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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fôlego

Foi a palavra que me surgiu de forma espontânea, tremulando com toda a sua carga polissémica, assim que abri a página em branco do processador de texto, à laia da libertação automática de impulsos de Breton, para escrever alguma coisa e tentar caracterizar a obra de ficção literária que acabara de desfrutar por completo havia pouco mais de vinte e quatros horas.

[Este texto permaneceu encerrado na pasta de arquivo “não publicado”, que guarda os inúmeros ficheiros reprimidos deste blogue, há quase uma semana; um terrível ataque de pudor sem origem e razão certas, levaram-me a este indescritível aferrolhamento; bom, angústia, talvez advinda de uma lesadíssima auto-estima, ultrapassada].

A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:

«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)

O protagonista, narrador omnipresente de uma história pontualmente feliz, matizada de uma pungente e indelével inquietude, uma pátina de melancolia, vivida durante um quarto de século, é um banal jovem lisboeta nascido em 1960, que terminando o liceu no início da década de 1980, procura emprego, após um hiato estival de indolência, como meio de ajudar a mãe, mentalmente perturbada após a morte prematura e trágica do pai, e a irmã de dezoito anos. Encontra-o, num anúncio de jornal. Irá trabalhar na Quinta do Tempo, situada nas cercanias de Santiago do Cacém, onde o espera um jardineiro muito especial, Artur, e um patrão esquivo e enigmático, de seu nome António Augusto Millhouse Pascal.
O trabalho é suficientemente repetitivo e enfadonho, que um cheque chorudo no final do mês não dá azo à desistência; catalogar e indexar as fichas de uma série de clientes que frequentam a Quinta, desconhecendo-se o objecto e a missão dos serviços que lhes são prestados.
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.

Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.

«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)

E não é este o mistério da vida?

Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo
, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mia Couto // A Biblioteca de Babel [pub]

O autor moçambicano Mia Couto estará na Livraria Pára e Lê, em Vila Praia de Âncora, no próximo dia 12 de Junho (quinta-feira) pelas 18 horas, para uma sessão de autógrafos no âmbito do seu novo livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

Livraria Pára e Lê // Rua 31 de Janeiro 47-A // 4910-455 Vila Praia de Âncora

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Saiu para o mercado mais um livro da colecção A Biblioteca de Babel de literatura fantástica, organizada por Jorge Luis Borges (1899-1986) com editor italiano Franco Maria Ricci (n. 1937) e publicada em Portugal pela Editorial Presença:
Edgar Allan Poe, A Carta Roubada (A Biblioteca de Babel n.º 8)

Do prefácio de Borges:
«As neuroses e a pobreza de Poe foram grandes desgraças, sem dúvida alguma, mas a vida reservou-lhe uma felicidade sem fim: a invenção e a realização de uma obra esplêndida. Poderia acrescentar-se que a desgraça foi o instrumento necessário dessa obra.
Há cerca de setenta anos, sentado no último degrau de uma escada que já não existe, li "The pit and the pendulum"; já me esqueci das vezes que, depois, o li, reli ou pedi que mo lessem; sei que ainda não cheguei à última vez e que voltarei ainda à prisão quadrangular que se vai comprimindo e ao abismo sem fundo.»

[Números anteriores: 1 – Gustav Meyrink, O Cardeal Napellus; 2 – Pedro Antonio de Alarcón, O Amigo da Morte; 3 – Giovanni Papini, O Espelho que foge; 4 – Henry James, Os Amigos dos Amigos; 5 – Arthur Machen, A Pirâmide de Fogo; 6 – Villiers de l'Isle-Adam, O Convidado das Últimas Festas; 7 – G.K. Chesterton, O Olho de Apolo.]

