. O mal da censura é sempre o mesmo – uma vez que se aceita a sua existência é-se obrigado a discutir onde começa e onde acaba.
Sobre as grandes causas fala à vontade, quantas vezes com sobranceria e ignorância. Mas não é capaz de confessar que gosta de Chiclets. Promove políticos que vêm a mandar na nossa vida sem pensar duas vezes no que está a fazer, mas recusa-se a promover uma marca de pastilha elástica, que não afecta a nossa vida em quase nada.
Este pudor anticomercial é uma forma de censura. Não poder falar em marcas é um atentado à liberdade de expressão.
Pensar que essa liberdade convida à corrupção é irrelevante. Os mentirosos hão-de ser sempre mentirosos e os corruptos hão-de sempre ser corruptos. São os jornalistas que mentem e manipulam a informação política que são perigosos. Não são os que dizem bem (e justamente) do supermercado Euromarché.
O mundo é muito grande e tudo faz parte dele. Parece um truísmo, mas é um tabu. Não se pode falar de muitas coisas. Esse silêncio acaba por dar maior poder à publicidade. Se é verdade que uma grande campanha consegue (temporariamente!) impor, por exemplo, um iogurte merdoso, levando os consumidores a comprá-lo em vez de iogurtes melhores, esse efeito deletério deve-se sobretudo à censura anticomercial que reina no jornalismo. Os jornais que seriam capazes de assistir à falência de bons fabricantes de iogurtes, para não lhes fazerem publicidade gratuita, ao mesmo tempo que recebiam o dinheiro pago pelo fabricante merdoso, estariam a cometer uma imoralidade. Calando-se, faltariam à verdade. É como se se vendessem.
Quem diz a verdade nunca se vende. A ideia de eu me vender ao whisky Macallan, sobre o qual escrevi um artigo para a K é de morrer a rir. É de rir porque nunca me passaria pela cabeça dizer senão bem do Macallan porque o Macallan é mesmo um bom whisky de malte. Mas é de morrer a rir porque comete a suprema arrogância de julgar que um jornalista como eu é superior, como jornalista e apreciador de whiskies, ao Macallan como fabricante! Nem a Macallan precisa de me comprar nem eu sou ninguém, como entendedor do assunto, para ser sequer tido ou achado. Quem sou eu, o mero Miguel, para estar a pronunciar-me sobre um tão esplêndido whisky?
Seria o mesmo dizer que as motas da BMW são muito boas, ou que os jeans da da Levis duram que se fartam ou que a Água das Pedras é boa para as ressacas ou que os isqueiros Zippo nunca falham ou que a Leica fabrica boas máquinas fotográficas. Ao dizer estas verdades banais não só sinto que não me estou a vender como tenho a vergonha de me perguntar «Mas quem sou eu para estar a felicitar a Leica?» Quando se diz a verdade não custa tanto ver o valor do que se está a dizer. Os jornalistas estão convencidos que as empresas querem «comprá-los» e porque são – simplesmente – uns convencidos.
Se a Lee me pagasse 10 mil contos para escrever um anúncio explicando que eram melhores que a Levis seria capaz de aceitar, porque é muito dinheiro. Mas ficaria cheio de vergonha de mim mesmo. E não aceitaria nem 100 mil contos da Old Chap!
As marcas que alistei tornaram a minha vida mais fácil de suportar. Recomendo-as absolutamente. Não fiz a lista para provocar. Fi-la para agradecer. O mundo é um sítio complicado e nem sempre é simples determinar, por exemplo, se foi maior a influência na literatura norte-americana do escritor Scott Fitzgerald ou do bourbon Jack Daniels. Não gosto nem de um nem de outro, mas tenho de respeitá-los (e, ainda por cima, acho que foi mais importante o Jack Daniels). Também considero que a própria garrafa é mais significativa e rica, como ícone dos EUA, do que qualquer das pinturas de Larry Rivers ou de Robert Motherwell.
É tudo muito mais difícil do que se pensa. Seria bom, seria, um mundo arrumadinho e subdividido como existe no cérebro dos jornalistas bons e bem-intencionados como é o caso do Miguel Sousa Tavares. É por haver regras do que se pode e não pode dizer que é mais fácil falar. Reduzem-no à insignificância da nossa medida. Se não posso mencinar bebidas alcoólicas ou recomendar medicamentos que só podem ser vendidos com receita médica, por não ser deontológico (quanto mais mencionar as duas ao mesmo tempo), já não preciso de pensar se devo ou não correr o risco de dizer que misturar um Lexotan de 3 miligramas com um gin-tónico Bombay Sapphire com Schweppes provoca uma grande sensação de bem-estar.
Esta frase é totalmente irresponsável. Sei lá se há algum maluco que me está a ler e que decide experimentar e depois acaba no hospital. Mas é verdade. Se torno pública esta informação perigosa e irresponsável é porque já a transmiti a todas as pessoas que conheço e julgo sinceramente que é útil. Vindo de quem vem, vale o que vale: quase nada. Desde que os leitores tenham a inteligência de me reduzir à minha insignificância, porque é que não hei-de dizer aquilo que penso? Os comentadores públicos que se coíbem e censuram, que medem as palavras, que meditam nas consequências do que dizem, que têm a pretensão de serem pedagógicos faltam à verdade e faltam-nos ao respeito.»
Miguel Esteves Cardoso, “O Arco da Velha: A Resposta”. In: revista K, n.º 10, Julho de 1991, pp. 97-99.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Achado

Há dias assim, de sorte, Dias Felizes onde o acaso, nas suas impenetráveis digressões, resolve bafejar-nos com algo de importante, não apenas na dimensão da coisa, mas também nos pequenos nadas que para nós tudo parece significar.
Estou numa semana da sorte, nuns casos apenas resultado da recompensa do duro trabalho que implica a luta pela vida, noutros é a mera providência, entendida aqui como a aleatoriedade da espuma dos dias, daquilo que fica depois da tenebrosa agitação da simples pretensão pela sobrevivência.

Ontem, a sorte estabeleceu um pacto comigo – o tal que vinha pedindo e ia perdendo no momento da firma –, apenas exigindo como recompensa o fruto do meu esforço que se ia fundindo no desespero dos longos dias em branco, paradoxalmente manchados no mais negro dos matizes: a sombra do desassossego.
Hoje, o tal pequeno nada que tudo significa: Samuel Beckett, o meu sumo-sacerdote na liturgia das palavras, o fiel reprodutor em letras e gestos do negrume da natureza humana; os últimos trabalhos condensados numa pequena encadernação, em edição bilingue, com tradução de Miguel Esteves Cardoso.
Repousava na estante, encafuado numa vulgar embalagem de plástico, entre Watt e Molloy, ou seria Murphy? Talvez Malone

Wortstward Ho, 1983 (Pioravante marche)
Stirrings Still, 1988 (Sobressaltos)
What is the Word, 1988 (Que palavra será)

Excerto:
«Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão
Abertura de “Sobressaltos” de Samuel Beckett (trad. MEC)

Referência bibliográfica:
Samuel Beckett, Últimos trabalhos de. Lisboa: Assírio & Alvim / Independente / Miguel Esteves Cardoso, 1996 (edição bilingue), 63 pp.