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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Banville, por fim...

Termina a "Trilogia Cleave", que se iniciou com o romance de uma beleza inigualável, o livro de ficção mais pungente entre todos aqueles que me passaram pelos olhos até aos dias em que escrevo estas curtas orações: Eclipse (2000); e prosseguiu com o maravilhosamente áspero O Impostor (Shroud, 2002).
Eis o Mestre Banville:

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Infinidades

Moderada e incoerentemente publicado em Portugal, não é de surpreender que o último romance do já sexagenário escritor irlandês John Banville (n. 1945) não seja notícia ou, pelo menos, objecto de bulício literário no meio editorial nacional – dois advérbios de modo a abrir o texto para provocar estrondosos arrepios aos escrupulosos guardiães da língua portuguesa, e (ai, e a vírgula a seguir à conjunção copulativa…) por, gramaticalmente, ser tão ao gosto do autor em questão (suponho ser dele a maior sucessão de advérbios de modo que pude ler numa obra de ficção, em cujo uso García Márquez manifestava uma enorme repulsa ou, pelo menos, relutância, embora os haja utilizado profusamente na sua primeira autobiografia, Viver para Contá-la).
Em 2005, Banville vence inesperadamente o seu, por enquanto único, Booker Prize, com a novela, mascarada de romance, por jeito regulamentar conferido pelo júri do mencionado galardão, O Mar (The Sea; entre nós publicado(a) em 2006 pela Asa – na altura, editora símbolo do orgulho literário e da independência literária portuenses –, ainda fora do caldeirão LeYa), num ano cujo sexteto finalista foi até hoje, na minha única e inderrogável perspectiva, um dos mais ilustres desde 1969 (annus mirabilis em que o Booker começou a ser atribuído).
Mas a literatura irlandesa tem sido um problema luso. Beckett, Joyce e, em certa medida, Bernard Shaw à parte e nas suas épocas, continuamos a publicar de forma episódica e errática os grandes autores contemporâneos do país da Harpa Gaélica. Se Portugal contasse no mercado editorial mundial, Banville até nem teria muitas razões para se queixar pelo constatado esquecimento hibérnico que assola o cantinho literário luso; lembremo-nos, por exemplo e para citar apenas alguns dos mais recentes ou contemporâneos, Sebastian Barry ou Colm Tóibín ou até mesmo, vogando para terras do Ulster, pelo mundo dos mortos e por tempos mais remotos, o aclamado Flann O’Brien (1911-1966), pseudónimo mais reconhecido de Brian O’Nolan, cuja obra-prima, assim universalmente considerada, At Swim-Two-Birds (1939) continua por publicar no mercado nacional, onde na sua algaraviada deprecatória se ouvem os sons abafados da ainda 6.ª língua mais falada em todo o mundo.
Mais de quatro anos volvidos, Banville volta a publicar um romance, libertando-se do seu heterónimo (pelo menos, nas suas confissões, pressentem-se os sintomas de desmultiplicação do eu, processo eminentemente pessoano) Benjamin Black. Banville é um autocrítico implacável, duro e, por vezes, tão severo, que as suas palavras autodepreciativas roçam os cenários conjecturais mais hórridos da autoflagelação. Black é prolífico, simples, redutor e escreve romances policiais, cujas palavras surgem como torrentes – segundo confissão do próprio – erigindo como epítome o belga, literariamente fértil, Georges Simenon e a obra das obras La neige était sale (1948), na opinião do escritor irlandês.
Por agora, jaz, constrangido, na minha pilha dos livros de leitura futura, a novel edição da Asa do primeiro romance de Black na era de fecundidade do alter-ego de Banville – O Segredo de Christine (Christine Falls, 2006). A seu tempo apreciá-lo-ei palavra por palavra, arabesco por arabesco. Todavia, para um banvilliano confesso, por maior que seja o menosprezo do próprio autor pela sua obra publicada – que se fosse outro a dizê-lo, lembro-me por exemplo de Auster, seria interpretado como um exercício da mais descarada forma de auto-indulgência de apelo à piedade pelo desgraçado –, os sintomas de ressaca de banviallina já se manifestam, catalisados pelo nervo óptico, tal é a quantidade de lixo estrangeiro que, hoje em dia, por aqui se publica. Só quem não leu o devastador, melancólico e sombrio (pois claro, está no título) Eclipse (2000) ou, por exemplo, os concatenados O Livro da Confissão (The Book of Evidence, 1989) e Fantasmas (Ghosts, 1993), é que pode vituperar estas curtas linhas de pura e irrestrita afeição literária.
Banville, o artista perturbado com o seu passado literário, lançou mão do seu predilecto e fonte de inspiração Heinrich von Kleist (1777-1811), baseando o seu romance mais recente na peça de teatro burlesca Anfitrião (Amphitryon, 1807), que o ilustre e desassossegado alemão foi beber à fonte inexaurível de Molière, que já vinha do romano Plauto, precedido, segundo se diz (não existe escrito), pelo génio criativo do grego Sófocles. O romance chama-se The Infinities, usando como referência a imortalidade olímpica.
Eis um pequeno excerto (1.º parágrafo) da, por agora, elogiadíssima obra, com tradução cá da casa – apesar do temor (e tremor) inicial em arruinar (dantescamente condenado às chamas do círculo nono do Inferno, traditore) as palavras etéreas que saem daquela pena:

«De entre as coisas que criámos para que eles se possam sentir desassombrados, o alvorecer é a que funciona melhor. Quando a escuridão é coada pelo ar, como suaves e finas partículas de pó, e a luz começa a espalhar-se, vagarosamente, a partir do Oriente, nesse instante todos, excepto os mais miseráveis entre a humanidade, recobram forças. É um espectáculo que nós, imortais, desfrutamos, esta pequena ressurreição diária; muitas vezes juntamo-nos nas muralhas das nuvens e fitamo-los, os nossos pequeninos, à medida que se agitam para acolher o novo dia. Que silêncio, então, se abate sobre nós, o triste silêncio da nossa inveja. Muitos deles continuam a dormir, claro, alheados do encantador truque matutino da nossa prima Aurora, mas há sempre os insones, os enfermos agitados, os mal-amados a dar voltas nas suas camas solitárias, ou apenas os madrugadores, os atarefados, com os seus alongamentos, os seus duches frios e as suas chaveninhas aparatosas de ambrósia negra. Sim, todos aqueles que o testemunham saúdam o alvorecer com alegria, ou quase todos, se exceptuarmos, claro, os homens condenados, para quem a primeira luz será a última sobre a Terra.»
John Banville, The Infinities, p. 1 [tradução livre: AMC, 2010]
[London: Picador, September, 2009, 304 pp.]

Um mimo simbolicamente banvilliano (ou banvillianamente simbólico?)
Obras de John Banville editadas em Portugal, organizadas cronologicamente (data de publicação da obra original), da mais antiga à mais recente:
  • Doutor Copérnico (Dom Quixote; obra original: Doctor Copernicus, 1976) – inacreditavelmente, sem seguimento com as restantes duas obras que completam a “Trilogia das Revoluções”, literatura e ciência: Kepler (1981) e The Newton Letter (1982);
  • O Livro da Confissão (Quetzal; obra original: The Book of Evidence, 1989);
  • Fantasmas (Dom Quixote; obra original: Ghosts, 1993): neste caso, ficou por publicar o último livro da sua segunda trilogia, “Frames” – dada a carga semântica deste título, optei por o deixar em inglês, porquanto se refere não só à simples “moldura” de um mero quadro (roubado pelo omnipresente e brutal narrador no 1.º livro), como também à “urdidura” ou “trama”, bem como ao referencial temático da relação entre a arte (pintura) e a literatura, intertextualidade e descrição minuciosa do objecto artístico –, trilogia, então, constituída por este e pelo livro precedente, e ainda pelo não publicado Athena (1995);
  • O Intocável (Dom Quixote; obra original: The Untouchable, 1997);
  • Eclipse (Ulisseia; obra original: Eclipse, 2000);
  • O Impostor (Ulisseia; obra original: Shroud, 2002);
  • Imagens de Praga: Retratos de uma Cidade (Asa; obra original: Prague Pictures: Portrait of a City, 2003);
  • O Mar (Asa; obra original: The Sea, 2005);
  • O Segredo de Christine (Asa; obra original: Christine Falls, 2006) – publicada sob o pseudónimo Benjamin Black.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Se eu fosse Dmitri...

