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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Problemas da Bicefalia

Verão
«Estação do ano que começa entre 20 e 21 de [J]unho, isto é, no solstício de [J]unho, no hemisfério [N]orte, quando o Sol, no seu movimento anual aparente, atinge o ponto solsticial de [J]unho, e acaba 93 dias e 15 horas depois quando o Sol atinge o ponto equinocial de [S]etembro, na sua declinação mínima de 0º.»

In Infopédia (em linha). Porto: Porto Editora, 2003-2013.

Segundo me ensinaram, 2.º trimestre (ano civil): período compreendido entre os dias 1 de Abril e 30 de Junho em cada ano.

Declarações de uma das cabeças do BE (Bicéfalos de Esquerda?) à Lusa, via Público:
«Em declarações aos jornalistas em Faro minutos após a divulgação dos números do desemprego para o segundo trimestre do ano, João Semedo afirmou que as “pequenas variações sazonais têm a ver com o período de Verão, [que é] um período em que há uma oferta maior de trabalho”.» [destaque meu]

O principal problema da cabeça dupla (ou doppelköpfiger, e não confundir com o fenómeno do doppelgänger, porquanto ainda não se manifestou na sua componente nemésica) é o da não-ubiquidade, ou melhor, da transubiquidade, seja com o pachorrento Semedo, seja com a esbugalhada (e giroscópica) Catarina, há sempre uma boca muito próxima de um microfone para débito picareto-intelectual (ou pioletintelectual); e a alta voltagem sináptica tem destas coisas: uma propensão para o encontro imediato para asneira do 3.º grau.

sábado, 3 de agosto de 2013

Canino

Não falarei, nestas breves palavras, de Lanthimos e do seu alegórico Kynodontas (2009), embora o burlesco sirva de alicerce à eleição da fidelidade como valor absoluto de uma sociedade iconoclasta, que, todavia, se verga e anula, embargando a razão, perante o adjectivo: fiel. Palavra que me atemoriza mais do que me deixa nauseado, no que ela tem – num crescendo na escala de sordidez – de constância, de obstinação e de irredutibilidade, em suma, de um reaccionarismo bacoco.
Gostaria de trazer Rio à colação. Esse homem de cuja minha cidade, enfim, se liberta: o deificado gerente/merceeiro municipal – e a categoria profissional já o beneficia – de uma fidelidade canina perante a imagem da sua eminência, da sua rara inteligência, reflectida no espelho da sua soberba. Falar sobre a sua colagem ao mediático, à corrente de opinião diariamente emitida por esta nova raça de lapidadores do século XXI chamada de politólogo – nas variantes de comentador laureado ou de especialista bem avençado –, concebida nos laboratórios das redacções, engajada, com fidelidade, no argumentum ad hominem dirigido ao mais vulnerável, àquele que foi submetido a uma inclemente e massiva saraivada de flechas envenenadas com o objectivo, seguindo a cartilha goebblesiana (talvez, pela actualização temporal, ficasse melhor: fundados na frutuosa fidelidade norte-coreana), de aniquilar o seu carácter por maquiavelismo, sadismo, ou ambos. Na falta de Relvas (que até teve a sua dose de merecimento), houve Álvaro. Esquecido Álvaro, há Maria Luís, mais o apaniguado Secretário de Estado. Quando esta passar, virá (bom, já veio, pela boca perdigotosa dos guardiões da moral nacional, quase todos barbudos e barrigudos) o Machete, corta cerce! Ah, a rasoira politóloga… a bem da Nação (leia-se dos seus bolsos engordados por linhas editoriais que, falando de mansinho como a Ana Lourenço, vão mexendo os peões no jogo sujo dos amamentados pelo Estado.)         
Mas a canino-fidelidade teve na semana passada um episódio mais triste, que só corrobora a necessidade de a relativizar, para que alguma sanidade volte às nossas vidas – e não se me revolvam as tripas sempre que abro o jornal ou tenho o azar de passar pelos canais-viveiro de fiéis politólogos, comentadores e guias espirituais, e o seu dictat venal. Aquela história do cão Zico/Mandela, que matou uma criança, é tão sórdida, tão descentrada da realidade, fiel representante de uma nova vaga de um radicalismo liberal – fundando no pseudo-cosmopolitismo libertário que chega a ver o seu extremo: a ditadura e a vileza do politicamente correcto –, que em mais não se consubstancia que num retrocesso civilizacional. A insanidade apoderou-se desta gente e corporiza-se no (santo) nome escolhido para o cão que abocanhou a cabeça de uma criança, matando-a.
Tudo isto enquanto a saloiada Espírito Santo brinca aos pobrezinhos na Comporta.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Deus Bíblico

O do Velho Testamento: colérico, implacável, castigador, oculto… devastador.




«Through the fire and through the flames
You won’t even say your name
Only “I am that I am”
But who could ever live that way?»

Ya Hey!

Javé… EU SOU AQUELE QUE SOU
(Êxodo 3:14)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma cadeira de rodas…


…mental, por favor, ou a história de um comunista armado em Redentor milagreiro.


