quarta-feira, 18 de abril de 2007

Velvel*

«Sete por cento deste país está a suicidar-se através do álcool. Outros três por cento com narcóticos. Uns sessenta apenas se deixam andar, sucumbindo ao tédio. Vinte por cento venderam a alma ao diabo. E depois há a pequena percentagem que quer viver. Essa é a única coisa significativa no mundo de hoje. São as únicas duas classes que realmente existem. Uns querem viver, mas a maioria não. (…) Não querem. Se assim não fosse, para quê tanta guerra? E digo-lhe mais. O amor dos mortos só quer dizer uma coisa. Querem que morramos com eles. Porque nos amam.» (pág. 107)

Estas são as palavras do estranho psicólogo – um génio ou um manipulador, um simples charlatão? – Dr. Tamkin, que conduz o protagonista, Tommy Wilhelm, ou Wilky Adler, ou simplesmente… (*), na sua peregrinação interior na véspera do Dia da Expiação, ou do perdão, um dos dias mais importantes da fé judaica: o Yom Kippur.

Saul Bellow (1915-2005), galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1976, publicou vinte anos antes (1956) a sua quarta obra de ficção, a novela Aproveita o Dia (Seize the Day), agora publicada em Portugal pela Texto Editores, que, ditosamente, tem vindo a publicar ou a republicar as grandes obras dos grandes autores da literatura do século XX, especialmente os galardoados com o Nobel – para além de Bellow, de quem a editora já publicou as obras A Vítima (The Victim, 1947) e Henderson, O Rei da Chuva (Henderson the Rain King, 1959), constam da colecção os nomes de Pearl Buck (Nobel em 1938), William Golding (Nobel em 1983) e Nadine Gordimer (Nobel em 1991).

Wilhelm é um nova-iorquino quarentão a atravessar uma profunda crise de autoconfiança, acelerada pela dura realidade dos sérios problemas financeiros por que vem passando. Filho de um rico e, outrora, proeminente médico – agora reformado –, divorciado, com ex-mulher e dois filhos para sustentar, a sua carreira profissional cedo foi manchada pelo logro, quando decidiu abandonar os estudos universitários na Penn State University, ao arrepio da firme vontade de seu pai, para abraçar uma carreira de actor em Hollywood. Derrotado no seu devaneio cinematográfico – apenas participou como figurante num filme de quarta categoria, onde vestia um kilt e fingia que tocava uma gaita-de-foles, que lhe valeu uma gripe brutal – decide regressar a Nova Iorque, onde enceta a sua carreira de vendedor, de algum sucesso, na Rojax Corporation, mais tarde ensombrada pela necessidade de partilha da zona de vendas com o genro do proprietário da empresa, facto que conduziu ao seu despedimento.
Após o divórcio, Wilhelm passa a viver num quarto no 23.º andar do Hotel Gloriana, na Broadway – hotel esse em que já residia o seu pai, se bem que… com 26 andares de permeio:

«Por que raio vives aqui comigo, num hotel, e não em Brooklyn com a tua mulher e os teus dois filhos? Não és nem viúvo nem solteiro. Agora eu que aguente as tuas confusões. Estás à espera que faça o quê com elas?» (pág. 32)

A sua vida atinge o ponto de ebulição. Margaret, a sua ex-mulher, não só não lhe concede o divórcio, como se recusa a trabalhar, com o argumento de acompanhar a educação dos filhos, dada a ausência do pai, e vive exclusivamente da sua pensão. O pai recusa-se a ajudá-lo. Wilhelm socorre-se do estranho Dr. Tamkin – também um hóspede no Hotel Gloriana – estabelecendo-se uma relação na qual Tamkin, à laia de guia e de conselheiro espiritual e de analista da bolsa de mercadorias, usufrui de um ascendente moral sobre o depauperado Wilhelm.
É nesta alegórica relação entre orientador/orientado que se baseia esta deleitável narrativa. Apesar das suas escassas 127 páginas (na edição portuguesa referenciada).