Dmitri e Vladimir Nabokov ©Magnum
Este é o nome da mais recente e viciante diversão meta-literária à escala do globo. Publicações da especialidade e até as exaustivas revistas do coração referiram o fenómeno que, com toda a virulência (literária), se espalhou por todo o lado como cogumelos famélicos – e já sabemos quais as consequências destes prodígios sempre que aplicados às artes literárias; dizem que tem que ver com um senhor alemão, um tal de Zeitgeist...
Facto comprovado (1): não há quem lhe seja indiferente, mesmo ignorando o protagonista e/ou a sua obra.
Facto comprovado (2): todos querem ser Dmitri, vestir-lhe a pele ou pôr-se nos seus sapatos – se o primeiro acto arrepia pelo seu buffalo-billianismo, o segundo não é lá muito higiénico, fungicamente falando.
Todos arriscam lançando o seu palpite sobre a existência e o destino a dar a uma obra que, a honrar-se o putativo compromisso de antanho, deveria pelos dias deste século jazer em cinzas algures pela Confederação Helvética – centro nevrálgico: Montreux Palace Hotel.
Porém, a loucura instalou-se, e até já prevejo a aquisição dos direitos exclusivos para a produção de software – formato PC ou consolas de jogos – pela multinacional norte-americana EA Sports, provavelmente com o lançamento mundial de “If I were Dmitri...” para o início da época natalícia de 2008.

Na passada quinta-feira, o
Times de Londres narrava de novo a história dos 50 cartões de indexação que, por vontade expressa do autor – manifestada em lenta agonia no percebido leito de morte –, deviam perecer pelo método bradburiano dos 232,8 ºC – a tal temperatura a que ardem os livros: It was a pleasure to burn.
Uma vez mais – e esgotaram-se-me as reservas de paciência – foram contados todos os pormenores, sem qualquer tipo de originalidade ou de revelação, com a excepção de uma curta sondagem de opinião dirigida a destacadas figuras do meio literário: John Banville embarca no movimento pró-vida do manuscrito – pretende afastá-lo do tenebroso espectro dos cofres-fortes de vão de escada –, enquanto Tom Stoppard faz uso do lança-chamas e Edmund White fica-se por um amaneirado, arrebicado e inconsequente “sim, mas… talvez não, porventura…” – pressupondo que Nabokov, onde estiver, ainda se recorda, aplaudindo, de Elena.
No centro do debate está o provecto e pueril, provocador e irresoluto filho único de Véra e Vladimir Nabokov: Dmitri, hoje com 73 anos.
A 2 de Julho de 1977, Vladimir Vladimirovich morre num hospital suíço vítima de infecção pulmonar. Véra foi incumbida pelo marido de destruir o esboço de The Original of Laura e todas as suas notas. No entanto, Véra morre em 1991, sem haver tomado as providências pirómanas que lhe foram encomendadas, deixando assim o berbicacho nas mãos de Dmitri, que de lá para cá vem a desfrutar de um prazer sádico do “mostro/não mostro”, não se furtando, por vezes, a assumir o papel do menino travesso, que deixa cair umas pinguinhas pela incontinência verbal, como fez na celebração dos 100 anos do nascimento do seu pai (1999) na Cornell University, lendo uma frase de uma obra de Nabokov, pedindo ao público para a identificar: todos a identificaram, pela novidade, como sendo um curto excerto de The Original of Laura.

