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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Livros Grátis

O Diário Notícias irá distribuir durante 6 semanas por 5 edições semanais (excepto às terças e quintas), 1 livro de bolso grátis, apenas pelo preço de compra do jornal em papel.
(Com a devida vénia ao Luís, que alertou a blogosfera para dito empreendimento literário levado a cabo pelo periódico da Controlinveste.)
Devido ao meu total alheamento voluntário dos jornais que se vão publicando pelo país, de onde os gratuitos me provocam uma insanável urticária – não só pela qualidade jornalística e das matérias neles reproduzidas, mas principalmente pelo espectáculo das inúmeras lixeiras varridas a vento que as gentes deste país imundo criaram a cada cruzamento, e, por fim, pelos distribuidores que empatam o já de si complicado trânsito matinal das ruas das nossas cidades, com o beneplácito do portuguesinho de terço no retrovisor ou do “Vanessa a bordo” estampado no vidro traseiro que abranda ou detém o andamento da viatura para sacar mais uma borla e que literalmente se está a borrifar (ia dizer cagar, mas ficava feio) para o vizinho que vem atrás –, mas foi esse alheamento que levou ao meu total desconhecimento da campanha que se iniciou no passado sábado.
Mas, antes que anoiteça (obrigado Arenas), eis os títulos:

  • 26-Jul – Fiódor Dostoievski – Coração Débil
  • 27-Jul – Franz Kafka – A Metamorfose
  • 28-Jul – Giovanni Boccaccio – Histórias Eróticas
  • 30-Jul – Anton Tchékhov – A Minha Mulher
  • 1-Ago – Voltaire – O Ingénuo
  • 2-Ago – Lev Tolstói – A Morte de Ivan Ilitch
  • 3-Ago – Jack London – A Peste Escarlate
  • 4-Ago – Máximo Gorki – Três Contos
  • 6-Ago – Thomas Hardy – O Pregador Atormentado
  • 8-Ago – Franz Kafka – Carta ao Pai
  • 9-Ago – Fiódor Dostoievski – A Voz Subterrânea
  • 10-Ago – Joseph Conrad – Juventude
  • 11-Ago – H.P. Lovecraft – Herbert West: Reanimador
  • 13-Ago – Robert L. Stevenson – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde
  • 15-Ago – Charles Dickens – Um Cântico de Natal
  • 16-Ago – Henry David Thoreau – Onde Vivi e para Que Vivi
  • 17-Ago – Henry James – A Fera na Selva
  • 18-Ago – Miguel de Cervantes – A Ciganita
  • 20-Ago – Rainer Maria Rilke – Histórias do Bom Deus
  • 22-Ago – Nikolai Gógol – O Retrato
  • 23-Ago – Sun Tzu – A Arte da Guerra
  • 24-Ago – Stephen Crane – O Barco Aberto
  • 25-Ago – Oscar Wilde – O Crime de Lorde Artur Savile
  • 27-Ago – Thomas Wolfe – O Rapaz Perdido
  • 29-Ago – Gustave Flaubert – Um Coração Simples
  • 30-Ago – Edgar Allan Poe – A Queda da Casa de Usher
  • 31-Ago – Fiódor Dostoiévski – Contos
  • 1-Set – Italo Svevo – Um Embuste Perfeito
  • 3-Set – Oscar Wilde – O Retrato do Sr. W.H.
  • 5-Set – Rainer Maria Rilke – Cartas a Um Jovem Poeta

No dia 17 de Agosto (dois dias após a Assunção de Maria), sai com o DN o livro grátis com o conto A Fera na Selva (The Beast in the Jungle, 1903) do Mestre Henry James. Conto que na sua versão original é composto por cerca de 16.700 palavras.
Uma vez mais remeto para aquilo que
aqui proferi em relação a outro conto do mesmo autor, recentemente editado no mercado nacional e vendido pelo preço de 12 euros, cuja versão original é composta por cerca de 11.900 palavras…

