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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

IMPAC 2011

[Por vezes criamos rotinas difíceis de quebrar, como escrever neste blogue sem o deixar a morrer de inanição, famélico por novos textos por muito deploráveis que possam ser – do subgénero maçã podre – à luz dos profissionais desta coisa pavoneante; ou de deixar cair a divulgação de alguns eventos ou factos ligados à Literatura que, estou convencido do convencimento do leitor letrado, em nada engrandecem o valor deste blogue – aliás se acreditasse na potência do seu efeito multiplicador, seria como esperar por Godot, porquanto ao que de absorção se chama o elemento da multiplicação se traduz o valor real deste pasquim na plataforma do empório Google; e se absorve, por muitos milhões de caracteres que se lhe apliquem por repetição, a sua insignificância ou o nada será sempre a sua máxima distintiva.
Face ao grave e soturnamente exposto acima, e ao contrário de anos anteriores, abandono o tradicional exercício de “cortar e colar”, até pela expiração do prazo de validade da coisa, ou seja, mais desvalorizado pelo diferimento entre o acontecimento e o auto de notícia infra-escrito.]
No passado dia 15, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A lista deste ano é composta por 162 romances (mais 6 que em 2010) escritos por outros tantos autores.
O destaque que aqui se dá a este prémio, advém da sua característica principal que o torna único e meritório, que se poderia traduzir nas 2 etapas (3 fases) bastantes distintas no processo de selecção que consiste na intervenção de dois níveis de especialistas ligados ao mundo dos livros: (1) bibliotecários, na 1.ª fase (este ano intervieram 126 bibliotecas situadas em 43 países), e (2) autores, críticos, editores e gente das letras, que constituem o júri previamente escolhido, nas 2.ª (eleição dos finalistas) e 3.ª (eleição do vencedor) fases (cujos resultados serão anunciados a 12 de Abril e a 15 de Junho de 2011, respectivamente).
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples:
- O Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas situadas nas capitais e principais cidades de países espalhados pelos cinco continentes.
- Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.

Para o prémio de 2011 só poderiam ser nomeadas:
- Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2009;
ou,
- Obras originalmente publicadas noutra língua no quinquénio 2005/2009, e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2009.

Neste primeira fase do IMPAC de 2011, destacaram-se dez obras que obtiveram mais de quatro votos (cinco já foram publicadas em Portugal, curiosamente as quatro mais votadas e uma das três obras colocadas na quinta posição), num total dos 310 votos exercidos (para um máximo de 378 votos) pelas 126 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto).
Lidera a lista das dez mais votadas, a obra vencedora do National Book Award de 2009:
14 votos – Colum McCann, Deixa o Grande Mundo Girar (ed. port. Civilização, Let the Great World Spin);
13 votos – Colm Tóibín, Brooklyn (ed. port. Bertrand);
11 votos – Kathryn Stockett, As Serviçais (ed. port. Saída de Emergência, The Help);
10 votos – Hilary Mantel, Wolf Hall (ed. port. Civilização).
7 votos (3 obras)
- Julia Franck, The Blind Side of the Heart;
- Barbara Kingsolver, The Lacuna;
- Lorrie Moore, Uma Porta nas Escadas (ed. port. Relógio D’Água, A Gate at the Stairs);
5 votos (3 obras)
- A.S. Byatt, The Children’s Book;
- Linden MacIntyre, The Bishop’s Man;
- Dimitri Verhulst, Madame Verona Comes Down the Hill.

Apesar do encurtamento do texto habitual, jamais poderia deixar de revelar as obras eleitas pelas duas únicas bibliotecas portuguesas participantes no processo. Por norma, a sua participação reputa-se de bastante valiosa (nunca votaram num vencedor), isenta e, por isso, reveste-se do carácter de imprescindível; em regra, desprovida de qualquer vestígio de pró-lusofonia ou de amiguismo literário, resultando sempre de um enorme esforço de abstracção inteiramente dirigido para a qualidade das obras elegíveis. Eis, então, as escolhas para o IMPAC de 2011 enviadas (dentro do prazo) pelas nossas queridas instituições:
Biblioteca Municipal Central de Lisboa
- Carlos Ruiz Zafón – O Jogo do Anjo (ed. port. Dom Quixote) – 4 nomeações (+ Birmingham, Cork e Gateshead)
- Claudia Piñeiro – As Viúvas das Quintas-Feiras (ed. port. QuidNovi) – 2 nomeações (+ Brasília)
- Patrícia Melo – Mundo Perdido (ed. port. Campo das Letras) – 3 nomeações (+ Porto e Brasília)
Biblioteca Pública Municipal do Porto
- Daniel Silva – O Desertor (ed. port. Bertrand) – 1 nomeação
- Luiz Alfredo Garcia-Roza – Na Multidão (ed. brasileira Companhia das Letras) – 2 nomeações (+ Brasília)
- Patrícia Melo – Mundo Perdido (ed. port. Campo das Letras) – 3 nomeações (+ Lisboa e Brasília)

É tudo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

IMPAC 2010 - Vencedor

Foi anunciado ontem, ao fim da tarde, o romance vencedor da edição de 2010 do milionário International IMPAC Dublin Literary Award. Uma vez mais (tal como ocorreu com Rawi Hage em 2008), foi premiado um primeiro romance, desta feita do escritor holandês Gerbrand Bakker (n. 1962) – que já antes se estreara na literatura infanto-juvenil – trata-se do elucidativo, para a esmagadora maioria da blogosfera lusa que não entende uma palavra sequer de neerlandês, Boven is het stil (2006), obra que foi nomeada na fase inicial por quatro bibliotecas, todas holandesas. Ainda sem edição marcada para Portugal, o romance foi traduzido para inglês em 2008 sob o título The Twin. De notar, que Bakker, para além de haver sido o primeiro holandês a vencer este galardão desde a sua fundação em 1996, derrotou, entre outros, nomes já consagrados como Christoph Hein, Joseph O’Neill, Marilynne Robinson ou Zoe Heller.

