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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Literatura: Os Melhores de 2008

Das três listas de preferências que costumo divulgar no final do ano, esta é aquela cuja novidade, a sê-lo, reside apenas na ordem a dar aos livros editados em Portugal durante o ano de 2008.
Com efeito, desde que iniciei as lides blogueiras em Dezembro de 2005, é meu hábito manter em permanente actualização a listagem de livros que vou lendo, classificando-os em cinco categorias – do “Mau” ao “Muito Bom” –, reservando uma sexta – “Obra-Prima” – para aqueles cuja excepcionalidade literária obriga, desde logo, a uma distinção relativamente aos demais – o pior, é que esta última, dada a profusão de obras nela inseridas a cada ano, tem vindo a perder o peso da excepcionalidade.
Como referi, a novidade desta lista resulta apenas da singularização das obras, organizadas numa lista de preferências – prática que encetei, com alguma reserva mental, no ano passado, se bem que em 2006 houvesse destacado a melhor obra entre as melhores seleccionadas.
Só para recordar, deixo aqui ficar a lista dos vencedores dos últimos anos (como referi, explicitamente escolhido a partir de 2006, assumido por mim no ano de 2005):


  • 2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis, Gradiva (Never Let Me Go, 2005);
  • 2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação, Assírio & Alvim (Priglasheniye na kazn, 1936);
  • 2007 – Colm Tóibín, O Mestre, Dom Quixote (The Master, 2004) e, ex aequo*, Jonathan Littell, As Benevolentes, Dom Quixote (Les Bienveillantes, 2006).

    Nota: *decisão de igualização tomada no decurso do ano, depois de assentada a poeira, consolidou-se a certeza de se tratar de uma obra que perdurará como notável referência nas próximas décadas.

Este ano foram lidos e avaliados 48 livros editados em 2008 (50 em 2007), predominantemente de ficção, havendo-se revelado a avaliação de 46 (48 em 2007) e, entre esses, apenas 8 (contra a boa produção de notas de apreciação em 2007, 34) foram objecto de textos individuais de análise oportunamente publicados. Quanto à sua divisão pelas 6 grandes categorias qualitativas (ou 5+1) – de mau (1 estrela) a Obra-Prima (6 estrelas) –, foram classificados, para além das 2 obras não referidas, 2 livros como “Mau”, 2 como “Medíocre”, 8 com o designativo “A ler”, 13 como “Bom”, 16 como “Muito Bom” e, finalmente, 5 como “Obra-prima”.

Lista final (que podia ser uma repetição do palavreado usado no ano anterior dada a coincidência numérica):
Dos 21 livros que atingiram a classificação máxima “Muito Bom” (5 estrelas), houve cinco que se destacaram pela qualidade excepcional, daí haver-se adoptado o critério de desdobramento do nível máximo em dois patamares de avaliação, correspondendo o mais elevado à tal distinção pela excepcionalidade, apondo-se o natural epíteto de “obra-prima” (6 estrelas).
Assim, de acordo com o meu critério estético-literário, um conjunto de cinco obras publicadas (2 novidades e 3 reedições) destacou-se das restantes 16. As cinco figurarão por ordem de preferência nos cinco primeiros lugares da lista composta pelos dez melhores livros editados em 2008.

Eis, finalmente, a lista definitiva de Os Dez Melhores Livros de 2008 (por ordem de preferência):

  1. Robert Musil, O homem sem qualidades, vols. I e II, Dom Quixote (Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942);
  2. José Donoso, Casa de Campo, Cavalo de Ferro (Casa de Campo, 1978);
  3. Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Cavalo de Ferro (Rayuela, 1963);
  4. Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio & Alvim (2008);
  5. Gustave Flaubert, A Educação Sentimental, Relógio D'Água (L’Éducation sentimentale, histoire d’un jeune homme, 1868);
  6. Per Petterson, Cavalos Roubados, Casa das Letras (Ut og stjæle hester, 2003);
  7. Virginia Woolf, Rumo ao Farol, Relógio D'Água (To the Lighthouse, 1927);
  8. Maria Velho da Costa , Myra, Assírio & Alvim (2008);
  9. Knut Hamsun, Fome, Cavalo de Ferro (Sult, 1890);
  10. George Steiner, Os livros que não escrevi, Gradiva (My Unwritten Books, 2008).

