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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Traições e Engano



Já anda por aí um novo velho livro de Roth, o Philip – embora duvide e suplique para que essa dúvida tenha razão de ser, sim, é o tal que anunciou ao mundo que terminou o seu período de escrita com o maravilhoso Némesis –, o livro intitula-se Engano e não é um equívoco se nos aflorar da mente que já o vimos por terras de Portugal, traduzido na nossa língua: pois, chamava-se Traições, numa versão em capa floreada.
Deception é uma novela de Roth originalmente publicada em 1990 e traduzida em Portugal, no ano seguinte, por Filomena Andrade e Sousa para a Bertrand. Agora, o livro reedita-se com Engano pela Dom Quixote, com tradução de Francisco Agarez, acompanhado de um preço inacreditável de 16,90 euros (dispõe de 208 páginas, mais 32 que a edição da Bertrand, dando-se o facto curioso de que a narrativa de ambos se inicia, precisamente, na mesma página, a 9 – faz-se render o peixe com letra de corpo... Gobern).
Quando em Maio do ano anterior a Dom Quixote iniciou, ao que parecia, a publicação da opera omnia do escritor de Newark, com o aparecimento do fabuloso Goodbye, Columbus (a primeira obra de Roth; publicada em 1959), tudo parecia indicar que se seguiria a tradução do 1.º romance do autor, Letting Go de 1962, seguindo-se o 2.º – e o único cujo protagonista é uma mulher – When She Was Good de 1967.
Pura ilusão.
Note-se, não sou contra a repetição de traduções. Por vezes, a repetição consegue inculcar-nos outra perspectiva da obra que outrora lêramos e de cuja leitura fixáramos doutrina – sem ler o original, não sabemos se por diminuição ou aumento da traição do traduttore. Porém, sou contra o desperdício de traduções sempre que se verifiquem estas duas condições em simultâneo: (1) obras que já existem aceitavelmente traduzidas no mercado nacional e (2) quando grande parte da obra do autor em questão – e neste caso, quase unanimemente considerada como brilhante – ainda não se encontra editada na nossa língua – há um apagão luso de Roth entre 1962 e 1990, com a excepção de O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy's Complaint).

Para efeitos comparativos o bom, o mau e o vilão (o original, a perda na tradução, e a tradução, já de si perdida, e agora desperdiçada segundo a minha impugnável reflexão – carregar na imagem para a ampliar):


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os preços

Já aqui tenho elogiado algumas editoras que têm vindo a recuperar os grandes nomes da literatura universal, editando as suas obras até hoje inéditas em Portugal (ou caídas no olvido rumo aos alfarrabistas há dezenas de anos). Por mera preguiça, não fui verificar os meus escassamente incontáveis textos anteriores, e já não sei se a Ulisseia, agora chancela do grupo editorial Babel de Paulo Teixeira Pinto, já foi vítima dos meus elogios ou agraciada com a minha descomprometida verrina. Todavia, recorro à depauperada memória mais fresca para informar que a dita já foi objecto sacrificial por louvor aquando da publicação recente do Ham on Rye de Bukowski, com tradução do meu amigo invisível (apenas blogosférico) Manuel A. Domingos – o problema da coisa, isolamo-nos atrás destes muros cintilantes de cristais líquidos, e cremos que somos imensamente apreciados e até populares, apesar de o infalível contador não deixar a sombra de uma dúvida.
Volto à Ulisseia, trazendo-a ao pelourinho do aplauso pelas obras entretanto publicadas, com especial destaque do viciante deleite que retiro da leitura lenta e cuidada, quase como um meticuloso exercício de degustação, de Break It Down – Demolição da autora norte-americana Lydia Davis – a “ex” do Paul Auster, a sua companheira de viagem em tradução por França no início dos anos 70 do século passado (não sei se, com ele, ficou a conhecer o mestre Beckett), compartilhadora da fome que o judeu de Newark descreve nos suas memórias, e mulher entre 1974 e 1978, mãe do agora atinado (creio eu) Daniel Auster –, com uma tradução, que até chateia pela irrepreensibilidade, pelo nosso guardião do universo borgiano, José Mário Silva. [Frontispício da obra, acima reproduzido.]
De minha parte, enquanto leitor passivo – de nenhuma forma participante na elaboração da política editorial da referida editora –, espero que se continue a traduzir a obra desta autora, até há bem pouco tempo passível de ser conotada (e luso-conjecturada) com a mulher do intangível criador de vestuário desportivo, com lojas abertas ao público. E, como refere José Luís Peixoto no prefácio a este livro de histórias breves quando refere a tradução, também eu sou defensor do primeiro lado [cf. subcapítulo ‘Prefácio’ do “Prefácio”, de Break It Down – Demolição], e apugilista dessa prática (pronto a defender a ideia num ringue de boxe à laia de um Mailer a levar uns ganchos mortíferos de Vidal – e não me enganei, e até faço um apelo à Porto Editora para que na próxima revisão do seu dicionário introduza o vocábulo tão ouvido nas tertúlias erudito-futebolísticas deste país), que afinal é bem mais habitual em Portugal.
Gostaria de ter terminado o texto no parágrafo anterior, mas o título impede-me, apenas por uma questão de pudor (prefiro-o, neste caso, à honra): duzentas e cinco páginas impressas em edição brochada custam dezanove euros e cinquenta cêntimos – dezanove cêntimos a folha impressa. Considero um verdadeiro exagero e abstenho-me de enquadrar a questão na conjuntura socioeconómica do país (pois bem, acabei de o fazer). Aliás, sem ter feito uma exaustiva análise comparada, a generalidade dos livros da Babel merecem que os preços sejam sovados…
Máxima surfista modificada e aumentada: destruam os preços e não os livros (e a carteira de quem os compra).

