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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

«Só perdemos três pontos…»

Arsenal - FC Porto (30/09/2008)
É esta a mentalidade. A frieza dos números. Os três pontos perdidos numa exibição miserável de uma equipa que, só por acaso, envergava a camisola com o emblema de um clube que já por duas vezes venceu a Taça dos Campeões.
Não é que não possa acontecer. Ele há dias maus. O que dificilmente poderei aceitar como adepto e sócio do clube há quase trinta e três anos é o discurso da mediocridade, da desculpabilização do indesculpável, da legitimação da incompetência, da vergonha.
E foram só quatro…
Mas se fossem dez ou onze tudo leva a crer que a arengada passiva pós-coital se manteria. A equipa é jovem, o ambiente foi terrível, jogou-se bem até ao primeiro golo sofrido… depois, foi só deixar correr o marfim… por um ou por vinte, que importa?
Jamais aceitarei um discurso desta estirpe que, mais do que a derrota, me revolve as entranhas e deixa num estado de náusea perante a pequenez.
Não se pode apelar à compra dos lugares anuais, ao Dragão cheio, ao apoio incondicional da equipa e/ou à paciência dos adeptos com comportamentos destes. Está longe das expectativas criadas no fervoroso adepto no início de cada época.
Se o discurso é legítimo, e ademais tacitamente sancionado pelos emudecidos dirigentes do meu clube do coração, então que se tenha a coragem de abandonar de vez a competição internacional, dedicando-se a prestar os serviços mínimos na competiçãozinha interna, onde se reina com um só olho (que enfrenta sérios riscos de perder irremediavelmente a visão).
Está em causa o nome de um clube construído com sangue, suor e lágrimas ao longo das últimas décadas… respeitado e temido.
A resignação… melhor, a demagogia (para ser brando) da matemática dos três pontos perdidos tem de ser severamente repreendida, sob pena de a perda transformar um clube, que, acrescente-se, também é uma sociedade anónima que pretende a valorização dos seus activos e a maximização do valor dos seus accionistas, numa entidade que não se dá ao respeito, moralmente espúria, indigente e degradada.
Em suma, o mal está feito, é uma evidência, mas argumentar com a matemática sem que, rápida e reflectidamente, se exprobre a argumentação, apenas servirá para perpetuar o crime sem castigo.

[Imagem a partir da capa da edição de 01/10/2008 do jornal O Jogo]

domingo, 6 de julho de 2008

O Mestre, de novo

Henry JamesA notícia é do Eduardo. A recentemente criada editora independente lisboeta Palimpsesto acaba de editar o conto The Diary of a Man of Fifty do eminente escritor anglo-americano Henry James (1843-1916), escrito em 1879, que sairá para o mercado no próximo dia 9 de Julho, sob o título Diário de um homem de 50 anos.
Excluindo a não-ficção, o Mestre escreveu 112 novelas e contos e 20 romances, e uma pequeníssima percentagem dessas obras foi publicada no nosso país. É uma pena, agravada pela certeza de a maioria desses escritos não possuir, neste momento, de direitos autorais e de pertencerem ao denominado domínio público.
Deste modo, uma colectânea desses contos, de forma similar ao que a excepcional Relógio D’Água tem vindo a fazer com a obra de Anton Tchekhov, não seria, certamente, dinheiro mal gasto, contribuiria, desde logo, para o enriquecimento do património bibliográfico nacional, não deixando cair no olvido, através de uma obra dispersa e repetida num sem-número de publicações, um dos nomes mais ilustres da Literatura universal de todos os tempos.

Títulos de Henry James publicado em Portugal (lista actualizada, já publicada no meu blogue anterior, por ordem alfabética do título da obra):

Romances

  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Contos ou Novelas

  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (colectânea: Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto epónimo os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1874); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” ((primeiro título: Jersey Villas; 1892);
  • Os Amigos dos Amigos (Presença) – The Friends of the Friends (primeiro título: The Way It Came), 1896; inclui, para além do conto epónimo os contos: “Owen Wingrave” (1892) e “A Vida Privada” (The Private Life, 1892);
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Diário de um homem de 50 anos (Palimpsesto) – The Diary of a Man of Fifty, 1879;
  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898.

Estatística luso-jamesiana. Foram publicados de O Mestre em português europeu:
4 dos seus 20 romances – 1/5 ou 20%;
14 dos seus 112 contos e novelas – 1/8 ou 12,5%.

