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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Com o TEMPO, fez-se justiça


The Sense of an Ending


I remember, in no particular order:
– a shiny inner wrist;
– steam rising from a wet sink as a hot frying pan is laughingly tossed into it;
– gouts of sperm circling a plughole, before being sluiced down the full length of a tall house;
– a river rushing nonsensically upstream, its wave and wash lit by half a dozen chasing torchbeams;
– another river, broad and grey, the direction of its flow disguised by a stiff wind exciting the surface;
– bathwater long gone cold behind a locked door. This last isn’t something I actually saw, but what you end up remembering isn’t always the same as what you have witnessed
.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quem?

As Novas Oportunidades in motion nas ilhas britânicas. Howard Jacobson, escritor-humorista mancuniano, nascido em 1942, venceu o Booker Prize de 2010, com The Finkler Question. E o júri considerou o pré-septuagenário como sendo em parte depositário «da mais espirituosa, pungente e verdadeiramente perspicaz prosa humorística na língua inglesa» – por andavas tu no nosso país (e talvez no teu), seu folgazão? E a obra «foi descrita como “maravilhosa” e “irrepreensivelmente satisfatória” e como um romance “pleno de sentido de humor, chama, inteligência, sensibilidade e compreensão”».
A obra debruça-se (com equilíbrio assegurado) sobre «o amor, a perda e a amizade masculina, explorando o que significa ser judeu nos dias que correm.» Estranho, este argumento parece-me familiar… [notícia em português aqui.]
[E cá está o neo-Booker, em cima na fotografia; tradução mal-amanhada aqui da casa; uma brutal enxaqueca (não repassada por artes do oculto ao premiado, cf. imagem) que deliu qualquer hipótese para o humor e a dor até foi, de certa forma, inculcadora de algum desprezo por quem o possa possuir em barda por estas horas, cuja falta me levou ao, muito praticado por esse país fora, “copiar e colar” partes do texto disponível na página do prémio, e acrescente-se mais um motivo (ou dois?): é de tradição anunciar aqui o Booker e estou a borrifar-me para o vencedor e as suas cinquenta mil libras esterlinas – troca-as por euros, que a coisa parece imparável por estes dias – e o jantarzinho lacrimejante, quando McEwan e Amis ficaram de fora em ano de excelentes romances; vai uns graminhas infinitesimais de clonixina? De codeína? De hidrocodona? E deixem-se lá de trocadilhos lúbrico-farmacológicos, que isto é assunto sério. A enxaqueca, claro.]

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carey para o “Tri”

Hoje, à hora do almoço, Andrew Motion, presidente do júri do Booker Prize 2010, anunciou a habitual lista dos seis romances finalistas, candidatos a receber o mais prestigiado galardão a premiar uma obra de ficção de língua inglesa publicada originalmente na Commonwealth ou na Irlanda.
Peter Carey consta da lista, curiosamente com o único romance de entre os restantes finalistas que até agora teve o privilégio de ser editado em Portugal (Gradiva), Parrot e Olivier na América (Parrot and Olivier in America), um pretendente a calhamaço com quase quinhentas páginas; uma comédia, por vezes picaresca, sob um pano do fundo dramático e sério da liberdade e da democracia na América, que retrata as relações entre Alexis de Tocqueville e um seu criado.
Eis a lista completa de finalistas, retirados do “Booker’s Dozen” anunciado em finais de Julho:
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
Fazendo fé nos prognósticos da opinião literária publicada, Carey – escritor australiano, radicado nos Estados Unidos –, prepara-se para ser o primeiro romancista a alcançar o “TriBooker” (expressão obviamente minha), ou seja, a vencer o Booker Prize por três vezes (ler aqui para mais informação), desde a sua instituição em 1969. O único escritor que estaria nessas condições seria o Nobel da Literatura de 2003, o escritor sul-africano, radicado na Austrália, J.M. Coetzee, que venceu o dito prémio em 1983 e 1999.
E assim vão as glórias do mundo, eu, um luso radicado na lusitana imundície, com longas e felizes escapadelas por outros reinos da Ibéria, que até nem aprecia muito o autor australiano, não poderia deixar de manifestar a minha raiva – vá lá, comedida, já que se trata apenas de um prémio, e um bom leitor ou entendido do assunto literário jamais deverá render-se a essa coisa kitsch de prémios, meras sinecuras diletantes – pela não presença, nem sequer na dúzia de frade anterior de dois excelentes romances ingleses publicados este ano: Solar de Ian McEwan e A Viúva Grávida (The Pregnant Widow) de Martin Amis.
Há quem diga, usando a técnica futebolística de caracterização dos fenómenos, sejam eles de que índole for, é apenas o Booker in Motion.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Booker Prize 2010 – semifinalistas

Foi anunciada há poucos minutos a lista de romances semifinalistas que concorrem ao Booker Prize de 2010, patrocinado pelo grupo financeiro Man desde 2002. Para o vencedor, a anunciar no próximo dia 12 de Outubro*, está reservado um prémio monetário de 50.000 libras esterlinas, que corresponde, aproximadamente, a 60.000 euros.
Eis o habitualmente designado por “Booker’s dozen”** seleccionado pelo júri, que este ano é presidido por Andrew Motion, e que inclui 13 títulos de outros tantos autores (por ordem alfabética do apelido do autor – por enquanto, apenas uma obra está editada no mercado nacional, surgindo na listagem com o título em português):

  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Helen Dunmore, The Betrayal
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
  • David Mitchell, The Thousand Autumns of Jacob de Zoet
  • Lisa Moore, February
  • Paul Murray, Skippy Dies
  • Rose Tremain, Trespass
  • Christos Tsiolkas, The Slap
  • Alan Warner, The Stars in the Bright Sky

Notas: *Os seis finalistas serão anunciados no próximo dia 7 de Setembro.
**designação adoptada nos anos mais recentes pelos organizadores para a longlist, que tem a sua origem na expressão inglesa do século XIII “baker’s dozen” ou “dúzia dos padeiros” (tradução literal), que em Portugal se designa por “dúzia de frade”, que significa treze (uma dúzia de treze).
***(act.) Mais informação em português, aqui.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Booker Prize 2009 [última hora]

O vencedor do Man Booker Prize de 2009 é:



Ao fim de três horas de deliberação, o júri – este ano presidido pelo jornalista e ensaísta James Naughtie – atribuiu o mais prestigiado galardão a premiar um livro de ficção em prosa escrito originalmente em inglês no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda a Hilary Mantel, escritora inglesa (n. 1952), pelo seu romance Wolf Hall.
Mantel já havia sido uma dos 17 semifinalistas do mesmo prémio em 2005 – um dos melhores anos de sempre do Booker, com 6 finalistas de peso – com o seu romance Beyond Black.
Apesar de já haver publicado mais de uma dúzia de obras literárias, Mantel nunca viu um livro seu publicado em Portugal*.

