«Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente. […] Que repouso grandioso este, jazer aqui imóvel debaixo dos ramos de pinheiros, na neve. É o melhor que podias ter feito. As pessoas tendem sempre a magoar excêntricos como tu e a rir-se do sofrimento. Transmite as minhas saudações aos mortos amáveis e silenciosos que estão debaixo da terra e não ardas por muito tempo nas chamas eternas da inexistência.»
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, pp. 86-87.
[Lisboa: Relógio D’Água, Setembro de 2009, 233 pp; tradução de Isabel Castro Silva; obra original: Geschwister Tanner, 1907.]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
domingo, 25 de outubro de 2009
A morte de um poeta
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Uma editora a desperdiçar qualidades
Em Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).
Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.
Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.
(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)
É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.
De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Uma lenta agonia

De Vila-Matas sobressai Walser, de quem o autor espanhol, mediante um estudo aprofundado das suas vida e obra, se confessa um grande admirador não só pela integridade estético-literária, como também pelo seu conhecimento apurado e perspicaz da condição humana, principalmente do papel do divino na cultura europeia que exulta os valores da submissão e da resignação, em detrimento da liberdade individual, que reduzem o indivíduo ao tal “zero à esquerda”, consciência tão presente no pequeno Jakob ou em Joseph Marti (O Ajudante).
Daí advém o conceito de dor nas suas diversas acepções ou planos que se intersectam, contribuindo para a obnubilação do conhecimento da sua real origem. Dificilmente descortinamos o primário que se metastizou pelo espírito em diversos tipos de dor.
A integridade walseriana subsume-se ao estoicismo e ao recolhimento, à assunção da existência como um eterno jogo de causalidade bidireccional que, quando se torna consciente, apenas encontra redenção na solidão auto-infligida, a bela infelicidade.
Mea culpa
Provavelmente, partindo do pressuposto, meramente teórico, da possibilidade de pôr em evidência qualquer dos seus elementos constitutivos, a mais terrível das dores advém de um sentimento de culpa pelo cometimento de uma injustiça; e a pungência dessa dor resulta, muitas vezes, na sua forte capacidade de sanação. Ao contrário da dor da perda, a dor que resulta da consciência da injustiça cometida resolve-se facilmente pelo simples pedido de perdão, sentido, natural, sem compensações, apenas imbuído de um espírito de reparação que nos confira a certeza da extinção de um imaginável ressentimento destruidor de uma amizade desinteressada que rareia nos tempos que correm.
Contrição com destinatário.
terça-feira, 22 de maio de 2007
A Bela Infelicidade
«Talvez se esconda em mim um homem muito, muito vulgar. Ou talvez tenha sangue azul. Não sei. Mas uma coisa sei com certeza: serei no futuro um zero à esquerda, um zero muito redondo e encantador.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 10).
«Que eu seja o mais inteligente de todos não é talvez motivo para grande satisfação. De que servem pensamentos e inspirações quando não sabemos que fim lhes dar, como é o meu caso? Pois bem. Não, não, quero tentar ver claramente, mas não me agrada a altivez, não quero nunca, nunca sentir-me superior aos que me rodeiam.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 26).
Desses tempos apenas sobreviveram as conversas que manteve com o seu amigo Carl Seelig nos dias em que este o visitava no sanatório e alguns manuscritos, a que Walser chamou de microgramas, redigidos a lápis – a perecibilidade e a transitoriedade do grafite –, e que, ainda hoje, são objecto de investigação.
De Vila-Matas já conhecíamos o seu fascínio pelos “escritores do não” desde a publicação do seu famoso romance-ensaio Bartleby & Companhia, dando destaque a figuras como Walser, Hölderlin, Salinger ou Pynchon. Desta feita, Vila-Matas aprofunda o tema, trabalha a componente romanesca dos escritores do não e estabelece uma narrativa na primeira pessoa: Andrés, ou Doutor Pasavento, ou Doutor Ingravallo, ou Doutor Pynchon (& Pinchon).
Esta é a história de Andrés, escritor catalão, que a partir de um sonho sobre um estranho desaparecimento da torre do castelo de Montaigne – considerado o pai do ensaio literário –, protagonizado por um imaginário Doutor Pasavento, fisionomicamente parecido com o seu amigo e escritor basco Bernardo Atxaga, parte em busca da verdade, isto é, de uma identidade que parece haver-se perdido num mundo de fama e de êxitos com realidades e linguagens distintas.