Talvez seja meu o defeito. Sou um redutor...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Exorbitâncias

O Luís, sempre atento ao que se passa no meio editorial português, alertou-me via caixa de comentários para o preço que irá ser praticado pela editora Palimpsesto na venda da sua versão do conto de Henry James, The Diary of a Man of Fifty (1879), Diário de um homem de 50 anos: o preço final é de 12 euros (que, na prática, será 10,80 euros nos estabelecimentos comerciais que praticam o habitual desconto de “10% sobre o preço do editor”).
Sinceramente, no afã de dar a conhecer ao pequeno número de pessoas que diariamente visita o meu blogue a tradução de mais uma obra do meu mui estimado autor anglo-americano Henry James (1843-1916), não olhei sequer ao preço anunciado.
Ora, sabendo que a esmagadora maioria da obra de Henry James, senão mesmo a totalidade, pertence ao domínio público, isto é, não houve a renovação dos direitos de autor, a prática de um preço de 12 euros para uma obra que se enquadra nesse campo, mesmo sabendo que existem os custos de edição incluindo os da tradução, é, no mínimo e para ser brando, um exagero.
No Projecto Gutenberg ou no Portal Domínio Público do Governo Federal brasileiro, o texto, na sua versão original, está disponível para transferência integral sem qualquer custo para o utilizador (carregar aqui para transferir o documento em ficheiro PDF), surgindo à cabeça a seguinte informação em inglês:

«This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net»

Não sei, contudo, (e com alguma preguiça investigadora) se estas disposições se aplicam no caso da edição comercial do texto. Mas, mesmo a existir a necessidade de pagar direitos de publicação, esses serão, decerto, consideravelmente menores àqueles que são, por exemplo, aplicados a uma obra que não pertença ao denominado domínio público, que resultam dos direitos de propriedade intelectual (royalties) dos seus autores ou herdeiros.

Na sua versão original, The Diary of a Man of Fifty dispõe de um total de 11.900 palavras (sabendo que, tendencialmente, em língua portuguesa o número de palavras aumenta numa pequena percentagem). A partir daqui podemos estabelecer uma comparação com os preços praticados no mercado editorial português nas obras do mesmo autor. Assim:

The Diary of a Man of Fifty, aproximadamente 11.900 palavras (conto):
– versão portuguesa Palimpsesto, 80 pp., PVP €12.

Washington Square, aproximadamente 64.200 palavras (romance):
– versão portuguesa Livros de Bolso da Europa-América, 143 pp., PVP €6,49.

The Europeans, aproximadamente 64.200 palavras (romance):
– versão portuguesa, Clássica Editora, Os Europeus, 169 pp., PVP €4,99.

Daisy Miller, aproximadamente 23.100 palavras (novela):
– versão portuguesa Editorial Presença, 112 pp., PVP €8,23.

The Altar of the Dead” (aprox. 13.100 palavras), “De Grey – A Romance” (aprox. 13.000 palavras); “The Last of the Valerii” (aprox. 11.100 palavras); “Nona Vincent” (aprox. 11.600 palavras) “Sir Dominick Ferrand” (aprox. 20.200 palavras) [Total: 69.000 palavras]:
– versão portuguesa Editorial Estampa, O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais, 280pp., PVP 9,56.

The Friends of the Friends” (aprox. 9.700 palavras); “Owen Wingrave” (aprox. 12.600 palavras); “The Private Life” (aprox. 12.800 palavras) [Total: 35.100 palavras]:
– versão portuguesa Editorial Presença (com prefácio de Jorge Luis Borges, colecção A Biblioteca de Babel), Os Amigos dos Amigos, 215pp., PVP €20.

The Turn of the Screw aproximadamente 39.600 palavras (novela):
– versão portuguesa Relógio D’Água, A Volta no Parafuso, 192 pp., PVP €12.

