«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Maturação
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Fazer as contas ao Cinema acima do paralelo 39ºN (act.)
- 11 foram produzidos nos Estados Unidos;
- 2, 12, 10 estrearam mundialmente em 2010, 2011 e 2012, respectivamente;
- 1 filme irá, com certeza, provocar uma derrogação adicional ao critério de inclusão da lista, dado o centralismo Medeiano neste pobre país; vi o filme no Renoir em Espanha – na versão original francesa e legendado em castelhano –, mas gostaria de vê-lo traduzido na língua de Camões para os portugueses cinéfilos que têm a infelicidade de residir longe das latitudes da Capital do Império; mas também para o mal amnésico centralóide que assola a queirosiana Província, há sempre um remédio na possibilidade internética… Ah, gente com fibra!
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
É, de facto, o Melhor Filme de Sempre
«[No auge da obsessão, o catalisador para o desenlace | notas de minha autoria]
Judy: Não podias gostar de mim? Apenas de mim, tal como sou?
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Literatura: Os Melhores Livros de 2011
- Howard Jacobson, A Questão Finkler (ed. port. Porto Editora; The Finkler Question, 2010);
- Jonathan Franzen, Liberdade (ed. port. Dom Quixote; Freedom, 2010).
«Que sabia eu da vida, eu que vivera com tanto cuidado? Que não ganhara nem perdera, mas só deixara que a vida me acontecesse? Que tinha as ambições comuns e me adaptara demasiado cedo a que elas não se realizassem? Que evitava ferir-me e chamava a isso capacidade de sobrevivência? Que pagava as minhas contas, estava de bem com toda a gente na medida do possível, mas para quem o êxtase e o desespero depressa se tornaram meras palavras, lidas outrora nos romances? Eu, cuja autocensura nunca infligia realmente dor? Pois, havia tudo isto para refletir, enquanto eu passava por um tipo de remorso especial: uma dor finalmente infligida a alguém que sempre pensou saber como evitar ser magoado – infligida por essa mesma razão.»
Julian Barnes, O Sentido do Fim, p. 144 [Lisboa: Quetzal, Novembro de 2011, 152 pp.; tradução de Helena Cardoso; obra original: The Sense of an Ending, 2011]
domingo, 25 de dezembro de 2011
Cinema: Os Melhores Filmes de 2011 – semifinalistas
- Um Ano Mais, de Mike Leigh (Another Year, 2010);
- A Árvore da Vida, de Terrence Malick (The Tree of Life, 2011);
- O Atalho, de Kelly Reichardt (Meek’s Cutoff, 2010);
- Carlos, de Olivier Assayas (2010);
- Cisne Negro, de Darren Aronofsky (Black Swan, 2010);
- Essential Killing – Matar para Viver, de Jerzy Skolimowski (Essential Killing, 2010);
- Filme Socialismo, de Jean-Luc Godard (Film Socialisme, 2010);
- Kaboom – Alucinação, de Gregg Araki (Kaboom, 2010);
- Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, 2011);
- Melancolia, de Lars von Trier (Melancholia, 2011);
- Um Método Perigoso, de David Cronenberg (A Dangerous Method, 2011);
- A Minha Versão do Amor, de Richard J. Lewis (Barney’s Version, 2010);
- O Miúdo da Bicicleta, de Jean-Pierre & Luc Dardenne (Le gamin au vélo, 2011);
- Num Mundo Melhor, de Susanne Bier (Hævnen, 2010);
- A Pele Onde Eu Vivo, de Pedro Almodóvar (La piel que habito, 2011);
- Sangue do Meu Sangue, de João Canijo (2011);
- Uma Separação, de Asghar Farhadi (Jodaeiye Nader az Simin, 2011);
- Somewhere – Algures, de Sofia Coppola (Somewhere, 2010);
- Super 8, de J.J. Abrams (2011);
- A Toupeira, de Tomas Alfredson (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011);
- Tulpan, de Sergei Dvortsevoy (2008).