Lista dos 16 romances nãos publicados em Portugal (ou, pelo menos, já fora do circuito comercial), por ordem cronológica:
Watch and Ward (1871); Roderick Hudson (1875); The American (1877); Confidence (1879); The Bostonians (1886); The Princess Casamassima (1886); The Reverberator (1888); The Tragic Muse (1890); The Other House (1896); The Spoils of Poynton (1897); What Maisie Knew (1897); The Awkward Age (1899); The Sacred Fount (1901); The Wings of the Dove (1902); The Ambassadors (1903); The Outcry (1911).

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um esclarecimento

A propósito do meu texto anterior, o Nuno Góis do blogue com título sugestivo Nem Paz, Nem Guerra, pôs em evidência duas questões bastante pertinentes referentes à minha intenção de boicotar a compra de livros de determinadas editoras que não se dignaram a estar presentes, de forma individual – para que se entenda, já que muitas se fizeram representar por distribuidoras, com um escassíssimo número de títulos postos à disposição do público –, na 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP).
A primeira questão, resulta da impossibilidade de boicotar – ou recusar-se a adquirir – livros de uma determinada editora, quando o que, na realidade, importa é o produto em si, a obra e o seu autor. Ora, as editoras não vendem produtos indiferenciados que podem ser adquiridos com os mesmos requisitos noutras editoras, há os direitos de autor e de publicação. No caso de uma obra de meu interesse ter sido publicada por uma destas editoras, vou ter de, à socapa do meu polícia interior, infringir o boicote auto-imposto – aliás, passada a efervescência é o que irá ocorrer com frequência, tornando-se regra, derrogando assim o boicote.
A segunda, tem que ver com as enormes diferenças de recursos financeiros que podem ser observadas entre as diversas editoras nomeadas na dita lista. Muitas são pequenas editoras, que vivem com dificuldades económicas e financeiras e que lutam pela sobrevivência dia a dia no cruel mercado editorial nacional – há os David e os Golias – com sede e zona principal de actividade fora da região coberta pela FLP. Logo, os custos associados à manutenção de um stand individual, adicionando-se os necessários encargos com os recursos humanos, tornariam esse objectivo quase impraticável. Nesse grupo e olhando para a lista de 20 editores e livreiros por mim enunciada, talvez – o emprego deste advérbio deriva do desconhecimento da verdadeira situação económico-financiera de cada uma, individualmente – deva incluir editoras como: Alêtheia, Antígona, Cavalo de Ferro, Colibri, Fenda, Guerra e Paz, Nova Vega, Sextante e Tinta-da-China. Todavia, há outras de dimensão aparentemente similar que estão presentes na FLP. São critérios...
Porém, o que é mais revoltante em toda esta história de ausências importantes da FLP, advém do desinteresse dos grandes grupos editoriais, alguns com inúmeras lojas abertas ao público na região, sem que fosse dado qualquer tipo de explicação, ou então no caso de o ter sido, a justificação tem por base uma fundamentação tão irritantemente ridícula que se subsume num puro insulto à inteligência dos seus destinatários (grupo em que me incluo) – seria preferível apelidarem-nos de forma directa, sem atavios e circunlóquios, de burros e ignorantes; assim, pelo menos, a honestidade em todo este processo de aparente segregação sairia vencedora.

  • Porque é que a Bertrand (Direct Group – Bertelsmann) não está presente?
  • Porque é que a Guimarães (de Paulo Teixeira Pinto), após a sua reestruturação radical que acicatou a curiosidade dos interessados por assuntos literários, não se dignou a comparecer no Porto, onde reside um dos seus ícones, Agustina Bessa-Luís, que, durante anos, foi a verdadeira salvadora da dita editora à beira do colapso empresarial?
  • Porque é que a LeYa se fez representar por uma distribuidora, depois de tanto alarde mediático com as suas aquisições, eventos culturais e prémios literários milionários?
  • E a Fnac? Que explicações terá para dar aos seus clientes das suas lojas na região?

