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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ler devagar...

…e saborear cada palavra:

«Mrs Gereth had said she would go with the rest to church, but suddenly it seemed to her that she should not be able to wait even till church-time for relief: breakfast, at Waterbath, was a punctual meal, and she had still nearly an hour on her hands. Knowing the church to be near, she prepared in her room for the little rural walk, and on her way down again, passing through corridors and observing imbecilities of decoration, the æsthetic misery of the big commodious house, she felt a return of the tide of last night’s irritation, a renewal of everything she could secretly suffer from ugliness and stupidity. Why did she consent to such contacts? why did she so rashly expose herself? She had had, heaven knew, her reasons, but the whole experience was to be sharper than she had feared. To get away from it and out into the air, into the presence of sky and trees, flowers and birds, was a necessity of every nerve. The flowers at Waterbath bath would probably go wrong in colour and the nightingales sing out of tune; but she remembered to have heard the place described as possessing those advantages that are usually spoken of as natural. There were advantages enough it clearly didn’t possess. It was hard for her to believe that a woman could look presentable who had been kept awake for hours by the wallpaper in her room; yet none the less, as in her fresh widow’s weeds she rustled across the hall, she was sustained by the consciousness, which always added to the unction of her social Sundays, that she was, as usual, the only person in the house incapable of wearing in her preparation the horrible stamp of the same exceptional smartness that would be conspicuous in a grocer’s wife. She would rather have perished than have looked endimanchée
Henry James, The Spoils of Poynton (1897; ed. Oxford World's Classics, 2000, p. 1)

(E tudo isto a propósito do temperamento e dos gostos pessoais na avaliação de uma obra literária. Tão maneirista, pedante e aristocrata, e no entanto um dos melhores de sempre – o Mestre.)

Apesar do carácter retórico da pergunta, Sérgio, ensaio uma resposta: claro que é.
A nossa (deles, americanos) estimável Michiko é insuportavelmente feminista e misândrica, maniqueísta, cultora do ódio de estimação (que o digam Roth ou Mailer, este último num qualquer tipo de manifestação ectoplásmica), talvez induzida pela soberba do legado para o mundo literário de uma marca própria; porém, sabe de literatura e de como se constrói uma recensão, disseca, por vezes com um excesso de minúcia, as obras analisadas. É irritante e de crítica na maioria das vezes criticável (pleonasmo propositado, não sei por que carga de água...), mas irrepreensível no rigor – não é por acaso que já venceu um Pulitzer pela carreira de recenseadora.
A nossa (e aqui, infelizmente, o possessivo assenta-nos bem) Dóris Graça Dias é a imagem do país. E porque é nele que temos de viver, onde um simples texto de lamentação, ao invés de agir como agente preventivo para um comportamento desprezível, é normalmente visto como uma apologia, então fiquemo-nos pelos adjectivos que, de forma inexorável, a ele se agarram como lapas às rochas: pequenino, mesquinho, invejoso e, sobretudo neste caso, oportunista – o velho hábito luso do massacre, constante e sem piedade, do debilitado –, um imenso viveiro para a ostentação, para o snobismo grosseiro (ver etimologia, sine nobilitate).

