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quinta-feira, 3 de abril de 2008

3,... [com novidades literárias]

III

Ele jamais havia pegado num cão e tinha medo de que ele escorregasse, assim embalou-o nos seus braços. Ele sentia-o quente na sua pele e muito mole, e de uma forma arrepiante, um pouco nojento. Tinha olhos cinzentos como pequenos botões. Chateava-o que a Enciclopédia não tivesse imagem alguma desta raça de cão. Um bulldog a sério seria uma raça violenta e perigosa, mas estes eram apenas cães castanhos. Ele sentou-se no braço da cadeira verde estofada com o cachorrinho no seu colo, sem saber o que fazer a seguir. Entretanto, a mulher chegara-se a ele e parecera-lhe que ela lhe fizera uma festa no cabelo, ele não tinha bem a certeza, porque o seu próprio cabelo era bastante espesso. Quanto mais o tempo passava mais certezas ia ganhado sobre o que fazer. A seguir, ela perguntou-lhe se ele queria beber água, que ele aceitou, ela dirigiu-se à torneira e abriu-a, dando-lhe a oportunidade de voltar a pôr o cão na caixa. Ela regressou com o copo de água e à medida que ele o agarrava ela deixou que o fino vestido se abrisse, exibindo os seus seios, como se fossem dois balões meio cheios, dizendo que não acreditava que ele apenas pudesse ter treze anos. Ele bebeu a água de um só trago e tentou devolver-lhe o copo, e de repente ela amarra-lhe a cabeça e beija-o. Em todo este tempo, por alguma razão, ele nunca foi capaz de lhe olhar para a cara, e quando o tentou fazer naquele momento só conseguia vislumbrar uma massa disforme e cabelo. Ela atirou-se a ele e de repente ele sente um arrepio na barriga das pernas. O arrepio intensificou-se, até quase lhe parecer que havia tocado no aro metálico de um casquilho ligado à corrente enquanto se substitui uma lâmpada fundida. Ele nunca seria capaz de se lembrar que se deitou no tapete – sentiu que uma torrente de água se esmagava no topo da sua cabeça. Recordou-se de ter entrado no seu calor e que a sua cabeça não parava de bater na perna do seu sofá. Ele estava perto de Church Avenue, onde teria de mudar para a linha de superfície do Culver, antes de se dar conta que ela não tinha ficado com os seus três dólares, ou de sequer ter chegado a um acordo para esse efeito, mas ele tinha no seu colo uma pequena caixa de cartão com um cachorrinho no seu interior ganindo em surdina. O arranhar das unhas no cartão arrepiavam-no. A mulher, agora lembrava-se, fez dois buracos no topo da caixa e o cachorrinho não parava de enfiar neles o seu nariz.

A mãe dele deu um salto quando ele desatou a corda e o cachorrinho se levantou e se espalhou no chão, dando latidos. “O que é que ele está a fazer?” gritou, com as mãos no ar como se estivesse prestes a ser atacada. Nesta altura, ele já havia perdido o medo do cão e segurou-o nos braços, deixando que lhe lambesse a cara, vendo isto a mãe acalmou-se um pouco. “Terá fome?” perguntou ela, e permaneceu com a boca ligeiramente aberta, pronta para alguma coisa, enquanto ele punha de novo o cão no chão. Ele disse que sim, que talvez ele tivesse fome, mas pensou que ele apenas pudesse comer coisas moles, apesar de os seus pequenos dentes já serem tão aguçados como alfinetes. Ela tirou uma pasta cremosa de queijo para barrar e colocou um pequeno pedaço no chão, mas o cão farejou-o e fez chichi. “Deus do Céu!” gritou ela, e rapidamente pegou num bocado de jornal para absorver a mancha de urina. Quando ela se agachou daquela forma, ele lembrou-se, ao mesmo tempo que abanava a cabeça, do calor da mulher e ficou envergonhado. De repente o nome dela veio-lhe à memória – Lucille – ela havia-o mencionado quando ambos já se encontravam no chão. No preciso momento em que a penetrava, ela abriu os olhos e disse, “Chamo-me Lucille.” A mãe dele trouxe numa taça esparguete que havia sobrado do jantar de ontem e colocou-a no chão. O cachorrinho levantou a sua patinha e entornou a taça, espalhando um pouco de sopa de galinha que havia no fundo. Lambeu-a avidamente do linóleo. “Ele gosta de caldo de galinha!” gritou alegremente a mãe, e num instante decidiu que ele haveria de gostar de ovo e então pôs água a ferver. De algum modo o cão soube que era a ela quem deveria seguir e caminhou atrás dela, para a frente e para trás, do forno ao frigorífico. “Ele segue-me!” disse a mãe, rindo de contentamento.