Depois de manifestada a minha opinião (vide título deste texto) e de apresentados alguns dos valores praticados em obras do mesmo autor no mercado editorial português por diferentes editoras, deixo à reflexão dos leitores sobre a proporcionalidade e a conveniência do preço anunciado pela editora de Diário de um homem de 50 anos.

domingo, 6 de julho de 2008

O Mestre, de novo

Henry JamesA notícia é do Eduardo. A recentemente criada editora independente lisboeta Palimpsesto acaba de editar o conto The Diary of a Man of Fifty do eminente escritor anglo-americano Henry James (1843-1916), escrito em 1879, que sairá para o mercado no próximo dia 9 de Julho, sob o título Diário de um homem de 50 anos.
Excluindo a não-ficção, o Mestre escreveu 112 novelas e contos e 20 romances, e uma pequeníssima percentagem dessas obras foi publicada no nosso país. É uma pena, agravada pela certeza de a maioria desses escritos não possuir, neste momento, de direitos autorais e de pertencerem ao denominado domínio público.
Deste modo, uma colectânea desses contos, de forma similar ao que a excepcional Relógio D’Água tem vindo a fazer com a obra de Anton Tchekhov, não seria, certamente, dinheiro mal gasto, contribuiria, desde logo, para o enriquecimento do património bibliográfico nacional, não deixando cair no olvido, através de uma obra dispersa e repetida num sem-número de publicações, um dos nomes mais ilustres da Literatura universal de todos os tempos.

Títulos de Henry James publicado em Portugal (lista actualizada, já publicada no meu blogue anterior, por ordem alfabética do título da obra):

Romances

  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Contos ou Novelas

  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (colectânea: Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto epónimo os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1874); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” ((primeiro título: Jersey Villas; 1892);
  • Os Amigos dos Amigos (Presença) – The Friends of the Friends (primeiro título: The Way It Came), 1896; inclui, para além do conto epónimo os contos: “Owen Wingrave” (1892) e “A Vida Privada” (The Private Life, 1892);
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Diário de um homem de 50 anos (Palimpsesto) – The Diary of a Man of Fifty, 1879;
  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898.

Estatística luso-jamesiana. Foram publicados de O Mestre em português europeu:
4 dos seus 20 romances – 1/5 ou 20%;
14 dos seus 112 contos e novelas – 1/8 ou 12,5%.

Lista dos 16 romances nãos publicados em Portugal (ou, pelo menos, já fora do circuito comercial), por ordem cronológica:
Watch and Ward (1871); Roderick Hudson (1875); The American (1877); Confidence (1879); The Bostonians (1886); The Princess Casamassima (1886); The Reverberator (1888); The Tragic Muse (1890); The Other House (1896); The Spoils of Poynton (1897); What Maisie Knew (1897); The Awkward Age (1899); The Sacred Fount (1901); The Wings of the Dove (1902); The Ambassadors (1903); The Outcry (1911).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ler devagar...

…e saborear cada palavra:

«Mrs Gereth had said she would go with the rest to church, but suddenly it seemed to her that she should not be able to wait even till church-time for relief: breakfast, at Waterbath, was a punctual meal, and she had still nearly an hour on her hands. Knowing the church to be near, she prepared in her room for the little rural walk, and on her way down again, passing through corridors and observing imbecilities of decoration, the æsthetic misery of the big commodious house, she felt a return of the tide of last night’s irritation, a renewal of everything she could secretly suffer from ugliness and stupidity. Why did she consent to such contacts? why did she so rashly expose herself? She had had, heaven knew, her reasons, but the whole experience was to be sharper than she had feared. To get away from it and out into the air, into the presence of sky and trees, flowers and birds, was a necessity of every nerve. The flowers at Waterbath bath would probably go wrong in colour and the nightingales sing out of tune; but she remembered to have heard the place described as possessing those advantages that are usually spoken of as natural. There were advantages enough it clearly didn’t possess. It was hard for her to believe that a woman could look presentable who had been kept awake for hours by the wallpaper in her room; yet none the less, as in her fresh widow’s weeds she rustled across the hall, she was sustained by the consciousness, which always added to the unction of her social Sundays, that she was, as usual, the only person in the house incapable of wearing in her preparation the horrible stamp of the same exceptional smartness that would be conspicuous in a grocer’s wife. She would rather have perished than have looked endimanchée
Henry James, The Spoils of Poynton (1897; ed. Oxford World's Classics, 2000, p. 1)