Nota: para mais informações consultar o sítio oficial do prémio.




Vencedores anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

IMPAC 2010 – Finalistas

Três autores britânicos, um alemão, um francês, um holandês, um irlandês e uma autora norte-americana formam a lista de oito finalistas do IMPAC Dublin Literary Award de 2010, cujos semifinalistas (156 romances de outros tantos autores) já aqui dei notícia no dia 3 de Novembro do ano passado. Ei-los (ordenados alfabeticamente pelo nome do autor):
  • Christoph Hein, Settlement (obra original: Landnahme, 2004; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Gerbrand Bakker, The Twin (obra original: Boven is het stil, 2006; obra nomeada na fase inicial por 4 bibliotecas, todas holandesas).
  • Joseph O’Neill, Netherland: Terra de Sombras (edição portuguesa: Bertrand; obra original: Netherland, 2008; obra nomeada na fase inicial por 7 bibliotecas).
  • Marilynne Robinson, Home (2008; obra nomeada na fase inicial por 4 bibliotecas).
  • Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (edição portuguesa: Presença; obra original: L’Élégance du hérisson, 2006; obra nomeada na fase inicial por 8 bibliotecas).
  • Robert Edric, In Zodiac Light (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Ross Raisin, God’s Own Country (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca).
  • Zoe Heller, The Believers (2008; obra nomeada na fase inicial por 1 biblioteca). 

Notas:
  1. Dos 8 romances, apenas 2 foram publicados em Portugal;
  2. O romance com maior número de nomeações na fase inicial (9 no total), a obra, na minha opinião pessoal, a tender para o sofrível de Aravind Adiga, O Tigre Branco (The White Tiger; Booker Prize em 2008), ficou de fora da lista de finalistas.
  3. O vencedor do IMPAC 2010 será revelado no próximo dia 17 de Junho.

Vencedores das edições anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

Depois do auto de notícia, de volta à hibernação reparadora…

terça-feira, 3 de novembro de 2009

IMPAC 2010

[Há pelo menos três anos que este texto se vai repetindo, como a biblioteca borgiana, tendendo para um infinito – se me julgasse eterno… –, apenas com algumas alterações numéricas que, muito ao jeito do pragmatismo anglo-saxónico, se constrói pelo emprego do método “fill in the blanks”. Tentarei, porém, mudar alguma coisa. Nem que seja uma vírgula, uma palavra pelo seu sinónimo directo (ou até por um erro ortográfico grosseiro, um obstinado apelo à atenção do leitor), vários pontos de exclamação (tão vituperados, ultimamente, ó símbolo viril; tratados como proscritos e condenados à chama com poder calorífero decerto superior a 451ºF onde jazem as cinzas das “reticências”, do “ponto e vírgula” e do “travessão”). Basta! Enfim…]

Ontem, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A lista deste ano é constituída por 156 romances (mais 10 que em 2009) de outros tantos autores.
Nesta primeira fase de selecção intervieram 163 bibliotecas (mais 10), espalhadas por 123 cidades (mais 6) de 43 países (menos 4) de todos os cantos do mundo.
Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan (tal como no ano passado). A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 14 de Abril de 2010.
Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos – note-se que das 156 obras seleccionadas este ano, 41 foram traduzidas para o inglês. O vencedor do IMPAC Award de 2010 será anunciado no dia 17 de Junho de 2010.
A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples:
- O Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
- Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.


Para o prémio de 2010 só poderiam ser nomeadas:
- Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2008;
ou,
- Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2004/2008 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2008.
Para o prémio de 2010, destacaram-se dez obras que obtiveram mais de cinco votos (entre as quais constam oito que já foram publicadas em Portugal, curiosamente, apenas distribuídas por 3 editoras: 4 da Presença, 3 da Bertrand e 1 da Dom Quixote), no total dos 300 votos exercidos (para um máximo de 489 votos) pelas 163 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto). Lidera a lista o Booker Prize de 2008:
  • 9 votos – Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença, The White Tiger); 
  • 8 votos (3 obras) – Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (ed. port. Presença, L’Élégance du hérisson); Sebastian Barry, Escritos Secretos (ed. port. Bertrand, The Secret Scripture); e Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença, A Mercy); 
  • 7 votos (2 obras) – Joseph O'Neill, Netherland: Terra de Sombras (ed. port. Bertrand, Netherland); e Steven Galloway, O Violoncelo de Sarajevo (ed. port. Presença, The Cellist of Sarajevo); 
  • 6 votos (4 obras) – David Wroblewski, A História de Edgar Sawtelle (ed. port. Bertrand, The Story of Edgar Sawtelle); Philip Hensher, The Northern Clemency; Philip Roth, Indignação (ed. port. Dom Quixote, Indignation); e Tim Winton, Breath.
Seguem-se cinco obras com cinco votos, de onde destaco o romance magistral de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence) – até há bem pouco tempo figurava com 6 estrelas (Obra-Prima) neste blogue (ver coluna do lado esquerdo) onde fazia companhia a Thomas Mann; todavia, dada a excepcionalidade da classificação, foi reclassificado, tendo sido destronado por Updike. Esta obra de Lodge foi publicada em Portugal pela Asa, e é, sem sombra de dúvida, um dos melhores romances editados em 2009 no nosso país, um daqueles que me levou às lágrimas tanto pelas peripécias da vida de um erudito em perda irreversível do sentido da audição, como pelos momentos mais melancólicos onde, através do picaresco, perpassa uma ternura esteticamente comovente.
De notar, que, atendendo ao historial deste prémio, toda a estatística que atrás despejei, no essencial as que incluem as obras com o maior número de nomeações, pode revelar-se apenas como mera indicação ou mero mostruário para não retirar o sentido lúdico (maníaco?) ao evento, ou seja, sem força vinculativa para a escolha dos finalistas e do vencedor a ocorrer no próximo ano. A palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos nos vencedores dos quatro últimos anos, verificamos que o vencedor de 2009, o bostoniano Michael Thomas, pela sua obra Man Gone Down, foi nomeado apenas por 1 biblioteca nos Barbados; tal como ocorreu com o vencedor de 2008, o autor canadiano-libanês Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game), nomeado apenas por 1 biblioteca e conterrânea, a Winnipeg Public Library, no Canadá; enquanto o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, com o admirável romance Cavalos Roubados (Ut og stjæle hester), foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006, Colm Tóibín, com a sua inolvidável obra semi-ficcional sobre parte da vida de Henry James, O Mestre (The Master), foi previamente nomeado por 17 bibliotecas espalhadas pelo mundo.
Será ainda de notar que, pela primeira vez na curta história dos IMPAC Awards, foram nomeadas duas obras distintas pertencentes a um casal literário – e, diga-se, bastante famoso no mundo das letras –, ambas editadas pela Asa [fonte: Miguel Seara]: 
  • Paul Auster, pelo seu penúltimo romance Homem na Escuridão (Man in the Dark) – 4 nomeações (Alemanha, Áustria, Bélgica e Itália); 
  • Siri Hustvedt, por Elegia para um Americano (The Sorrows of an American) – 3 nomeações (Bélgica, Espanha e Noruega).