sábado, 25 de setembro de 2010

Náuseas Imperiais

Lisboetizando-me, trata-se daquelas carregadas de cevada, a cheirar a fermentação e a um insistente processo de levedação, alcoolicamente proibitivas, denunciadas pelo cheiro a benzina, pela dor de cabeça latejante e o inevitável vómito biliar que se nos apresenta de forma eruptiva no dia seguinte.
É assim o último romance do chavalo BEE da cidade dos anjos que resolveu repescar o seu sucesso de há 25 anos e escrever no mesmo estilo incipiente e cadavérico, perdoável, e até honorável, num jovem de vinte anos que se atirou de cabeça no mundo literário para contar as suas vacuidades burgueso-criminosas sob a forma de pseudónimos e sexos trocados, todavia inadmissível num jovem de 46 anos que não aprendeu a lidar com os seus traumas.
Mas se a história é deploravelmente enjoativa, a sua tradução para a nossa língua é repulsiva. Não há página, entre as 177, com letra de tamanho 12 e espaço e meio entre linhas, que não tenha o seu erro de palmatória em língua portuguesa. É o advérbio “demais” usado e abusado quando se pretende referir o excesso de alguma coisa; é o verbo “haver”, impessoal na sua acepção de “existir”, apresentando nesta situação formas verbais em todas as pessoas do singular ao plural; é a inconsistência no uso do “porque” e do “por que”, já de si uma fonte de polémica entre linguistas nacionais; é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “vir” – “vêm” – substituída, quiçá por problema oftalmológico do tradutor, por “vêem”; são às dezenas as passagens de discurso directo ao indirecto que estão por assinalar devidamente pelo escolhido travessão, ou então, são incontáveis as vezes em que os diálogos são todos processados num só parágrafo, numa orgia gráfica entre “vírgulas”, “pontos finais” e “travessões” que fariam corar o José Castelo Branco, até pela terceira via de “género”; e, parafraseando este último, até é fino que apareça “New York” ao invés da forma portuguesa da Grande Maçã, “Nova Iorque”; mas depois vem o “112” em vez do “911”, o que é admissível, no entanto incoerente, e mesmo aviltante, quando se traduz a referência do narrador na página 114 que esteve “à porta do ER em Cedars-Sinai” (pág. 114) – o “ER” são as “urgências” e o “Cedars-Sinai” o famosíssimo hospital-universidade de Los Angeles, e não uma sala VIP de um clube nocturno exclusivo de Hollywood.
Um Nausef. E pronto. Acabei de tomar um antiemético muito conhecido sem nada receber por isso, nem uma viagem a um importante congresso à República Dominicana.
Referência bibliográfica
Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais. Lisboa: Teorema, Agosto de 2010, 177 pp. Tradução de José Luís Luna, com revisão de José Costa; obra original: Imperial Bedrooms, 2010.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Beat to its socks