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Música: Melhores Álbuns de 2011 – A Lista
- – The Horrors, Skying (XL)
- – Iceage, New Brigade (What’s Your Rupture)
- – Bill Callahan, Apocalypse (Drag City)
- – St. Vincent, Strange Mercy (4AD)
- – Thurston Moore, Demolished Thoughts (Matador)
- – Radiohead, The King of Limbs (XL)
- – Arctic Monkeys, Suck It and See (Domino)
- – John Maus, We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves (Upset the Rhythm)
- – The Strokes, Angles (RCA)
- – Bon Iver, Bon Iver (4AD)
- Panda Bear, Tomboy (Paw Tracks)
- Peter Murphy, Ninth (Nettwerk)
- Tv on the Radio, Nine Types of Light (Interscope)
- The Decemberists, The King is Dead (Rough Trade)
PPS – Fica aqui mais um vídeo de uma das faixas do álbum vencedor deste ano. A prodigiosa e revivalista “I Can See through You”:
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
As Listas de 2011
Assim, sem grande novidade ao que aqui ocorreu no anterior (excepto na sua ordenação), passarei a postar diariamente as minhas predilecções musicais (como se irá ver, ainda com alguma irreverência pubertária nas veias), por ordem aleatória, apenas revelando a listagem final organizada por ordem de preferência, o meu “Top
Na secção “Cinema” (filmes exibidos pela primeira vez em sala de cinema em Portugal), e dadas a estreias que ainda irão ocorrer até ao final do ano (onde se excluem os que estrearão a 29 de Dezembro – serão incluídos na lista de 2012, se por cá andar – e incluem os estreados a 30 de Dezembro do ano passado, tal como foi prometido), o “Top
Nos “Livros” editados em Portugal durante 2011, e como sempre tem ocorrido, as novidades não serão grandes, porquanto ao longo do ano aqueles que vou lendo vão sendo ordenados por prazer literário na coluna do lado direito deste blogue – apenas se espera a introdução de mais um ou dois exemplares cujo processo de leitura se encontra em curso e em velocidade de cruzeiro. Publicação final do “Top
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Literatura: Os Melhores Livros de 2010
Ao contrário de qualquer lista publicada nos órgãos de informação convencionais por um, de forma isolada, ou mais críticos, por qualquer espécie de votação, o único critério que preside à escolha dos livros editados durante o ano em que os irei ler e posteriormente atribuir-lhes uma classificação (com publicação imediata no blogue) é apenas o meu gosto pessoal por determinados autores, por determinada escola literária ou por certo tipo de narrativas, embora a escolha possa haver resultado da indicação de alguém, seja um crítico literário ou um mero leitor, que me recomendou a sua leitura e, como é óbvio, desde que eu lhe confira algum tipo de autoridade na matéria – há críticos e críticos, e há leitores mais conformes às minhas preferências estético-literárias, mesmo que não os suporte. Assim, este tipo de listagem sofre, à partida, de um vício de forma, e que leva a que a maioria dos livros classificados se situe nos graus mais altos de apreciação literária: uma escolha apriorística e condicional, sem a isenção que outros terão de apor no processo de selecção da obra a analisar, condição necessária a um crítico – no plano teórico, claro; não sou tão inocente.
Foram 41 os livros editados em Portugal no ano de 2010 que passaram sob o meu crivo de bibliómano: 3 foram classificados como “obra-prima” (6 estrelas); 14 com “Muito Bom” (5 estrelas); 12 com “Bom” (4 estrelas); 8 com “A Ler” (3 estrelas); 2 com “Medíocre” (2 estrelas), e mais 2 classificados como “Mau” (1 estrela).