Restantes 11 livros com classificação máxima (por ordem alfabética do autor), separados em dois grupos. O primeiro grupo integra as obras que potencialmente poderiam ter sido introduzidas, por substituição, na lista dos “Dez Melhores”:

1.º grupo

  • A. S. Byatt, Possessão, Sextante (Possession, 1990);
  • John Updike, Regressa, Coelho, Civilização (Rabbit Redux, 1971);
  • Mikhail Bulgakov, Coração de Cão, Nova Vega (Sobac’e Serdce, 1925);
  • Philip Roth, Património, Dom Quixote (Patrimony: A True Story, 1991);
  • Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento, Civilização (De Niro's Game, 2006).

2.º grupo

  • Albert Sánchez Piñol, Pandora no Congo, Teorema (Pandora al Congo, 2003);
  • João Tordo, As Três Vidas, QuidNovi (2008);
  • Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, Ulisseia (D’un château l'autre, 1957);
  • Mikhail Lérmontov, O Herói do Nosso Tempo, Relógio D'Água (Guerói náchevo vrémeni, 1840);
  • Paul Auster, Mr. Vertigo, Asa (Mr. Vertigo, 1994);
  • Robert Musil, A portuguesa e outras novelas, Dom Quixote (Zwei Erzählungen / Drei Frauen, 1911/1924).

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E assim começa, com uma espécie de introdução que se estende por 19 capítulos, a odisseia de Ulrich pelos meandros e teias da aristocracia do Império Austro-húngaro.
Uma descrição astronómico-meteorológica1. Um caso do qual, curiosamente nada resulta:

«Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual, com as dos meses mais frio e mais quente e com a oscilação mensal aperiódica. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, as fases desta última, de Vénus, dos anéis de Saturno e muitos outros fenómenos significativos correspondiam às previsões dos anuários da astronomia. O vapor de água no ar tinha atingido a sua tensão máxima e a humidade relativa era fraca. Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913.»
Robert Musil, O homem sem qualidades, p. 31
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2008, vol. I, 843 pp.; tradução de João Barrento; obra original: Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942.]

domingo, 12 de outubro de 2008

Salto no escuro

«Às vezes dá-se o caso de não se conhecer aquilo que obscuramente se deseja, mas sabe-se que se vai falhar o alvo; e então, deixa-se a vida escoar-se como num quarto trancado onde impera o medo.»
Robert Musil, “A tentação de Verónica, a serena”, in op. cit., pág. 198.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rumo

«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.

[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]

O abrandamento é o próprio prenúncio, seja ele imposto ou auto-induzido, de que o azar virá, travestido de mudança, ataviado de promessas, mesmo que exista a sensação de continuidade do rumo, obstinada e integramente, traçado num passado mais ou menos recente.
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.

Caeteris paribus: a melancolia é uma variante do egoísmo que se desenvolve até ao estádio máximo da ruína ou da destruição, caminha por fim como uma alma penada de eremitério em eremitério, cristalizada no tempo; a infelicidade, ao invés, é a própria ruína, procura rapidamente um acto de altruísmo, sem qualquer tipo de dissimulação, para que o tempo apague os despojos dessa destruição.

É fácil ser-se feliz na melancolia, mas é um contra-senso ser-se melancólico na infelicidade.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nunca mais... regresso

Auto-ilusão com uma ligeira fragrância a megalomania, assumidamente na sua variante narcísica, de índole redentora – e neste caso, como em quase todos, a “redenção” sobreexcede o qualificativo pachequista de “salvífico” na escala do serviço divino.
E a maneira mais fácil de me libertar desta perífrase, ou dos nós que não se desatam na impudica desnudação do eu, subsume-se a uma citação:

«Compreendo-os muito bem; a tua seriedade perturba-os.» (pág. 600 de uma obra com referência final).

Domingo, 6 de Abril – e peço as devidas desculpas pela semelhança com o título de um romance de uma compiladora de caracteres que sempre me conseguiu levar a um estado de perplexidade, para não dizer de aversão, literária, apriorística; a um julgamento sem defesa, talvez advindo da constatação empírica da qualidade dos seus consumidores (chamar-lhes leitores implicaria, no sentido restrito da coisa literária, apodar os seus livros de Literatura e tudo isso seria uma promoção que não pretendo de forma alguma consagrar).
Ora, como dizia, nesse domingo de Abril queria com toda a minha vontade haver encerrado em definitivo, porque me consumia (abra-se a vastidão do campo semântico da palavra), a minha curta actividade na blogosfera – embora os mais de dois anos e meio, com algumas intermitências, possam desmentir o atributo, porém existem aqueles que já por cá andam há cinco ou mais anos, e nem sequer se chateiam…
Nunca mais! E como sói trair-nos a realidade… Estou de volta após 26 dias de ausência, que, a somar aos 70 ulteriores (entre o encerramento do Porque e o nascimento do In Absentia), perfazem o belo número de 96, ou 8 dúzias, ou a parelha oralmente amuada, ou veja-se a estação 48 (a metade) – cf. Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault – pertencente à 5.ª sefira “Gebura” (Força, Julgamento ou Poder) da Árvore da Vida da Cabala, a 2.ª dos sefirot que correspondem aos atributos emocionais da Criação, em que se manifesta a intransigência divina perante o incumprimento da Lei.

