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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Brooklyn, by Tóibín

À atenção da Dom Quixote / LeYa (editora portuguesa que publicou os últimos romances do autor irlandês, galardoado com IMPAC Award pelo seu último romance O Mestre (The Master, 2004), editado em Portugal no ano de 2007).


Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Títulos, badanas e contracapas

Há muito que o mercado editorial português vive momentos agitados, potenciados não só pelo aumento exponencial do número de livros publicados por dia, muitas vezes desfasados da realidade leitora nacional, mas também pela revolução motivada pelas fusões, aquisições e associações de editoras. Nós, do lado de cá, vamos assistindo compassivamente.
Pressente-se no ar, pelo agitar de águas que vai muito além da pedrada no charco, um cheiro pestilento que anuncia a insalubridade. E se o meio editorial nacional até aqui pudesse ser comparado a um atoleiro bafiento que resistia paredes meias ou às portas das piramidais construções de um progresso voraginoso, o tratamento que lhe foi imposto ultrapassou e muito a reciclagem dos resíduos provenientes dessa estagnação.
Dinamitaram o charco, e a sujidade que se acumulou durante anos de inacção espalhou-se por todos os lados, alimentando uma guerra infecta que ninguém pretende, muito menos os consumidores-leitores que há anos esperam por qualidade nesse passatempo tão ancestral como o de matar a sede de conhecimento nos livros.
Todavia, a insalubridade permanece. Neste momento preparamo-nos para recolher os primeiros despojos de uma guerra que teve por pano de fundo a organização das feiras dos livros. Assim, tentando resumir, temos, de um lado, um modelo gasto, espremido, rígido, anquilosado e seriamente ferido de morte, que se traduz na concepção da feira como um imenso espaço dedicado aos saldos de livros – como se fosse necessário esperar por Maio para comprar livros com descontos iguais ou superiores a 20% do p.v.p. –, que se afastou progressivamente da montra das novidades literárias e da ligação estreita entre o leitor e o produtor da obra – aquele que da literatura fez ocupação e passou meses, anos a fio encerrado com o seu interior na criação de uma obra para apreciação de um determinado público, de forma a garantir-lhe o sustento, não só o material, mas acima de tudo o espiritual, do reconhecimento, da aceitação e, porque não, do engrandecimento do seu ego – algum lirismo imaterialista nunca fez mal a ninguém. Do outro lado, apresentou-se o poderio económico, que munido de toda a sua arrogância pretende abanar (aniquilar?) o mercado sem ouvir o próprio mercado. Operações de reestruturação empresarial em cujos critérios não se vislumbra a atenção ao requisito mais importante: a cultura. A avidez pelo mercado, por quotas, pela formação de grupos ufanos pelo seu poderio no meio, parece ter sido o único critério. Não há uma cultura de base que se entenda, nem que se consiga, por maior que seja o esforço de abstracção, subentender; nem tão-pouco se respeitou a cultura das próprias organizações que da noite para o dia, sem ouvir escritores e editores, foram anexadas pelo poderio dos cifrões – anschluss ou blizkrieg?

E depois, admirem-se que no meio de tudo isto apareça um título como o que vem reflectido na imagem ao lado, relativo a um conjunto de ensaios do autor britânico George Orwell (1903-1950). Esta antologia foi publicada pela Antígona e traduzida por Desidério Murcho: Why I Write (1946) foi traduzido para “Por Que Escrevo”. Haja paciência… é o título da obra, que, como é obvio, aparece na capa, agravado pelo destaque de letras negras garrafais em fundo amarelo vivo que não deixam a dúvida da existência de um espaço entre a preposição “Por” e o pronome interrogativo adjunto “Que”, que apesar de adjunto surge sem substantivo (motivo, razão, carga de água, raio, etc.). Quiçá a editora, o revisor e/ou o tradutor pretendeu ser mais papista que o Papa e alargou o acordo ortográfico a um acordo gramatical; em português do Brasil o título estaria gramaticalmente bem formulado.