sábado, 3 de maio de 2008

Quac

No dia 23 de Abril do mesmo ano (embora por calendários diferentes, separados por 10 dias), 1616, morriam William Shakespeare e Miguel de Cervantes, em Stratford-upon-Avon e Madrid, respectivamente, data aproveitada pela UNESCO em 1995 para dar início à celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Este ano, por terras lusas, saía para as bancas o primeiro número da renovada revista Ler (edição n.º 69 desde a sua inauguração), de novo dirigida por Francisco José Viegas e agora com periodicidade mensal.
Na capa, para além do principal destaque dado a uma entrevista dada por António Lobo Antunes a Carlos Vaz Marques – este último, é, no meu entender, de longe e desde há muito, o melhor entrevistador português da actualidade sobre assuntos da ciência e da cultura –, dá-se especial relevo a um artigo, em jeito de lista, que no meu caso, um listómano assumido, sobressalta da mesma forma como a heroína sobressaltava W.S. Burroughs – oferecesse a Ler uns gramas… –, sob o título de “Os 50 autores mais influentes no século XX” [pp. 48-59]. Na página 48 surge o subtítulo “e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, assinado pelo jornalista José Mário Silva. Sobre a dita lista e sem um texto introdutório de elucidação sobre os critérios (artísticos, estéticos, técnicos, comerciais e/ou sociológicos) que conferiam a elegibilidade dos autores como um bloco, muito poderia ter sido dito – as anotações apensas a cada nome, por mais extensas ou desenvolvidas que sejam, enfermam sempre dessa necessária visão global. E, neste caso, a posição mais cómoda é a do crítico, que desde logo poderia destacar um conjunto de nomes que foram esquecidos e outros que incompreensivelmente figuram no referido arrolamento.
Mesmo o critério temporal, o único verdadeiramente explícito, parece haver sido derrogado quando se inclui o questionabilíssimo Emilio Salgari (1862-1911) e se deixa de fora o Mestre Henry James (1943-1916), com um bom punhado de romances, novelas e contos escritos e publicados já no século XX; situação que se agrava com a não inclusão de um dos melhores poetas de todos os tempos, Nobel da Literatura em 1923, W.B. Yeats (1865-1939). Dos vivos a inclusão de Rushdie (n. 1947) e principalmente de Salinger (n. 1919) – que para além de À Espera no Centeio (ou Agulha no Palheiro; The Catcher in the Rye, 1951), andou apenas à volta dos hinduísmos e dos jovens místicos e assaz aborrecedores Glass e depois desapareceu – é mais do que discutível, quando se deixa de fora Pynchon (n. 1937), Roth (n. 1933), DeLillo (n. 1936), McCarthy (n. 1933) ou Updike (n. 1932), conjuntamente com o mais imperdoável esquecimento (ou não, desconheço o critério), o do inigualável Saul Bellow (1915-2005), Nobel da Literatura em 1976; ou até de Capote (1924-1984) ou Mailer (1923-2007), que, em estilos diametralmente opostos, revolucionaram as letras norte-americanas com os habituais efeitos de contagio para o universo das diferentes literaturas.

Muito poderia ser ainda dito sobre a referida listagem, como a inclusão de Barbara Cartland e de J.K. Rowling, e a não inclusão de nomes como Chesterton, Gide, Malraux ou Blanchot. Todavia, arriscando-me a proferir um lugar-comum, tudo isso é discutível e de sobremaneira relativo. Jamais se poderá fazer uma lista desta estirpe com alguma objectividade, entenda-se com o toque de mágica de agradar a todos. Gosto de lá ver Umberto Eco – como gostaria de ver incluído pelo menos um dos beatniks, porque não Kerouac? –, mas intuo que uma esmagadora maioria dos leitores acha a sua inclusão mais do que discutível.