Pode ler-se, num círculo autocolante aposto à capa da edição portuguesa de mais uma entre dezenas de biografias e livros de memórias sobre o pai beatnik Jack Kerouac, a seguinte frase: «Primeira biografia em português» a rodear o nome do autor biografado, que surge estampado a vermelho e encimando o recorte vazio dos emblemáticos sinais de trânsito que demarcam as estradas norte-americanas.
Apesar de a edição brasileira do mesmo livro datar de 2007, não belisca de forma alguma a veracidade da frase promocional. Na realidade, e nos dias que correm, também no Brasil é a única biografia de Kerouac disponível na língua de Camões.
Para quem conhece outros livros versados sobre a vida do autor de Pela Estrada Fora, para além de alguns factos que, à custa da reiteração, fazem parte do folclore que rodeou aquele bando de desordeiros, toxicómanos, bêbados, pederastas, criminosos (também escreviam livros e pintavam), e que são do conhecimento de alguém com o mínimo interesse na coisa literária, especialmente na literatura americana da segunda metade do século XX, o livro de Yves Buin é uma síntese de biografias de maior fôlego – cito as do lynchiano Barry Gifford e a de Gerald Nicosia, que aliás são profusamente referenciadas por Buin ao longo do texto; como os testemunhos oculares escritos pelos companheiros de viagem do próprio biografado, também eles parte integrante do ruidoso movimento Beat: destaco, neste caso, as obras de John Clellon Holmes ou as de Joyce Johnson (Glassman), assim como as referências cruzadas da omnipresente Carolyn Cassady (mulher de Neal Cassady durante quinze anos e mãe dos seus três filhos – o inspirador do magnum opus de Kerouac, na pele de “Dean Moriarty” – e vértice de um sórdido triângulo luxurioso completado por aqueles).
A obra apresentada por Buin é um apanhado, como uma súmula académica pronta a servir de única base de estudo ao estudante mais indolente, da tortuosa biografia de Kerouac. O livro do pedopsiquiatra francês – e é curioso o prefixo profissional, já que, no auge do movimento cultural retratado, o biógrafo poderia ter sido de uma utilidade ímpar pelos diversos traumas decerto infundidos por aquele bando a inúmeros potenciais clientes – em nada acrescenta ao já publicado, para além de, por um lado e porventura num esforço de síntese, funcionar como um repositório de nomes sem qualquer referência biográfica (prática comummente conhecida por name dropping, que pode ser bem mais viciante que o consumo de yage), e, por outro, se tratar de um texto cronologicamente confuso, sem um marco histórico definido, com recurso a analepses e prolepses consecutivas, que por vezes faz distar dois parágrafos em duas ou mais dezenas de anos. E para dar o remate final poderia trazer à colação a objectividade do investigador que, na prática, sai prejudicada por uma longa narrativa que espremida se assemelha a uma espécie de elegia ao inocente mago literário canuck, apesar de nela se evidenciar uma posição íntima, como um severo ralhete paternalista, de censura pelos excessos cometidos.
Mas o pior não está no texto publicado originalmente pela Gallimard em 2006. A sua edição portuguesa é um verdadeiro desastre: uma tradução miserável, o que indica uma revisão literária ausente ou negligente. Ao longo das trezentas páginas não há um par que não escape a, pelo menos, um erro ortográfico e/ou de sintaxe, e até a um enxame de erros nitidamente tipográficos. É simplesmente inadmissível e ultrajante para o leitor luso, aquele que, em vias de extinção, gasta os seus parcos recursos na aquisição de uma obra com esta especificidade literária, apresentar um livro cujo chorrilho de asneiras torna quase impraticável a sua leitura. Se há casos em que mesmo uma má tradução não implica inexequibilidade da leitura, este seguramente que não é um deles. Muito do que foi dito nos parágrafos anteriores poderá, admito, advir do estado de irritação crescente à medida que me fui embrenhando no livro – erros de género e de número, então, são aos magotes, assim como, é assaz perceptível uma espreitadela, talvez à laia de muleta, na edição brasileira, bem patente no emprego de alguns termos apenas usados por terras de Vera Cruz. Aos responsáveis da editora atrevo-me a lançar um desafio: retirem, rápida e prontamente, a 1.ª edição do mercado, façam uma revisão literária, remodelem a capa com a aposição de uma frase do género “nova tradução” ou “2.ª edição revista”.
A beatitude lusa compadece-se destes casos, sem que se vislumbre qualquer hipótese de usar o qualificativo como um catalisador do engrandecimento do espírito, como defendia Kerouac e Clellon Holmes para a sua embrionária geração; talvez fosse preferível começarmos por adoptar e a adaptar, de uma vez por todas, como uma fatalidade, a origem do termo criado, em primeira mão, pelo beatnik Herbert Huncke, neste caso como a nação estéril, derrotada ou prostrada: beat to its socks.
Referência bibliográfica:
Yves Buin, Jack Kerouac – Biografia. Lisboa: Bertrand, Abril de 2010, 301 pp; tradução de Ana Godinho; obra original: Kerouac, 2006.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Decepção

Princípio de 2010. Ainda mal acabara a época consumista da quadra natalícia, aproveitada pelo meio editorial para os lançamentos das mais retumbantes novidades literárias em carteira, após o aquecimento outonal pós-férias, e já se anunciavam as obras que, com as andorinhas (e insisto nisto, com os malfadados pólenes, que enfraquecem, pelo sofrimento, a minha certeza sobre a necessidade desta passagem terrena), chegariam aos escaparates das nossas livrarias. Um dos anunciados e mais aguardados era o mais recente romance do escritor irlandês (publicado em 2009), muito aqui da casa, Colm Tóibín, Brooklyn, sob a chancela da Bertrand.
Aguardei pelo dia 21 de Maio. Comprei o livro. Deixei de lado as potencialmente distractivas leituras paralelas. Encetei a leitura e no dia seguinte agarrei-me de novo aos livros que abandonara. Fosse eu presidente do Supremo Tribunal de Justiça e dir-vos-ia que li Brooklyn às “bochechas” – expressão que zarpará, pela força do consuetudinário, do idiolecto da quarta figura soberana da nação rumo à riqueza semântica da língua portuguesa –, enfastiado, a espaços nauseado pelo descomedimento melodramático, que, em suma, mereceu três estrelas no meu guia bibliófilo de novidades literárias, não só pelos laços afectivos que criei com o autor através da leitura das suas obras, que não se dissolvem por um ou dois desatinos ou delírios literários do autor (o número reduzido dá-me esperanças de uma brevíssima transitoriedade do novo estilo), mas também porque a estrutura de base do romance em causa não me deixou de todo desconfortável; o problema está no seu enchimento, mera adiposidade soberanamente viscosa – e a capa da edição portuguesa em nada auxilia o conteúdo (na imagem) –, que o autor, sobretudo, do extraordinário O Mestre (The Master, 2004), mas também de A História da Noite (The Story of the Night, 1996) e de O Navio-Farol de Blackwater (The Blackwater Lightship, 1999), não habituou o seu leitor indefectível.
Curiosamente, com Brooklyn, Tóibín venceu o Costa Novel Award de 2009 (antigo Whitbread) e foi semifinalista (entre 13 romances) do Booker Prize de 2009.
Por publicar em Portugal continua o seu livro de contos, editado originalmente em 2006, Mothers and Sons, que, a demorar mais um pouco, levar-me-á à derrogação do meu (questionável) critério de só ler em português*, fundado na leitura como eminente exercício de prazer.
Bom, regressei com deleite e alívio ao ziguezaguear de Vila-Matas, e aos ensaios de inexequibilidade político-filosófica de Orwell na sua última colectânea editada entre nós pela Antígona.
Nota: *Por vezes um masoquismo, que no caso em apreço, se elevou ao paroxismo do martírio de São Sebastião, mas com os fácies sereno de Botticelli (talvez pelo conhecimento que advém do efectivo não cometimento de um erro de sintaxe), mas que, na verdade, tira a paciência a um santo: refiro-me à locução verbal “deve de ser”, repetida amiúde e sem melindre no texto traduzido.
Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, Brooklyn. Lisboa: Bertrand, Maio de 2010, 253 pp; traduzido por C. Santos (não, não se trata do concessionário da Mercedes-Benz em Portugal); obra original: Brooklyn, 2009

