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sábado, 3 de maio de 2008

Quac

No dia 23 de Abril do mesmo ano (embora por calendários diferentes, separados por 10 dias), 1616, morriam William Shakespeare e Miguel de Cervantes, em Stratford-upon-Avon e Madrid, respectivamente, data aproveitada pela UNESCO em 1995 para dar início à celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Este ano, por terras lusas, saía para as bancas o primeiro número da renovada revista Ler (edição n.º 69 desde a sua inauguração), de novo dirigida por Francisco José Viegas e agora com periodicidade mensal.
Na capa, para além do principal destaque dado a uma entrevista dada por António Lobo Antunes a Carlos Vaz Marques – este último, é, no meu entender, de longe e desde há muito, o melhor entrevistador português da actualidade sobre assuntos da ciência e da cultura –, dá-se especial relevo a um artigo, em jeito de lista, que no meu caso, um listómano assumido, sobressalta da mesma forma como a heroína sobressaltava W.S. Burroughs – oferecesse a Ler uns gramas… –, sob o título de “Os 50 autores mais influentes no século XX” [pp. 48-59]. Na página 48 surge o subtítulo “e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, assinado pelo jornalista José Mário Silva. Sobre a dita lista e sem um texto introdutório de elucidação sobre os critérios (artísticos, estéticos, técnicos, comerciais e/ou sociológicos) que conferiam a elegibilidade dos autores como um bloco, muito poderia ter sido dito – as anotações apensas a cada nome, por mais extensas ou desenvolvidas que sejam, enfermam sempre dessa necessária visão global. E, neste caso, a posição mais cómoda é a do crítico, que desde logo poderia destacar um conjunto de nomes que foram esquecidos e outros que incompreensivelmente figuram no referido arrolamento.
Mesmo o critério temporal, o único verdadeiramente explícito, parece haver sido derrogado quando se inclui o questionabilíssimo Emilio Salgari (1862-1911) e se deixa de fora o Mestre Henry James (1943-1916), com um bom punhado de romances, novelas e contos escritos e publicados já no século XX; situação que se agrava com a não inclusão de um dos melhores poetas de todos os tempos, Nobel da Literatura em 1923, W.B. Yeats (1865-1939). Dos vivos a inclusão de Rushdie (n. 1947) e principalmente de Salinger (n. 1919) – que para além de À Espera no Centeio (ou Agulha no Palheiro; The Catcher in the Rye, 1951), andou apenas à volta dos hinduísmos e dos jovens místicos e assaz aborrecedores Glass e depois desapareceu – é mais do que discutível, quando se deixa de fora Pynchon (n. 1937), Roth (n. 1933), DeLillo (n. 1936), McCarthy (n. 1933) ou Updike (n. 1932), conjuntamente com o mais imperdoável esquecimento (ou não, desconheço o critério), o do inigualável Saul Bellow (1915-2005), Nobel da Literatura em 1976; ou até de Capote (1924-1984) ou Mailer (1923-2007), que, em estilos diametralmente opostos, revolucionaram as letras norte-americanas com os habituais efeitos de contagio para o universo das diferentes literaturas.

Muito poderia ser ainda dito sobre a referida listagem, como a inclusão de Barbara Cartland e de J.K. Rowling, e a não inclusão de nomes como Chesterton, Gide, Malraux ou Blanchot. Todavia, arriscando-me a proferir um lugar-comum, tudo isso é discutível e de sobremaneira relativo. Jamais se poderá fazer uma lista desta estirpe com alguma objectividade, entenda-se com o toque de mágica de agradar a todos. Gosto de lá ver Umberto Eco – como gostaria de ver incluído pelo menos um dos beatniks, porque não Kerouac? –, mas intuo que uma esmagadora maioria dos leitores acha a sua inclusão mais do que discutível.

Finalmente, a propósito deste artigo, li
um texto divertidíssimo do Alexandre Andrade, em que confessa que, ainda nesta Primavera, irá tatuar na sua omoplata direita a labiríntica e claustrofóbica inscrição perecquiana “11, rue Simon-Crubellier”José Luís Peixoto tem tatuado num dos braços “Yoknapatawpha” o condado imaginário que aparece na maioria dos romances (rústicos ou de folclore regional como lhes chamava Nabokov) de William Faulkner. Pois, eu, meu caro Alexandre ponho-me a nu, e revelo aqui e agora, com prova documental, que a pele que cobre este arcaboiço, que se foi agigantando, desde o escultural até levemente (que ironia) aceitável para a vista, desde o fatídico dia para qualquer homem... (adiante) dispõe de 3 (três) tatuagens Por amor a Borgespor Borges (nas costas), Por amor a Nabokovpor Nabokov (no braço esquerdo e que enorme heresia para um quase quase russo branco, mas o direito já tinha o indispensável “amor de mãe”) e uma terceira num local inconfessável, tal como a daquele bombeiro voluntário bem abonado dos chistes ordinários, residente na freguesia de Valbom, concelho de Gondomar, distrito do Porto, que aparente e molemente havia mandado tatuar a palavra “Bombom”…
Um dos romances da minha vida, foi escrito por um autor inglês chamado Malcolm Lowry, que conta a história fatídica, ocorrida num só dia, o dia dos mortos, de um cônsul inglês, de seu nome Geoffrey Firmin, numa terra ficcionada (que chegou a existir durante o domínio do Império Azteca), onde hoje existe Cuernavaca no México.
Trata-se de um lânguido Quac

Pergunta ao estilo Yorn: Que mais lugares imaginários saídos da literatura tens tu tatuados no teu corpo?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

No se puede vivir sin amar

11.º Passo: oração e meditação para consumar uma vontade inaudita de desprendimento.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)

Um dos livros da minha vida:


«Mas ali nada havia: nem cimos, nem vida, nem subidas. Nem aquele cume era afinal bem um cume; não possuía matéria, nem base firme. Além disso, o que quer que fosse que o sustentava começava a desintegrar-se, enquanto ele próprio ia caindo, caindo para dentro do vulcão; contudo devia ter conseguido subi-lo antes, pois agora rugia-lhe aos ouvidos o som obcecante da lava; tratava-se de uma erupção terrível e, contudo, não era o vulcão; era o próprio mundo que explodia, explodia, com negros jactos de aldeias catapultadas no espaço, com ele próprio a cair por entre tudo aquilo, por entre o pandemónio inconcebível de um milhão de tanques, por entre o imenso braseiro de dez milhões de corpos a arder, caindo, caindo, numa floresta...» (Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, Livros do Brasil; tradução de Virgínia Motta)

terça-feira, 27 de março de 2007

Um personagem nada acidental

Iris Murdoch - Um Homem AcidentalAustin Gibson Grey é Um Homem Acidental. Personagem principal do romance de 1971 da escritora britânica (de adopção) Iris Murdoch, nasceu em Dublin em 1919 e morreu em Oxford em 1999 vítima da Doença de Alzheimer.
Casada desde 1956 com o escritor e crítico literário John Bailey, Iris Murdoch é ademais conhecida pelas fortes raízes filosóficas da sua formação académica na Universidade de Oxford, baseada sobretudo no existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja marca se faz notar nas suas obras de ficção. Poetisa, dramaturga e ensaísta, foi contudo na literatura de ficção em prosa que se notabilizou. Obras como O Sino (1958), The Black Prince (1973, vencedor do prestigiado James Tait Black Memorial Prize), A Máquina do Amor: Sagrado e Profano (1974, vencedor do Whitbread Book Award), O Mar, O Mar (1978, vencedor do Booker Prize) e O Bom Aprendiz (1985) foram internacionalmente aclamadas como obras-primas da Literatura do século XX.

Este ano (em Janeiro) a excepcional editora lusa Relógio D’Água – cujo trabalho editorial tem permitido a publicação de obras de literatura de outros tempos que jamais haviam sido editadas no mercado português, ou daquelas cuja edição na língua de Camões se encontrava esgotada há décadas – publicou pela primeira vez no nosso país o romance de Iris An Accidental Man (1971) sob o título Um Homem Acidental.
Este romance de Iris Murdoch é, como tantos outros romances da autora, marcado pela matriz filosófica existencialista de Sartre. Fortemente imbuído do intrincado das relações sociais e das influências nefastas que as nossas acções exercem na vida dos outros de forma involuntária, apenas porque somos livres de as praticar, onde imperam a angústia perante a decisão e o absurdo da própria existência.

A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...

Assim é Austin Gibson Grey. Um anti-herói. Um homem que se define a si próprio como acidental. Aquele que pela sua acção aparentemente anódina traz a infelicidade ao mundo e destrói tudo aquilo que o rodeia. Um homem que vive com a culpa dessa destruição e que resignadamente sobrevive com essa consciência. Vive na angústia da separação física da mulher que ama e cuja existência em comum é entendida como um cataclismo por razões aparentemente injustificáveis e não encontradas à luz da razão. A dado passo, num curioso diálogo sobre a Irlanda – terra natal da autora, remota e fortuita na sua consciência, já que viveu em Inglaterra desde os primeiros anos da sua infância –, estabelece-se a analogia entre a terra de São Patrício e o acidental protagonista: «A Irlanda é como o Austin. Bonita para se ver e tem-se pena dela, mas é, de certo modo… horrível.» (pág. 246)
Austin desiste da possibilidade de uma existência feliz, abdica da luta, porém a luta vem ter com ele a cada gesto que, por mais inocência que possa encerrar, arrasa e implica tudo e todos que o rodeiam, mas que, de forma paradoxal e inexplicável, o próprio, o pólo de atracção da tormenta, acaba por sair incólume:
«Austin faz com que qualquer um fique com um ar pálido e assombrado.» (pág. 363)
É em roda deste personagem que se desenrola a trama com mais de uma dúzia de personagens que gravitam em torno dessa contingência existencial que é Austin Gibson Grey, a que não falta um espaventoso carro desportivo, que passa de mão em mão, apelidado de Kierkegaard...
Um Homem Acidental é um puro exercício da mestria das capacidades de narrativa de Iris Murdoch.
A escrita flui num manancial de diálogos que são acompanhados de algumas introspecções, mas sobretudo de cartas e bilhetes que dão uma sequência lógica ao enredo, através da revelação das inquietações mais profundas dos personagens. E depois temos os eventos sociais, onde Murdoch através de frases curtas e aparentemente retiradas do contexto nos transmite de forma magistral a frivolidade da classe média inglesa, numa sociedade que ainda mal acabara de lamber as feridas de uma guerra atroz e que parecia subsistir num auto-estimulado autismo num mundo onde dois pólos opostos se digladiavam no extremo oriente afastando, em definitivo, a barbárie das batalhas fratricidas do martirizado solo europeu.
Um Homem Acidental é um livro de leitura compulsiva, pleno de ironia, com momentos de boa disposição – alguns elevados ao paroxismo do burlesco que nos induzem à manifestação de uma sonora e saudável gargalhada –, e outros que exigem uma reflexão, não à laia de uma enfatuada lição sobre a condição humana, mas sobre os efeitos perversos que as tais contingências resultantes do exercício da nossa inderrogável liberdade individual têm sobre os outros, o inferno.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Iris Murdoch, Um Homem Acidental. Lisboa: Relógio D’Água, Janeiro de 2007, 365 pp. (tradução de Maria de Lourdes Guimarães; obra original: An Accidental Man, 1971).