Finalmente, três destaques, por razões diversas para três autores:
  • o ateu literalista (com falta de divino, não consciente) José Saramago foi nomeado pela Miami-Dade Public Library (Florida, EUA) pelo seu romance As Intermitências da Morte;
  • o autor brasileiro Milton Hatoum foi nomeada por uma biblioteca brasileira pelo seu romance Cinzas do Norte;
  • o sofrível romance do perseguido autor indo-britânico Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença (ed. port. Dom Quixote; The Enchantress of Florence) recebeu apenas 1 nomeação (da Kansas City Public Library, Minnesota, EUA).
    Para terminar,deixo ficar a habitual referência ao comportamento eleitoral das nossas inventivas bibliotecas participantes. Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das suas duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias – pouco chauvinistas, ao que parece… 
    BMCL: 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações; 
    • Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença; A Mercy) – 9 nomeações. 
    BPMP (este ano, ao contrário de outros, exerceu a totalidade dos 3 votos a que tinha direito, e finalmente não escolheu uma obra do escritor nova-iorquino, residente na Invicta, Richard Zimler): 
    • Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença; The White Tiger) – 8 nomeações; 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações.
      Para o ano, se SaraMago, ou deus, ou outra entidade por eles permitir, cá estarei para apresentar um texto quase automático com a listagem da 1.ª fase do IMPAC de 2011.

      quarta-feira, 19 de novembro de 2008

      IMPAC 2009

      Como já se tornou um hábito nesta época do ano, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A referida lista é constituída por 146 romances de outros tantos autores.
      Nesta primeira fase de selecção intervieram 153 bibliotecas, espalhadas por 117 cidades de 47 países de todos os cantos do mundo.
      Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan. A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 2 de Abril de 2009.
      Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos. O vencedor do IMPAC Award de 2009 será anunciado no dia 11 de Junho de 2009.

      A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
      As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples (replicação de um texto já publicado neste blogue com as necessárias adaptações para o ano em causa):
      Como acabámos de ver, todos os anos o Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
      Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.

      Para o prémio de 2009 só poderiam ser nomeadas:

      • Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2007;
        ou,
      • Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2003/2007 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2007.

      Para o prémio de 2009, destacaram-se oito obras que obtiveram mais de quatro votos (entre as quais constam quatro que já foram publicadas em Portugal e uma outra a publicar em breve), no total dos 291 exercidos (para um máximo de 459 votos) pelas 153 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto):

      • 18 votos – Khaled Hosseini, Mil Sóis Resplandecentes (Presença) – A Thousand Splendid Suns;
      • 13 votos – Michael Ondaatje, Divisadero;
      • 10 votos – Ian McEwan, Na Praia de Chesil (Gradiva) – On Chesil Beach (vencedor de dois British Book Awards: Reader's Digest Author of the Year por este romance e do Galaxy Book of the Year);
      • 8 votos (2 obras) – Michael Chabon, The Yiddish Policemen's Union e Mohsin Hamid, O Fundamentalista Relutante (Civilização) – The Reluctant Fundamentalist;
      • 7 votos – Junot Diaz, The Brief Wondrous Life of Oscar Wao (esta obra irá ser publicada pela Porto Editora; vencedor do 2007 The National Book Critics Circle Award – Fiction e do Pulitzer Prize for Fiction 2008);
      • 6 votos – Anne Enright, Corpo Presente (Gradiva) – The Gathering (vencedor do Booker Prize 2007);
      • 5 votos – Catherine O'Flynn, What Was Lost (vencedor do 2007 Costa First Novel Award, antigo Whitbread Award; vencedora do British Book Awards: Waterstone's Newcomer of the Year).

      Com quatro votos ficaram nove obras, de onde destaco três de autores bem conhecidos do público português e com a respectiva obra publicada no mercado nacional: Don DeLillo, O Homem em Queda (Sextante) – Falling Man; J.M. Coetzee, Diário de Um Mau Ano (Dom Quixote) – Diary of a Bad Year; e o fabuloso romance de Mario Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má (Dom Quixote) – The Bad Girl.

