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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um Pecado Sinonímico


Levantou-se o habitual alarido na imprensa lisboeto-espalhafatosa – mas há-a de outro tipo? A dos bas-fonds do poder – quando o sujeito passivo da epinotícia é o Governo ou as suas instituições, e o activo um dos seus elementos mais próximos.
Na TVI o episódio mereceu maior destaque, em minutos, que a derrapagem nos números de (de)crescimento do PIB ou de acréscimo na taxa de desemprego. No Público gastaram-se 1.700 caracteres para dizer, logo no seu título, que «Ex-secretário de Estado avisa que vai mandar o fisco “tomar no cu”».
A mim preocupa-me apenas a expressão. Eu teria dito “apanhar” ou “levar”, é mais rasteirinha, bem mais portuguesa, vernacular. Mas sendo o Francisco um homem ecuménico por natureza, tão lido por nós, os do rectângulo, como pelos nossos irmãos do outro lado do Atlântico, desculpa-se o “tomar”; e este, é o único pecado detectável no seu texto, venial, apenas susceptível de causar algum tipo de proctalgia aos mais sensíveis.
“Cu” também goza de um riquíssimo campo semântico, mas adequa-se ao contexto, embora “olho” se encaixasse melhor neste baixo ciclópico país, terra em que os dois de cima, há muito, deixaram de ver, e como em tempos disse Vasco Pulido Valente, os que tinham um e poderiam ser reis, tiveram de o vazar, porque a mediocridade reinante a cada esquina não permite esse arrojo.
No entanto, é urgente resolver outra questão que, por analogia, pode traduzir-se em ineficácia fiscalizadora: como será possível mandar esses zelosos e temerários fiscais tomar, apanhar, levar no cu (perdoem-me a exergásia), se quem tem cu tem medo?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mais próximos

As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No dia em que...

Ajax Alçada, apeltroada em estivália sofocleira, tentou vitimolar-se em directo, entre lacrimúrias e tremulonias, perante analição certeira do sublipelidado Odisseu Viegas, teria merecido deste a bofeítação dos esproémios de Evohé Cortázar, mas em Português-Glíglico:

«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Pertence ao cânone, cara e desvalorizada – talvez exista aqui uma contradição – Alçadajax.

Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico:

sábado, 3 de maio de 2008

Quac

No dia 23 de Abril do mesmo ano (embora por calendários diferentes, separados por 10 dias), 1616, morriam William Shakespeare e Miguel de Cervantes, em Stratford-upon-Avon e Madrid, respectivamente, data aproveitada pela UNESCO em 1995 para dar início à celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Este ano, por terras lusas, saía para as bancas o primeiro número da renovada revista Ler (edição n.º 69 desde a sua inauguração), de novo dirigida por Francisco José Viegas e agora com periodicidade mensal.
Na capa, para além do principal destaque dado a uma entrevista dada por António Lobo Antunes a Carlos Vaz Marques – este último, é, no meu entender, de longe e desde há muito, o melhor entrevistador português da actualidade sobre assuntos da ciência e da cultura –, dá-se especial relevo a um artigo, em jeito de lista, que no meu caso, um listómano assumido, sobressalta da mesma forma como a heroína sobressaltava W.S. Burroughs – oferecesse a Ler uns gramas… –, sob o título de “Os 50 autores mais influentes no século XX” [pp. 48-59]. Na página 48 surge o subtítulo “e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, assinado pelo jornalista José Mário Silva. Sobre a dita lista e sem um texto introdutório de elucidação sobre os critérios (artísticos, estéticos, técnicos, comerciais e/ou sociológicos) que conferiam a elegibilidade dos autores como um bloco, muito poderia ter sido dito – as anotações apensas a cada nome, por mais extensas ou desenvolvidas que sejam, enfermam sempre dessa necessária visão global. E, neste caso, a posição mais cómoda é a do crítico, que desde logo poderia destacar um conjunto de nomes que foram esquecidos e outros que incompreensivelmente figuram no referido arrolamento.
Mesmo o critério temporal, o único verdadeiramente explícito, parece haver sido derrogado quando se inclui o questionabilíssimo Emilio Salgari (1862-1911) e se deixa de fora o Mestre Henry James (1943-1916), com um bom punhado de romances, novelas e contos escritos e publicados já no século XX; situação que se agrava com a não inclusão de um dos melhores poetas de todos os tempos, Nobel da Literatura em 1923, W.B. Yeats (1865-1939). Dos vivos a inclusão de Rushdie (n. 1947) e principalmente de Salinger (n. 1919) – que para além de À Espera no Centeio (ou Agulha no Palheiro; The Catcher in the Rye, 1951), andou apenas à volta dos hinduísmos e dos jovens místicos e assaz aborrecedores Glass e depois desapareceu – é mais do que discutível, quando se deixa de fora Pynchon (n. 1937), Roth (n. 1933), DeLillo (n. 1936), McCarthy (n. 1933) ou Updike (n. 1932), conjuntamente com o mais imperdoável esquecimento (ou não, desconheço o critério), o do inigualável Saul Bellow (1915-2005), Nobel da Literatura em 1976; ou até de Capote (1924-1984) ou Mailer (1923-2007), que, em estilos diametralmente opostos, revolucionaram as letras norte-americanas com os habituais efeitos de contagio para o universo das diferentes literaturas.