* A não publicação de qualquer livro desta escritora em Portugal dever-se-á, decerto, a um qualquer veto ostensivo e oculto de Cavaco Silva, talvez travestido num cismático Henrique VIII, auxiliado pelo seu Cromwell, Fernando Lima, a necessitar de interpretação mais do que urgente (isto é, paga a peso de ouro) por Bettencourt Resendes, o equidistante Pedro Adão e Silva, Clara "Loira" Ferreira "Marquise" Alves, Teresa de Sousa, o isentíssimo e preclaro Daniel Oliveira, o erudito Luís Pedro Nunes, o não-sectário Emídio Rangel, o inefável Ferreira Fernandes, os sublevados Carlos Abreu Amorim e Pedro Marques Lopes, e os opinadores do independentíssimo Diário de Notícias (com o, hino antropomorfizado à deontologia profissional, Marcelino "the off the record man" à cabeça). Vedando-se, como é óbvio, todo e qualquer comentário ou mínima opinião, nem que seja fundada em 3 vocábulos apenas, aos fundamentalistas e diabólicos – agentes do império do mal – Nuno Rogeiro, Francisco José Viegas, Maria João Avillez, João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e sinistras (esqueçam o italiano) figuras afins, porque não conseguem (deliberadamente) captar os nefastíssimos miasmas de pobreza (boliqueimenses, são palavras sinónimas para o 1.º grupo) de um gasolineiro que singrou na vida e que se tornou, para além de um dos mais reputados professores catedráticos de Finanças Públicas – a par de figuras como Sousa Franco e Teixeira dos Santos –, com obra científica publicada e certificada, em Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro (1985-1995) e em Presidente da República Portuguesa (2006-?) pelo voto democrático de milhões de portugueses.    

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Booker Prize 2008 – Vencedor

Eis o romance vencedor do The Man Booker Prize for Fiction 2008:


Aravind Adiga – The White Tiger (Atlantic)

Adiga nasceu na cidade de Madrasta (actualmente Chennai) situada no Sul da Índia, a 23 de Outubro de 1974. É jornalista e colunista de publicações como o Financial Times ou o Independent. Actualmente, vive em Mumbai, antiga Bombaim. The White Tiger é o seu primeiro romance.

As palavras de Michael Portillo, presidente do júri encarregado de atribuir o prémio deste ano:
«Este romance assume a tarefa extraordinariamente difícil de conquistar e manter a simpatia do leitor por um vilão consumado. O livro ganha ao conseguir lidar com graves questões sociais e as grandes transformações mundiais através de um humor espantoso.»

Notas:

  • Adiga junta-se ao então dueto formado pela compatriota Arundhati Roy com a obra, agradável e lacrimejante, O Deus das Pequenas Coisas (The God of Small Things, 1997) e pelo australiano vagabundo, quase eclipsado – obsceno mas limpo – DBC Pierre com o magnífico e hilariante romance Vernon Little – O Bode Expiatório (Vernon God Little, 2003), por ter vencido o Booker com o primeiro romance da carreira.
  • O que dirá James Wood – se a isso for chamado – por mais este prémio que, certamente, estará na linha do, apelidado por si, realismo histérico? Cujos fiéis representantes, ainda segundo o crítico, são Zadie Smith e Salman Rushdie.
  • (facto insólito) Este ano, nenhuma das obras finalistas foi ainda editada em Portugal. Aguarda-se, então, por sensibilidade e bom senso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Áries

Rui PereiraPoderia ser o título de um novo romance de Don DeLillo – uma sequela do aclamado Libra de 1988, uma narrativa semificcional sobre o assassinato de John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, enquanto desfilava no seu Lincoln descapotável na Elm Street em Dallas, reconstruindo a figura de Lee Harvey Oswald (de signo Balança) e uma teia de conspirações de ex-agentes da CIA e de exilados cubanos, que o usaram como instrumento, em busca de uma desforra da calamitosa invasão da Baía dos Porcos.
Oswald depois de haver sido detido no próprio dia do assassinato, viria, dois dias depois, a ser alvejado mortalmente no abdómen por Jack Ruby, um conhecido dono de um clube de striptease de Dallas e com ligações à máfia, com relações privilegiadas com a polícia local, na garagem da esquadra de polícia, onde o primeiro se preparava para ser transferido para a prisão mais próxima.
Áries, ou Carneiro como é usado na nossa língua, regula astrologicamente a vida e a cabeça de um homem, chamado Rui Carlos Pereira – a importância dos três nomes… –, que por coincidência ou teoria conspirativa é o Ministro da Administração Interna da país da impunidade: Portugal – a propósito, e como recordar é viver, José António Cerejo escrevia este artigo no Público a 17 de Abril de 1999, onde, entre outros, surge por casamento e pelas (múltiplas) funções exercidas o nosso inefável homem dos aventais, na altura director do SIS que investigava a Universidade Moderna (todavia, não consta do seu breve currículo disponível na página oficial do Governo o exercício das funções de docência neste estabelecimento de ensino).
Ontem, o nosso ministro comparou o caso do homem baleado em plena esquadra de Portimão, ao assassinato de Oswald por Ruby, depois de o primeiro haver assassinado J.F. Kennedy, apenas e somente o 35.º Presidente dos E.U.A. Para além de haver revelado algumas debilidades indesculpáveis no conhecimento de factos históricos ocorridos há quase 45 anos, este homem depois de mais um dos inúmeros disparates verbais na tentativa de explicar o inexplicável, continua à frente de um dos ministérios chave para a necessária tranquilização da sentidamente insegura população portuguesa.