Nos primeiros dias deste breve interstício – ainda não assumido como tal, dado o valor absoluto que um nunca mais costuma assumir na minha vida, assaz diferente do galicismo liniano jamais –, houve apenas uma pessoa que, entendendo a razão subjacente à minha decisão, me enviou um e-mail, em manifestação de apelo, para que não desistisse de dar voz às tais inquietações através da escrita, que poderia ser, se a falta de tempo fosse factor determinante, mais espaçada, sem a urgência diarista.
É verdade: uma só pessoa… valeu por todas e esse alguém, que não importa quem e que nem sequer irei revelar a identidade, trata-se apenas de um grande amigo invisível, de “0’s” e “1’s”, que fisicamente se encontra a 300 quilómetros de distância.
Porventura, a situação não pedia tanto… bastava a lembrança do envio de um singelo abraço nas curtas distracções do globo ocular nas suas incontáveis circunvoluções diárias ao próprio umbigo.

Perspicácia no apelo: a primeira epígrafe tudo diz sobre a caminhada na beira do perigoso abismo, pelo triunfo ardentemente pretendido da ascese, o isolamento absoluto referido por Vila-Matas em “A Glória Solitária” (cf. Exploradores do Abismo, Teorema, 2008), tendo por base o fabuloso ensaio de Don DeLillo, “Counterpoint: Three Movies, a Book, and an Old Photograph”, referindo-se a uma certa estirpe de bartlebianismo em Glenn Gould, Thomas Bernhard e a notável versão ficcionada da vida de Gould em O Náufrago (Der Untergeher, 1983), em que DeLillo acaba por estabelecer o paralelismo com o enormíssimo Thelonious Monk (a enigmática referência de Bernhard às Monk Mountains) e o seu tenebroso emudecimento nos últimos seis anos da sua vida.
Depois, Sophia, como sempre e para sempre, como em todos os outros, e como em qualquer dos outros não iniciados, um poema que traduz, pela interpretação eminentemente pessoal que dele faço, o meu estado de espírito no momento. Uma evolução anímica, espiritual que percorre o largo espectro da sua soberba e admirável obra poética – trata-se, não escondo, depois de Camões e Pessoa – incomparáveis pela desmesura que só os próprios nomes encerram –, dos poetas da minha pessoalíssima preferência.

O que isto irá ter de diferente?
Não sei. Por enquanto. Pretendia-o menos turbulento, sem beliscar a incisividade necessária no momento certo em que me der ganas de vociferar, escrevendo, sobre o confronto vivido e real com o impudor, o arrivismo, a sordícia, a mediocridade e, em suma, com a injustiça, como a fonte criadora e simultaneamente o efeito desses pecados, vícios e imperfeições tão lusos.

Termino como comecei, com uma citação de uma já sentida obra-prima que por estes dias irei terminar:

«Hoje em dia parece que quase só há escritores, e poucas pessoas que lêem livros […] quantos livros saem anualmente dos prelos? Se bem me lembro acho que só na Alemanha são cerca de cem por dia. E nascem mais de mil novas revistas todos os anos! Toda a gente escreve, toda a gente se serve de todas as ideias como se fossem suas, quando lhes convém. Ninguém pensa na responsabilidade que devemos ter para com o todo! Desde que a Igreja perdeu a influência que tinha, não há autoridade neste nosso caos. Não há ideias culturais nem uma ideia de cultura. Nestas circunstâncias, é perfeitamente natural que os sentimentos e a moral andem à deriva, sem âncora, e o mais firme dos homens comece a vacilar.»
Robert Musil, O homem sem qualidades, pág. 728. (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2008, vol. I, 843 pp.; tradução de João Barrento; obra original: Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942.)

