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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Praia

«Larguei a heroína e voltei à minha terra e comecei com o tratamento de metadona que me administravam no ambulatório e poucas coisas mais tinha de fazer excepto levantar-me a cada manhã e ver televisão e conseguir dormir à noite, mas não podia, alguma coisa me impedia de fechar os olhos e descansar, e essa era a minha rotina, até que um dia não aguentei mais e comprei um fato de banho preto numa loja do centro da povoação e fui à praia, com o fato de banho vestido e uma toalha e uma revista, e coloquei a minha toalha não muito perto da água e de seguida estirei-me e estive um pouco de tempo a pensar se haveria de ir ou não tomar banho, vislumbrava muitos motivos para o fazer, mas também vislumbrava alguns motivos para o não fazer (as crianças que tomavam banho na beira-mar, por exemplo), assim o tempo passou e voltei a casa, e na manhã seguinte comprei creme de protecção solar e fui de novo à praia, e por volta do meio-dia dirigi-me ao ambulatório e tomei a minha dose de metadona e saudei algumas caras conhecidas, nenhum amigo ou amiga, só caras conhecidas da fila para a metadona que acharam estranho ver-me de fato de banho, e eu como se nada fosse, e logo voltei a caminhar para a praia e desta vez dei o primeiro mergulho e tentei nadar, porém não consegui, mas isso para mim foi o suficiente, e no dia seguinte voltei à praia e de seguida voltei a untar o corpo com o protector solar e depois fiquei a dormir na areia, e quando acordei sentia-me bastante descansado, e não tinha queimado as costas nem nada de nada, e assim passou uma semana ou talvez duas, não me lembro, onde não restava qualquer dúvida era que a cada dia que passava estava mais moreno e embora não falasse com ninguém a cada dia sentia-me melhor, ou diferente, que não é a mesma coisa mas no meu caso parecia, e um dia apareceu na praia um casal de velhos, disso recordo-me com nitidez, via-se que já andavam há muito tempo juntos, ela era gorda, ou cheiinha, e devia andar aproximadamente pelos 70 anos, e ele era magro, ou mais que magro, um esqueleto que caminhava, creio que foi isso que me chamou a atenção, porque regra geral nunca reparava na gente que ia à praia, mas nestes reparei devido à magreza do tipo, o que vi assustou-me, merda, é a morte que vem buscar-me, pensei, mas não vinha, era só um casal idoso, ele com uns 75 e ela com uns 70, ou ao contrário, e ela parecia gozar de boa saúde, e ele tinha cara de quem iria bater a bota a qualquer momento ou que este seria o seu último Verão, em princípio, ultrapassado o primeiro susto, tive dificuldades em desviar o olhar da cara do velho, da sua caveira apenas coberta por uma fina camada de pele, mas logo me habituei a olhá-los de forma dissimulada, deitado na areia, de bruços, com a cara tapada pelos braços, ou a partir do passeio, sentado num banco em frente à praia, enquanto fingia que tirava a areia do corpo, e lembro-me que a velha chegava sempre à praia com um guarda-sol em cuja sombra se introduzia de forma pressurosa, sem fato de banho, apesar de por vezes a ter visto de fato de banho, mas mais usualmente com um vestido de verão, bastante largo, que lhe fazia parecer menos gorda do que era, e debaixo do guarda-sol a velha passava o tempo a ler, levava um livro bastante grosso, enquanto o esqueleto que era seu marido se estendia na areia, vestido unicamente com um fato de banho diminuto, quase uma tanga, e absorvia o sol com uma voracidade que a mim me trazia recordações longínquas, de junkies desfrutando estáticos, de junkies concentrados no que faziam, na única coisa que podiam fazer, e naquele momento ficava a doer-me a cabeça e ia-me embora da praia, comia no Paseo Marítimo, uma tapa de anchovas e uma cerveja, e depois punha-me a fumar e a observar a praia através dos janelões do bar, e depois voltava e aí seguia o velho e a velha, ela debaixo do guarda-sol, ele exposto aos raios do sol, e então, de forma involuntária, dava-me vontade de chorar e mergulhava na água e nadava, e quando já me havia afastado bastante da beira-mar observava o sol e parecia-me estranho que estivesse ali, essa coisa grande e tão diferente de nós, e de imediato punha-me a nadar até à chegar à orla (por duas vezes estive a ponto de me afogar) e quando chegava deixava-me cair na minha toalha e ficava um bom bocado a respirar com dificuldade, mas sempre espreitando até onde se encontravam os velhos, e depois talvez tivesse dormido deitado na areia, e quando acordava a praia começava a esvaziar-se, mas os velhos continuavam lá, ela com o seu romance debaixo do guarda-sol e ele deitado de costas, numa zona sem sombra, com os olhos fechados e uma expressão estranha na sua caveira, como se sentisse cada minuto que passava e o desfrutasse, mesmo que os raios de sol fossem já débeis, mesmo que o sol já se encontrasse do outro lado dos edifícios da primeira linha da costa, do outro lado das colinas, mas isso parecia não lhe importar, e então, no momento de acordar eu observava-o e observava o sol, e por vezes sentia nas costas uma dor ligeira, como se naquela tarde me houvesse bronzeado mais do que o normal, e de imediato observava-os e logo me levantava, jungia a toalha ao corpo como uma capa e ia-me sentar num dos bancos do Paseo Marítimo, onde fingia que sacudia a areia que não tinha nas pernas, e a partir daí, desde essa altura, a visão do casal era diferente, dizia a mim mesmo que talvez ele não estivesse a ponto de morrer, dizia a mim mesmo que o tempo talvez não existisse tal como eu acreditava que existia, reflectia sobre o tempo enquanto a distância do sol alongava as sombras dos edifícios, e de seguida ia para casa e tomava um duche e olhava para as minhas costas vermelhas, umas costas que não pareciam minhas mas de outro tipo, um tipo a quem ainda faltariam muitos anos para eu conhecer, e depois ligava a televisão e via programas que não entendia em absoluto, até que ficava a dormir no sofá, e no dia seguinte voltava ao mesmo, a praia, o ambulatório, outra vez a praia, os velhos, uma rotina que por vezes evitava o aparecimento de outros seres que apareciam na praia, uma mulher, por exemplo, que estava sempre de pé, que jamais se recostava na areia, que ia vestida com a parte de baixo de um biquíni e com uma camisa azul, e quando entrava no mar só se molhava até aos joelhos, e que lia um livro, como a velha, mas esta mulher lia-o de pé, e por vezes agachava-se, embora de uma forma esquisita, e agarrava numa garrafa de Pepsi de litro e meio e bebia, de pé, claro, e a seguir deixava a garrafa sobre a toalha, que eu não fazia a mínima ideia porque é que a havia trazido se nunca se estendia nela e tão-pouco tomava banho, e por vezes esta mulher metia-me medo, parecia-me excessivamente esquisita, mas a maioria das vezes só me metia pena, e também vi outras coisas estranhas, na praia passam-se sempre coisas assim, talvez porque é o único sítio onde todos estamos meio despidos, mas que não tinham importância alguma, uma vez pareceu-me ver um ex-junky como eu, enquanto caminhava pela beira-mar, sentado num montículo de areia com um bebé de meses sobre as suas pernas, e de outra vez vi umas raparigas russas, três raparigas russas, que provavelmente eram putas e que falavam, as três, ao telemóvel e riam-se, mas na verdade o que mais me interessava era o casal de velhos, em parte porque tinha a impressão de que o velho ia morrer a qualquer instante, e quando pensava nisto, ou quando dava conta de que estava a pensar nisto, ocorriam-me sempre ideias disparatadas, como a que depois da morte do velho surgiria um maremoto, a povoação era destruída por uma onda gigantesca, ou punha-se a tremer, um terramoto de grande magnitude faria desaparecer a povoação inteira no meio de uma onda de pó, e quando pensava no que acabo de dizer escondia a cabeça entre as mãos e desatava a chorar, e enquanto chorava sonhava (ou imaginava) que era de noite, pelas três da manhã, e que eu saía da minha casa e ia à praia, e na praia encontrava o velho estendido na areia, e no céu, próximo das outras estrelas, mas mais próximo da Terra que das outras estrelas, brilhava um sol negro, um enorme sol negro e silencioso, e eu descia até à praia e também me estendia na areia, as duas únicas pessoas na praia eram o velho e eu, e quando voltava a abrir o olhos apercebia-me de que as putas russas e a rapariga que estava sempre de pé e o ex-junky com o bebé nos braços me contemplavam com curiosidade, perguntando-se quem, por acaso, poderia ser aquele tipo estranho, o tipo que tinha as costas e os ombros queimados, e até a velha me observava a partir da frescura do seu guarda-sol, interrompia a leitura do seu livro interminável por um segundos, perguntando-se talvez quem era aquele jovem que chorava em silêncio, um jovem de 35 anos que nada tinha, mas que estava a reconquistar a vontade e o valor e que sabia que ainda ia viver por mais uns tempos.»
Roberto Bolaño, “Playa”, in El Mundo*, 17/Agosto/2000 [tradução: AMC, 2009]

