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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

10,2%


«7,1% de desempregados. 7,1%... é a maior taxa de desemprego desde que começou esta série cronológica das medições do desemprego em Portugal. Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida.»
José Sócrates, num comício socialista em 2005, dias antes da tragédia nacional de 20 de Fevereiro.

Pois é, senhor engenheiro dominical. Foi por isso que em 2005 deixei de ser um crente sem mácula. Votei com toda a convicção num partido de esquerda, cuja propaganda – ainda sem a marca goebbelsiana do argumentum ad nauseam que iria caracterizar um governo com poder absoluto, porém à deriva, durante os quatro anos que se seguiram – fez resvalar a ponta da esferográfica – talvez uma similar àquela que o senhor usou na tomada de posse deste seu XVIII – para o partido que desistiu da rosa e manteve o punho cerrado da arrogância, a ostentação coelhiana da virulência de quem convosco se mete.
Quo vadis?

Nota: regresso a estas lides após quase um mês de ausência forçada por compromissos e alguma falta de vontade de teorizar para meia dúzia (e estou a ser optimista) de pessoas que me visitam. Os e-mails irão sendo respondidos à medida que forem surgindo oportunidades para uma resposta minimamente assisada – que nada tem que ver com o novo líder franciscano dos que se autodecapitam.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sai um Pinholino, mas com mais Lino, por favor

Talvez tenha passado despercebido, até pela incomensuravelmente alta propensão marginal para a asnidade do (tomara) pretérito Ministro das Obras Públicas, de seu nome Mário Lino.
Lino foi um inspirador para os filólogos no enriquecimento da língua, graças às suas desembestadas profissões de fé que o próprio, de imediato, tentava colocar em prática no seu estilo picaresco, à verbosidade e à assincronia profunda entre pensamentos, palavras – que oprimiam os primeiros até ao grau mínimo –, e acções – felizmente, travadas a tempo, pelo próprio quando chamado à razão mínima, ou por interferência de outros contando-lhe uma anedota derrogatória. Com ele ganhou o português, não o cidadão, desiludam-se, mas a língua falada por centenas de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo ao introduzir-se o nome “linismo” e todos a morfologia conexa.
Aliás, a acção concertada entre o referido ministro e o seu companheiro de Governo com a pasta da Economia criou o famoso mutante, de proporções quase bíblicas – acredita-se mesmo que o esqueleto de Mary Shelley finalmente se pulverizou na tumba, tantas foram a contorções orbiculares de inveja pela pequenez espiritual do seu Frankenstein –, mais conhecido por Pinholino, cujos efeitos em forma de mito sobre a população são, por ora, desconhecidos: Irá ser um monstro bonacheirão, a quem se alude para uma boa piada social? Ou um terrível e assustador mostrengo que assombrará as mentes mais vulneráveis, especialmente as de crianças de tenra idade, a razão de ser das noites negras e tempestuosas a cada passo rasgadas por um clarão fantasmagórico, seguido de um trovão arrasador?
Não sabemos. O tempo encarregar-se-á de o demonstrar.
“Come a sopa toda senão eu chamo o Pinholino.” “Não entres tão depressa nessa noite escura (versão de omnipresença megalómana ou de ALA) que o Pinholino vai-te papar.” “Fumar pinholiniza.” “30 condutores detidos numa operação stop realizada sexta-feira passada na A-28, conduziam sob vestígios do efeito de pinholinol.” E por aí fora.
Mas o que me trouxe a estas linhas – não férreas, porque dessas o Lino encarregou-se, com um afinco inusitado, de as desalinhar de vez, neste pobre pais centralista – foi o esmiuçamento de sexta-feira passada sobre – e porque não, como fazem os Gato a si mesmos, epitetar o ministro, ainda que, a adjectivar, jamé com variações vocabulares de engrandecimento, senão com um qualificativo que revele uma certa irreflexão comportamental – o truão acidental Lino. A dada altura, RAP confronta-o com os mimos que António Costa deu de regalo ao desafortunado ministro, quando aquele passou a gerir os destinos do município lisboeta. Numa alegoria, talvez pinholínica, de “panos e nódoas”, Lino diz:
«Aliás, foi um grande político contemporâneo português, o engenheiro José Sócrates que… e parafraseando uma frase dele, que está para nascer o Ministro das Obras Públicas que tenha feito mais pelo concelho de Lisboa do que eu – quem diz por Lisboa, posso dizer o mesmo pelo Porto e pelos muitos outros no país…»
Claro, claro, eu bem sei o que fizeste pelo resto do país, vivendo eu na sub-região à volta do umbigo alfacinha.
Vai daí e desfia, sem qualquer tipo de pudor, o rosário das benesses centralistas:
«(…)acabámos a CRIL, o eixo Norte/Sul, o túnel do Rossio, o túnel do Mmm… [aqui ia-se apropriando de obra alheia] do Terreiro do Paço, o Cais das Colunas, o Metro entre o Chiado e Santa Apolónia, passámos para a gestão da Câmara Municipal as áreas das zonas portuárias que não tinha utilização portuária… enfim, milhentas coisas que foram feitas.»
Quantos milhões dos nossos impostos, de A Região e da sub-região? Dá vontade de procurar os custos com derrapagens abissais perante o orçamentado, fazer a soma e mostrar em letra gorda ao país todo. E ainda falta somar o que aí vem: a 3.ª travessia sobre o Tejo; o TGV Lisboa/Madrid para meia dúzia de felizardos que se podem dar ao luxo de perder um dia de viagem para a Capital espanhola e pagar um quantia avultada de bilhete, enquanto se vão multiplicando as companhias de aviação low-cost; o aeroporto de Alcochete; e não sei quantas mais linhas de metro.
E termina (como começou) com um auto-elogio, embora o primeiro tenha pretendido ser uma ironia:
«Fui um grande… e, enfim, esmerei-me e… e dei tudo o que pude para contribuir para a sua vitória – foi muito boa – acho que Lisboa tem hoje um grande Presidente da Câmara, e estou convicto que ele vai ser… vai fazer um excelente mandato durante os próximos quatro anos.»

