«Hoje é o último dia de Outono. Os dias que temos tido têm sido doces, comparativamente. O fim-de-semana passado, agora muito mais passado do que alguma vez antes, foi azul e avesso às nuvens, com o sol desdenhoso do dever calorífico e entregue à vocação, sempre mais show business, da iluminação.»Miguel Esteves Cardoso, "Acaba o Outono", Como é Linda a Puta da Vida, p. 95.[Porto: Porto Editora, 2.ª edição, Maio de 2013, 246 pp.]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
sábado, 21 de setembro de 2013
Só ele...
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Oportuno, no dia que hoje corre…
«É uma contradição […] Que cada dia e cada noite e o mundo se dividam naqueles que fazem escutas e torturam e aqueles que se calam e continuam calados.»Herta Müller, Já então a raposa era o caçador, pág. 128[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2012, 239 pp; tradução de Aires Graça; obra original: Der Fuchs war damals schon der Jäger, 1992.]
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Este eterno desassossego…
«É uma das mais estranhas descobertas que um homem pode fazer: a de que a vida, seja como for que a levemos, contém momentos de contentamento. Há sempre comparações que se podem fazer com tempos piores, e o pêndulo não deixa de oscilar mesmo no perigo e na miséria.»[Alfragide: Casa das Letras, 1.ª edição, Março de 2010, 248 pp.; tradução de Manuel Cordeiro; obra original: The Power and the Glory, 1940.]
Graham Greene, O Poder e a Glória, pág. 77.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Atentamente, L. Cohen
«Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo da batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal … recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.»Leonard Cohen, Belos Vencidos, pp. 30-32 [Lisboa: Relógio D’Água, Novembro de 1997, 271 p; tradução de Margarida Vale de Gato; obra original: Beautiful Losers, 1966]
sexta-feira, 20 de maio de 2011
De uma vida (auto)esventrada em blogues e redes
«Se revelares tudo, puseres a nu todos os sentimentos, implorares compreensão, perdes uma coisa crucial para a tua percepção de ti mesmo. Precisas de saber coisas que os outros não saibam. É o que ninguém sabe acerca de ti que te permite conheceres-te a ti mesmo.»Don DeLillo, Ponto Ómega, p. 70 [Porto: Sextante, 1.ª edição, Março de 2011, 121 p.; tradução de Paulo Faria; obra original: Point Omega, 2010.]
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Os amigos da Revolução
«Vocês têm vinte anos, são românticos, revoltados, ignorantes, esforçam-se por amar os ídolos da revolução mundial (há ainda, na época, qualquer coisa no mundo que usa esse nome “Revolução Mundial”), Marx ou Mao, alguns vão ainda mais longe no seu zelo e tentam convencer-se de que gostam de Estaline. Mas há em vocês uma inquietação, no fundo dessa zona livre e sonhadora que habita no vosso íntimo e que resiste ao culto dos líderes, à cobarde admiração pelos vencedores. Vocês são muito ignorantes, e no entanto sentem que a Revolução é um gesto cuja grandeza prometaica [sic] não resiste à sua própria vitória, que a Revolução vitoriosa vê o tempo dos burocratas e dos polícias suceder ao dos heróis, e que não há grande Revolução a não ser nos primeiros momentos incrédulos, e depois de ser assassinada. Rosa Luxemburgo lançada ao Landwehrkanal, num dia de gelo e de sangue em 1919, Che Guevara deitado como um Cristo deposto da cruz no lavadouro do hospital de Valegrande: o que há de menos vulgar e de menos servil em vocês pressente que é eles serem vencidos o que os faz tão gloriosos. A República espanhola, a Comuna de Paris, a sua história é para vocês uma epopeia porque é feita apenas de derrotas. E ninguém te emociona mais do que aqueles que são duplamente derrotados, porque foram mortos por uma causa na qual deixaram de acreditar. Fazes bem em defender-te, a personagem que te fascina já não é a do militante, mas a muito mais romântica, a do aventureiro. Porque tu desejas, ao mesmo tempo, a fraternidade e a solidão. Tu também te sentes “desenraizado” do mundo. Sombrio, intransigente, apaixonado, desesperado, Rossel* é um dos heróis dos teus vinte anos idealistas e teatrais.» [destaque a bold de minha autoria]Olivier Rolin, Um caçador de leões, pp. 87-88[Lisboa: Sextante, 1.ª edição, Outubro de 2009, 198 pp; tradução de Tiago França; obra original: Un chasseur de lions, 2008.]