É este menosprezo que não se entende e que tem de ser justificado, com razões coerentes e plausíveis, a toda uma comunidade, que só na sua área metropolitana (da Póvoa a Espinho, do Porto a Arouca), alberga quase 1,7 milhões de pessoas* (a de Lisboa, por exemplo, tem uma população de quase 2,8 milhões*)

*Fonte: INE, INE/Metrex GAMP, 2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pobre Antonia

Por estes dias, a recente e louvavelmente criada editora Sextante – que começou por se chamar Sudoeste e modificou o nome para evitar possíveis mal-entendidos com outras editoras existentes, optando por um novo que, de forma estranha, é igual à de outra existente no Brasil – publicou a, até hoje considerada, obra-prima da romancista, ensaísta, crítica literária e ex-professora universitária Antonia Susan Byatt (assina o seus trabalhos como A.S. Byatt), nascida em 1936 em Sheffield em Inglaterra, Possessão (Possession, 1990).
Esta obra permitiu à escritora britânica juntar o seu nome ao restrito conjunto de autores que venceram o mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção publicada originalmente em língua inglesa (Estados Unidos não incluídos), o célebre Booker Prize. E se acrescentarmos que, até 2007 (inclusive), dos 41 prémios distribuídos desde 1969 (tanto em 1974 como em 1992 houve dois vencedores ex aequo, Middleton e Gordimer, e Ondaatje e Unsworth, respectivamente) apenas 14 foram atribuídos a mulheres, o valor da vitória ganha outros matizes de excelência.
Por estes dias vou terminando a sua leitura, que diga-se, a talho de foice, não é nada fácil. Porém, posso desde logo confirmar de que se trata de um romance minuciosamente trabalhado, de uma excelente obra, com um arcaboiço literário invejável capaz de retirar o fôlego a mentes menos avisadas nas artes literárias. Para além da técnica narrativa recorrentemente analéptica, pejada de saltos históricos entre os séculos XIX e XX (hoje), e do percebido conhecimento aprofundado dos poetas, das suas obras e biografias, dos períodos romântico e vitoriano (Wordsworth, Arnold, Tennyson, S.T. Coleridge, Byron, Keats, etc.), de mitologia grega, do folclore nórdico e celta, e de filosofia, Byatt alterna dentro da mesma obra as formas narrativas do conto, da poesia, da prosa epistolar e diarista, do romance profusamente descritivo dos personagens, ambientes e objectos e dos diversos locais por onde se vai desenrolando a trama, a diálogos bem elaborados, com uma grande dose de humor e de ironia normalmente apontada à vida académica contemporânea, caracterizada por um estado de guerrilha latente, de invejas e de compadrios – só quem por lá anda ou andou consegue rever-se na descrição da envolvente tão bem articulada pela autora inglesa.

Bom, mas o que me levou à elaboração deste já longo texto irónico-interrogativo, nada teve que ver com a obra em si mesma, mas com a coincidência estranha da forma como a edição desta obra foi noticiada pela imprensa da especialidade1.
Já
aqui havia referido o texto publicado a propósito de Possessão no último número da renovada revista Ler que, pelos laconismo e brevidade, apenas, na minha maneira de ver, teve como resultado um dispêndio despropositado de espaço e de caracteres: «Empreendimento no mínimo volumoso, acaba de sair Possessão […]»
Desta feita, a honras cabem ao JL, que na sua última edição (n.º 982, de 21 de Maio) refere o seguinte na página 29: «Há mistérios insondáveis na tradução portuguesa. Possessão – Uma História de Amor de A. S. Byatt é um deles. Escrito em 1990 [será?], foi distinguido com o Man Booker Prize [o grupo Man, plc só começou a patrocinar o Booker Prize desde 2003] no mesmo ano. Mas só agora foi traduzido do inglês.»
Mistério insondável? Porquê? Tratar-se-á de uma ironia, em tom de ferroada, ao editor português, que em boa hora se lembrou de colmatar esta lacuna no mercado livreiro de língua portuguesa? Ou será um puxão de orelhas a todo o meio editorial nacional pela falta de sensibilidade na escolha das obras estrangeiras a editar no nosso país?
Ora, em quase 40 anos de Booker Prize (1969-2007), foram premiadas cerca de 41 obras de ficção, das quais 26 foram editadas em português europeu e 15 não mereceram essa atenção – destas 15 há quatro obras posteriores a Possessão de A.S. Byatt: é o caso das obras vencedoras em 1991, 1992, 1994 e 1995, respectivamente, The Famished Road de Ben Okri; Sacred Hunger de Barry Unsworth; How Late It Was, How Late de James Kelman; e The Ghost Road de Pat Barker. Curiosamente, esta última foi nomeada, em conjunto com mais 5 obras de outros tantos escritores vencedores do Booker, para a eleição aberta ao público em geral para o prémio “The Best of the Booker Prize” a propósito da comemoração dos seus 40 anos de existência. Neste caso e naqueles termos, estamos perante um mistério ainda mais insondável, sabendo que a escritora inglesa (n. 1943) conta já com duas das suas onze obras de ficção editadas em português, nenhuma das quais pertence ao grupo das suas três (incluíndo The Ghost Road) que foram contempladas com prémios literários.

