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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Notes from Brooklyn’s most cultish literary couple


Um livro de memórias sobre factos, causas e consequências de um colapso nervoso e uma obra de ficção sobre o colapso.
O dela saiu para o mercado norte-americano no mês passado. O dele sairá lá para meados de Novembro próximo.
O dela parte de uma história real sobre um estranhíssimo achaque nervoso sofrido quando proferia a elegia fúnebre no enterro de seu pai. O dele parte de um julgado pequeno achaque financeiro que redundou numa tormenta cataclísmica que pôs o capitalismo e o seus súbditos de joelhos, contado sob a perspectiva de uma variedade de narradores.
Ambos têm as suas obras editadas em Portugal pela mesma editora: a Asa.
A dela, no original com 224 páginas em formato de capa dura, estreará se a subsidiária da LeYa pretender publicar um livro seu de não-ficção (facto até hoje inédito). A dele, no original com mais 96 páginas que o dela e no mesmo formato, terá direito à já anunciada publicação simultânea mundial, tal como aconteceu com a sua obra anterior, Invisível (Invisible, 2009).
A abertura do livro de memórias dela:
«Quando o meu pai morreu, eu estava em minha casa em Brooklyn, porém apenas uns dias antes estive sentada na beira da sua cama numa casa de saúde em NorthField, Minnesota. Embora ele estivesse fisicamente debilitado, a sua mente mantinha-se perspicaz, e lembro-me de que falámos e até nos rimos, apesar de não me conseguir lembrar do tema da nossa última conversa. No entanto, recordo-me com nitidez do quarto que ele habitou no fim da sua vida. As minhas três irmãs, a minha mãe e eu pendurámos quadros na parede e comprámos uma colcha verde-pálida para que o quarto parecesse menos austero. Havia um vaso de flores no parapeito da janela. O meu pai sofria de um enfisema e nós sabíamos que ele não duraria muito. A minha irmã Liv, que vive no Minnesota, foi a única que o acompanhou no dia derradeiro. O pulmão do meu pai entrou pela segunda vez em colapso e o médico sabia que ele não sobreviveria a outra intervenção. Enquanto permaneceu consciente, embora incapaz de falar, a minha mãe telefonou às suas três filhas que viviam em Nova Iorque, uma por uma, para que todas pudéssemos falar com ele ao telefone. Lembro-me claramente de ter feito uma pausa para pensar naquilo que lhe haveria de dizer. Acorreu-me um pensamento estranho de que não deveria proferir nenhum disparate naquele momento, deveria escolher cuidadosamente as minhas palavras. Queria dizer algo de memorável – um pensamento absurdo, porque a memória de meu pai em breve se apagaria com o pouco que ainda lhe restava. Porém, quando a minha mãe lhe encostou o telefone ao seu ouvido, tudo o que fiz foi pronunciar num tom abafado as palavras “adoro-te tanto”. Mais tarde, a minha mãe contou-me que quando ouviu a minha voz, ele sorriu.»
Siri Hustvedt, The Shaking Woman or a History of My Nerves, pp. 1-2 [New York: Henry Holt, first edition, 2010, 224 pp.; tradução: AMC, 2010]
A abertura do romance dele repousa no segredo dos deuses, no entanto há umas frases publicadas pela sua editora (a mesma que a dela) que aguçam o apetite a qualquer austeriano:
«Sunset Park segue as esperanças e os medos de um conjunto inesquecível de personagens, reunidas pelo misterioso Miles Heller durante os meses sombrios do colapso económico de 2008.
Um rapaz enigmático empregado numa empresa de limpeza de imóveis no sul da Florida que fotografa obsessivamente milhares de objectos abandonados pelas famílias que foram desapossadas de suas casas.
Um grupo de jovens que ocupa ilegalmente um apartamento no Sunset Park, em Brooklyn.
O Hospital dos Objectos Partidos, que se especializou na reparação de artefactos pertencentes a um mundo desaparecido.
O filme de 1946 de William Wyler, Os Melhores Anos das Nossas Vidas.
Um actriz célebre que prepara o seu regresso à Broadway.
Um editor independente que tenta desesperadamente salvar o seu negócio e o seu casamento.» [do editor Henry Holt; tradução livre: AMC, 2010]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