*série de contos escritos por vários autores subordinados ao tema “O pior Verão da minha vida” e publicados no Verão de 2000 no jornal espanhol El Mundo. Para além de Bolaño participarem neste desafio escritores como Zoé Valdés, Francisco Umbral, Eduardo Mendicutti, Manuel Hidalgo, Juan Marsé, Ignacio Padilla, Lucía Etxebarria, Guillermo Cabrera Infante, José Ovejero, entre outros.

A habitual citação dominical foi substituída pela “citação completa” de um conto de Bolaño, publicado em 2000 no mencionado jornal espanhol. A sua pertinência deve-se à habitual especulação necrófaga sobre a vida de um determinado autor que se destacou em vida pela excelência da sua literatura. Foi assim com Hemingway, tentaram fazê-lo com Henry James, e iniciou-se agora a campanha de esquadrinhamento da vida privada de Bolaño. Com este conto, alguns biógrafos de pacotilha vêem nele um ex-heroinómano, que lutou anos contra o seu vício quinciano. Outros investigam ainda possibilidade de Bolaño não ter estado no Chile a 11 de Setembro de 1973 – como o autor insistentemente afirmava nos seus escritos –, quando se deu o Golpe de Estado de Augusto Pinochet contra o Presidente socialista Salvador Allende. Logo a sua famosa prisão por uma semana acusado de ser terrorista foi uma farsa. E hão-de continuar. Mais episódios surgirão independentemente da vontade da família, dos seus amigos e editores.

sábado, 5 de abril de 2008

1,... [com promessa]

V

O rapaz e a mãe ficaram a olhar para a carrinha até aquela desaparecer ao dobrar da esquina. No interior da casa reinava de novo um silêncio de morte. Ele já não se tinha de preocupar com o Rover, ter de verificar se ele estava a fazer algo aos tapetes, ou a morder os móveis, ou até verificar se ele tinha água suficiente ou algo que comer. Rover era a primeira coisa com que se costumava preocupar todos os dias quando regressava da escola e quando a ela voltava de manhã; andara sempre preocupado que o cão pudesse fazer alguma coisa que desagradasse o seu pai e a sua mãe. Agora toda essa ansiedade acabou e, com ela, o prazer, e a casa estava silenciosa.