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Finalistas do Booker Prize de 2008 (anunciados ontem)

  • Amitav Ghosh – Sea of Poppies;
  • Aravind Adiga – The White Tiger;
  • Linda Grant – The Clothes on Their Backs;
  • Philip Hensher – The Northern Clemency;
  • Sebastian Barry – The Secret Scripture;
  • Steve Toltz – A Fraction of the Whole.

Com a excepção de Sebastian Barry (finalista em 2005), todos os outros são estreantes na lista dos finalistas do galardão máximo a premiar uma obra em língua inglesa, originalmente publicada no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou na Irlanda
Sinal dos tempos na literatura anglo-saxónica? Os novos romances dos autores consagrados John Berger e Salman Rushdie ficaram-se pela lista dos semifinalistas.
O vencedor será anunciado depois do habitual jantar no Guildhall em Londres no próximo dia 14 de Outubro.

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Nota importante: prossegue o interlúdio retemperador neste blogue. O autor continua com as suas férias até ao dia 22 de Setembro, altura em que se serão respondidos os e-mails e os comentários deixados nas respectivas caixas em anexo aos textos publicados.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Booker Prize 2008 (13 semifinalistas)

Foi anunciada a lista dos treze romances semifinalistas, candidatos ao Man Booker Prize de 2008. Destes treze romances sairão, no próximo dia 9 de Setembro, os habituais seis finalistas, entre os quais figurará o vencedor a ser anunciado no dia 14 de Outubro no habitual jantar no Guildhall em Londres.

Eis os 13 semifinalistas (lista organizada por ordem alfabética do apelido do autor):

  • Aravind Adiga, The White Tiger
  • Gaynor Arnold, Girl in a Blue Dress
  • Sebastian Barry, The Secret Scripture
  • John Berger, From A to X
  • Michelle de Kretser, The Lost Dog
  • Amitav Ghosh, Sea of Poppies
  • Linda Grant, The Clothes on Their Backs
  • Mohammed Hanif, A Case of Exploding Mangoes
  • Philip Hensher, The Northern Clemency
  • Joseph O’Neill, Netherland
  • Salman Rushdie, The Enchantress of Florence
  • Tom Rob Smith, A Criança n.º 44, Dom Quixote (Child 44)
  • Steve Toltz, A Fraction of the Whole

Dos 13 romances, apenas um foi, por enquanto, editado em Portugal, trata-se de A Criança n.º 44, o 1.º romance do jovem escritor inglês Tom Rob Smith (n. 1979) publicado pela Dom Quixote, editora que aliás já prometeu a edição para breve do último romance de Sir Salman Rushdie (o amigo literário do crítico britânico James Wood, não atingindo, porém, o paroxismo da sólida amizade que une o autor aos islamitas e vice-versa).

Destaque para a segunda presença do truculento crítico, ensaísta e romancista, assim como artista plástico, John Berger, vencedor do galardão em 1972 (para os mais curiosos, o excepcional ano do meu nascimento) com o romance G. Berger, no discurso de aceitação do prémio, disse que iria doar metade do seu prémio aos então já extintos Black Panthers, devido à política colonialista da sociedade Booker nas Índias Ocidentais (desconhecendo, porém, que as suas plantações de cana-de-açúcar já haviam sido confiscadas pelo menos 10 anos antes). Dois tiros pouco certeiros… mas o show off teve o mérito de ficar marcado na história dos prémios, com insultos, trocas de acusações à mistura e abandonos de sala.

Para o irlandês Sebastian Barry (n. 1955) trata-se da segunda nomeação, depois de ter sido finalista vencido no excepcional ano de 2005 – ano em que venceu John Banville com o dilacerante O Mar (The Sea), relegando para segundo plano, para além do romance A Long Long Way (não editado em Portugal) do próprio Barry, o meu mais que favorito Nunca Me Deixes (Never Let me Go) de Kazuo Ishiguro, A Acidental (The Accidental) de Ali Smith, Uma Questão de Beleza (On Beauty) de Zadie Smith e Arthur & George (Arthur and George) de Julian Barnes.

Também Linda Grant, romancista e jornalista inglesa nascida em 1951, vê pela segunda vez um dos seus romances na listagem dos semifinalistas. Para além deste ano, Grant ficou-se por esta fase com o romance Still Here (não editado em Portugal) em 2002. Exactamente como o seu compatriota Philip Hensher (n. 1960) com The Mulberry Empire (obra não editada em Portugal).

Já Salman Rushdie para além de ter vencido os Booker of Bookers comemorativos dos 25 e dos 40 anos de atribuição do prestigiado prémio com o seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight’s Children, Booker Prize em 1981), foi finalista vencido em 1983, 1988 e 1995 com Vergonha (Shame), Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) e O Último Suspiro do Mouro (The Moor’s Last Sigh), respectivamente. No tal ano de 2005 ficou merecidamente pelo caminho como apenas semifinalista com Shalimar, O Palhaço (Shalimar The Clown), podendo gabar-se de ter tido por companhia Ian McEwan com Sábado (Saturday) e o Nobel da Literatura de 2003 J.M. Coetzee com O Homem Lento (Slow Man), também eliminados do sexteto final.

Os restantes elementos vêem pela primeira vez o seu nome inscrito numa listagem do galardão literário mais importante da língua inglesa a premiar uma obra originalmente publicada no Reino Unido, num dos países pertencentes à Commonwealth ou na Irlanda – correm, no entanto, rumores que a Booker Prize Foundation com o grupo financeiro Man têm vindo a estudar a hipótese de alargar o leque de alternativas permitindo a inclusão de obras de romancistas norte-americanos, originalmente publicadas nos Estados Unidos; resta esperar para ver se a tal apetecível perspectiva se concretiza.

Uma pequena provocação: apesar das discrepâncias geográficas, não passa pela cabeça dos organizadores do evento alterar as regras do galardão maior em língua inglesa, para, por exemplo, na próxima edição apenas incluírem na listagem de obras sujeitas a apreciação, aquelas que foram escritas exclusivamente por autores ingleses… do you know what I mean? (tradução: vocês sabem do que é que eu estou falando?)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Sir Booker of Bookers

Salman Rushdie Salman Rushdie (n. Bombaim, 19 de Junho de 1947) venceu o Best of the Booker award

O escritor anglo-indiano Salman Rushdie venceu a votação para a eleição do melhor dos romances vencedores do Booker Prize (com 36% dos votos), pelo seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 1981), na comemoração dos 40 anos do prémio literário mais prestigiado da língua inglesa (exceptuando os E.U.A.), que tem vindo a ser atribuído desde 1969 e que já premiou 41 romances (por duas vezes com vencedores ex aequo, em 1974 e 1992).
Já em 1993, a propósito da comemoração dos 25 anos de atribuição do galardão, Rushdie havia vencido o Booker dos Bookers.
Quinze anos volvidos Rushdie voltou a vencer, desta feita com a votação aberta ao público em geral, após a escolha por um júri dos 6 finalistas a concurso (que incluiu Pat Barker com The Ghost Road, 1995; Peter Carey com Oscar e Lucinda, 1988; J.M. Coetzee, Desgraça, 1999; J.G. Farrell, The Siege of Krishnapur, 1973; e Nadine Gordimer, O Conservador, 1974).