(E tudo isto a propósito do temperamento e dos gostos pessoais na avaliação de uma obra literária. Tão maneirista, pedante e aristocrata, e no entanto um dos melhores de sempre – o Mestre.)

Apesar do carácter retórico da pergunta, Sérgio, ensaio uma resposta: claro que é.
A nossa (deles, americanos) estimável Michiko é insuportavelmente feminista e misândrica, maniqueísta, cultora do ódio de estimação (que o digam Roth ou Mailer, este último num qualquer tipo de manifestação ectoplásmica), talvez induzida pela soberba do legado para o mundo literário de uma marca própria; porém, sabe de literatura e de como se constrói uma recensão, disseca, por vezes com um excesso de minúcia, as obras analisadas. É irritante e de crítica na maioria das vezes criticável (pleonasmo propositado, não sei por que carga de água...), mas irrepreensível no rigor – não é por acaso que já venceu um Pulitzer pela carreira de recenseadora.
A nossa (e aqui, infelizmente, o possessivo assenta-nos bem) Dóris Graça Dias é a imagem do país. E porque é nele que temos de viver, onde um simples texto de lamentação, ao invés de agir como agente preventivo para um comportamento desprezível, é normalmente visto como uma apologia, então fiquemo-nos pelos adjectivos que, de forma inexorável, a ele se agarram como lapas às rochas: pequenino, mesquinho, invejoso e, sobretudo neste caso, oportunista – o velho hábito luso do massacre, constante e sem piedade, do debilitado –, um imenso viveiro para a ostentação, para o snobismo grosseiro (ver etimologia, sine nobilitate).

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Retrato de um Soberano

Não sei se alguém, dos poucos que por aqui passam diariamente e que ainda dispõem de alguma reserva mental para me aturar lendo os textos que por aqui publico, já se perguntou por que razão este blogue está cada vez mais circunscrito aos livros e à literatura. Devaneio meu… Talvez... E quiçá, se alguém houver, pode até nem se questionar sobre essa aparente inflexão, limitando-se a seguir uma hiperligação, à guisa de um reflexo condicionado, assim que se liga ao ciberespaço, e certamente esse não será assunto que se possa afigurar como fonte imediata do meu permanente estado de inquietação.
Um facto indesmentível, que facilmente advém por via empírica, é que a impunidade dos poderosos, sejam eles
políticos ou os imaculados senhores magistrados – de direito ou do Ministério Público – recrudesce de dia para dia, em progressão geométrica. E num país onde não se vislumbra a mínima possibilidade de um esforço colectivo e concertado para alterar este estado das coisas, dados os interesses maiores da capelização dos interesses individuais, a vontade de lutar vai-se desvanecendo como o indulgente oxigénio que se esvai para manter acesa a chama. É científico e irrefutável, sem essa massa crítica este país continuará redondo como um ovo, sem ponta por onde se lhe pegue (estou a citar alguém, mas não me lembro quem).

Assim, continuo na literatura, efabulando, a rir e a chorar com mais vontade, folheando páginas à luz de leitura com o televisor ligado, previamente emudecido, à hora do Telejornal, fingindo viver numa espécie de Arcádia. Um autismo auto-infligido, pois bem!