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O inelutável caminho para a servidão
«Dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem-nos as mãos a todos, alarguem o campo das nossas actividades, abrandem a vigilância e nós… garanto-vos: a primeira coisa que faríamos seria voltar a pedir que nos vigiassem.»Fiodor Dostoievski, Cadernos do Subterrâneo, p. 188[Lisboa: Assírio & Alvim, Dezembro de 2000, 191 pp; tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Zapíski iz podpólia, 1864.]
domingo, 4 de outubro de 2009
Roth Nogueira Pinto
Philip Roth, Indignação, p. 52
[Algragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2009, 175 pp; tradução de Francisco Agarez; obra original: Indignation, 2008.]
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A explicação: portas fechadas
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Atavismos
«Por dentro, no recesso da alma, o homem voluntarioso e efémero, sem escrúpulos, alcançava entretanto a estatura dum gigante. Olhava então com piedade para as próprias fraquezas, prometia à força momentânea: nunca mais, nunca mais. Em todo o caso, alguma coisa de dúbio passava da alma velha à alma nova. O que é, transformava-se-lhe o medo em cálculo, o terror religioso cedia o passo a uma crença firme e sem complicações na generosidade divina, que existe para tudo cobrir com o seu manto de perdão. E o remorso lá estava, mas encaroçado. Um quisto à margem do organismo em que se enconcha. À génese destas grandes transformações não era estranho o espectro da miséria que o pai lhe metera pelos olhos apavorados desde a infância, porque muita da fereza que o empedernia, da ganância cíclica que o empolgava, vinha daí, dessa longa lição individualista de que o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela.»
Carlos de Oliveira, Uma abelha na chuva, pp. 81-82.
(Lisboa: Assírio & Alvim, 4.ª edição, Agosto de 2007, 132 pp; obra original publicada em 1953.)
domingo, 8 de fevereiro de 2009
SlumDung – A Pornografia da Pobreza
O tema é o Slumdog do pseudo-cineasta Boyle, a crítica citada surgiu no Expresso desta semana, a coincidência de opiniões leva-me a abrir a excepção à regra:
«Não basta dizer, como por todo o lado se tem dito, que o ponto de vista adoptado por este novo trabalho de Danny Boyle sobre o seu objecto de estudo (a vida de um rapaz nascido e criado nos bairros de lata de Bombaim) contribui para a consolidação daquela “pornografia da pobreza” que nos vende a miséria como um espectáculo de consumo rápido. Cineasta da “McDonaldização” do real, da absorção do diferente pelo idêntico (“sabem ao mesmo” os heroinómanos cool de “Trainspotting” e os explorados slumdogs de “Quem Quer Ser Bilionário?”), Boyle nem sequer conhece a distância que permite criar uma verdadeira perspectiva sobre as coisas e limita-se aqui a oferecer-nos o Outro (o Oriente) como um travesti do Mesmo (o Ocidente). Batam palminhas e dêem-lhe o Óscar: afinal de contas, não é todos os dias que se filma assim o “Declínio do Ocidente”.»
Vasco Baptista Marques, in Expresso, 07/02/2009.
Ferocidade surrealista
«Pensemos em que os mais vis comediantes deste tempo tiveram Anatole France por compadre e não lhes perdoemos nunca haver enfeitado com as cores da Revolução a sua inércia sorridente. Que lhe metam o cadáver numa dessas caixas dos cais, previamente esvaziada dos velhos livros “que ele tanto amava”, e se lance tudo ao Sena. Não se deve deixar que este homem, depois de morto, ainda faça poeira…»**citação retirada de “Un Cadavre” inserida na obra do autor Point du jour, de 1934, e reproduzida nesta colectânea de entrevistas.
