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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A fatwa: 20 anos

O Francisco relembra, pela marca a negro, tristemente indelével, no eixo do tempo (já foi há 20 anos!...), a fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra Salman Rushdie em 14 de Fevereiro de 1989, a propósito da publicação do romance Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) em 1988. Curiosamente, o líder espiritual dos xiitas iranianos morreu três meses e meio depois.
Sobre este triste acontecimento não há muito mais para contar, excepto o episódio agora revelado do solidário e comovente asilo dado pelo, humana e artisticamente portentoso, Ian McEwan nos dias mais terríveis da vida de Rushdie. De resto, trata-se apenas de reavivar a memória sobre a história de um ataque deliberado à liberdade de expressão, perpetrados pelas mesmas gentes e seus clones que hoje em dia desfrutam de uma confortável complacência da esquerda caviar europeia, em nome de um multiculturalismo – que não sei, nem eles sabem, o que é, e jamais aceitarei que se traduza numa derrogação da minha liberdade, das minhas formas de pensar, sentir e agir, dos valores apreendidos numa sociedade (europeia e ocidentalizada) que me viu crescer – e de uma hilariante apologia à proporcionalidade de meios bélicos – uma vez que a liberdade de expressão materializada nos rockets lançados contra cidades israelitas é coarctada pelos helicópteros Apache e caças F-16 de fabrico americano (Solnado hoje não faria melhor após haver encontrado a guerra fechada, neste caso por desproporção de meios).

Enfim, deixo apenas ficar, sem mais comentários, um texto escrito em 1993 por Paul Auster (oh, claro, é de origem judaica, e, para além disso, não se pode contar com o homem que dedica o seu último romance ao filho do seu colega escritor israelita David Grossman morto no Líbano em 2006) que relata a sua inquietação permanente perante a vida do seu amigo Salman Rushdie:

«Quando me sentei para escrever esta manhã, a primeira coisa que fiz foi pensar em Salman Rushdie. Há quase quatro anos e meio que faço isto todas as manhãs, e, agora, é já uma parte essencial da minha rotina diária. Pego na caneta e, antes de começar a escrever, penso no meu colega romancista que está do outro lado do oceano. Rezo para que ele continue vivo mais vinte e quatro horas. Rezo para que os seus protectores ingleses o mantenham escondido da gente a quem encomendaram o seu assassínio – a mesma gente que já matou um dos seus tradutores e feriu outro. Sobretudo, rezo para que venha um tempo em que estas orações deixem de ser necessárias, para que venha um tempo em que Salman Rushdie tenha tanta liberdade como eu para caminhar pelas ruas do mundo.
Rezo por este homem todas as manhãs, mas, no fundo, sei que estou também a rezar por mim. A sua vida corre perigo porque escreveu um livro. O meu trabalho é também escrever livros e eu sei que poderia estar na mesma situação que ele, não fossem os caprichos da história e uma questão de sorte, de pura e cega sorte. Se não hoje, então talvez amanhã. Pertencemos ao mesmo clube: uma irmandade secreta de solitários, confinados, e excêntricos, homens e mulheres que passamos a maior parte do nosso tempo fechados em pequenos quartos, travando a batalha de pôr palavras numa página. É um estranho modo de se viver a vida e só uma pessoa sem alternativa o escolheria como vocação. É demasiado árduo, demasiado mal pago, demasiado cheio de decepções para convir a qualquer outra pessoa. Os talentos variam, as ambições variam, mas qualquer escritor digno desse nome dir-lhes-á o mesmo: para se escrever uma obra de ficção temos de ser livres de dizer aquilo que temos para dizer. Pratiquei essa liberdade em todas as palavras que escrevi – tal como Salman Rushdie. É isso que nos torna irmãos e é por isso que a provação por que está a passar é também a minha provação.
Não posso saber como agiria no seu lugar, mas posso imaginá-lo – ou, pelo menos, posso tentar imaginá-lo. Com toda a franqueza, não estou certo de que conseguiria ter a coragem que ele tem demonstrado. A sua vida está em ruínas e, no entanto, continua a fazer aquilo para que nasceu. Obrigado a mudar constantemente de abrigo, separado do filho, cercado de polícia, todos os dias se senta à sua secretária e escreve. Sabendo até que ponto é difícil fazer esse trabalho mesmo nas melhores condições, só posso sentir admiração e respeito por aquilo que ele tem realizado. Um romance; um outro romance em preparação; uma série de extraordinários artigos e discursos defendendo um direito humano básico – o direito à livre expressão. Tudo isto já é, por si só, absolutamente notável, mas aquilo que verdadeiramente me espanta é que, para além do essencial do seu trabalho, Salman Rushdie ainda dedica algum do seu tempo a comentar livros de outros autores – por vezes, chega mesmo a redigir entusiásticas notas promovendo os livros de autores desconhecidos. Para um homem na sua situação, será possível pensar em mais alguém a não ser em si mesmo? Sim, pelos vistos é possível. Mas pergunto-me quantos de nós seriam capazes de fazer o mesmo que ele tem feito, se tivéssemos as costas encostadas à mesma parede.
Salman Rushdie está a lutar pela sua vida. A luta dura há já quase meia década, e não estamos mais perto de uma solução do que quando a fatwa foi anunciada. Como tantos outros, só queria que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudar. A frustração cresce, o desespero instala-se, mas, como não tenho nem o poder nem a influência para afectar as decisões de governos estrangeiros, o máximo que posso fazer é rezar por ele. Ele carrega o fardo por todos nós e eu já não consigo pensar no que faço sem pensar nele. O transe por que está a passar arrebatou toda a minha atenção, levou-me a reexaminar as minhas crenças, ensinou-me a nunca dar por adquirida a liberdade de que desfruto. Por tudo isso, tenho para com ele uma imensa dívida de gratidão. Apoio Salman Rushdie na luta que trava para reconquistar a sua vida, mas a verdade é que ele também me tem apoiado. Quero agradecer-lhe por isso. Sempre que pego na caneta quero agradecer-lhe.»
Paul Auster, “Uma oração por Salman Rushdie” (1993), Experiências com a Verdade, pp. 163-165
(Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2003, 201 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Experiments in Truth, 1995)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Irrealismo pós-histérico

Alguns afazeres inadiáveis por estes dias têm-me afastado do blogue e feito da única leitura do momento – o último romance de Salman Rushdie editado entre nós – um exercício de entretenimento sincopado pelo necessário achamento do fio meada da dita obra que, se mais não bastasse, tinha de ser do babilónico-hermético escritor indo-britânico.
Talvez seja das sucessivas interrupções, algumas bastante longas, ou quiçá de um preconceito inultrapassável perante o autor da obra, mas parece-me que A Feiticeira de Florença é uma manta de retalhos muito mal cerzida. Mas a falta da visão global, que se adquire após a última página, prejudica, para já, qualquer análise minimamente séria.
Há, no entanto, passagens que têm o condão de fazer soar o alarme que me alerta para o atingimento de um nível estético notavelmente baixo, para não falar do ético, essencialmente pela sua impudica e descarada desarmonia com o texto, como se tentasse colar uma ideia que sobreveio inusitadamente a uma mente subitamente tortuosa – e espera-se, sem qualquer relação com a experiência, difícil de vislumbrar pela conhecida garbosidade da contraparte. Verosímil, pode ser; real, infelizmente sim; necessária, jamais, atendendo ao contexto, de uma Florença dissoluta, expulsos os Chorões corporizados em Savonarola e o seus sequazes, largamente descrita ao longo da obra.
Rushdie ultrapassou o histerismo, na medida em que ele é resolvido pelos devaneios lascivos perfeitamente secundários dos seus personagens, tautológicos e recalcitrantes, e que parecem resultar de um falhadíssimo pastiche da marca distintamente lúbrica de Philip Roth, ética e esteticamente irrepreensíveis.