Apesar da minha ausência desta página electrónica por motivos de força maior – motivos cuja presença se prolongará por um tempo ainda não definido – não resisti em postar um dos muitos exemplos da ridicularia do comentário e da crítica fáceis que se instalaram na (in)comunicação social portuguesa e nos políticos paineleiros que pululam divertidamente pelos estúdios das estações de televisão para uma pequena subvenção que compense os seus magros salários como políticos profissionais – jogo preferido: tiro ao Passos e/ou aos seus súbditos. Que alegre algazarra.
Estava eu sentado a jantar, tarde e a más horas, na sexta-feira passada em frente ao televisor sintonizado na SIC-Notícias e aquele seu peculiar jornal do “muito obrigado pela sua presença” e da “excelência de conteúdos”, quando o inefável Ruben de Carvalho – cada vez mais volumetricamente próspero –, depois de a estação de Carnaxide ter passado as inacreditáveis (qualifico a deontologia profissional) imagens recolhidas pela concorrente TVI sobre a famosa conversa informal entre os Ministros das Finanças de Portugal e da Alemanha.
Ruben de Carvalho disse, perdigotando uma área aceitável em seu redor:
«Faz-me vergonha e deprime-me profundamente. Acho inqualificável aquela imagem… enfim… de servilismo, é uma palavra, talvez, extremamente violenta […] não hesitaria em usar a palavra arrogância em relação ao seu outro interlocutor que fala com o seu par, em termos de hierarquia governamental em termos de União, sentado na cadeira, sem ter a gentile… e que inclusivamente se volta de cost… bom, uma coisa verdadeiramente lamentável, o que, digamos, ainda torna mais chocante o agradecimento do Sr. Ministro das Finanças… aliás, um comentário que eu li num jornal – que eu acho que é de uma grande crueldade, mas inteiramente adequado –, é um comentário do coiso que dizem… verificaram se ele estava assente num joelho ou em dois? [risos de escárnio javalinos] Porque de facto a imagem que aparece…»
Fiquei completamente atónito, mas ao mesmo tempo com pena pela constatação da ignorância que é transversal à classe política portuguesa (atrevo-me mesmo a asseverar: é mesmo endémica), nessa noite subsumida no comunista comentador, e sem rectificações, que urgiam, pelo reverencial Mário Crespo e pelo desconsolado (ou desconsolante) líder da bancada parlamentar do CDS.
Ora, o tal Ministro das Finanças alemão, é uma figura mundialmente conhecida pelos seus anos de militância política na Alemanha e pelos cargos que já ocupou na outrora 3.ª maior economia em termos mundiais, e que se chama Wolfgang Schäuble.
Herr Schäuble é paraplégico, caro edil.
Num dia de Outubro de 1990 (portanto, se a matemática não me trai, há quase 21 anos e meio), foi vítima de uma tentativa de assassínio numa acção de campanha eleitoral no Estado Federal de Baden-Württemberg, perpetrada por um louco que o brindou com uma salva de três tiros, tendo um deles atingido a espinal-medula, deixando-o paralisado da cintura para baixo para todo o sempre. Desde a alta hospitalar, Schäuble desloca-se em cadeira de rodas.
Enfim, ou Gaspar aluga uma e passa a falar com o seu homólogo alemão de igual para igual – nunca perdendo de vista a autoparaplegia por uma questão solidariedade de cargos. Ou Rúben de Carvalho necessita urgentemente de um dispositivo qualquer que induza, em termos intelectuais, os mesmos efeitos que a cadeira de rodas produz em Schäuble.

sábado, 21 de maio de 2011

Novas Oportunidades

Pode-se maldizer o programa, porém é um facto, este país mudou. Pode ser leviano apontar-se-lhe a frivolidade na demanda pelo santo grau, mesmo que os cavaleiros oportunistas não alcancem o seu sentido prático, ou melhor, a sua exequibilidade na vida deteriorada de cada lar que recebe um papel em letra de forma para emoldurar junto à reprodução da ágape primordial do famoso fresco de Da Vinci. E o Menino da Lágrima não se lembrou… seria melhor não desprezar as suas qualidades de vedor de lençóis freáticos carregados de auto-elogio.
Prosseguindo. Como uma erupção magmática, ao Menino da Lágrima veio-lhe à ideia o fenomenal furo propagandístico, logo arrefecido pela recordação ressentida de velhas querelas em Verão quente: não há um único dia que o Público não esgote nos hipermercados Continente. Lemos mais, estamos mais cultos, já sabemos escrever Pisa sem dois “z’s”.
Perante pilhas de jornais Record, dois ou três exemplares de quatro ou cinco títulos, dei por mim a afagar o frio metal do escaparate, arrepiando-me pela confirmação da longa ausência do Público, hoje com Ípsilon. Esbocei um grito. Mas, de repente, fui assolado por um vórtice de emoções de sinais contrários difíceis de transcorrer para estas linhas em hipertexto – o profundo pesar pelo companheiro das sextas-feiras perdido e a indescritível exultação pela constatação de que nos tornámos num povo mais letrado, mesmo que seja para acender os fogareiros na Avenida da Liberdade da erudita Capital no megapiquenique com o Carreira (e o apelido até vem a propósito).
Eram duas as lágrimas: apenas ficou a invisível contrafeita activada pelo testemunho veemente e iracundo do torneiro mecânico pós-doutorado em quinze dias, ditando, sem vacilar, a narrativa do regime na barraca do Sr. Engenheiro, o nosso mestre das oportunidades.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consenso