André Breton, Entrevistas, p. 95
(Lisboa: Salamandra, 1994, 306 pp.; tradução de Ernesto Sampaio; obra original: Entretiens avec André Parinaud, 1952.)
domingo, 25 de janeiro de 2009
A Cozinha Literária de Bolaño
Às vezes, no entanto, quando sou vítima de irrefreáveis ataques de optimismo (que acabam, por outro lado, em alergias medonhas) a minha cozinha literária transforma-se num castelo medieval (com cozinha) ou num local em Nova Iorque (com cozinha e vistas privilegiadas), ou numa baiuca no sopé da cordilheira (sem cozinha, mas com uma fogueira). Mergulhado neste transe geralmente faço o que toda a gente faz: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque nisso só pode pensar um imbecil e eu não chego a tanto, senão literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não estiveram doentes. Por sorte, ou por desgraça, todo o ataque de optimismo tem um princípio e um fim. Se não tivesse fim, o ataque de optimismo converter-se-ia em vocação política. Ou em mensagem religiosa. E daí até sepultar livros (prefiro não dizer “queimá-los” porque estaria a exagerar) vai apenas um passo. O mais certo, pelo menos no meu caso, é que os ataques de optimismo acabem, e com eles a cozinha literária, desvanece-se no ar a cozinha literária, e apenas fico eu, convalescente, e um ligeiríssimo aroma de panelas sujas, pratos mal limpos, molhos apodrecidos.
A Cozinha literária, digo por vezes, é uma questão de gosto, ou seja, é um campo onde a memória e a ética (ou a moral, se me é permitido usar esta palavra) jogam um jogo cujas regras desconheço. O talento e a excelência contemplam, absortos, o jogo, mas não participam. A audácia e o valor participam, mas só em momentos pontuais, o que equivale a dizer que não participam em excesso. O sofrimento participa, a dor participa, a morte participa, mas com a condição de que só jogam a rir-se. Digamos, como um pormenor indispensável de cortesia.
Muito mais importante que a cozinha literária é a biblioteca literária (passe a redundância). Uma biblioteca é muito mais cómoda que uma cozinha. Uma biblioteca assemelha-se a uma igreja, enquanto uma cozinha de dia para dia se assemelha mais a uma morgue. Ler, disse Gil de Biedma, é mais natural que escrever. Eu acrescentaria, apesar da redundância, que também é muito mais saudável, digam o que disserem os oftalmologistas. De facto, a literatura é uma imensa luta de redundância em redundância, até à redundância final.
Se tivesse de escolher uma cozinha literária para aí me instalar durante uma semana, escolheria a de uma escritora, com a ressalva de que essa escritora não fosse chilena. Viveria com muito gosto na cozinha de Silvina Ocampo, ou na de Alejandra Pizarnik, na da romancista e poeta mexicana Carmen Boullosa, na de Simone de Beauvoir. Entre outros motivos, porque são cozinhas que estão mais limpas.
Em algumas noites sonho com a minha cozinha literária. É enorme, como três estádios de futebol, com tectos abobadados e mesas intermináveis onde se amontoavam todos os seres vivos da terra, os extintos e aqueles que muito em breve irão extinguir-se, iluminada de forma heterodoxa, nalgumas zonas com focos antiaéreos e noutras com archotes, e claro não faltariam zonas escuras onde somente se vislumbram sombras arquejantes ou ameaçadoras, e grandes ecrãs em que se observam, do canto do olho, filmes mudos ou exposições de fotografia, e no sonho, ou no pesadelo, passeio-me pela minha cozinha literária e por vezes acendo um fogão e preparo um ovo estrelado, incluindo por vezes uma torrada. E depois acordo com uma enorme sensação de cansaço.
Não sei o que se deve fazer numa cozinha literária, mas sei, todavia, o que não se deve fazer. Não se deve plagiar. O plagiador merece que o enforquem em praça pública. Quem disse isto foi Swift, e Swift, como todos sabemos, tinha mais razão que um santo.
Assim, que este ponto fique claro: não se deve plagiar, a não ser que desejes que te enforquem em praça pública. Ainda que aos plagiadores, hoje em dia, não os enforquem. Ao contrário, recebem bolsas, prémios, cargos públicos, e, na melhor das situações, convertem-se em bestsellers e líderes de opinião. Que termo mais estranho e feio: líder de opinião. Suponho que significa o mesmo que pastor de um rebanho, ou guia espiritual dos escravos, o poeta nacional, o pai da pátria, ou mãe da pátria, ou tio político da pátria.
Na minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, a quem algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam escritor. Esse guerreiro está sempre a lutar. Sabe que no fim, faça o que fizer, será derrotado. No entanto, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta o seu opositor sem dar nem pedir tréguas.»