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

The Twofer

Michiko KakutaniRoth já o havia confirmado, Nathan Zuckerman – para muitos o alter-ego do autor norte-americano – despede-se do público com Exist Ghost, o nono livro a contar com o atormentado personagem – décimo com a compilação Zuckerman Bound (1985) –, havendo intervindo em seis como protagonista (incluindo o mais recente) e nos restantes como narrador e personagem secundário.
Depois da valente zurzidela em Todo-o-Mundo (Everyman, 2006), que foi devidamente precedida por outras impiedosas recensões, com destaque para Teatro de Sabbath (Sabbath’s Theater, 1995), Michiko Kakutani, crítica literária residente do periódico
The New York Times, vencedora do Pulitzer para a Crítica em 1998 pela sua «escrita apaixonada e inteligente sobre livros e literatura contemporânea» [tradução AMC], aprova o último romance de Philip Roth – o que pode significar que, de facto, o achou uma maravilha, dada a sua embirração com o escritor de Newark e quejandos (já lá vamos…)
Em boa verdade, para a letrada nipo-americana nem tudo é mau com Roth. Kakutani sempre se confessou como admiradora incondicional da Trilogia Americana (do pós-guerra), com especial destaque para Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) – curiosamente, o meu romance preferido, entre a dezena que tive a oportunidade de ler de Philip Roth.
Porém, a misoginia latente nas restantes obras do autor, a informal, solta e obscena linguagem usada – na minha óptica, um dos temperos que contribuem para a excepcionalidade do produto final rothiano –, acrescentando-se, segundo palavras da própria, a superficialidade ou lhaneza de algumas das suas últimas obras como Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) e de Todo-o-Mundo, deram-lhe o ensejo para desancar, através de uma prosa rebuscada, perifrástica e com grande intensidade adjectival, usando a sua página no The New York Times Book Review como veículo da sua verrina, um dos mitos vivos da literatura norte-americana, cuja obra será publicada na íntegra, e ainda em vida, na Library of America.
Mas Philip Roth não é a única presa nas garras do falcão desgrenhado de origem japonesa. Aliás, Kakutani é suficientemente conhecida pela sua acerba implicância com os escritores anglo-saxónicos, brancos e do sexo masculino, e quase todos pertencentes à mesma geração: Updike e Pynchon, para além do já ido pai Bellow, e, em especial, Norman Mailer, com quem já se envolveu em ferozes altercações, chegando ao ponto de este último se ter visto na obrigação de defender Roth, com o qual mantém uma animosidade surda, de origem bellowniana, quando Kakutani trucidou Teatro de Sabbath.
Em 2005, em entrevista à revista Rolling Stone, Mailer disse:
«Kakutani é uma mulher kamikaze. Ela despreza os escritores masculinos e brancos, e eu sou o seu alvo preferido […] Todavia, os editores do Times não a podem despedir. Eles têm medo dela. Com as leis de discriminação e por aí fora, bom, ela é uma “três em um”[1]… Asiática, feminista, e… ah, qual é a terceira? Bom… vamos antes chamá-la de “dois em um”[2]… Ela é um adereço, e, provavelmente, lá no fundo, ela sabe disso.» [tradução AMC]

Shame on you, Mr. Mailer. (O autor deste blogue a aderir ao p.c.)

Notas:
[1] Tradução aproximada para “Threefer”, uso mais correcto em “conjunto de três produtos pelo preço de um”.
[2] Tradução aproximada para “Twofer”, mais correcto “conjunto de dois produtos pelo preço de um”. Pode também utilizar-se para mencionar uma pessoa pertencente a dois grupos minoritários ou objecto de discriminação, beneficiária por duas vias de um sistema de quotas (cf. "
twofer." Dictionary.com Unabridged (v 1.1). Random House, Inc. 04 Oct. 2007. No caso Mailer referia-se à condição de “mulher asiática”.

Recomendação: Ler o artigo The Twilight of the Old Goats de autoria do jornalista, crítico literário e ensaísta D.T. Max, publicado em Maio de 1997 na revista digital Salon.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 1

«Gente descomprometida passou de moda. É um esclarecedor sinal dos tempos», Pedro Correia no Corta-Fitas referindo-se à painelada (derivação morfológica dos famosos paineleiros de Alfredo Farinha) comentadora da TSF*. «Quanto menos isentos melhor.» De facto, parece ser essa a divisa que dirige a cupidez dos detentores do 4.º poder no panorama comunicacional luso. É a oligarquia opinativa como reflexo da democracia tentacular que se instalou há muito neste país de compadres e comadres.

«Michiko Kakutani é solteira», Rogério Casanova no seu blogue
Pastoral Portuguesa, neste delicioso e curto ensaio biográfico – em nove pontos – sobre a truculenta crítica literária do New York Times de nome Michiko Kakutani.
Sobre Kakutani já me insurgi por diversas vezes no meu anterior
blogue, especialmente quando Miss Michiko perorou e tentou arrasar, através da sua estilizada – por vezes ufanamente hermética – crítica literária, o fabuloso romance O Mar – vencedor do Booker Prize em 2005 – do escritor irlandês John Banville.
Só me questiono se a nona nota biográfica postada pelo Rogério será a causa ou o efeito da miséria humana da dita senhora. Isto é, se a exigência sem critério, a imodéstia sentenciadora e a verrina crítica que M. K. apõe aos seus textos resultam de uma vida sentimental mal resolvida; ou se, ao invés, afora a sua aparência de despenteada mental, essa sua pungente e pujante volatilidade crítica são a causa da sua (dela) aparente solidão (em bom português: livra, coitado(a) de quem lhe pegue?)

*Após haver escrito este texto, verifiquei que a rádio que já foi de referência e que caminha a passos largos para o abismo cor-de-rosa por entre veredas (e quem sabe, canaviais) e um Fragoso caminho, promoveu a letrada Carolina Salgado – outrora vítima das diatribes de tom moralista dos Veiga, Vieira e Malheiro – a comentadora de assuntos “Pinto da Costa”. Não é que Carolina tem falado de meia em meia hora desde o início da manhã!