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segunda-feira, 18 de junho de 2012

When it grows dark we always need someone*


Beach House, “Myth”, Bloom (2012; Bella Union)


Help me to name it! (Não te acomodes na indiferença perante o teatro do sofrimento. Aquilo que fomos.)
«“Nunca sabemos quem somos. São os outros que nos dizem quem e o que somos. Explicam-nos tantas vezes quem somos, e de formas tão diferentes, que, no final, acabamos por não saber em absoluto quem somos. Todos dizem de nós algo diferente. Até nós mesmos estamos sempre a mudar de opinião. Se a isso acrescentarmos que nos esforçamos por surpreender os outros sendo várias pessoas ao mesmo tempo, o que na verdade acaba por acontecer é que acabamos por não ter a menor noção de quem somos ou poderíamos ter sido” (Juan Lancastre, A Interrupção).»
Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan, pág. 124.
[Lisboa: Teodolito, 1.ª edição, Março de 2012, 259 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Aire de Dylan, 2012.]
*Nota: «Yes. It's odd — when it turns dark you need someone.» (Patricia Hollmann”, por Margaret Sullavan (1909-1960) em Três Camaradas (Three Comrades, 1938), de Frank Borzage (1893-1962).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Blackout cerebral


Enquanto a Wikipedia na sua versão inglesa promoveu um blackout de 24 horas no acesso aos seus conteúdos em protesto pela discussão e eventual aprovação das sugestivas leis PIPA e SOPA pelo Congresso Americano (seguir a ligação para mais informação) – de certa forma, e por todas as razões, faz-me lembrar o Portugal de antanho, de tempos da outra senhora como se sói dizer: a pipa (ou o seu enchimento etilizado) que punha a sopa na mesa de um milhão de portugueses; hoje, nem isso nos põe o pão na mesa, dadas as políticas agrícolas que arruinaram o sector vitivinícola e conduziram à miséria milhares de lavradores, especialmente os durienses, descurando-se até (negligência desmedida) o forte poder anestésico do líquido que, decerto, viria em auxílio a nós luso-dependentes da tríade nebulosa que atribui mais notas que o Prof. Marcelo e em que um dos seus elementos, numa demonstração de um sarcasmo repugnante, se dá ao luxo de ter Poor na sua denominação, para esquecer as agruras a que quotidianamente nos submetem –, o véu negro e opaco que cobria a minha percepção para as coisas que se vão passando e têm interesse no mundo real não-murakamiano (esse é uma estranha amálgama também anestésica, ou melhor, de privação cerebral) foi desvelado:

A melhor série televisiva de comédia de todos os tempos – para não me apontarem a puerilidade do exagero, coloco-a a par do Flying Circus dos eternos Monty Python, ou da curta e fugaz série (doze episódios), também da BBC, Big Train, e sim, concedo, o próprio Seinfeld co-criado por aquele que levou o psicoterapeuta ao suicídio (ver imagem) –, mas, prosseguindo, dizia que a melhor série cómica de todos tempos, Calma, Larry (Curb Your Enthusiasm), está a ser transmitida pelo canal FX da ZON (e suponho que nos outros fornecedores do serviço de televisão paga; aliás quem me informou é assinante do serviço fedorento Meo). Estão em exibição, com várias repetições na grelha diária, as duas últimas temporadas, a 7.ª e a 8.ª da série. Infelizmente, pelo caminho, perdi a 6.ª, mas guardo religiosamente os DVD das anteriores e a eles volto com alguma regularidade, sem que se perca o gosto e o prazer de ver a histórias daquele ser com uma lógica torcida e retorcida, e me preocupe com a suspensão de juízo que, neurologicamente, uma boa gargalhada poderá implicar.
Bendita seja a alma de quem me alertou. Já está tudo programado para gravação dadas as restrições horárias para poder ver aquele judeu inimputável nos poucos momentos de paz e tranquilidade que ainda existem no meu buliçoso lar.
Centenas de canais, dezenas de euros mensais, para o Panda, o Nickelodeon, Disney e pouco mais – expropriação por acção filial, seria a razão mais cómoda para apontar, mas em boa verdade, cansei-me de ver televisão e, por vezes (nem sempre), uma pessoa farta-se de engolir tanto lixo – e só ontem fiquei a saber que aquela coisa inenarrável está num canal não descortinável para um telespectador impaciente e irascível como eu.
Será de mim? Como o outro do adágio, fui o último a saber? A espera e a deliciosa contradição dos aforismos portugueses: desespera ou sempre alcança?
Cito Vila-Matas que cita Bertrand Russell que cita uma absurda anciã russa:
«Sim, meus senhores. Faz mau tempo e estamos à espera que mude. Mas é melhor fazer mau tempo do que não fazer nenhum, e é melhor estarmos à espera do que não esperarmos nada.»