Finalmente, a propósito deste artigo, li
um texto divertidíssimo do Alexandre Andrade, em que confessa que, ainda nesta Primavera, irá tatuar na sua omoplata direita a labiríntica e claustrofóbica inscrição perecquiana “11, rue Simon-Crubellier”José Luís Peixoto tem tatuado num dos braços “Yoknapatawpha” o condado imaginário que aparece na maioria dos romances (rústicos ou de folclore regional como lhes chamava Nabokov) de William Faulkner. Pois, eu, meu caro Alexandre ponho-me a nu, e revelo aqui e agora, com prova documental, que a pele que cobre este arcaboiço, que se foi agigantando, desde o escultural até levemente (que ironia) aceitável para a vista, desde o fatídico dia para qualquer homem... (adiante) dispõe de 3 (três) tatuagens Por amor a Borgespor Borges (nas costas), Por amor a Nabokovpor Nabokov (no braço esquerdo e que enorme heresia para um quase quase russo branco, mas o direito já tinha o indispensável “amor de mãe”) e uma terceira num local inconfessável, tal como a daquele bombeiro voluntário bem abonado dos chistes ordinários, residente na freguesia de Valbom, concelho de Gondomar, distrito do Porto, que aparente e molemente havia mandado tatuar a palavra “Bombom”…
Um dos romances da minha vida, foi escrito por um autor inglês chamado Malcolm Lowry, que conta a história fatídica, ocorrida num só dia, o dia dos mortos, de um cônsul inglês, de seu nome Geoffrey Firmin, numa terra ficcionada (que chegou a existir durante o domínio do Império Azteca), onde hoje existe Cuernavaca no México.
Trata-se de um lânguido Quac

Pergunta ao estilo Yorn: Que mais lugares imaginários saídos da literatura tens tu tatuados no teu corpo?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Ressurreição noutro lugar...

Novidades para breve... (mudança de pele; dar um outro nome à mesma coisa... mantém-nos na ilusão da inventividade: torna impossível a auto-avaliação do potencial criativo: será sempre o mesmo sonho.)


Evolução:
«Sê bem-vinda, ó vida! Parto pela milionésima vez a procurar a realidade da experiência e para aperfeiçoar na forja da minha alma a consciência incriada da minha raça.»
James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem

Imobilidade (resignação):
(cf. epígrafe – Raymond Carver).

Ciclo:
«O número de todos os átomos que compõem o mundo é, embora desmedido, finito, e como tal, é somente capaz de gerar um número finito (embora também desmedido) de permutações. Num tempo infinito, o número de permutações possíveis deve ser alcançado, e assim o universo tem de se repetir. Voltarás a nascer de um ventre, voltará a crescer a tua ossatura e voltará a surgir esta mesma página nas tuas mãos idênticas, voltarás a percorrer todas as horas até que chegue a da tua incrível morte. Assim é a ordem rotineira daquele argumento, desde o insípido prelúdio até ao enorme e ameaçador desenlace. É comum atribuí-lo a Nietzsche.»
Jorge Luis Borges, "A Doutrina dos Ciclos"

Sophia:
Nunca Mais… em breve.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Chesterton em Babel

Após um percebido interregno, que não augurava nada de bom, a Editorial Presença prossegue com a fabulosa colecção “A Biblioteca de Babel”: um conjunto de 33 livros de outros tantos autores, editados por Franco Maria Ricci, escolhidos e prefaciados por Jorge Luis Borges (1899-1986).
Para o número 7 da referida colecção a Presença reservou a antologia borgiana de 5 histórias fantásticas do escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936):

Da colectânea de contos de Chesterton publicada em 1911, The Innocence of Father Brown foram retirados 3 contos: O Olho de Apolo (The Eye of Apollo), que ademais empresta o título à antologia; A Honra de Israel Gow (The Honour of Israel Gow); e Os Pés Estranhos (The Queer Feet);

De The Wisdom of Father Brown (1914), foi retirado o conto O Duelo do Doutor Hirsch (The duel of Dr. Hirsch);

Finalmente, Os Três Cavaleiros do Apocalipse (The Three Horsemen of the Apocalypse), que Borges considera o seu preferido entre os contos de Chesterton, foi retirado da colectânea de contos The Paradoxes of Mr. Pond (1937).

