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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Marías, Feira do Livro, Literatura e Truculência

Terminou a 78.ª edição da Feira do Livro do Porto (FLP). Ao que se vai ouvindo e lendo, este foi mesmo o último ano em que o Pavilhão Rosa Mota recebeu o evento organizado pela APEL, finalmente, digo eu, dados o desconforto e a vetustez do layout. O Rosa Mota entrará num longo processo de obras de restauro e o nosso inefável Presidente da Câmara há muito que havia manifestado a sua vontade de trazer a feira para o coração da cidade (cuidado com os mal-entendidos): para a agora despida e matizada a Porto antracite Avenida dos Aliados – a ver vamos, se as incómodas e frequentes chuvas que em finais de Maio soem brindar a Invicta não irão estragar um evento que requer conforto e tempo seco para ter algum êxito.

Como o Francisco já escreveu, na sua bem descrita visão romântica da feira do livro, o sal do evento – visão de alguma forma repisada pelo Eduardo, quando este se referia ao espavento da tal empresa-colosso (à medida lusa) do meio editorial que, de forma heteróclita apenas dispunha das novidades e dos últimos livros publicados – manifesta-se no vasculhamento dos restos de colecção, dos fundos editoriais, há muito afastados, por razões economicistas, dos escaparates das principais livrarias, com preços de saldo, por vezes com capas já amarelecidas pelo tempo e pela resistência da letra impressa à fúria impiedosa dos elementos, que um mau armazenamento ousou debilitar.

[Curiosamente, há um odor típico que me ficou gravado na memória, endurecido pelos incontáveis anos de visita à FLP em espaço fechado: o único e inexpugnável cheiro a bafio que emana dos livros expostos no stand da editora Livros do Brasil, alguns com lombadas esfareladas, transmitindo a sensação de comovente fragilidade e de ruína iminente assim que manuseados; e sempre os mesmos autores: Irving Wallace, Daphne du Maurier, Norman Mailer, Thomas Mann (há anos sem os esgotadíssimos A Montanha Mágica e Os Buddenbrook), Pearl S. Buck, John Steinbeck (agora em fase de renovação), etc.]

Este ano, desloquei-me por diversas vezes à FLP à procura dos tais fundos editoriais que o recente movimento de fusões e aquisições de editoras permitiu que se fossem adensando nas caves das distribuidoras fortemente representadas no local.
A sede de arrancar aquele livro que durante um ano fica em lista de espera numa livraria, para depois ser anunciado como “fora de stock” – e este é um dos pontos a melhorar na relação entre editores, livreiros e leitores, ou seja, no tempo infindo que se espera por um livro raro que eventualmente reside numa qualquer cave de livros espalhada pelo país –, assim como a impossibilidade de visitar determinado stand dado o aglomerado de gente que se postava sem qualquer tipo de delicadeza a olhar para os títulos sem os folhear, como se esperassem por uma mensagem vinda do seu interior materializada no colorido do seu frontispício, fizeram que me deslocasse umas 7 ou 8 vezes ao dito recinto de exposição.

Javier MaríasUm dos títulos que adquiri, já no final dos dias e por apenas 5 euros, no pavilhão da Relógio D’Água, foi a colectânea de ensaios Literatura e Fantasma do escritor madrileno Javier Marías (n. 1951) – livro editado originalmente em 1993 sob o título Literatura y fantasma pela editora espanhola Siruela, e publicada entre nós em Novembro de 1998, com tradução do próprio Francisco Vale, sem a enorme ampliação sofrida pela obra em 2001, quando a editora espanhola Alfaguara lhe acrescentou mais 37 textos, aos 35 publicados em 1993 (que na versão portuguesa inclui ainda mais seis sobre “Mulheres Fugitivas”, incluídos na antologia Vidas Escritas de 1992).
Conheço pouco da obra de ficção do autor madrileno. Todavia, conheço o suficiente dos seus escritos dispersos, por vezes reunidos em livros, e as suas crónicas no El País e, sobretudo, o seu portentoso romance, galardoado em 1997 com milionário prémio IMPAC, Coração Tão Branco (Corazón tan blanco, 1992) – até hoje o único escritor espanhol a receber o prémio, desde a sua fundação em 1996 (correndo estas linhas o sério o risco de ficarem de súbito desactualizadas se, amanhã, Javier Cercas for o contemplado com o IMPAC de 2008).
Àquele romance pertence uma das mais inesquecíveis frases de abertura de uma obra de ficção (elas não me largam, já sabem):

«Não quis saber, mas soube, que uma das meninas, quando já não era menina e não havia muito tempo que tinha regressado da sua viagem de lua-de-mel, entrou na casa de banho, pôs-se em frente do espelho, abriu a blusa, tirou o soutien e procurou o coração com a ponta da pistola do seu próprio pai, que estava na sala de jantar com parte da família e três convidados.»
Javier Marías, Coração tão Branco, pág. 11.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 295 pp.; tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra; obra original: Corazón tan blanco, 1992).