Ele regressou à mesa da cozinha e tentou pensar em algo que pudesse desenhar. Um jornal estava pousado numa das cadeiras, ele abriu-o e deparou-se com um anúncio a meias da Saks que mostrava uma mulher que envergava um fino vestido, aberto para exibir a perna. Ele começou a desenhá-lo e voltou a pensar em Lucille. Será que poderia ligar-lhe, interrogava-se, e fazer aquilo que haviam feito da última vez? Apesar de ela, com certeza, poder vir a perguntar pelo Rover e não tinha alternativa senão mentir-lhe. Ele recordou-se da forma como ela afagara o Rover nos seus braços, até chegara a beijar-lhe o nariz. Ela amava o cachorrinho. Como é que ele lhe poderia contar que já não o tinha? Só de estar sentado a pensar nela, sentia-o a entesar como um pau de vassoura, e de súbito, perguntou-se, e se lhe telefonasse a dizer que a família estava a pensar num segundo cão para fazer companhia ao Rover? Mas nesse caso ele teria de fingir que continuava a possuir o Rover, o que passaria a envolver duas mentiras, e isso já era um pouco assustador. Nem é tanto as mentiras, à medida que tentava recordar, primeiro, que ele ainda tinha o Rover, segundo, que estava a falar a sério quanto ao segundo cão, e, terceiro, a pior de todas, que quando ele saísse e se levantasse de Lucille ele teria de dizer que infelizmente não poderia levar outro cão porque… Porquê? Só o facto de haver perfilado esses pensamentos, deixou-o exausto. Depois viu-se a si mesmo no meio do calor dela e pensou que a sua cabeça lhe explodia, e veio-lhe à ideia que quando tudo acabasse ela poderia insistir que ele levasse outro cachorrinho. Forçá-lo a isso. Afinal de contas, pensou ele, ela não lhe aceitou os três dólares e o Rover foi uma espécie de presente. Seria embaraçoso rejeitar a oferta de outro cão, especialmente por ele haver regressado especificamente por essa razão. Ele não se atreveria a ir para frente com tudo isso e desistiu da sua ideia. Mas depois arrastou de novo à sua memória a imagem dela escarrapachada no chão da maneira que o fizera, e ele voltou a procurar um motivo para alegar na recusa do segundo cão, depois de ter percorrido Brooklyn inteiro para o ir buscar. Ele quase que lhe podia ver a expressão da cara no momento em que ele recusasse o segundo cão, a estupefacção ou, pior, a fúria. Sim, era bem possível que ela ficasse furiosa e que visse tudo através dele, podendo-se sentir insultada, apercebendo-se de que ele apenas viera para se aproveitar dela e tudo o resto era uma leviandade. Até o poderia esbofetear. O que faria ele a seguir? Ele não podia dar luta a uma mulher adulta. Mas, ocorreu-lhe que por esta altura ela era bem capaz de já ter vendido os outros dois cães, que a três dólares cada um eram bastantes baratos. E depois? Ele começou a interrogar-se, suponhamos que ele lhe telefonava e, sem mencionar qualquer cão, lhe dizia que gostaria de regressar a sua casa para a visitar? Ele apenas teria de contar uma mentira, que ele ainda tinha o Rover e de que a sua família o adorava, e por aí fora. Ele podia facilmente aguentar com isso. Sentou-se ao piano e tocou alguns acordes, a maioria nas teclas pretas de som grave, para se acalmar. Na realidade, ele não sabia tocar piano, mas adorava inventar acordes, deixando que as vibrações atingissem os seus braços. Ele tocava, sentindo-se como se algo dentro dele abanasse desenfreadamente e houvesse colapsado ao mesmo tempo. Ele estava diferente do que tinha sido, não limpo e vazio, mas coberto de segredos e das suas mentiras, algumas ditas outras não, mas todas desagradáveis o suficiente para o manter ligeiramente fora da sua família, num local onde ele agora os poderia observar, e observá-los com ele. Ele tentou criar uma melodia com a mão direita tentando encontrar os acordes harmonizáveis com a esquerda. Por pura sorte, ele conseguia criar alguma beleza. Era realmente surpreendente, como os seus acordes só estavam ligeiramente dissonantes, com uma intensidade discordante mas mantinham-se, de algum modo, num diálogo harmonioso com a melodia tocada pela sua mão direita. A mãe dele entrou na sala surpreendida e pasmada de prazer. “O que se está a passar?” clamou ela em delírio. Ela sabia piano e tocar música de ouvido, tentou ensiná-lo mas falhou, porque, acreditou ela, o ouvido dele era muito bom e ele preferia tocar aquilo que ouvisse do que ter o trabalho de ler notas na pauta. Ela aproximou-se do piano e permaneceu perto do rapaz, observando-lhe as mãos. Espantada, desejando, como sempre que ele pudesse ser um génio, ela riu-se. “Estás a improvisar?” ela quase gritou, como se estivessem lado a lado a descer uma montanha russa. Ele apenas podia abanar a cabeça, não se atrevendo a falar, caso contrário talvez pudesse perder o que ele, de alguma forma, apanhou do ar, e riu-se com ela porque se sentia tão feliz por haver secretamente mudado, e, ao mesmo tempo, tinha dúvidas de que no futuro pudesse alguma vez voltar a tocar assim.

FIM


Arthur Miller, "Bulldog", The New Yorker, (8/13/2001), 2001, pp. 72-76 [Tradução: AMC, Mar/2008]

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. V: 4615 caracteres)

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Amanhã, terminarei, pelos menos de forma temporária, a minha actividade na blogosfera. A indisciplina e o torvelinho de emoções que se me assaltou nos últimos tempos, advindos sobretudo de um cansaço mental percebido – e, convenhamos, se aquele é de facto consciente, já não estamos nada mal… – não se coaduna com o vício diário de exibir a pobreza dos meus pensamentos ao mundo – e acreditem que não é falsa modéstia, vinha sentindo uma certa deterioração que com alguma premência exigia um afastamento… para não gangrenar e arruinar de vez (passe a redundância) um dos meus passatempos favoritos: escrever (e, claro, ser lido).
Às 20:45 estarei nas Antas a assistir ao primeiro jogo da época e será porventura o último até ao seu final. Com mais 6 ou menos 6 pontos lá estarei a emprestar a minha voz àqueles cujo justo domínio avassalador durante três décadas, dentro e fora de portas, um sistema judicial estranhamente unidireccional, tão podre e tão repugnante como aqueles que neste momento são por ele investigados, pretende fazer esquecer… Canal Caveira eclipsou-se e ninguém pretende que, recorrendo ao simples método da reconstituição histórica, se escrutine os 60 anos que precederam o 25 de Abril de 1974. A rádio não exibia repetições… Um tal de Joel, que substituiu Rui Oliveira e Costa, dizia na televisão pública na passada terça-feira com toda a desfaçatez: "seis pontos não compensam vinte anos". Ao ponto a que chegou a desvergonha e o descaramento de quem não consegue aceitar, pelo menos, algumas das inúmeras derrotas e de reconhecer o mérito a quem de facto o teve durante anos a fio; é que nem das "unhas" se conseguiu recordar!...
A promessa: deixarei aqui uma pequena história, conto ou, se preferirem, uma pequena peça escrita sem pretensões literárias de apelo à memória, que é tão curta neste país de medíocres. Irá chamar-se "Bokassa".
[cancelada por manifesta falta de vontade]

sexta-feira, 4 de abril de 2008

2,... [com pedido de divulgação]