Neste momento, muito por culpa do comportamento errático de Dmitri, a história caminha a passos largos para a bambochata meta-literária: assiste-se já a um arraial de conjecturas, interpretações, supostas pistas deixadas no subtexto. Uns e outros recuperaram as especulações, levantadas por Andrew Field na sua biografia sobre Nabokov, reiteradas na
National Review pela recensão desta obra por outro estudioso nabokoviano, Jeffrey Meyers, sobre eventuais problemas relacionados com o álcool, para além de se aventar a hipótese de o jovem Vladimir ter sido vítima de pederastia perpetrada por um tio homossexual – o suficiente (sem exbicionismos) pode ser lido na sua obra autobiográfica Na Outra Margem da Memória (Speak, Memory; 1951, revista e actualizada em 1966).
Caminhamos a passos largos para o frenesim estúrdio dos esoterismos, da simbologia e da teoria da conspiração. E, não ficaria admirado se Fogo Pálido (Pale Fire, 1962) de repente se metamorfoseasse, qual ninfa lepidóptera, na Mona Lisa de Nabokov e Laura passasse a ser o lado feminino veladamente desenvolvido, como uma borboleta hermafrodita que transcorre a obra, e que explica o Yin (Charles Kinbote) e o Yang (John Francis Shade) – ou será o contrário? Shade, anag. para Hades, ou lit. sombra –, a luta de paradoxos que cria a harmonia… interior? Vestiria Nabokov em segredo a rendada lingerie de Véra? E se sim, ficaria horas a remirar-se com lascívia ao espelho ao mesmo tempo que ensaiava uma coreografia de corista de vaudeville?
Proposta para best-seller: O Código Nabokov – editoras, para eventuais contactos, usar o e-mail deste blogue.

Regressando ao artigo do Times, Banville propõe uma solução radical, mas absolutamente indefensável naquilo que ela tem de muito portuguesa – haverá sangue luso a correr naquelas veias eminentemente irlandesas? Ou seja, criar uma comissão…

«Se eu fosse Dmitri Nabokov, que graças a Deus não sou, eu dactilografava o fragmento e mostrava-o a dois ou três reputados e amáveis críticos – por exemplo, James Wood, Harold Bloom – e talvez também a um ou dois escritores – John Updike, Martin Amis – para que dessem a sua opinião sobre se aquele deveria ser ou não publicado.»

John Banville in The Times, 14/02/2008 [tradução: AMC]


Wood, Bloom, Updike e Amis, OK. Conquanto se contacte o Rui Gomes da Silva e o Luís Filipe Menezes para o exercício do contraditório, para além da contratação a peso de ouro de um dos representantes da West Coast of Europe com propensão opinativa: José Mourinho, tendo o quase indispensável Rui Santos e a sua indumentária como suplentes.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Dois escritores e as suas escolhas

12.º Passo: o despertar espiritual, lev(ar)ei estes passos aos conhecimento dos outros.
(FIM)


Memórias de um homem das finanças empresariais (enquanto jovem) amante da Literatura... pois, não o foram.

«O mais do que isto/ É Jesus Cristo,/ Que não sabia nada de finanças/ Nem consta que tivesse biblioteca...» Fernando Pessoa


Termino justamente no dia anterior ao que completarias 32 anos.

Foi para ti e pelos livros que devoravas, meu querido T. (1975-2002).

Eis os livros da vida de dois dos meu autores favoritos: Paul Auster e John Banville (com a respectiva editora se editados e traduzidos em Portugal).