Altruísmo, palavra tão morta para os que exercem o poder, como negociar simboliza uma acção impraticável e cedência uma impossibilidade constatada. Soberba no seu mais elevado grau de pureza que se conquistou com o exercício reiterado da teimosia, surda e manhosa, sobre as ruínas de um mundo em decomposição, enfraquecido por lutas intestinas na frente adversária. Obstinação, egoísmo que num jogo dialéctico com os patronos do consenso, uma forma espúria e perigosa de altruísmo, se sintetiza em ironia – vazia, sem consequências, como mera constatação do fracasso.
«(…)
De que forma a catástrofe,
traz perturbações ao velho método
de aplicar uma distância ao mundo?
Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo dos seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso.
Só depois deste grito a ironia regressa,
dizendo, quando muito:
morro, é certo, mas mesmo assim
guardo uma elegante distância em relação
à minha morte.
(…)»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, pp. 37-38 (Canto I: 24-26). [Alfragide: Caminho, 1.ª edição, Outubro de 2010, 478 pp.]
Regresse à casa da partida e receba 2.000$00. Consenso: só mais um esforço. Ironia?

sábado, 18 de setembro de 2010

Círculo Vicioso Infernal

Ouvir em continuous playAfraid of Everyone”, repetindo para mim mesmo, como uma decisão irrevogável, I’ll defend my family with my orange umbrella (e sobrevém-me em pensamento uma irritação pela estupidez nacional: weary of the punctured and rotten pink one).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em colapso

Hoje (ontem) ficou a saber-se que Pedro Mexia, subdirector da Cinemateca Portuguesa, abandonou as coisas muito lá da casa pelos expiatórios motivos pessoais. E não se atrevam a esquadrinhar os fundamentos que conduziram à demissão de Mexia de um cargo público – assuntos pessoais, assunto encerrado. E por favor, que não se aproveite este momento para engendrar a lusa questiúncula da escassez de verbas ou de uma incompatibilidade de carácter, ou até política de dirigente(+)/dirigente(-): um argumento rendilhado, novelesco e com toque melodramático, de conflitos ou de desinteligências com a nova directora (ver o que aqui proferi sobre esta eminência parda) empossada há meio ano – a tal que, por ser amiga pessoal do vulto Bénard, ganhou num ápice o estatuto de cinéfila e de erudita da coisa fílmica, e que o magnânimo aparelho socialista colocou sob o foco ardente do cinematógrafo.
Os motivos foram pessoais e há que aceitá-los porque, desta feita, a sua invocação até pode ser manifestamente verdadeira, e ninguém está disposto a, e com coragem para, contrariar a potencial pátina de verdade.
Como indicou a TSF, a notícia encontrava-se postada, sob a forma de uma singela e lacónica mensagem,  no blogue pessoal do demissionário.
Contudo, não posso negar as evidências e esconder a agitação que abalroou as minhas defesas da emoção desamarrada. A notícia do foro lisboeto-empolado teve uma virtude, a de me poder voltar a inebriar com o Lei Seca – motivos pessoais confessáveis e não financiados pelos impostos da Nação estiveram na sua origem, id est, afastamento da blogosfera, um invencível cansaço intelectual pelas expostas melancolias saturninas e pelos epigramas de índole ciorânica (permita-se-me a colagem ao eminente, e maior polímato vivo, George Steiner, para fazer dele a minha opinião sobre a arengada aforística do romeno da guarda de ferro – cf. “Da Concisão”, George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 1.ª edição). Abalançado pela prosa curta, esquadrinhei alguns textos e detive-me nestas duas frases de uma mesma talhada cinéfila, a derrotista e a sentenciosa, respectivamente: «Chegámos a finais de Julho e confirma-se: este ano cinematográfico é fraco» e «Scorsese e von Trier entraram em colapso». Quanto ao dinamarquês, e fazendo uma pequeno esforço de memória sobre a sua filmografia, ele próprio é a personificação do colapso – aquele último onde uma auto-excisão é absurdamente dedicada a Tarkovski... ah, então aquela fantochada de antanho com a gritante (é literal) islandesinha cega é de pôr os cabelos em pé. No que respeita ao italo-americano, faço votos para que continue a colapsar desta forma por muitos e bons anos. E, a talho de foice, deixo aqui ficar o texto de um dos raríssimos críticos cinematográficos cujas críticas me servem de guia – embora, nesta matéria, preserve até ao ridículo do absoluto a minha independência estética. Eis Roger Ebert sobre Shutter Island, apreciação publicada no Chicago Sun-Times a 17 de Fevereiro deste ano:
«“Shutter Island” starts working on us with the first musical notes under the Paramount logo’s mountain, even before the film starts. They’re ominous and doomy. So is the film. This is Martin Scorsese’s evocation of the delicious shuddering fear we feel when horror movies are about something and don’t release all the tension with action scenes. In its own way it’s a haunted house movie, or make that a haunted castle or fortress. Shutter Island, we’re told, is a remote and craggy island off Boston, where a Civil War-era fort has been adapted as a prison for the criminally insane. We approach it by boat through lowering skies, and the feeling is something like the approach to King Kong’s island: Looming in gloom from the sea, it fills the visitor with dread. To this island travel U.S. marshal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) and his partner Chuck Aule (Mark Ruffalo).
It’s 1954, and they are assigned to investigate the disappearance of a child murderer (Emily Mortimer). There seems to be no way to leave the island alive. The disappearance of one prisoner might not require the presence of two marshals unfamiliar with the situation, but we never ask that question. Not after the ominous walls of the prison arise. Not after the visitors are shown into the office of the prison medical director, Dr. Cawley, played by Ben Kingsley with that forbidding charm he has mastered.
It’s clear that Teddy has no idea what he’s getting himself into. Teddy – such an innocuous name in such a gothic setting. Scorsese, working from a novel by Dennis Lehane, seems to be telling a simple enough story here; the woman is missing, and Teddy and Chuck will look for her. But the cold, gray walls clamp in on them, and the offices of Cawley and his colleagues, furnished for the Civil War commanding officers, seem borrowed from a tale by Edgar Allan Poe.
Scorsese the craftsman chips away at reality piece by piece. Flashbacks suggest Teddy’s traumas in the decade since World War II. That war, its prologue and aftermath, supplied the dark undercurrent of classic film noir. The term “post-traumatic shock syndrome” was not then in use, but its symptoms could be seen in men attempting to look confident in their facades of unstyled suits, subdued ties, heavy smoking and fedoras pulled low against the rain. DiCaprio and Ruffalo both affect this look, but DiCaprio makes it seem more like a hopeful disguise.
The film’s primary effect is on the senses. Everything is brought together into a disturbing foreshadow of dreadful secrets. How did this woman escape from a locked cell in a locked ward in the old fort, its walls thick enough to withstand cannon fire? Why do Cawley and his sinister colleague Dr. Naehring (Max von Sydow, ready to play chess with Death) seem to be concealing something? Why is even such a pleasant person as the deputy warden not quite convincingly friendly? (He’s played by John Carroll Lynch, Marge’s husband in “Fargo,” so you can sense how nice he should be.) Why do the methods in the prison trigger flashbacks to Teddy’s memories of helping to liberate a Nazi death camp?
These kinds of questions are at the heart of film noir. The hero is always flawed. Scorsese showed his actors the great 1947 noir “Out of the Past,” whose very title is a noir theme: Characters never arrive at a story without baggage. They have unsettled issues, buried traumas. So, yes, perhaps Teddy isn’t simply a clean-cut G-man. But why are the others so strange? Kingsley in particular exudes menace every time he smiles.
There are thrilling visuals in “Shutter Island.” Another film Scorsese showed his cast was Hitchcock’s “Vertigo,” and we sense echoes of its hero’s fear of heights. There’s the possibility that the escaped woman might be lurking in a cave on a cliff, or hiding in a lighthouse. Both involve hazardous terrain to negotiate, above vertiginous falls to waves pounding on the rocks below. A possible hurricane is approaching. Light leaks out of the sky. The wind sounds mournful. It is, as they say, a dark and stormy night. And that’s what the movie is about: atmosphere, ominous portents, the erosion of Teddy’s confidence and even his identity. It’s all done with flawless directorial command. Scorsese has fear to evoke, and he does it with many notes.
You may read reviews of “Shutter Island” complaining that the ending blindsides you. The uncertainty it causes prevents the film from feeling perfect on first viewing. I have a feeling it might improve on second. Some may believe it doesn’t make sense. Or that, if it does, then the movie leading up to it doesn’t. I asked myself: OK, then, how should it end? What would be more satisfactory? Why can’t I be one of those critics who informs the director what he should have done instead?
Oh, I’ve had moments like that. Every moviegoer does. But not with “Shutter Island.” This movie is all of a piece, even the parts that don’t appear to fit. There is a human tendency to note carefully what goes before, and draw logical conclusions. But – what if you can’t nail down exactly what went before? What if there were things about Cawley and his peculiar staff that were hidden? What if the movie lacks a reliable narrator? What if its point of view isn’t omniscient but fragmented? Where can it all lead? What does it mean? We ask, and Teddy asks, too.»