Números anteriores (as datas de publicação referem-se apenas ao conto epónimo):

  1. Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  2. Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  3. Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906);
  4. Henry James – Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896); [originalmente publicado como The Way It Came]);
  5. Arthur Machen – A Pirâmide de Fogo (The Shining Pyramid, 1923);
  6. Auguste Villiers de l’Isle-Adam – O Convidado das Últimas Festas (Le Convive des dernières fêtes, 1883).

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ruínas – (VnS IV, epílogo)

Quatro citações, ou melhor, três possíveis epígrafes e uma citação deliberada. A segunda serviu de epígrafe ao texto de onde foi retirada a primeira. O autor da terceira influenciou decisivamente os labirintos narrativos do autor da primeira, a quem este chamou em El conto policial de o Pai da literatura do género, criando com Os Crimes da Rua Morgue o primeiro mistério do quarto fechado – um crime é cometido dentro de um quarto onde aparentemente ninguém pôde entrar, sendo, ademais, descartada a hipótese de suicídio – e ambos são, declaradamente, duas fontes de inspiração primordiais para o autor da quarta citação.

«Com alívio, com admiração, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.»
Jorge Luís Borges, “As Ruínas Circulares”, Ficções (Ficciones, 1944)

«E se ele deixasse de sonhar contigo, onde pensas que estarias?»
Lewis Carroll, Alice do outro lado espelho (Through the Looking Glass, 1871)

«Is all that we see or seem / But a dream within a dream?»
Edgar Allan Poe, A Dream within a Dream (1849)

«Não vai acabar nunca. Porque Mr. Blank é um de nós agora, e, por muito que se debata para compreender a sua provação, acabará sempre por se sentir perdido. […] Sem ele nós não somos nada, mas o paradoxo é que nós, as criaturas imaginadas por uma outra mente, sobreviveremos à mente que nos criou, já que, a partir do momento em que somos lançadas no mundo, continuamos a existir para sempre, e as nossas histórias continuam a ser contadas, mesmo depois da nossa morte.»
Paul Auster, Viagens no Scriptorium, pág. 114.