Enrique Vila-Matas, Perder Teorias, pág. 26 [Porto: Afrontamento (Teodolito), 1.ª edição, Setembro de 2011, 88 pp.; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Perder teorías, 2010.]

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade Volúvel

Uma sucessão de repetições, de signos, de argumentos estafados que permitam sustentar uma justificação para algo que nem eu próprio consigo compreender: a manutenção deste blogue. Começou como um vício entendido como uma amálgama de paixão pela arte de escrever e uma imperiosa necessidade de catarse, e que agora se arrasta pela rede como um tormento, em que um título de um radicalismo inusitado emerge como um combatente obstinado frente a uma vontade persistente de encerramento definitivo. Voltar ao anonimato da vidinha enfadonha – talvez seja esse o obstáculo, mesmo conhecendo o pequeníssimo alcance dos escritos aqui produzidos. Não é um lamento, nem uma falsa modéstia, é uma constatação empírica, que tarda em ser racionalizada, derrotando as emoções, essas vadias que me vão deixando nu perante o mundo.
Volto a repetir-me. Nunca mais. É o terceiro título que aponho a este blogue desde que, em 17 de Dezembro de 2005, iniciei a minha viagem quase solitária pela blogosfera – sem compromissos, vínculos, reservas e obediências, senão à minha consciência, manifestação da minha liberdade individual jamais coarctada ou circunscrita a qualquer directório.
Volto a pisar os passos históricos destes quase cinco anos. Todos os títulos tiveram a sua origem em Sophia, sempre fundamentados em estados de espírito, de cuja incansável e persistente indagação sobre a obra poética da minha autora de eleição possibilitou que pressentisse a emergência de uma harmonia perfeita entre aqueles e os poemas escolhidos que foram figurando neste espaço.
Nunca mais, bem poderia ser um título interjectivo como reacção à sentida necessidade de isolamento – uma demanda pela integridade da minha consciência, pela minha liberdade intelectual. Por vezes invejando a coragem de um eremita, outras lastimando um destino que me impuseram como forma de luta perante o fingimento, a desconsideração episódica, o desprezo intermitente, o sórdido jogo de interesses a que nenhuma amizade deveria resistir, sob pena de se transformar numa relação parasitária, aviltante e potencialmente destrutiva: a insistência na sua manutenção – por indolência, apatia ou até pelas grilhetas da mais sórdida subjugação –, vai contribuindo de forma subliminar para a alienação total do eu.
A conclusão pela interjeição, agora realizada, serve-me de argumento quase perfeito para defender que o processo corrosivo de uma convivência insana se transforme num facto irreparável – som estrídulo que me mantém alerta –, permanente, sem remissão, de pura e simples abdicação, de aprovação sem resistência de um método de tortura auto-infligida. Mas, já não são eles, somos nós o nosso inferno, em que a misantropia abusando da sua simplicidade – como é fácil desprezar os outros – se vai hospedando nos interstícios dessa fragilidade, o “nunca mais” absolutiza-se e daí a interrogação de DeLillo que decora, como epígrafe, a parte cimeira deste blogue: até onde? Qual é a chave para encontrar o equilíbrio entre a cedência desmedida inculcadora de infelicidade e o isolamento como busca da felicidade? Perante a ubiquidade do inferno, em nós, nos outros, que caminho escolher? Haverá neste caso um jogo iterativo de escolha do “mal menor” que se renova a cada segundo que passa? Para que fogueira deveremos arremessar os toros de madeira lúbrica à espera de ser lambida? Sustentar o fogo de uma amizade volúvel ou avivar lume cujas labaredas são meras manifestações de uma angústia que advém da terrível agnição dos nossos medos e distorções do espírito, outrora em estado latente, hoje alimentadas pelo rugido do silêncio do isolamento?
Abro livros com uma avidez estonteante para neles encontrar as chaves que permitam descodificar e validar o meu estado de alma, como se um todo emaranhado de caracteres se combinasse no momento exacto em que os meus olhos indagadores cruzam vorazmente esse conjunto estruturado de palavras. Recorro, pois, a Orwell e ao seu extraordinário ensaio “A Prevenção da Literatura” (1946), que parte da discussão da Areopagitica (1644) de Milton, como denúncia de todas as formas de totalitarismo que cerceiam a liberdade de expressão, intelectual e criativa. Volvidas as primeiras páginas, Orwell cita o refrão de um velho hino religioso da América puritana composto em 1873 por Philip P. Bliss (1838-1876), para demonstrar mais adiante o processo em curso da colectivização do eu, que aniquila, acima das outras artes, a literatura enquanto exercício puro dessas liberdades. O hino oitocentista baseou-se na personagem bíblica de Daniel, condenado à cova dos leões por desafiar as ordens iníquas do seu rei, Dario: «Ousa ser um Daniel, / Ousa erguer-te só; / Ousa o teu fito vincar, / Ousa dar-lhe voz.» Orwell acusa: «Para tornar este hino actual, teríamos de iniciar cada verso com a expressão “Não ouses”, já que a nossa época possui como traço peculiar o facto de os rebeldes contra a ordem vigente […] se oporem também à ideia de integridade individual.» (in George Orwell, “A Prevenção da Literatura”, Livros & Cigarros. Lisboa: Antígona, 2010, trad. Paulo Faria, p. 44).
E prossigo com Enrique Vila-Matas quando este regista no seu volúvel caderno do “deve e haver” o regresso insólito de alguém que julgara haver perdido para sempre:

«O amigo que regressou depois de um ano de ausência. Liga cá para casa só para cumprimentar e quase sem ocultar que o faz por puro compromisso. Está mais calculista do que nunca. E eu, seja como for, não faço parte do seu campo de interesses. Creio perceber que não gosta nada de mim. […] Trata-se apenas que me tem um certo afecto, mas não está interessado em mim e é muito possível que, na realidade, eu nunca tenha tido qualquer interesse para ele. Talvez se sinta melhor com gente que o admira, ou talvez melhor com outros, apenas. Não tem importância, digo para comigo. Não vejo por que razão as amizades haveriam de durar mais do que as paixões.»
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, p. 250 [Lisboa: Teorema, Fevereiro de 2010, 287 pp; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Dietario Voluble, 2008].

A descoberta das marcas já profundas de uma amizade falhada que se foi alimentando de bons momentos – que, todavia, serviram para toldar equívocos, faltas de respeito e ataques implacáveis à nossa auto-estima –, tal como o fim abrupto de uma paixão, é susceptível de infundir no nosso espírito a inevitabilidade (como um pesadelo que se repete ab aeterno) de uma longa travessia por campos de destruição surrados e sombrios, que só o será – a dura constatação desse malogro – se não assumirmos uma ruptura definitiva, sem meias medidas e dando por esgotado o crédito de sucessivos pedidos de clemência, como o fogo passional que se extinguiu, cujos agravos o tempo se encarregará de dissolver pelos difusos refúgios da memória. Para isso, para evitar esse sofrimento que não se cala com um mero pedido de explicações, oriento a minha vida para um rotundo, definitivo, interjectivo e irreversível: partir, sempre; regressar, na sua significação de retroceder, calcar os caminhos já trilhados, “nunca mais!
Ah, como era sábio Antonio Machado.
Nota: na imagem acima, reprodução de Daniel na Cova dos Leões, de Peter Paul Rubens (1577-1640), circa 1615, óleo sobre tela.

domingo, 25 de outubro de 2009

A morte de um poeta

A 25 de Dezembro de 1956, Robert Walser foi encontrado morto nos campos que circundavam o sanatório de Herisau, na Suíça. Em 1929, retirou-se voluntariamente do mundo e da literatura como reacção à diagnosticada esquizofrenia e às sequelas que daí adviriam ostentadas num mundo sem compaixão, ou tempo a perder com indulgências, no seu afã de tentar, por caminhos ínvios e erróneos, ser feliz.
Quarenta e nove anos antes, Walser escrevia assim sobre o seu poeta “Sebastian”, o jovem idealista que se afastara de mundo rumo à natureza para compor poemas e de quem o mundo se compadecia, não só pela sua faceta burlesca, mas também pela sua evidenciada melancolia, como uma espécie de “indemnização para a negligência” deste perante tão jovem alma errante ao “propor-lhe tarefas que pudessem satisfazer a sua vontade de acção.” (pp. 53-54).
Palavras proféticas, de um dos mais consagrados “escritores do não”, como diria Vila-Matas (seguir o marcador “Robert Walser” neste blogue):

«Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente. […] Que repouso grandioso este, jazer aqui imóvel debaixo dos ramos de pinheiros, na neve. É o melhor que podias ter feito. As pessoas tendem sempre a magoar excêntricos como tu e a rir-se do sofrimento. Transmite as minhas saudações aos mortos amáveis e silenciosos que estão debaixo da terra e não ardas por muito tempo nas chamas eternas da inexistência.»
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, pp. 86-87.
[Lisboa: Relógio D’Água, Setembro de 2009, 233 pp; tradução de Isabel Castro Silva; obra original: Geschwister Tanner, 1907.]