Veja-se esta passagem… ou melhor, leia-se este retalho, que deveria voltar ao lugar de onde saiu, à mente maltratada… retalhada:

«Todas as noites se punha a olhar para a sua mulher à mesa e não encontrava nada para lhe dizer. Marietta, era esse o seu nome, e aqui estavam os seus filhos, os filhos de ambos, os seus muitos, muitos filhos; era, portanto, verdade que ele se casara e tivera filhos a exemplo das pessoas como deve ser, mas isso era noutra época, na época da grandeza negligente, em que todos os dias fodia com uma rapariga diferente para se manter vigoroso e vivo, e fodia também com a mulher, claro, seis vezes, pelo menos. Marietta Corsini, a mulher, que lhe passajava as camisolas interiores e toalhas e não sabia nada de nada, que não compreendia a sua filosofia nem se ria das suas piadas. Todos os demais no mundo o achavam engraçado, mas ela tomava tudo à letra, pensava que um homem queria dizer exactamente o que dizia e as alusões e metáforas eram apenas as ferramentas de que os homens se serviam para enganar as mulheres, para as fazerem pensar que não sabiam o que se passava. Ele amava-a, é certo. Amava-a como um membro da sua família. Como uma irmã. Quando fodia com ela sentia-se levemente pecaminoso. Sentia-se incestuoso, como se estivesse a foder com a irmã. Aliás, essa noção era a única coisa capaz de o excitar quando se deitava com ela. Estou a foder com a minha irmã, dizia para consigo, e vinha-se.»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 230-231.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

domingo, 2 de novembro de 2008

Magalhães

Porque lhe dei este título?
É domingo, dia quase oficial das citações tout court neste blogue, mas no entanto… Uma vontade irreprimível, como se os dedos que comandam as teclas houvessem ganhado vida, autónoma, independente da vontade da alma que se lhes infiltra a carne… é fraca, eu sei. Talvez, à laia de lenitivo lúbrico, o Soneto CXXIX de Shakespeare não fosse má ideia.
Recriando as palavras do outro, barricado em Novembro 1975 no Parlamento português, não gosto que façam sexo comigo quando contrariado…

Magalhães, vendido como tremoços em cimeiras internacionais… que vergonha! Por favor, não façam amor comigo sem a minha anuência!

(Auxiliar de leitura da citação: o rei que se segue, em conversa com o seu criado – que poderia ser a representação fiel de todos nós –, tem o hábito imperial de se referir a si mesmo na primeira pessoa do plural.)

«– Somos o Imperador da Índia, Bhaktri [sic] Ram Jain, mas não somos capazes de escrever o raio do nosso nome […]
– Sim, ó ditosíssima entidade, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra – respondeu Bhakti Ram Jain [o criado], estendendo-lhe uma toalha. Esta altura, a hora do levantar do rei, era também a hora da lisonja imperial. Bhakti Ram Jain detinha orgulhosamente a categoria de Lisonjeador Imperial de Primeira Classe, e era mestre no floreado estilo da velha escola conhecido por bajulação cumulativa. Só um homem com uma memória excelente para as barrocas formulações dos encómios excessivos era capaz de bajular cumulativamente, devido às repetições exigidas e à necessária precisão da sequência. A memória de Bhakti Ram Jain era infalível. Era capaz de bajular durante horas.
[…]
– Somos o rei dos reis, Bhakti Ram Jain, mas não somos capazes de ler as nossas próprias leis. Que dizes a isto?
– Sim, ó mais justo de todos os juízes, pai de muitos filhos, esposo de muitas esposas, monarca do mundo, abarcador da terra, governante de tudo o que existe, congregador de todo o ser – volveu Bhakti Ram Jain, fazendo aquecimento para a sua tarefa.
– Somos a Sublime Radiância, a Estrela da Índia e o Sol da Glória – disse o imperador, que sabia também uma ou duas coisas de lisonja, – e contudo fomos criados naquela esterqueira de cidade onde os homens fodem com as mulheres para fazerem filhos mas fodem com rapazes para os fazerem homens, criados tanto a estar alerta ao atacante que operava pelas costas como ao guerreiro mesmo na nossa frente.
[…]
[A bajulação do criado continua no seu mais firme estoicismo (nota minha)]
– Sim, ó mais perspicaz que os Videntes, pai de muitos...
– És um bode ao qual se devia cortar a garganta para podermos comer a sua carne ao almoço.
– Sim, ó mais misericordioso que os deuses, pai...
– A tua mãe fodeu com um porco para te fazer.
– Sim, ó mais eloquente de todos quantos têm eloquência, p...
– Deixa lá – atalhou o imperador. – Já nos sentimos melhor. Vai-te embora. Podes viver.
»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 44-45.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