Os 10 Melhores Livros de 2010 – Ficção
Menções Honrosas (livros que poderiam ocupar, por troca ou em simultâneo, os quatro últimos lugares do Top 10, ordenados pelo nome próprio do autor)
- Charles Bukowski, Ham on Rye – Pão com Fiambre (ed. port. Ulisseia; Ham on Rye, 1982)
- John Updike, As Lágrimas do Meu Pai (ed. port. Civilização; My Father’s Tears and Other Stories, 2009)
- Martin Amis, A Viúva Grávida (ed. port. Quetzal; The Pregnant Widow, 2010)
- Sherwood Anderson; Winesburg, Ohio (ed. port. Ahab; 1919)
Memória (os meus melhores desde 2005)
Por fim, uma verdadeira pérola, num mar literário pejado delas (um belo retrato – a Humanidade e a versão do real):
«Não é correcto pensar que todas as outras pessoas têm mais força de carácter que nós. Ora, é óbvio que isso não é verdade, é apenas a nossa imaginação a exagerar a visão que as pessoas têm de nós, interpretando erradamente que gostam de nós pelo que não somos, ou que não gostam de nós pelo que não somos, tanto por equívoco como por preguiça. A saída deve ser não nos importarmos, mas, para isso, temos de saber com o que nos devemos realmente importar e entender o que agrada ou não agrada em nós. Mas pensamos que cada nova pessoa que chega está preocupada com isso e atenta a isso? Não. E importamo-nos que cada uma delas se importe por sua vez? Nem pensar. Porque, de qualquer modo, não há uma única pessoa no mundo que consiga mostrar o que é sem se sentir um pouco exposta e envergonhada e, estando preocupada com isso, não pode importar-se, mas tem de tentar parecer melhor e mais forte do que as outras pessoas todas – que loucura! Entretanto, não sente nenhuma força de verdade em si, engana e é enganada, depende da burla, mas acredita anormalmente na força dos fortes. Durante este tempo todo, ninguém deixa que nada de genuíno apareça, nem sabe o que é real e o que não é. E estes são os desfigurados, degenerados e sombrios seres humanos – a simples Humanidade.» [E continua no parágrafo seguinte.]
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, p. 534 [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 709 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]
domingo, 26 de dezembro de 2010
Música: Melhores Álbuns de 2010 – recapitulação
Em suma, entre o muito pouco que pude ouvir, houve 10 álbuns editados originalmente em 2010 que se destacaram dos demais, e outros (ainda não mencionados) que se revelaram uma decepção, por vezes descoroçoante.
Eis, então, uma recapitulação da lista de Os Melhores Álbuns Musicais de 2010:
Ei-las, as Decepções Musicais de 2010 (por ordem alfabética da banda musical – não há cantores a solo):
- Arcade Fire, The Suburbs (Mercury)
- Belle & Sebastian, Write About Love (Rough Trade)
- Blonde Redhead, Penny Sparkle (4AD)
- Interpol, Interpol (Soft Limit)
- Kings of Leon, Come Around Sundown (RCA)
- Stone Temple Pilots, Stone Temple Pilots (Atlantic)
domingo, 19 de dezembro de 2010
Filmes 2010: jogos preliminares
Assim, tenho de aproveitar as horas de bulício de listas de compras, de efervescência natalícia e de encandeamento das luzes ornamentais aqui em casa, para poder desistir das matérias mais elevadas (ou mais sérias, porque delas depende a minha subsistência), uma oportunista fuga mental, e conseguir escrever alguma coisa de aproveitável (e sem sentimentos de culpa pelo trade-off) sobre o ano cinematográfico, musical e literário.
Não acreditando que de hoje até ao final do ano me consiga deslocar a uma sala de cinema para assistir a um filme recentemente estreado, e usando a famosa e utilíssima técnica de edição de texto “cortar e colar”, aplicada à listagem completa dos filmes estreados em salas de cinema portuguesas durante o ano de 2010 (cerca de 270, em que incluí, por razões óbvias, os estreados a 31 de Dezembro de 2009, da mesma forma que não inclui os que irão estrear-se a 30 de Dezembro deste ano), cheguei a uma lista preliminar de 68 filmes vistos, entre os quais 30 merecem o meu elogio (13 de produção norte-americana) – apesar dos diferentes níveis de prazer cinéfilo que deles retirei: há os que admirei em toda a sua plenitude e aqueles que tocaram em alguns dos meus pontos sensíveis –, 20 foram classificados como indiferentes e 18 como medíocres (entre estes, também se contam 13 os produzidos nos Estados Unidos).