Regresso agora ao passado: Dia 17 de Dezembro de 2005, escrevia o meu primeiro texto na blogosfera, inventava o Porque e publicava o manifesto que ainda hoje não perdeu validade:

«Porque escrevo»

Para soltar a minha raiva;
Para exorcizar os espíritos ocultos que habitam em mim;
Para libertar a ansiedade que sufoca o meu corpo;
Para exprimir os meus desassossegos, dúvidas e tristezas,
Para os poder transformar em momentos de quietude, de certeza e de alegria:
Humanidade, firmeza e júbilo!
Para os poder difundir e gastá-los à tripa forra,
Para não ter de prestar contas:
A uma douta hierarquia,
Ao Estado,
À pátria,
Ao mundo…
A Deus!
Bastar-me-á um leitor:
Porque escrevo e assim quero resistir!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

3,... [com novidades literárias]

III

Ele jamais havia pegado num cão e tinha medo de que ele escorregasse, assim embalou-o nos seus braços. Ele sentia-o quente na sua pele e muito mole, e de uma forma arrepiante, um pouco nojento. Tinha olhos cinzentos como pequenos botões. Chateava-o que a Enciclopédia não tivesse imagem alguma desta raça de cão. Um bulldog a sério seria uma raça violenta e perigosa, mas estes eram apenas cães castanhos. Ele sentou-se no braço da cadeira verde estofada com o cachorrinho no seu colo, sem saber o que fazer a seguir. Entretanto, a mulher chegara-se a ele e parecera-lhe que ela lhe fizera uma festa no cabelo, ele não tinha bem a certeza, porque o seu próprio cabelo era bastante espesso. Quanto mais o tempo passava mais certezas ia ganhado sobre o que fazer. A seguir, ela perguntou-lhe se ele queria beber água, que ele aceitou, ela dirigiu-se à torneira e abriu-a, dando-lhe a oportunidade de voltar a pôr o cão na caixa. Ela regressou com o copo de água e à medida que ele o agarrava ela deixou que o fino vestido se abrisse, exibindo os seus seios, como se fossem dois balões meio cheios, dizendo que não acreditava que ele apenas pudesse ter treze anos. Ele bebeu a água de um só trago e tentou devolver-lhe o copo, e de repente ela amarra-lhe a cabeça e beija-o. Em todo este tempo, por alguma razão, ele nunca foi capaz de lhe olhar para a cara, e quando o tentou fazer naquele momento só conseguia vislumbrar uma massa disforme e cabelo. Ela atirou-se a ele e de repente ele sente um arrepio na barriga das pernas. O arrepio intensificou-se, até quase lhe parecer que havia tocado no aro metálico de um casquilho ligado à corrente enquanto se substitui uma lâmpada fundida. Ele nunca seria capaz de se lembrar que se deitou no tapete – sentiu que uma torrente de água se esmagava no topo da sua cabeça. Recordou-se de ter entrado no seu calor e que a sua cabeça não parava de bater na perna do seu sofá. Ele estava perto de Church Avenue, onde teria de mudar para a linha de superfície do Culver, antes de se dar conta que ela não tinha ficado com os seus três dólares, ou de sequer ter chegado a um acordo para esse efeito, mas ele tinha no seu colo uma pequena caixa de cartão com um cachorrinho no seu interior ganindo em surdina. O arranhar das unhas no cartão arrepiavam-no. A mulher, agora lembrava-se, fez dois buracos no topo da caixa e o cachorrinho não parava de enfiar neles o seu nariz.

A mãe dele deu um salto quando ele desatou a corda e o cachorrinho se levantou e se espalhou no chão, dando latidos. “O que é que ele está a fazer?” gritou, com as mãos no ar como se estivesse prestes a ser atacada. Nesta altura, ele já havia perdido o medo do cão e segurou-o nos braços, deixando que lhe lambesse a cara, vendo isto a mãe acalmou-se um pouco. “Terá fome?” perguntou ela, e permaneceu com a boca ligeiramente aberta, pronta para alguma coisa, enquanto ele punha de novo o cão no chão. Ele disse que sim, que talvez ele tivesse fome, mas pensou que ele apenas pudesse comer coisas moles, apesar de os seus pequenos dentes já serem tão aguçados como alfinetes. Ela tirou uma pasta cremosa de queijo para barrar e colocou um pequeno pedaço no chão, mas o cão farejou-o e fez chichi. “Deus do Céu!” gritou ela, e rapidamente pegou num bocado de jornal para absorver a mancha de urina. Quando ela se agachou daquela forma, ele lembrou-se, ao mesmo tempo que abanava a cabeça, do calor da mulher e ficou envergonhado. De repente o nome dela veio-lhe à memória – Lucille – ela havia-o mencionado quando ambos já se encontravam no chão. No preciso momento em que a penetrava, ela abriu os olhos e disse, “Chamo-me Lucille.” A mãe dele trouxe numa taça esparguete que havia sobrado do jantar de ontem e colocou-a no chão. O cachorrinho levantou a sua patinha e entornou a taça, espalhando um pouco de sopa de galinha que havia no fundo. Lambeu-a avidamente do linóleo. “Ele gosta de caldo de galinha!” gritou alegremente a mãe, e num instante decidiu que ele haveria de gostar de ovo e então pôs água a ferver. De algum modo o cão soube que era a ela quem deveria seguir e caminhou atrás dela, para a frente e para trás, do forno ao frigorífico. “Ele segue-me!” disse a mãe, rindo de contentamento.