terça-feira, 29 de julho de 2008

Booker Prize 2008 (13 semifinalistas)

Foi anunciada a lista dos treze romances semifinalistas, candidatos ao Man Booker Prize de 2008. Destes treze romances sairão, no próximo dia 9 de Setembro, os habituais seis finalistas, entre os quais figurará o vencedor a ser anunciado no dia 14 de Outubro no habitual jantar no Guildhall em Londres.

Eis os 13 semifinalistas (lista organizada por ordem alfabética do apelido do autor):

  • Aravind Adiga, The White Tiger
  • Gaynor Arnold, Girl in a Blue Dress
  • Sebastian Barry, The Secret Scripture
  • John Berger, From A to X
  • Michelle de Kretser, The Lost Dog
  • Amitav Ghosh, Sea of Poppies
  • Linda Grant, The Clothes on Their Backs
  • Mohammed Hanif, A Case of Exploding Mangoes
  • Philip Hensher, The Northern Clemency
  • Joseph O’Neill, Netherland
  • Salman Rushdie, The Enchantress of Florence
  • Tom Rob Smith, A Criança n.º 44, Dom Quixote (Child 44)
  • Steve Toltz, A Fraction of the Whole

Dos 13 romances, apenas um foi, por enquanto, editado em Portugal, trata-se de A Criança n.º 44, o 1.º romance do jovem escritor inglês Tom Rob Smith (n. 1979) publicado pela Dom Quixote, editora que aliás já prometeu a edição para breve do último romance de Sir Salman Rushdie (o amigo literário do crítico britânico James Wood, não atingindo, porém, o paroxismo da sólida amizade que une o autor aos islamitas e vice-versa).

Destaque para a segunda presença do truculento crítico, ensaísta e romancista, assim como artista plástico, John Berger, vencedor do galardão em 1972 (para os mais curiosos, o excepcional ano do meu nascimento) com o romance G. Berger, no discurso de aceitação do prémio, disse que iria doar metade do seu prémio aos então já extintos Black Panthers, devido à política colonialista da sociedade Booker nas Índias Ocidentais (desconhecendo, porém, que as suas plantações de cana-de-açúcar já haviam sido confiscadas pelo menos 10 anos antes). Dois tiros pouco certeiros… mas o show off teve o mérito de ficar marcado na história dos prémios, com insultos, trocas de acusações à mistura e abandonos de sala.

Para o irlandês Sebastian Barry (n. 1955) trata-se da segunda nomeação, depois de ter sido finalista vencido no excepcional ano de 2005 – ano em que venceu John Banville com o dilacerante O Mar (The Sea), relegando para segundo plano, para além do romance A Long Long Way (não editado em Portugal) do próprio Barry, o meu mais que favorito Nunca Me Deixes (Never Let me Go) de Kazuo Ishiguro, A Acidental (The Accidental) de Ali Smith, Uma Questão de Beleza (On Beauty) de Zadie Smith e Arthur & George (Arthur and George) de Julian Barnes.