Filmes 2010 – preliminares
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
As Listas de 2010
Nada será como nos anos anteriores, onde reservava os três últimos dias do ano, para em cada um deles publicar uma lista diferente. Nem tão-pouco, de acordo com a tradição, irei revelando diariamente, por ordem aleatória, os meus dez álbuns musicais preferidos auxiliados pelos videoclipes disponíveis no YouTube, com um texto justificativo das minhas predilecção e escolha.
Este ano não há tempo. E depois, convenhamos, para quê? Ninguém lê esta porra…
(1) O logótipo da 68.ª edição (a deste ano) dos prémios cinematográficos Globos de Ouro, atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA), nada tem que ver com o texto supra. Todavia, considerei ser de bom-tom introduzir uma imagem tão apelativa e tão bem gizada pelos seus criativos designers (embora tenha a certeza de que disporia de um maior impacto se guardada para edição do próximo ano), na medida em que reflecte o meu estado de espírito para com o mundo.
(2) Tem sido como limpar o rabo a meninos… A Rede Social (The Social Network, 2010) prepara-se para o pleno dos prémios da Crítica. Não disponho de tantas certezas, contudo, com o que se irá passar nos mais folclóricos, uma vez que Danny cheesy Boyle aparece a concurso, ladeado pelo seu compatriota Christopher mazy Nolan.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
As listas de 2009
Já se tornou num hábito inultrapassável, quanto mais não seja pela preguiça de actualizar o blogue com textos que poderiam exigir um maior esforço de abstracção – e aqui apenas se seleccionam textos cuja qualidade (atente-se na polissemia do vocábulo) esteja assegurada –, irão ser publicadas as listas das minhas preferências musicais, cinéfilas e literárias que se estrearam neste pequeno rectângulo, com ilhas adjacentes, durante o ano de 2009.Se nos livros não haverá grandes surpresas, já que a listagem dos livros editados em Portugal foi sendo actualizada desde o dia 1 de Janeiro deste ano, com a respectiva nota qualificativa, e figurou sempre na coluna do lado direito deste blogue; no cinema e na música, e dada a escassez de textos de suporte publicados, a novidade será quase total.
- Música – dia 29 de Dezembro (terça-feira) – lista dos 10 melhores álbuns musicais inéditos produzidos em 2009, com referência a algumas decepções. (Nota: a partir de amanhã, tal como fiz no final de 2008, irá ser apresentada até ao dia 28, uma sequência de dez textos diários com cada um dos referidos dez álbuns, por ordem aleatória de preferência.)
- Cinema – dia 30 de Dezembro (quarta-feira) – lista dos 10 melhores filmes estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção. Incluirá, também, uma lista das 10 aberrações cinematográficas do ano.
- Literatura – dia 31 de Dezembro (quinta-feira) – listas dos 10 melhores livros de ficção e dos 5 melhores de não-ficção publicados em Portugal durante o ano. Trata-se apenas de atribuir uma ordem de preferência (hierarquia do gosto pessoal) aos livros que figuram na coluna lado direito deste blogue.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
As listas de 2008 (parte II)
O listómano revela a agenda de ostentação das suas listas – jardelizou-se e fala dele na 3.ª pessoa do singular.
Como foi referido aqui, até ao último dia do ano serão reveladas as listas dos melhores objectos artísticos em três áreas distintas.
O exibicionista já encontrou as datas para a grande divulgação:
- 29 de Dezembro – Cinema – Os Melhores Filmes de 2008 (estreados em salas de cinema portuguesas durante o corrente ano, independentemente do seu ano de produção)*;
- 30 de Dezembro – Literatura – Os Melhores Livros de 2008 (editados, reeditados ou reimpressos durante o ano, em tradução portuguesa no mercado editorial nacional);
- 31 de Dezembro – Música – Os Melhores Álbuns Musicais de 2008 (editados internacionalmente durante o ano de 2008)**.
Notas:
*Neste momento, foi finalmente ultrapassada a fase da “última triagem”. A lista dos “10+”, organizada por ordem de preferência, está concluída e pronta para publicação. A título de curiosidade, nela constam 5 filmes americanos, 3 franceses, 1 italiano e 1 britânico.