Mas o verdadeiro problema do mercado editorial português, se nos abstivermos do critério do potencial êxito comercial, normalmente associado a obras de qualidade duvidosa, está nos autores que jamais viram as suas respectivas obras penetrarem no mercado luso, embora sejam internacionalmente reconhecidos por diversos méritos estritamente relacionados com a questão literária; ou naqueles de reconhecidíssimo mérito cuja obra completa editada na nossa língua está muito longe de ser alcançada.
Há cerca de um mês elaborei uma listagem, que ficou no segredo dos meus ficheiros pessoais, que incluía 50 obras fundamentais de 10 autores norte-americanos2 que jamais viram a luz do dia (ou o negro tipográfico) na língua de Camões (embora algumas tenham sido editadas em português do Brasil). Após a realização daquele empreendimento e por mera coincidência, uma semana bastou para a lista passar da sua configuração de 10/50 para 10/49, uma vez que a editora portuense Civilização acabara de lançar no mercado uma das obras referenciadas na dita lista, Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) de John Updike. E até sei que, pelas mãos da editora acossada pela publicação da obra de Byatt, a cifra passará, em breve, para 10/48, já que se prevê a edição da obra-prima de um dos mestres da literatura contemporânea: Underworld (1997) de Don DeLillo. Será, da mesma forma, um empreendimento volumoso e/ou um mistério insondável?
A ver vamos.


Notas:

  1. Antes de Possessão, já se encontravam editados em Portugal um romance e um conto de A.S. Byatt: A Fábula do Biógrafo (ed. port. Temas e Debates, 2003; The Biographer’s Tale, 2000) e, curiosamente, um conto de fadas extraído do romance Possessão (ed. port. Sextante, pp. 67-77), chamado O caixão de vidro (ed. port. Tempus, 1997; The Glass Coffin incluído na colectânea de contos da autora The Djinn In The Nightingale's Eye, 1994).
  2. Autores referenciados na lista pessoal: John Barth (1930), Donald Barthelme (1931-1989), Saul Bellow (1915-2005), Don DeLillo (1936), Vladimir Nabokov (1899-1977), Thomas Pynchon (1937), Philip Roth (1933), Norman Rush (1933), John Updike (1932) e David Foster Wallace (1962).

sexta-feira, 14 de março de 2008

Pynchon Luso

Para os pynchonianos do nosso burgo, que lêem há anos, pelo menos desde 1963, as obras do esquivo, obscuro e admirável autor norte-americano Thomas Pynchon (n. 1937), informo que, após um das minhas cada vez mais raras perambulações pelas ruas da baixa – que, por tradição, inclui sempre uma visita à Livraria Leitura (agora pertença do império Bulhosa) em busca de raridades que escapam à indexação cibernética –, avistei uma das suas duas únicas obras que se encontram traduzidas para português de Portugal: V. (1964), da extinta Editorial Notícias, com edição de Fevereiro de 2000 (estavam disponíveis dois exemplares). Logo, aconselha-se ao mais empedernido dos pynchonianos uma rápida visita à livraria da José Falcão (a entrada da Rua de Ceuta, junto à Livros do Brasil, está fechada).
Em Portugal, para além de V. – obra de estreia de Pynchon, que (des)honradamente continua a pertencer ao meu íntimo e particular top 10 das melhores obras de ficção de todos os tempos, a história dos inesquecíveis Stencil e Benny Profane – apenas podemos correr o sério risco de encontrar a segunda obra de Pynchon (em termos cronológicos) devidamente traduzida para a nossa língua, numa edição de Junho de 1987 – pelo menos, é a data da edição que repousa na minha biblioteca: trata-se do mais pequeno dos seus romances, O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, 1966) da já possivelmente defunta Editorial Fragmentos.