      De notar, que toda a estatística atrás vertida pode revelar-se assaz irrelevante, na medida em que a palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos aos vencedores dos três últimos anos, verificamos que o vencedor de 2008 – Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game) – foi nomeado apenas por 1 biblioteca, a Winnipeg Public Library, no Canadá, enquanto o vencedor de 2007 – Per Petterson, Cavalos Roubados (Out Stealing Horses) – foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006 – Colm Tóibín, O Mestre (The Master) – foi previamente nomeado por 17 bibliotecas (menos uma que a obra de Hosseini no concurso deste ano).

      Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias.

      BMCL (exerceu os 3 votos que tinha direito):

      • Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas (Asa) – The Painter of Battles (1 voto no total);
      • Ian McEwan, Na Praia de Chesil (Gradiva) – On Chesil Beach (votaram neste livro mais 9 bibliotecas);
      • Jonathan Coe, The Rain Before It Falls (votaram neste livro mais 3 bibliotecas) – uma curiosa antecipação à possível edição portuguesa.

      BPMP (apenas votou numa obra, que, acrescente-se, é cromo repetido de outros anos):

      • Richard Zimler, A Sétima Porta (Asa) – The Seventh Gate (1 voto no total).

      sábado, 15 de novembro de 2008

      Sair para roubar cavalos [actualizado]

      Quando em Junho de 2007 o júri do International IMPAC Dublin Literary Award – na altura o prémio literário pecuniariamente mais valioso do mundo a galardoar uma só obra de ficção – anunciou o vencedor, muitos foram os que ficaram de boca aberta pela escolha: um romance, com cavalos no título, de um escritor norueguês quase desconhecido chamado Per Petterson, soava, em primeira mão, a folclore nórdico.
      A perplexidade foi ainda maior conhecendo-se a priori a
      lista dos oito semifinalistas seleccionados pelo referido júri – constituído por seis elementos, que em 2007 incluía o escritor português Almeida Faria – dos quais destaco cinco, para além do vencedor, todos já com edição portuguesa: Arthur & George de Julian Barnes (Asa); O Homem Lento de J.M. Coetzee (Dom Quixote), Nobel da Literatura em 2003; Extremamente Alto, Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foer (Quetzal); Este País Não É para Velhos de Cormac McCarthy (Relógio D’Água); e Shalimar, o Palhaço de Salman Rushdie (Dom Quixote).
      Porém, havia um facto anterior que não poderia ser desprezado, o mesmo romance já havia vencido em 2006 o prémio do jornal britânico
      The Independent para a melhor obra de ficção estrangeira, derrotando autores como David Grossman, Claudel, Murakami, Kertész (Nobel da Literatura em 2002) e o autor marroquino Tahar Ben Jelloun.

      Tal como referi
      aqui, a versão portuguesa chegou (tarde) pelas mãos da Casa das Letras, adiantando-me, desde já, à nota de apreciação, para referir a tradução irrepreensível de Maria João Freire de Andrade* – menção que tem alguma razão de ser, dada a debilidade de algumas das traduções de obras lançadas pela mesma editora, cujo livro de memórias de Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto, é o epítome.

      «Toda a minha vida ansiei estar sozinho num lugar como este. Mesmo quando tudo corria bem, como era frequente acontecer.» (pág. 11)

      Cavalos Roubados – título concludente escolhido pelo editor português, enquadrável na polissemia do jogo de palavras do título original norueguês (dá o título a este texto) – foi publicado pela primeira vez na Noruega em 2003 e traduzido para inglês em 2005, e daí a sua elegibilidade para o IMPAC de 2007. Trata-se de uma história narrada na primeira pessoa pelo protagonista Trond Sander, que aos sessenta e sete anos se decidiu pela reforma e pela fuga de Oslo, desfazendo-se de todos os seus bens e compromissos que o agarravam à capital, procurando o isolamento numa cabana imersa na paisagem bucólica, verdejante, gélida e despovoada do interior da Noruega: «O meu plano para este lugar é bastante simples. Esta vai ser a minha última casa. Quanto tempo isso poderá demorar é algo acerca do qual ainda não pensei.» (pág. 74)

      Aí instalado, na companhia da sua cadela Lyra, previamente adquirida para atenuar o isolamento previsto, Trond é o protagonista de uma estranha coincidência que irá despoletar uma série de rememorações dolorosas: «isso liga-me a um passado que pensei estar muito atrás de mim e afasta para o lado os cinquenta anos com uma ligeireza quase obscena.» (pág. 115). Rememorações que vão tão longe como o ano de 1940, quando o narrador tinha sete anos; passando pela ocupação nazi na Noruega e a sua retirada com a vitória dos Aliados em 1945; o Verão do afloramento de toda a verdade em 1948, desfrutado na companhia do pai, na última vez que estiveram juntos, deixando a mãe e a irmã em Oslo, num local muito parecido com o que actualmente escolheu para morrer; e as duas mortes trágicas ocorridas, no intervalo de um mês, três anos antes do momento presente. O agora é Novembro de 1999, um mês antes da passagem do milénio, segundo o autor e uns tantos milhões de pessoas em todo mundo na altura, que, com a sua ignorância, contribuíram para mais umas vergastadas na tão maltratada Matemática – e já agora, a talho de foice, o mesmo erro é cometido por Frederico Lourenço por haver escolhido, no inquérito levado a cabo pelo blogue
      Os Livros Ardem Mal, como o melhor livro de ficção portuguesa do século XX A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós publicado em 1900, logo, ainda, no último ano do século XIX, embora aqui interesse a influência que a obra exerceu na literatura portuguesa subsequente e nas gerações vindouras, e assim durante o século XX.