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nunca mais... regresso

Auto-ilusão com uma ligeira fragrância a megalomania, assumidamente na sua variante narcísica, de índole redentora – e neste caso, como em quase todos, a “redenção” sobreexcede o qualificativo pachequista de “salvífico” na escala do serviço divino.
E a maneira mais fácil de me libertar desta perífrase, ou dos nós que não se desatam na impudica desnudação do eu, subsume-se a uma citação:

«Compreendo-os muito bem; a tua seriedade perturba-os.» (pág. 600 de uma obra com referência final).

Domingo, 6 de Abril – e peço as devidas desculpas pela semelhança com o título de um romance de uma compiladora de caracteres que sempre me conseguiu levar a um estado de perplexidade, para não dizer de aversão, literária, apriorística; a um julgamento sem defesa, talvez advindo da constatação empírica da qualidade dos seus consumidores (chamar-lhes leitores implicaria, no sentido restrito da coisa literária, apodar os seus livros de Literatura e tudo isso seria uma promoção que não pretendo de forma alguma consagrar).
Ora, como dizia, nesse domingo de Abril queria com toda a minha vontade haver encerrado em definitivo, porque me consumia (abra-se a vastidão do campo semântico da palavra), a minha curta actividade na blogosfera – embora os mais de dois anos e meio, com algumas intermitências, possam desmentir o atributo, porém existem aqueles que já por cá andam há cinco ou mais anos, e nem sequer se chateiam…
Nunca mais! E como sói trair-nos a realidade… Estou de volta após 26 dias de ausência, que, a somar aos 70 ulteriores (entre o encerramento do Porque e o nascimento do In Absentia), perfazem o belo número de 96, ou 8 dúzias, ou a parelha oralmente amuada, ou veja-se a estação 48 (a metade) – cf. Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault – pertencente à 5.ª sefira “Gebura” (Força, Julgamento ou Poder) da Árvore da Vida da Cabala, a 2.ª dos sefirot que correspondem aos atributos emocionais da Criação, em que se manifesta a intransigência divina perante o incumprimento da Lei.

Nos primeiros dias deste breve interstício – ainda não assumido como tal, dado o valor absoluto que um nunca mais costuma assumir na minha vida, assaz diferente do galicismo liniano jamais –, houve apenas uma pessoa que, entendendo a razão subjacente à minha decisão, me enviou um e-mail, em manifestação de apelo, para que não desistisse de dar voz às tais inquietações através da escrita, que poderia ser, se a falta de tempo fosse factor determinante, mais espaçada, sem a urgência diarista.
É verdade: uma só pessoa… valeu por todas e esse alguém, que não importa quem e que nem sequer irei revelar a identidade, trata-se apenas de um grande amigo invisível, de “0’s” e “1’s”, que fisicamente se encontra a 300 quilómetros de distância.
Porventura, a situação não pedia tanto… bastava a lembrança do envio de um singelo abraço nas curtas distracções do globo ocular nas suas incontáveis circunvoluções diárias ao próprio umbigo.

Perspicácia no apelo: a primeira epígrafe tudo diz sobre a caminhada na beira do perigoso abismo, pelo triunfo ardentemente pretendido da ascese, o isolamento absoluto referido por Vila-Matas em “A Glória Solitária” (cf. Exploradores do Abismo, Teorema, 2008), tendo por base o fabuloso ensaio de Don DeLillo, “Counterpoint: Three Movies, a Book, and an Old Photograph”, referindo-se a uma certa estirpe de bartlebianismo em Glenn Gould, Thomas Bernhard e a notável versão ficcionada da vida de Gould em O Náufrago (Der Untergeher, 1983), em que DeLillo acaba por estabelecer o paralelismo com o enormíssimo Thelonious Monk (a enigmática referência de Bernhard às Monk Mountains) e o seu tenebroso emudecimento nos últimos seis anos da sua vida.
Depois, Sophia, como sempre e para sempre, como em todos os outros, e como em qualquer dos outros não iniciados, um poema que traduz, pela interpretação eminentemente pessoal que dele faço, o meu estado de espírito no momento. Uma evolução anímica, espiritual que percorre o largo espectro da sua soberba e admirável obra poética – trata-se, não escondo, depois de Camões e Pessoa – incomparáveis pela desmesura que só os próprios nomes encerram –, dos poetas da minha pessoalíssima preferência.

O que isto irá ter de diferente?
Não sei. Por enquanto. Pretendia-o menos turbulento, sem beliscar a incisividade necessária no momento certo em que me der ganas de vociferar, escrevendo, sobre o confronto vivido e real com o impudor, o arrivismo, a sordícia, a mediocridade e, em suma, com a injustiça, como a fonte criadora e simultaneamente o efeito desses pecados, vícios e imperfeições tão lusos.