Por editar, neste país de requintados e selectivos letrados, continua a sua enciclopédica obra-prima Gravity’s Rainbow (1973) – que, a título de exemplo, está publicada no Brasil sob o título O Arco-íris da Gravidade –, para além da colectânea de contos Slow Learner (1984) e dos romances Vineland (1990), Mason & Dixon (1997) e o recente Against the Day (2006).

Nota: há uns anos transcrevi para o meu blogue, agora inactivo, Data, um dos diálogos mais curiosos da obra.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Chablis

Donald BarthelmeComo o prometido é devido, publico aqui, com tradução a meu cargo, a partir do original em inglês, um dos muitos e portentosos contos publicados pelo malogrado autor norte-americano Donald Barthelme (Filadélfia, PA, 7 de Abril de 1931 – Houston, TX, 23 de Julho 1989).
Bartheleme é considerado, por muitos, como o pai do pós-modernismo literário (sinceramente, não sei a que é que isso se refere; se é bom ou mau? será uma enfermidade? uma rotularite?) e que, apesar de todas as notáveis referências na literatura universal, certificadas, por exemplo, pelo número de línguas em que as suas obras se encontram traduzidas, permanece inédito no excelso meio editorial português.
No próximo ano cumpre-se o 20.º aniversário da sua morte.
Bartheleme morreu aos 58 anos vítima de um filho da puta de um cancro.

