Mostrar mensagens com a etiqueta Hisham Matar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hisham Matar. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Booker Prize 2006 - Em Portugal

Estará brevemente disponível em língua portuguesa o romance The Inheritance of Loss da escritora de origem indiana Kiran Desai, vencedor do Man Booker Prize for Fiction de 2006, sucedendo-se, na galeria dos notáveis, à pequena obra-prima O Mar do meu muito apreciado autor irlandês John Banville.
A Herança do Vazio – título que recebeu em Portugal – foi editado pela
Porto Editora que, finalmente, se lançou no mercado editorial da ficção.

De notar que, com a publicação deste romance, três dos seis finalistas do prestigiado prémio já se encontram editados na nossa língua – galardão atribuído a obras de ficção originalmente editadas em língua inglesa no Reino Unido, Commonwealth e Irlanda –, juntando-se, assim, ao excepcional romance de Sarah Waters, O Vigilante, editado pela Bizâncio, o qual considerei estar entre os dez melhores livros de ficcção estrangeira editados em Portugal em 2006 e por mim lidos até 31 de Dezembro do ano passado (
ver aqui), e ao recentemente estreado Em terra de Homens, de Hisham Matar, publicado pela Civilização Editora, que já aqui dei conta.

Para ler um excerto do 1.º capítulo da obra,
carregar aqui.

Até à sua compra, seguida de leitura, parafraseando o bombo de festa dos blogues que, de certa forma, se dedicam à coisa literária, bons livros!


Nota: Para obter mais informações sobre esta obra, aceder a esta página da Porto Editora.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Submissão (parte III)

Pelos seus partidários:
«A dor gosta do abismo e só quer ouvir ecos de si própria».
Hisham Matar, Em Terra de Homens (Civilização Editora), pág. 210

Eu contraponho, glosando, em parte, o louro filósofo do bairro do Falcão:
A cegueira do medíocre persegue-nos até à orla do abismo, dar o passo em frente nada tem de corajoso, é apenas um acto de amor-próprio.

Submissão (parte II)

«As forças revolucionárias [era a voz do Guia] são capazes e têm o direito de usar o terror para eliminar todo aquele que se oponha à revolução. Agora já podemos verdadeiramente acabar com a velha sociedade líbia e construir uma nova, na qual os elementos revolucionários se ajudam uns aos outros na luta contra todos os movimentos anti-revolucionários das universidades, das fábricas e das ruas.» (pp. 237-238)

Estas palavras são atribuídas ao infame Coronel Muamar Khadafi, o Guia, presidente da Líbia desde o golpe de estado, levado a cabo pelos militares, de 1 de Setembro de 1969 que depôs o regime monárquico líbio liderado pelo rei Idris I e formou a República Árabe da Líbia.

Hisham Matar, nascido em 1970 na cidade de Nova Iorque, é filho de pais líbios. Aos três anos sai dos Estados Unidos para viver a sua primeira infância na Líbia, de súbito interrompida quando, em 1979, por acusações de dissidência política, a família é deportada para o Cairo, cidade que o acolherá até 1986, ano em que se estabeleceu definitivamente em Londres, para onde viajou sozinho e se licenciou em arquitectura. Em 2006 publica o seu primeiro romance In the Country of Men que, desde logo, integrou em 2006 o restrito grupo de finalistas do mais prestigiado prémio literário da língua inglesa fora dos Estados Unidos, o
Booker Prize, vencido pela escritora de origem indiana Kiran Desai – filha da escritora Anita Desai – com o romance, ainda não editado no nosso país, The Inheritance of Loss.

Em Terra de Homens, Matar descreve a triste realidade de uma família líbia pertencente à classe média-alta que, no Verão de 1979, se vê envolvida na opressiva e discricionária trama da justiça do seu país, comandada pelo despótico Coronel Khadafi e pelos Comités Revolucionários, os doutrinadores e algozes do regime.
A história é narrada pelos olhos de Suleiman, um rapaz de 9 anos – idade que o próprio autor atingira nesse ano – que vivencia, na plenitude da sua inocência – a qual muita vezes o leva a pactuar com os malfeitores do regime –, todo o tipo de atrocidades e de selvajaria em nome de uma revolução que a maioria não entende.
Hisham Matar descreve, usando uma linguagem aparentemente simples, a complexa relação entre uma Líbia conservadora e arcaica e a resignada aceitação do regime ditatorial instaurado por Khadafi, fortemente incentivador da delação, da traição e da desconfiança entre os elementos pertencentes a uma sociedade que, de acordo com a sua tradição ancestral, renega o papel e o contributo da mulher e vive profundamente absorvida e circunscrita pela teosofia islâmica e pelos seus dogmas, ritos e preceitos.

Em Terra de Homens é um relato apaixonante, comovente e, por vezes, arrasador dos efeitos da barbárie e da iniquidade do ser humano – a tal relação perene "vergastador e vergastado" – na vida de uma simples criança submetida, desde nova, aos dilemas existenciais e às duras opções, mutuamente exclusivas, sobre o exercício do poder de amar.

Depois da leitura completa deste relato romanceado, porém com alguma base factual e eminentemente ocular, apenas fica um desabafo: Quão espúrio e aviltante é este mundo – estende-se aos políticos, aos estrategas da política e aos abutres que dela vivem – que agora acolhe, reverencia e visita com regularidade este facínora e as suas ideias! Em nome de quê e de quem?

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Hisham Matar, Em Terra de Homens. Porto: Civilização, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 270 pp. (tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz; obra original: In the Country of Men, 2006).

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Submissão

Ser vergastador e passar a vergastado e o seu contrário, eis o triste ciclo da condição humana.
Mas se o vergastado nunca vergastou e, na sua fé angelical, aprumou sempre o seu corpinho para que a vergasta lhe faça amolgadura (mesmo quando existe a firme certeza de que nada pensou, fez, disse ou elidiu para merecer a embaraçosa punição), então meu caro e bonómico vergastado essa tua condição religiosa, atávica, de ocidental resignado fez de ti um pária de ti mesmo. Não mereces o ar que respiras.

Submeter-se – do Lat. submittere, v. refl.; aceitar o domínio de algo ou alguém; obedecer; entregar-se, subordinar-se, render-se.


Poderá não ter nada que ver (depois se justificará):
«A sala fora arranjada com a cor da revolução – as paredes verde-pálido, os assentos estofados com um tecido verde-escuro, ainda cobertos com plástico de tal modo que, quando nos mexíamos, faziam o som de um peido, o que nos obrigava a mexermo-nos outra vez para provar que não nos tínhamos peidado.»
Hisham Matar, Em Terra de Homens. Porto: Civilização, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, pág. 176 (tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz; obra original: In the Country of Men, 2006).


PQP! Jamais!

(Na imagem: São Sebastião, Andrea Mantegna, circa 1480; tela; Museu do Louvre, Paris)