Pobre Elisa. Pobre Apolinário. E todos os outros candidatos a autarca do partido da rosa.

Nota: entre aspas francesas figura a transcrição textual (melhor, de ouvido) de parte da entrevista dada por Mário Lino a Ricardo Araújo Pereira no passado dia 16, no programa Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios, da SIC. Por qualquer erro sintáctico ou gramatical, o Ministério das Obras Públicas pede perdão, compensando com a construção de uma rotunda em sítio a combinar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Manipulação


Houve uma vez um destacado director de informação de uma estação de televisão privada que disse, suponho tratar-se de esse cargo, que se quisesse venderia ao país um primeiro-ministro. Sem blogues, redes sociais, com internet ainda na sua fase rudimentar de mera caixa-de-ressonância da informação que circulava pelos meios de comunicação tradicionais, vozes de indignação, ou a ela autorizadas, surgiram de todos os lados para exprobrar as palavras do novo profeta do dealbar da revolução mediática.
Aconteceu. Cedo, o poder político, costumeiramente astuto na sua perversidade, apercebeu-se dos poderes ilimitados dos novos circuitos comunicacionais. Criou-se uma rede subterrânea de influências, que vê a luz do dia sob a forma de opinião, nos jornais, nas rádios, nas televisões, nos blogues, mas escrupulosamente geridas por agigantadas centrais de informação – hoje, não há inocente que não saiba que a informação que lhe chega às mãos já foi depurada dos escolhos da livre interpretação; ela é-nos servida eviscerada, sem espinhas e sinais de gordura, basta ligar o microondas e comer sem reclamar o produto final. O fim sempre foi a notícia, mas os meios tradicionais de investigação jornalística  para o atingir desapareceram – vivemos em plena época de arrivismo informacional.
O tal “xerife” fez o seu caminho, reformou-se e hoje opina, livremente e sem remorso, num canal público de televisão pago pelo dinheiro dos contribuintes – esses mesmos que outrora se arrogava de poder comprar e manipular.
Hoje a perfídia dá os seus frutos, faz parte do nosso quotidiano, deixamo-nos dominar por ela através de uma acédia imanente – terreno fértil para a incubação de novas formas de assassinato de carácter e do derrube perverso do adversário.
Nos dias que correm, joga-se xadrez com luvas de boxe; potencialmente, o xeque-mate chega à primeira jogada; caem por terra as peças do tabuleiro à primeira jogada com as brancas, sem distinguir a cor dos derrubados, brancas ou pretas, amigos ou inimigos, atingiu-se o fim… o rei, que muda facilmente de figura, dependendo desse fim convencionado no momento, tomba sem sequer ter dado um passo. Mas não se aflijam, a vontade de acudir o moribundo jamais desaparecerá, sob pena de se estragar o fim. Haverá sempre o peão altruísta, aquele que o pretende socorrer, insuflando-lhe dignidade, atando-lhe uns cordéis translúcidos à cabeça e aos membros.
Apoiantes de ontem, são adversários de hoje, e para cúmulo da sem-vergonha e da sordícia confessam-se envergonhados pelo apoio manifestado (sob as mais variadas formas) em tempos idos. Como se o passado fosse negociável. Seguem o rebanho, pretensamente intoxicados pela opinião dos opinadores comprometidos com o regime. Mas a realidade é bem pior, pelo testemunho cobiçoso da alacridade e das recompensas dos que trabalham no campo oposto, vendem por meia dúzia de tostões o que à partida é infungível, a própria alma.