Chablis

A minha mulher quer um cão. Ela já tem uma criança. A criança tem quase dois anos. A minha mulher diz que a criança quer um cão.
A minha mulher está há muito tempo à espera de um cão. Tive de ser eu a dizer-lhe que ela não o poderia ter. Mas agora a criança quer um cão, diz a minha mulher. Isto até pode ser verdade. A criança é muito chegada à minha mulher. Andam juntas o tempo todo, agarram-se, apertam-se com força. Eu pergunto à criança, que é uma rapariga, “És a menina de quem? És a menina do papá?” A Criança diz, “mamã”, e não se fica por aí, di-lo repetidamente, “mamã, mamã, mamã.” Eu não vejo por que razão hei-de comprar um cão de cem dólares para o raio daquela criança.
A raça de cão que a criança quer, diz a minha mulher, é um Cairn Terrier. Esta raça de cão, diz a minha mulher, é Presbiteriana tal como ela e a criança. No ano passado a criança era Baptista – ou seja, ela frequentou o programa inteiro para mães da Igreja Baptista, duas vezes por semana. Este ano é Presbiteriana porque os Presbiterianos têm mais baloiços e escorregões, e outras coisas assim. Eu acho isso uma enorme falta de vergonha e disse-lho. A minha mulher foi uma Presbiteriana legítima durante toda a vida e diz que isso a autoriza a agir assim; quando era uma criança ela costumava frequentar a Igreja Presbiteriana em Evannsville, Illinois. Eu não ia à igreja porque eu era uma ovelha negra. Havia cinco filhos na minha família e, entre nós homens, íamos fazendo girar o estatuto de ovelha negra, o mais velho seria a ovelha negra durante uns tempos, enquanto passava pelo seu período de embriaguez ou o que quer que fosse, e só depois, à medida que ia envelhecendo, e tendo talvez arranjando um emprego ou estando até cumprir serviço militar, tornava-se finalmente numa ovelha branca quando cassasse e tivesse um neto. A minha irmã nunca foi uma ovelha negra porque era uma rapariga.
A nossa criança é uma criança encantadora. Durante anos disse à minha mulher que ela jamais poderia ter uma criança porque isso seria muito caro. Mas elas derrotam-nos sempre por exaustão. Elas são bastante boas a derrotar-nos por exaustão, mesmo que isso possa demorar anos, como foi o caso. Agora ando com a criança ao colo e abraço-a sempre que posso. O nome dela é Joanna. Ela veste um macacão da Oshkosh e diz “não”, “biberão”, “fora” e “mamã”. Ela é a coisa mais adorável quando está molhada, quando acaba de tomar banho e o seu cabelo louro está encharcado, embrulhada numa toalha bege. Por vezes quando está a ver televisão ela esquece-se por completo que também estamos lá. Podemos ficar só a olhar para ela. Quando ela está a ver televisão parece muda. Gosto mais dela quando está molhada.
Esta coisa do cão está a transformar-se na grande questão. Eu disse à minha mulher, “Bom, já tiveste a criança, precisaremos também agora do diabo de um cão?”. O cão irá provavelmente morder alguém ou até perder-se. Já me estou a ver a percorrer o nosso bairro inteiro a perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho?” “Como se chama o cão?”, irão todos perguntar, e eu fitá-los-ei com toda frieza e direi, “Michael” É assim que ela o quer chamar, Michael. É um nome estúpido para um cão e lá terei de procurar por esse cão, possivelmente raivoso, e perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho? Michael?” É o suficiente para nos pormos a pensar em divórcio.
O que é que a criança poderá fazer com o cão que não o possa fazer comigo? Brincar livre e desenfreadamente? Eu consigo fazê-lo. Levei-a ao parque infantil da escola. Era domingo, o local estava deserto, e brincámos de uma forma livre e desenfreada. Eu corri, e ela cambaleou atrás de mim a um bom ritmo. Eu amparava-a sempre que deslizava no escorregão. Ela percorreu todo o caminho interior de um tubo de cimento que existia no parque. Ela apanhou uma pena e ficou horas a contemplá-la. Eu estava preocupado que aquela fosse uma pena contaminada mas ela não a meteu à boca. Depois corremos ainda mais pelo campo pelado e abrasivo de softball e através das arcadas que ligam as salas de aula de madeira temporárias, que estão a perder a sua pintura amarela, ao edifício principal. Num destes dias, a Joanna irá frequentar esta escola, e isto se eu permanecer no mesmo emprego.
Fui ver alguns cães no Pets-A-Plenty, que tem pássaros, roedores, répteis e cães, todos em óptima condição. Eles mostraram-me os Cairn Terriers. “Eles têm os seus livros de orações?”, perguntei. A funcionária não entendia o que é que eu estava para ali a dizer. Os Cairn Terriers poderiam rondar os 295 cada, com papéis. Eu comecei por perguntar se por acaso eles não teriam algum filho ilegítimo a preços mais baixos, mas pude ver que isso seria inútil, e cheguei mesmo à conclusão de que a mulher já não ia com a minha cara.
Mas, o que é que há de errado comigo? Porque é que eu não sou uma pessoa mais natural, tal como a minha mulher pretende que o seja? Eu permaneço acordado, desde manhã cedo, postado à minha secretária que está no segundo piso da casa. A secretária está de frente para a rua. Às cinco e meia da manhã, os corredores já estão lá fora, individualmente ou em pares, a correr por uma saúde de ferro1. Eu estou a beberricar um copo de Chablis2 Gallo com uma pedra de gelo, a fumar, a preocupar-me3. Preocupo-me com a possibilidade de a criança cravar uma faca de cozinha numa tomada eléctrica enquanto estiver molhada. Apliquei aquelas pequenas fichas de protecção de plástico em todas as tomadas, mas ela aprendeu a retirá-las. Já verifiquei os lápis de cera. Mas eles fizeram-nos de forma a tornar a sua ingestão inofensiva – eu telefonei para sede na Pennsylvania. Ela pode comer uma caixa inteira de lápis de cera que nada lhe acontece. Se eu não comprar os novos pneus para o meu carro, posso comprar o cão.
Lembro-me do tempo, há cerca de trinta anos, quando, na estrada de Beaumont, atirei com o Buick da mãe do Herman para um campo de milho. Havia outro carro que seguia na minha faixa, não bati nele e ele também não me bateu. Lembro-me de guinar o carro para a direita, seguindo para baixo para a valeta, atravessando a vedação, detendo-me apenas no campo de milho e saí do carro para acordar o Herman para ambos verificarmos como tinham ficado os felizes bêbados do outro carro, na valeta do outro lado da estrada. Isso aconteceu quando eu era uma ovelha negra, anos e anos atrás. Aquilo foi realizado com toda a destreza, penso eu. Levanto-me, felicito-me pela memória e vou lá dentro para dar uma espreitadela à criança.


