segunda-feira, 9 de abril de 2007

A Voz do Mestre

Terminei há uns dias a leitura de O Mestre – livro escrito pelo autor irlandês Colm Tóibín e publicado em Portugal pela Dom Quixote em Fevereiro deste ano.
Terminei há muito (pouco) a sua leitura… Li os agradecimentos, li a contracapa e a badana e dei por mim a desejar que o feitiço se estendesse por uns dias mais, como se ao reler a primeira página do primeiro capítulo, sob o marco de Janeiro de 1895, pudesse conservar as palavras soltas do génio que, porventura, o áspero fragor dos dias me impediu de ler:

«Por vezes, à noite, sonhava com os mortos – rostos familiares e outros, meio esquecidos, fugazmente evocados.» (pág. 9)


Esta é a evocação do autor por todos consagrado como “O Mestre”, Henry James (Nova Iorque, 15 de Abril de 1843 – Londres, 28 de Fevereiro de 1916), escreveu 20 romances, 112 contos, 12 peças de teatro e inúmeros artigos de crítica literária (números retirados da página da internet da The Literature Network).
O que dizer de um livro que nos deixa literalmente presos da primeira à última páginas?
Tóibín começa por descrever a vida de James a partir do fracasso na estreia em Londres da peça de teatro Guy Domville em Janeiro de 1895. O livro prolonga-se por onze capítulos, até ao dealbar do último ano do século XIX, o fim do Inverno de 1900.
Pelo meio, Tóibín vai descrevendo o Mestre e a sua vida recorrendo a inúmeros flashbacks, desde a sua infância em Newport, Rhode Island, onde se misturam as várias deambulações do passado e do presente do artista entre Florença, Veneza, Roma ou Paris, e até Dublin onde decorre parte da acção do segundo capítulo, como hóspede da fútil e histriónica Lady Wolseley e se manifesta, por antítese, a estética do escritor anglo-americano.
Tóibín, com recurso à sua narrativa deslumbrante e dotada de uma profunda sensibilidade, dir-se-ia que jamesiana, parece querer realçar a condição de expatriado de Henry James – frequentemente invocada ao longo do romance – não como consequência de uma inadaptação resultante de uma a vida atribulada de um americano – que acabara de viver os horrores da Guerra da Secessão – que se estabeleceu em definitivo em Inglaterra para aí desenvolver a sua veia artística, mas como um cidadão do mundo e um estudioso do comportamento humano, que se imiscui na vida mundana da aristocracia e das artes na Europa, com o objectivo de contemplar o belo e as suas derrogações e com esses ensinamentos puramente espirituais criar a obra. É esse o padrão de exigência de James, apesar do aspecto mundano e até hedonista da alta sociedade que lhe foi contemporânea e através da qual pôde construir os seus mais belos relatos.
Em suma, a frivolidade, o pretensiosismo, a vaidade, a ostentação das elites que James frequentava eram para si, para além de um certificado contra o perigo do doloroso esquecimento, um mero instrumento de trabalho, uma escola, que lhe permitiam delinear os traços, sob a forma de caracteres gravados em papel, da beleza e do seu admirável poder de contemplação da natureza e da sua interacção com o ser humano. Por isso amava a velha Europa, a civilização sem o ferrete do puritanismo americano, principalmente a Itália onde a beleza se exibe em todo o seu esplendor, de forma indelével e despretensiosa.
Tóibín captou com a sua prosa todo o prazer estético que enchia a alma do Mestre:

«Henry adorava a suavidade das cores da praia perto de Rye, a luz inconstante, as nuvens que pareciam feitas de espuma e que se moviam ao longo do céu como que obedecendo a um desígnio. Passara em Rye os últimos Verões, e, naquele Verão em particular, enquanto caminhava com um passo vivo, enérgico, procurando – por uma vez – fruir o dia sem fazer planos, não conseguia parar de se perguntar o que mais desejaria naquele momento, ao que invariavelmente respondia que só queria mais daquilo – calmas horas de trabalho, dias calmos, uma bela casa, bela e pequena, e aquela luz de Verão tão branda. Antes de ter deixado Londres, comprara a bicicleta que, agora, estava a sua espera no caminho da praia. Apercebeu-se de que nem sequer queria que o passado voltasse, que aprendera a não pedir isso. Os seus mortos não regressariam. Nunca mais voltaria a sentir o medo de os ver partir e isso proporcionava-lhe uma estranha satisfação, o sentimento de que, agora, não queria outra coisa senão que o tempo passasse lentamente.
Todas as manhãs, no terraço da casa, sentia-se assaltado pelo mesmo desejo. Daria tudo para ser capaz de encontrar uma maneira de capturar aquela imagem de beleza e de a guardar perto de si. O terraço, revestido com tijoleira e encurvado como a proa de um navio, pairava sobre uma vista que era simultaneamente tão pura e tão mutável como a amplidão do mar. E, lá em baixo, estendia-se Rye, a menos inglesa de todas as povoações inglesas, com os seus telhados de telha vermelha e ruas sinuosas e cachos de edifícios, com as suas colinas e o empedrado das ruas, tal e qual uma cidade italiana, com a sua atmosfera sensual, mas também contida e austera. Agora, caminhava quase todos os dias pelas ruas de Rye, estudando as casas, as velhas lojas com janelas de caixilhos pequenos, a torre quadrada da igreja, a beleza do tijolo, moldada pelos elementos. Quando voltava para casa, o terraço era o seu camarote de ópera, o local onde os seus olhos podiam abarcar todos os reinos da terra. O seu terraço, pensava, era tão amável como uma pessoa, talvez mesmo mais. Lamentava não poder comprar aquela casa; sentia já um claro ressentimento em relação ao proprietário só porque este tencionava reocupá-la em fins de Julho.
» (pp. 113-114)

O Mestre capta a essência de Henry James e os seus fantasmas. O fracasso no mundo do teatro; a triste aceitação da falta de sensibilidade dos seus coetâneos, mais voltados para o melodrama e a vacuidade da ostentação; o seu processo criativo engendrado por pequenas notas que ia retirando dos episódios do dia-a-dia; o seu, muito seu, conceito de amor, casto, sem entrega física, um mera entrega espiritual de sintonia estética, que por vezes lhe emprestavam uma pátina de algum distanciamento e até insensibilidade perante o relacionamento com aqueles que o rodeavam, os amigos e a família; as mulheres da sua vida – principalmente a sua querida irmã Alice James, a sua prima Minnie Temple, e a sua melhor amiga, a escritora Constance Fenimore Woolson –, cujas mortes trágicas lhe trouxeram o pungente remorso do seu percebido egocentrismo, o qual mais não era que uma forma de dedicação e de fidelidade pela arte que, decerto, sairia prejudicada pela prisão do relacionamento íntimo e permanente; os homens da sua vida – especialmente o seu primo Gus Barker, decepado à vida pelos horrores da guerra civil americana, e o jovem escultor Hendrik Christian Andersen – e a sua profunda atracção reprimida pela sua arreigada pudicícia – por exemplo exprobrava o exibicionismo devasso de Oscar Wilde e do seu círculo de amigos – que o faziam sofrer amargamente, o horror ao toque íntimo e às relações sexuais, como prejudiciais ao simples prazer da contemplação da beleza física.

O único problema desta obra admirável – como referi no início deste texto – é a dificuldade com que nos resignamos à evidência que para além da página 446 apenas há os agradecimentos do autor. No entanto, o fascínio subsiste e a ela hei-de voltar muito em breve.

Classificação: ****** (Obra-prima)

Referência bibliográfica:
Colm Tóibín, O Mestre. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 447 pp. (tradução de José Vieira de Lima*; obra original: The Master, 2004)

*apenas uma pequena referência para o tradutor (também tradutor de Auster em Portugal): excepcional, com as notas de rodapé indispensáveis.

2 comentários:

MANHENTE disse...

André:

Partindo do que escreveu num post anterior, sobre as suas preferências literárias, seria bom que os portugueses conhecessem melhor o Tóibin e o Ishiguro. "Fáceis" de ler mas verdadeiros mestres da escrita. Podia ser que ajudassem a acabar com a literatura "cor de rosa" tão em voga.

A falta de tempo ainda não me permitiu deitar mão ao O Mestre. Fá-lo-ei.

Abraço

AMC disse...

É bem verdade. Então o Ishiguro escreve com uma facilidade, que ela própria é um hino à arte.
Abraço