Depois do mais dissemelhante de todos os seus romances, As Loucuras de Brooklyn (Brooklyn Follies, 2005), Auster regressa à prosa metaficcional com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
«O velho está sentado na beira da cama estreita, mão abertas fincadas nos joelhos, cabeça baixa, olhos fixos no chão.» (frase de abertura da obra, pág. 7).
O velho é Mr. Blank, um homem confuso, «encalhado no meio das criaturas que povoam a sua imaginação». Mr. Blank encontra-se fechado num quarto de uma só janela com a cortina corrida. Não sabe se a porta está trancada, não sabe se para lá da cortina poderá ver o mundo – que mundo? – enquanto ouve, lá fora, «o grito esbatido de um pássaro». Mas, de momento, aquilo que o atormenta é o não saber responder à pergunta primordial que abre todo um universo repleto de novas perguntas: «Quem é ele? Que faz aqui? Quando chegou e quanto tempo permanecerá aqui?» (pág. 7)
Blank não sabe, mas sobre si existe um mecanismo de vigilância que escrutina todos os seus movimentos. A tangibilidade resume-se a um conjunto de objectos, sobre os quais estão apostos rótulos com os seus respectivos nomes: um candeeiro, uma cama, uma secretária com um manuscrito nela pousado, uma cadeira, onde se senta e balança o corpo, e, de repente, sem o mínimo esforço, surge-lhe a primeira revelação, embora difusa, obscurecida, distante sem que consiga mensurar essa distância, fraca para responder às perguntas que o atormentam. Sobre o seu passado ocorre-lhe uma vaga memória de um cavalo de balouço, Whitey, «e que, na mente da criança que Mr. Blank foi, não era um objecto de madeira pintado de branco, mas um ser vivo, um cavalo de verdade», onde no seu dorso percorria os caminhos traçados pela sua imaginação. A imaginação como construtora da realidade.
A partir deste ponto ao quarto acorrerá um conjunto de pessoas diferentes entre si, cada um por sua vez, umas que o ajudam nas tarefas diárias, físicas e fisiológicas, essenciais à sua sobrevivência, e outras que, munidas de uma autoridade cujas origem e legitimidade não compreende, lhe recordam a árdua tarefa que tem pela frente, como uma pena que terá de cumprir pelo mal que lhes infligiu no passado.
Em Viagens no Scriptorium temos Auster numa reflexão profunda, apesar da enganosa superficialidade, talvez provinda de uma leitura negligente ou até intencionalmente desvirtuada, sobre a literatura e a arte de contar histórias, sobre o criador e a intertextualidade da sua obra, sobre a zona nebulosa entre a realidade e a ficção, o sonho e a verdade.
Nesta obra reencontramos Auster no seu campo predilecto, a navegar em territórios que só ele, de momento, sabe explorar: a efabulação metadiegética, quem manipula quem, quem conta a história, o confronto entre o criador e os sujeitos da sua criação, o epítome da narrativa circular que nesta obra é provida de personagens pertencentes a obras anteriores, aqui como lá forjadas pelo potencial onírico de um homem que quis contar histórias a um público ávido de ilusão, de um inebriamento provocado por uma sensação de plausibilidade ou de verosimilhança da sua mais arreigada utopia.
Não erro se disser que esta é uma obra do autor para os seus leitores mais fiéis. Auster completou 60 anos no ano de estreia de Viagens no Scriptorium, e os seus fãs agradecem-lhe, à laia de comemoração, o engenhoso desfile de personagens que povoaram os seus imaginários pelo acto, puro e simples, de leitura das suas obras de ficção que, para um austeriano, se conseguem identificar com alguma facilidade no decurso da narrativa: No País das Últimas Coisas, A Trilogia de Nova Iorque, A Noite do Oráculo, Palácio da Lua, Leviathan ou O Livro das Ilusões.
Auto-indulgente? Auto-referencial? Manipula sem critério os seus personagens, e com isso os seus leitores, julgando dispor de um poder especial de emanação divina?
Deixem-me sonhar, porque é com o sonho que me alento perante a realidade e com a criação artística que vou descobrindo a verdade.
Se parares de sonhar…
Escuro.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Paul Auster, Viagens no Scriptorium. Porto: Asa, 1.ª edição, Setembro de 2007, 115 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Travels in the Scriptorium, 2007).


Já a seguir: Men in the Dark.

domingo, 20 de maio de 2007

Depois da Aparição


Depois da aparição, perdi em definitivo o rasto do Senhor Borges.
Após a inscrição daquele acontecimento na minha memória, circulei todos os dias pelos mesmos sítios à mesma hora e o trânsito corria fluído, sem entraves, sem encontrar Borges, ou alguém como ele, que caminhava do exterior para o interior para se perder do lado de lá, o Porto, nos seus labirintos de gente dispersa, hipnotizada pelo desejo de sobrevivência, sem saber que por mais que calcorreie essas artérias, a sua concepção, empreendida por algo que me foge aos apertados limites da compreensão tão humanos, foi apenas a materialização do divino pelo necessário inculcamento do desdém pela imortalidade. Em suma, vias porventura ilusórias e sinuosas que foram engenhosamente construídas para que apenas pela morte surja a almejada libertação.
Walser, em conversa com Seelig – via Vila-Matas –, referia-se aos monges voluntariamente encerrados nos mosteiros que olham com sede de exterior, de dentro para fora, o objecto que por uma vez negociaram para redenção da alma. Têm nostalgia do exterior. Porém, os escritores, aqueles que se fecham por dias infindos de solidão, empreendem um caminho sem retorno, embora voluntário, em busca do interior perdido, da sua própria identidade que se foi arruinando por paragens remotas, e agora inalcançáveis, nas intermináveis deambulações por esse labirinto: a profunda nostalgia do interior.
E assim deverá andar Borges, aquele que vi da janela do meu carro numa manhã de Maio de calor abrasador, caminhado pela Circunvalação do exterior para o interior num aparente movimento perpétuo.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Aparição