IV

Um dia, a mãe dele fez um bolo de chocolate e pô-lo a arrefecer na mesa da cozinha. Tinha pelo menos vinte centímetros de espessura, e ele sabia que deveria estar delicioso. Naqueles dias ele tinha desenhado imenso, colheres e garfos, ou maços de cigarros ou, ocasionalmente, o vaso chinês da sua mãe com o dragão pintado, tudo o que possuísse uma forma interessante. Vai daí ele colocou o bolo numa cadeira próxima da mesa e desenhou-o por uns momentos, levantou-se e, por alguma razão, foi lá fora e distraiu-se com as suas tulipas, que havia plantado no Outono anterior, que já começavam a querer mostrar as suas pontas. Depois decidiu procurar uma bola de baseball praticamente nova, que havia perdido no Verão passado e de que tinha quase a certeza só poderia estar na cave dentro de uma caixa de cartão. Ele nunca havia conseguido chegar ao fundo da caixa, porque acabava sempre por se distrair com algo que ele havia esquecido e que, outrora, aí tinha depositado. Ele entrou na cave pela porta exterior, que fica debaixo do alpendre das traseiras, quando reparou que a pereira que havia plantado há dois anos, tinha uma espécie de rebento num dos seus ramos mais finos. Aquilo surpreendeu-o e fê-lo sentir triunfante e orgulhoso. Ele tinha pagado trinta e cinco cêntimos pela árvore na Court Street e mais trinta cêntimos por uma macieira, que ele plantou a dois metros de distância, na esperança de poder vir a instalar uma longa cama de rede entre elas. Mas, ainda eram muito jovens e finas, talvez o conseguisse no próximo ano. Ele adorava observar as duas árvores, porque tinha sido ele plantá-las, e cria que elas, de alguma forma, sabiam que ele as observava, e que elas lhe retribuíam o olhar. O quintal terminava numa cerca de madeira de três metros de altura que rodeava Erasmus Field, onde as equipas semiprofissionais e amadoras jogavam nos fins-de-semana. Equipas como a House of David e os Black Yankees e aquela com Satchel Paige, que era conhecido por ser um dos melhores lançadores do país, só que era Preto e, obviamente, não podia jogar nas grandes ligas. Os jogadores da House of David tinham todos longas barbas – ele nunca havia entendido o porquê, mas talvez eles fossem judeus ortodoxos, apesar de não o aparentarem. Uma tacada extremamente longa sobre o lado direito do campo podia fazer com que uma bola ficasse no quintal, e era essa mesma bola que lhe tinha ocorrido procurar, agora que chegara a Primavera e o tempo estava a aquecer. Na cave, ele encontrou a caixa e ficou inesperadamente admirado com os seus patins por estarem tão afiados, e recordou-se que em tempos tivera um torno para prender os patins par a par para que com uma pedra pudesse amolar as suas lâminas. Ele retirou uma luva de baseball rasgada, uma luva de guarda-redes de hóquei cujo par ele sabia que havia perdido, alguns tocos de lápis e uma caixa de lápis de cor, e um homenzinho de madeira cujos braços se esticavam para cima para baixo puxando-se um fio. De seguida ouviu o cachorrinho a latir por sobre a sua cabeça, mas não era o seu ladrar habitual – era contínuo, agudo e alto. Ele correu escadas acima e viu a sua mãe a descer do segundo piso para a sala de estar, o fino vestido voava para trás das costas, tinha uma expressão de medo na sua cara. Ele podia ouvir o arranhar das unhas do cão no linóleo, e correu para a cozinha. O cachorrinho corria em círculos emitindo uma espécie de gritinhos e pôde ver num relance que a barriga do cão estava inchada. O bolo estava no chão, e maioria dele tinha desaparecido. “O meu bolo!” gritou a mãe, e pegou no prato com os restos, levantou-o e manteve-o assim, para o pôr a salvo do cão, apesar de praticamente nada haver sobrado. O rapaz tentou apanhar o Rover, mas ele esgueirou-se para a sala de estar. A mãe, por trás dele, gritava “O tapete!” O Rover continuou a correr, agora em círculos cada vês mais largos porque tinha mais espaço, ao mesmo tempo que se formava espuma no seu focinho. “Chama a Polícia!” gritou a mãe. De repente, caiu e não saiu do sítio, a arfar e soltar pequenos guinchos por cada fôlego. Como eles nunca tinham tido um cão e nada sabiam de veterinários, ele procurou na lista telefónica e encontrou a A.S.P.C.A.* e telefonou-lhes. Agora tinha medo em tocar no Rover, porque o cão deu-lhe uma pequena mordidela quando ele aproximou a mão e ainda por cima tinha espuma a sair da boca. Quando a carrinha chegou à frente de sua casa, o rapaz foi lá fora e viu um tipo novo a retirar uma gaiola pequena da mala. Ele disse-lhe que o cão tinha, praticamente, comido o bolo inteiro, mas o homem não mostrou interesse algum e entrou em casa e deteve-se, por um momento, a olhar para o Rover, que agora emitia uns pequenos latidos mas que se mantinha deitado no mesmo lugar. O homem atirou-lhe uma rede e quando o meteu dentro da gaiola, o cachorrinho tentou levantar-se e correr. “O que é que acha que ele tem?” perguntou a mãe do rapaz. A boca dela ganhou uma expressão de horror, que o próprio rapaz sentiu nele mesmo. “O problema dele é que comeu um bolo,” disse o homem. Depois levou a gaiola para fora e, através da porta traseira da carrinha, atirou-a para o fundo escuro. “O que é que vai fazer com ele?” perguntou o rapaz. “Tu quere-lo?” redarguiu o homem. A mãe dele, que estava no pequeno terraço à entrada de casa, escutou-os. “Nós não o podemos ter aqui,” advertiu ela, com receio e convicção na sua voz e aproximou-se do jovem. “Nós não sabemos tratar de um cão. Talvez alguém que o saiba queira ficar com ele”. O jovem assentiu sem interesse particular, sentou-se ao volante e partiu.
(continua)


*American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, com os mesmos fins e missão da nossa Sociedade Protectora dos Animais. (N. do T.)
(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. IV: 4575 caracteres)


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A Papiro editora integra um sólido grupo editorial, “Fólio - Comunicação Global” criada em 1985, com capacidades que se distribuem pelas várias etapas do livro: edição, criação, produção gráfica e distribuição.
Valorizamos essencialmente obras de autores desconhecidos e que têm pouca visibilidade no mercado livreiro, mas que pelo seu talento merecem que o seu trabalho seja tornado público.
Por isso a importância de parcerias com várias entidades, como a vossa, na busca de novos autores e na divulgação de novas iniciativas.
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