IMPAC 2010

[Há pelo menos três anos que este texto se vai repetindo, como a biblioteca borgiana, tendendo para um infinito – se me julgasse eterno… –, apenas com algumas alterações numéricas que, muito ao jeito do pragmatismo anglo-saxónico, se constrói pelo emprego do método “fill in the blanks”. Tentarei, porém, mudar alguma coisa. Nem que seja uma vírgula, uma palavra pelo seu sinónimo directo (ou até por um erro ortográfico grosseiro, um obstinado apelo à atenção do leitor), vários pontos de exclamação (tão vituperados, ultimamente, ó símbolo viril; tratados como proscritos e condenados à chama com poder calorífero decerto superior a 451ºF onde jazem as cinzas das “reticências”, do “ponto e vírgula” e do “travessão”). Basta! Enfim…]

Ontem, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A lista deste ano é constituída por 156 romances (mais 10 que em 2009) de outros tantos autores.
Nesta primeira fase de selecção intervieram 163 bibliotecas (mais 10), espalhadas por 123 cidades (mais 6) de 43 países (menos 4) de todos os cantos do mundo.
Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan (tal como no ano passado). A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 14 de Abril de 2010.
Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos – note-se que das 156 obras seleccionadas este ano, 41 foram traduzidas para o inglês. O vencedor do IMPAC Award de 2010 será anunciado no dia 17 de Junho de 2010.
A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples:
- O Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
- Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.


Para o prémio de 2010 só poderiam ser nomeadas:
- Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2008;
ou,
- Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2004/2008 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2008.
Para o prémio de 2010, destacaram-se dez obras que obtiveram mais de cinco votos (entre as quais constam oito que já foram publicadas em Portugal, curiosamente, apenas distribuídas por 3 editoras: 4 da Presença, 3 da Bertrand e 1 da Dom Quixote), no total dos 300 votos exercidos (para um máximo de 489 votos) pelas 163 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto). Lidera a lista o Booker Prize de 2008:
  • 9 votosAravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença, The White Tiger); 
  • 8 votos (3 obras)Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (ed. port. Presença, L’Élégance du hérisson); Sebastian Barry, Escritos Secretos (ed. port. Bertrand, The Secret Scripture); e Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença, A Mercy); 
  • 7 votos (2 obras)Joseph O'Neill, Netherland: Terra de Sombras (ed. port. Bertrand, Netherland); e Steven Galloway, O Violoncelo de Sarajevo (ed. port. Presença, The Cellist of Sarajevo); 
  • 6 votos (4 obras)David Wroblewski, A História de Edgar Sawtelle (ed. port. Bertrand, The Story of Edgar Sawtelle); Philip Hensher, The Northern Clemency; Philip Roth, Indignação (ed. port. Dom Quixote, Indignation); e Tim Winton, Breath.
Seguem-se cinco obras com cinco votos, de onde destaco o romance magistral de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence) – até há bem pouco tempo figurava com 6 estrelas (Obra-Prima) neste blogue (ver coluna do lado esquerdo) onde fazia companhia a Thomas Mann; todavia, dada a excepcionalidade da classificação, foi reclassificado, tendo sido destronado por Updike. Esta obra de Lodge foi publicada em Portugal pela Asa, e é, sem sombra de dúvida, um dos melhores romances editados em 2009 no nosso país, um daqueles que me levou às lágrimas tanto pelas peripécias da vida de um erudito em perda irreversível do sentido da audição, como pelos momentos mais melancólicos onde, através do picaresco, perpassa uma ternura esteticamente comovente.
De notar, que, atendendo ao historial deste prémio, toda a estatística que atrás despejei, no essencial as que incluem as obras com o maior número de nomeações, pode revelar-se apenas como mera indicação ou mero mostruário para não retirar o sentido lúdico (maníaco?) ao evento, ou seja, sem força vinculativa para a escolha dos finalistas e do vencedor a ocorrer no próximo ano. A palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos nos vencedores dos quatro últimos anos, verificamos que o vencedor de 2009, o bostoniano Michael Thomas, pela sua obra Man Gone Down, foi nomeado apenas por 1 biblioteca nos Barbados; tal como ocorreu com o vencedor de 2008, o autor canadiano-libanês Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game), nomeado apenas por 1 biblioteca e conterrânea, a Winnipeg Public Library, no Canadá; enquanto o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, com o admirável romance Cavalos Roubados (Ut og stjæle hester), foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006, Colm Tóibín, com a sua inolvidável obra semi-ficcional sobre parte da vida de Henry James, O Mestre (The Master), foi previamente nomeado por 17 bibliotecas espalhadas pelo mundo.
Será ainda de notar que, pela primeira vez na curta história dos IMPAC Awards, foram nomeadas duas obras distintas pertencentes a um casal literário – e, diga-se, bastante famoso no mundo das letras –, ambas editadas pela Asa [fonte: Miguel Seara]: 
  • Paul Auster, pelo seu penúltimo romance Homem na Escuridão (Man in the Dark) – 4 nomeações (Alemanha, Áustria, Bélgica e Itália); 
  • Siri Hustvedt, por Elegia para um Americano (The Sorrows of an American) – 3 nomeações (Bélgica, Espanha e Noruega).