**Na coluna do lado direito, vão surgindo os 10 melhores álbuns de 2008, assim como a hiperligação ao vídeo de cada um dos escolhidos (entre 22 e 30 de Dezembro), por ordem aleatória de escolha. Apenas no dia 31 surgirão, em texto, ordenados por preferência do autor deste blogue apasquinado (cuidado com as confusões linguísticas!)
sábado, 20 de dezembro de 2008
A última triagem: Cinema
Basta fazer uma pequena prospecção pelos blogues nacionais, para verificar que alguns já se anteciparam às habituais listas de final do ano.
Por aqui, como tem sido hábito, divulgarei aqueles que, na minha mui íntima opinião pessoal, de acordo com os meus princípios artísticos e técnicos, atendendo sobretudo aos meus valores estéticos, nunca negligenciando as questões éticas ligadas ao fenómeno artístico, se distinguiram nas três áreas que preenchem, quase por completo, a minha sede insaciável por arte: Literatura, Cinema e Música.
No que diz respeito à literatura, as novidades – ou as eventuais surpresas – para quem me lê são escassas, uma vez que desde o início do ano (neste caso, o de 2008) figura na coluna do lado direito deste blogue um conjunto de livros lidos, editados e traduzidos em Portugal durante o corrente ano, organizados por nota de apreciação literária. A tarefa mais árdua consiste em dar-lhes uma ordem e escolher apenas dez entre os que se distribuem pelas categorias “obra-prima” e “muito bom” (6 e 5 estrelas, respectivamente).
No caso da música, o grau de insondabilidade é maior, dadas as curtas referências que a ela faço no decurso do ano, para além de existir uma jukebox sempre activa neste blogue, na medida em que, desde que me conheço, a volatilidade das preferências é extremamente alta: um disco idolatrado durante dez, quinze, vinte dias pode facilmente passar à categoria dos “odiados”, não só devido ao enjoo produzido pela repetição, como também por algum refinamento que a audição aturada produz.
Finalmente, na 7.ª arte, algumas das minhas preferências vão sendo aqui reveladas em textos escritos ao longo do ano – neste caso, filmes estreados em salas de cinema portuguesas em 2008. Apesar de dar um grande destaque aos meus ódios fílmicos depois de, penosamente, ter assistido à sua projecção no grande ecrã, também escrevi textos encomiásticos e de profunda admiração por determinada obra cinematográfica que acabara de assistir: surpresas, novidades e confirmações de talento.
Tendo iniciado a análise metódica de todos os filmes estreados em 2008 em Portugal – processo que foi explicado aqui, uma vez que não mantenho um ficheiro actualizado sobre os filmes que vou vendo e a sua nota de apreciação pessoal, como faço com os livros que vou lendo –, alcancei, por fim, a fase da última triagem, ou seja, consegui, através de algumas filtragens, chegar a uma listagem final… ou melhor duas (atendendo ao critério “produzido/não produzido nos Estados Unidos”).
Por enquanto, de acordo com o trabalho realizado, posso divulgar os seguintes dados:
- Total de filmes vistos: 69;
- Filmes anódinos ou indiferentes (sem separação do país de origem de produção): 19;
- Filmes de produção americana: 34 (Bons ou Muito Bons: 15; Medíocres: 19)
- Filmes de produção não americana: 16 (Bons ou Muito Bons: 12; Medíocres: 4)
Fase em que me encontro neste momento (a tal que precede a última triagem):
- Total de filmes passíveis de integrar a lista dos “10 Melhores Filmes de 2008”: 17;
- Americanos: 9/15;
- Não Americanos: 8/12 (4 franceses, 2 italianos, 1 britânico, 1 turco/alemão/italiano).
A lista definitiva dos “10+” será apresentada num dos dias do intervalo fechado de 28 a 31 de Dezembro. Até lá, que venha o diabo e escolha… Aceitam-se apostas.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
As listas de 2008
Há dias, contando o tempo que me resta entre relatórios, trabalhos e compras de última hora, cheguei à conclusão que, no habitual exercício de ostentação dos meus filmes preferidos estreados nas salas de cinema portuguesas durante o ano, a lista de 2008 estava praticamente encerrada. Não há tempo, não há vícios...