Muito poderia ser ainda dito sobre a referida listagem, como a inclusão de Barbara Cartland e de J.K. Rowling, e a não inclusão de nomes como Chesterton, Gide, Malraux ou Blanchot. Todavia, arriscando-me a proferir um lugar-comum, tudo isso é discutível e de sobremaneira relativo. Jamais se poderá fazer uma lista desta estirpe com alguma objectividade, entenda-se com o toque de mágica de agradar a todos. Gosto de lá ver Umberto Eco – como gostaria de ver incluído pelo menos um dos beatniks, porque não Kerouac? –, mas intuo que uma esmagadora maioria dos leitores acha a sua inclusão mais do que discutível.

Finalmente, a propósito deste artigo, li
um texto divertidíssimo do Alexandre Andrade, em que confessa que, ainda nesta Primavera, irá tatuar na sua omoplata direita a labiríntica e claustrofóbica inscrição perecquiana “11, rue Simon-Crubellier”José Luís Peixoto tem tatuado num dos braços “Yoknapatawpha” o condado imaginário que aparece na maioria dos romances (rústicos ou de folclore regional como lhes chamava Nabokov) de William Faulkner. Pois, eu, meu caro Alexandre ponho-me a nu, e revelo aqui e agora, com prova documental, que a pele que cobre este arcaboiço, que se foi agigantando, desde o escultural até levemente (que ironia) aceitável para a vista, desde o fatídico dia para qualquer homem... (adiante) dispõe de 3 (três) tatuagens Por amor a Borgespor Borges (nas costas), Por amor a Nabokovpor Nabokov (no braço esquerdo e que enorme heresia para um quase quase russo branco, mas o direito já tinha o indispensável “amor de mãe”) e uma terceira num local inconfessável, tal como a daquele bombeiro voluntário bem abonado dos chistes ordinários, residente na freguesia de Valbom, concelho de Gondomar, distrito do Porto, que aparente e molemente havia mandado tatuar a palavra “Bombom”…
Um dos romances da minha vida, foi escrito por um autor inglês chamado Malcolm Lowry, que conta a história fatídica, ocorrida num só dia, o dia dos mortos, de um cônsul inglês, de seu nome Geoffrey Firmin, numa terra ficcionada (que chegou a existir durante o domínio do Império Azteca), onde hoje existe Cuernavaca no México.
Trata-se de um lânguido Quac

Pergunta ao estilo Yorn: Que mais lugares imaginários saídos da literatura tens tu tatuados no teu corpo?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

3,... [com novidades literárias]

