quarta-feira, 11 de abril de 2007

Retrato de um Soberano

Não sei se alguém, dos poucos que por aqui passam diariamente e que ainda dispõem de alguma reserva mental para me aturar lendo os textos que por aqui publico, já se perguntou por que razão este blogue está cada vez mais circunscrito aos livros e à literatura. Devaneio meu… Talvez... E quiçá, se alguém houver, pode até nem se questionar sobre essa aparente inflexão, limitando-se a seguir uma hiperligação, à guisa de um reflexo condicionado, assim que se liga ao ciberespaço, e certamente esse não será assunto que se possa afigurar como fonte imediata do meu permanente estado de inquietação.
Um facto indesmentível, que facilmente advém por via empírica, é que a impunidade dos poderosos, sejam eles
políticos ou os imaculados senhores magistrados – de direito ou do Ministério Público – recrudesce de dia para dia, em progressão geométrica. E num país onde não se vislumbra a mínima possibilidade de um esforço colectivo e concertado para alterar este estado das coisas, dados os interesses maiores da capelização dos interesses individuais, a vontade de lutar vai-se desvanecendo como o indulgente oxigénio que se esvai para manter acesa a chama. É científico e irrefutável, sem essa massa crítica este país continuará redondo como um ovo, sem ponta por onde se lhe pegue (estou a citar alguém, mas não me lembro quem).

Assim, continuo na literatura, efabulando, a rir e a chorar com mais vontade, folheando páginas à luz de leitura com o televisor ligado, previamente emudecido, à hora do Telejornal, fingindo viver numa espécie de Arcádia. Um autismo auto-infligido, pois bem!

Para dar em definitivo a volta no parafuso jamesiano, consultada as minhas estantes dedicadas à ficção literária, creio serem estas as únicas obras de Henry James disponíveis no mercado nacional, devidamente traduzidas na nossa língua (e assim o vai permitindo a dimensão intelectual deste país, que nem pela língua se faz grande):

  • A Fera na Selva (Assírio & Alvim) – The Beast in the Jungle, 1903;
  • A Herdeira (Estampa), que poderá surgir sob o título original noutras editoras: Washington Square, 1880;
  • A Volta no Parafuso (Relógio D’Água), que poderá surgir sob o título “Calafrio” noutras editoras – The Turn of the Screw, 1898;
  • Daisy Miller (Presença) – 1878;
  • Infidelidades (Círculo de Leitores) – The Golden Bowl, 1904;
  • O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais (Estampa) – The Altar of the Dead, 1895; inclui, para além do conto referido (que empresta o seu nome a parte do título da colectânea), os contos: “O romance dos De Grey” (De Grey – A Romance, 1868); “O último dos Valerii” (The Last of the Valerii, 1875); “Nona Vincent” (1892) e “Sir Dominick Ferrand” (1892);
  • O Desenho no Tapete (Relógio D’Água) – The Figure in the Carpet, 1896;
  • Os Europeus (Clássica Editora) – The Europeans, 1878;
  • Os Manuscritos de Jeffrey Aspern (Relógio D’Água) – The Aspern Papers, 1888;
  • Retrato de uma senhora (Relógio D’Água) – The Portrait of a Lady, 1881.

Nota: Como não se prevê a edição em português de mais obras de Henry James da sua vastíssima bibliografia activa, aqui fica não só a sugestão de consulta de alguns textos publicados gratuitamente pelo Projecto Gutenberg, como também as fabulosas edições Penguin Classics, com prefácio de, entre outros, ilustres autores e críticos literários (com especial atenção para o texto de introdução de Gore Vidal em The Golden Bowl).

2 comentários:

Anonymous disse...

Já há muitos a comentar a actualidade.
Obrigada.

Maria Figueiredo

Personagem de Fricção disse...

É bom continuar a falar de livros, que não são, os LIVROS, efémeros, como a esmagadora maioria das efemérides com que a blogosfera portuguesa anda entretida. Mas quanto ao "país que nem pela língua se faz grande", não estou inteiramente de acordo. A língua anda viva e revitalizada, direi eu, que estou encantado a saborear a língua portuguesa de Angola, com 'Predadores' de Pepetela.