As doutas dissertações impregnadas de filosofia de Tamkin, presumivelmente de pacotilha são baseadas, segundo o próprio nas leituras do «que há de melhor na literatura, ciência, filosofia (…) Korzybski, Aristóteles, Freud, W. H. Sheldon e todos os grandes poetas.» (pág. 77).

Um notável exemplo:

«Quem és tu?» Ninguém. É essa a resposta. Ninguém. No fundo – nada! Claro que ninguém aguenta isso e quer ser Alguma coisa e então tenta. Mas em vez de ser Alguma Coisa, o homem finge que o é diante de toda a gente. Não podemos ser assim tão severos connosco mesmos. Uma pessoa tem que amar um bocadinho. Por exemplo, arranja um cão (…) ou dá dinheiro a uma instituição de caridade. Mas isso não é amor, pois não? O que é? É egotismo, puro e duro. Vaidade é o que é. E ambição social. O interesse da alma fingida é o mesmo da vida social, do mecanismo social. Essa é a grande tragédia da vida humana. Oh, é terrível! Terrível! Não somos livres. O nosso grande Judas está dentro de nós e vende-nos. Temos de lhe obedecer como escravos. Ele obriga-nos a trabalhar como bestas. E para quê? Para quem?
(…)
– O objectivo é manter esse fingimento. A alma verdadeira é que paga as favas. Sofre, adoece e apercebe-se de que a alma fingida não pode ser amada. Porque é uma mentira. A alma verdadeira ama a verdade. E quando a alma verdadeira sente isso, quer matar a alma a fingir. O amor transforma-se em ódio. Então a pessoa torna-se perigosa. Uma assassina. Só pensa em matar a alma a fingir.
» (pág. 76)

Vive o aqui e o agora, aproveita aquilo que o presente te dá, não penses no passado porque esse só te tortura e o futuro é uma incerteza, a «natureza só quer saber de uma coisa: o presente (…) uma espécie de onda grande, enorme, gigantesca, colossal, brilhante, bela, plena de vida e de morte, a tocar os céus, a pousar nos mares.» (pp. 96-97).
Esta é torturante alegoria sobre o falhanço do Sonho Americano, a falta de soluções para o insucesso financeiro, materializado na vida fracassada do protagonista, que só se poderá curar através da redenção espiritual, num mundo onde a acção do Homem jamais poderá ser neutra, este tem, no entanto, a faculdade da escolha: a dicotomia criação versus destruição.

Aproveita o Dia é de uma profundidade sufocante, apenas ao alcance de um génio literário, especialmente se atentarmos na forma magistral como os personagens são descritos e adornados, onde, bem ao estilo de Bellow, até lhes conseguimos descortinar os seus traços fisionómicos menos visíveis, como se, de súbito, pela simples descrição impressa em caracteres sobre o branco do papel do livro, houvéssemos olhado para uma fotografia acabada de tirar – daí resultou a minha séria dúvida sobre a classificação da obra como novela, ao invés de romance –, e no estilo narrativo fluido e sem qualquer vestígio de adiposidade acessória, de pura divagação.

Carpe diem!

Classificação: ***** (Muito Bom)

Nota: *Lobinho (pequeno lobo) em iídiche.

Referência bibliográfica:
Saul Bellow, Aproveita o Dia. Lisboa: Texto editores, 1.ª edição, Abril de 2007, 127 pp. (tradução de Sofia Gomes; obra original: Seize the Day, 1956).

2 comentários:

cj disse...

salivo

Fernando M. Dinis disse...

Estou a lê-lo, finalmente. Andei ocupado alguns dias com o Teatro de Sabbath do Roth (4 estrelas. Seriam cinco se não fosse tão maçador com algumas memórias que cortam o desenrolar da cronologia.) Aproveita o dia é de uma profundidade verdadeira que nos faz pensar. Há livros que nos agarram pelo fantástico, ou pelo improvavél. Outros, como este, seguram-nos pela humana realidade, pela estrondosa possibilidade de um dia, semelhante história, poder ser vivida por nós.
abraço