Hoje, vi Borges. Seriam umas nove horas e vinte minutos da manhã, a canícula fazia-se anunciar pelo característico odor adocicado e húmido que emanava da pequena tira de terra, escondida do sol pelos carvalhos, que separa o mirrado concelho do Porto dos seus arejados vizinhos: as estradas interior e exterior do pior atentado da História infligido a um razoável planeamento urbanístico da minha cidade, a Circunvalação.
Rádio desligado, tejadilho e vidros abertos deixando descansar o ar condicionado até que a temperatura se dignasse a superar a rinite na escala de adversidades estivais. Esperavam-me a tese e um livro para os longos intervalos na sala de fumo oficial, a varanda de minha casa, o silêncio que dela se apoderou depois do mulherio – a minha santíssima trindade – haver abandonado o lar rumo às suas tarefas quotidianas – qual é a tua, pequena M.? Choro, biberão, risos, palração, cólicas…
Um barulho estridente e assustador. Borracha a desfazer-se no asfalto quente. A luz de stop marcada no meu campo visual com um espectro indestrutível. Pé direito no travão que vibra pelo arrancar do ABS. Buzinas. Imprecações… rapidamente contidas. De súbito, da parte anterior do carro que segue à minha frente surge um vulto, curvado, vestido de preto com uma bengala na mão, envergava um fato assertoado e aquela fragilidade altiva de quem há muito ultrapassou a casa dos noventa mas não perdeu, por mais paradoxal que possa parecer, a impetuosidade com que encarou uma vida.
Era Borges! Jorge Luis… O homem dos labirintos e das narrativas fantásticas. O marechal, sem Nobel, da Literatura do século XX. Vivo e em plena estrada exterior da Circunvalação. Com uma mão segurava a bengala, com a outra pedia paciência agradecendo aos condutores anónimos dos veículos que por um simples e caridoso instante lhe proporcionaram mais um fôlego para poder ditar os seus memoráveis escritos.
Borges está vivo!
Arranco devagar, Borges segue numa lentidão estudada, sem pressas para chegar à outra margem, o interior.
Contive-me, o meu superego estava alerta apesar da indolente canícula, queria ter-lhe dito, arrancando o ar ao fundo dos meus pulmões: Senhor Borges é este ano…!

Em 1976 Saul Bellow vence o Prémio Nobel da Literatura contra as fortíssimas expectativas que enchiam o mundo literário de que esse seria, finalmente, o ano da reparação da injustiça, o ano de Borges.
Em Outubro de 1980, Gabriel García Márquez comentava, num artigo de opinião publicado no El País, que «todos os anos, por esses dias [recorde-se que os Prémios Nobel terão de ser atribuídos até meados de Novembro], um fantasma inquieta os grandes escritores: o Prémio Nobel da Literatura. Jorge Luis Borges, que é um dos maiores e também um dos candidatos mais assíduos, protestou uma vez numa entrevista que concedeu à imprensa pelos dois meses de ansiedade a que o submetem os adivinhadores.» O colombiano, que receberia o dito prémio precisamente dois anos depois, referia-se, certamente, às seguintes palavras proferidas pelo argentino em 1976, com aquela ironia cortante, isto é com laivos de alguma verrina, que o caracterizava:

«Não me atribuírem o Prémio Nobel converteu-se numa tradição escandinava: desde que nasci que não mo dão.»