Nota: Já agora, eis as minhas breves impressões deixadas neste blogue sobre o mesmo filme.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Driving Mr. Penn

Se os tempos não tivessem mudado e no caso de coarctada a exposição mediática (para o bem e para o mal) de determinadas atrocidades perpetradas pela sordícia do autoritarismo legítima ou ilegitimamente referendado – exposição agora inexorável, facilitada pelo crescimento exponencial dos meios de difusão de informação não manipulada –, o actor norte-americano Sean Penn porventura – e trata-se de mera especulação, embora fundamentada pelos flagícios sociopolíticos do século XX – teria dado um outro final à sua frase, proferida – é bom notar – num ambiente irrestrito de liberdade de expressão, «Devia haver um tribunal que mandasse» fuzilar* «as pessoas […] por este tipo de mentiras», e aquele tipo consiste em alcunhar reiteradamente de «ditador» o déspota venezuelano Hugo Chávez, um «líder eleito» como afirmou Penn, servido-se de forma abusiva da proposição para servir de alavanca enfática à sua irritação impositiva. Mas, Hitler também foi eleito e aclamado pelo povo – o que, por curiosidade, até desfaz a retórica falaciosa professada num dos exaltados filmes messiânicos em que Penn foi figura de cartaz (e que lhe permitiu arrecadar meia dúzia dos mais importantes prémios do mundo do cinema e mais um punhado de dólares): E se Klara Hitler tivesse abortado durante a gravidez de Adolf?
É o mundo em mudança. Santana manda expulsar quem critique a direcção do partido. Penn mandaria prender quem apodasse Chávez de ditador. Não vale. Duas estrelas que se movimentam no caldo protector da democracia para poderem proferir este tipo de inanidades. Enviemo-los para a Venezuela, transformemo-los em venezuelanos retirando-lhes as actuais cidadanias. Nada melhor que vestir a pele daqueles que clamam e se expõem ao martírio pelo simples cheiro da liberdade.
Se ao primeiro lhe permito o dislate, porque não existe, de forma sentida, qualquer apelo a um resquício de indulgência, o sujeito é-me soberanamente indiferente, e tão-pouco afecta a minha vida; ao segundo, que me diz muito, até o perdoo porque me deu o inesquecível Lado Selvagem (Into the Wild, 2007), e protagonizou autoritariamente Mystic River ou Milk.
Nota: *verbo caro ao grande amigo do camarada Soderbergh.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