3,... [com novidades literárias]

III

Ele jamais havia pegado num cão e tinha medo de que ele escorregasse, assim embalou-o nos seus braços. Ele sentia-o quente na sua pele e muito mole, e de uma forma arrepiante, um pouco nojento. Tinha olhos cinzentos como pequenos botões. Chateava-o que a Enciclopédia não tivesse imagem alguma desta raça de cão. Um bulldog a sério seria uma raça violenta e perigosa, mas estes eram apenas cães castanhos. Ele sentou-se no braço da cadeira verde estofada com o cachorrinho no seu colo, sem saber o que fazer a seguir. Entretanto, a mulher chegara-se a ele e parecera-lhe que ela lhe fizera uma festa no cabelo, ele não tinha bem a certeza, porque o seu próprio cabelo era bastante espesso. Quanto mais o tempo passava mais certezas ia ganhado sobre o que fazer. A seguir, ela perguntou-lhe se ele queria beber água, que ele aceitou, ela dirigiu-se à torneira e abriu-a, dando-lhe a oportunidade de voltar a pôr o cão na caixa. Ela regressou com o copo de água e à medida que ele o agarrava ela deixou que o fino vestido se abrisse, exibindo os seus seios, como se fossem dois balões meio cheios, dizendo que não acreditava que ele apenas pudesse ter treze anos. Ele bebeu a água de um só trago e tentou devolver-lhe o copo, e de repente ela amarra-lhe a cabeça e beija-o. Em todo este tempo, por alguma razão, ele nunca foi capaz de lhe olhar para a cara, e quando o tentou fazer naquele momento só conseguia vislumbrar uma massa disforme e cabelo. Ela atirou-se a ele e de repente ele sente um arrepio na barriga das pernas. O arrepio intensificou-se, até quase lhe parecer que havia tocado no aro metálico de um casquilho ligado à corrente enquanto se substitui uma lâmpada fundida. Ele nunca seria capaz de se lembrar que se deitou no tapete – sentiu que uma torrente de água se esmagava no topo da sua cabeça. Recordou-se de ter entrado no seu calor e que a sua cabeça não parava de bater na perna do seu sofá. Ele estava perto de Church Avenue, onde teria de mudar para a linha de superfície do Culver, antes de se dar conta que ela não tinha ficado com os seus três dólares, ou de sequer ter chegado a um acordo para esse efeito, mas ele tinha no seu colo uma pequena caixa de cartão com um cachorrinho no seu interior ganindo em surdina. O arranhar das unhas no cartão arrepiavam-no. A mulher, agora lembrava-se, fez dois buracos no topo da caixa e o cachorrinho não parava de enfiar neles o seu nariz.

A mãe dele deu um salto quando ele desatou a corda e o cachorrinho se levantou e se espalhou no chão, dando latidos. “O que é que ele está a fazer?” gritou, com as mãos no ar como se estivesse prestes a ser atacada. Nesta altura, ele já havia perdido o medo do cão e segurou-o nos braços, deixando que lhe lambesse a cara, vendo isto a mãe acalmou-se um pouco. “Terá fome?” perguntou ela, e permaneceu com a boca ligeiramente aberta, pronta para alguma coisa, enquanto ele punha de novo o cão no chão. Ele disse que sim, que talvez ele tivesse fome, mas pensou que ele apenas pudesse comer coisas moles, apesar de os seus pequenos dentes já serem tão aguçados como alfinetes. Ela tirou uma pasta cremosa de queijo para barrar e colocou um pequeno pedaço no chão, mas o cão farejou-o e fez chichi. “Deus do Céu!” gritou ela, e rapidamente pegou num bocado de jornal para absorver a mancha de urina. Quando ela se agachou daquela forma, ele lembrou-se, ao mesmo tempo que abanava a cabeça, do calor da mulher e ficou envergonhado. De repente o nome dela veio-lhe à memória – Lucille – ela havia-o mencionado quando ambos já se encontravam no chão. No preciso momento em que a penetrava, ela abriu os olhos e disse, “Chamo-me Lucille.” A mãe dele trouxe numa taça esparguete que havia sobrado do jantar de ontem e colocou-a no chão. O cachorrinho levantou a sua patinha e entornou a taça, espalhando um pouco de sopa de galinha que havia no fundo. Lambeu-a avidamente do linóleo. “Ele gosta de caldo de galinha!” gritou alegremente a mãe, e num instante decidiu que ele haveria de gostar de ovo e então pôs água a ferver. De algum modo o cão soube que era a ela quem deveria seguir e caminhou atrás dela, para a frente e para trás, do forno ao frigorífico. “Ele segue-me!” disse a mãe, rindo de contentamento.

No dia seguinte, enquanto regressava a casa vindo da escola, parou numa drogaria e comprou uma coleira para cachorros por setenta e cinco cêntimos, e Mr. Schweckert ofereceu-lhe um pedaço de corda de estendal para servir de trela. Todas as noites quando adormecia, vinha-lhe à mente Lucille, como algo saído de um caixa de tesouros secreta e interrogava-se se poderia atrever a telefonar-lhe e talvez encontrar-se de novo com ela. O cachorrinho, a que ele chamara Rover, de dia para dia parecia crescer a olhos vistos, embora continuasse a não ostentar qualquer sinal de que se tratasse de facto de um bulldog. O pai do rapaz era da opinião que o Rover deveria permanecer na cave, contudo, lá em baixo o local era muito solitário e ele não pararia de ganir. “Ele sente a falta da mãe dele,” disse-lhe a mãe; assim todas as noites o rapaz começava por o colocar na cave dentro de um antigo cesto de roupa com uns trapos, e quando latisse o suficiente o rapaz estava autorizado a trazê-lo para cima e a deixá-lo dormir na cozinha aconchegado nesses mesmos trapos, todos ficavam agradecidos pelo sossego. A mãe dele tentou passeá-lo pela rua calma onde viviam, mas o cão teimava em emaranhar a corda nos tornozelos da mãe, e pelo medo que esta tinha de o magoar, ficava exausta só de o seguir em todos aqueles ziguezagues. Não acontecia sempre, mas muitas vezes quando o rapaz olhava para Rover pensava em Lucille e quase que começava a sentir aquele calor de novo. Ele sentava-se nos degraus do alpendre afagando o cão a pensar nela, no interior das suas coxas. Contudo, ele continuava a não conseguir divisar a sua cara, apenas os seus longos cabelos pretos e o pescoço robusto.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. III: 4824 caracteres)