quinta-feira, 22 de abril de 2010

É pau, é pedra (corrigido)

É a literatura a descaminho.
Não são, felizmente as Águas de Março, fechando o Verão, mas os seus Meados no hemisfério Norte que anunciam a Primavera – época de bulício da natureza e do alvor de uma vida que se renova, ou quase…
Em Portugal, é também significado de livros em catadupa – não há carteira que resista à torrente livreira de frontispícios engalanados com prémios e encómios expelidos, como cinzas vulcânicas – que actual – por gente validada. Novidades editoriais. Livros fechando o Inverno da modorra comercial pós-natalícia.
Vejamos. Surgiu o incensado Booker de Mantel, e já se anuncia (para amanhã) o Submundo do notável DeLillo. Publicou-se em simultâneo mundial o mais recente de McEwan; chegou finalmente, com atraso de décadas, a fazer jus à instituição do título que a designa, o(s) Correios de Bukowski (Post Office, 1971)*; ou o Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson. Biografias de Kerouac e de Orwell, e mais uns ensaios deste último. Um Bolaño fraquinho, porém inédito. O Hooligan de Manea. Tolstói e Turguéniev (ou Turguénev, vá lá entendam-se, doutos do cirílico russo, quanto à transliteração do mais ocidental dos seus filhos literários oitocentistas) a rodos. A última compilação de contos do recentemente desaparecido Updike, quando se anuncia o Volume II dos contos de Cheever pela Sextante. Reedição do 2.º romance de Auster (data de 1987), negro, sombrio e devastador, que mesmo a ilustrada Moura Pinheiro apresentou como novidade do autor de Newark. O alter-ego de Banville para os policiais. Antes disso houve Jean Rhys, Coetzee, e Valter Hugo Mãe, nos portugueses apreciados. E, por fim, o destaque para o regresso de Martin Amis à grande literatura, com A Viúva Grávida (The Pregnant Widow), publicado em Fevereiro em Inglaterra e apenas dois meses depois em Portugal (edição Quetzal, saúde-se):
«O único romance que ela elogiava sem reservas era Meados de Março1. Porque Lily era uma criatura do mundo mediano.»
Martin Amis, A Viúva Grávida, p. 42
[Lisboa: Quetzal, Abril de 2010, 533 pp.; tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro.]
Talvez tenha havido uma electrocussão arbórea – raios cataclísmicos das águas de Março, conduzidas à terra pelo tronco enraizado –, porque a nota do tradutor “1”, postada logo após “Meados de Março”, remete-nos, em pé de página, para Middlemarch. Um caso de gravidez literária, com viúvas mas sem hiatos e herdeiro, porque histérica – abusando, sem remorsos, das águas correntes de Herzen (1812-1870).
Naquele excerto, Amis procurou jogar ironicamente com as palavras, na descrição da activista igualitária de género Lily, conjugando-a com a leitura compulsiva dos clássicos da literatura inglesa por Keith – personagem principal do romance e seu namorado, projecção do autor (mas não o seu superego, essa é outra história): trocadilho entre “Middlemarch” e “middleworld” (esta última traduzida por “mundo mediano”), em que a primeira surge sempre grafada com maiúscula e é citada em várias ocasiões ao longo das mais de quinhentas páginas que compõem a obra.
Ora, o inventivo e esdrúxulo Meados de Março é, tão-só e somente, a obra-prima da escritora vitoriana George Eliot (pseudónimo de Mary Anne Evans, 1819-1880), traduzida para português há várias décadas – recentemente reeditada pela Portugália, com prefácio de Jorge de Sena – como A vida era assim em Middlemarch. Pois, Middlemarch é uma vila ficcional criada por Eliot onde decorre a trama do romance entre 1830 e 1832, que a autora localizou nas Midlands inglesas (zona geográfica central de Inglaterra, entre as zonas norte e sul do país) – obra considerada por Amis, como o melhor romance de língua inglesa.
Se a moda pega, passaremos a ter mais literalismos proparoxítonos, como por exemplo, “Sussex” por “Sexo da Sue”, ou “Cornwall” por “Muro de Milho”, ou até “Blackburn” pelo intolerante e cruel “Queima de Negros”. E não se procurem exemplos sancionadores da asneira, por exemplo, Eugenides, com o seu Pulitzer Middlesex, não é para aqui chamado, porquanto, em boa verdade, o hermafroditismo é a base do seu romance.
E assim vamos andando, rindo e cantando neste acabrunhado país, onde a capital, a imensa cidade-prelo – como significação da fuga e da concentração nesse local, banhado pelo Tagus e o seu Straw Sea, das editoras nacionais –, poderá a partir de hoje literalizar-se em “Hornylily” – curiosamente a tal personagem do “mundo mediano” de Amis, que percorreu a narrativa em “meados” de qualquer coisa –, onde a sugestão de lubricidade poderá funcionar com factor captador de receitas extraordinárias provenientes do turismo anglófono.
Nota – não resisto a postar mais um exemplo sublime de confrontação entre a ficção (no que respeita ao romance inglês) e a realidade ficcionada no romance de Amis, corporizada na batalha dos pensamentos voluptuosos do jovem Keith perante Scheherazade e Gloria (mamas e rabo, respectivamente), com mais um exemplo de literalismo (pelo menos, felicite-se, há coerência do princípio ao fim):
«“E nunca te hei-de perdoar pela Rosamond Vincy”, disse ela [Lily] (retomando a discussão deles acerca do romance por ela preferido – Meados de Março). “Está lá a bela Dorothea, e tu vais atrás daquela cabra gananciosa da Rosamond Vincy. Que arruina [sic] o Lydgate. Badalhocas e vilões. É só disso que tu agora gostas – badalhocas e vilões.”» (p. 386)
*[Correcção, 23/4 às 11:10] Fui, felizmente, alertado por e-mail para um erro de facto cometido neste texto: a primeira publicação em Portugal de Correios de Charles Bukowski é de 2002 e foi da responsabilidade da extinta editora Canguru, com tradução de Marisa Mourinha. Apesar de a referida publicação ter escapado ao conhecimento do grande público – no qual me incluo, sendo um grande admirador da obra do impetuoso autor germano-americano –, isso não invalida que não se corrija o erro (crasso) que aqui cometi, ao referir-me, de forma indirecta, ao carácter inédito da publicação de 2010 da Antígona, com tradução de Rui Lopes.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Aquilo que eu temia