Paul Auster (n. 1947, Newark, NJ, Estados Unidos)

  1. O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha – Miguel de Cervantes (Relógio D’Água)
  2. Guerra e Paz – Lev Tolstoi (Presença)
  3. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  4. Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski (Presença)
  5. Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust (Relógio D’Água)
  6. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  7. A Letra Encarnada – Nathaniel Hawthorne (Assírio & Alvim)
  8. O Castelo – Franz Kafka (Relógio D’Água)
  9. Molloy / Malone está a morrer / O Inominável (trilogia francesa) – Samuel Beckett (Relógio D’Água / Dom Quixote / Assírio & Alvim)
  10. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy – Laurence Sterne (Antígona)

John Banville (n. 1945, Wexford, Irlanda)

  1. Mal Visto Mal Dito – Samuel Beckett (Quasi)
  2. Cadernos do Subterrâneo – Fiodor Dostoievski (Assírio & Alvim)
  3. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  4. Doutor Fausto – Thomas Mann (Dom Quixote)
  5. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  6. Lolita – Vladimir Nabokov (Teorema)
  7. Austerlitz – W.G. Sebald (Teorema)
  8. La neige était sale – Georges Simenon (Sangue na Neve [edição brasileira, Nova Fronteira])
  9. Viagens de Gulliver – Jonathan Swift (Livraria Sá da Costa)
  10. A Feira das Vaidades – W.M. Thackeray (Europa-América)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Who is...

Benjamin Black?
(pergunta preambular baseada numa outra, bem célebre, formulada por Chuck Palahniuk retratando a esquizofrenia dos nossos dias, ou um caso extremo de doppelgänger, ou a Némesis em potência que é a nossa própria identidade – e lá regresso eu à aporia, tendo Sartre como epicentro deste abalo mental, neste caso contrariando-o depois de o haver aceitado: e se o inferno somos mesmo nós?

Benjamin Black é irlandês e estreou-se em Outubro de 2006 na ficção policial, ou no thriller – há lá palavra melhor!?
Auster, que é Benjamin de middle name, acaba de escrever sobre Blank, porém há um Benjamin, que já foi vencedor do Booker Prize – logo não é Paul, porque este é americano – e que publica com apelido Black.

Lá está o bater das asas da borboleta em Tóquio…

«It was not the dead that seemed to Quirke uncanny but the living. When he walked into the morgue long after midnight and saw Malachy Griffin there he felt a shiver along his spine that was to prove prophetic, a tremor of troubles to come. Mal was in Quirke’s office, sitting at the desk. Quirke stopped in the unlit body room, among the shrouded forms on their trolleys, and watched him through the open doorway. He was seated with his back to the door, leaning forward intently in his steel-framed spectacles, the desk lamp lighting the left side of his face and making an angry pink glow through the shell of his ear. He had a file open on the desk before him and was writing in it with peculiar awkwardness. This would have struck Quirke as stranger than it did if he had not been drunk. The scene sparked a memory in him from their school days together, startlingly clear, of Mal, intent like this, sitting at a desk among fifty other earnest students in a big hushed hall, as he laboriously composed an examination essay, with a beam of sunlight falling slantways on him from a window somewhere high above. A quarter of a century later he still had that smooth seal’s head of oiled black hair, scrupulously combed and parted.» (excerto do 1.º capítulo do livro Christine Falls, de Benjamin Black. Edição americana: Henry Holt & Co.)

Anda por aí uma fotografia de parelha e há uma pista nos marcadores.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Amiguismos?

John Banville recenseia o último romance de Martin Amis, House of Meetings, no Volume 54(3), de Março deste ano, da The New York Review of Books.