Depois, com as úteis ferramentas disponíveis à mão de semear, o exercício é simples: Cinema PTGate/Arquivo/Estreias em Portugal/2008; seleccionar a lista de filmes estreados desde Janeiro até hoje e copiá-los para uma folha de cálculo; na célula à frente da que contém o nome de cada filme apor uma nota de classificação; se preferir, acrescente outros critérios – eu acrescentei um segundo critério: “de produção americana/outros”.
Se os ditos “de produção americana” não constituem qualquer tipo de problema no seu acesso, já os filmes produzidos fora da máquina colossal de Hollywood, e de alguns independentes que gravitam em seu torno, são um verdadeiro desespero para o cinéfilo exibicionista, aquele que gosta de ostentar as suas preferências.
O caso paradigmático é o circuito comercial dos filmes de produção europeia: não chegam, pura e simplesmente, às salas de cinema da segunda cidade do país; onde, atendendo à lei das probabilidades, é bem possível que aí subsista e procrie a segunda maior comunidade portuguesa de cinéfilos.
Chego ao fim da tal lista, ordenada cronologicamente pela data de estreia, e fica de fora uma mão-cheia de filmes que, inevitavelmente, incluí na minha lista de desejos. Por outras palavras, aqueles filmes que, de início e de forma ardente, pretendia assistir à sua projecção em sala de cinema – e isto, claro, desde que não inclua uma aberração de usufruto de serviços prestados por empresas como a Brisa, a TAP, a CP, os Cruzeiros Costa, qualquer meio da frota pesqueira das Caxinas, o Clube de Parapente de Linhares da Beira ou a Panamá Jack (esfoladas com paragem de meditação em Fátima).
A Medeia Filmes não traz os filmes menos comerciais ao Porto, ou quando o faz, já a Fnac ou a Blockbuster fizeram com eles uns milhares de euros com a compra e aluguer, em DVD ou Blu-Ray, ou por hipótese caíram nas firmes e sossegadas teias do olvido. Mas mesmo que os traga, são exibidos num conjunto de quatro salas de cinema incrivelmente anacrónicas, com um sistema de som que se aproxima grotescamente dos saudosos e surdos tempos de Buster Keaton, deixando o século XXI a milhas de distância; com o grande ecrã colocado em cima, no 2.º andar – muito bom para os bolsos já recheados dos ortopedistas portugueses na desempanagem dos belos, flexíveis e curvilíneos pescoços (e apetitosos para Vlad), e nada de menos recomendável para um visão sã e descansada, confirmado até por qualquer oftalmologista de pacotilha; cadeiras rangentes, duras, e verdadeiros aparelhos de tortura por entalação – repito, para que não julguem que me equivoquei no emprego do vocábulo anterior dada a proximidade fonética e de grafia com outro porventura mais desconfortável e até porque invoquei, a despropósito, o mestre dos mestres na nobre arte, o tal de Vlad, disse entalação.
Com que autoridade cinéfila poderei fechar uma lista deste género sem ter visto Hunger, ou Je Veux Voir, ou La Frontière de l’Aube, ou Le Silence de Lorna ou até Lou Reed’s Berlin, entre muitos outros?
O motivo desta excitação não é, como é óbvio, aquilo que um arrolamento de preferências representa, mas a sobranceria cultural com que se trata os rurais da burguesa Invicta.
Cidade onde a Cinemateca Portuguesa vai funcionar em três pólos… à laia de uma “volta ao Porto em filme de culto, antigo ou raro”. Até os que sofrem pela arte dificilmente conseguem engolir uma situação destas, arranjada (é o termo, com toda a sua carga pejorativa) pelo Sr. Ministro engalanado de dialogante, extraído da fina cepa causídica lisboeta.