Para dar em definitivo a volta no parafuso jamesiano, consultada as minhas estantes dedicadas à ficção literária, creio serem estas as únicas obras de Henry James disponíveis no mercado nacional, devidamente traduzidas na nossa língua (e assim o vai permitindo a dimensão intelectual deste país, que nem pela língua se faz grande):

  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898;
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto referido (que empresta o seu nome a parte do título da colectânea), os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1875); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” (1892);
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Nota: Como não se prevê a edição em português de mais obras de Henry James da sua vastíssima bibliografia activa, aqui fica não só a sugestão de consulta de alguns textos publicados gratuitamente pelo Projecto Gutenberg, como também as fabulosas edições Penguin Classics, com prefácio de, entre outros, ilustres autores e críticos literários (com especial atenção para o texto de introdução de Gore Vidal em The Golden Bowl).

terça-feira, 10 de abril de 2007

Ainda o Mestre

Henry JamesHá cerca de um mês dava aqui a notícia que, finalmente, o romance The Master do autor irlandês Colm Tóibín havia sido editado em português de Portugal.
O suplemento Ípsilon do jornal
Público dava-lhe destaque através de um excelente artigo assinado por Luís Miguel Queirós que dava conta, entre muitos outros assuntos, da febre jamesiana que assolou os espíritos literários de autores de língua inglesa. Entre eles contava-se David Lodge com o seu romance Autor, Autor – a exultação do público que clama pela presença do autor da peça em palco para uma ovação –, prontamente editado em Portugal pelas mãos das Edições Asa e que, havendo-me recordado da ocasião – e julgo não estar enganado –, mereceu a presença do escritor britânico por terras lusas para a apresentação do livro.
Devidamente apetrechado da minha oneomania literária – conceito aprofundado, com rigor científico, pela revista Certa dos hipermercados Continente [verídico, aparte a cientificidade] – lá adquiri o exemplar de Lodge que abri para de súbito fechar. Pareceu-me grotesca uma primeira parte, com pouco mais de quarenta páginas, recheada de diálogos e de coloquialismos da criadagem quando o tema central abordava precisamente o epítome da estética literária e do bom gosto, mesmo que a intenção de Lodge fosse o da destrinça de grandezas pela justaposição de hierarquias ou o do mero confronto de estilos.
Assim que saiu O Mestre, retomei o que abandonara havia pouco mais de um ano, o romance de David Lodge. E não me enganei por muito, apesar da, prognosticada por mim, inversão nas restantes três partes, mas:

«Henry levantou-se da cama e esvaziou copiosamente a bexiga para um bacio. Ao arrumá-lo de novo na mesa-de-cabeceira sentiu, como sempre uma leve pontada de remorso por dar à criada a tarefa de o despejar (…)» (pág. 240)

Para mais adiante referir, após James, ansioso, haver encontrado o anúncio no jornal sobre a estreia para essa noite da sua peça Guy Domville:

«Aguardou, esperançado, algum movimento intestinal que pudesse pressagiar evacuação, mas não recebeu essa graça.» (pág. 244)

Lodge dessacraliza o mito, como para satisfazer a curiosidade escatológica de um público voyeurista, sedento pela revelação de pormenores sórdidos das figuras públicas mesmo que mortas e enterradas há quase uma centena de anos. É nisto que a obra de Lodge, apesar de versar sobre a mesma matéria, se situa nos antípodas do romance de Tóibín.
Em suma, sobre Henry James, apetece-me ironizar, parece que Lodge escreveu para a TV Guia e Tóibín para a Yale Review.

Apesar de tudo, isso não pretende significar que Autor, Autor não tenha os seus méritos. Julgo até que, na íntegra, consegue alcançar os seus objectivos, não conferindo, de forma propositada, juízo de valor algum ao próprio autor, o que em certas situações empresta um carácter mais informativo à biografia romanceada. Como exemplo, deixo aqui ficar este episódio delicioso, apesar de ser susceptível de encerrar uma aparência, de certa forma, mórbida, que retrata o processo de escrita de uma carta pela mão de Henry, que irá ser enviada ao seu irmão mais velho, William, a viver nos Estados Unidos, relatando os últimos minutos de vida da irmã Alice na sua casa em Londres:

«Nesse momento, e de uma forma estranha, difusa e comovente, o rosto dela pareceu tornar-se mais claro. Fui abrir a janela, para deixar entrar um pouco mais de luz da tarde (era um domingo luminoso, agradável e silencioso), e quando voltei para junto do leito ela [Alice James] tinha exalado o seu último suspiro.» Leu o parágrafo outra vez, riscou o lugar-comum «último suspiro» e substituiu-o por «o suspiro a que mais nenhum se seguiu». (pág. 169)

Henry, o esteta, revela-se até nestes momentos de infortúnio.
A propósito da culpa e do remorso sentidos pela morte da sua querida amiga Constance Fenimore Woolson, Henry lembrou-se das palavras de acusação escritas pela mãe de Flaubert numa carta que endereçou ao próprio filho e que este lhe contou, em tom de piada, num encontro de escritores na sua casa em Paris:

«A tua mania das frases secou-te o coração» (pág. 236).

Referência bibliográfica:
David Lodge, Autor, Autor. Porto: Asa, 1.ª edição, Novembro de 2005, 426 pp. (tradução de Ana Maria Chaves; obra original: Author, Author, 2004).

segunda-feira, 9 de abril de 2007

A Voz do Mestre

Terminei há uns dias a leitura de O Mestre – livro escrito pelo autor irlandês Colm Tóibín e publicado em Portugal pela Dom Quixote em Fevereiro deste ano.
Terminei há muito (pouco) a sua leitura… Li os agradecimentos, li a contracapa e a badana e dei por mim a desejar que o feitiço se estendesse por uns dias mais, como se ao reler a primeira página do primeiro capítulo, sob o marco de Janeiro de 1895, pudesse conservar as palavras soltas do génio que, porventura, o áspero fragor dos dias me impediu de ler:

«Por vezes, à noite, sonhava com os mortos – rostos familiares e outros, meio esquecidos, fugazmente evocados.» (pág. 9)


Esta é a evocação do autor por todos consagrado como “O Mestre”, Henry James (Nova Iorque, 15 de Abril de 1843 – Londres, 28 de Fevereiro de 1916), escreveu 20 romances, 112 contos, 12 peças de teatro e inúmeros artigos de crítica literária (números retirados da página da internet da The Literature Network).
O que dizer de um livro que nos deixa literalmente presos da primeira à última páginas?
Tóibín começa por descrever a vida de James a partir do fracasso na estreia em Londres da peça de teatro Guy Domville em Janeiro de 1895. O livro prolonga-se por onze capítulos, até ao dealbar do último ano do século XIX, o fim do Inverno de 1900.
Pelo meio, Tóibín vai descrevendo o Mestre e a sua vida recorrendo a inúmeros flashbacks, desde a sua infância em Newport, Rhode Island, onde se misturam as várias deambulações do passado e do presente do artista entre Florença, Veneza, Roma ou Paris, e até Dublin onde decorre parte da acção do segundo capítulo, como hóspede da fútil e histriónica Lady Wolseley e se manifesta, por antítese, a estética do escritor anglo-americano.
Tóibín, com recurso à sua narrativa deslumbrante e dotada de uma profunda sensibilidade, dir-se-ia que jamesiana, parece querer realçar a condição de expatriado de Henry James – frequentemente invocada ao longo do romance – não como consequência de uma inadaptação resultante de uma a vida atribulada de um americano – que acabara de viver os horrores da Guerra da Secessão – que se estabeleceu em definitivo em Inglaterra para aí desenvolver a sua veia artística, mas como um cidadão do mundo e um estudioso do comportamento humano, que se imiscui na vida mundana da aristocracia e das artes na Europa, com o objectivo de contemplar o belo e as suas derrogações e com esses ensinamentos puramente espirituais criar a obra. É esse o padrão de exigência de James, apesar do aspecto mundano e até hedonista da alta sociedade que lhe foi contemporânea e através da qual pôde construir os seus mais belos relatos.
Em suma, a frivolidade, o pretensiosismo, a vaidade, a ostentação das elites que James frequentava eram para si, para além de um certificado contra o perigo do doloroso esquecimento, um mero instrumento de trabalho, uma escola, que lhe permitiam delinear os traços, sob a forma de caracteres gravados em papel, da beleza e do seu admirável poder de contemplação da natureza e da sua interacção com o ser humano. Por isso amava a velha Europa, a civilização sem o ferrete do puritanismo americano, principalmente a Itália onde a beleza se exibe em todo o seu esplendor, de forma indelével e despretensiosa.
Tóibín captou com a sua prosa todo o prazer estético que enchia a alma do Mestre:

«Henry adorava a suavidade das cores da praia perto de Rye, a luz inconstante, as nuvens que pareciam feitas de espuma e que se moviam ao longo do céu como que obedecendo a um desígnio. Passara em Rye os últimos Verões, e, naquele Verão em particular, enquanto caminhava com um passo vivo, enérgico, procurando – por uma vez – fruir o dia sem fazer planos, não conseguia parar de se perguntar o que mais desejaria naquele momento, ao que invariavelmente respondia que só queria mais daquilo – calmas horas de trabalho, dias calmos, uma bela casa, bela e pequena, e aquela luz de Verão tão branda. Antes de ter deixado Londres, comprara a bicicleta que, agora, estava a sua espera no caminho da praia. Apercebeu-se de que nem sequer queria que o passado voltasse, que aprendera a não pedir isso. Os seus mortos não regressariam. Nunca mais voltaria a sentir o medo de os ver partir e isso proporcionava-lhe uma estranha satisfação, o sentimento de que, agora, não queria outra coisa senão que o tempo passasse lentamente.
Todas as manhãs, no terraço da casa, sentia-se assaltado pelo mesmo desejo. Daria tudo para ser capaz de encontrar uma maneira de capturar aquela imagem de beleza e de a guardar perto de si. O terraço, revestido com tijoleira e encurvado como a proa de um navio, pairava sobre uma vista que era simultaneamente tão pura e tão mutável como a amplidão do mar. E, lá em baixo, estendia-se Rye, a menos inglesa de todas as povoações inglesas, com os seus telhados de telha vermelha e ruas sinuosas e cachos de edifícios, com as suas colinas e o empedrado das ruas, tal e qual uma cidade italiana, com a sua atmosfera sensual, mas também contida e austera. Agora, caminhava quase todos os dias pelas ruas de Rye, estudando as casas, as velhas lojas com janelas de caixilhos pequenos, a torre quadrada da igreja, a beleza do tijolo, moldada pelos elementos. Quando voltava para casa, o terraço era o seu camarote de ópera, o local onde os seus olhos podiam abarcar todos os reinos da terra. O seu terraço, pensava, era tão amável como uma pessoa, talvez mesmo mais. Lamentava não poder comprar aquela casa; sentia já um claro ressentimento em relação ao proprietário só porque este tencionava reocupá-la em fins de Julho.
» (pp. 113-114)

O Mestre capta a essência de Henry James e os seus fantasmas. O fracasso no mundo do teatro; a triste aceitação da falta de sensibilidade dos seus coetâneos, mais voltados para o melodrama e a vacuidade da ostentação; o seu processo criativo engendrado por pequenas notas que ia retirando dos episódios do dia-a-dia; o seu, muito seu, conceito de amor, casto, sem entrega física, um mera entrega espiritual de sintonia estética, que por vezes lhe emprestavam uma pátina de algum distanciamento e até insensibilidade perante o relacionamento com aqueles que o rodeavam, os amigos e a família; as mulheres da sua vida – principalmente a sua querida irmã Alice James, a sua prima Minnie Temple, e a sua melhor amiga, a escritora Constance Fenimore Woolson –, cujas mortes trágicas lhe trouxeram o pungente remorso do seu percebido egocentrismo, o qual mais não era que uma forma de dedicação e de fidelidade pela arte que, decerto, sairia prejudicada pela prisão do relacionamento íntimo e permanente; os homens da sua vida – especialmente o seu primo Gus Barker, decepado à vida pelos horrores da guerra civil americana, e o jovem escultor Hendrik Christian Andersen – e a sua profunda atracção reprimida pela sua arreigada pudicícia – por exemplo exprobrava o exibicionismo devasso de Oscar Wilde e do seu círculo de amigos – que o faziam sofrer amargamente, o horror ao toque íntimo e às relações sexuais, como prejudiciais ao simples prazer da contemplação da beleza física.