      Per Petterson, com uma escrita limpa, escorreita, sem o recurso a artifícios de linguagem ou a uma bateria de figuras de estilo, consegue agarrar o leitor do princípio ao fim, alternando com mestria os diversos períodos históricos atrás referidos. E talvez seja nessa limpidez de linguagem onde reside o principal brilho da obra: inocente, jamais estéril, que consegue captar a ingenuidade imanente de um ser intrinsecamente bom, profundamente emocional e sem a mácula da violência dos tempos que corriam.
      Não há ressentimento, nem qualquer vestígio de vingança ou sequer de autoflagelação por um passado inamovível, em que se desconhece por completo a importância e o valor do papel desempenhado, nem isso parece importar ao narrador: «Se me irei transformar no herói da minha própria vida, ou se esse papel será representado por outra pessoa, é isso que estas páginas irão mostrar.» (pág. 228) Trata-se da abertura do romance de Charles Dickens, David Copperfield, o escritor preferido de Trond que a sua filha Ellen (fruto do seu primeiro casamento), após o haver encontrado na sua cabana e isto depois de o ter procurado pela Noruega rural, já que aquele partira de Oslo sem avisar, lhe recomenda a releitura – este é, sem dúvida, na minha opinião, um dos episódios mais pungentes e comovedores de todo o livro.
      De seguida Trond reflecte sobre as admiravelmente tocantes palavras da filha, depois de lhe haver citado a introdução de Dickens: «Não me é fácil responder àquilo. Não sabia que ela pensava daquele modo. Nunca mo disse. É óbvio que pelo simples motivo de que eu não estava lá quando ela precisara de falar, mas ela não pode saber com que frequência pensei o mesmo e li aquelas primeiras linhas de David Copperfield e depois tive de continuar, página após página, quase petrificado de terror porque tinha de ver se no fim tudo encaixava no seu devido lugar, e como é natural encaixava, mas demorava sempre muito tempo até me sentir seguro. No livro. A vida real era de certo modo diferente.» (pág. 229).

      É esta a magia de Cavalos Roubados, o paradoxo da inquietação tranquila, de um raro lirismo na literatura contemporânea. E que melhor resumo nos pode dar a percebida epígrafe dissimulada, porque há uma pequena chamada na ficha técnica que nos alerta, sem mais assunto, para umas frases no interior do texto, cujo sentido é repetido umas páginas mais adiante. As palavras pertencem ao romance de 1934 Viagem no escuro (Voyage in the Dark) da escritora dominicana Jean Rhys (1890-1979):

      «Foi como um cortinado se tivesse fechado e escondido tudo aquilo que eu sempre conhecera. Era quase como renascer. As cores eram diferentes, os cheiros diferentes, a sensação que tocar nas coisas nos dava interiormente era diferente. Não apenas a diferença entre calor, frio; claridade, escuridão; roxo, cinzento. Mas a diferença estava no modo como me sentia assustado e no modo como me sentia feliz.» (pág. 255).

      --------

      Uma nota final para as estrelas que encerram esta nota de apreciação. Das 40 obras publicadas este ano que tive a oportunidade de ler, três figuram na categoria de excepção – se se tratassem de hotéis, eram de super luxo –, às restantes 35 que figuram em posições inferiores a esta – das 5 estrelas (Muito Bom) a 1 estrela (Mau) –, uma vez que 2 não foram reveladas para esta contagem, Cavalos Roubados é aquela que se aproxima mais do limiar da genialidade, e só não figura na categoria mais acima dados o fôlego, a profundidade e a intemporalidade das obras de Musil, Cortázar e Donoso que aí são referenciadas; em suma, ainda não dispõe da pátina de genialidade, ainda não obtida pela curta distância temporal entre os dias que correm e o momento em que foi publicada.

      Classificação final: ***** (Muito Bom)

      Referência bibliográfica:
      Per Petterson
      , Cavalos Roubados. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp. (tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003).

      Nota: esta obra será vítima da habitual citação dominical, amanhã, portanto.

      [adenda: 22:50]: *Alertado por e-mail, dei conta que ficou por referir, no que à tradução diz respeito, que a versão editada pela Casa das Letras foi elaborada a partir da versão inglesa, Out Stealing Horses, da poetisa e tradutora Anne Born (tradutora de norueguês e dinamarquês, traduziu, entre outras, obras de Isak Dinesen/Karen Blixen), cuja tradução do 2.º romance de Petterson (Cavalos Roubados) foi objecto de enorme aclamação no meio literário anglófono, realçada pelo próprio júri do IMPAC Award. Quanto às minhas referências neste campo apenas se circunscrevem (constava do espírito) à comparação entre a tradução inglesa (que já havia lido em deambulações livreiras) e a tradução de Maria João Freire de Andrade – infelizmente, não sei norueguês, e como diz Chico Buarque «devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.»
      Noutro aspecto, seria, como parece óbvio, preferível que se procedesse à tradução directa da língua original, mesmo que, como é o caso presente, a primeira tradução (do norueguês para o inglês) seja a todos os títulos irrepreensível, há sempre algo que se perde. Na tradução de uma tradução essas perdas serão, decerto, maiores.

      sábado, 18 de outubro de 2008

      Per Petterson

      Já está disponível em português o romance que sucedeu a O Mestre (The Master, 2004) de Colm Tóibín como vencedor do Dublin IMPAC Literary Award, até há bem pouco tempo o maior prémio pecuniário do mundo a galardoar uma obra de ficção.
      Trata-se do romance Cavalos Roubados (Ut og stjæle hester, 2003; versão em língua inglesa: Out Stealing Horses, 2005) do escritor norueguês Per Petterson, nascido em Oslo em 1952 – até agora inédito em Portugal – que não só venceu a edição de 2007 do IMPAC, como também a edição de 2006 do Independent Foreign Fiction Prize – de recordar que José Eduardo Agualusa foi o vencedor de 2007 com o romance O Vendedor de Passados (2004), prémio que já contemplou escritores como Pamuk, Kundera, Saramago (com O Ano da Morte de Ricardo Reis em 1993), Sebald ou Javier Cercas.