Se Borges era reconhecidamente um dos maiores escritores latino-americanos da época e, decerto, um dos melhores de sempre, agravado pelo facto de ter tido uma vasta obra possibilitada por uma vida longa e por isso dispor de maiores possibilidades de vir a receber o galardão – por exemplo, a Academia não atribui prémios a título póstumo –, qual a razão, mais ou menos obscura, que esteve na génese dessa injustiça?
García Márquez, munido de um desresponsabilizante “diz-se por aí”, identificou o momento fatal. O acontecimento a partir do qual Borges muito dificilmente seria alguma vez galardoado pela Academia Sueca: a sua visita ao Chile a 22 de Setembro de 1976, recebido em sessão solene por Augusto Pinochet, onde Borges, socorrendo-se uma vez mais da sua ironia acutilante, elogiou o ditador chileno e as ditaduras da Argentina e do Uruguai que «defendiam a liberdade e a ordem […] num continente anarquizado e desbaratado pelo comunismo.»
Ainda segundo o autor colombiano, a atribuição do prémio a Borges havia sido decidida em Maio desse ano. No entanto, a decisão foi abruptamente modificada na tradicional reunião do júri do Comité Nobel em Outubro, alguns dias antes do aguardado anúncio oficial, ficando decidida a sua atribuição ao escritor norte-americano Saul Bellow.

Jorge Luis, já não és rapaz novo, com os teus quase 108 anos e a tua infeliz obnubilação, por favor, da próxima vez usa a passadeira.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Hexágono

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercado de parapeitos baixíssimos.»

Corro de plano em plano e ainda nem sequer saí do primeiro hexágono. «Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e uma circunferência é inacessível.»
A volúpia das palavras que sofregamente vou tragando avoluma o meu inextinguível desassossego por aquelas que não li, são como açúcar para hiperglicemia, a traição para a inveja, não são uma inutilidade, porque não são neutras; massacram, extenuam, adejam por sobre as nossas cabeças em movimentos lúbricos, exibindo-nos a certeza de que sempre existirão em combinações de 25 sinais ortográficos que se repetem em livros de 410 páginas que se diferenciam entre si pela mudança de apenas uma delas, e voltamos ao primeiro axioma de Borges que a "Biblioteca existe ab aeterno" e seríamos perfeitamente estúpidos se nela vislumbrássemos um fim.
Porventura foi esse sentimento de imortalidade que se renova a cada palavra escrita que me tornaram bibliómano sem remição; o meu longínquo momento de fuga pela Tua ausência, o desvio para a paralela superior e a esperança não-euclidiana de nos encontrarmos, segundo Poncelet, no tal ponto no infinito – aquele que a perspectiva une na eternidade duas paralelas. E sei, por Pascal, que com esse hexágono gravado nessa circunferência divina e etérea consigo encontrar três pontos de intersecção, formados a partir da projecção de três pares de rectas dos lados opostos do hexágono, que são colineares... deles extraio o caminho que me leva a esse além-mundo inescrutável.
Agora pensa nas rectas que se formam a partir desses hexágonos de nível superior, na infinidade de caminhos que se cruzam e me distraem de um objectivo que o tempo tornou difuso. Em suma, o esforço inumano que qualifica esta fuga, que me desvia daquilo que os outros assentiram ser a minha vocação, o tal fundamento para uma condenação in absentia.
E sigo ainda com Borges, através de Vila-Matas, Doutor Pasavento, que vou tragando com a tal, a inaudita, sofreguidão:

«Ignoro se a música sabe desesperar da música e se o mármore do mármore, mas a literatura é uma arte que sabe profetizar aquele tempo em que terá emudecido, e encarniçar-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar o seu fim.»

Falta-me tempo…
Trinta e três obras foram seleccionadas por Jorge Luis Borges para integrarem A Biblioteca de Babel, uma selecção de textos de literatura fantástica, originalmente propostos ao autor argentino pelo editor italiano Franco Maria Ricci e prefaciados por Borges – ler aqui a história. Como é sabido, a Editorial Presença teve a feliz ideia de editar esta colecção no nosso país, que começou a ser publicada desde o início de 2007.
Se apenas escrevo no aqui e agora uma nota sobre esta empreitada, tal ficou a dever-se a alguma preguiça de escritor blogueiro, cujo momento escolhido, o agora, resultou da eminência do autor do 4.º livro publicado da série referida. Trata-se da obra Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896 [originalmente publicado como The Way It Came]) escrita por O Mestre, Henry James, pela primeira vez traduzida para a língua de Camões.
Os livros já publicados para além deste último (por ordem cronológica de publicação):

  • Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  • Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  • Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906).