Sevilha será o ponto de partida. O sonho envolve Atxaga e a sua reclusão de quatro anos para escrever o romance El hijo del acordeonista (obra de 2004, publicada originalmente em basco em 2003), através do qual o autor basco evoca, em definitivo, o desaparecimento da sua mítica terra imaginária Obaba.
Decorridas duas semanas Andrés é convidado para intervir numa conferência que se irá realizar no Mosteiro da Cartuxa em Sevilha, subordinada ao tema “a fronteira entre a realidade e a ficção” onde estará presente Atxaga. Andrés, perante a gritante vulgaridade do tema, ironiza, dizendo que irá vestido de mordomo.
O sonho materializou-se numa realidade concreta, palpável e assustadora, facto que Andrés assume, com um grau crescente de preocupação, como o momento decisivo, a oportunidade para intentar a, há muito esperada, viragem radical na sua vida. Enquanto discorre sobre o assunto a dissertar na dita conferência, Andrés vê em Atxaga a sua redenção. Então, decidiu que se este último não se dignasse a comparecer ao encontro literário – hipótese que o narrador considerou de ocorrência muito provável –, iria apresentar um ensaio sobre o desaparecimento, recordando as palavras de Maurice Blanchot quando lhe perguntaram para onde caminhava a literatura: «Dirige-se para si mesma, para a sua essência, que é o desaparecimento» (pág. 18).
As páginas que se seguem falam da luta interior do escritor com a sua consciência, da busca do seu eu belo e infeliz, da difícil jornada que necessariamente se terá de iniciar para fugir à solidão do reconhecimento, da fama e da penosa tarefa de gestão das expectativas dos outros perante o autor e a sua obra, para finalmente se chegar à solidão purificadora do anonimato, a bela infelicidade, a escolha de Walser, o acto de nobreza quando este se apercebeu de que ouvia vozes e lhe foi diagnosticada esquizofrenia.
É nesta encruzilhada que se encontra o Doutor Pasavento, confrontado com a desmultiplicação de personalidades ou até com o tema do doppelgänger literário, dos opostos que parecem digladiar-se sobre a ténue linha que separa o abismo – a morte, o desaparecimento – da realidade, que nesta obra assenta, de forma mais visível, na ânsia do autor em saber como o mundo literário vem tratando o seu desaparecimento e, simultaneamente, no desejo irreprimível de cair definitivamente no esquecimento.
Eis como se define Pasavento num bilhete deixado à sua editora francesa no Hotel Suède, situado na inquietante, e crucial para a trama, rue Vaneau em Paris:
«É possível que ninguém, a partir de hoje mesmo, volte a ter notícias minhas. Que ninguém julgue que tenha sido abduzido por alguma alimária de um planeta longínquo. Sou o meu próprio sequestrador. As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e famas neste mundo, não foram feitos para mim. Quero esconder-me de tudo e de todos, não ter de aparecer mais em público, não ter de viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. Quero levar a vida de um Salinger, por exemplo, ou a de um Thomas Pynchon. Ou a de um Miquel Bauçà […]
«Continuarei a escrever, mas, ao contrário de Salinger, Pynchon e Bauçà, não o farei para publicar, porque também vou deixar de publicar. Procurarei voltar a ser aquele jovem que escrevia sem sequer pensar em publicar e que todos deixavam em paz […] E aos que se cruzarem no meu caminho dir-lhes-ei que procuro a verdade. Di-lo-ei como que ausentando-me, como quem se ausenta para saudar a beleza.» (pp. 282-283).
O último trabalho de Enrique Vila-Matas, sem ser um excelente romance, é certamente virtuoso e, acima de tudo, uma obra de difícil concepção; porém não é, ao contrário do que se diz pelo mundo da crítica, o melhor que o literato catalão escreveu até aos dias de hoje. Reconhecidamente, a obra dispõe de momentos de puro brilhantismo e de mestria no domínio da técnica literária – como é apanágio de Vila-Matas –, contudo existem outros de um entediante e exasperante solilóquio, perdendo-se o fio condutor no manancial de citações que se confundem com as ideias do próprio autor… ou melhor, do Doutor Pasavento – ou será Pynchon? –, apesar de considerar que parte dessa revelada fragilidade, a de estabelecer uma teoria com um recurso excessivo a fontes secundárias, é puramente intencional, cumprindo, assim, um dos objectivos principais ao conceder o tom ensaístico pretendido para a obra.
Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Janeiro de 2007, 405 pp. (tradução de Jorge Fallorca; obra original: Doctor Pasavento, 2005).
E a terminar, para de uma mancheia de frases se poder construir uma exegese à laia de posfácio moralista:
«os êxitos têm apenas por companhia inseperável a confusão e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma autocomplacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da consideração de terceiros.»
Robert Walser, Jakob von Gunten [esse pequeno sábio] (Relógio D’Água, 2005, pp. 81-82).
domingo, 20 de maio de 2007
Depois da Aparição

Após a inscrição daquele acontecimento na minha memória, circulei todos os dias pelos mesmos sítios à mesma hora e o trânsito corria fluído, sem entraves, sem encontrar Borges, ou alguém como ele, que caminhava do exterior para o interior para se perder do lado de lá, o Porto, nos seus labirintos de gente dispersa, hipnotizada pelo desejo de sobrevivência, sem saber que por mais que calcorreie essas artérias, a sua concepção, empreendida por algo que me foge aos apertados limites da compreensão tão humanos, foi apenas a materialização do divino pelo necessário inculcamento do desdém pela imortalidade. Em suma, vias porventura ilusórias e sinuosas que foram engenhosamente construídas para que apenas pela morte surja a almejada libertação.
Walser, em conversa com Seelig – via Vila-Matas –, referia-se aos monges voluntariamente encerrados nos mosteiros que olham com sede de exterior, de dentro para fora, o objecto que por uma vez negociaram para redenção da alma. Têm nostalgia do exterior. Porém, os escritores, aqueles que se fecham por dias infindos de solidão, empreendem um caminho sem retorno, embora voluntário, em busca do interior perdido, da sua própria identidade que se foi arruinando por paragens remotas, e agora inalcançáveis, nas intermináveis deambulações por esse labirinto: a profunda nostalgia do interior.
E assim deverá andar Borges, aquele que vi da janela do meu carro numa manhã de Maio de calor abrasador, caminhado pela Circunvalação do exterior para o interior num aparente movimento perpétuo.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Este caro prazer – IV
[intróito]Para manter alguma coerência com alguns princípios que formulei quando iniciei a actividade na blogosfera, amplamente dissipadora de maus espíritos, abster-me-ei de mais considerandos da teoria económica, até em razão da própria formação académica que versou sobre questões felizmente mais pragmáticas e menos dadas à efabulação.
[exorcismo]
Há uns dias falava do famoso binómio trabalho e ócio e da eterna busca de uma estável harmonia dessa misteriosa dicotomia que, paradoxalmente, se consubstancia nessa palavra inaudita: “felicidade”.
O mais frustrante, para quem se interroga sobre os meios para alcançar esse fim, promissoramente feérico, é entender que essa perenidade assenta num círculo vicioso: a incomensurabilidade, a diversidade gradativa e a forte carga pessoal e intransmissível no alcance desse objectivo supremo é o que simultaneamente nos embota o espírito e que, na tremenda ânsia de o divisar, se constitui no nosso pathos.
Recorrendo à judiciosa sabedoria popular, esta atreveu-se a transformar aquele binómio num trinómio cujo equilíbrio é perfeitamente inalcançável – a típica vitimização do ser humano pela cruel provação divina, um sentimento colectivo de invencibilidade do desígnio. Trata-se da famosa tríade “saúde, tempo, dinheiro”, cuja busca da tal combinação óptima determina a divisão do nosso longo processo ontogenético em três fases, sendo que, para tristeza geral – assim augura o fatalismo popular –, um desses factores assume o valor “zero” ou dele se aproxima de forma vertiginosa numa dessas fases – normalmente anteposto da expressão “falta de”. E esse é o nosso Óptimo de Pareto em cada uma das etapas – o exorcismo parece não resultar.
