Colm Tóibín, Brooklyn. Lisboa: Bertrand, Maio de 2010, 253 pp; traduzido por C. Santos (não, não se trata do concessionário da Mercedes-Benz em Portugal); obra original: Brooklyn, 2009
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Decepção
Colm Tóibín, Brooklyn. Lisboa: Bertrand, Maio de 2010, 253 pp; traduzido por C. Santos (não, não se trata do concessionário da Mercedes-Benz em Portugal); obra original: Brooklyn, 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Brooklyn, by Tóibín
Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).
sábado, 14 de abril de 2007
Man Booker International Prize 2007
Este prémio, ao contrário do seu irmão mais velho, o Man Booker Prize for Fiction, que premeia anualmente obras de ficção apenas publicadas por autores dos países da Commonwealth e da Irlanda, galardoa bienalmente autores de todo mundo pela sua carreira literária e desde que parte considerável das suas obras haja sido publicada em língua inglesa.
Este ano o júri é presidido pela autora e crítica literária norte-americana Elaine Showalter, coadjuvada pelo escritor irlandês Colm Tóibín e pela autora sul-africana, galardoada com o Nobel da Literatura em 1991, Nadine Gordimer.
Eis a lista de 15 candidatos, pertencentes a 10 países, sendo que 4 autores não publicam a sua obra originalmente em inglês:
- Chinua Achebe (Nigéria)
- Margaret Atwood (Canadá)
- John Banville (Irlanda)
- Peter Carey (Austrália)
- Don DeLillo (Estados Unidos)
- Carlos Fuentes (México)
- Doris Lessing (Irão/Reino Unido)
- Ian McEwan (Reino Unido)
- Harry Mulisch (Holanda)
- Alice Munro (Canadá)
- Michael Ondaatje (Sri Lanka/Canadá)
- Amos Oz (Israel)
- Philip Roth (Estados Unidos)
- Salman Rushdie (Índia/Reino Unido)
- Michel Tournier (França)
O prémio de 2005 foi atribuído ao escritor albanês Ismail Kadaré, pelo júri constituído por John Carey (presidente), Alberto Manguel e Azar Nafis, havendo derrotado nomes como o eterno nomeado Philip Roth, Atwood, García Márquez, Bellow, Grass, Kundera, McEwan, Tabucchi ou Updike.
Nota: E assim, enquanto me debato com o terrível síndrome de Blogger’s Block, este pasquim intimista vai passando por um banal periódico que se limita a transcrever comunicados para a imprensa. Melhores dias virão! Creio…
terça-feira, 10 de abril de 2007
Ainda o Mestre
Há cerca de um mês dava aqui a notícia que, finalmente, o romance The Master do autor irlandês Colm Tóibín havia sido editado em português de Portugal.O suplemento Ípsilon do jornal Público dava-lhe destaque através de um excelente artigo assinado por Luís Miguel Queirós que dava conta, entre muitos outros assuntos, da febre jamesiana que assolou os espíritos literários de autores de língua inglesa. Entre eles contava-se David Lodge com o seu romance Autor, Autor – a exultação do público que clama pela presença do autor da peça em palco para uma ovação –, prontamente editado em Portugal pelas mãos das Edições Asa e que, havendo-me recordado da ocasião – e julgo não estar enganado –, mereceu a presença do escritor britânico por terras lusas para a apresentação do livro.
Devidamente apetrechado da minha oneomania literária – conceito aprofundado, com rigor científico, pela revista Certa dos hipermercados Continente [verídico, aparte a cientificidade] – lá adquiri o exemplar de Lodge que abri para de súbito fechar. Pareceu-me grotesca uma primeira parte, com pouco mais de quarenta páginas, recheada de diálogos e de coloquialismos da criadagem quando o tema central abordava precisamente o epítome da estética literária e do bom gosto, mesmo que a intenção de Lodge fosse o da destrinça de grandezas pela justaposição de hierarquias ou o do mero confronto de estilos.