Eis um excerto do Livro Primeiro, 1.º Capítulo, “O Lençol Furado”:
«Nasci na cidade de Bombaim... um certo dia. Não, não pode ser assim. A data exacta. Nasci na maternidade do Dr. Narlikar no dia 15 de Agosto de 1947. Horas? A hora também é importante. Pois seja: foi de noite. Não, procuremos ser mais... Foi exactamente ao bater da meia-noite. Os ponteiros do relógio uniram as palmas das mãos para me cumprimentarem respeitosamente e me darem as boas-vindas. Há que dizer tudo: fui dado à luz no exacto momento em que a Índia se tomava independente. Continha-se a respiração. Do lado de fora da janela misturava-se o estralejar do fogo-de-artifício com a algazarra da multidão. Poucos segundos depois, o meu pai fracturou o dedo grande do pé; acidente insignificante em comparação com aquilo que me acontecia a mim naquele momento da noite; graças à tirania oculta dos relógios delicadamente acolhedores, eu passava a estar misteriosamente ligado à história e o meu destino indissoluvelmente unido ao do meu país. Durante as três décadas seguintes, ser-me-ia impossível escapar. A minha chegada tinha sido profetizada pelos adivinhos, celebraram-na os jornais, os políticos ratificaram a minha autenticidade. Não me foi consentido qualquer voto na matéria. Eu, Saleem Sinai, mais tarde chamado também Muco-na-Penca, Cara-Manchada, Careca, Sorve-Ranho, Buda e até Pedaço-de-Lua, fiquei definitivamente comprometido com o destino... as mais das vezes perigosamente amarrado a esse compromisso. E nessas alturas não tinha quaisquer possibilidades de me assoar.
Entretanto, o tempo (uma vez que não sei o que fazer de mim) está agora a chegar ao seu termo. Completarei em breve trinta e um anos. Se calhar. Se este meu corpo velho e escangalhado o permitir. Mas não me restam grandes esperanças de me salvar, não tenho pela frente sequer mil noites e uma noite. Tenho de ser rápido, mais rápido do que Xerazade, e é se quero deixar claro o sentido... Sim, o sentido. Não há nada que eu receie mais do que o absurdo.
»
Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite, pág. 13.
Lisboa: Dom Quixote, 4.ª edição, Maio de 2003, 428 pp. (tradução de Manuel João Gomes; obra original: Midnight's Children, 1981).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pobre Antonia

Por estes dias, a recente e louvavelmente criada editora Sextante – que começou por se chamar Sudoeste e modificou o nome para evitar possíveis mal-entendidos com outras editoras existentes, optando por um novo que, de forma estranha, é igual à de outra existente no Brasil – publicou a, até hoje considerada, obra-prima da romancista, ensaísta, crítica literária e ex-professora universitária Antonia Susan Byatt (assina o seus trabalhos como A.S. Byatt), nascida em 1936 em Sheffield em Inglaterra, Possessão (Possession, 1990).
Esta obra permitiu à escritora britânica juntar o seu nome ao restrito conjunto de autores que venceram o mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção publicada originalmente em língua inglesa (Estados Unidos não incluídos), o célebre Booker Prize. E se acrescentarmos que, até 2007 (inclusive), dos 41 prémios distribuídos desde 1969 (tanto em 1974 como em 1992 houve dois vencedores ex aequo, Middleton e Gordimer, e Ondaatje e Unsworth, respectivamente) apenas 14 foram atribuídos a mulheres, o valor da vitória ganha outros matizes de excelência.
Por estes dias vou terminando a sua leitura, que diga-se, a talho de foice, não é nada fácil. Porém, posso desde logo confirmar de que se trata de um romance minuciosamente trabalhado, de uma excelente obra, com um arcaboiço literário invejável capaz de retirar o fôlego a mentes menos avisadas nas artes literárias. Para além da técnica narrativa recorrentemente analéptica, pejada de saltos históricos entre os séculos XIX e XX (hoje), e do percebido conhecimento aprofundado dos poetas, das suas obras e biografias, dos períodos romântico e vitoriano (Wordsworth, Arnold, Tennyson, S.T. Coleridge, Byron, Keats, etc.), de mitologia grega, do folclore nórdico e celta, e de filosofia, Byatt alterna dentro da mesma obra as formas narrativas do conto, da poesia, da prosa epistolar e diarista, do romance profusamente descritivo dos personagens, ambientes e objectos e dos diversos locais por onde se vai desenrolando a trama, a diálogos bem elaborados, com uma grande dose de humor e de ironia normalmente apontada à vida académica contemporânea, caracterizada por um estado de guerrilha latente, de invejas e de compadrios – só quem por lá anda ou andou consegue rever-se na descrição da envolvente tão bem articulada pela autora inglesa.