Donald Barthelme, Forty Stories, “Chablis”. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1st edition, 1987, 256 pp. [tradução: AMC, Março/2008]
(Este conto foi originalmente publicado na revista The New Yorker, de 12 de Dezembro de 1983, p. 49 [Vol. 59 Issue 43])

Notas de tradução:
  1. No texto original surge a expressão “rude red health”, que designa aqueles que demonstram e dispõem de uma invejável condição física.
  2. Chablis é um conhecido vinho francês produzido na região da Borgonha, vinificado exclusivamente em vinho branco e apenas com uvas da casta chardonnay. É um típico vinho branco seco, suave.
  3. Curioso jogo de palavras nestas duas frases, para os desportistas matinais usam-se, em contexto semântico diverso, as espressões “rude” e “red” (que também pode designar “tinto” para os vinhos), por oposição às subentendidas características organolépticas do próprio vinho, o Chablis (isto é só para enófilos, claro.)

terça-feira, 11 de março de 2008

Serviço (quase) Público

Para amanhã, talvez...
  • Porque a minha inusitada fase bibliófaga de antologia de contos lusos urge em socorrer-me pela leitura dos melhores;
  • Porque é uma porra de uma injustiça ser-se esquecido pela sexta língua mais falada no mundo inteiro – embora a infeliz falta de proveito seja um verdadeiro acto autopunitivo dos seus utilizadores;
  • Porque se vende tanto lixo;
  • Porque se já há Carver, Gógol, O’Connor, O. Henry, Tchékhov, Bukowski, Scott Fitzgerald, entre muitos outros de igual ou superior eminência literária;
  • Porque em apenas uma hora consegui compilar 50 obras (conto, novela ou romance) de 9 autores norte-americanos que teimosamente, com o passar dos anos, vão perdendo a vez na edição das suas obras na língua de Pessoa, e logo para os seus conterrâneos mais que descartáveis – (volto ao) lixo não biodegradável que contamina os nossos escassos recursos intelectuais;
  • Por que razão se perde tanto tempo com tanta merda?

"Chablis", DB. Amanhã.

terça-feira, 4 de março de 2008

Mr. Vertigo

Para um português amante de literatura, há pequenos nadas, talvez o sejam e assim permaneçam para essa massa informe de leitores lusos de Coelho, Allende, Sparks, Modignani e quejandos, que potencialmente se transformam em incomensuráveis irritações nos limites da autoflagelação por amor ao próximo – entenda-se vizinho.
Por mais que me esforce não consigo vislumbrar um fio de racionalidade no mercado editorial luso da denominada grande literatura. São títulos que se deixam de editar sem razão aparente, são outros de grandes autores que nunca conheceram as palavras de Pessoa, outros ainda que são dados como mortos, mas que convivem com o pó dos babilónicos armazéns das distribuidoras – e quem já não experimentou comprar pelo menos um exemplar desses tais que, apesar do irrepreensível aspecto exterior, assim que abertos lançam esporos da mais perigosa bicharada microscópica que o odor bafiento não deixa enganar.

(Já agora, a talho de foice, gostaria de sugerir a presença de equipas do INEM à porta desses eventos – a imagem de Rene Russo, Spacey e Hoffman, no filme de Wolfgang Petersen parece-me adequada como exemplo – especializadas em doenças de rápida disseminação bacteriológica por uma exposta população num pequeno raio de acção.)