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Novidades (literatura):
  • A revista Ler já mexe. O Francisco deu início ao blogue de suporte à revista, supostamente de periodicidade mensal.
  • 7 de Abril – saem para o mercado, com mais de dois anos de atraso (responsabilidade da editora) e numa data muito próxima à comemoração dos 66 anos da morte do autor na Suíça em 15 de Abril de 1942, os dois primeiros volumes de O Homem Sem Qualidades do notável autor austríaco Robert Musil (1880-1942) editados pela Dom Quixote, com a tradução de um dos mais ilustres germanófilos portugueses, o tradutor, ensaísta e crítico literário João Barrento. [apenas uma chamada de atenção para o último Câmara Clara (16 de Março) de Paula Moura Pinheiro, que juntou na mesma mesa Barrento e Pedro Tamen. Foi um programa riquíssimo para quem anda sedento de ouvir falar de literatura a sério na televisão.]

quarta-feira, 2 de abril de 2008

4,... [com publicidade extraterrestre/marciana]

II


A vizinhança de Schermerhorn Street era uma surpresa, totalmente diferente da sua em Midwood. As casas aqui eram feitas de tijolo vermelho, e não eram em nada semelhantes às do seu bairro, cobertas de ripas, construídas apenas alguns anos antes ou quando muito, as mais antigas, nos anos vinte. Mesmo os passeios pareciam velhos, revestidos de grandes quadrados de pedra em vez de cimento, com bocados de areia que brotavam das rachadelas. Ele podia afiançar que aqui não viviam judeus, talvez porque fosse tudo tão tranquilo e sem vida, e não se encontrava vivalma sentada no exterior para aproveitar o sol. Muitas janelas estavam escancaradas, com pessoas sem qualquer tipo de expressão apoiadas nos cotovelos a olhar para rua, e os gatos espreguiçavam-se em alguns dos parapeitos, a maioria das mulheres estavam apenas em sutiã e os homens de roupa interior tentando apanhar a brisa. Pingos de suor escorriam-lhe pelas costas, não apenas devido ao calor, mas porque só agora se havia apercebido de que era o único que queria o cão, uma vez que os seus pais não tinham propriamente uma opinião e o seu irmão, que era mais velho, dissera-lhe, “O quê? Estás doido? Vais gastar os teus pobres dólares num cão? E sabes se ele presta? E como o vais alimentar?” Ele pensou em ossos e o seu irmão, que sabia sempre o que estava certo e errado, gritou, “Ossos! Eles ainda não têm dentes, sequer!” Bom, talvez sopa, resmoneou. “Sopa! Tu vais alimentar um cão a sopa?” De repente verificou que tinha chegado à tal morada. Especado, sentiu-se a esmorecer, e compreendeu que era tudo um erro, tal como um dos seus sonhos ou uma mentira que estupidamente tentou defender como se fosse verdadeira. O seu coração acelerou e sentiu-se corar, e andou metade de um quarteirão ou assim. Ele era o único indivíduo no exterior e as pessoas em algumas das janelas miravam-no naquela rua deserta. Mas porquê ir para casa se já tinha chegado tão longe? Parecia que havia viajado semanas ou um ano inteiro. E, agora, iria voltar para o metro de mãos a abanar? Talvez ele devesse dar uma olhadela ao cachorrinho, no caso de a mulher o deixar. Ele havia-o procurado na Enciclopédia que dispõe de duas páginas inteiras com fotografias de cães, e lá estavam um bulldog inglês com as patas da frente arqueadas e dentes que sobressaíam da sua mandíbula, e um pequeno Boston bull preto e branco, mas não havia uma fotografia de um Brindle bull. Quando foram confrontados com esta história, tudo o que ele conhecia sobre brindle bulls era que eles custariam três dólares. Mas ele tinha pelo menos que lhe dar uma vista de olhos, ao seu cachorrinho, então ele regressou ao quarteirão e tocou à campainha da rua, tal como ela lhe havia dito para fazer. O som da campainha era tão alto que o sobressaltou, mas ele sentiu que se fugisse e ela o visse assim que abrisse a porta, seria ainda mais embaraçante, deste modo ficou parado no sítio sentindo o suor a escorrer-lhe pelo lábio.

Uma porta interior por debaixo do pequeno terraço abriu-se e uma mulher saiu e mirou-o através das barras poeirentas do portão. Ela vestia uma espécie de um vestido, uma túnica muito fina, de seda rosa claro, que segurava com uma mão e tinha um longo cabelo preto que lhe caía sobre os ombros. Ele nem se atreveu a olhá-la directamente, logo não pôde descrever exactamente qual era a sua aparência, mas conseguia sentir-lhe a tensão enquanto permaneceu atrás do seu portão fechado. Ele intuiu que ela não podia imaginar por que motivo tocou à sua campainha e rapidamente perguntou-lhe se tinha sido ela que tinha colocado o anúncio no jornal. Oh! A postura dela mudou logo, desaferrolhou o portão e abriu-o para si. Ela era mais baixa que ele e tinha um cheiro peculiar, como uma mistura de leite e ar bafiento. Seguiu-a até ao apartamento, que estava tão escuro que ele mal conseguia enxergar alguma coisa, porém podia ouvir o enorme latido dos cachorrinhos. Ela teve de gritar para lhe perguntar onde ele morava e que idade tinha, e quando ele lhe disse que tinha treze ela bateu com a mão na boca e disse que ele era muito alto para a sua idade, mas ele não conseguiu entender por que motivo isso lhe poderia ser um estorvo, excepto o de ela poder haver pensado que ele tivesse uns quinze anos, facto que ocorreu algumas vezes com outras pessoas. Mas mesmo assim. Ele seguiu-a até à cozinha, nas traseiras do apartamento, onde, finalmente, pôde ver a paisagem à sua volta, já que se encontrava longe da luz solar há alguns minutos. Numa grande caixa de cartão, cortada irregularmente de modo a ficar menos profunda, ele viu três cachorrinhos e a sua mãe, que se sentaram mexendo vagarosamente a cauda. Não se lhe afigurou de que ela se parecesse com um bulldog, mas não se atreveu a dizê-lo. Ela era apenas uma cadela castanha com manchas pretas e algumas listas aqui e acolá, os cachorros eram iguais. Ele gostou da forma como as suas orelhinhas caíam, mas disse à mulher que apenas queria ter visto os cães sem que houvesse ainda tomado uma decisão. Ele não sabia o que fazer a seguir, logo, para não parecer como se não tivesse gostado dos cães, ele perguntou-lhe se poderia pegar num. Ela disse que não havia problema, agachou-se e retirou dois e pousou-os no linóleo azul. Eles não se assemelhavam com qualquer bulldog que ele houvesse visto anteriormente, mas tinha vergonha de lhe dizer que, na realidade, não queria ficar com nenhum. Ela pegou num e disse, “Aqui”, e colocou-o no colo do rapaz.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. II: 4499 caracteres)