Bom, mas o que me levou à elaboração deste já longo texto irónico-interrogativo, nada teve que ver com a obra em si mesma, mas com a coincidência estranha da forma como a edição desta obra foi noticiada pela imprensa da especialidade1.
Já
aqui havia referido o texto publicado a propósito de Possessão no último número da renovada revista Ler que, pelos laconismo e brevidade, apenas, na minha maneira de ver, teve como resultado um dispêndio despropositado de espaço e de caracteres: «Empreendimento no mínimo volumoso, acaba de sair Possessão […]»
Desta feita, a honras cabem ao JL, que na sua última edição (n.º 982, de 21 de Maio) refere o seguinte na página 29: «Há mistérios insondáveis na tradução portuguesa. Possessão – Uma História de Amor de A. S. Byatt é um deles. Escrito em 1990 [será?], foi distinguido com o Man Booker Prize [o grupo Man, plc só começou a patrocinar o Booker Prize desde 2003] no mesmo ano. Mas só agora foi traduzido do inglês.»
Mistério insondável? Porquê? Tratar-se-á de uma ironia, em tom de ferroada, ao editor português, que em boa hora se lembrou de colmatar esta lacuna no mercado livreiro de língua portuguesa? Ou será um puxão de orelhas a todo o meio editorial nacional pela falta de sensibilidade na escolha das obras estrangeiras a editar no nosso país?
Ora, em quase 40 anos de Booker Prize (1969-2007), foram premiadas cerca de 41 obras de ficção, das quais 26 foram editadas em português europeu e 15 não mereceram essa atenção – destas 15 há quatro obras posteriores a Possessão de A.S. Byatt: é o caso das obras vencedoras em 1991, 1992, 1994 e 1995, respectivamente, The Famished Road de Ben Okri; Sacred Hunger de Barry Unsworth; How Late It Was, How Late de James Kelman; e The Ghost Road de Pat Barker. Curiosamente, esta última foi nomeada, em conjunto com mais 5 obras de outros tantos escritores vencedores do Booker, para a eleição aberta ao público em geral para o prémio “The Best of the Booker Prize” a propósito da comemoração dos seus 40 anos de existência. Neste caso e naqueles termos, estamos perante um mistério ainda mais insondável, sabendo que a escritora inglesa (n. 1943) conta já com duas das suas onze obras de ficção editadas em português, nenhuma das quais pertence ao grupo das suas três (incluíndo The Ghost Road) que foram contempladas com prémios literários.

Mas o verdadeiro problema do mercado editorial português, se nos abstivermos do critério do potencial êxito comercial, normalmente associado a obras de qualidade duvidosa, está nos autores que jamais viram as suas respectivas obras penetrarem no mercado luso, embora sejam internacionalmente reconhecidos por diversos méritos estritamente relacionados com a questão literária; ou naqueles de reconhecidíssimo mérito cuja obra completa editada na nossa língua está muito longe de ser alcançada.
Há cerca de um mês elaborei uma listagem, que ficou no segredo dos meus ficheiros pessoais, que incluía 50 obras fundamentais de 10 autores norte-americanos2 que jamais viram a luz do dia (ou o negro tipográfico) na língua de Camões (embora algumas tenham sido editadas em português do Brasil). Após a realização daquele empreendimento e por mera coincidência, uma semana bastou para a lista passar da sua configuração de 10/50 para 10/49, uma vez que a editora portuense Civilização acabara de lançar no mercado uma das obras referenciadas na dita lista, Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) de John Updike. E até sei que, pelas mãos da editora acossada pela publicação da obra de Byatt, a cifra passará, em breve, para 10/48, já que se prevê a edição da obra-prima de um dos mestres da literatura contemporânea: Underworld (1997) de Don DeLillo. Será, da mesma forma, um empreendimento volumoso e/ou um mistério insondável?
A ver vamos.


Notas:

  1. Antes de Possessão, já se encontravam editados em Portugal um romance e um conto de A.S. Byatt: A Fábula do Biógrafo (ed. port. Temas e Debates, 2003; The Biographer’s Tale, 2000) e, curiosamente, um conto de fadas extraído do romance Possessão (ed. port. Sextante, pp. 67-77), chamado O caixão de vidro (ed. port. Tempus, 1997; The Glass Coffin incluído na colectânea de contos da autora The Djinn In The Nightingale's Eye, 1994).
  2. Autores referenciados na lista pessoal: John Barth (1930), Donald Barthelme (1931-1989), Saul Bellow (1915-2005), Don DeLillo (1936), Vladimir Nabokov (1899-1977), Thomas Pynchon (1937), Philip Roth (1933), Norman Rush (1933), John Updike (1932) e David Foster Wallace (1962).

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Desgraça [actualização e correcção]

Tristeza. Desgraça. (Para quem tem filhos pequenos, ou já netos, ou acabou há pouco tempo de sair da mirabolante fase da pubescência, sabe a que me refiro).
O grupo Cofina (que se auto-elogiam por XL), sempre generoso com os seus leitores, especialmente na antecipação noticiosa às partes dos processos nas decisões disciplinares emanadas pelo Conselho de Disciplina da Liga de Clubes – o novo pavão, talvez XL, das lides jurídicas assim o vai permitindo com a sua voz de falsete – ou nos despachos de determinados magistrados do Ministério Público – aliás, apenas materializam as incasáveis palavras de Sócrates e dos seus pares, quando se referem à necessidade do estabelecimento de parcerias público-privadas –, desta feita renovou o oferecimento de livros (numa série de oito, por apenas mais 1 euro) todas a quintas-feiras, numa parceria (ao analisar os títulos, chega-se facilmente aos detentores dos direitos de publicação) com as editoras LeYa (7 obras) e Bertrand (1 obra) [ver nota 2 da adenda], curiosamente unidas por comunicados lacónicos onde confirmam a sua ausência da Feira do Livro do Porto. E que tal um boicote aos seus produtos...
No encarte que acompanhou o primeiro livro – que não comprei, e sim, este sim seria oferecido, apesar do pagamento de quase 3 euros por uma revista sem conteúdo aproveitável, e se juntarmos a esta eminência das revistas semanais a autora do livro ofertado, Laura Esquivel, a Ana, Mais Atrevida aproximou-se a passos largos, sem o querer, da qualidade da revista britânica The Economist ou similares –, que uma amável funcionária de uma tabacaria me deixou trazer, vem o alinhamento datado das obras a acompanhar a dita revista: Esquivel, Colleen McCullough, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Nadine Gordimer, Paul Auster, Joseph Coetzee e Mário [sic] Vargas Llosa.
Joseph Coetzee? Quem é? Será aparentado com o John Maxwell, o escritor sul-africano, Nobel da Literatura em 2003? Pai, irmão, filho? Avô, bisavô, neto ou bisneto? Mas John Maxwell nasceu em Fevereiro de 1940, tem 68 anos…

Pois claro, foi erro tipográfico. Onde se lê “Joseph” deveria figurar “J.M.”. Aliás, pela similitude, constata-se facilmente que se tratou de um pequeno lapso. Ignorância? Falta de zelo? Jamais (na acepção liniana). Já agora poderiam acrescentar a estas oito obras, uma de J.M. Conrad (ora, para aí... o excepcional Nostromo, porque foi em tempos publicado por uma empresa da LeYa).