Há mais de um ano quando a neófita e desde logo louvável Sextante Editora entrou na denominada velocidade de cruzeiro editorial – após um arranque atribulado, em que se viu forçada a mudar de nome para evitar possíveis confusões com outras editoras no mercado, e escolheu este que corresponde a uma editora brasileira –, publicaram-se, numa base sistemática, obras originais de autores nacionais, que acabaram mais tarde por ser objecto de atribuição de importantes prémios literários, e optou-se por uma escolha criteriosa de obras, na sua maioria inéditas em Portugal, de autores estrangeiros consagrados. Enquadram-se neste último caso nomes como Cheever, Echenoz, A.S. Byatt, Pasternak, Truman Capote, Le Clézio e o meu mui estimado autor norte-americano Don DeLillo.
Em Novembro de 2007, a Sextante publicava O Homem em Queda (Falling Man), o último romance do ilustre escritor nova-iorquino – pessoa responsável pela epígrafe deste blogue – publicado originalmente em Maio desse mesmo ano nos Estados Unidos, com uma tradução exemplar de Paulo Faria (aliás, em harmonia plena com o seu padrão de trabalho).
Em suma, o meu júbilo pelo anúncio, embora não tenha tido paralelo após leitura pela qualidade do romance de DeLillo  – em boa verdade revelou-se uma pequena decepção –, deveu-se mais à oportunidade temporal da sua publicação – meio ano após a publicação original, o que é raro no meio editorial nacional –, como também pela escolha do mencionado tradutor, Paulo Faria, um dos poucos nomes cuja inscrição nas primeiras páginas de um livro me deixam a firme certeza de não ter de ingerir um (ou vários) Xanax por uma tradução exasperante.
A talho de foice, dada a minha comprovada listomania – que alguém, não me lembro de quem (deve constar de um dos textos deste blogue, cuja bela preguiça não me permitiu encontrá-lo), condenou os colegas listómanos ao padecimento da síndrome de Asperger – apresentarei, num dia destes, uma pequena (dada a escassez de matéria-prima) relação  dos melhores tradutores nacionais.
Na badana da contracapa do dito romance, houve um conjunto de caracteres que se destacou pelo brilho ofuscante da asseveração que aí era produzida, pelo menos para um delilliano (um verdadeiro trava-línguas):
«Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
Assim que li aquela badana, perguntei-me por que motivo se duplicaria a publicação de uma obra [Ruído Branco] que ainda estava perfeitamente acessível no mercado livreiro, na sua versão de 1991 da Presença? Seria pela sua constatada tradução mais que sofrível, encomendando para o efeito a sua retradução a um notável tradutor da nossa praça?
A segunda resposta afigurava-se-me positiva. De facto, a tradução de White Noise (1985) de Rui Wahnon, tal como ocorreu com a de Libra (1988), é de exasperar um santo bibliófilo, moderadamente apreciador das obras de DeLillo. E o mercado literário e os seus consumidores só têm a ganhar com traduções posteriores que procurem corrigir as traduções existentes e com isso captar, de forma mais eficaz, a verdadeira essência, o espírito que o autor emprestou à obra.
Ruído Branco é, na realidade, um romance arrebatador, profundamente envolvente, admirável na gestão das expectativas do leitor, no recobro do seu fôlego, em suma, é uma obra genial engendrada por um colosso literário. Das oito* entre as catorze obras de ficção escritas por Don DeLillo – deixando de parte os contos e as peças de teatro – que tive a feliz oportunidade de ler, aquela é, sem sombra de dúvida e na minha pessoalíssima opinião, a melhor obra do autor de Nova Iorque, com a qual, este, até aos dias que correm, venceu o seu único National Book Award (o de 1985).
É oficial. Acabei de receber a informação enviada pela própria editora:
«Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»

Aconteceu o que temia depois de ler aquela badana, cuja informação transcrevi. Underworld, considerada a magnum opus de DeLillo, iria ficar para segundo plano. E esta predição baseou-se, essencialmente, em dois factores:
  1. As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
  2. A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).