Depois, temos a LeYa, através da Dom Quixote – ou será o contrário? – acabou de publicar o horroroso projecto de romance de Truman Capote (1924-1984), publicado postumamente, Súplicas Atendidas (Answered Prayers, 1987).
Deixando de lado as questões conexas com a qualidade literária (quase nula ou mesmo abaixo de zero, digo) e as vicissitudes ligadas à sua publicação original, do conjunto das três histórias interligadas de Capote, o livro termina em beleza com o indescritível capítulo, pelo péssimo gosto da prosa nele vertida, de “La Côte Basque”, que revela um Capote mesquinho, ignóbil e decadente, entregue ao álcool e às drogas que, aliás, marcariam o ritmo dos seus últimos anos, o fim da aventura do rapaz irreverente de Nova Orleães que um dia quis ser famoso.
«La Côte Basque fica no lado Leste da rua 55, mesmo em frente ao St. Regis.» (pág. 160). É portanto um bar/restaurante em Nova Iorque, que ficaremos a saber ser de propriedade de um tal Sr. Soulé, local onde se reúne a nata da alta sociedade nova-iorquina numa grotesca parada de estrelas atulhada de fofoquices sobre as vidas sórdidas dos outros.
[O capítulo até começa bem com uma piada de saloon, que dá o verdadeiro cunho ao género do que a seguir, em cerca de quarenta páginas, se descreve:
«Ouvido num bar de cowboys em Roswell, no Novo México… Primeiro cowboy
: Hei, jed. Como estás? Como vai essa vida?
Segundo
cowboy: Bem! Mesmo bem. Sinto-me tão bem que, esta manhã, não tive de bater uma punheta para pôr o coração a funcionar.» (pág. 159)]

Bem, adiante…

Pois, na contracapa da recentíssima edição portuguesa da Dom Quixote podemos ler [destaque meu]:
«Ao acompanhar a carreira de um escritor de origens incertas e gostos eróticos insaciáveis, SUPLICAS ATENDIDAS conduz o leitor de um decadente bar em Tânger a um banquete na costa basca, dos salões literários aos mais caros bordéis […]»
Pelo título, deve tratar-se da costa basca francesa. Mas terá sido em Biarritz? Ou noutro lugar qualquer.
A maior editora portuguesa, agora pertença do império LeYa, dá-se a este tipo de negligência.

Conselho: seria melhor ler a obra antes de escrever os textos que irão constar das badanas e da contracapa. Como o livro (creio eu) não é para ser vendido a um conjunto de abrutalhados que o desfolham – ah, aqui a utilização do dito cujo verbo “desfolhar” teve a merecida utilização – e não o folheiam com olhos de ver, haveria de desperdiçar um pouco mais de tempo a rever a asneirada que se escreve, como numa corrida contra o tempo – eu sei, já dizia o outro, time is money, e é isso mesmo que permite a ocorrência deste tipo de abjecções literárias.
Enfim, à beira do abismo, vamos caminhando em frente...

Referências bibliográficas:

  • Truman Capote, Súplicas Atendidas. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Maio de 2008, 199 pp. (tradução de José Luís Luna; obra original: Answered Prayers, 1987);
  • George Orwell, Por que escrevo e outros ensaios. Lisboa: Antígona, 1.ª edição, Maio de 2008, 154 pp. (tradução de Desidério Murcho; obra original: s/ ref.ª, ensaios dispersos).

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Desgraça [actualização e correcção]