Roberto Bolaño, “Un narrador en la intimidad”, in Revista ñ (Clarín), 25/03/2001.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Chiste bolañiano
No ano passado, saiu Bolaño selvagem (Bolanõ selvaje, livro e DVD sob a chancela da Editorial Candaya, editado pelo boliviano Edmundo Paz Soldán e pelo peruano Gustavo Faverón Patriau, inclui textos de Enrique Vila-Matas, Rodrigo Fresán, Jorge Volpi, entre outros. Chega-se a hiperbolizar afirmando que com a morte de Bolaño morreu a literatura latino-americana (e eu, sozinho em casa a escrever este texto, pergunto-me por Fuentes e Vargas Llosa, até por García Márquez ou Piglia).
Prosseguindo. A vida e o brilhantismo de Bolaño reflectem-se na sua obra. Decerto que há muito para dizer sobre a curta vida deste ilustríssimo escritor chileno, mas primeiro leiam-no e deliciem-se com a sua ironia, por vezes subtil outras vezes carregada, sarcástica, pontuado de um espirituoso humor negro.
Eis uma passagem de Nocturno Chileno (que demorei uma infinidade de tempo a encontrar, dada a minha mania de não profanar os meus livros com inscrições, sublinhados e anotações à margem), do Padre Ibacache recenseador literário (cujo ao ortónimo Sebastián era adicionada a estranha combinação de apelidos basco-francesa Urrutia Lacroix).
Pobre padre. Jovem, perdido na Europa numa demanda insana engendrada por dois numerários da Opus Dei, Oido e Odeim – ódio e medo (miedo), respectivamente, de trás para a frente –, sobre a preservação das fachadas das igrejas europeias frente aos bárbaros ataques de bandos de pombas (o símbolo do Espírito Santo) e a sua copiosa defecação. Solução wescottiana: criação de falcões. No momento de desespero absoluto, em que Sebastián pensa no regresso ao Chile, um bom padre alemão conta-lhe uma anedota:
«Está o Papa com um teólogo alemão, a falar tranquilamente numa das salas do Vaticano. De repente, aparecem dois teólogos franceses, muito excitados e nervosos, e dizem ao Santo Padre que acabam de chegar de Israel e que trazem duas notícias, uma muito boa e outra considerada má. O Papa suplica-lhes que falem de uma vez por todas, que não o mantenham na expectativa. Os franceses, atropelando-se, dizem que a boa notícia é que encontraram o Santo Sepulcro. O Santo Sepulcro?, diz o Papa. O Santo Sepulcro. Sem a mais pequena dúvida. O Papa chora de emoção. Qual é a má notícia?, pergunta, secando as lágrimas. Dentro do Santo Sepulcro encontrámos o cadáver de Jesus Cristo. O Papa desmaia. Os franceses tentam dar-lhe ar. O teólogo alemão, que é o único que está calmo, diz: ah, mas então Jesus Cristo existiu mesmo?»
Roberto Bolaño, Nocturno Chileno, p. 95
[Lisboa: Gótica, Julho de 2003, 150 pp.; tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues; obra original: Nocturno de Chile, 2000.]
domingo, 4 de janeiro de 2009
VERDADE
«Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. O estilo, a casa com o terreno em volta e o “entretenimento” não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.»
Henry David Thoreau, Walden ou a Vida nos Bosques, pp. 358-359
[Lisboa: Antígona, Junho de 1999, 367 pp.; tradução de Astrid Cabral, com revisão e adaptação de Júlio Henriques; obra original: Walden; or, Life in the Woods, 1854.]
domingo, 28 de dezembro de 2008
O Nobel e... a vaselina
«De repente, assalta-me uma ideia!… e se eles me dessem, a mim, o prémio Nobel?… seria uma ajuda formidável para o gás, as contribuições, as cenouras!… mas os palermas lá de cima não mo vão dar! nem o rei deles! dão-no a todos os panascas que se possa imaginar!… sim, os que mais vaselina usam em todo o planeta!… claro! está tudo decidido!… a si basta-lhe ter visto Mauriac, de casaca, inclinando-se como uma dobradiça, encantado, concordante, em cima do pequeno palanque… nada constrangido!… nada engasgado!… “oh! como é belo, gordo, o vosso Nobel!” dizia eu ontem a alguém… e esse alguém insurgia-se! “então! mas Nimier propõe-no a si!… ingrato!… você não leu? só precisa de um pouco de coragem!… escreva-nos outra Viagem e eles resolvem tudo!…” eu posso ter a minha opinião… pessoalmente, não acho a Viagem assim tão divertida…»
Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, p. 43
[Lisboa: Ulisseia, Setembro de 2008, 362 pp.; tradução de Clara Alvarez; obra original: D’un château l’autre, 1957.]