Conselho: a leitura deste texto sabe melhor se se puser em fundo a famosa faixa sonora de Nino Rota. Tenho a impressão de que já vi este filme mas com protagonistas diferentes… (já agora, em caso de dificuldade de identificação, voltar a este pequeno excerto aqui postado que, por si só, já nos dá uma ideia global).

domingo, 2 de novembro de 2008

Magalhães

Porque lhe dei este título?
É domingo, dia quase oficial das citações tout court neste blogue, mas no entanto… Uma vontade irreprimível, como se os dedos que comandam as teclas houvessem ganhado vida, autónoma, independente da vontade da alma que se lhes infiltra a carne… é fraca, eu sei. Talvez, à laia de lenitivo lúbrico, o Soneto CXXIX de Shakespeare não fosse má ideia.
Recriando as palavras do outro, barricado em Novembro 1975 no Parlamento português, não gosto que façam sexo comigo quando contrariado…

Magalhães, vendido como tremoços em cimeiras internacionais… que vergonha! Por favor, não façam amor comigo sem a minha anuência!

(Auxiliar de leitura da citação: o rei que se segue, em conversa com o seu criado – que poderia ser a representação fiel de todos nós –, tem o hábito imperial de se referir a si mesmo na primeira pessoa do plural.)

«– Somos o Imperador da Índia, Bhaktri [sic] Ram Jain, mas não somos capazes de escrever o raio do nosso nome […]
– Sim, ó ditosíssima entidade, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra – respondeu Bhakti Ram Jain [o criado], estendendo-lhe uma toalha. Esta altura, a hora do levantar do rei, era também a hora da lisonja imperial. Bhakti Ram Jain detinha orgulhosamente a categoria de Lisonjeador Imperial de Primeira Classe, e era mestre no floreado estilo da velha escola conhecido por bajulação cumulativa. Só um homem com uma memória excelente para as barrocas formulações dos encómios excessivos era capaz de bajular cumulativamente, devido às repetições exigidas e à necessária precisão da sequência. A memória de Bhakti Ram Jain era infalível. Era capaz de bajular durante horas.
[…]
– Somos o rei dos reis, Bhakti Ram Jain, mas não somos capazes de ler as nossas próprias leis. Que dizes a isto?
– Sim, ó mais justo de todos os juízes, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra, governante de tudo o que existe, congregador de todo o ser – volveu Bhakti Ram Jain, fazendo aquecimento para a sua tarefa.
– Somos a Sublime Radiância, a Estrela da Índia e o Sol da Glória – disse o imperador, que sabia também uma ou duas coisas de lisonja, – e contudo fomos criados naquela esterqueira de cidade onde os homens fodem com as mulheres para fazerem filhos mas fodem com rapazes para os fazerem homens, criados tanto a estar alerta ao atacante que operava pelas costas como ao guerreiro mesmo na nossa frente.
[…]
[A bajulação do criado continua no seu mais firme estoicismo (nota minha)]
– Sim, ó mais perspicaz que os Videntes, pai de muitos...
– És um bode ao qual se devia cortar a garganta para podermos comer a sua carne ao almoço.
– Sim, ó mais misericordioso que os deuses, pai...
– A tua mãe fodeu com um porco para te fazer.
– Sim, ó mais eloquente de todos quantos têm eloquência, p...
– Deixa lá – atalhou o imperador. – Já nos sentimos melhor. Vai-te embora. Podes viver.
»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 44-45.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Áries