      «Princípio de Novembro. São nove horas. Os chapins embatem contra a janela. Por vezes voam atordoados depois do impacto, outras caem a debater-se sobre a neve recente até conseguirem voltar a levantar voo. Não sei o que quererão que eu possa ter. Olho pela janela para a floresta. Há uma luz avermelhada sobre as árvores junto ao lago. O vento começa a soprar. Consigo ver-lhe a forma sobre a água.»
      Per Petterson, Cavalos Roubados, pág. 9.
      [Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Outubro de 2008, 275 pp.; tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Ut og stjæle hester, 2003.]

      sábado, 21 de junho de 2008

      Ainda sobre o IMPAC 2008

      A magnífica editora portuense Civilização acabou de publicar a versão portuguesa do romance vencedor do IMPAC de 2008, prémio que foi anunciado no passado dia 12 de Junho em Dublin na Irlanda.
      Assim, o único romance do fotógrafo e escritor canadiano-libanês de 44 anos, Rawi Hage, originalmente intitulado como De Niro’s Game, surge em português sob o título Como a Raiva ao Vento, traduzido por Teresa Fernandes Swiatkiewicz.
      Para ler, em breve.


      domingo, 15 de junho de 2008

      De Niro’s Game

      «Dez mil bombas caíram e eu esperava por George.
      Dez mil bombas caíram em Beirute, essa cidade atafulhada de gente, e eu estava estendido num sofá azul coberto por lençóis brancos para o proteger da poeira e dos pés sujos.
      Chegou a altura de partir, pensava eu. O rádio da minha mãe estava ligado. Esteve sempre ligado desde o início da guerra, um rádio com pilhas Rayovac que duravam dez mil anos. O rádio da minha mãe estava coberto por uma protecção barata de plástico verde com buracos, manchada de restos dos seus dedos de cozinheira e de pó que penetrara nos seus botões, cravado nos bordos. Nada jamais conseguira pôr fim àquelas canções melancólicas de Fairuz que dele saíam.
      Eu não estava a escapar da guerra; eu fugia de Fairuz, a famigerada cantora.
      O Verão e o calor haviam chegado; a terra ardia debaixo de um sol abrasador que cozia o nosso apartamento e o seu telhado. Mesmo abaixo da nossa janela branca, gatos cristãos caminhavam ao acaso nas ruas estreitas, nunca se persignando ou ajoelhando perante padres vestidos de negro. Carros estacionados em ambos os lados da rua, carros que galgavam os passeios, obstruíam a passagem aos peões, exaustos e sufocados, cujos pés, cansados, e caras, longas, amaldiçoavam e culpavam a América a cada passo dado e a cada estremecimento das suas vidas miseráveis.
      O calor descia, as bombas caíam e rufiões transpunham as longas filas para o pão, roubavam a comida da semana, intimidavam o padeiro e acariciavam a sua filha. Os rufiões nunca esperavam em filas.
      O George buzinou.
      Os fumos negros e agonizantes da sua mota alcançaram a minha janela e o seu barulho estridente entrou pelo meu quarto. Desci as escadas e amaldiçoei Fairuz à saída: aquela cantora lamurienta que faz da minha vida um inferno.
      A minha mãe desceu do telhado com dois baldes nas suas mãos; ela estava a roubar água do reservatório do vizinho.
      Não há água, disse-me ela. Ela só chega duas horas por dia.
      Ela disse qualquer coisa acerca de comida, como é hábito, mas eu acenei e corri pelas escadas abaixo.
      Instalei-me na mota do George, sentei-me atrás dele e guiámos pelas principais ruas onde as bombas caíram, onde uma vez diplomatas sauditas se enredaram com prostitutas francesas, onde os antigos gregos dançaram, os romanos invadiram, os persas afiaram as suas espadas, os mamelucos roubaram o alimento aos aldeãos, os cruzados comeram carne humana e os turcos escravizaram a minha avó.
      A guerra é para rufiões. As motos também são para rufiões e para adolescentes de cabelo comprido como nós, com armas sob as nossas barrigas, gasolina roubada nos nossos depósitos e sem algum lugar especial para onde ir. Parámos junto à marginal da cidade, no acesso a uma ponte, e o George disse-me, eu tenho um
      mashkal (problema).»


      Excerto do 1.º capítulo de De Niro's Game, o primeiro romance do autor canadiano-libanês Rawi Hage: nascido 1964 em Beirute, no Líbano, enfrentou os primeiros anos da guerra civil libanesa, iniciada em 1975; emigrou em 1982 para os Estados Unidos, onde dá os primeiros passos na sua carreira de fotógrafo; em 1991 instala-se definitivamente no Canadá, licenciando-se em "artes visuais" dando seguimento à sua veia artística na fotografia, contando já com inúmeras exposições no seu currículo. Hage acabou de arrecadar os 100.000 euros do
      IMPAC 2008, como já aqui havia dado conta.
      [Tradução livre: AMC, 2008]

      sexta-feira, 13 de junho de 2008

      IMPAC 2008

      Rawi HageO autor canadiano-libanês Rawi Hage (n. 1964) foi o vencedor da edição deste ano do galardão milionário International IMPAC Dublin Literary Award e logo com o seu romance de estreia De Niro’s Game, a história cruel, sem atavios, do destino de dois amigos de infância, tendo o Líbano como pano de fundo e o realismo da brutalidade quotidiana da guerra civil que os separa, e como marco narrativo a famosa frase do brilhante Albert Camus (1913-1960):
      «Só há um problema filosófico verdadeiramente série: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia.» Albert Camus, O Mito de Sísifo.
      O júri do prémio escolheu Hage, entre as obras – este ano representativas de uma verdadeira babilónia de culturas – de oito autores diferentes, entre os quais, para além do próprio vencedor, se encontravam os nomes fortes de autores como o do espanhol Javier Cercas, com o romance A Velocidade da Luz (ed. port. Asa, 2006; La velocidad de la luz, 2005); ou do irlandês Patrick McCabe ou ainda do franco-russo Andreï Makine.

