«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
O Camaleão e a Voz Cavernosa
domingo, 23 de dezembro de 2012
Maturação
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Nostalgia por esses anos sombrios
you were driving circles around me.
domingo, 25 de outubro de 2009
A morte de um poeta
«Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente. […] Que repouso grandioso este, jazer aqui imóvel debaixo dos ramos de pinheiros, na neve. É o melhor que podias ter feito. As pessoas tendem sempre a magoar excêntricos como tu e a rir-se do sofrimento. Transmite as minhas saudações aos mortos amáveis e silenciosos que estão debaixo da terra e não ardas por muito tempo nas chamas eternas da inexistência.»
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, pp. 86-87.
[Lisboa: Relógio D’Água, Setembro de 2009, 233 pp; tradução de Isabel Castro Silva; obra original: Geschwister Tanner, 1907.]
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Rumo
«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.
domingo, 2 de março de 2008
Orgulho e independência
«Mas isto já me acontecera mais do que uma vez na vida: recusara-me a permitir que as convenções determinassem a minha conduta para afinal aprender, depois de ter percorrido o meu próprio caminho, que os meus fundamentais e entranhados sentimentos eram mais convencionais do que a minha noção de inabalável imperativo moral.
[…]
Enfim, aprendemos com os nossos próprios erros. “Paciência”, pensei. “Quase se pode dizer que o dinheiro foi bem empregue para poder apreciar, uma vez mais, a comédia da nossa própria marca de presunçosa estupidez.”»
Philip Roth, Património, pp. 95-96
(Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Fevereiro de 2008, 214 pp.; trad. Fernanda Pinto Rodrigues; obra original: Patrimony, 1991)
Facilmente nos convencemos de que apusemos uma moral certa nos nossos comportamentos, da laudatória singularidade do nosso temperamento, talvez à espera de que nos seja reconhecida essa superioridade: comentada, alardeada; disseminada por um conjunto tão alargado de pessoas, que, nos nossos devaneios de frágeis glórias, nos imaginamos no palco, escuro, sombrio, gélido, mas moderadamente aquecido por um foco incandescente que do outro lado nos encandeia, cerra-nos os olhos, e escancara os ouvidos aos “ahs!” e “bravos!”, aclamações de uma santidade, aplausos por um heroísmo, louvores por um acto que qualquer um dos encomiastas que convocámos para a festa da entronização, na sua cupidez de repartição do espólio, não atribui qualquer espécie de valor.
Quero a tua tigela de barbear, T. Mas que o meu orgulho de irmão, severa e definitivamente, ferido pela tua morte prematura não aceitou, distanciando-me, como diz Roth, de um objecto-símbolo da tua sobrevivência.
Nem nos damos conta dos actos brutais tão civilizados, da camisa de titânio que nos envolve e que, dia após dia, semana após semana, se vai apertando sem remissão, para que possamos ocultar, por pudor, a frágil estrutura de cristal que sustenta as nossas emoções. Depois… agora, é tarde de mais.
E é, talvez por isso, que não consigo pôr um fim a esta merda.