domingo, 21 de dezembro de 2008
Doutrina: literatura e coração
«A linguagem é um meio glacial, escarrapachado na página. Ao contrário de artistas e atletas, temos a possibilidade de reinventar, rever e reescrever por completo, se assim o quisermos. Antes de o nosso trabalho conhecer a versão em tipo de imprensa, tal como acontece gravado em pedra, mantemos o nosso poder sobre ele. A primeira versão pode ser algo confusa e cansativa, mas as versões seguintes levantarão voo e revelar-se-ão emocionantes e arrebatadoras. Só é preciso ter fé: não se pode escrever a primeira frase até a última frase ter sido escrita.
Só nessa altura saberás para onde vais e por onde andaste.
O romance é o mal para o qual só o romance constitui a cura.
E pela última vez: Põe no papel tudo o que te vai no coração.» (p. 39)
«Põe no papel tudo o que te vai no coração.
Nunca tenhas vergonha do assunto, nem da paixão que sentes pelo assunto.» (p. 35)
Joyce Carol Oates, “A Um Jovem Escritor”, A Fé de Um Escritor: Vida, Técnica, Arte (pp. 35-39).
[Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Setembro de 2008, 172 pp.; tradução de Maria João Lourenço; obra original: The Faith of A Writer: Life, Craft, Art; 2003.]
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Um forte sentimento II
«Há duas coisas que me enchem de horror: o carrasco dentro de mim e o machado por cima de mim.»
Stig Dagerman, A Ilha dos Condenados, p. 7
[Lisboa: Antígona, 1990, 241 pp.; tradução de Miguel Serras Pereira; obra original: De dömdas ö, 1946]
domingo, 14 de dezembro de 2008
Ficção
«Mas não será o nosso coeficiente de dor suficientemente chocante sem a amplificação ficcional, sem dar às coisas uma intensidade que na vida real é efémera e por vezes até invisível? Para alguns, não. Para outros, poucos, muito poucos, essa amplificação, que se desenvolve hesitante a partir do nada, constitui a única segurança, e a vida não vivida, a vida conjecturada, minuciosamente passada ao papel, é aquela que acaba por ser a mais importante.»
Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, p. 145
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Novembro de 2008, 285 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Exit Ghost, 2007]
domingo, 7 de dezembro de 2008
La sangre
«Nesse dia, um cavalo foi sacrificado a fim de que a barbárie recebesse o seu tributo. E a barbárie foi duplamente lisonjeada: após a interminável agonia do cavalo arrastado por uma carroça pela areia da vergonha, ela teve direito à execução do touro criminoso cujo sangue não borbulhou menos em longas golfadas generosas. Um relinchava e debatia-se, os seus olhos aterrorizados revolviam-se de não compreender, as patas apontadas ao céu imploravam uma razão; o outro, o negro criminoso, tinha entre as omoplatas uma espada tão comprida que o atravessava de lado a lado e o fez flectir sobre as patas dianteiras e render-se (se é que houve batalha) e quando o viu assim curvado e entregando as armas a Multidão das bancadas ergueu-se para gritar a sua Felicidade, os Coveiros abriram as braguilhas, as Mulheres arrancaram as mantilhas e todas se precipitaram sobre os Rabos malcheirosos que no Dia do Senhor é permitido comungar, e enquanto elas engoliam o Corpo de Cristo e a Semente do Pai, os Meninos aterrorizados procuravam onde debicar, onde e como inventar um novo Matadouro, um novo Fornicadouro, e tudo aquilo chupava, tagarelava, examinava, enquanto em cima da padiola o malvado touro mal acabado chorava ainda como um vitelo desmamado. E ninguém lhe prestava já atenção, o emissário moribundo, outrora tão perigoso, outrora chamado o Diabo.»
Gilles Leroy, Alabama Song, p. 76
[Lisboa: Esfera do Caos, 1.ª edição, Novembro de 2008, 172 pp.; tradução de José Júdice e José Alberto Quaresma; obra original: Alabama Song, 2007]