[incerteza]
É, pois, com alguma estranheza, espanto e um sonoro suspiro de “isto só a mim!” que verifico que neste momento, seguindo esse presságio de almanaque com um forte cariz dogmático, atravesso o 2.º estágio do tal desenvolvimento existencial – período compreendido entre o 1.º emprego e o momento da reforma laboral – e porventura o mais curioso, ao arrepio do doutamente preceituado, “tempo” é o que neste momento parece não me faltar – pura ilusão? Será um megalómano sentimento de omnipotência, típico dos frequentadores da terceira década da vida?
Mas se, ao arrepio do credo popular, estabeleci com convicção a possibilidade da optimização do tempo para o alcance do meu bem-estar – ou felicidade –, a situação agrava-se pelas sérias dúvidas quanto à minha “saúde” – possivelmente mental, seguindo o ditame pessoano da incerteza pela própria lucidez – e, por fim, com as muitas certezas no que respeita ao “dinheiro” – escassíssimo –, apenas não lhe conhecendo o destino no momento da separação: Quo vadis?
Esperei tempos infindos e não houve resposta, assim sendo resta-me um desleninizado: Que fazer?
Lá vem Rilke uma vês mais. «precisas de mudar de vida» (du mußt dein leben ändern).
[dúvida sobre a incerteza]
Mas, e se seguir Walser? Não necessariamente o Mestre que acabou naquela precariedade existencial, mas Vladimiro, esse ser tão certinho e realizado, desembaraçado na descoberta do caminho (ou atalho) para a felicidade: «Tenho vivido até agora de acordo com o que considero bom e justo e não temo a possibilidade de que alguém possa vir provar-me que errei, pelo que me acho com todo o direito de afirmar que errar é humano. Compreendo, no entanto, que seria bom agirmos segundo nobres critérios, reduzirmos um pouco as alegrias da vida para cumprirmos outras tarefas, entendermos a felicidade também de outras formas que não apenas a de preservarmos a boa disposição, não nos tornarmos dependentes desta última, receosos a toda a hora de a perder, sempre preocupados em a manter viva; não, antes ousar, de peito aberto, sacrificar a nossa felicidade e talvez, como consequência disso, ganhá-la de novo.» in Robert Walser, A Rosa, pp. 16-17, (Relógio D’Água, 2004; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Die Rose, 1925)
Será essa presunção do espírito de realização – como posteriormente afirma Walser –, não enxergar o que nos incomoda, não enfrentar a injustiça, em suma, fugir da vida, o trilho certo para a tal felicidade?
Porventura é a isso que estamos condenados, a ignorância como via aberta para a santidade, o que não pressentimos não nos arruína; o eterno miasma judaico-cristão do oferecimento da outra face e da felicidade suprema para os pobres de espírito.
[constatação]
Para concluir esta chatice verborreica que já se estende por quatro longos episódios, tenho de constatar que o “tempo” nunca será um problema; ele é um estado de espírito que deriva da própria “saúde”, no seu sentido lato, que poderá ser agravada com a escassez do vil metal.
Por muito que nos esforcemos, empregando o nosso tempo, em obter o dinheiro indispensável para a manutenção da nossa sanidade física e psíquica, chegaremos desde logo à conclusão que esse tempo despendido em trabalho jamais nos trará a felicidade, porque não existe o indispensável ócio e assim, o actualmente acelerado ritmo editorial português só será um problema de saúde pública se acharmos que podemos deter o melhor dos dois mundos: tempo para o lazer e muito dinheiro.
Hoje mesmo receberei o primeiro prémio do Euromilhões…
[fundamento]
Inútil.
sábado, 17 de março de 2007
Ninfetas e Mancebos – 1

Filme de 1962 do Mestre Stanley Kubrick, com argumento de Vladimir Nabokov, baseado no seu romance homónimo de 1955.
Comentário: suponho que foi Walser (e a ele tenho recorrido com alguma frequência nos últimos tempos) que disse que se um escritor são é mau escritor, é, nesse caso, um escritor enfermo, mas se um escritor doente produzir obras boas, ele pertence ao grupo das pessoas sãs, através da sua escrita.
Quem fala da Literatura, pode estender a asserção aos outros domínios da arte.