Com este centralismo voraz, ainda iremos chegar à altura em que, perante as escolhas possíveis de filmes exibidos durante o ano, a minha lista incluirá dez filmes que terão de ser ordenados não por grau íntimo de brilhantismo e de admiração decrescente, mas por grau de atenuação de enjoo e de horror (por mera hipótese académica, eis um exemplo ilustrativo baseado na listagem de filmes estreados este ano em solo luso; em letra pequena, para não ferir susceptibilidades):
- P.S., I Love You*, de Richard LaGravenese (ou o meu profundo amor a Sócrates e a tudo o que ele representa)
- Alien vs Predador 2, da brilhante dupla fraterna Colin e Greg Strause (Aliens vs Predator – Requiem)
- Uns Espartanos do Pior, da mais brilhante dupla não fraterna Jason Friedberg e Aaron Seltzer, (Meet the Spartans)
- Capítulo 27 - O Assassinato de John Lennon**, de J.P. Schaefer (Chapter 27)
- 10.000 AC, de Roland Emmerich (10,000 BC)
- Angel – Encanto e Sedução**, de François Ozon (Angel)
- High School Musical 3: Último Ano, de Kenny Ortega (High School Musical 3: Senior Year)
- Não Me Toques nas Bolas, de Robert Ben Garant (Balls of Fury)
- Saw 5 – A Sucessão, de David Hackl (Saw V)+
- Ensaio sobre a Cegueira**, de Fernando Meirelles (Blindness)+
Notas: *Abandonado ao minuto 15 de exibição.
**Heroicamente vistos na íntegra e profundamente detestados.
Quanto aos restantes (sem asterisco solitário ou duplo) não foram sequer vistos. Trata-se, por um lado, de uma questão paranóica de higiene e, por outro, do mais genuíno dos preconceitos fílmicos.
+Por mero acaso, aparecem juntos, mas são semanticamente desconexos.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
A escolha dos livreiros
Por vezes no afã de criticar duramente as coisas que diante dos nossos olhos vão mal no nosso país, numa espécie de umbiguismo quase autista, esquecemo-nos de reparar naquilo que, potencialmente, será criticável noutros países, até nos geograficamente próximos, mesmo com níveis de desenvolvimento e de literacia superiores aos nossos.Enquanto consultava a página da Internet da revista francesa Le Magazine Littéraire, saltou-me à vista, seguindo os meus instintos de listómano – e para além do apelativo dossier mensal, que desta feita versa sobre o marxismo e o inusitado ressurgimento comercial dos livros do barbudo alemão no mercado literário francês, provavelmente correlacionável com o ambiente económico-financeiro onde predomina um sentimento cataclísmico –, mas dizia, instigou-me uma lista de livros que será elaborada mensalmente, em colaboração com os responsáveis do sítio Le choix des libraires – os ideólogos da referida lista –, sobre as preferências dos livreiros no mercado editorial francês.
Na lista dos 20+ deste mês, um pouco chauvinista… ou melhor francesa – arrisco, porventura, são adjectivos intermutáveis –, para além de figurarem os nomes do inglês de Birmingham David Lodge, da irlandesa Nuala O’Faolain, da australiana Julia Leigh e do afegão Atiq Rahimi, com os seus mais recentes romances – ainda inéditos em Portugal –, todos os outros são franceses ou francófonos, não se incluindo, como é óbvio, o primeiro da lista – top of the list, king of the hill, a number one... perdoem-me a sinatrada – um dos melhores escritores britânicos da actualidade, Ian McEwan.
É verdade, McEwan surge no topo das preferências dos 113 livreiros franceses consultados, com o seu novo romance Sur la plage de Chesil, editado pela insigne Gallimard em meados de Setembro.
Só para recordar, o romance Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007), editado em Portugal pela Gradiva, teve, honra lhe seja feita, estreia mundial simultânea no Reino Unido e em Portugal, algures pelo mês de Abril do ano passado. A edição francesa demorou quase um ano e meio – toma lá esta! [as minhas desculpas, este blogue vai de mal a pior.]
Bom, mas não nos entusiasmemos…
Ainda na dita lista de preferências, figura na 18.ª posição o mais recente romance do escritor francês, natural de Le Mans, François Vallejo (n. 1960), L’Incendie du Chiado, história, como o título indica, tem por base o fatal dia 25 de Agosto de 1988 em Lisboa. Ainda assim, a obra não tem edição marcada em Portugal.
Trata-se, uma vez mais, da consagração do velho adágio (em versão pós-moderna): Quem com ferros mata, não atira pedras ao vizinho.