Cheguei a casa e ia folheando o livro que acabara de comprar, e detive-me num texto curto, ocupa pouco mais de uma página, que Marías escreveu para o El País de 19 de Outubro de 1991: “Contra a truculência”. E, de repente, recordei-me do que eu próprio havia escrito no meu anterior blogue – com o título sugestivo “Repugnância” – sobre o mais recente filme de Tim Burton, o realizador norte-americano incensado pelos intelectuais da crítica cinematográfica.
Marías discorre sobre a descrição da violência e do horror na literatura, estendendo-a também ao cinema

«O mal é que à quinta ou vigésima, se a descrição continua a ser mediana ou demasiado explícita, a tensão perde-se e o efeito desvanece-se, mesmo que o aspecto mais selvagem das coisas haja aumentado. […] Nabokov dizia que “na arte mais elevada e na ciência pura o pormenor é tudo”, e não se referia precisamente à morosidade descritiva, mas ao clarão visual, analógico, verbal ou de memória provocados no leitor por um sinal vermelho, um vislumbre, um instante.» (pág. 112)

Marías relembra Psico (Psycho, 1960) do mestre Hitchcock e a eterna cena da banheira, o pânico do entrevisto, do não explícito, para no campo da literatura referir logo a seguir:

«A frase que maior horror me causou em literatura não está em Lovecraft, mas em Flaubert: no final de Madame Bovary, com ela já morta e no caixão, enquanto várias personagens lhe cingem uma coroa, Flaubert diz: “Foi necessário erguer-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vómito, da sua boca.”» (pág. 113)

Depois refere Faulkner, que em Santuário (Sanctuary, 1931) usou a expressão deste mesmo horror para descrever uma situação nauseante:

«Cheira a negro, pensou Benbow; cheira àquela substância negra que saiu da boca de Madame Bovary e caiu sobre o seu véu nupcial.» (pág. 113)

E acrescenta: «Duvido que alguém, mesmo o próprio Faulkner, conseguisse com uma frase menos sóbria a façanha de fazer sentir um tão hediondo cheiro.»

Sim, é verdade. Na minha juventude fui um admirador de Carpenter e de alguns dos seus colegas e discípulos desse subgénero fílmico. Mas quem via Carpenter sabia ao que ia, da mesma forma que hoje, quem lê, perde tempo e gasta dinheiro com Palahniuk já deveria saber ao que vai. A mim chegou-me vez e meia... É puro lixo sensacionalista.

Referência bibliográfica:
Javier Marías
, Literatura e Fantasma. Lisboa: Relógio D’Água, Novembro de 1998, 295 pp.; tradução de Francisco Vale; obra original: Literatura y fantasma, 1993.