Para além das 4 obras já publicadas, que representam, respectivamente, 4 línguas diferentes – alemão, espanhol, italiano e inglês – e de mais 4 obras de Borges – uma delas em co-autoria com Bioy Casares –, fazem parte desta biblioteca – que será publicada na íntegra pela Editorial Presença – nomes como Melville (com o seu Bartleby), Kafka (O Abutre), Wilde, Poe, Hawthorne, Voltaire, Chesterton, H.G. Wells, R.L. Stevenson, J. London e R. Kipling.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Memória

Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:
«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.

Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Regresso

Uma derivação é, em português moderno – coloquialmente usado até à exasperação –, a passagem da causa ao efeito sempre que se tenta explicar um comportamento nefasto perversamente atribuído a uma origem invencível, elevada à condição de dogma. Por outras palavras, derivação é um eufemismo de desresponsabilização que desmonta qualquer tentativa de outrem na atribuição da culpa, afastando-se liminarmente a explanação da primitiva. É a tal visão monocular: precisas mudar de vida.

Finalmente, retornei a este mundo de derivação. Julguei-me definitivamente regressado à Terra, provindo do Tlön borgiano (de borges), onde o sonho, concretizado na expectativa de um futuro auspicioso, predomina sobre a realidade, o ideal sobre o verdadeiro; todavia fiquei agora com a sensação de a ele haver voltado: a recidiva da descrença.
Após a tal materialização das minhas esperanças, que decerto contribuiu para a agudização da ameaça da sobrepopulação mundial, vejo que, como dizia o outro, a cada dia que passa a certeza da minha lucidez se vai desvanecendo. A incredulidade agiganta-se à medida que vou percebendo que aquilo que vejo poderá não ser mais do que uma elucubração da minha mente sem o sustentáculo da realidade. O instantâneo sobrepõe-se ao passado, que a existir nada mais é do que uma pura ilusão.

Ontem vi e ouvi, com a atenção que a família me permitiu, o primeiro debate sobre a despenalização da IVG. Fiquei a perceber que o que uns defendem como direito inalienável à vida se poderá revestir na perpetuação da miséria, numa interrupção involuntária da condição humana: a destruição (ou desarranjo) de uma vontade instintiva de sobrevivência.
Não há saúde física sem sanidade psicológica. A falta desta última, agravada pela consumação do acto que esteve na sua origem – na medida em que uma lei imoral assim o impôs –, agrava as dificuldades de subsistência do próprio ser, traz infelicidade, que se desmultiplica, como uma epidemia, pela sociedade na qual se está inexoravelmente inserido.
Caberá ao Estado a imposição de limites razoáveis para a nossa felicidade? Ou a busca da felicidade, a receita, a solução, a essência da nossa existência, não se trata de um caminho eminentemente pessoal que se socorre dos instrumentos que uma determinada sociedade lhe pôs à disposição?
Depois há o argumento do princípio e do fim da nossa liberdade individual. Mas quem senão a própria mulher que decidiu abortar sofrerá o dano maior? A sociedade? Um feto com dez semanas de vida que mais não é do que uma amálgama celular sem vontade própria, dependente da saúde e do corpo da mãe? É, na realidade, um ser vivo que futuramente se transformará num ser humano plenipotenciário na estrita medida dos seus direitos e, por muito que isso possa custar a admitir, não é nada mais para além dessa condição.
Infelizmente, à laia de Pacheco Pereira, é essa a questão central. Perante inevitabilidade do dano opta-se pelo menor, e o menor desses danos é, com certeza, aquele que permite readquirir de forma mais rápida a felicidade que se perdeu. Esse recobro (espiritual) torna-se objectivamente mais difícil perante a disseminação da miséria por mais indivíduos excluindo a própria mulher.