Termino como comecei, com uma citação de uma já sentida obra-prima que por estes dias irei terminar:

«Hoje em dia parece que quase só há escritores, e poucas pessoas que lêem livros […] quantos livros saem anualmente dos prelos? Se bem me lembro acho que só na Alemanha são cerca de cem por dia. E nascem mais de mil novas revistas todos os anos! Toda a gente escreve, toda a gente se serve de todas as ideias como se fossem suas, quando lhes convém. Ninguém pensa na responsabilidade que devemos ter para com o todo! Desde que a Igreja perdeu a influência que tinha, não há autoridade neste nosso caos. Não há ideias culturais nem uma ideia de cultura. Nestas circunstâncias, é perfeitamente natural que os sentimentos e a moral andem à deriva, sem âncora, e o mais firme dos homens comece a vacilar.»
Robert Musil, O homem sem qualidades, pág. 728. (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2008, vol. I, 843 pp.; tradução de João Barrento; obra original: Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942.)

Regresso agora ao passado: Dia 17 de Dezembro de 2005, escrevia o meu primeiro texto na blogosfera, inventava o Porque e publicava o manifesto que ainda hoje não perdeu validade:

«Porque escrevo»

Para soltar a minha raiva;
Para exorcizar os espíritos ocultos que habitam em mim;
Para libertar a ansiedade que sufoca o meu corpo;
Para exprimir os meus desassossegos, dúvidas e tristezas,
Para os poder transformar em momentos de quietude, de certeza e de alegria:
Humanidade, firmeza e júbilo!
Para os poder difundir e gastá-los à tripa forra,
Para não ter de prestar contas:
A uma douta hierarquia,
Ao Estado,
À pátria,
Ao mundo…
A Deus!
Bastar-me-á um leitor:
Porque escrevo e assim quero resistir!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Uma lenta agonia

Robert Walser, 25 de Dezembro de 1956, perto do Sanatório de Herisau
Ultimamente tenho lido algumas coisas de e sobre Vila-Matas. Acabei há pouco tempo o seu último romance, longo, introspectivo, por vezes aborrecido, algumas vezes hilariante e outras, ainda, com fragmentos potencialmente indutores a alguma meditação ou reflexão sobre a inescapável folha de débitos e de créditos originados pela nossa condição de Homo Socialis – sem entrar em questões metafísicas e terminológicas de psicossociologia.
De Vila-Matas sobressai Walser, de quem o autor espanhol, mediante um estudo aprofundado das suas vida e obra, se confessa um grande admirador não só pela integridade estético-literária, como também pelo seu conhecimento apurado e perspicaz da condição humana, principalmente do papel do divino na cultura europeia que exulta os valores da submissão e da resignação, em detrimento da liberdade individual, que reduzem o indivíduo ao tal “zero à esquerda”, consciência tão presente no pequeno Jakob ou em Joseph Marti (O Ajudante).
Daí advém o conceito de dor nas suas diversas acepções ou planos que se intersectam, contribuindo para a obnubilação do conhecimento da sua real origem. Dificilmente descortinamos o primário que se metastizou pelo espírito em diversos tipos de dor.
A integridade walseriana subsume-se ao estoicismo e ao recolhimento, à assunção da existência como um eterno jogo de causalidade bidireccional que, quando se torna consciente, apenas encontra redenção na solidão auto-infligida, a bela infelicidade.

Mea culpa
Provavelmente, partindo do pressuposto, meramente teórico, da possibilidade de pôr em evidência qualquer dos seus elementos constitutivos, a mais terrível das dores advém de um sentimento de culpa pelo cometimento de uma injustiça; e a pungência dessa dor resulta, muitas vezes, na sua forte capacidade de sanação. Ao contrário da dor da perda, a dor que resulta da consciência da injustiça cometida resolve-se facilmente pelo simples pedido de perdão, sentido, natural, sem compensações, apenas imbuído de um espírito de reparação que nos confira a certeza da extinção de um imaginável ressentimento destruidor de uma amizade desinteressada que rareia nos tempos que correm.

Contrição com destinatário.

terça-feira, 22 de maio de 2007

A Bela Infelicidade

«Talvez se esconda em mim um homem muito, muito vulgar. Ou talvez tenha sangue azul. Não sei. Mas uma coisa sei com certeza: serei no futuro um zero à esquerda, um zero muito redondo e encantador.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 10).

Eis uma possível epígrafe para a obra que recebeu o prémio para Melhor Romance Publicado em Espanha em 2006 e o prémio da Real Academia Espanhola 2006, Doutor Pasavento, o último romance do escritor catalão Enrique Vila-Matas (n. 1948).