Finalmente, três destaques, por razões diversas para três autores:
  • o ateu literalista (com falta de divino, não consciente) José Saramago foi nomeado pela Miami-Dade Public Library (Florida, EUA) pelo seu romance As Intermitências da Morte;
  • o autor brasileiro Milton Hatoum foi nomeada por uma biblioteca brasileira pelo seu romance Cinzas do Norte;
  • o sofrível romance do perseguido autor indo-britânico Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença (ed. port. Dom Quixote; The Enchantress of Florence) recebeu apenas 1 nomeação (da Kansas City Public Library, Minnesota, EUA).
    Para terminar,deixo ficar a habitual referência ao comportamento eleitoral das nossas inventivas bibliotecas participantes. Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das suas duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias – pouco chauvinistas, ao que parece… 
    BMCL: 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações; 
    • Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença; A Mercy) – 9 nomeações. 
    BPMP (este ano, ao contrário de outros, exerceu a totalidade dos 3 votos a que tinha direito, e finalmente não escolheu uma obra do escritor nova-iorquino, residente na Invicta, Richard Zimler): 
    • Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença; The White Tiger) – 8 nomeações; 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações.
      Para o ano, se SaraMago, ou deus, ou outra entidade por eles permitir, cá estarei para apresentar um texto quase automático com a listagem da 1.ª fase do IMPAC de 2011.

      segunda-feira, 10 de novembro de 2008

      Por mero ACASO

      Acabei de receber por correio electrónico o que se segue: Paul Auster em Cascais no próximo domingo, em companhia do crítico de cinema Rui Pedro Tendinha.


      Presumo que irão falar sobre cinema, ou do relativo fracasso de A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007), aproveitando o autor para lançar no mercado português a tradução do seu mais recente romance Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), cuja edição está a cargo da editora, ex-portuense?, Asa, agora integrada no grupo LeYa. E diga-se que, apesar da debandada de autores, não abriu mão das obras do escritor sexagenário de Newark, Nova Jérsia – e só espero que, na espinhosa tarefa de manter os bons autores na casa, os responsáveis da editora não se tenham esquecido das obras da sua mulher, a alta e loura – como ele próprio a descreveu –, e descomunal escritora Siri Hustvedt, com novo romance publicado (e bastante elogiado) este ano nos Estados Unidos, e com a restante obra quase esgotada em Portugal, com excepção do avassalador Aquilo Que Eu Amava (What I Loved, 2003), a pedir uma urgente reedição.