Mas o choque foi ainda maior, quando no dito auto de notícia pude ler «Tradução do inglês / por Rui Wahnon». Ai, não!
Resta saber se rectificada pelo próprio que, é justo dizer-se, partilhou responsabilidades com o trabalho de revisão de um talvez adormecido Fernando Cunha Rebelo, ou dissecada por um revisor literário mais atento e conhecedor das falhas da tradução de 91. Se assim não for, pese embora a mudança de editora, trata-se de uma mera reimpressão em casa nova, que não acrescenta nada de positivo à obra traduzida, apenas perpetua o erro; ao invés da recomendável reedição de uma obra-prima da literatura americana traduzida com zelo e mestria que não faça desmerecer esse epíteto em português e que lhe foi merecidamente aposto pela versão original em língua inglesa.
Quanto a Underwold (1997)**, só me resta esperar, de preferência deitado em colchão ortopédico não vá o diabo tecê-las.

_____________________________
*Nota, obras lidas de DeLillo: Cão em Fuga (1978), Os Nomes (1982), Ruído Branco (1985), Libra (1988), Mao II (1991), O Corpo Enquanto Arte (2001), Cosmópolis (2003) e O Homem em Queda (2007).
**Nota, honras e prémios literários concedidos à obra Underworld: finalista vencido do National Book Award 1997 (perdeu para O Regresso do Soldado – Cold Mountain de Charles Frazier), do Pulitzer Prize for Fiction de 1998 (perdeu para o memorável Pastoral Americana de Philip Roth) e do concurso pontual, realizado em 2006, pelo The New York Times – Best Work of American Fiction of the Last 25 Years (perdeu para Beloved de Toni Morrison, autora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993); venceu o American Book Award em 1988, o Jerusalem Prize (1999), o William Dean Howells Medal (2000) e o Riccardo Bacchelli International Award (2000).

domingo, 19 de outubro de 2008

Pela tradução…

…de uma das melhores escritoras americanas vivas, que permanece uma quase desconhecida neste pobre país de pseudoliteratos – pelo menos a maioria sabe que é casada com Paul Auster –, talvez ignorada por uma editora que alterou os seus princípios pela via das selváticas fusões.
Deixo aqui ficar uma citação de um dos melhores livros que li na minha vida (já de três dúzias…), em jeito de serviço público e contra a snobeira provinciana, tão portuguesinha, que por aí prospera do “eu não leio traduções” (será que leram Tchekhov, Gogol, Dostoievski em russo?):

«(…) para ele, as histórias eram como o sangue que corria ao longo de um corpo – caminhos de uma vida.»
Siri Hustvedt, Aquilo que Eu Amava, pág. 17.
[Porto: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2005, 412 pp.; tradução de José Vieira de Lima; obra original: What I Loved, 2003.]

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Selvajarias

Foram quinhentas e seis páginas tragadas numa semana cheia de intermitências e de deslocações de última hora. Páginas que me trouxeram um prazer obnubilado por uma forte irritação – talvez potenciada pela azáfama extraordinária e consequentes interrupções de leitura – que resultou da sofrível tradução portuguesa do romance de 1998 Os Detectives Selvagens do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Nas capa e contracapa da edição da Teorema estão inscritas sete frases bombásticas retiradas de críticas e de artigos de opinião de gente culta, e uma extra como súmula das anteriores de autoria do editor, a ver pelos qualificativos que as enxameiam, seja pela obra, pelo autor e o seu estilo: «deslumbrante»; «influente e admirado»; «original, divertido e comovedor»; «Um dos cinco melhores»; «visão brutal e lírica»; «raro e fértil»; «Poderoso e desconcertante…»; «raro e sofisticado»; «o […] mais brilhante»; «lenda literária»; e, por fim, «O primeiro grande romance latino-americano do século XXI», embora tenha sido publicado originalmente no século XX e escrito até 1998 – nem mesmo os maus matemáticos que festejaram a passagem do milénio no fim da noite de 31 de Dezembro de 1999 cairiam nesse erro, embora se perceba que, nas entrelinhas, se pretenda falar dos efeitos do romance a posteriori, na geração coetânea e nas subsequentes.
Quinhentas e seis páginas, divididas por três partes, sendo as primeira e terceira ligadas pelo curto fio temporal entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1976, sob a forma narrativa de um diário mantido pelo jovem personagem Juan García Madero; e a segunda uma sucessão de testemunhos de um conjunto substancial de pessoas espalhadas pelo mundo que de certa forma se relacionaram durante os vintes anos que se seguem, de 1976 a 1996, com os personagens Arturo Belano – chileno, tal como o autor e com nome e apelido que se assemelham – e Ulisses Lima – mexicano, inspirado no seu companheiro infra-realista Mario Santiago –, poetas revivificadores do movimento literário apelidado de realismo visceral, ficcionalmente criado nos anos 20 do século passado pela poetisa Cesárea Tinajero, cujo desaparecimento sem obra publicada durante a década de 30 serve de leitmotiv a toda a acção do par instável de detectives selvagens.