      Este ano, um conjunto de 162 bibliotecas, pertencentes a cerca de 122 cidades de 45 países participaram na escolha inicial dos 137 romances a concurso, entre os quais 8 foram seleccionados para a final por um júri nomeado para o efeito. Portugal, como tem sido habitual em anos anteriores, participou com as sugestões da Biblioteca Municipal Central de Lisboa (nomeou três obras de três autores: José Eduardo Agualusa, Monica Ali e Paul Auster) e a Biblioteca Pública Municipal do Porto (nomeou apenas uma obra, de autoria da escritora chilena Isabel Allende).

      Curioso, será verificar que o grande vencedor do IMPAC 2008 apenas foi nomeado por uma única biblioteca para a lista inicial, a sua conterrânea Winnipeg Public Library no Canadá – o mesmo já havia ocorrido com o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, apenas nomeado por duas bibliotecas (entre as 169 participantes) e ambas norueguesas.

      Eis os anteriores vencedores do prémio mais generoso do mundo a premiar uma obra de ficção:
      2007 – Per Petterson – Out Stealing Horses
      2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
      2005 – Edward P. Jones – The Known World
      2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
      2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
      2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
      2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
      2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
      1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
      1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
      1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
      1996 – David Malouf – Remembering Babylon

      quinta-feira, 14 de junho de 2007

      Impac(to) Norueguês

      2.º Passo: Um Poder Superior que restitua a sanidade
      (seguindo os passos até ao São João)


      Per PettersonPer Petterson. Este nome diz-vos alguma coisa?
      É norueguês, nasceu em Oslo em Julho 1952. Escreve romances e acabou de ganhar 75 mil euros (e de perder 25 mil para a tradutora do seu livro de norueguês para inglês, Anne Born).

      Per Petterson, com o seu romance Out Stealing Horses, acabou de vencer a edição de 2007 do mais generoso prémio literário do mundo a galardoar uma obra de ficção: o International IMPAC Dublin Literary Award.

      Petterson derrotou obras dos também finalistas: J.M. Coetzee, Cormac McCarthy, Salman Rushdie, Julian Barnes, entre outros.
      Curiosamente, a obra do escritor norueguês, originalmente publicada na sua língua nativa em 2003 (sob o perceptível título: Ut og stjæle hester), integrou, apenas, a lista inicial de 138 romances porque foi nomeado por 2 das 3 bibliotecas norueguesas participantes na selecção inicial (a de Oslo e a de Stavanger) num total de 169 bibliotecas participantes pertencentes a 49 países – Portugal participou com as bibliotecas públicas do Porto e de Lisboa, com
      escolhas exemplares, diga-se.
      De referir que do júri deste ano, composto por 6 elementos, fazia parte o escritor português Almeida Faria (n. 1943).

      Aqui fica um excerto – os dois primeiros parágrafos – do romance vencedor:

      «Early November. It’s nine o'clock. The titmice are banging against the window. Sometimes they fly dizzily off after the impact, other times they fail and lie struggling in the new snow until they can take off again. 1 don't know what they want that I have. I look out the window at the forest. There is a reddish light over the trees by the lake. It is starting to blow. I can see the shape of the wind on the water.
      «I live here now, in a small house in the far east of Norway. A river flows into the lake. It is not much of a river, and it gets shallow in the summer, but in the spring and autumn it runs briskly, and there
      are trout in it. I have caught some myself. The mouth of the river is only a hundred metres from here. I can just see it from my kitchen window once the birch leaves have fallen. As now in November. There is a cottage down by the river that I can see when its lights are on if I go out onto my doorstep. A man lives there. He is older than I am, I think. Or he seems to be. But perhaps that's because I do not realise what I look like myself, or life has been tougher for him than it has been for me. I cannot rule that out. He has a dog, a border collie.»
      Per Petterson, Out Stealing Horses (Harvill Secker, 2005)


      Notas:
      1. Não há qualquer obra de Per Petterson editada em português de Portugal;
      2. Colm Tóibín foi o vencedor da edição de 2006 – tornando-se o primeiro irlandês a vencer este prémio – com a sua obra-prima The Master – editado em Portugal pela Dom Quixote como O Mestre, que no meu entender é, para já, a melhor obra editada no nosso país em 2007.

      quinta-feira, 19 de abril de 2007

      Nos Escaparates

      Vencedor, na segunda-feira passada, do Pulitzer 2007 na categoria de obra literária de ficção, A Estrada (The Road, 2006) do escritor norte-americano Cormac McCarthy já se encontra à venda em Portugal, editado pela Relógio D’Água, com tradução de Paulo Faria.

      Nota: McCarthy também figura na lista de finalistas para o IMPAC Award 2007, com o seu romance de 2005 No Country for Old Men, ainda sem edição em Portugal.





      Obras de McCarthy editadas em Portugal, para além de A Estrada:
      • O Guarda do Pomar – Relógio D’Água, 1996 (The Orchard Keeper, 1965);
      • Filho de Deus – Relógio D’Água, 1994 (Child of God, 1974);
      • Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste – Relógio D’Água, 2004 (Blood Meridian, or the Evening Redness in the West, 1985);
      • Belos Cavalos – Teorema, 1994 (All the Pretty Horses, 1992)*.