O único problema desta obra admirável – como referi no início deste texto – é a dificuldade com que nos resignamos à evidência que para além da página 446 apenas há os agradecimentos do autor. No entanto, o fascínio subsiste e a ela hei-de voltar muito em breve.

Classificação: ****** (Obra-prima)

Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, O Mestre. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 447 pp. (tradução de José Vieira de Lima*; obra original: The Master, 2004)

*apenas uma pequena referência para o tradutor (também tradutor de Auster em Portugal): excepcional, com as notas de rodapé indispensáveis.

terça-feira, 13 de março de 2007

O Mestre é…

Henry James.
A primeira década do século XXI foi fértil em obras de ficção que, de forma directa ou indirecta, se debruçaram sobre um dos maiores estetas literários de todos os tempos.
O maior destaque vai não só para a obra de Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004) – vencedor do Booker Prize em 2004 e que se centra na existência atribulada do jovem plebeu e homossexual Nick Guest pelos meandros da frívola aristocracia e da corrompida classe política britânicas, enquanto trabalha na sua tese de doutoramento sobre Henry James –, como também, e de forma mais directa, pelas obras Autor, Autor (Author, Author; 2004) do truculento David Lodge e de O Mestre (The Master, 2004) do escritor irlandês Colm Tóibín, que lhe permitiu vencer o cobiçado IMPAC Dublin Literary Award em 2006 – em termos monetários, é o maior prémio do mundo a distinguir uma obra literária de ficção que, desde a sua criação em 1996, já galardoou romances de escritores como Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, David Malouf ou Javier Marías.
Decorridos quase três anos (1060 dias) após a sua primeira publicação em língua inglesa, O Mestre de Colm Tóibín foi finalmente editado em português de Portugal, sob a chancela da Dom Quixote.

Na Ípsilon do
Público de sexta-feira passada há um excelente e extenso artigo, escrito por Luís Miguel Queirós sob o título “Diabruras do fantasma de Henry James”, que relata a recente febre Jamesiana na literatura contemporânea e em particular um curioso conflito entre Tóibín e Lodge a propósito da publicação das suas obras com Henry James como protagonista.

Para finalizar, nada como as palavras de um Mestre sobre outro Mestre, sobre alguma incompreensão do público e da crítica reinante perante a subtileza dos personagens e dos finais abertos que abundam na obra do escritor anglo-americano e na recusa daqueles pelo mundo das sombras em detrimento da realidade substancial. Joseph Conrad discorre sobre a permanente busca do público pelo desenlace, pelo fim da história, pelo descanso após o encerramento do livro e a constatada impossibilidade dessa demanda na genialidade da obra de James e dos seus personagens que imitam a vida, deixando os seus leitores em permanente sobressalto.
Conrad chega a afirmar: «Por que motivo o público leitor, que, como um todo, nunca conferiu ao contador de histórias o poder de ser um artista, lhe deve exigir a presunção da Divina Omnipotência, é algo absolutamente incompreensível.» [tradução livre: AMC]

A ler: Joseph Conrad, “Henry James – An Appreciation – 1905”, Notes on Life and Letters, 1921 (Part I – Letters; textos editados por J. H. Stape)