Tristeza. Desgraça. (Para quem tem filhos pequenos, ou já netos, ou acabou há pouco tempo de sair da mirabolante fase da pubescência, sabe a que me refiro).
O grupo Cofina (que se auto-elogiam por XL), sempre generoso com os seus leitores, especialmente na antecipação noticiosa às partes dos processos nas decisões disciplinares emanadas pelo Conselho de Disciplina da Liga de Clubes – o novo pavão, talvez XL, das lides jurídicas assim o vai permitindo com a sua voz de falsete – ou nos despachos de determinados magistrados do Ministério Público – aliás, apenas materializam as incasáveis palavras de Sócrates e dos seus pares, quando se referem à necessidade do estabelecimento de parcerias público-privadas –, desta feita renovou o oferecimento de livros (numa série de oito, por apenas mais 1 euro) todas a quintas-feiras, numa parceria (ao analisar os títulos, chega-se facilmente aos detentores dos direitos de publicação) com as editoras LeYa (7 obras) e Bertrand (1 obra) [ver nota 2 da adenda], curiosamente unidas por comunicados lacónicos onde confirmam a sua ausência da Feira do Livro do Porto. E que tal um boicote aos seus produtos...
No encarte que acompanhou o primeiro livro – que não comprei, e sim, este sim seria oferecido, apesar do pagamento de quase 3 euros por uma revista sem conteúdo aproveitável, e se juntarmos a esta eminência das revistas semanais a autora do livro ofertado, Laura Esquivel, a Ana, Mais Atrevida aproximou-se a passos largos, sem o querer, da qualidade da revista britânica The Economist ou similares –, que uma amável funcionária de uma tabacaria me deixou trazer, vem o alinhamento datado das obras a acompanhar a dita revista: Esquivel, Colleen McCullough, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Nadine Gordimer, Paul Auster, Joseph Coetzee e Mário [sic] Vargas Llosa.
Joseph Coetzee? Quem é? Será aparentado com o John Maxwell, o escritor sul-africano, Nobel da Literatura em 2003? Pai, irmão, filho? Avô, bisavô, neto ou bisneto? Mas John Maxwell nasceu em Fevereiro de 1940, tem 68 anos…

Pois claro, foi erro tipográfico. Onde se lê “Joseph” deveria figurar “J.M.”. Aliás, pela similitude, constata-se facilmente que se tratou de um pequeno lapso. Ignorância? Falta de zelo? Jamais (na acepção liniana). Já agora poderiam acrescentar a estas oito obras, uma de J.M. Conrad (ora, para aí... o excepcional Nostromo, porque foi em tempos publicado por uma empresa da LeYa).

Desgraça (Disgrace, 1999), é o título de John Maxwell que sairá a 19 de Junho próximo na dita cuja revista – segunda obra do autor a ser galardoada com o Booker Prize e que neste momento se encontra na lista final, à disposição dos internautas, para a eleição do Booker dos Bookers, na celebração dos 40 anos de existência do mais famoso prémio a galardoar uma obra de ficção original, escrita em língua inglesa, proveniente do Reino Unido, da Irlanda ou dos restantes países da Commonwealth.

Eis a listagem completa:

  • Pat Barker, The Ghost Road, 1995;
  • Peter Carey, Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda, 1988);
  • J.M. Coetzee, Desgraça (Disgrace, 1999);
  • J.G. Farrell, The Siege of Krishnapur, 1973;
  • Nadine Gordimer, O Conservador (The Conservationist, 1974);
  • Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 1981)*.

*Vencedor do Booker dos Bookers na comemoração dos 25 anos de entrega do prémio.

Adenda [18:43, 15/05/2008]

  1. Actualização – na edição desta semana da revista do grupo Cofina, a Sábado, o “Joseph Coetzee” deu lugar a “John Coetzee”. Digamos que se tratou de uma tentativa de emendar a mão sem dar o braço a torcer, transmitindo de novo a ideia de que se tratou de um erro tipográfico. Mal, muito mal. Quando se erra e se adquire a plena consciência desse erro a melhor forma de o emendar é a assunção sem subterfúgios do seu cometimento. Ora, que eu saiba, o Nobel da Literatura sul-africano assina sempre os seus trabalhos como J.M. Coetzee, onde se inclui o romance publicitado, Desgraça (Disgrace, 1999), correspondendo as primeiras iniciais aos seus dois primeiros nomes John Maxwell.
  2. Correcção – Ao contrário do que aqui havia referido, as 8 obras “ofertadas” pela benemérita Cofina, pertencem todas ao grupo editorial LeYa. Assim, no caso da obra da escritora australiana Colleen McCullough, Pássaros Feridos (The Thorn Birds, 1977), apesar de circular uma versão da mesma obra sob a chancela da Difel com direitos de publicação partilhados com a Bertrand, neste momento é a Asa II (pertencente ao grupo LeYa) a detentora dos direitos. Corrigido o erro, não invalida o considerando posterior sobre o virar de costas de ambos os grupos editoriais (LeYa e Bertrand) para a cidade do Porto, pelas anunciadas ausências da edição deste ano da Feira do Livro, que irá decorrer entre 21 de Maio e 10 de Junho no Pavilhão Rosa Mota.