sábado, 3 de maio de 2008

Quac

No dia 23 de Abril do mesmo ano (embora por calendários diferentes, separados por 10 dias), 1616, morriam William Shakespeare e Miguel de Cervantes, em Stratford-upon-Avon e Madrid, respectivamente, data aproveitada pela UNESCO em 1995 para dar início à celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Este ano, por terras lusas, saía para as bancas o primeiro número da renovada revista Ler (edição n.º 69 desde a sua inauguração), de novo dirigida por Francisco José Viegas e agora com periodicidade mensal.
Na capa, para além do principal destaque dado a uma entrevista dada por António Lobo Antunes a Carlos Vaz Marques – este último, é, no meu entender, de longe e desde há muito, o melhor entrevistador português da actualidade sobre assuntos da ciência e da cultura –, dá-se especial relevo a um artigo, em jeito de lista, que no meu caso, um listómano assumido, sobressalta da mesma forma como a heroína sobressaltava W.S. Burroughs – oferecesse a Ler uns gramas… –, sob o título de “Os 50 autores mais influentes no século XX” [pp. 48-59]. Na página 48 surge o subtítulo “e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, assinado pelo jornalista José Mário Silva. Sobre a dita lista e sem um texto introdutório de elucidação sobre os critérios (artísticos, estéticos, técnicos, comerciais e/ou sociológicos) que conferiam a elegibilidade dos autores como um bloco, muito poderia ter sido dito – as anotações apensas a cada nome, por mais extensas ou desenvolvidas que sejam, enfermam sempre dessa necessária visão global. E, neste caso, a posição mais cómoda é a do crítico, que desde logo poderia destacar um conjunto de nomes que foram esquecidos e outros que incompreensivelmente figuram no referido arrolamento.
Mesmo o critério temporal, o único verdadeiramente explícito, parece haver sido derrogado quando se inclui o questionabilíssimo Emilio Salgari (1862-1911) e se deixa de fora o Mestre Henry James (1943-1916), com um bom punhado de romances, novelas e contos escritos e publicados já no século XX; situação que se agrava com a não inclusão de um dos melhores poetas de todos os tempos, Nobel da Literatura em 1923, W.B. Yeats (1865-1939). Dos vivos a inclusão de Rushdie (n. 1947) e principalmente de Salinger (n. 1919) – que para além de À Espera no Centeio (ou Agulha no Palheiro; The Catcher in the Rye, 1951), andou apenas à volta dos hinduísmos e dos jovens místicos e assaz aborrecedores Glass e depois desapareceu – é mais do que discutível, quando se deixa de fora Pynchon (n. 1937), Roth (n. 1933), DeLillo (n. 1936), McCarthy (n. 1933) ou Updike (n. 1932), conjuntamente com o mais imperdoável esquecimento (ou não, desconheço o critério), o do inigualável Saul Bellow (1915-2005), Nobel da Literatura em 1976; ou até de Capote (1924-1984) ou Mailer (1923-2007), que, em estilos diametralmente opostos, revolucionaram as letras norte-americanas com os habituais efeitos de contagio para o universo das diferentes literaturas.

Muito poderia ser ainda dito sobre a referida listagem, como a inclusão de Barbara Cartland e de J.K. Rowling, e a não inclusão de nomes como Chesterton, Gide, Malraux ou Blanchot. Todavia, arriscando-me a proferir um lugar-comum, tudo isso é discutível e de sobremaneira relativo. Jamais se poderá fazer uma lista desta estirpe com alguma objectividade, entenda-se com o toque de mágica de agradar a todos. Gosto de lá ver Umberto Eco – como gostaria de ver incluído pelo menos um dos beatniks, porque não Kerouac? –, mas intuo que uma esmagadora maioria dos leitores acha a sua inclusão mais do que discutível.

Finalmente, a propósito deste artigo, li
um texto divertidíssimo do Alexandre Andrade, em que confessa que, ainda nesta Primavera, irá tatuar na sua omoplata direita a labiríntica e claustrofóbica inscrição perecquiana “11, rue Simon-Crubellier”José Luís Peixoto tem tatuado num dos braços “Yoknapatawpha” o condado imaginário que aparece na maioria dos romances (rústicos ou de folclore regional como lhes chamava Nabokov) de William Faulkner. Pois, eu, meu caro Alexandre ponho-me a nu, e revelo aqui e agora, com prova documental, que a pele que cobre este arcaboiço, que se foi agigantando, desde o escultural até levemente (que ironia) aceitável para a vista, desde o fatídico dia para qualquer homem... (adiante) dispõe de 3 (três) tatuagens Por amor a Borgespor Borges (nas costas), Por amor a Nabokovpor Nabokov (no braço esquerdo e que enorme heresia para um quase quase russo branco, mas o direito já tinha o indispensável “amor de mãe”) e uma terceira num local inconfessável, tal como a daquele bombeiro voluntário bem abonado dos chistes ordinários, residente na freguesia de Valbom, concelho de Gondomar, distrito do Porto, que aparente e molemente havia mandado tatuar a palavra “Bombom”…
Um dos romances da minha vida, foi escrito por um autor inglês chamado Malcolm Lowry, que conta a história fatídica, ocorrida num só dia, o dia dos mortos, de um cônsul inglês, de seu nome Geoffrey Firmin, numa terra ficcionada (que chegou a existir durante o domínio do Império Azteca), onde hoje existe Cuernavaca no México.
Trata-se de um lânguido Quac

Pergunta ao estilo Yorn: Que mais lugares imaginários saídos da literatura tens tu tatuados no teu corpo?