«Que eu seja o mais inteligente de todos não é talvez motivo para grande satisfação. De que servem pensamentos e inspirações quando não sabemos que fim lhes dar, como é o meu caso? Pois bem. Não, não, quero tentar ver claramente, mas não me agrada a altivez, não quero nunca, nunca sentir-me superior aos que me rodeiam.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 26).


Eis, então, duas citações de Walser que poderiam, e muito bem, constar das epígrafes, que se distinguem pela ausência, ao último romance de Vila-Matas.
Aliás, esta minha escolha não é de todo casual, o escritor suíço, nascido em 1878 em Biel, (faleceu em 1956 vítima de ataque cardíaco, o corpo jazia sozinho naquela imensidão bucólica coberta de neve, como numa fantasia poética, no dia de Natal de 1956, nos campos que cercavam o sanatório de Herisau – situado no cantão de Appenzell Ausserrhoden – após uma mais do que rotineira deambulação pela Natureza), é o espectro que assombra o romance de princípio a fim, não só pela excelência da curta bibliografia que Walser deixou, mas também pelo recolhimento a que o autor se submeteu durante 23 anos no referido sanatório, deixando em definitivo de publicar.
Desses tempos apenas sobreviveram as conversas que manteve com o seu amigo Carl Seelig nos dias em que este o visitava no sanatório e alguns manuscritos, a que Walser chamou de microgramas, redigidos a lápis – a perecibilidade e a transitoriedade do grafite –, e que, ainda hoje, são objecto de investigação.
De Vila-Matas já conhecíamos o seu fascínio pelos “escritores do não” desde a publicação do seu famoso romance-ensaio Bartleby & Companhia, dando destaque a figuras como Walser, Hölderlin, Salinger ou Pynchon. Desta feita, Vila-Matas aprofunda o tema, trabalha a componente romanesca dos escritores do não e estabelece uma narrativa na primeira pessoa: Andrés, ou Doutor Pasavento, ou Doutor Ingravallo, ou Doutor Pynchon (& Pinchon).
Esta é a história de Andrés, escritor catalão, que a partir de um sonho sobre um estranho desaparecimento da torre do castelo de Montaigne – considerado o pai do ensaio literário –, protagonizado por um imaginário Doutor Pasavento, fisionomicamente parecido com o seu amigo e escritor basco Bernardo Atxaga, parte em busca da verdade, isto é, de uma identidade que parece haver-se perdido num mundo de fama e de êxitos com realidades e linguagens distintas.
Sevilha será o ponto de partida. O sonho envolve Atxaga e a sua reclusão de quatro anos para escrever o romance El hijo del acordeonista (obra de 2004, publicada originalmente em basco em 2003), através do qual o autor basco evoca, em definitivo, o desaparecimento da sua mítica terra imaginária Obaba.
Decorridas duas semanas Andrés é convidado para intervir numa conferência que se irá realizar no Mosteiro da Cartuxa em Sevilha, subordinada ao tema “a fronteira entre a realidade e a ficção” onde estará presente Atxaga. Andrés, perante a gritante vulgaridade do tema, ironiza, dizendo que irá vestido de mordomo.
O sonho materializou-se numa realidade concreta, palpável e assustadora, facto que Andrés assume, com um grau crescente de preocupação, como o momento decisivo, a oportunidade para intentar a, há muito esperada, viragem radical na sua vida. Enquanto discorre sobre o assunto a dissertar na dita conferência, Andrés vê em Atxaga a sua redenção. Então, decidiu que se este último não se dignasse a comparecer ao encontro literário – hipótese que o narrador considerou de ocorrência muito provável –, iria apresentar um ensaio sobre o desaparecimento, recordando as palavras de Maurice Blanchot quando lhe perguntaram para onde caminhava a literatura: «Dirige-se para si mesma, para a sua essência, que é o desaparecimento» (pág. 18).
As páginas que se seguem falam da luta interior do escritor com a sua consciência, da busca do seu eu belo e infeliz, da difícil jornada que necessariamente se terá de iniciar para fugir à solidão do reconhecimento, da fama e da penosa tarefa de gestão das expectativas dos outros perante o autor e a sua obra, para finalmente se chegar à solidão purificadora do anonimato, a bela infelicidade, a escolha de Walser, o acto de nobreza quando este se apercebeu de que ouvia vozes e lhe foi diagnosticada esquizofrenia.
É nesta encruzilhada que se encontra o Doutor Pasavento, confrontado com a desmultiplicação de personalidades ou até com o tema do doppelgänger literário, dos opostos que parecem digladiar-se sobre a ténue linha que separa o abismo – a morte, o desaparecimento – da realidade, que nesta obra assenta, de forma mais visível, na ânsia do autor em saber como o mundo literário vem tratando o seu desaparecimento e, simultaneamente, no desejo irreprimível de cair definitivamente no esquecimento.
Eis como se define Pasavento num bilhete deixado à sua editora francesa no Hotel Suède, situado na inquietante, e crucial para a trama, rue Vaneau em Paris:

«É possível que ninguém, a partir de hoje mesmo, volte a ter notícias minhas. Que ninguém julgue que tenha sido abduzido por alguma alimária de um planeta longínquo. Sou o meu próprio sequestrador. As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e famas neste mundo, não foram feitos para mim. Quero esconder-me de tudo e de todos, não ter de aparecer mais em público, não ter de viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. Quero levar a vida de um Salinger, por exemplo, ou a de um Thomas Pynchon. Ou a de um Miquel Bauçà […]
«Continuarei a escrever, mas, ao contrário de Salinger, Pynchon e Bauçà, não o farei para publicar, porque também vou deixar de publicar. Procurarei voltar a ser aquele jovem que escrevia sem sequer pensar em publicar e que todos deixavam em paz […] E aos que se cruzarem no meu caminho dir-lhes-ei que procuro a verdade. Di-lo-ei como que ausentando-me, como quem se ausenta para saudar a beleza.» (pp. 282-283).

Da misteriosa rue Vaneau – onde se situam marcos históricos importantes, como a última casa de André Gide, uma das casas onde residiu Karl Marx, local onde por exemplo ficou a conhecer Friedrich Engels, uma mansão onde chegou a residir Antoine de Saint-Exupéry, o escritor-aviador desaparecido em combate, a embaixada da Síria, uma farmácia como destaque turístico na internet e outras coincidências que se descobrirão mais tarde –, passando por Nápoles, Basileia, Zurique, o sanatório de Herisau na Suíça e o estanho país de Lokunowo, e através de nomes – para além de Walser, Salinger e Pynchon – como Kafka, Sebald, Montaigne, Chateaubriand, Hölderlin, Agatha Christie, Joyce, Musil, DeLillo, Gide e até Lobo Antunes, vai-se construindo Doutor Pasavento.
O último trabalho de Enrique Vila-Matas, sem ser um excelente romance, é certamente virtuoso e, acima de tudo, uma obra de difícil concepção; porém não é, ao contrário do que se diz pelo mundo da crítica, o melhor que o literato catalão escreveu até aos dias de hoje. Reconhecidamente, a obra dispõe de momentos de puro brilhantismo e de mestria no domínio da técnica literária – como é apanágio de Vila-Matas –, contudo existem outros de um entediante e exasperante solilóquio, perdendo-se o fio condutor no manancial de citações que se confundem com as ideias do próprio autor… ou melhor, do Doutor Pasavento – ou será Pynchon? –, apesar de considerar que parte dessa revelada fragilidade, a de estabelecer uma teoria com um recurso excessivo a fontes secundárias, é puramente intencional, cumprindo, assim, um dos objectivos principais ao conceder o tom ensaístico pretendido para a obra.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Janeiro de 2007, 405 pp. (tradução de Jorge Fallorca; obra original: Doctor Pasavento, 2005).


E a terminar, para de uma mancheia de frases se poder construir uma exegese à laia de posfácio moralista:

«os êxitos têm apenas por companhia inseperável a confusão e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma autocomplacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da consideração de terceiros.»
Robert Walser, Jakob von Gunten [esse pequeno sábio] (Relógio D’Água, 2005, pp. 81-82).

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Hexágono

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercado de parapeitos baixíssimos.»

Corro de plano em plano e ainda nem sequer saí do primeiro hexágono. «Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e uma circunferência é inacessível.»
A volúpia das palavras que sofregamente vou tragando avoluma o meu inextinguível desassossego por aquelas que não li, são como açúcar para hiperglicemia, a traição para a inveja, não são uma inutilidade, porque não são neutras; massacram, extenuam, adejam por sobre as nossas cabeças em movimentos lúbricos, exibindo-nos a certeza de que sempre existirão em combinações de 25 sinais ortográficos que se repetem em livros de 410 páginas que se diferenciam entre si pela mudança de apenas uma delas, e voltamos ao primeiro axioma de Borges que a "Biblioteca existe ab aeterno" e seríamos perfeitamente estúpidos se nela vislumbrássemos um fim.
Porventura foi esse sentimento de imortalidade que se renova a cada palavra escrita que me tornaram bibliómano sem remição; o meu longínquo momento de fuga pela Tua ausência, o desvio para a paralela superior e a esperança não-euclidiana de nos encontrarmos, segundo Poncelet, no tal ponto no infinito – aquele que a perspectiva une na eternidade duas paralelas. E sei, por Pascal, que com esse hexágono gravado nessa circunferência divina e etérea consigo encontrar três pontos de intersecção, formados a partir da projecção de três pares de rectas dos lados opostos do hexágono, que são colineares... deles extraio o caminho que me leva a esse além-mundo inescrutável.
Agora pensa nas rectas que se formam a partir desses hexágonos de nível superior, na infinidade de caminhos que se cruzam e me distraem de um objectivo que o tempo tornou difuso. Em suma, o esforço inumano que qualifica esta fuga, que me desvia daquilo que os outros assentiram ser a minha vocação, o tal fundamento para uma condenação in absentia.
E sigo ainda com Borges, através de Vila-Matas, Doutor Pasavento, que vou tragando com a tal, a inaudita, sofreguidão:

«Ignoro se a música sabe desesperar da música e se o mármore do mármore, mas a literatura é uma arte que sabe profetizar aquele tempo em que terá emudecido, e encarniçar-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar o seu fim.»

Falta-me tempo…
Trinta e três obras foram seleccionadas por Jorge Luis Borges para integrarem A Biblioteca de Babel, uma selecção de textos de literatura fantástica, originalmente propostos ao autor argentino pelo editor italiano Franco Maria Ricci e prefaciados por Borges – ler aqui a história. Como é sabido, a Editorial Presença teve a feliz ideia de editar esta colecção no nosso país, que começou a ser publicada desde o início de 2007.
Se apenas escrevo no aqui e agora uma nota sobre esta empreitada, tal ficou a dever-se a alguma preguiça de escritor blogueiro, cujo momento escolhido, o agora, resultou da eminência do autor do 4.º livro publicado da série referida. Trata-se da obra Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896 [originalmente publicado como The Way It Came]) escrita por O Mestre, Henry James, pela primeira vez traduzida para a língua de Camões.
Os livros já publicados para além deste último (por ordem cronológica de publicação):

  • Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  • Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  • Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906).

Para além das 4 obras já publicadas, que representam, respectivamente, 4 línguas diferentes – alemão, espanhol, italiano e inglês – e de mais 4 obras de Borges – uma delas em co-autoria com Bioy Casares –, fazem parte desta biblioteca – que será publicada na íntegra pela Editorial Presença – nomes como Melville (com o seu Bartleby), Kafka (O Abutre), Wilde, Poe, Hawthorne, Voltaire, Chesterton, H.G. Wells, R.L. Stevenson, J. London e R. Kipling.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Bartleby

É caso para dizer que o assédio continua. Evoco de novo o Sérgio Lavos e o seu Auto-Retrato, agora a propósito da sua excelente sucessão de textos sobre os Bartlebys deste mundo.
Este texto do Sérgio recorda um episódio ficcionado de Enrique Vila-Matas numa deambulação por Nova Iorque. Vila-Matas encontra Jerome David, ou melhor, J.D. Salinger num autocarro, mas, simultaneamente, julga ver ao seu lado o amor da sua vida. Uma rapariga que despertou no autor uma paixão assolapada e a forte convicção do tal raríssimo encontro com a alma gémea. Eis o dilema: as mulheres ou a Literatura?
Salinger, é o epítome do Síndrome de Bartleby – o escrivão do conto de Herman Melville, ao que dizem inspirado em R. W. Emerson. E mais não direi, o enlace vem na nota de rodapé n.º 31 ao texto invisível de Bartleby e Companhia de Enrique Vila-Matas: – Não te preocupes. Por amor de Deus, não te preocupes. (que repetitivo!)

Mas o mais fascinante na Bartlebylândia é imperfeição revelada em alguns dos seus habitantes menos ortodoxos. Por exemplo, Salinger é um Bartleby ortodoxo, deixou de escrever e acabou-se (a propósito: tem algum conto guardado na sua gaveta?) Com 88 anos, e há 42 sem publicar, dêem-lhe o Prémio Nobel da Literatura… do Não!
Thomas Pynchon é um caso à parte. Ninguém o vê, fotografa ou filma há décadas e Pynchon continua a publicar. É o caso de um Bartleby errático ou, se se preferir, heterodoxo em termos batlebyanísticos. Todavia, não foi Pynchon que me trouxe aqui.
Um feliz exemplo, de igual modo apontado por Vila-Matas, é o do escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) que, para além do abandono precoce da carreira de pianista, se embrenhou nas artes literárias através da narrativa curta, cujos contos eram famosos por simplesmente não terminarem, ou melhor dito, possuírem finais incompletos. O paradigma do conto incompleto é o seu famoso texto “Ninguém acendia as luzes”, que, por muito paradoxal que possa parecer, Vila-Matas considera dispor de um final inesquecível, o qual não revelarei, porque:

A ler (em castelhano): «Nadie encendía las lámparas».