Desgraça (Disgrace, 1999), é o título de John Maxwell que sairá a 19 de Junho próximo na dita cuja revista – segunda obra do autor a ser galardoada com o Booker Prize e que neste momento se encontra na lista final, à disposição dos internautas, para a eleição do Booker dos Bookers, na celebração dos 40 anos de existência do mais famoso prémio a galardoar uma obra de ficção original, escrita em língua inglesa, proveniente do Reino Unido, da Irlanda ou dos restantes países da Commonwealth.

Eis a listagem completa:

  • Pat Barker, The Ghost Road, 1995;
  • Peter Carey, Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda, 1988);
  • J.M. Coetzee, Desgraça (Disgrace, 1999);
  • J.G. Farrell, The Siege of Krishnapur, 1973;
  • Nadine Gordimer, O Conservador (The Conservationist, 1974);
  • Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 1981)*.

*Vencedor do Booker dos Bookers na comemoração dos 25 anos de entrega do prémio.

Adenda [18:43, 15/05/2008]

  1. Actualização – na edição desta semana da revista do grupo Cofina, a Sábado, o “Joseph Coetzee” deu lugar a “John Coetzee”. Digamos que se tratou de uma tentativa de emendar a mão sem dar o braço a torcer, transmitindo de novo a ideia de que se tratou de um erro tipográfico. Mal, muito mal. Quando se erra e se adquire a plena consciência desse erro a melhor forma de o emendar é a assunção sem subterfúgios do seu cometimento. Ora, que eu saiba, o Nobel da Literatura sul-africano assina sempre os seus trabalhos como J.M. Coetzee, onde se inclui o romance publicitado, Desgraça (Disgrace, 1999), correspondendo as primeiras iniciais aos seus dois primeiros nomes John Maxwell.
  2. Correcção – Ao contrário do que aqui havia referido, as 8 obras “ofertadas” pela benemérita Cofina, pertencem todas ao grupo editorial LeYa. Assim, no caso da obra da escritora australiana Colleen McCullough, Pássaros Feridos (The Thorn Birds, 1977), apesar de circular uma versão da mesma obra sob a chancela da Difel com direitos de publicação partilhados com a Bertrand, neste momento é a Asa II (pertencente ao grupo LeYa) a detentora dos direitos. Corrigido o erro, não invalida o considerando posterior sobre o virar de costas de ambos os grupos editoriais (LeYa e Bertrand) para a cidade do Porto, pelas anunciadas ausências da edição deste ano da Feira do Livro, que irá decorrer entre 21 de Maio e 10 de Junho no Pavilhão Rosa Mota.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Booker perifrástico

Eis duas das vantagens dos prémios literários – para além do enriquecimento súbito do galardoado –, a curiosidade, tão humana, de verificar se o júri indigitado para a sua atribuição não se enganou – prática conhecida como metamorfose acelerada do leigo em crítico literário – ou de indagar se aquele se serviu de expedientes ínvios para promover uma obra e/ou o seu autor, em desconformidade ao sentido ético da tarefa – aqui o leigo transforma-se num afanoso inspector da moralidade da causa literária.
Em suma, onde há prémio há sentença popular. E, seguindo a regra, eu, um diletante das artes literárias, cumpri, adquirindo para o efeito a única obra editada em Portugal da escritora irlandesa, recentemente galardoada com o Booker Prize, Anne Enright.
Trata-se de um romance, editado no nosso país pela Teorema, sob o título sugestivo – e atente-se na harmonia imagética – O Prazer de Eliza Lynch (The Pleasure of Eliza Lynch, 2002), o quinto trabalho da autora, o seu terceiro romance, o antecessor imediato a The Gathering (2007), o tal que recebeu o Booker.

Abre-se o livro, lêem-se os créditos, e a seguir à dedicatória aparece um pequeno exórdio de duas linhas:
«Esta é a história de como ela o enterrou com as suas próprias mãos, nas encostas do Cerro de Corá.» (pág. 7)

Depois da curta introdução, surge o corpo através de uma concepção perifrástica (analéptica, de pendor didáctico) em Paris, Março de 1958:
«Francisco Solano López introduziu o pénis em Eliza Lynch num lindo dia de Primavera em Paris, a 1854.» (pág. 9)


Dei por mim a reflectir – acção que (in)felizmente tem abundado por estes lados, por motivos inúteis – em como o diriam Roth ou DeLillo?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Factor Lessing [actualizado]

The Man Booker Prize for Fiction 2007

Anne EnrightAnne Enright (Irlanda, 1962) com a obra The Gathering (Jonathan Cape).

Notas [actualização às 00:31, dia 17]:
  1. Autora do artigo «Disliking the McCanns», publicado no n.º 19, vol. 29 (4 de Outubro de 2007) da London Review of Books.
  2. Ao ler e reler as palavras proferidas pelo Presidente do júri do Booker Prize deste ano, Howard Davies, no momento do anúncio da atribuição do prémio, e aquelas que fazem parte da sinopse oficial do romance de Enright, apercebi-me de que existe uma estranha, porém perfeita, harmonia entre a obra e o factor perturbador do meu actual estado de espírito. Coincidências...
  3. A Ladbrokes continuou certeira. À hora de fecho das apostas, The Gathering figurava na última posição com uma probabilidade de vencer de 9/1. Felizes apostadores...
  4. Agora para algo completamente diferente, os fusíveis do profícuo INLAND EMPIRE cerebral de David Lynch colapsaram em definitivo.
  5. As palavras de Howard Davies, director da London School of Economics and Political Science: «[o romance] The Gathering é um olhar inflexível sobre uma família enlutada. É a visão desoladora de uma mulher, uma desolação enraizada na sua família, no seu casamento e na morte do seu irmão.» [tradução livre, AMC]
  6. Errando agora pela Estrada Perdida, acaso repararam na expressão facial de Shimon Peres ao ouvir falar da meditação transcendental como remédio para a resolução do conflito israelo-palestiniano?
  7. «Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais...» Pobres Florence e Edward.