10,2%


«7,1% de desempregados. 7,1%... é a maior taxa de desemprego desde que começou esta série cronológica das medições do desemprego em Portugal. Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida.»
José Sócrates, num comício socialista em 2005, dias antes da tragédia nacional de 20 de Fevereiro.

Pois é, senhor engenheiro dominical. Foi por isso que em 2005 deixei de ser um crente sem mácula. Votei com toda a convicção num partido de esquerda, cuja propaganda – ainda sem a marca goebbelsiana do argumentum ad nauseam que iria caracterizar um governo com poder absoluto, porém à deriva, durante os quatro anos que se seguiram – fez resvalar a ponta da esferográfica – talvez uma similar àquela que o senhor usou na tomada de posse deste seu XVIII – para o partido que desistiu da rosa e manteve o punho cerrado da arrogância, a ostentação coelhiana da virulência de quem convosco se mete.
Quo vadis?

Nota: regresso a estas lides após quase um mês de ausência forçada por compromissos e alguma falta de vontade de teorizar para meia dúzia (e estou a ser optimista) de pessoas que me visitam. Os e-mails irão sendo respondidos à medida que forem surgindo oportunidades para uma resposta minimamente assisada – que nada tem que ver com o novo líder franciscano dos que se autodecapitam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bichices, O Referendo

Talvez seja esse o termo empregado em casa, na escuridão das palavras vãs, na educação moralizante que se dá a uma prole que se quer sã, despojada de todos os males do mundo moderno que redundou na licenciosidade.
Em minha casa ensina-se a moral cristã. E ponto final. Se houve Adão e Eva – crescei e multiplicai-vos, disse a troante voz divina, incapaz de matar a serpente do desejo, onde haverá lugar para Adão e Armando? E Eva encontrou uma Francelina de dedos hábeis? Não está escrito, são palavras ausentes que deveriam ter sido gravadas pelo fogo etéreo-criativo. Não vem n’O Livro. Procriai, independentemente da felicidade presente e futura desse acto.

Já me havia insurgido. No meu distrito, um partido – em que, sem me arrepender, já votei em três ou quatro eleições – colocou à frente de um conjunto de ilustres desconhecidos um homem ciliciado agarrado aos seus preconceitos e dogmas.
Fazer um referendo nacional sobre se os portugueses aceitam ou não “os casamentos entre pessoas do mesmo sexo” seria a mesma coisa que referendar o direito dos passantes domingueiros, de bigode à (bi)Godinho e fato de treino verde com laivos de roxo, à conquista dos sofás de um centro comercial.
Se os homossexuais são uma minoria, ainda desdenhados por uma espúria moral dita cristã – porque lendo e interpretando as palavras de Cristo, jamais nelas se encontra a reprovação da dita caridade mútua entre pessoas do mesmo sexo –, nunca, mas nunca mesmo tal referendo serviria para criar uma base jurídica que abriria a possibilidade do casamento entre duas pessoas que se amam, e que, por acaso, são ambas portadoras do mesmo par de cromossomas.
A questão do referendo é uma falácia. A (putativa) abertura de espírito evidenciada por aqueles que o defendem é uma impostura das mais ignóbeis. Uma mentira dita sem mover um músculo facial que revele o pensamento que lhe subjaz: esta questão referendada jamais triunfará para o lado dos invertidos.
Mesmo que o nosso povo revelasse, nos dias que correm, uma abertura de espírito e uma tolerância próprias dos tempos em que vivemos, no canto esconso, isolado, metálico, enferrujado da cabine de voto, votaria “não” à proliferação da bichice, da depravação moral, biblicamente destruída com Sodoma e Gomorra, do amor resultante apenas de um hedonismo doentio e incapaz de ser compreendido por quem tem a cabeça formatada por essa moral anquilosada fundada numa educação protocristã: se se querem sodomizar, sodomizem-se, mas longe da instituição casamento ancestralmente respeitada pelo moralista pequeno-burguês: talvez, o mesmo que bate na mulher, que não provê a casa de sustento, que se afunda no álcool e, mais modernamente, nas drogas ditas sociais, denega os próprios filhos, que se exime da reciprocidade afectiva que uma união exige, que se passeia no banco de trás por verdes prados com o colega de trabalho – seja de que sexo for, desde que ocultado dos olhos do mundo –, ou no motelzinho escondido por árvores frondosas cuja gerência garante confidencialidade imputando os encargos a despesas diversas com direito a dedução fiscal, até na transacção comercial do puro prazer, ou ainda nos mirmidões de que falava o Eduardo no seu belo romance Cidade Proibida, que se escondem nos baldios das nossas grandes cidades.
Porquê esta ideia absurda de referendar o direito à liberdade contratual? O casamento não é um contrato como outro qualquer? Apesar da carga religiosa que nos querem fazer incutir, o casamento civil é ou não é um contrato que, pelo amor, se anui na partilha de um património? Porquê referendar o direito à liberdade de escolha de uma minoria? Referende-se o povo turco quanto à independência do Curdistão. O povo da Arábia Saudita – habituadíssimo à democracia – sobre a introdução livre da carne porco e do álcool nos cardápios dos seus restaurantes.
Pobre gente. Pobres almas. Propositadamente ou não, é hoje lançado pela Asa um livrinho que faria bem às mentes do bando beato de políticos da falácia, porventura para libertar as pulsões há muito recalcadas. Talvez, após a sua leitura, saíssem do armário, onde previamente se despojariam de toda a hipocrisia, e agarrassem na bandeira multicor… [ver capa do livro na imagem – o tal que pelo simples vislumbre Frederico Lourenço suspirou de esperança, ao vê-lo postado numa biblioteca de um rapaz por quem sofria num silêncio de repressão social dos comportamentos.]