Um dos mais belos livros de Auster (logo, da História da Literatura, e aqueles que, infelizmente, me vão conhecendo através destas miseráveis linhas diárias entendem a plausibilidade desta minha afirmação) encontrava-se esgotado há anos no mercado editorial português. Falo do admiravelmente mágico Mr. Vertigo – figura de estilo: austérbole, ou hipérbole austeriana, por vezes pode metamorfosear-se numa simples perífrase samsa(?) –, publicado originalmente por Paul Auster em 1994. É o seu 6.º romance – 8.º se desmantelarmos a Trilogia em Cidade de Vidro (City of Glass, 1985), Fantasmas (Ghosts, 1986) e O Quarto Fechado (The Locked Room, 1986) –, seguiu-se, então, à Trilogia de Nova Iorque (New York Trilogy, 1987); No País das Últimas Coisas (In the Country of the Last Things, 1987); Palácio da Lua (Moon Palace, 1989); A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990) e Leviathan (1992).
Com efeito, a Editorial Presença editou logo no ano de 1995 a versão portuguesa do romance em epígrafe, que, segundo me dizem as fontes – da Moura, de Boliqueime, o próprio bruxo ex-padre de Vilar de Perdizes –, ficou-se pela 2.ª edição em 1997. De lá para cá, por mais pedidos às livrarias, missivas enviadas às editoras, contactos nas feiras dos livros, que houvesse levado a cabo, ninguém me soube responder cabalmente sobre o destino do aéreo Walter Claireborne Rawley – uma das personagens mais marcantes da bibliografia de Auster – e no meio disto tudo houve quem me instruísse que o autor usava saias e que já havia morrido com muito orgulho e algum preconceito…
Nos últimos anos da década de 90 do século passado – a trabalheira que dá elaborar um texto sempre que se muda de século; para mim o século passado continua a ser o XIX, ou “chiche” como muitos lêem –, a Asa adquiriu os direitos de publicação das obras do autor judeu norte-americano, nascido em Newark a 3 de Fevereiro de 1947, fanático, como Roth – seu conterrâneo –, dos Mets – DeLillo é dos Yankees (menos um a gostar dos Yankees, presumo) –, residente e oficialmente declarado filho do bairro de Brooklyn – foi inclusivamente instituído o Auster Day – em Nova Iorque… ah, pois, a Asa desde então passou a editar não só as obras que Auster foi escrevendo e publicando, como reeditou algumas das anteriores que já existiam na bibliografia nacional sob outra chancela. Todavia, até o critério de reedição primou pelo absurdo editorial: a Asa reeditou as obras da Presença que ainda se podiam encontrar nos escaparates das livrarias, como por exemplo: A Música do Acaso, a Trilogia de Nova Iorque, Leviathan e Solidão Reinventada (obra de não-ficção que a Asa rebaptizou de Inventar a Solidão), excepto Palácio da Lua que, há um par de anos, alguns exemplares ainda poderiam ser descortinados nas livrarias. Quanto a Mr. Vertigo e No País da Últimas Coisas, nem vê-los – nem precisava dos itálicos para o título desta última obra dada a sua aplicabilidade a esta miséria de território.
Mas a LeYa, no seu arrebatamento luxurioso pelo vagabundo dos espaços Han Solo, levantou lubricamente a Asa e pelo menos (re)concebeu Mr Vertigo.
Eis o primeiro parágrafo, com tradução da casa:

«Eu tinha doze anos na primeira vez que caminhei sobre a água. O homem vestido de negro ensinou-me a fazê-lo, e não vou fingir que aprendi o truque da noite para o dia. O Mestre Yehudi encontrou-me quando eu tinha nove anos, era um órfão que mendigava por tostões nas ruas de Saint Louis, e trabalhou perseverantemente comigo durante três anos antes de me autorizar a exibir o meu número em público. Isso foi em 1927, o ano de Babe Ruth e de Charles Lindbergh, no preciso ano em que a noite começou a cair no mundo para sempre. Continuei a representar até poucos dias antes do crash bolsista de Outubro de 29, e o que eu fiz era maior do que algo que esses dois senhores pudessem ter sonhado. Fiz o que nenhum americano fizera antes de mim e que ninguém jamais fez desde então.»
[Tradução: AMC, 2008; a partir da versão original (em inglês) Mr. Vertigo (1994), New York: Viking Books (Penguin)].


Pronto, já só faltam as restantes 303 páginas e meia, espero que traduzidas pelo mais que habituado aos austerianismos José Vieira de Lima.

sábado, 15 de setembro de 2007

Regresso antecipado… com novidades


Antecipado em dois dias o regresso em definitivo à minha mesa de trabalho, perfilam-se desde logo as novidades editoriais em Portugal no campo da literatura da, usualmente fértil, temporada outonal.
Eis duas das mais importantes novidades para quem gosta de literatura anglo-saxónica contemporânea, e ambas com a chancela das
Edições Asa:

  • Paul Auster com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007; publicado há 235 dias nos Estados Unidos e há 345 dias no Reino Unido – contador R.E.P.);
  • Julian Barnes com Arthur & George (Arthur and George, 2005; finalista do Booker Prize em 2005 e do International IMPAC Dublin Literary Award em 2007; publicado há 800 dias no Reino Unido – contador R.E.P.)

Para breve, nas Publicações Dom Quixote, Zadie Smith com On Beauty, Jonathan Littell com Les Bienveillantes e o retomar da publicação das Obras Completas de Robert Musil, traduzidas por João Barrento, depois de As Perturbações do Pupilo Törless, surge A Portuguesa e outras Novelas, seguindo-se a obra-prima O Homem sem Qualidades, em três volumes.