III

Ele jamais havia pegado num cão e tinha medo de que ele escorregasse, assim embalou-o nos seus braços. Ele sentia-o quente na sua pele e muito mole, e de uma forma arrepiante, um pouco nojento. Tinha olhos cinzentos como pequenos botões. Chateava-o que a Enciclopédia não tivesse imagem alguma desta raça de cão. Um bulldog a sério seria uma raça violenta e perigosa, mas estes eram apenas cães castanhos. Ele sentou-se no braço da cadeira verde estofada com o cachorrinho no seu colo, sem saber o que fazer a seguir. Entretanto, a mulher chegara-se a ele e parecera-lhe que ela lhe fizera uma festa no cabelo, ele não tinha bem a certeza, porque o seu próprio cabelo era bastante espesso. Quanto mais o tempo passava mais certezas ia ganhado sobre o que fazer. A seguir, ela perguntou-lhe se ele queria beber água, que ele aceitou, ela dirigiu-se à torneira e abriu-a, dando-lhe a oportunidade de voltar a pôr o cão na caixa. Ela regressou com o copo de água e à medida que ele o agarrava ela deixou que o fino vestido se abrisse, exibindo os seus seios, como se fossem dois balões meio cheios, dizendo que não acreditava que ele apenas pudesse ter treze anos. Ele bebeu a água de um só trago e tentou devolver-lhe o copo, e de repente ela amarra-lhe a cabeça e beija-o. Em todo este tempo, por alguma razão, ele nunca foi capaz de lhe olhar para a cara, e quando o tentou fazer naquele momento só conseguia vislumbrar uma massa disforme e cabelo. Ela atirou-se a ele e de repente ele sente um arrepio na barriga das pernas. O arrepio intensificou-se, até quase lhe parecer que havia tocado no aro metálico de um casquilho ligado à corrente enquanto se substitui uma lâmpada fundida. Ele nunca seria capaz de se lembrar que se deitou no tapete – sentiu que uma torrente de água se esmagava no topo da sua cabeça. Recordou-se de ter entrado no seu calor e que a sua cabeça não parava de bater na perna do seu sofá. Ele estava perto de Church Avenue, onde teria de mudar para a linha de superfície do Culver, antes de se dar conta que ela não tinha ficado com os seus três dólares, ou de sequer ter chegado a um acordo para esse efeito, mas ele tinha no seu colo uma pequena caixa de cartão com um cachorrinho no seu interior ganindo em surdina. O arranhar das unhas no cartão arrepiavam-no. A mulher, agora lembrava-se, fez dois buracos no topo da caixa e o cachorrinho não parava de enfiar neles o seu nariz.

A mãe dele deu um salto quando ele desatou a corda e o cachorrinho se levantou e se espalhou no chão, dando latidos. “O que é que ele está a fazer?” gritou, com as mãos no ar como se estivesse prestes a ser atacada. Nesta altura, ele já havia perdido o medo do cão e segurou-o nos braços, deixando que lhe lambesse a cara, vendo isto a mãe acalmou-se um pouco. “Terá fome?” perguntou ela, e permaneceu com a boca ligeiramente aberta, pronta para alguma coisa, enquanto ele punha de novo o cão no chão. Ele disse que sim, que talvez ele tivesse fome, mas pensou que ele apenas pudesse comer coisas moles, apesar de os seus pequenos dentes já serem tão aguçados como alfinetes. Ela tirou uma pasta cremosa de queijo para barrar e colocou um pequeno pedaço no chão, mas o cão farejou-o e fez chichi. “Deus do Céu!” gritou ela, e rapidamente pegou num bocado de jornal para absorver a mancha de urina. Quando ela se agachou daquela forma, ele lembrou-se, ao mesmo tempo que abanava a cabeça, do calor da mulher e ficou envergonhado. De repente o nome dela veio-lhe à memória – Lucille – ela havia-o mencionado quando ambos já se encontravam no chão. No preciso momento em que a penetrava, ela abriu os olhos e disse, “Chamo-me Lucille.” A mãe dele trouxe numa taça esparguete que havia sobrado do jantar de ontem e colocou-a no chão. O cachorrinho levantou a sua patinha e entornou a taça, espalhando um pouco de sopa de galinha que havia no fundo. Lambeu-a avidamente do linóleo. “Ele gosta de caldo de galinha!” gritou alegremente a mãe, e num instante decidiu que ele haveria de gostar de ovo e então pôs água a ferver. De algum modo o cão soube que era a ela quem deveria seguir e caminhou atrás dela, para a frente e para trás, do forno ao frigorífico. “Ele segue-me!” disse a mãe, rindo de contentamento.