Também Linda Grant, romancista e jornalista inglesa nascida em 1951, vê pela segunda vez um dos seus romances na listagem dos semifinalistas. Para além deste ano, Grant ficou-se por esta fase com o romance Still Here (não editado em Portugal) em 2002. Exactamente como o seu compatriota Philip Hensher (n. 1960) com The Mulberry Empire (obra não editada em Portugal).

Salman Rushdie para além de ter vencido os Booker of Bookers comemorativos dos 25 e dos 40 anos de atribuição do prestigiado prémio com o seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight’s Children, Booker Prize em 1981), foi finalista vencido em 1983, 1988 e 1995 com Vergonha (Shame), Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) e O Último Suspiro do Mouro (The Moor’s Last Sigh), respectivamente. No tal ano de 2005 ficou merecidamente pelo caminho como apenas semifinalista com Shalimar, O Palhaço (Shalimar The Clown), podendo gabar-se de ter tido por companhia Ian McEwan com Sábado (Saturday) e o Nobel da Literatura de 2003 J.M. Coetzee com O Homem Lento (Slow Man), também eliminados do sexteto final.

Os restantes elementos vêem pela primeira vez o seu nome inscrito numa listagem do galardão literário mais importante da língua inglesa a premiar uma obra originalmente publicada no Reino Unido, num dos países pertencentes à Commonwealth ou na Irlanda – correm, no entanto, rumores que a Booker Prize Foundation com o grupo financeiro Man têm vindo a estudar a hipótese de alargar o leque de alternativas permitindo a inclusão de obras de romancistas norte-americanos, originalmente publicadas nos Estados Unidos; resta esperar para ver se a tal apetecível perspectiva se concretiza.

Uma pequena provocação: apesar das discrepâncias geográficas, não passa pela cabeça dos organizadores do evento alterar as regras do galardão maior em língua inglesa, para, por exemplo, na próxima edição apenas incluírem na listagem de obras sujeitas a apreciação, aquelas que foram escritas exclusivamente por autores ingleses… do you know what I mean? (tradução: vocês sabem do que é que eu estou falando?)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Sir Booker of Bookers

Salman Rushdie Salman Rushdie (n. Bombaim, 19 de Junho de 1947) venceu o Best of the Booker award

O escritor anglo-indiano Salman Rushdie venceu a votação para a eleição do melhor dos romances vencedores do Booker Prize (com 36% dos votos), pelo seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 1981), na comemoração dos 40 anos do prémio literário mais prestigiado da língua inglesa (exceptuando os E.U.A.), que tem vindo a ser atribuído desde 1969 e que já premiou 41 romances (por duas vezes com vencedores ex aequo, em 1974 e 1992).
Já em 1993, a propósito da comemoração dos 25 anos de atribuição do galardão, Rushdie havia vencido o Booker dos Bookers.
Quinze anos volvidos Rushdie voltou a vencer, desta feita com a votação aberta ao público em geral, após a escolha por um júri dos 6 finalistas a concurso (que incluiu Pat Barker com The Ghost Road, 1995; Peter Carey com Oscar e Lucinda, 1988; J.M. Coetzee, Desgraça, 1999; J.G. Farrell, The Siege of Krishnapur, 1973; e Nadine Gordimer, O Conservador, 1974).