Assim que saiu O Mestre, retomei o que abandonara havia pouco mais de um ano, o romance de David Lodge. E não me enganei por muito, apesar da, prognosticada por mim, inversão nas restantes três partes, mas:
«Henry levantou-se da cama e esvaziou copiosamente a bexiga para um bacio. Ao arrumá-lo de novo na mesa-de-cabeceira sentiu, como sempre uma leve pontada de remorso por dar à criada a tarefa de o despejar (…)» (pág. 240)
«Aguardou, esperançado, algum movimento intestinal que pudesse pressagiar evacuação, mas não recebeu essa graça.» (pág. 244)
Em suma, sobre Henry James, apetece-me ironizar, parece que Lodge escreveu para a TV Guia e Tóibín para a Yale Review.
Apesar de tudo, isso não pretende significar que Autor, Autor não tenha os seus méritos. Julgo até que, na íntegra, consegue alcançar os seus objectivos, não conferindo, de forma propositada, juízo de valor algum ao próprio autor, o que em certas situações empresta um carácter mais informativo à biografia romanceada. Como exemplo, deixo aqui ficar este episódio delicioso, apesar de ser susceptível de encerrar uma aparência, de certa forma, mórbida, que retrata o processo de escrita de uma carta pela mão de Henry, que irá ser enviada ao seu irmão mais velho, William, a viver nos Estados Unidos, relatando os últimos minutos de vida da irmã Alice na sua casa em Londres:
«Nesse momento, e de uma forma estranha, difusa e comovente, o rosto dela pareceu tornar-se mais claro. Fui abrir a janela, para deixar entrar um pouco mais de luz da tarde (era um domingo luminoso, agradável e silencioso), e quando voltei para junto do leito ela [Alice James] tinha exalado o seu último suspiro.» Leu o parágrafo outra vez, riscou o lugar-comum «último suspiro» e substituiu-o por «o suspiro a que mais nenhum se seguiu». (pág. 169)
A propósito da culpa e do remorso sentidos pela morte da sua querida amiga Constance Fenimore Woolson, Henry lembrou-se das palavras de acusação escritas pela mãe de Flaubert numa carta que endereçou ao próprio filho e que este lhe contou, em tom de piada, num encontro de escritores na sua casa em Paris:
«A tua mania das frases secou-te o coração» (pág. 236).
David Lodge, Autor, Autor. Porto: Asa, 1.ª edição, Novembro de 2005, 426 pp. (tradução de Ana Maria Chaves; obra original: Author, Author, 2004).
segunda-feira, 9 de abril de 2007
A Voz do Mestre
Terminei há muito (pouco) a sua leitura… Li os agradecimentos, li a contracapa e a badana e dei por mim a desejar que o feitiço se estendesse por uns dias mais, como se ao reler a primeira página do primeiro capítulo, sob o marco de Janeiro de 1895, pudesse conservar as palavras soltas do génio que, porventura, o áspero fragor dos dias me impediu de ler:
«Por vezes, à noite, sonhava com os mortos – rostos familiares e outros, meio esquecidos, fugazmente evocados.» (pág. 9)
Esta é a evocação do autor por todos consagrado como “O Mestre”, Henry James (Nova Iorque, 15 de Abril de 1843 – Londres, 28 de Fevereiro de 1916), escreveu 20 romances, 112 contos, 12 peças de teatro e inúmeros artigos de crítica literária (números retirados da página da internet da The Literature Network).O que dizer de um livro que nos deixa literalmente presos da primeira à última páginas?
Tóibín começa por descrever a vida de James a partir do fracasso na estreia em Londres da peça de teatro Guy Domville em Janeiro de 1895. O livro prolonga-se por onze capítulos, até ao dealbar do último ano do século XIX, o fim do Inverno de 1900.
Pelo meio, Tóibín vai descrevendo o Mestre e a sua vida recorrendo a inúmeros flashbacks, desde a sua infância em Newport, Rhode Island, onde se misturam as várias deambulações do passado e do presente do artista entre Florença, Veneza, Roma ou Paris, e até Dublin onde decorre parte da acção do segundo capítulo, como hóspede da fútil e histriónica Lady Wolseley e se manifesta, por antítese, a estética do escritor anglo-americano.