Não me irei alongar muito sobre a valia literária deste romance de Bolaño, sob o risco de repetir alguns dos (merecidos) encómios hiperbólicos que fui lendo em recensões lusas recentes, e tão-pouco sobre as suas vida e obra que, por ora, pouco conheço para além da novela Estrela Distante (Estrella distante, 1996), também por cá editada pela Teorema, e das suas deambulações políticas trotskistas, e o colossal 2666 (obra póstuma) que li em castelhano na sua versão original.
Os Detectives Selvagens é uma obra de um impressionante fôlego literário. É séria e comovente como um todo, porém desafectada e flexível nos seus recursos, airosa e hilariante nos inúmeros episódios meticulosamente perfilados para servirem de válvula de escape. É, no seu fundo, uma obra melancólica, com laivos de um isolamento e de uma perambulação no espaço eminentemente saturninos, cujos naturais abalos emocionais são magistralmente geridos por Bolaño através do riso, da paródia a uma classe que se serve da literatura, concretamente da poesia, como meio de luta pela sobrevivência no caótico mosaico político, económico e social da América Latina da segunda metade do século XX, ou então, no caso de outros, à laia de contraponto, usando-a como meio de exteriorização de um narcisismo latente – recordo-me, por exemplo, do fabuloso episódio relatado pelo ufano advogado galego, residente em Barcelona, que escreve a partir do leito de morte em Roma em Outubro de 1992 (parte II, capítulo 20 – Xosé Lendoiro) rememorando os diversos encontros infelizes com o chileno Arturo Belano por terras de Espanha; ou da triste sina do escritor homossexual integrado no ubíquo movimento do realismo visceral, que devido a um aneurisma é sujeito a uma intervenção cirúrgica ao cérebro que lhe retira grande parte das capacidades físicas e intelectuais, onde os pais, passando por cima de tudo, exultam o resultado final (de quase vegetal) uma vez que lhe curaram o desvio sexual; as lúcidas divagações do inimputável Joaquim Font, (as mais lúcidas), internado, por ordem da mulher, num manicómio situado nos arredores da Cidade do México; o duelo preventivo (ao sabre) entre Arturo e o crítico literário de Barcelona; o prodigioso capítulo 23 (desde a Feira do Livro de Madrid) e as diversas perspectivas sobre a literatura, ou a vida. E poderia continuar…

Mas, como se sói dizer por cá – acabando agora mesmo de emprestar ao texto um tom eminentemente castelhano, através do emprego do usadíssimo verbo soer (em Cast. soler, do Lat. solere) em espanhol corrente –, não há bela sem senão. Se, através das minhas palavras, não existem dúvidas sobre o brilhantismo deste texto literário de Bolaño, a tradução para português acaba por danificar a obra original e irritar o leitor mais atento e familiarizado com a língua de Cervantes – que é precisamente o meu caso. Não falo das inúmeras gralhas que se multiplicam ao longo das quinhentas páginas e que resultam, decerto, de erros tipográficos e de uma pós-revisão deficiente. Falo, isso sim, do tom usado ao longo de toda a narrativa que parece haver sido traduzida por Luís Figo nos períodos áureos entre treinos e jogos de futebol quando tinha de soltar a língua. A utilização excessiva do “pois”, em particular do “pois que”, ao longo do texto, em toda e qualquer frase, é uma tradução literal do texto original que usa o estribilho a partir do vernáculo castelhano, que não se costuma usar na língua portuguesa: (apenas dois exemplos entre dezenas) «Se havia outras editoriais interessadas, pois que a publicassem eles, eu não» (pág. 174) «Porque eu sou real visceralista, disse eu, e, se esse cabrão não mete Ulisses, pois que também não conte comigo.» (pág. 230) No primeiro exemplo, para além do uso do referido estribilho castelhano, há que acrescentar o uso da expressão “editoriais” como tradução de “editoriales”, que neste caso pretende significar a empresa que edita, comummente designadas por “editora”, embora “editoriais” se refira ao mesmo, não é, porém, de uso corrente em português europeu.
Depois há a repetidíssima utilização da expressão “chino” para designar “chinês” – «Depois saímos todos para jantar num café chino.» (pág. 25), «Pancho e eu encontrámo-nos no café chino El Loto» (pág. 32) –, embora “chino” seja sinónimo de “chinês”, não se usa em português com excepção de “rato-chino”, uma vez mais resulta da tradução literal do espanhol “chino” que significa “chinês” na nossa língua. Este caso não é único, existem outras traduções literais como por exemplo «Quando cheguei levantou a cabeça, era o único usuário da biblioteca» (pág. 489)
Por fim, o critério de tradução de nomes próprios. Começando pelos protagonistas “Ulisses Lima” e “Arturo Belano”, o primeiro sofreu um aportuguesamento de “Ulises” no original (ficou com mais um “s”), e o segundo manteve o “Arturo” que em português é “Artur”. Assim, como “María Font” perdeu o acento agudo no “i”, uma vez que (pues que) a divisão silábica de “Maria” é diferente nas duas línguas: em português, “Maria” é uma palavra grave (Ma-ri-a); em castelhano, é uma palavra aguda devido à divisão silábica em castelhano (Ma-ria); opção que não é consistente com “Luis Rosado” onde se manteve a versão castelhana do nome em detrimento da portuguesa “Luís Rosado” ou com “García Madero” (o terceiro protagonista) em vez de “Garcia Madero”. Já “Joaquim Font” tanto é assim grafado (por exemplo, na página 151), como surge com o nome próprio em castelhano “Joaquín Font” (pág. 252).
Como é certo e sabido, uma má tradução poderá arruinar uma obra. No caso em questão não creio que tenha havido um dano insanável, ou seja, mesmo perante os erros consegue-se vislumbrar a genialidade da obra. Isso não invalida que refira que, através da minha experiência de leitura, houve uma irritação que se adensou à medida que me ia embrenhando no livro, prejudicando, de forma irremediável a avaliação final. À editora pede-se que proceda a uma urgente e aturada revisão do texto traduzido para a 2.ª edição, se a houver, caso contrário acredito que obra permanecerá na sua versão portuguesa, até nova tradução, ferida no seu brilho artístico.