      Regressando à tertúlia cascalense, onde, possivelmente, se irá falar de um outro assunto que tem mexido com a imprensa cultural espanhola pela casualidade envolvida (ou o chamamento do eterno acaso): trata-se da estranha inspiração extra-sensorial e quase simbiótica entre Auster e Pedro Almodóvar quando o primeiro escrevia Homem na Escuridão e o segundo redigia o argumento para o seu próximo filme Abrazos Rotos (pode traduzir-se por Abraços Quebrados), fenómeno que foi antecedido por um fortíssimo ataque de cefaleias que quase imobilizaram o realizador espanhol no preciso momento em que ambos haviam combinado em Oviedo escrever um guião para o seu futuro filme (retirado do blogue de Almodóvar):

      «Ao longo dos três dias que durou a nossa estadia em Oviedo [entrega, em Outubro de 2006, dos Prémios Príncipe das Astúrias] compartilhámos muitas situações, para além de comer e beber. Num desses jantares, quando já estávamos bastante animados, sondei-o sobre a possibilidade de escrevermos um guião juntos. De acordo com o seu programa de trabalho disse-me que não havia inconveniente, e eu pensava que podia levá-lo a cabo decorridos três ou quatro meses, não me importava de me deslocar a Nova Iorque.
      Apenas isso, ao acabar a promoção em Janeiro de 2007
      [do filme Voltar (Volver, 2006)] decido enfrentar o problema das minhas dores de cabeça, que haviam aumentado em 2006. A partir desse momento, enquanto fazia diversos tratamentos com um grupo de neurologistas, as dores aumentaram… enfim, a coisa é que durante o primeiro semestre de 2007 vivi aprisionado pelas cefaleias e pelos tratamentos. Não pude ir a Nova Iorque nem escrever com Paul Auster. Não obstante, cada um por seu lado escreveu duas histórias sobre narradores na escuridão. Uma situação tipicamente austeriana.» [destaque meu; tradução: AMC]

      Porém, e regressando à costa atlântica ocidental, será decerto inescapável abordar o tema da crítica e da péssima recepção de A Vida Interior… pela comunidade lusa de críticos e não só. Lá fora a implacável Manohla Dargis – uma quase Kakutani do cinema – desancou, sem qualquer espécie de pruridos, no filme de Auster, terminando com o desabafo que “quanto menos dele se falar, melhor seria para Auster”.

      Vi o filme depois ter ouvido e lido todo o chorrilho de zurzidelas nacionais e internacionais, profissionais e amadoras, e creio que não era motivo para tanto estardalhaço negativista. Está longe, bem longe, de ser um filme técnica e esteticamente perfeito, mas à mesma distância de segurança de um slapstick como vi rotulá-lo por muito boa e letrada gente.

      domingo, 19 de outubro de 2008

      Pela tradução…

      …de uma das melhores escritoras americanas vivas, que permanece uma quase desconhecida neste pobre país de pseudoliteratos – pelo menos a maioria sabe que é casada com Paul Auster –, talvez ignorada por uma editora que alterou os seus princípios pela via das selváticas fusões.
      Deixo aqui ficar uma citação de um dos melhores livros que li na minha vida (já de três dúzias…), em jeito de serviço público e contra a snobeira provinciana, tão portuguesinha, que por aí prospera do “eu não leio traduções” (será que leram Tchekhov, Gogol, Dostoievski em russo?):

      «(…) para ele, as histórias eram como o sangue que corria ao longo de um corpo – caminhos de uma vida.»
      Siri Hustvedt, Aquilo que Eu Amava, pág. 17.
      [Porto: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2005, 412 pp.; tradução de José Vieira de Lima; obra original: What I Loved, 2003.]