Não estou com isto a questionar a avaliação da sanidade mental de Nabokov aos olhos dos filisteus, aliás isso pouco lhe importava, mas a assumir um comportamento desviante que se corporiza na arte, a tal válvula de escape freudiana.
Contudo, esta é a minha convicção, as obras de arte potencialmente derrogadoras da concepção moral estabelecida numa dada sociedade num dado momento, nada mais são que o produto da criatividade de alguém que, irreverentemente, nos transmitiu de forma exaltada determinada concepção, mesmo que o produto final encerre uma certa forma de messianismo ou pretensões dirigistas. Assaz diferente é o uso e abuso dessas tais mensagens derrogadoras por uma qualquer chusma de reputados criativos, cuja obra criada apenas serve alguém cujos objectivos são unicamente mercantilistas e apenas dela se serviram para que a mais do que antecipada polémica produza resultados (económicos) na sua conta de exploração trimestral. Isso não é arte, é tão-só e somente um abuso da liberdade de expressão.
Este caro prazer – III
A Mónica e o Sérgio já me alertaram para a indispensável introdução da variável “tempo” – neste caso a falta dele –, e na realidade o “tempo” esteve indelevelmente associado ao objectivo inicial – como demonstrarei à saciedade – desta divagação manchada pela futilidade.
O episódio que me envolveu teve a qualidade de trazer à urdidura Walser e Kerouac – passe a pretensão e a companhia, o primeiro morreu louco e o segundo morreu de bêbado. Por outro lado, envolveu Mário Dorminsky, sendo que ele não o sabe, nem tão-pouco me (re)conhece.
Dezembro de 2006, antes do Natal, por volta das 3 da tarde. Desloquei-me à casa de perdição sob o pretexto de esgotar, em definitivo, a minha lista de presentes a oferecer na noite de 24 para 25. Discos, filmes e livros encheram três cestos que a cadeia francesa põe à disposição dos clientes – mal sabendo a tremenda falha ergonómica que tal objecto encerra. Quase que me poderia escusar de referir que mais de metade dos livros iria servir para atafulhar ainda mais – Voragem In Litteris – a minha abarrotada biblioteca de livros em espera.
Primeiro baque: 270 euros (3 pontos no cartão e mais 270 para os 1500 de desconto de 6%).
Segundo baque: embrulhos e etiquetas (a necessidade de).
Terceiro baque: longa fila que Mário Dorminsky me conseguira encobrir parcialmente dada a saudável envergadura.
Terceiro baque e 1/2: ainda gastou mais que eu (pulsão voyeurística).
Kerouac, Walser e Kerouac. (Não, não se trata do Macaco poeta da preclara Preciosa! Foi mesmo assim.) Os Subterrâneos (x2) e O Ajudante. Ambos edição Relógio D’Água. Oferta, oferta para mim e para mim mesmo.
Conversa agradável com Dorminsky assim que as meninas embrulhadeiras nos colocaram lado a lado em frente à mesa a abarrotar de embrulhos de vários tamanhos e feitios. Inevitável espiadela mútua e pergunta surda: “o que é que o gajo vai ler? E oferecer? Hum!”, o importante blogger (invisível) e o eminente cinéfilo e figura pública: “Ah! Ilha de Xisto! Excelente livro! O Manuel Carvalho agradece”, disse Dorminsky. Embrulha e empresta-me a caneta… para o Pai.
Dezenas de presentes e não-presentes depois: “Bom Natal!”
Janeiro de 2007. Antes de O Engenho de Arenas (comprado na mesma data, local e momento; sem embrulho, claro!), apetecia-me antes tomar algo… O Ajudante de Walser…
Robert? Robert, por onde andas? (pergunta, porventura, acompanhada de um trautear típico de situações de alegre busca de objectos perdidos e supostamente à mão de semear).
Kerouac, Kerouac. Os Subterrâneos (x2).
FODA-SE!
Moral da história: falar com celebridades, para além de ser um súbito impulsionador de vociferação de imprecações, é causa directa de iliteracia.
Epifenómeno: “Blogger is undergoing brief maintenance and will return in a few minutes”, quando quis publicar o texto... ainda não possuo O Ajudante.
(continua)