No dia seguinte, enquanto regressava a casa vindo da escola, parou numa drogaria e comprou uma coleira para cachorros por setenta e cinco cêntimos, e Mr. Schweckert ofereceu-lhe um pedaço de corda de estendal para servir de trela. Todas as noites quando adormecia, vinha-lhe à mente Lucille, como algo saído de um caixa de tesouros secreta e interrogava-se se poderia atrever a telefonar-lhe e talvez encontrar-se de novo com ela. O cachorrinho, a que ele chamara Rover, de dia para dia parecia crescer a olhos vistos, embora continuasse a não ostentar qualquer sinal de que se tratasse de facto de um bulldog. O pai do rapaz era da opinião que o Rover deveria permanecer na cave, contudo, lá em baixo o local era muito solitário e ele não pararia de ganir. “Ele sente a falta da mãe dele,” disse-lhe a mãe; assim todas as noites o rapaz começava por o colocar na cave dentro de um antigo cesto de roupa com uns trapos, e quando latisse o suficiente o rapaz estava autorizado a trazê-lo para cima e a deixá-lo dormir na cozinha aconchegado nesses mesmos trapos, todos ficavam agradecidos pelo sossego. A mãe dele tentou passeá-lo pela rua calma onde viviam, mas o cão teimava em emaranhar a corda nos tornozelos da mãe, e pelo medo que esta tinha de o magoar, ficava exausta só de o seguir em todos aqueles ziguezagues. Não acontecia sempre, mas muitas vezes quando o rapaz olhava para Rover pensava em Lucille e quase que começava a sentir aquele calor de novo. Ele sentava-se nos degraus do alpendre afagando o cão a pensar nela, no interior das suas coxas. Contudo, ele continuava a não conseguir divisar a sua cara, apenas os seus longos cabelos pretos e o pescoço robusto.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. III: 4824 caracteres)

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Novidades (literatura):
  • A revista Ler já mexe. O Francisco deu início ao blogue de suporte à revista, supostamente de periodicidade mensal.
  • 7 de Abril – saem para o mercado, com mais de dois anos de atraso (responsabilidade da editora) e numa data muito próxima à comemoração dos 66 anos da morte do autor na Suíça em 15 de Abril de 1942, os dois primeiros volumes de O Homem Sem Qualidades do notável autor austríaco Robert Musil (1880-1942) editados pela Dom Quixote, com a tradução de um dos mais ilustres germanófilos portugueses, o tradutor, ensaísta e crítico literário João Barrento. [apenas uma chamada de atenção para o último Câmara Clara (16 de Março) de Paula Moura Pinheiro, que juntou na mesma mesa Barrento e Pedro Tamen. Foi um programa riquíssimo para quem anda sedento de ouvir falar de literatura a sério na televisão.]

sábado, 15 de setembro de 2007

Regresso antecipado… com novidades


Antecipado em dois dias o regresso em definitivo à minha mesa de trabalho, perfilam-se desde logo as novidades editoriais em Portugal no campo da literatura da, usualmente fértil, temporada outonal.
Eis duas das mais importantes novidades para quem gosta de literatura anglo-saxónica contemporânea, e ambas com a chancela das
Edições Asa:

  • Paul Auster com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007; publicado há 235 dias nos Estados Unidos e há 345 dias no Reino Unido – contador R.E.P.);
  • Julian Barnes com Arthur & George (Arthur and George, 2005; finalista do Booker Prize em 2005 e do International IMPAC Dublin Literary Award em 2007; publicado há 800 dias no Reino Unido – contador R.E.P.)

Para breve, nas Publicações Dom Quixote, Zadie Smith com On Beauty, Jonathan Littell com Les Bienveillantes e o retomar da publicação das Obras Completas de Robert Musil, traduzidas por João Barrento, depois de As Perturbações do Pupilo Törless, surge A Portuguesa e outras Novelas, seguindo-se a obra-prima O Homem sem Qualidades, em três volumes.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Uma editora a desperdiçar qualidades

Robert MusilEm Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).

Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.

Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.

(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)

É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.

De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?