Seus mirmidões dos baldios!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 Anos

Tinha apenas 17 anos. Assistia pela televisão, dominado por um fascínio, quase hipnótico, difícil de explicar, ao júbilo de milhões de alemães e de tantas outras pessoas vindas de todas as partes do mundo perante o derrube de um dos muros mais simbólicos da História mundial. Revi-me nas famosas palavras de JFK, proferidas apenas cinco meses e quatro dias antes de ser assassinado em Dallas, numa cidade cercada por um dos regimes políticos mais ignóbeis que o Homem conheceu.
Naquele frio dia de Novembro chorei pelo grito de liberdade de um povo oprimido e tiranizado que se exprimia em lágrimas de felicidade por cada batida que abria uma fenda no muro da vergonha. Tal como eles, também «Ich bin ein Berliner».

Aquele beijo apaixonado entre dois tiranos do mundo moderno, representantes directos da ortodoxia estalinista, os filhos do monstro, é ainda admirado com uma nostalgia que não se consegue compreender, nem à luz da liberdade de expressão – esbarra com qualquer conceito de justiça, igualdade, humanismo, liberdade, integridade, dignidade da condição humana. E se agora me envergonho, não é pela falácia da comparação sobre a derrogação daqueles valores entre dois sistemas que em tempos se digladiaram, como meio de justificar o regresso do status quo pré-“9 de Novembro”. Se a minha cara se cobre de vergonha é em razão dos 446.994 portugueses, representados por 15 deputados (em 230) na Assembleia da República, que no passado dia 27 de Setembro ao exercer livremente o seu direito de voto – coisa impensável se a sua doutrina tivesse vingado no nosso país – se revêem nas palavras espúrias dos seus dirigentes sobres este acontecimento histórico.
Não me interessa o relativismo, as comparações e o revisionismo. Não interessa a história e o passo em frente. Mas o momento presente, vivido por milhões de pessoas como um valor absoluto de libertação.

«Há muita gente no mundo que realmente não compreende, ou dizem não compreender, qual é a grande divergência entre o mundo livre e o mundo comunista.
Deixem-nos vir a Berlim.
Há alguns que dizem que o comunismo é a vaga do futuro.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há outros que dizem, na Europa ou noutro sítio qualquer, que nós podemos trabalhar com os comunistas.
Deixem-nos vir a Berlim.
E há ainda uns poucos que dizem que é verdade que o comunismo é um sistema perverso, mas permite-nos alcançar progresso económico.
Lasst sie nach Berlin kommen.
Deixem-nos vir a Berlim.»
Parte do discurso proferido por John Fitzgerald Kennedy, a 26 de Junho de 1963, em Berlim Ocidental [tradução livre: AMC, 2009]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Unbound

Quando no texto anterior referi, entrelinhas, o mito de Prometeu Agrilhoado, tragédia grega escrita por Ésquilo, fazendo um pequeno exercício contranarrativo através da inversão dos beneficiários do roubo do fogo por Prometeu à omnipotência divina, não pude deixar de me recordar de mais um dos inúmeros trechos alegóricos genialmente concebidos por David Simon, na sua estrondosa série The Wire (A Escuta). Trata-se do sétimo episódio da última temporada (a quinta), intitulado “Took”, que foi escrito por Simon em co-autoria com o excelente romancista e argumentista nova-iorquino Richard Price – infelizmente, quase desconhecido em Portugal, com apenas um romance publicado, Terra da Liberdade (ed. Bertrand, 2000; Freedomland, 1998), adaptado pelo próprio autor para o cinema num filme de 2006 realizado pelo sofrível Joe Roth.
Nesse episódio, “Clay Davis” (magistralmente interpretado pelo actor Isiah Whitlock Jr.), o corrupto senador estadual, famoso pela sua hilariante e ressonante interjeição, com a voz esganiçada de indignação, “shiiiiiiit”, é finalmente convocado para comparecer em tribunal perante o Grande Júri, depois da obtenção de escutas concludentes que comprometem a polícia, autarcas e demais políticos, construtores e especuladores imobiliários, advogados, magistrados e traficantes de droga.
Finalmente, a espada da justiça actuará. O espectador sente-se alentado e em suspenso, embora esteja consciente de que a arte imita a vida – dura, iníqua e cruel – e que Simon, apesar de ter nascido em Washington, conhece como ninguém a mundividência da violenta Baltimore – terra de Poe e de “Hannibal Lecter” de Thomas Harris –, porquanto foi jornalista do Baltimore Sun por mais de uma década.
Os personagens de The Wire baseiam-se em algumas figuras públicas reais da mais importante cidade do Estado de Maryland. Não é novidade. Para quem acompanhou a memorável série desde o seu primeiro instante não pode (ou não deveria) esperar por um desfecho à laia de ode ao triunfo da justiça, basta para isso estar a par dos acontecimentos recentes político-judiciais que ocorrem na cidade de Baltimore, onde sobre a actual presidente da câmara – a jovem afro-americana Sheila Dixon – impendem acusações de corrupção e de outros crimes de colarinho branco – talvez seja a “Nerese Campbell” de Simon, quando “Carcetti” deixa o município e, finalmente, conquista o apetecido gabinete de Anápolis…
A cena que descrevo a seguir, dura pouco mais de meio minuto. Como referi, Clay Davis é finalmente chamado a comparecer como acusado em tribunal, obviamente patrocinado por um engenhoso advogado que conhece bem os meandros do sistema judicial e as pequenas grandes técnicas de manipulação da opinião pública através dos média:

 
«[Nas escadas exteriores do Tribunal de Baltimore, Clayton Davis, o senador estadual do Maryland, acusado pelo procurador de crimes de corrupção, empunhando (com um fim em vista) um livro, acede em falar aos jornalistas que o cercam antes de entrar para a sessão de julgamento.]
JORNALISTA: O que é que anda a ler, Senador?
SEN. “CLAY” DAVIS: Isto aqui? Promethes Bound*. Uma peça de teatro antiga, uma das mais antigas de que dispomos. É sobre um homem simples que foi medonhamente castigado pelos poderosos, pelo terrível crime de tentar trazer a luz às pessoas comuns. Nas palavras de Ascyllius**, “Nenhuma boa acção ficará impune.” Nem vos consigo transmitir o conforto que tenho encontrado nestas parcas páginas.» [Descrição e tradução: AMC, 2009]
Notas: *refere-se à tragédia grega, de autoria de Ésquilo, Prometheus BoundPrometeu Agrilhoado –, embora Davis, na sua ignorância, pronuncie o nome do personagem daquela forma truncanda, como Pro-me-thes [grafia e pronúncia correctas: Pro-me-the-us; sílaba tónica: antepenúltima].
**refere-se comicamente a Ésquilo como Ascyllius [A-silly-us], sendo a sua forma correcta Aeschylus [Aes-chy-lus, foneticamente (aproximando ao português) és-cã-lâzz, tónica na antepenúltima sílaba].
Uma sensação de déjà-vu. Inversão e subversão. Objecto e significado. Justiça desagrilhoada à sua semântica. Crime sem punição. Impunidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Booker Prize 2009 [última hora]

O vencedor do Man Booker Prize de 2009 é:



Ao fim de três horas de deliberação, o júri – este ano presidido pelo jornalista e ensaísta James Naughtie – atribuiu o mais prestigiado galardão a premiar um livro de ficção em prosa escrito originalmente em inglês no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda a Hilary Mantel, escritora inglesa (n. 1952), pelo seu romance Wolf Hall.
Mantel já havia sido uma dos 17 semifinalistas do mesmo prémio em 2005 – um dos melhores anos de sempre do Booker, com 6 finalistas de peso – com o seu romance Beyond Black.
Apesar de já haver publicado mais de uma dúzia de obras literárias, Mantel nunca viu um livro seu publicado em Portugal*.

* A não publicação de qualquer livro desta escritora em Portugal dever-se-á, decerto, a um qualquer veto ostensivo e oculto de Cavaco Silva, talvez travestido num cismático Henrique VIII, auxiliado pelo seu Cromwell, Fernando Lima, a necessitar de interpretação mais do que urgente (isto é, paga a peso de ouro) por Bettencourt Resendes, o equidistante Pedro Adão e Silva, Clara "Loira" Ferreira "Marquise" Alves, Teresa de Sousa, o isentíssimo e preclaro Daniel Oliveira, o erudito Luís Pedro Nunes, o não-sectário Emídio Rangel, o inefável Ferreira Fernandes, os sublevados Carlos Abreu Amorim e Pedro Marques Lopes, e os opinadores do independentíssimo Diário de Notícias (com o, hino antropomorfizado à deontologia profissional, Marcelino "the off the record man" à cabeça). Vedando-se, como é óbvio, todo e qualquer comentário ou mínima opinião, nem que seja fundada em 3 vocábulos apenas, aos fundamentalistas e diabólicos – agentes do império do mal – Nuno Rogeiro, Francisco José Viegas, Maria João Avillez, João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e sinistras (esqueçam o italiano) figuras afins, porque não conseguem (deliberadamente) captar os nefastíssimos miasmas de pobreza (boliqueimenses, são palavras sinónimas para o 1.º grupo) de um gasolineiro que singrou na vida e que se tornou, para além de um dos mais reputados professores catedráticos de Finanças Públicas – a par de figuras como Sousa Franco e Teixeira dos Santos –, com obra científica publicada e certificada, em Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro (1985-1995) e em Presidente da República Portuguesa (2006-?) pelo voto democrático de milhões de portugueses.    