Nesta obra, Amis retrata o horror dos Gulags estalinistas pelos olhos de um ex-exilado russo, agora octogenário, milionário e a residir nos Estados Unidos, que decide, no fim da sua vida, viajar até ao local onde despendeu catorze tenebrosos anos da sua juventude na companhia do seu meio-irmão, e viu e sofreu as mais bárbaras atrocidades do regime comunista soviético. Pelo meio vagueia o espectro de uma paixão de ambos pela mesma mulher, uma garbosa judia que mais tarde será a mulher do seu irmão e que esteve na origem da prisão arbitrária deste e na consequente deportação para os campos da Sibéria, havendo sido acusado de exultar a América quando, numa fila de uma cafetaria, este se referia à mulher da sua vida a quem atribuiu o nome de código “America”. (Para mais informações, ler a recensão)

A sinopse é sugestiva. Martin Amis há muito que, por mérito próprio, dispensa quaisquer apresentações. A recensão do ilustre Banville deixou-me uma enorme expectativa da real qualidade da obra. E depois, há todo aquele delicioso jogo de “quem influencia/influenciou a escrita do autor” que, pelos escritores referenciados, enredam de forma inapelável um apaixonado pela Literatura com os seus mais insignes autores: Amis é um admirador de Vladimir Nabokov, que todavia foi influenciado no início dos anos 80 por Saul Bellow, que por sua vez procurou ser um Gustave Flaubert americano até ter escrito As Aventuras de Augie March,... and so forth

Banville termina com uma pequena queixa, se é que, como ele diz, se trata mesmo de uma queixa:

«House of Meetings is a rich mixture, all the richer for being so determinedly compressed. In fewer than 250 taut but wonderfully allusive, powerful pages Amis has painted an impressively broad canvas, and achieved a telling depth of perspective. The first-person voice here possesses an authority that is new in Amis's work. It is as if in all of his books he has been preparing for this one. In his depiction of a nation stumbling, terrified and terrifying, through rivers of its own, self-spilt blood, he delivers a judgment upon a time—our time— the spectacle of which, if it had been but glimpsed by the great figures of the Enlightenment on whose reasonings and hopes the modern world is founded, would have struck them silent with horror. Stalin and Stalin's Russia have provided Martin Amis with a subject worthy of his vision of a world which, as Joseph de Maistre has it, is "nothing but an immense altar on which every living thing must be immolated without end, without restraint, without respite, until the consummation of the world, until the extinction of evil, until the death of death,"[10] and in which, in the cruelest of Wildean ironies, the victims of tyranny survive to become tyrants in their turn, destroying even those whom they love most dearly. It is a bleak vision, assuredly, yet as always in the case of a true work of art, our encounter with Amis's dystopia is ultimately invigorating.»

(nota: olha quem fala! O tal que escreveu uma obra-prima, vencedora do Booker, com cerca de 200 páginas na versão original inglesa – na portuguesa conta com 176 páginas.)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Booker Prize 2006 - Em Portugal

Estará brevemente disponível em língua portuguesa o romance The Inheritance of Loss da escritora de origem indiana Kiran Desai, vencedor do Man Booker Prize for Fiction de 2006, sucedendo-se, na galeria dos notáveis, à pequena obra-prima O Mar do meu muito apreciado autor irlandês John Banville.
A Herança do Vazio – título que recebeu em Portugal – foi editado pela
Porto Editora que, finalmente, se lançou no mercado editorial da ficção.

De notar que, com a publicação deste romance, três dos seis finalistas do prestigiado prémio já se encontram editados na nossa língua – galardão atribuído a obras de ficção originalmente editadas em língua inglesa no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda –, juntando-se, assim, ao excepcional romance de Sarah Waters, O Vigilante, editado pela Bizâncio, o qual considerei estar entre os dez melhores livros de ficcção estrangeira editados em Portugal em 2006 e por mim lidos até 31 de Dezembro do ano passado (
ver aqui), e ao recentemente estreado Em terra de Homens, de Hisham Matar, publicado pela Civilização Editora, que já aqui dei conta.

Para ler um excerto do 1.º capítulo da obra,
carregar aqui.

Até à sua compra, seguida de leitura, parafraseando o bombo de festa dos blogues que, de certa forma, se dedicam à coisa literária, bons livros!


Nota: Para obter mais informações sobre esta obra, aceder a esta página da Porto Editora.