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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Camaleão e a Voz Cavernosa

O vídeo deste ano recorda, uma vez mais, Bing Crosby e a época que lhe é sempre associada; o homem do anualmente reeditado “White Christmas” de Irving Berlin.
O curto filme que se segue, gravado em Inglaterra para a televisão, foi o último de Crosby. Mais um dos seus especiais para a quadra natalícia que ao longo dos anos protagonizou, representando e cantando, ao lado dos seus pares mais célebres, incluindo o seu proto-rival Frank Sinatra, a Voz.
No seu último trouxe Bowie. O Camaleão canta “Peace on Earth” num belíssimo dueto, com Bing a entoar “The Little Drummer Boy”. A gravação ocorreu no dia 11 de Setembro de 1977; Bing morre, vítima de um ataque cardíaco fulminante em pleno buraco 18 num campo de golfe nos arredores de Madrid, no dia 14 de Outubro do mesmo ano.
O Sr. Natal continua a ser recordado. E nós, à medida que vamos envelhecendo, apercebemo-nos de que a época vem carregada de uma melancolia pungente, surda, inexorável e que parece somatizar-se num imenso nó na garganta, apenas libertado pela alegria que irradia daqueles que chegaram há menos de uma década, em cujos olhos brilham lágrimas que brotam de outra fonte.


Feliz Natal! 

domingo, 23 de dezembro de 2012

Maturação

Quando esta manhã passava os meus olhos pelos blogues que consulto numa base regular, deparei-me com este texto do João Gonçalves que, embora culmine em assunto diverso àquele que me traz aqui, materializado nestas curtas palavras, avivou ainda mais o meu deslumbramento pelo filme de um realizador que tem o condão (e ele gosta de o ter) de instilar apreciações maniqueístas na crítica e nos cinéfilos espalhados por esse mundo fora (especialmente os norte-americanos – perguntem a James Caan –, que não se esquecem facilmente da mensagem muito pouco subliminar, que mesmo que o fosse seria destruída com as imagens em slideshow nos créditos finais, de Dogville (2003) e de Manderlay (2005) – a tragédia americana aferroada por um dos maiores provocateurs da cinematografia contemporânea), esse é Lars von Trier.
No ano passado, por esta altura, inclui-o na 3.ª posição do meu Top 10, atrás de Malick e de Skolimowski. Porém, enquanto estes ficaram pelo único visionamento no grande ecrã, Melancolia (Melancholia, 2011) passou, em 2012, vezes sem conta debaixo dos meus olhos, com paragens de imagem, slow motionsfast forwards e rewinds repetidos tanta vezes quanto o necessário, detendo-me ora nos pormenores, nas expressões, nas cores, ora em toda a mise-en-scène, e até repousado, de olhos fechados, a escutar apenas as ondas de choque wagnerianas com os fotogramas da esplendorosa introdução gravados na retina.
Não é por isso que deixarei de aqui postar as minhas listas, mas Melancolia foi de facto o meu filme de 2011 (saltou dois lugares), que me desculpem os adeptos do panteísmo malickiano ou os da imagética skolimowskiana, o autor de As Cinco Obstruções, levou-lhes a palma.
Para recordar:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nostalgia por esses anos sombrios

Hoje de manhã, ao ligar-me à Fnac espanhola, reencontrei um dos fantasmas do meu passado, Kristin Hersh. Em 1994, entre os meus 21/22 anos de (in)experiência empilhada por uma vida burguesa, de diletante – em busca de sombras para tornar expressiva uma vida anódina – a Rat Girl, que, uma década antes, noutra dimensão e suportando um fardo de um peso inaudito, vivenciou esse mesma deriva crepuscular, edita o seu primeiro e sublime álbum a solo, Hips and Makers.
Encontrávamo-nos naquele quarto atulhado com as superfluidades das nossas vidas – quando a dor, de que nos arrogávamos ser os sumos-sacerdotes curtisianos, ainda nos assombrava como uma nuvem pulviscular (vale-me o Mestre Calvino, o Italo) que só se dissipou na Primavera desse mesmo ano pela crueldade da tirania divina que fez de mim o agnóstico que vinte anos não mudaram – ligávamo-nos à eterna XFM, para desgosto dos ouvidos incuravelmente musicófobos da nossa mãe, e escutávamos, sem parar, as músicas que saltavam do disco, repetido pela novidade, da melhor estação de rádio de sempre: “Teeth” e “A Loon”, mas também “The Cuckoo”, e principalmente “Your Ghost” – nem de propósito, no início deste mês cujo fim marca uma década da Tua Ausência:

I think last night
you were driving circles around me.