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PUB: o Capítulo II teve o patrocínio de Virgle (Eu bem que desconfiava que a Quadratura do Círculo e os seus ditos vagueavam, há muito, acima da estratosfera, mas nunca imaginei que o despautério viajasse assim tanto para além dela. Pobre Arthur C. Clarke que se finou na semana passada).
Já tínhamos o primeiro lunático, agora a cidade de Palermo orgulha-se de apresentar mais um dos seus insignes filhos como o primeiro marciano.


Em suma, vou sentir muitas saudades de tudo isto... a liberdade!

terça-feira, 1 de abril de 2008

5,...

I


Ele leu este anúncio minúsculo no jornal: “Cachorrinhos de Brindle Bull, $3.00 cada.” Ele tinha qualquer coisa como dez dólares, ganhos pelo seu trabalho de pintor de casas, que ainda não havia depositado, porém eles nunca tinham tido um cão em casa. Quando a ideia estoirou na sua cabeça, o seu pai dormia a sua longa sesta, e perguntou à mãe, que se encontrava a meio de um jogo de bridge, se podia ser, que lhe respondeu com um ausente encolher de ombros enquanto atirava uma carta para a mesa de jogo. Ele deambulava pela casa, tentando decidir-se, até que uma sensação se espalhou por ele de uma forma tão súbita, que achou melhor pôr-se a andar, antes que alguém se antecipasse e comprasse o cachorrinho. Na sua cabeça já havia um cachorro em particular que lhe pertencia – era o seu cachorrinho e o cachorrinho já o sabia. Ele não fazia a mínima ideia qual o aspecto dos Brindle Bull, mas o nome soava-lhe a bravo e a admirável. E tinha os três dólares, embora o incomodasse gastá-los no preciso momento em que eles enfrentavam tantos problemas com dinheiro, o seu pai tinha ido de novo à falência. O anúncio minúsculo não mencionava quantos cachorrinhos havia. Talvez houvesse apenas dois ou três, que, por esta altura, já poderiam ter sido vendidos.

A morada indicava a Schermerhorn Street, de que ele nunca tinha ouvido falar. Então, ele telefonou e uma mulher com uma voz roufenha explicou-lhe como lá se chegava e que linha teria de apanhar. Ele vinha da zona de Midwood, da linha elevada do Culver, assim teria de mudar em Church Avenue. Anotou tudo e leu-lhe o que tinha escrito. Graças a Deus, ela ainda tinha os cães. Levou mais de uma hora, mas o comboio ia quase vazio, era domingo, e com uma brisa gelada que vinha das janelas de madeira abertas fazia mais frio que lá fora na rua. Lá em baixo por terrenos baldios pôde ver velhas mulheres italianas curvadas, com as suas cabeças cobertas por lenços vermelhos, enquanto iam enchendo os seus aventais com dentes-de-leão. Os seus colegas de escola italianos disseram-lhe que eram para o vinho e para as saladas. Ele recordou-se de uma vez ter tentado comer um quando jogava à bola no baldio perto de sua casa, mas eram amargos e salgados como lágrimas. O velho comboio de madeira, praticamente vazio, abanava e rangia suavemente através da tarde quente. Passou por cima de um bairro onde viu homens de pé nos acessos às garagens regando os carros, como se de elefantes acalorados se tratassem.

(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. I: 2029 caracteres)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Chablis

Donald BarthelmeComo o prometido é devido, publico aqui, com tradução a meu cargo, a partir do original em inglês, um dos muitos e portentosos contos publicados pelo malogrado autor norte-americano Donald Barthelme (Filadélfia, PA, 7 de Abril de 1931 – Houston, TX, 23 de Julho 1989).
Bartheleme é considerado, por muitos, como o pai do pós-modernismo literário (sinceramente, não sei a que é que isso se refere; se é bom ou mau? será uma enfermidade? uma rotularite?) e que, apesar de todas as notáveis referências na literatura universal, certificadas, por exemplo, pelo número de línguas em que as suas obras se encontram traduzidas, permanece inédito no excelso meio editorial português.
No próximo ano cumpre-se o 20.º aniversário da sua morte.
Bartheleme morreu aos 58 anos vítima de um filho da puta de um cancro.