Rui PereiraPoderia ser o título de um novo romance de Don DeLillo – uma sequela do aclamado Libra de 1988, uma narrativa semificcional sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, enquanto desfilava no seu Lincoln descapotável na Elm Street em Dallas, reconstruindo a figura de Lee Harvey Oswald (de signo Balança) e uma teia de conspirações de ex-agentes da CIA e de exilados cubanos, que o usaram como instrumento, em busca de uma desforra da calamitosa invasão da Baía dos Porcos.
Oswald depois de haver sido detido no próprio dia do assassinato, viria, dois dias depois, a ser alvejado mortalmente no abdómen por Jack Ruby, um conhecido dono de um clube de striptease de Dallas e com ligações à máfia, com relações privilegiadas com a polícia local, na garagem da esquadra de polícia, onde o primeiro se preparava para ser transferido para a prisão mais próxima.
Áries, ou Carneiro como é usado na nossa língua, regula astrologicamente a vida e a cabeça de um homem, chamado Rui Carlos Pereira – a importância dos três nomes… –, que por coincidência ou teoria conspirativa é o Ministro da Administração Interna da país da impunidade: Portugal – a propósito, e como recordar é viver, José António Cerejo escrevia este artigo no Público a 17 de Abril de 1999, onde, entre outros, surge por casamento e pelas (múltiplas) funções exercidas o nosso inefável homem dos aventais, na altura director do SIS que investigava a Universidade Moderna (todavia, não consta do seu breve currículo disponível na página oficial do Governo o exercício das funções de docência neste estabelecimento de ensino).
Ontem, o nosso ministro comparou o caso do homem baleado em plena esquadra de Portimão, ao assassinato de Oswald por Ruby, depois de o primeiro haver assassinado J.F. Kennedy, apenas e somente o 35.º Presidente dos E.U.A. Para além de haver revelado algumas debilidades indesculpáveis no conhecimento de factos históricos ocorridos há quase 45 anos, este homem depois de mais um dos inúmeros disparates verbais na tentativa de explicar o inexplicável, continua à frente de um dos ministérios chave para a necessária tranquilização da sentidamente insegura população portuguesa.

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Finalistas do Booker Prize de 2008 (anunciados ontem)

  • Amitav Ghosh – Sea of Poppies;
  • Aravind Adiga – The White Tiger;
  • Linda Grant – The Clothes on Their Backs;
  • Philip Hensher – The Northern Clemency;
  • Sebastian Barry – The Secret Scripture;
  • Steve Toltz – A Fraction of the Whole.

Com a excepção de Sebastian Barry (finalista em 2005), todos os outros são estreantes na lista dos finalistas do galardão máximo a premiar uma obra em língua inglesa, originalmente publicada no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou na Irlanda
Sinal dos tempos na literatura anglo-saxónica? Os novos romances dos autores consagrados John Berger e Salman Rushdie ficaram-se pela lista dos semifinalistas.
O vencedor será anunciado depois do habitual jantar no Guildhall em Londres no próximo dia 14 de Outubro.

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Nota importante: prossegue o interlúdio retemperador neste blogue. O autor continua com as suas férias até ao dia 22 de Setembro, altura em que se serão respondidos os e-mails e os comentários deixados nas respectivas caixas em anexo aos textos publicados.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

“Não tenho pensado noutra coisa nestes últimos dias”

Palavras proferidas por Sócrates no passado dia 12 de Junho perante a Assembleia da República (ver vídeo).
Coisa: Referendo na República da Irlanda sobre a ratificação do Tratado de Lisboa (a.k.a. porreiro-pá treaty)
Um país a ferro e fogo. Cidades barricadas por camionistas. Prateleiras de hipermercados exauridas de bens de primeira necessidade. Agricultores angustiados e endividados até à raiz dos cabelos. Frota pesqueira parada. Nível de desemprego alto e estável. Desaparecimento progressivo da classe média, talvez agarrada à promessa futura do estrelato em programas de antropologia cultural do National Geographic. País que diverge. Estado da União Europeia com maiores desigualdades sociais. Corrupção institucionalizada e endémica, que se alastra vorazmente a toda a sociedade, a todos os sectores da actividade económica, perante um sistema de justiça quase complacente, pela demora, pela confecção da lei por medida, com a grande criminalidade de colarinho branco…
São palavras gastas. Perderam, pelo uso, todo o seu significado angustiante. Para quê repeti-las?

