segunda-feira, 16 de abril de 2007

Haverá chuva esta noite

Estas são as últimas palavras de Banquo, personagem da tragédia Macbeth de William Shakespeare, antes de haver gritado ao filho, Fleance, que o acompanhava, para que fugisse e contasse ao mundo a traição, e de haver sucumbido às mãos de um grupo de assassinos a soldo do seu amigo e companheiro do exército real, o sequioso Macbeth.
«Deixa a chuva cair», disse o 1.º assassino em jeito de resposta (3.º Acto, 3.ª Cena).

Nelson Dyar, jovem nova-iorquino, caixa de um banco, resolve dar uma volta à sua vida enfadonha de cinzento empregado bancário e embarca rumo a Tânger, onde o espera um amigo, Jack Wilcox, com a promessa de emprego na sua agência de viagens, situada na zona internacional da cidade que, em breve, seria definitivamente integrada no território de Marrocos após a concessão da sua independência pela França em Março de 1956.

Paul Bowles, poeta, romancista, contista, tradutor, músico, e, sobretudo, viajante – condição plasmada nos seus célebres livros de viagens –, nascido em 1910 em Nova Iorque, morreu em Novembro de 1999 em Tânger, aquela que viria a ser a sua única e definitiva morada a partir de 1947. Amigo, contudo não adepto da corrente artística, dos beatniks Burroughs e Ginsberg – que fizeram constantes romagens hedonistas à sua casa em Tânger –, assim como de Gertrude Stein, Patricia Highsmith, Tennessee Williams, Truman Capote e de Gore Vidal que sobre os seus contos disse tratarem-se do melhor alguma vez publicado nos Estados Unidos da América, Bowles, após carreira musical de relativo sucesso, impôs-se desde logo no mundo das letras com o seu primeiro romance O Céu que nos Protege (The Sheltering Sky, 1949), aclamado internacionalmente como uma obra-prima da ficção norte-americana e considerado em 2005 pela revista Time como um dos 100 melhores romances em língua inglesa desde 1923 – data de fundação da revista. Em 1990, a obra seria adaptada ao cinema pelo realizador italiano Bernardo Bertolucci, com interpretações de Debra Winger e John Malkovich, que em Portugal recebeu o título Um Chá no Deserto.
Dos quatro romances do autor, Deixa a Chuva Cair (Let It Come Down, 1952) foi o seu segundo, reeditado este ano em Portugal pela editora Assírio & Alvim.

{«Somos todos monstros», disse Daisy com entusiasmo. «É a Era dos Monstros. Por que razão é que a história da mulher e dos lobos é tão terrível? Conhece a história, em que ela tem um trenó cheio de crianças, a atravessar a tundra, e os lobos seguem-na e ela vai atirando as crianças, uma após outra, para aplacar as feras. Há cem anos atrás todos acharam isto horrível. Mas hoje em dia é ainda pior. Muito pior. Porque nessa altura era remoto e improvável e agora passou para a esfera do possível. É uma história terrível, mas não por a mulher ser um monstro. De maneira nenhuma. Mas porque o que ela fez, para se salvar, é exactamente o que todos nós fazemos. É terrível por ser tão desesperadamente verdade. Eu fazia isso, todos nós sabemos que faríamos isso. Não é assim?»} (pp. 258-259)
Tânger, a pequena Nova Iorque do Norte de África, o caldeirão de culturas, mas simultaneamente o local onde impera o negrume – simbolizado pelo carregado do céu e da chuva que não pára de cair – da corrupção, do contrabando de mercadorias e do tráfico de divisas, da futilidade da classe dominante ocidental e dos autóctones ocidentalizados, da miséria humana, da luta imperial e onde se digladiam as potências internacionais – assiste-se ao dealbar da Guerra Fria – sobre os escombros de um conflito mundial fratricida que houvera acabado havia pouco tempo.
Como referi, Dyar, o protagonista deste romance negro, é um jovem que parte à aventura e enfrenta a decadente sociedade do território (agora) marroquino, «um Zé-ninguém» como Bowles o define no prefácio da obra, sendo «a única personagem totalmente inventada; para todos os outros» usou «como modelo, os verdadeiros habitantes de Tânger.» (pág. 13)
Deixa a Chuva Cair é um romance desconcertante que se constrói a partir da babilónia de idiossincrasias dos personagens do romance, como fiéis estereótipos daqueles que na altura gravitavam em torno da podridão da sociedade da Zona Internacional.
Dividido em quatro partes, o romance parte de uma fiel descrição daquilo que os olhos de Dyar vêem enquanto decorre o seu turbulento processo de instalação na cidade: as pessoas, os locais de diversão, os costumes. À medida que o protagonista se vai embrenhando do miasma local, o romance vai lentamente abandonando o seu tom descritivo, levemente matizado de algum lirismo, e percorre uma fase detectivesca, com laivos de romance de espionagem, bem ao – melhor – estilo de Greene, para na última parte degenerar num solilóquio reflexivo, intimista e devaneante, que o próprio autor confessa ter sido escrito em Xauen, isolado nas montanhas, e sob a influência alucinatória do Kif:

«Desliguei os comandos e deixei que Outra Espécie de Silêncio [Livro Quatro] se guiasse sozinha, sem lhe fornecer qualquer direcção consciente. Foi tão longe quanto podia, depois parou e assim acabou o livro.» (do prefácio do autor, pág. 13).
Deixa a Chuva Cair é cativante e tal como um bom vinho vai encantando à medida que se vai consumindo, deixando um ligeiro e prolongado travo de satisfação e de prazer assim que termina a sua degustação.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Paul Bowles, Deixa a Chuva Cair. Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 2007, 345 pp. (tradução de Ana Maria Freitas; obra original: Let It Come Down, 1952).

Nota: apenas uma chamada de atenção para a tradução, pouco cuidada na estrutura sintáctica e gramatical do texto. Um exemplo, a regência de verbos pela preposição “de”, que, de certa forma, tem vindo a ser afectada pelo estribilho de Bimbo da Costa no Conta Informação da RTP com o famoso «penso eu de que…», levando à substituição de todos os “de que” correctos por “que”. Estou convencido de que essa é a realidade.