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quinta-feira, 17 de maio de 2007

Aparição

Hoje, vi Borges. Seriam umas nove horas e vinte minutos da manhã, a canícula fazia-se anunciar pelo característico odor adocicado e húmido que emanava da pequena tira de terra, escondida do sol pelos carvalhos, que separa o mirrado concelho do Porto dos seus arejados vizinhos: as estradas interior e exterior do pior atentado da História infligido a um razoável planeamento urbanístico da minha cidade, a Circunvalação.
Rádio desligado, tejadilho e vidros abertos deixando descansar o ar condicionado até que a temperatura se dignasse a superar a rinite na escala de adversidades estivais. Esperavam-me a tese e um livro para os longos intervalos na sala de fumo oficial, a varanda de minha casa, o silêncio que dela se apoderou depois do mulherio – a minha santíssima trindade – haver abandonado o lar rumo às suas tarefas quotidianas – qual é a tua, pequena M.? Choro, biberão, risos, palração, cólicas…
Um barulho estridente e assustador. Borracha a desfazer-se no asfalto quente. A luz de stop marcada no meu campo visual com um espectro indestrutível. Pé direito no travão que vibra pelo arrancar do ABS. Buzinas. Imprecações… rapidamente contidas. De súbito, da parte anterior do carro que segue à minha frente surge um vulto, curvado, vestido de preto com uma bengala na mão, envergava um fato assertoado e aquela fragilidade altiva de quem há muito ultrapassou a casa dos noventa mas não perdeu, por mais paradoxal que possa parecer, a impetuosidade com que encarou uma vida.
Era Borges! Jorge Luis… O homem dos labirintos e das narrativas fantásticas. O marechal, sem Nobel, da Literatura do século XX. Vivo e em plena estrada exterior da Circunvalação. Com uma mão segurava a bengala, com a outra pedia paciência agradecendo aos condutores anónimos dos veículos que por um simples e caridoso instante lhe proporcionaram mais um fôlego para poder ditar os seus memoráveis escritos.
Borges está vivo!
Arranco devagar, Borges segue numa lentidão estudada, sem pressas para chegar à outra margem, o interior.
Contive-me, o meu superego estava alerta apesar da indolente canícula, queria ter-lhe dito, arrancando o ar ao fundo dos meus pulmões: Senhor Borges é este ano…!

Em 1976 Saul Bellow vence o Prémio Nobel da Literatura contra as fortíssimas expectativas que enchiam o mundo literário de que esse seria, finalmente, o ano da reparação da injustiça, o ano de Borges.
Em Outubro de 1980, Gabriel García Márquez comentava, num artigo de opinião publicado no El País, que «todos os anos, por esses dias [recorde-se que os Prémios Nobel terão de ser atribuídos até meados de Novembro], um fantasma inquieta os grandes escritores: o Prémio Nobel da Literatura. Jorge Luis Borges, que é um dos maiores e também um dos candidatos mais assíduos, protestou uma vez numa entrevista que concedeu à imprensa pelos dois meses de ansiedade a que o submetem os adivinhadores.» O colombiano, que receberia o dito prémio precisamente dois anos depois, referia-se, certamente, às seguintes palavras proferidas pelo argentino em 1976, com aquela ironia cortante, isto é com laivos de alguma verrina, que o caracterizava:

«Não me atribuírem o Prémio Nobel converteu-se numa tradição escandinava: desde que nasci que não mo dão.»

Se Borges era reconhecidamente um dos maiores escritores latino-americanos da época e, decerto, um dos melhores de sempre, agravado pelo facto de ter tido uma vasta obra possibilitada por uma vida longa e por isso dispor de maiores possibilidades de vir a receber o galardão – por exemplo, a Academia não atribui prémios a título póstumo –, qual a razão, mais ou menos obscura, que esteve na génese dessa injustiça?
García Márquez, munido de um desresponsabilizante “diz-se por aí”, identificou o momento fatal. O acontecimento a partir do qual Borges muito dificilmente seria alguma vez galardoado pela Academia Sueca: a sua visita ao Chile a 22 de Setembro de 1976, recebido em sessão solene por Augusto Pinochet, onde Borges, socorrendo-se uma vez mais da sua ironia acutilante, elogiou o ditador chileno e as ditaduras da Argentina e do Uruguai que «defendiam a liberdade e a ordem […] num continente anarquizado e desbaratado pelo comunismo.»
Ainda segundo o autor colombiano, a atribuição do prémio a Borges havia sido decidida em Maio desse ano. No entanto, a decisão foi abruptamente modificada na tradicional reunião do júri do Comité Nobel em Outubro, alguns dias antes do aguardado anúncio oficial, ficando decidida a sua atribuição ao escritor norte-americano Saul Bellow.

Jorge Luis, já não és rapaz novo, com os teus quase 108 anos e a tua infeliz obnubilação, por favor, da próxima vez usa a passadeira.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Encontro Literário

Um título com um pequeno sofisma, porém ele (o tal encontro) realizou-se no dia de São Valentim (o acaso tem disto!), na Cidade do México, em 1976.
O encontro (literário) entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa deu nisto:

Gabriel García Márquez

Pobre Gabo!

Ao que parece, este recontro literário internacional deu-se devido ao excesso de paixão do colombiano, havendo atingido um ponto tal que se estendeu à mulher do peruano.

Vem tudo aqui no insuspeito The New York Times, incluindo um entrevista ao fotógrafo mexicano Rodrigo Moya. Segundo diz Moya, Gabo pediu-lhe que o fotografassem naquele estado dada a eventual escassez de oportunidades de, no futuro, se poder vir a apresentar com um olho negro (crente ou mentiroso?)

Nota: o autor do artigo, Noam Cohen, para além do título, com um coloquialismo ímpar «Olho à belenenses termina os seus 31 anos de omissão.» (tradução livre: por minha culpa, minha tão grande culpa [bato com a mão no peito], talvez "quietação" não ficasse mal, mas para o efeito pretendido fica melhor "omissão"), brilha quando recorda outros grandes encontros na História da literatura, à laia de Rocky Balboa:

  • Lillian Hellman vs. Mary McCarthy;
  • Vladimir Nabokov vs. Edmund Wilson;
  • Norman Mailer vs. Gore Vidal.

Sobre este último fica a presença de espírito de Vidal quando derrubado. Ainda no chão diz: «Uma vez mais, faltaram-te as palavras, Norman Mailer.» [Tradução livre: AMC]

segunda-feira, 19 de março de 2007

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.