domingo, 25 de outubro de 2009

A morte de um poeta

A 25 de Dezembro de 1956, Robert Walser foi encontrado morto nos campos que circundavam o sanatório de Herisau, na Suíça. Em 1929, retirou-se voluntariamente do mundo e da literatura como reacção à diagnosticada esquizofrenia e às sequelas que daí adviriam ostentadas num mundo sem compaixão, ou tempo a perder com indulgências, no seu afã de tentar, por caminhos ínvios e erróneos, ser feliz.
Quarenta e nove anos antes, Walser escrevia assim sobre o seu poeta “Sebastian”, o jovem idealista que se afastara de mundo rumo à natureza para compor poemas e de quem o mundo se compadecia, não só pela sua faceta burlesca, mas também pela sua evidenciada melancolia, como uma espécie de “indemnização para a negligência” deste perante tão jovem alma errante ao “propor-lhe tarefas que pudessem satisfazer a sua vontade de acção.” (pp. 53-54).
Palavras proféticas, de um dos mais consagrados “escritores do não”, como diria Vila-Matas (seguir o marcador “Robert Walser” neste blogue):

«Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente. […] Que repouso grandioso este, jazer aqui imóvel debaixo dos ramos de pinheiros, na neve. É o melhor que podias ter feito. As pessoas tendem sempre a magoar excêntricos como tu e a rir-se do sofrimento. Transmite as minhas saudações aos mortos amáveis e silenciosos que estão debaixo da terra e não ardas por muito tempo nas chamas eternas da inexistência.»
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, pp. 86-87.
[Lisboa: Relógio D’Água, Setembro de 2009, 233 pp; tradução de Isabel Castro Silva; obra original: Geschwister Tanner, 1907.]

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rumo

«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.

[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]

O abrandamento é o próprio prenúncio, seja ele imposto ou auto-induzido, de que o azar virá, travestido de mudança, ataviado de promessas, mesmo que exista a sensação de continuidade do rumo, obstinada e integramente, traçado num passado mais ou menos recente.
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.

Caeteris paribus: a melancolia é uma variante do egoísmo que se desenvolve até ao estádio máximo da ruína ou da destruição, caminha por fim como uma alma penada de eremitério em eremitério, cristalizada no tempo; a infelicidade, ao invés, é a própria ruína, procura rapidamente um acto de altruísmo, sem qualquer tipo de dissimulação, para que o tempo apague os despojos dessa destruição.

É fácil ser-se feliz na melancolia, mas é um contra-senso ser-se melancólico na infelicidade.

domingo, 2 de março de 2008

Orgulho e independência

«Mas isto já me acontecera mais do que uma vez na vida: recusara-me a permitir que as convenções determinassem a minha conduta para afinal aprender, depois de ter percorrido o meu próprio caminho, que os meus fundamentais e entranhados sentimentos eram mais convencionais do que a minha noção de inabalável imperativo moral.
[…]
Enfim, aprendemos com os nossos próprios erros. “Paciência”, pensei. “Quase se pode dizer que o dinheiro foi bem empregue para poder apreciar, uma vez mais, a comédia da nossa própria marca de presunçosa estupidez.”»
Philip Roth, Património, pp. 95-96
(Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Fevereiro de 2008, 214 pp.; trad. Fernanda Pinto Rodrigues; obra original: Patrimony, 1991)

Quantas vezes? Dez? Vinte? Foram tantas assim?
Facilmente nos convencemos de que apusemos uma moral certa nos nossos comportamentos, da laudatória singularidade do nosso temperamento, talvez à espera de que nos seja reconhecida essa superioridade: comentada, alardeada; disseminada por um conjunto tão alargado de pessoas, que, nos nossos devaneios de frágeis glórias, nos imaginamos no palco, escuro, sombrio, gélido, mas moderadamente aquecido por um foco incandescente que do outro lado nos encandeia, cerra-nos os olhos, e escancara os ouvidos aos “ahs!” e “bravos!”, aclamações de uma santidade, aplausos por um heroísmo, louvores por um acto que qualquer um dos encomiastas que convocámos para a festa da entronização, na sua cupidez de repartição do espólio, não atribui qualquer espécie de valor.

Quero a tua tigela de barbear, T. Mas que o meu orgulho de irmão, severa e definitivamente, ferido pela tua morte prematura não aceitou, distanciando-me, como diz Roth, de um objecto-símbolo da tua sobrevivência.

Nem nos damos conta dos actos brutais tão civilizados, da camisa de titânio que nos envolve e que, dia após dia, semana após semana, se vai apertando sem remissão, para que possamos ocultar, por pudor, a frágil estrutura de cristal que sustenta as nossas emoções. Depois… agora, é tarde de mais.

E é, talvez por isso, que não consigo pôr um fim a esta merda.