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Manipulação


Houve uma vez um destacado director de informação de uma estação de televisão privada que disse, suponho tratar-se de esse cargo, que se quisesse venderia ao país um primeiro-ministro. Sem blogues, redes sociais, com internet ainda na sua fase rudimentar de mera caixa-de-ressonância da informação que circulava pelos meios de comunicação tradicionais, vozes de indignação, ou a ela autorizadas, surgiram de todos os lados para exprobrar as palavras do novo profeta do dealbar da revolução mediática.
Aconteceu. Cedo, o poder político, costumeiramente astuto na sua perversidade, apercebeu-se dos poderes ilimitados dos novos circuitos comunicacionais. Criou-se uma rede subterrânea de influências, que vê a luz do dia sob a forma de opinião, nos jornais, nas rádios, nas televisões, nos blogues, mas escrupulosamente geridas por agigantadas centrais de informação – hoje, não há inocente que não saiba que a informação que lhe chega às mãos já foi depurada dos escolhos da livre interpretação; ela é-nos servida eviscerada, sem espinhas e sinais de gordura, basta ligar o microondas e comer sem reclamar o produto final. O fim sempre foi a notícia, mas os meios tradicionais de investigação jornalística  para o atingir desapareceram – vivemos em plena época de arrivismo informacional.
O tal “xerife” fez o seu caminho, reformou-se e hoje opina, livremente e sem remorso, num canal público de televisão pago pelo dinheiro dos contribuintes – esses mesmos que outrora se arrogava de poder comprar e manipular.
Hoje a perfídia dá os seus frutos, faz parte do nosso quotidiano, deixamo-nos dominar por ela através de uma acédia imanente – terreno fértil para a incubação de novas formas de assassinato de carácter e do derrube perverso do adversário.
Nos dias que correm, joga-se xadrez com luvas de boxe; potencialmente, o xeque-mate chega à primeira jogada; caem por terra as peças do tabuleiro à primeira jogada com as brancas, sem distinguir a cor dos derrubados, brancas ou pretas, amigos ou inimigos, atingiu-se o fim… o rei, que muda facilmente de figura, dependendo desse fim convencionado no momento, tomba sem sequer ter dado um passo. Mas não se aflijam, a vontade de acudir o moribundo jamais desaparecerá, sob pena de se estragar o fim. Haverá sempre o peão altruísta, aquele que o pretende socorrer, insuflando-lhe dignidade, atando-lhe uns cordéis translúcidos à cabeça e aos membros.
Apoiantes de ontem, são adversários de hoje, e para cúmulo da sem-vergonha e da sordícia confessam-se envergonhados pelo apoio manifestado (sob as mais variadas formas) em tempos idos. Como se o passado fosse negociável. Seguem o rebanho, pretensamente intoxicados pela opinião dos opinadores comprometidos com o regime. Mas a realidade é bem pior, pelo testemunho cobiçoso da alacridade e das recompensas dos que trabalham no campo oposto, vendem por meia dúzia de tostões o que à partida é infungível, a própria alma.


Conselho: a leitura deste texto sabe melhor se se puser em fundo a famosa faixa sonora de Nino Rota. Tenho a impressão de que já vi este filme mas com protagonistas diferentes… (já agora, em caso de dificuldade de identificação, voltar a este pequeno excerto aqui postado que, por si só, já nos dá uma ideia global).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O camelo e a agulha: os números finais e o júbilo socialista

Falou o profeta: «Nós juntamo-nos ao júbilo que há nos socialistas portugueses, nós os socialistas do mundo. Esse é o caminho…», e prosseguindo disse, «Esse é o caminho, o socialismo! África tem muito que apostar nisso, o socialismo africano, corrente muito forte que surgiu no século XX, que trataram de apagá-la mas que aí está, viva. Kadhafi é uma testemunha disso, da República Socialista da Líbia».
E terminou de forma messiânica, «o primeiro socialista foi Cristo, para nós, para mim que sou cristão. Alguém imagina Cristo capitalista? Ah!, Judas, que o vendeu por umas moedas. Esse é o capitalista, que vende até Cristo…», rematando com a parábola, narrada nos três Evangelhos sinópticos, vide título deste texto (cf. A Bíblia Sagrada: Mateus 19, 23-24; Marcos 10, 23-25; e Lucas 18, 24-25).



Eis um resumo comparativo do júbilo anticapitalista:



2009

2005

Diferenças

Crescimento

Votos

%

Dep.

Votos

%

Dep.

votos

dep.

%

p.p.

PS  

2.068.665

36,6%

96

2.573.406

45,0%

120

-504.741


-24


-24,4%


-8,5

PSD

1.646.097

29,1%

78

1.639.240

28,7%

72

6.857


6


0,4%


0,4

CDS-PP  

592.064

10,5%

21

414.922

7,3%

12

177.142


9


29,9%


3,2

BE

557.109

9,8%

16

364.407

6,4%

8

192.702


8


34,6%


3,5

PCP-PEV  

446.174

7,9%

15

432.000

7,6%

14

14.174


1


3,2%


0,3



5.310.109

93,8%

226

5.423.975

95,0%

226

-113.866













Inscritos

9.337.314

-



8.785.762

-


551.552




Votantes

5.658.808

60,6%



5.712.427

65,0%


-53.619




Abstenção

3.678.506

39,4%



3.073.335

35,0%


605.171