Há umas semanas, o Pedro Correia pediu a um conjunto de bloggers para que cada um escrevesse um texto sobre qualquer tema ou assunto à escolha para mais tarde o poder publicar no seu blogue
Corta-Fitas. Fui, imerecidamente, contemplado pelo pedido. Escrevi-o, num dia em que a fúria da minha triste e opressiva condição lusa me saía pelos poros. O Pedro publicou-o no dia 8 de Junho, e eu, correndo o risco de abusar da sua confiança, republico-o, sem lhe dar cavaco ou (aviso: as palavras que se seguem deveriam surgir no texto unidas por hífen, mas por razões estéticas e de formatação, optou-se por se lhe dar o devido descanso, substituindo-o por umas agradáveis aspas) “homem do dia da raça que se abstém de alertar os governantes e de falar sobre um país que de dia para dia vai imergindo num viscoso atoleiro sem qualquer hipótese de salvamento”.
Eis o texto:
Alheamento do Inferno

Já não ouvem e nem se fazem ouvir. Dezasseis criaturas aprisionadas a um discurso de um só líder. Magnânimo mas irritadiço, democrata impiedoso, munido da sua aura mágica de mestre de indução do êxtase político; ele garante-lhes a sublime perfeição do rumo por que vão enveredando. Seguem às cegas – já não precisam de ver –, sem bússola ou outros instrumentos de navegação. A tecnologia provém da inesgotável fonte da sua sabedoria. Estamos no bom caminho, ele diz-lhes para dizerem, porque ele também diz e anuncia, cria e inaugura, promete e já não se preocupa com a sua realização – já não necessitam de resultados palpáveis, basta a promessa de cumprimento de um conjunto de promessas e uma poderosa máquina de perpetuação da sensação do dever cumprido. Alguém lhe disse que uma boa mente, permeável, alimentada de sonhos e de quimeras é o sustento necessário e suficiente do corpo, porque a alma de cada corpo, sugada e mortificada, partiu há muito, envergonhada. Espectáculo indecente, grotesco, de mortos-vivos vencidos pela acédia.
Empreender, crescendo na imponderabilidade.
À volta do timoneiro e dos seus dezasseis seguidores, foi-se formando uma leve, translúcida e hermética película, que medida após medida, diapositivo após diapositivo – ou slide como por lá chamam os criadores de tecnologia –, soltou amarras rumo ao firmamento. Ambiente ionizado, (ele prometeu-lhes) onde moram os grandes decisores, imersos no éter do serviço desempenhado com notável orgulho em favor da humanidade. Vivem do insípido néctar sagrado que nasce a jorros por cada nova ideia: já não necessitam do palato. Julgam-se gordos no revérbero da sua eminência. Todavia, elegantes fiando-se na teoria da imagem virtual reflectida pela concavidade das paredes espelhadas do seu habitat em forma de bolha. Lá em cima, vogando no espaço, já não sentem o cheiro da miséria que se vai decompondo em mais miséria. (Enchem-se de esperança – talvez se transforme em húmus, terra fértil, como um seguro para quando um dia para cá voltarem). E, embora não confiando na desprezível fé divina do Homem – foram orgulhosamente descontaminados por um processo de escrupulosa descrença –, sabem… haverá Aquele (quem?) que pela Sua força (qual?) os poderá fazer cair como anjos em desgraça. Sem juízes ou promotores de justiça, sem espiões ou corpo policial, sem banqueiros, autarcas, cobradores ou criados burocratas.
Pura distracção. Estiveram sempre nas cercanias da famigerada porta.
Ignorantes…
E então, sem ouvir, ver, palpar, saborear ou cheirar… não, não sentem, e as emoções por lá rareiam, mas recordam-se daqueles nove versos que terminam com uma sentença aterradora (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate):

Por mim vai-se à cidade que é dolente,
  por mim se vai até à eterna dor,
  por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
  divina potestade fez-me e tais
  a suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
  do que as eternas e eu eterna duro.
  Deixai toda a esperança, vós que entrais.