Tóibín, com recurso à sua narrativa deslumbrante e dotada de uma profunda sensibilidade, dir-se-ia que jamesiana, parece querer realçar a condição de expatriado de Henry James – frequentemente invocada ao longo do romance – não como consequência de uma inadaptação resultante de uma a vida atribulada de um americano – que acabara de viver os horrores da Guerra da Secessão – que se estabeleceu em definitivo em Inglaterra para aí desenvolver a sua veia artística, mas como um cidadão do mundo e um estudioso do comportamento humano, que se imiscui na vida mundana da aristocracia e das artes na Europa, com o objectivo de contemplar o belo e as suas derrogações e com esses ensinamentos puramente espirituais criar a obra. É esse o padrão de exigência de James, apesar do aspecto mundano e até hedonista da alta sociedade que lhe foi contemporânea e através da qual pôde construir os seus mais belos relatos.
Em suma, a frivolidade, o pretensiosismo, a vaidade, a ostentação das elites que James frequentava eram para si, para além de um certificado contra o perigo do doloroso esquecimento, um mero instrumento de trabalho, uma escola, que lhe permitiam delinear os traços, sob a forma de caracteres gravados em papel, da beleza e do seu admirável poder de contemplação da natureza e da sua interacção com o ser humano. Por isso amava a velha Europa, a civilização sem o ferrete do puritanismo americano, principalmente a Itália onde a beleza se exibe em todo o seu esplendor, de forma indelével e despretensiosa.
Tóibín captou com a sua prosa todo o prazer estético que enchia a alma do Mestre:
«Henry adorava a suavidade das cores da praia perto de Rye, a luz inconstante, as nuvens que pareciam feitas de espuma e que se moviam ao longo do céu como que obedecendo a um desígnio. Passara em Rye os últimos Verões, e, naquele Verão em particular, enquanto caminhava com um passo vivo, enérgico, procurando – por uma vez – fruir o dia sem fazer planos, não conseguia parar de se perguntar o que mais desejaria naquele momento, ao que invariavelmente respondia que só queria mais daquilo – calmas horas de trabalho, dias calmos, uma bela casa, bela e pequena, e aquela luz de Verão tão branda. Antes de ter deixado Londres, comprara a bicicleta que, agora, estava a sua espera no caminho da praia. Apercebeu-se de que nem sequer queria que o passado voltasse, que aprendera a não pedir isso. Os seus mortos não regressariam. Nunca mais voltaria a sentir o medo de os ver partir e isso proporcionava-lhe uma estranha satisfação, o sentimento de que, agora, não queria outra coisa senão que o tempo passasse lentamente.
Todas as manhãs, no terraço da casa, sentia-se assaltado pelo mesmo desejo. Daria tudo para ser capaz de encontrar uma maneira de capturar aquela imagem de beleza e de a guardar perto de si. O terraço, revestido com tijoleira e encurvado como a proa de um navio, pairava sobre uma vista que era simultaneamente tão pura e tão mutável como a amplidão do mar. E, lá em baixo, estendia-se Rye, a menos inglesa de todas as povoações inglesas, com os seus telhados de telha vermelha e ruas sinuosas e cachos de edifícios, com as suas colinas e o empedrado das ruas, tal e qual uma cidade italiana, com a sua atmosfera sensual, mas também contida e austera. Agora, caminhava quase todos os dias pelas ruas de Rye, estudando as casas, as velhas lojas com janelas de caixilhos pequenos, a torre quadrada da igreja, a beleza do tijolo, moldada pelos elementos. Quando voltava para casa, o terraço era o seu camarote de ópera, o local onde os seus olhos podiam abarcar todos os reinos da terra. O seu terraço, pensava, era tão amável como uma pessoa, talvez mesmo mais. Lamentava não poder comprar aquela casa; sentia já um claro ressentimento em relação ao proprietário só porque este tencionava reocupá-la em fins de Julho.» (pp. 113-114)
O único problema desta obra admirável – como referi no início deste texto – é a dificuldade com que nos resignamos à evidência que para além da página 446 apenas há os agradecimentos do autor. No entanto, o fascínio subsiste e a ela hei-de voltar muito em breve.