Chablis

A minha mulher quer um cão. Ela já tem uma criança. A criança tem quase dois anos. A minha mulher diz que a criança quer um cão.
A minha mulher está há muito tempo à espera de um cão. Tive de ser eu a dizer-lhe que ela não o poderia ter. Mas agora a criança quer um cão, diz a minha mulher. Isto até pode ser verdade. A criança é muito chegada à minha mulher. Andam juntas o tempo todo, agarram-se, apertam-se com força. Eu pergunto à criança, que é uma rapariga, “És a menina de quem? És a menina do papá?” A Criança diz, “mamã”, e não se fica por aí, di-lo repetidamente, “mamã, mamã, mamã.” Eu não vejo por que razão hei-de comprar um cão de cem dólares para o raio daquela criança.
A raça de cão que a criança quer, diz a minha mulher, é um Cairn Terrier. Esta raça de cão, diz a minha mulher, é Presbiteriana tal como ela e a criança. No ano passado a criança era Baptista – ou seja, ela frequentou o programa inteiro para mães da Igreja Baptista, duas vezes por semana. Este ano é Presbiteriana porque os Presbiterianos têm mais baloiços e escorregões, e outras coisas assim. Eu acho isso uma enorme falta de vergonha e disse-lho. A minha mulher foi uma Presbiteriana legítima durante toda a vida e diz que isso a autoriza a agir assim; quando era uma criança ela costumava frequentar a Igreja Presbiteriana em Evannsville, Illinois. Eu não ia à igreja porque eu era uma ovelha negra. Havia cinco filhos na minha família e, entre nós homens, íamos fazendo girar o estatuto de ovelha negra, o mais velho seria a ovelha negra durante uns tempos, enquanto passava pelo seu período de embriaguez ou o que quer que fosse, e só depois, à medida que ia envelhecendo, e tendo talvez arranjando um emprego ou estando até cumprir serviço militar, tornava-se finalmente numa ovelha branca quando cassasse e tivesse um neto. A minha irmã nunca foi uma ovelha negra porque era uma rapariga.
A nossa criança é uma criança encantadora. Durante anos disse à minha mulher que ela jamais poderia ter uma criança porque isso seria muito caro. Mas elas derrotam-nos sempre por exaustão. Elas são bastante boas a derrotar-nos por exaustão, mesmo que isso possa demorar anos, como foi o caso. Agora ando com a criança ao colo e abraço-a sempre que posso. O nome dela é Joanna. Ela veste um macacão da Oshkosh e diz “não”, “biberão”, “fora” e “mamã”. Ela é a coisa mais adorável quando está molhada, quando acaba de tomar banho e o seu cabelo louro está encharcado, embrulhada numa toalha bege. Por vezes quando está a ver televisão ela esquece-se por completo que também estamos lá. Podemos ficar só a olhar para ela. Quando ela está a ver televisão parece muda. Gosto mais dela quando está molhada.
Esta coisa do cão está a transformar-se na grande questão. Eu disse à minha mulher, “Bom, já tiveste a criança, precisaremos também agora do diabo de um cão?”. O cão irá provavelmente morder alguém ou até perder-se. Já me estou a ver a percorrer o nosso bairro inteiro a perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho?” “Como se chama o cão?”, irão todos perguntar, e eu fitá-los-ei com toda frieza e direi, “Michael” É assim que ela o quer chamar, Michael. É um nome estúpido para um cão e lá terei de procurar por esse cão, possivelmente raivoso, e perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho? Michael?” É o suficiente para nos pormos a pensar em divórcio.
O que é que a criança poderá fazer com o cão que não o possa fazer comigo? Brincar livre e desenfreadamente? Eu consigo fazê-lo. Levei-a ao parque infantil da escola. Era domingo, o local estava deserto, e brincámos de uma forma livre e desenfreada. Eu corri, e ela cambaleou atrás de mim a um bom ritmo. Eu amparava-a sempre que deslizava no escorregão. Ela percorreu todo o caminho interior de um tubo de cimento que existia no parque. Ela apanhou uma pena e ficou horas a contemplá-la. Eu estava preocupado que aquela fosse uma pena contaminada mas ela não a meteu à boca. Depois corremos ainda mais pelo campo pelado e abrasivo de softball e através das arcadas que ligam as salas de aula de madeira temporárias, que estão a perder a sua pintura amarela, ao edifício principal. Num destes dias, a Joanna irá frequentar esta escola, e isto se eu permanecer no mesmo emprego.
Fui ver alguns cães no Pets-A-Plenty, que tem pássaros, roedores, répteis e cães, todos em óptima condição. Eles mostraram-me os Cairn Terriers. “Eles têm os seus livros de orações?”, perguntei. A funcionária não entendia o que é que eu estava para ali a dizer. Os Cairn Terriers poderiam rondar os 295 cada, com papéis. Eu comecei por perguntar se por acaso eles não teriam algum filho ilegítimo a preços mais baixos, mas pude ver que isso seria inútil, e cheguei mesmo à conclusão de que a mulher já não ia com a minha cara.
Mas, o que é que há de errado comigo? Porque é que eu não sou uma pessoa mais natural, tal como a minha mulher pretende que o seja? Eu permaneço acordado, desde manhã cedo, postado à minha secretária que está no segundo piso da casa. A secretária está de frente para a rua. Às cinco e meia da manhã, os corredores já estão lá fora, individualmente ou em pares, a correr por uma saúde de ferro1. Eu estou a beberricar um copo de Chablis2 Gallo com uma pedra de gelo, a fumar, a preocupar-me3. Preocupo-me com a possibilidade de a criança cravar uma faca de cozinha numa tomada eléctrica enquanto estiver molhada. Apliquei aquelas pequenas fichas de protecção de plástico em todas as tomadas, mas ela aprendeu a retirá-las. Já verifiquei os lápis de cera. Mas eles fizeram-nos de forma a tornar a sua ingestão inofensiva – eu telefonei para sede na Pennsylvania. Ela pode comer uma caixa inteira de lápis de cera que nada lhe acontece. Se eu não comprar os novos pneus para o meu carro, posso comprar o cão.
Lembro-me do tempo, há cerca de trinta anos, quando, na estrada de Beaumont, atirei com o Buick da mãe do Herman para um campo de milho. Havia outro carro que seguia na minha faixa, não bati nele e ele também não me bateu. Lembro-me de guinar o carro para a direita, seguindo para baixo para a valeta, atravessando a vedação, detendo-me apenas no campo de milho e saí do carro para acordar o Herman para ambos verificarmos como tinham ficado os felizes bêbados do outro carro, na valeta do outro lado da estrada. Isso aconteceu quando eu era uma ovelha negra, anos e anos atrás. Aquilo foi realizado com toda a destreza, penso eu. Levanto-me, felicito-me pela memória e vou lá dentro para dar uma espreitadela à criança.


Donald Barthelme, Forty Stories, “Chablis”. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1st edition, 1987, 256 pp. [tradução: AMC, Março/2008]
(Este conto foi originalmente publicado na revista The New Yorker, de 12 de Dezembro de 1983, p. 49 [Vol. 59 Issue 43])

Notas de tradução:
  1. No texto original surge a expressão “rude red health”, que designa aqueles que demonstram e dispõem de uma invejável condição física.
  2. Chablis é um conhecido vinho francês produzido na região da Borgonha, vinificado exclusivamente em vinho branco e apenas com uvas da casta chardonnay. É um típico vinho branco seco, suave.
  3. Curioso jogo de palavras nestas duas frases, para os desportistas matinais usam-se, em contexto semântico diverso, as espressões “rude” e “red” (que também pode designar “tinto” para os vinhos), por oposição às subentendidas características organolépticas do próprio vinho, o Chablis (isto é só para enófilos, claro.)