McEwan versus Jones

Os dois favoritos entre seis finalistas, e o vencedor será…
Ou haverá lessing? (novo vocábulo da língua inglesa que designa a "atribuição de um prémio literário ao menos provável dos autores; erro clamoroso de prognóstico por comportamento volátil de outrem; (figurado) travessura sueca")
Logo, pelas 22 horas, hora de Lisboa, será anunciado numa cerimónia que decorrerá no Guildhall de Londres o
Booker Prize de 2007.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Só mais um esforço, Ian

Ian McEwan
Acaba de ser anunciada a lista de finalistas do mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção em terras de Sua Majestade mais a Irlanda.
Falo, claro, do Man Booker Prize for Fiction.

O favorito para 2007 mantém-se na corrida: Ian McEwan com o seu arrasador Na Praia de Chesil (On Chesil Beach), romance que foi publicado simultaneamente em Portugal (Gradiva) e no Reino Unido (Jonathan Cape).

Eis os seis finalistas – três das obras já se encontram editadas em Portugal:

  • Darkmans, de Nicola Barker;
  • The Gathering, de Anne Enright;
  • O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, Civilização (The Reluctant Fundamentalist);
  • Mr. Pip, de Lloyd Jones, Estampa (Mister Pip);
  • Na Praia de Chesil, de Ian McEwan, Gradiva (On Chesil Beach);
  • Animal’s People, de Indra Sinha.

McEwan venceu, merecidamente, o Booker Prize em 1998 com o seu romance Amesterdão e foi finalista vencido em mais três ocasiões: em 1981 com a obra Estranha Sedução (The Comfort of Strangers, adaptado ao cinema por Harold Pinter num filme de 1990 do realizador norte-americano Paul Schrader); em 1992 com o fabuloso romance Cães Pretos (Black Dogs); e em 2001 com Expiação (Atonement, romance adaptado este ano ao grande ecrã pelo dramaturgo e argumentista luso-britânico Christopher Hampton – responsável, entre outras, pela adaptação ao cinema da obra de Choderlos de Laclos, Ligações Perigosas, magistralmente dirigido por Stephen Frears –, realizado pelo inglês, meu coetâneo, Joe Wright). Expiação é, no meu entender, a obra-prima de McEwan e uma das melhores obras da literatura britânica contemporânea.

Se McEwan vencer o Booker de 2007, juntar-se-á ao grupo restrito de escritores que desde 1969 – data de fundação do prémio – o venceram por duas vezes:

  • J. M. Coetzee, com A Vida e o Tempo de Michael K (Life & Times of Michael K) em 1983 e Desgraça (Disgrace) em 1999;
  • Peter Carey, com Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda) em 1988 e A Verdadeira História de Ned Kelly (True Story of Kelly Gang) em 2001.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Contemporaneidades

Multiculturalismo e globalização. Choque de culturas e dominação. Pobreza e poderio económico. A arte e a cultura contemporâneas veiculam até à exaustão aqueles chavões. Para onde caminhamos? Caminhará este mundo sobrelotado, de forma inexorável, para a sua autodestruição? Que remédios aplicar para combater o actual estado de insensibilidade perante a miséria, a crueldade e a exploração humanas? Será um sinal dos tempos ou a aqueles atributos da condição humana sempre prevaleceram na História da humanidade? Estaremos mais cientes agora desses defeitos, à medida que progridem a divulgação da informação, a ciência e a tecnologia? Ou a única diferença entre a actualidade e os tempos de outrora radica na possibilidade das vozes de uma ínfima minoria poderem ser ouvidas, já que nesses tempos idos eram silenciadas pela inacessibilidade aos meios de comunicação?
Atrevo-me a dizer, sob pena de ser crucificado pela ínfima comunidade de leitores que se dá ao trabalho de ler os meus textos, que a arte não dá respostas, limita-se a constatar e a anunciar ao mundo o estado a que as coisas chegaram numa óptica perfeitamente subjectiva ou até intimista – não significando, porém, que seja desinteressada –, havendo quem divague sobre a sua aparente inutilidade, levando a que haja quem nela vislumbre uma profunda carência de capacidade transformadora da humanidade.
Nada de mais errado. Essa é a habitual e típica deturpação praticada pelo filisteu, a negação do necessário poder interpretativo, do símbolo, do cariz mediato da obra de arte. Ela deixa uma porta aberta para a descoberta do mundo sob determinada perspectiva que até ao seu surgimento desconhecíamos, e que só se materializou dada a sua capacidade única de estimuladora da consciência ou da interiorização de um problema que em silêncio pairava sobre as nossas cabeças sem se anunciar ou manifestar.
Em suma, uma das funções da arte é a de veicular um ou vários estados de alma, daí a sua inevitável característica de ostentação, não há artista que esconda o produto da sua criatividade quando pensa que esse objecto encerra uma mensagem – e como toda a mensagem, carece de um receptor – que abale o âmago das nossas convicções e da nossa ufana certeza de superioridade cultural.

A conversa já vai longa, e o que aqui se pretende é falar sobre o último livro vencedor do Booker Prize, atribuído em 2006, intitulado A Herança do Vazio, da autora indiana, nascida em 1971, Kiran Desai:
Já na segunda metade da obra, teorizava-se sobre “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski (conversa entre três mulheres, uma hindu – a bibliotecária, uma cristã ocidentalizada – Noni – e a outra uma adolescente indiana nascida em solo russo e cristã de educação – a protagonista, Sai):
«
– Fiquei um pouco assombrada com a escrita, e, em parte, confusa – declarou Noni – com estas ideias cristãs da confissão e do perdão; colocam o fardo do crime as costas da vítima! Se nada pode reparar a má acção, porque há-de o pecado ser invalidado?
De facto, todo o sistema parecia favorecer os criminosos, em detrimento dos justos. Podia-se ter um mau comportamento, mas mostrando-se arrependimento poder-se-ia desfrutar de uma diversão adicional e ser reintegrado no mesmo cargo que a pessoa que nada tinha feito e que, agora, tinha de sofrer o crime e a dificuldade de perdoar, sem haver nenhum aspecto positivo em toda esta situação. Então, evidentemente, as pessoas sentiam-se mais livres do que nunca para pecar, estando cientes de tal rede de segurança: lamento, lamento, oh, lamento tanto, tanto.
Como delicados pássaros a voarem, podia-se libertar tais palavras.
A bibliotecária, que era cunhada da médica que todos consultavam em Kalimpong, retorquiu:
– Nós, os hindus, temos um sistema melhor. Cada um tem o que merece e não pode escapar as suas acções. E, pelo menos, os nossos deuses parecem deuses, não é? Como o Rajá Rani. Não como aquele Buda ou Jesus… tipos pedintes.
Noni:
– Mas nós também nos escapámos! Não nesta vida, dizemos nós, mas noutras, talvez…
Sai acrescentou:
– Piores são aqueles que julgam que os pobres devem morrer a fome, pois são as suas próprias más acções em vidas passadas que estão a causar-lhes problemas…
A verdade era que se ficava de mãos vazias. Não havia sistema que atenuasse a injustiça das coisas; a justiça não tinha competência; podia deter o ladrão de galinhas, mas grandes crimes evasivos teriam de ser ignorados, pois, se fossem identificados e apanhados nas malhas da lei, fariam desmoronar toda a estrutura da pretensa civilização. Por crimes que ocorriam nas monstruosas relações entre nações, por crimes que ocorriam naqueles espaços íntimos entre duas pessoas, sem qualquer testemunha, por estes crimes, os culpados nunca pagariam. Não havia religião nem governo que mitigasse o inferno.
» (pp. 258-259)