Eis um excerto do Livro Primeiro, 1.º Capítulo, “O Lençol Furado”:
«Nasci na cidade de Bombaim... um certo dia. Não, não pode ser assim. A data exacta. Nasci na maternidade do Dr. Narlikar no dia 15 de Agosto de 1947. Horas? A hora também é importante. Pois seja: foi de noite. Não, procuremos ser mais... Foi exactamente ao bater da meia-noite. Os ponteiros do relógio uniram as palmas das mãos para me cumprimentarem respeitosamente e me darem as boas-vindas. Há que dizer tudo: fui dado à luz no exacto momento em que a Índia se tomava independente. Continha-se a respiração. Do lado de fora da janela misturava-se o estralejar do fogo-de-artifício com a algazarra da multidão. Poucos segundos depois, o meu pai fracturou o dedo grande do pé; acidente insignificante em comparação com aquilo que me acontecia a mim naquele momento da noite; graças à tirania oculta dos relógios delicadamente acolhedores, eu passava a estar misteriosamente ligado à história e o meu destino indissoluvelmente unido ao do meu país. Durante as três décadas seguintes, ser-me-ia impossível escapar. A minha chegada tinha sido profetizada pelos adivinhos, celebraram-na os jornais, os políticos ratificaram a minha autenticidade. Não me foi consentido qualquer voto na matéria. Eu, Saleem Sinai, mais tarde chamado também Muco-na-Penca, Cara-Manchada, Careca, Sorve-Ranho, Buda e até Pedaço-de-Lua, fiquei definitivamente comprometido com o destino... as mais das vezes perigosamente amarrado a esse compromisso. E nessas alturas não tinha quaisquer possibilidades de me assoar.
Entretanto, o tempo (uma vez que não sei o que fazer de mim) está agora a chegar ao seu termo. Completarei em breve trinta e um anos. Se calhar. Se este meu corpo velho e escangalhado o permitir. Mas não me restam grandes esperanças de me salvar, não tenho pela frente sequer mil noites e uma noite. Tenho de ser rápido, mais rápido do que Xerazade, e é se quero deixar claro o sentido... Sim, o sentido. Não há nada que eu receie mais do que o absurdo.
»
Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite, pág. 13.
Lisboa: Dom Quixote, 4.ª edição, Maio de 2003, 428 pp. (tradução de Manuel João Gomes; obra original: Midnight's Children, 1981).

terça-feira, 8 de maio de 2007

Em boa companhia


Serei eu? Um distraído por natureza, marca indelével no meu código genético.
Ou será esse imenso mundo lusófono, que vai conquistando terras de além-mar pelo império da língua, que anda distraído?

Entre 24 e 29 de Abril deste ano decorreu nos Estados Unidos o PEN World Voices Festival: The New York Festival of International Literature, que reuniu escritores de todo o mundo e que participaram em conferências, entrevistas, colóquios e sessões de leitura. Entre eles esteve apenas um representante luso do Quinto Império, o jovem poeta, romancista e dramaturgo José Luís Peixoto (n. 1974) – também participou Patrícia Melo representando o Brasil (n. 1965).
O autor de O Cemitério de Pianos participou no dia 26 de Abril no colóquio From Page to Stage I, realizado no Segal Theater (situado em plena 5.ª avenida, NY) em conjunto com os dramaturgos Dorota Masłowska e Vladimir Sorokin, da Polónia e da Rússia, respectivamente.
No dia 28 de Abril, juntou-se a Breyten Breytenbach, Pia Tafdrup e a Saadi Youssef, representando a África do Sul, a Dinamarca e o Iraque, respectivamente, para uma sessão de leitura de poesia na Poets House (NY).
JLP, que ultimamente tem percorrido o mundo, juntou-se, assim, neste evento literário de 6 dias a nomes como Salman Rushdie (o organizador do evento), Paul Auster, Don DeLillo, David Grossman, Sam Shepard, Marillyne Robinson, Guillermo Arriaga, Edmund White, Kiran Desai, Sidney Pollack, Nadine Gordimer, Siri Hustvedt, Russell Banks, Miranda July e até Patti Smith.

Está disponível em áudio (mp3) a interessante e descontraída conversa entre Paul Auster e o escritor mexicano Guillermo Arriaga (escreveu argumentos como Amor Cão, 21 Gramas e Babel, e o romance O Búfalo da Noite, recentemente editado entre nós pela Oficina do Livro).

«Paul Auster: We don’t really know what we’re doing…» (lá está o indolente acaso...)

segunda-feira, 19 de março de 2007

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.