Porreiro, pá!*

Referência: Dante Alighieri, A Divina Comédia (I Inferno: Canto III: v. 1-9). Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, pág. 47; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (La Divina) Commedia, 1307-1321.

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*[acrescentado]: Agora há que encontrar meios de ostracizar o “tigre europeu”, colocando-o à margem dos restantes 26 – os apavorados ratificadores parlamentares. Gordon Brown já espuma de júbilo voraginoso pela punição a dar a esses infames católicos.
Como é que se diz “porreiro, pá” em gaélico?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Camaradagem


Abstendo-me de comentar o sentindo real das palavras proferidas pela mente fecunda do ministro Mário Lino, para isso teria de recorrer à hermenêutica do deserto – na minha opinião o problema é precisamente o inverso, o da esterilidade (desértica) mental –, chocou-me mais a alegoria do estropiado e do canceroso, agravada pelo tom de auto-satisfação revelado através da exuberância gesticular e da eloquência oratória do engenheiro, inscrito na Ordem – para que conste. Mesmo que eu, por mera felicidade – que não tive –, não houvesse vivenciado o miserável drama que essa doença provoca, de lenta e cruel degradação física e mental do padecedor e dos respectivos familiares e amigos, as declarações do senhor ministro mereceriam, de igual modo, da minha parte as mais contundentes palavras de execração e de repulsa. Não se trata de um manifesto com o sentido de restringir a liberdade de expressão, criando para o efeito assuntos tabu, trata-se apenas da simples exigência de decência a quem, pelos nossos votos e impostos, tem a responsabilidade de representar e administrar o Estado-Nação.

Mal um havia terminado o palavreado asinino, veio outro, o Presidente, clamar pela construção do aeroporto a Norte por simples razões estratégicas no combate ao terrorismo e nas necessárias vias de fuga dos civis inocentes da capital. Neste caso, a interpretação deste arrazoado, pelo picaresco que a questão encerra – para ser brando –, não exige grande esforço de abstracção: não sei se foi amizade aventalar, se desespero por visão profética de investimento cúpido esboroado, ou se ambas em simultâneo.
Aquilo que aqui interessa é, pelo menos para mim, cidadão comum, contribuinte cumpridor, saber o que move esta gente na defesa obstinada por um lugarejo sem interesse aparente a 50 km de Lisboa, que a cada dia que passa parece transformar a simples teimosia, que seguia apenas a cartilha maquiavélica do não recuo em política – de liberalitate et parsimonia –, em inconfessável ganância.

Em suma, os episódios desta semana tiveram pelo menos um mérito, o de clarificar a importância do investimento, de que esta comovente demonstração de camaradagem foi a alavanca arquimédica, porque se no caso do primeiro podemos apontar alguma estultícia, até por via da experiência mediante o estudo de casos, no segundo a preocupação excessiva preocupa-me, passe o pleonasmo, porque para além de jubilado, decerto não perdeu o traquejo alcançado durante a era jurássica da política portuguesa, ou se se preferir, a matreirice de velha raposa.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Palavras a menos

Manuel PinhoO que o Ministro Pinho se esqueceu de dizer a propósito da tentativa de captação dos recursos chineses para investimento em Portugal (ao contrário do popularucho Sparks, estas não são as Palavras Que Nunca Te Direi):

“… Para além disso, há sempre a hipótese de V. Exas. poderem vir a beneficiar de fundos comunitários atribuídos pelo estado português e encerrarem a produção assim que o período de isenção fiscal terminar. Saem melhor do que entraram!
Por outro lado, nunca ficará de fora a hipótese de um suborno a um autarca, ou de uma pequena (grande) fuga aos impostos, ou de uma negociata qualquer com um banco de investimentos que zelosamente lavará o vosso dinheiro… A justiça lá é lenta. Com um bom escritório de advogados, com um bom emprego das medidas dilatórias que o intricado das leis nacionais permite e uns conhecimentos numa entidade invisível (também conhecida por Arquivadoria) os casos nem chegam à barra. E depois… Depois, há a figura da prescrição, se outros meios faltarem.
V. Exas., por mera curiosidade, acaso não pertencem à Maçonaria? À Opus, então?”