«O que há atrás da Janela?
[figura 1]
Uma estrela.
[…]
O que há atrás da Janela?
[figura 2]
Um lençol estendido. (…)» (pág. 506)

Pues que eclipsou-se uma estrela:

Classificação: **** (Bom)

Tudo o que começa como comédia acaba como ode ao ansiolítico.
[A despeito, neste caso, das outras proposições prismáticas, (…) como tragédia (pág. 403); como tragicomédia (pág. 404); como comédia (pág. 404); como exercício criptográfico (pág. 405); como filme de terror (pág. 408); como marcha triunfal (pág. 409); como mistério (pág. 411); como responso no vazio (pág. 413); como monólogo cómico, mas já não nos rimos (pág. 416).]


Referência bibliográfica:
Roberto Bolaño
, Os Detectives Selvagens. Lisboa: Teorema, Junho de 2008, 512 pp. (tradução de Miranda das Neves; obra original: Los detectives salvajes, 1998).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Zelosias

Já todos sabem, até pelo seu uso frequente, que os italianos empregam uma espirituosa sentença popular, concebida pela feliz proximidade fonética entre duas palavras do seu léxico, que pretende exprimir, por oposição, as necessárias idoneidade e precisão na arte de tradução literária: “Traduttore, Traditore” (tradutor, traidor).
Não é novidade, e até poderia resultar de uma constatação empírica, que traduzir exige do tradutor argúcia e inteireza de contextuação, assim como zelo e objectividade, sob pena de, à mais simples inexactidão, arruinar o engenho, a razão de ser, a alma que o autor emprestou à obra, em suma, a sua subjectividade.
Nabokov, um fiel suspeitoso das traduções – não foi à toa que traduziu, ele mesmo, algumas das suas obras e acompanhou outras que não pôde traduzir, revendo-as –, dizia que sendo a tradução perfeita impossível a literalidade é preferível à legibilidade ou à tão em voga “tradução artística” que desvirtua o sentido original da obra.
Mas, como em quase tudo na vida, há excessos. Há quem leve o literalismo demasiadamente a sério. E se o exercício de uma determinada função extravasa o domínio das suas competências (mesmo que tacitamente determinadas, vulgo razoabilidade), isso significa que, por estupidez, por inépcia ou pelo puro prazer de um raro autoritarismo supervenientemente alcançado, se cria uma situação potencialmente intolerável para os destinatários desse mesmo exercício – neste caso, o leitor, apodado de forma subliminar de ignaro.
Ora, no caso da tradução de uma obra literária, o zelo extremoso e até paternalista do tradutor, materializado, por exemplo, em infindáveis notas de pé de página de carácter dispensável, não só prejudica de forma irremediável a integridade da obra e o prazer da sua leitura, como também incentiva o consumo de ansiolíticos pelas sobranceria e insolência da afirmação velada da sua superioridade intelectual.
Na biografia de Leni Riefenstahl, escrita por Steven Bach, recentemente publicada pela Casa das Letras, surge na página 10 uma pequena advertência sobre o aspecto formal da obra editada em português para «comodidade de leitura»: eliminaram-se a notas do autor típicas de um trabalho académico, deixando para o fim do livro as «que enriquecem a informação factual do corpo do texto», acrescentando em rodapé as notas do tradutor.
Até este ponto, apesar da discutibilidade do critério – porque não permanecerem ambas em pé de página, identificando-as como “N.A.” se do autor ou como “N.T.” se do tradutor? –, não há motivos para algum reparo de natureza substantiva. No entanto, à medida que se lê a obra e nos vamos familiarizando com a mecânica de leitura das tais notas, atinge-se rapidamente o ponto de saturação pela profusão de notas de tradução irrelevantes e até caricatas, como a tradução dos nomes dos jornais alemães para português. Assim, na página 77, as segunda e terceira notas de rodapé servem apenas para traduzir os nomes dos periódicos «Neueste Nachrichten» por «Últimas Notícias» e «Morgenpost» por «Correio da Manhã», respectivamente; ou, por exemplo, na página 154 «Lokal-Anzeiger» por «O Anunciante Local» – afinal, o grupo Cofina já publicava o seu jornal diário na Alemanha na década de 1920.
Seguindo esta linha de raciocínio, só não entendo por que motivo não se atribuiu a obra ao escritor Estêvão Ribeiro.

Referência bibliográfica:
Steven Bach
, Leni – A Vida e Obra de Leni Riefenstahl. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Novembro de 2007, 469 pp. (tradução de Óscar Mascarenhas; obra original: Leni – The Life and Work of Leni Riefenstahl, 2007).