À primeira vista, Desai escreveu uma obra à laia de manifesto, típica de algum messianismo que se costuma apontar aos autores da nova vaga da literatura que despontaram na confirmação da era da globalização e do multiculturalismo.
A tentação é grande, vivemos tempos de incerteza e de medo, de angústia perante um futuro que nem os mais afinados oráculos ousam em confirmar, sendo que se unem na verdade abstracta da inevitável catástrofe.
Porém, A Herança do Vazio não é nada mais que um relato de como se manifesta a inquietude do ser humano nos tempos que correm, não tendo pretensões – pelo menos que haja vislumbrado na sua leitura – a apontar o rumo certo, em que a autora se arroga ao desempenho de um papel ou à descoberta de uma fórmula mágica que busque a redenção da humanidade. É antes a saga de pessoas e das suas famílias, de ricos e pobres, de instruídos e de iletrados, do choque de culturas entre o ocidente e o oriente, da sensação de desterro e da precariedade dos valores e das crenças que supostamente se haviam tornado definitivos, donde deriva uma batalha surda na defesa de algo que convictamente já se sabe que se perdeu: um juiz que vive o ocaso da sua vida na triste certeza da inutilidade da sua existência construída sobre uma mentira piedosa que se avolumou, num efeito de bola de neve, com o passar dos anos; uma jovem indiana, neta do juiz, que vive o confronto entre a cultura do seu país e os valores ocidentais que lhe foram sendo incutidos; um jovem nepalês que se vê a braços com o mesmo dilema, todavia de forma invertida, de origens humildes e em contacto com a instrução e os valores ocidentais no momento em que dá explicações à adolescente; um imigrante indiano ilegal nos Estados Unidos que criara uma aura de vencedor na sua terra pela profissão que exerce na terra de todos os sonhos e que é o orgulho do pai, cozinheiro, que vive a sua vida nessa falsa certeza de um futuro promissor; duas velhas irmãs britânicas que teimam em viver sob os preceitos da tradição colonial e da fleuma da terra de Sua Majestade; um padre cristão benemérito que se refugiou na beleza espectral dos Himalaias e nas tertúlias alcoólicas com um homem ocidental que aí se refugiou das sentenças do seu mundo. É esse amontoado de retalhos que juntos fazem uma manta cujo destino parece entregue à simples inutilidade, ao tremendo vazio de que fala o título.
A escrita flui nas cerca de 420 páginas que compõem o livro. Contudo, quer-me parecer – e quem sou eu para aferir esses itens – que aqui e ali podemos encontrar um estilo de narrativa saído directamente de um curso de escrita criativa, que parece não colar e até, a dados momentos da intriga, distrair e com isso prejudicar o fio condutor do romance. Em consequência disso:

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Kiran Desai, A Herança do Vazio. Porto: Porto Editora, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 414 pp. (tradução de Vera Falcão Martins; obra original: The Inheritance of Loss, 2006).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Booker Prize 2006 - Em Portugal

Estará brevemente disponível em língua portuguesa o romance The Inheritance of Loss da escritora de origem indiana Kiran Desai, vencedor do Man Booker Prize for Fiction de 2006, sucedendo-se, na galeria dos notáveis, à pequena obra-prima O Mar do meu muito apreciado autor irlandês John Banville.
A Herança do Vazio – título que recebeu em Portugal – foi editado pela
Porto Editora que, finalmente, se lançou no mercado editorial da ficção.

De notar que, com a publicação deste romance, três dos seis finalistas do prestigiado prémio já se encontram editados na nossa língua – galardão atribuído a obras de ficção originalmente editadas em língua inglesa no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda –, juntando-se, assim, ao excepcional romance de Sarah Waters, O Vigilante, editado pela Bizâncio, o qual considerei estar entre os dez melhores livros de ficcção estrangeira editados em Portugal em 2006 e por mim lidos até 31 de Dezembro do ano passado (
ver aqui), e ao recentemente estreado Em terra de Homens, de Hisham Matar, publicado pela Civilização Editora, que já aqui dei conta.

Para ler um excerto do 1.º capítulo da obra,
carregar aqui.

Até à sua compra, seguida de leitura, parafraseando o bombo de festa dos blogues que, de certa forma, se dedicam à coisa literária, bons livros!


Nota: Para obter mais informações sobre esta obra, aceder a esta página da Porto Editora.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Booker Prize 2006 – Finalistas

Hermione Lee, presidente do júri para a atribuição do Man Book Prize for Fiction deste ano, anunciou a lista dos seis romances finalistas:

  • Kiran Desai – The Inheritance of Loss;
  • Kate Grenville – The Secret River;
  • M.J. Hyland – Carry Me Down;
  • Hisham Matar – In the Country of Men;
  • Edward St Aubyn – Mother’s Milk;
  • Sarah Waters – The Night Watch.

A lista de finalistas deste ano é maioritariamente composta por escritoras – quatro ao todo.
De notar que, ao contrário do ano anterior, nenhum dos romances foi ainda editado para o mercado português.

Nota: Ver aqui a notícia, que inclui uma breve declaração de Hermione Lee e as sinopses dos romances seleccionados.