No dia seguinte, enquanto regressava a casa vindo da escola, parou numa drogaria e comprou uma coleira para cachorros por setenta e cinco cêntimos, e Mr. Schweckert ofereceu-lhe um pedaço de corda de estendal para servir de trela. Todas as noites quando adormecia, vinha-lhe à mente Lucille, como algo saído de um caixa de tesouros secreta e interrogava-se se poderia atrever a telefonar-lhe e talvez encontrar-se de novo com ela. O cachorrinho, a que ele chamara Rover, de dia para dia parecia crescer a olhos vistos, embora continuasse a não ostentar qualquer sinal de que se tratasse de facto de um bulldog. O pai do rapaz era da opinião que o Rover deveria permanecer na cave, contudo, lá em baixo o local era muito solitário e ele não pararia de ganir. “Ele sente a falta da mãe dele,” disse-lhe a mãe; assim todas as noites o rapaz começava por o colocar na cave dentro de um antigo cesto de roupa com uns trapos, e quando latisse o suficiente o rapaz estava autorizado a trazê-lo para cima e a deixá-lo dormir na cozinha aconchegado nesses mesmos trapos, todos ficavam agradecidos pelo sossego. A mãe dele tentou passeá-lo pela rua calma onde viviam, mas o cão teimava em emaranhar a corda nos tornozelos da mãe, e pelo medo que esta tinha de o magoar, ficava exausta só de o seguir em todos aqueles ziguezagues. Não acontecia sempre, mas muitas vezes quando o rapaz olhava para Rover pensava em Lucille e quase que começava a sentir aquele calor de novo. Ele sentava-se nos degraus do alpendre afagando o cão a pensar nela, no interior das suas coxas. Contudo, ele continuava a não conseguir divisar a sua cara, apenas os seus longos cabelos pretos e o pescoço robusto.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. III: 4824 caracteres)

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Novidades (literatura):
  • A revista Ler já mexe. O Francisco deu início ao blogue de suporte à revista, supostamente de periodicidade mensal.
  • 7 de Abril – saem para o mercado, com mais de dois anos de atraso (responsabilidade da editora) e numa data muito próxima à comemoração dos 66 anos da morte do autor na Suíça em 15 de Abril de 1942, os dois primeiros volumes de O Homem Sem Qualidades do notável autor austríaco Robert Musil (1880-1942) editados pela Dom Quixote, com a tradução de um dos mais ilustres germanófilos portugueses, o tradutor, ensaísta e crítico literário João Barrento. [apenas uma chamada de atenção para o último Câmara Clara (16 de Março) de Paula Moura Pinheiro, que juntou na mesma mesa Barrento e Pedro Tamen. Foi um programa riquíssimo para quem anda sedento de ouvir falar de literatura a sério na televisão.]

domingo, 13 de maio de 2007

Quem corre por gosto... [corrigido]


Li com interesse este texto do Eduardo Pitta sobre um dos muitos episódios, integráveis na secção dos efeitos colaterais “Carmona, O Arguido”, e que neste caso redundou no cancelamento de um ciclo de conferências subordinada ao tema “Os livros que não esqueci”, organizado pela Casa Fernando Pessoa, notavelmente dirigida nos últimos anos por Francisco José Viegas – que, como portuense que sou (nado, criado e residente), enche-me de inveja pelos eventos literários promovidos sem eco nesta acabrunhada Invicta.
Todavia, o que me traz a estas curtas palavras nada tem que ver com as triviais questões burocrático-administrativas que soem atrasar o andamento de um país que caminha a passo de caranguejo, passe a redundância. Nem tão-pouco discutir sobre a efervescência política actual que afecta o apetecível trono do maior município português, assim como os repulsivos jogos de bastidores de estruturas partidárias, empórios, organizações secretas e ufanos altruístas da cidadania perdida. Quero falar do pro bono, ou da tendência doutrinal da obrigatória graciosidade dos servidores da causa pública, neste caso materializada nas artes literárias.
O evento foi cancelado. Faltou o vil metal de que se fariam pagar os reputados ponentes – entre eles José Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Segundo o Eduardo, Rui Pereira, o director municipal da Cultura da Câmara de Lisboa, disse que os convidados «Almeida Faria e Diogo Pires Aurélio disseram logo que falariam gratuitamente». E depois de falar dos imbróglios administrativos, causa cimeira no cancelamento do evento, o Eduardo Pitta põe o dedo na ferida: «É evidente que o imbróglio radica na convicção, muito portuguesa, de que o trabalho intelectual deve ser feito pro bono.» Concordo com cada palavra do Eduardo aposta nesta contundente afirmação; compreendo – e revolta-me – o embaraço provocado a quem, como o Francisco José Viegas, havia dado a sua palavra a um número considerável de escritores que se deslocaria ao nosso país com o objectivo de participar no referido evento; discordo, todavia, da ideia subjacente ao caso concreto e imediato – Os livros que não esqueci – que sem pilim não há prelecção, cuja boa vontade, entendida aqui como graciosidade – e que se lhe atribua toda a carga semântica –, seria a única solução para a resolução do caso concreto, inadiável porque, segundo entendi, estava aprazado para o próprio dia. Só isto.