Classificação: ****** (Obra-prima)
Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, O Mestre. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 447 pp. (tradução de José Vieira de Lima*; obra original: The Master, 2004)
*apenas uma pequena referência para o tradutor (também tradutor de Auster em Portugal): excepcional, com as notas de rodapé indispensáveis.
terça-feira, 13 de março de 2007
O Mestre é…
…Henry James.A primeira década do século XXI foi fértil em obras de ficção que, de forma directa ou indirecta, se debruçaram sobre um dos maiores estetas literários de todos os tempos.
O maior destaque vai não só para a obra de Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004) – vencedor do Booker Prize em 2004 e que se centra na existência atribulada do jovem plebeu e homossexual Nick Guest pelos meandros da frívola aristocracia e da corrompida classe política britânicas, enquanto trabalha na sua tese de doutoramento sobre Henry James –, como também, e de forma mais directa, pelas obras Autor, Autor (Author, Author; 2004) do truculento David Lodge e de O Mestre (The Master, 2004) do escritor irlandês Colm Tóibín, que lhe permitiu vencer o cobiçado IMPAC Dublin Literary Award em 2006 – em termos monetários, é o maior prémio do mundo a distinguir uma obra literária de ficção que, desde a sua criação em 1996, já galardoou romances de escritores como Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, David Malouf ou Javier Marías.
Decorridos quase três anos (1060 dias) após a sua primeira publicação em língua inglesa, O Mestre de Colm Tóibín foi finalmente editado em português de Portugal, sob a chancela da Dom Quixote.
Na Ípsilon do Público de sexta-feira passada há um excelente e extenso artigo, escrito por Luís Miguel Queirós sob o título “Diabruras do fantasma de Henry James”, que relata a recente febre Jamesiana na literatura contemporânea e em particular um curioso conflito entre Tóibín e Lodge a propósito da publicação das suas obras com Henry James como protagonista.
Para finalizar, nada como as palavras de um Mestre sobre outro Mestre, sobre alguma incompreensão do público e da crítica reinante perante a subtileza dos personagens e dos finais abertos que abundam na obra do escritor anglo-americano e na recusa daqueles pelo mundo das sombras em detrimento da realidade substancial. Joseph Conrad discorre sobre a permanente busca do público pelo desenlace, pelo fim da história, pelo descanso após o encerramento do livro e a constatada impossibilidade dessa demanda na genialidade da obra de James e dos seus personagens que imitam a vida, deixando os seus leitores em permanente sobressalto.
Conrad chega a afirmar: «Por que motivo o público leitor, que, como um todo, nunca conferiu ao contador de histórias o poder de ser um artista, lhe deve exigir a presunção da Divina Omnipotência, é algo absolutamente incompreensível.» [tradução livre: AMC]
A ler: Joseph Conrad, “Henry James – An Appreciation – 1905”, Notes on Life and Letters, 1921 (Part I – Letters; textos editados por J. H. Stape)
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
Tóibín
«Noel was the driver that weekend in Clare, the only musician among his friends who did not drink. They were going to need a driver; the town was, they believed, too full of eager students and eager tourists; the pubs were impossible. For two or three nights they would aim for empty country pubs or private houses. Noel played the tin whistle with more skill than flair, better always accompanying a large group than playing alone. His singing voice, however, was special, even though it had nothing of the strength and individuality of his mother's voice, known to all of them from one recording made in the early seventies. He could do perfect harmony with anybody, moving a fraction above or below, roaming freely around the other voice, no matter what sort of voice it was. He did not have an actual singing voice, he used to joke, he had an ear, and in that small world it was agreed that his ear was flawless.»in Colm Tóibín, "A Song", Mothers and Sons (2006 UK; 2007 USA)
Para quando em português, se nem o premiadíssimo romance The Master – sobre o esteta Henry James – tem data marcada para a edição portuguesa?