No dia seguinte, enquanto regressava a casa vindo da escola, parou numa drogaria e comprou uma coleira para cachorros por setenta e cinco cêntimos, e Mr. Schweckert ofereceu-lhe um pedaço de corda de estendal para servir de trela. Todas as noites quando adormecia, vinha-lhe à mente Lucille, como algo saído de um caixa de tesouros secreta e interrogava-se se poderia atrever a telefonar-lhe e talvez encontrar-se de novo com ela. O cachorrinho, a que ele chamara Rover, de dia para dia parecia crescer a olhos vistos, embora continuasse a não ostentar qualquer sinal de que se tratasse de facto de um bulldog. O pai do rapaz era da opinião que o Rover deveria permanecer na cave, contudo, lá em baixo o local era muito solitário e ele não pararia de ganir. “Ele sente a falta da mãe dele,” disse-lhe a mãe; assim todas as noites o rapaz começava por o colocar na cave dentro de um antigo cesto de roupa com uns trapos, e quando latisse o suficiente o rapaz estava autorizado a trazê-lo para cima e a deixá-lo dormir na cozinha aconchegado nesses mesmos trapos, todos ficavam agradecidos pelo sossego. A mãe dele tentou passeá-lo pela rua calma onde viviam, mas o cão teimava em emaranhar a corda nos tornozelos da mãe, e pelo medo que esta tinha de o magoar, ficava exausta só de o seguir em todos aqueles ziguezagues. Não acontecia sempre, mas muitas vezes quando o rapaz olhava para Rover pensava em Lucille e quase que começava a sentir aquele calor de novo. Ele sentava-se nos degraus do alpendre afagando o cão a pensar nela, no interior das suas coxas. Contudo, ele continuava a não conseguir divisar a sua cara, apenas os seus longos cabelos pretos e o pescoço robusto.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. III: 4824 caracteres)

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Novidades (literatura):
  • A revista Ler já mexe. O Francisco deu início ao blogue de suporte à revista, supostamente de periodicidade mensal.
  • 7 de Abril – saem para o mercado, com mais de dois anos de atraso (responsabilidade da editora) e numa data muito próxima à comemoração dos 66 anos da morte do autor na Suíça em 15 de Abril de 1942, os dois primeiros volumes de O Homem Sem Qualidades do notável autor austríaco Robert Musil (1880-1942) editados pela Dom Quixote, com a tradução de um dos mais ilustres germanófilos portugueses, o tradutor, ensaísta e crítico literário João Barrento. [apenas uma chamada de atenção para o último Câmara Clara (16 de Março) de Paula Moura Pinheiro, que juntou na mesma mesa Barrento e Pedro Tamen. Foi um programa riquíssimo para quem anda sedento de ouvir falar de literatura a sério na televisão.]

sábado, 15 de setembro de 2007

Regresso antecipado… com novidades


Antecipado em dois dias o regresso em definitivo à minha mesa de trabalho, perfilam-se desde logo as novidades editoriais em Portugal no campo da literatura da, usualmente fértil, temporada outonal.
Eis duas das mais importantes novidades para quem gosta de literatura anglo-saxónica contemporânea, e ambas com a chancela das
Edições Asa:

  • Paul Auster com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007; publicado há 235 dias nos Estados Unidos e há 345 dias no Reino Unido – contador R.E.P.);
  • Julian Barnes com Arthur & George (Arthur and George, 2005; finalista do Booker Prize em 2005 e do International IMPAC Dublin Literary Award em 2007; publicado há 800 dias no Reino Unido – contador R.E.P.)

Para breve, nas Publicações Dom Quixote, Zadie Smith com On Beauty, Jonathan Littell com Les Bienveillantes e o retomar da publicação das Obras Completas de Robert Musil, traduzidas por João Barrento, depois de As Perturbações do Pupilo Törless, surge A Portuguesa e outras Novelas, seguindo-se a obra-prima O Homem sem Qualidades, em três volumes.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Uma editora a desperdiçar qualidades

Robert MusilEm Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).

Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.

Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.

(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)

É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.

De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?