      *Obra que, conjuntamente com The Crossing (1994) e Cities of the Plain (1998), integra a denominada Trilogia da Fronteira do autor norte-americano.

      domingo, 8 de abril de 2007

      IMPAC 2007

      Já foram anunciados os romances finalistas do prémio literário mais apetecido do planeta, e isto em termos pecuniários, a galardoar uma obra de ficção: o International IMPAC Dublin Literary Award.
      Todos os anos o Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo (Portugal participou na nomeação das obras para o prémio de 2007 através de 2 bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto e Biblioteca Municipal Central de Lisboa, sita no Palácio das Galveias).
      Cada biblioteca pode nomear até 3 obras que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.
      A título de exemplo, para o prémio deste ano só podem ser nomeadas:

      • As obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2005;
      • As obras originalmente publicadas noutra língua entre 2001 e 2005 e que hajam sido publicadas em inglês em 2005.

      (De notar que a Biblioteca Municipal do Porto apenas elegeu a obra de Richard Zimmler, À Procura de Sana; e a de Lisboa nomeou no total três obras, o máximo permitido, uma do autor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, Uma Janela em Copacabana (Gótica, 2003), tal como a congénere do Porto, indicou a obra de ficção de Richard Zimmler, À Procura de Sana e por fim o inenarrável Zorro, da escritora chilena Isabel Allende (Difel, 2005), será curioso verificar que sendo a Difel detentora da editora Gótica…)

      Posteriormente, um júri todos os anos nomeado pela organização do prémio (este ano constituído por 6 elementos e incluindo o autor português Almeida Faria) nomeia, de entre o conjunto de obras citadas no processo anterior, os finalistas, elegendo meses depois, entre Outubro e Novembro, a obra vencedora cujo autor arrecadará 100 mil euros (para obra originalmente editada em inglês) ou 75 mil euros, sendo os restantes 25 mil para o tradutor, nos outros casos.

      Eis os 8 finalistas deste ano (ordenados pelo apelido do autor e com título em português se a obra já houver sido editada em Portugal):

      • Julian Barnes – Arthur & George;
      • Sebastian Barry – A Long Long Way;
      • J. M. Coetzee – Slow Man;
      • Jonathan Safran Foer – Extremamente Alto, Incrivelmente Perto (Quetzal, 2007; título original: Extremely Loud & Incredibly Close);
      • Peter Hobbs – The Short Day Dying;
      • Cormac McCarthy – No Country for Old Men;
      • Per Petterson – Out Stealing Horses;
      • Salman Rushdie – Shalimar, O Palhaço (Dom Quixote, 2006; título original: Shalimar the Clown).

      Nota: é perfeitamente inacreditável que obras como as referenciadas de Barnes, Coetzee, Barry e McCarthy ainda não tenham sequer estreia marcada para o mercado editorial português.

      Anteriores vencedores:
      2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
      2005 – Edward P. Jones – The Known World
      2004 – Tahar Ben Jellou – This Blinding Absence of Light
      2003 – Orhan Pamuk – My Name is Red
      2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
      2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
      2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
      1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
      1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
      1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
      1996 – David Malouf – Remembering Babylon

      terça-feira, 13 de março de 2007

      O Mestre é…

      …Henry James.
      A primeira década do século XXI foi fértil em obras de ficção que, de forma directa ou indirecta, se debruçaram sobre um dos maiores estetas literários de todos os tempos.
      O maior destaque vai não só para a obra de Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004) – vencedor do Booker Prize em 2004 e que se centra na existência atribulada do jovem plebeu e homossexual Nick Guest pelos meandros da frívola aristocracia e da corrompida classe política britânicas, enquanto trabalha na sua tese de doutoramento sobre Henry James –, como também, e de forma mais directa, pelas obras Autor, Autor (Author, Author; 2004) do truculento David Lodge e de O Mestre (The Master, 2004) do escritor irlandês Colm Tóibín, que lhe permitiu vencer o cobiçado IMPAC Dublin Literary Award em 2006 – em termos monetários, é o maior prémio do mundo a distinguir uma obra literária de ficção que, desde a sua criação em 1996, já galardoou romances de escritores como Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, David Malouf ou Javier Marías.
      Decorridos quase três anos (1060 dias) após a sua primeira publicação em língua inglesa, O Mestre de Colm Tóibín foi finalmente editado em português de Portugal, sob a chancela da Dom Quixote.

      Na Ípsilon do
      Público de sexta-feira passada há um excelente e extenso artigo, escrito por Luís Miguel Queirós sob o título “Diabruras do fantasma de Henry James”, que relata a recente febre Jamesiana na literatura contemporânea e em particular um curioso conflito entre Tóibín e Lodge a propósito da publicação das suas obras com Henry James como protagonista.

      Para finalizar, nada como as palavras de um Mestre sobre outro Mestre, sobre alguma incompreensão do público e da crítica reinante perante a subtileza dos personagens e dos finais abertos que abundam na obra do escritor anglo-americano e na recusa daqueles pelo mundo das sombras em detrimento da realidade substancial. Joseph Conrad discorre sobre a permanente busca do público pelo desenlace, pelo fim da história, pelo descanso após o encerramento do livro e a constatada impossibilidade dessa demanda na genialidade da obra de James e dos seus personagens que imitam a vida, deixando os seus leitores em permanente sobressalto.
      Conrad chega a afirmar: «Por que motivo o público leitor, que, como um todo, nunca conferiu ao contador de histórias o poder de ser um artista, lhe deve exigir a presunção da Divina Omnipotência, é algo absolutamente incompreensível.» [tradução livre: AMC]

      A ler: Joseph Conrad, “Henry James – An Appreciation – 1905”, Notes on Life and Letters, 1921 (Part I – Letters; textos editados por J. H. Stape)