Uma pequena história (entre muitas, de trabalho académico pro bono)
Há três anos, após uma série de artigos científicos publicados e de algumas intervenções públicas em que participei como orador, fui convidado por uma reputada revista especializada na minha área profissional para, num luxuoso Hotel da minha cidade, intervir num congresso subordinado ao tema que vinha a tratar nos meus intermináveis trabalhos – que ainda hoje se mantêm – de elaboração da tese de dissertação de doutoramento.
Para participar no evento de três dias, cada assistente teria de desembolsar cerca de 1500 euros.
Chegou o dia, intervim no painel que me estava destinado, com um moderador e mais um ilustre participante que eu próprio arrebatei da sua Universidade extramuros. A sala do hotel estava repleta. Um natural e desinteressado olhar daria para calcular de cabeça a cifra que figuraria do lado da receita ilíquida. Uma enormidade. Falei 50 minutos, respondi a perguntas da audiência durante 20. No final recebo do Sr. Presidente do Congresso um forte aperto de mão e uma lembrança: um pequeno relógio de secretária, que no mais refinado dos sítios não passaria dos 15 euros.
Saí do lobby, entrei no parque de estacionamento, paguei cerca de 5 euros para chegar a casa.
Três anos volvidos, acabo de relatar o episódio no meu blogue…

sábado, 16 de dezembro de 2006

A Última Estocada

Livro Aberto (RTP-N)Aí está o golpe que faltava na televisão pública.
Soube pelo Eduardo Pitta, via o seu blogue
Da Literatura, que o «programa Livro Aberto, de Francisco José Viegas, (...) vai acabar.» E eu que já preparava uma lista dos 10+ nas áreas de ficção – nacional e estrangeira – e de não-ficção para, à semelhança do ano anterior, promover o melhor livro editado em língua lusa no nosso querido Portugal durante o ano que agora finaliza.
Curiosamente, no celebérrimo evento da
Fnac “Dia e Noite do Aderente” – não do papel, mas do cliente fiel –, que se realizou no passado dia 30 de Novembro, desloquei-me à loja do GaiaShopping – mais arejada e menos movimentada que as restantes no Grande Porto – e aproveitei para comprar livros, CD’s e DVD’s para oferecer no Natal, com um desconto garantido de 10% sobre o preço de venda ao público. Um dos livros que mais ofereci nos últimos tempos foi o sensacional romance contrafactual de Philip RothA Conspiração contra a América”. Desta vez, e para não fugir à regra, lá saiu mais um “Nunca Me Deixes” do Ishiguro – este sim, o livro que mais ofereci desde que me foi facultado poder aquisitivo – e mais uma Conspiração de Roth. Este último tinha a particularidade de trazer uma cinta que o envolvia, na qual se poderia ler uma frase alusiva à eleição, pelos espectadores do programa “Livro Aberto”, como a melhor obra estrangeira de ficção do ano 2005 . Para ser sincero, não sei porquê, senti uma espécie de júbilo eminentemente pessoal – vaidade ou altruísmo? Talvez pelo meu contributo ter ajudado o vencedor, ou talvez pelo autor do programa ser um insigne filho da blogosfera portuguesa – blogosfera? Filho? Mãe? África. Mãe África!
Agora sim Francisco! A partir do próximo ano
esse(a) que se queixava da falta de um programa sobre livros na Rádio e na TV – à guisa dos saudosos G.N.R. dos anos 80 – passará a ter razão e, decerto, reiterará com toda a soberba esse queixume estrídulo sem acção reparadora para que ele deixe de existir como tal: a costumeira lamúria resignada.

Tal com disse
aqui, na caixa de comentários, ao Sérgio Lavos, hoje sinto-me evangélico-bíblico – pronto, cedo, talvez um trombeteiro apocalíptico:

Em boa verdade vos digo irmãos, este país é uma vergonha!