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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Epígrafe e abertura. Obsessões.

Já muito se discutiu sobre a importância da frase de abertura de obras de ficção. Na maioria das vezes, é-lhe atribuída o poder de um sortilégio paralisante pela forma como agarra o leitor do princípio ao fim do livro. É óbvio que esta imagem do magnetismo literário das frases de abertura é um mero exercício teórico e hiperbólico para se discutir literatura e destreza literária, se não o fosse, o que seria de uma frase tão inócua como «Call me Ishmael.» («Tratem-me por Ismael.») do Moby Dick de Melville – classificada num concurso promovido pela revista American Book Review, que contactou para o efeito um conjunto alargado de escritores e críticos, como a melhor frase de abertura de romances – se não se tivesse em devida conta o corpo e o desenvolvimento da obra? E essa importância, nem tão-pouco sairia reforçada pela frase de encerramento «It was the devious-cruising Rachel, that in her retracing search after her missing children, only found another orphan.» («Era o Raquel, que prosseguia o seu errante cruzeiro e que tinha voltado para trás, na sua referida busca do filho perdido, não tendo achado mais do que outro órfão.») – esta classificada em 25.º lugar, quando uns tempos mais tarde a mesma publicação resolveu elaborar as 100 melhores frases de encerramento de romances.
Todavia, há um facto que não pode ser negado, a teimosa persistência de algumas delas na nossa memória, normalmente tão diligente a abandonar o supérfluo. Quem leu dificilmente se esquecerá da recordação aparentemente indelével de Aureliano Buendía da viagem que fez com o pai para conhecer o gelo enquanto, anos volvidos, enfrentava o pelotão de fuzilamento (García Márquez); das parecenças das famílias felizes e das dissemelhanças entre as infelizes (Tolstoi); da necessidade de casar um homem solteiro que possuísse uma grande fortuna (Austen); do monstruoso acordar de Gregor Samsa após sonhos agitados (Kafka); e por aí em diante.
Na realidade, confesso aqui e agora, é uma das minhas muitas manias relacionadas com o processo de aquisição de um livro: procurar a frase de abertura de uma determinada obra (de ficção, claro) sempre que me desloco a uma livraria e pego num livro que por conselho, alarde publicitário, curiosidade ou intuição, folheio e cheiro antes de o pousar de novo, em definitivo ou até nova oportunidade, ou de o agarrar e com ele me dirigir à caixa que me deixará materialmente mais pobre, juntando-se à miríade de obras que aguardam pelo passar dos meus olhos, dada a minha declarada oneomania predominantemente bibliómana e cinéfila – se tudo correr de acordo com o previsto, esgotá-los-ei na minha já eventualmente decrépita passagem pelos oitenta anos…

Folheava O Último dos Savage um livro do escritor e enólogo Jay McInerney1, fui desde logo agarrado pela epígrafe escolhida, de autoria do último dos duros:

«…ou se é rebelde ou conformista, ou se é um homem de fronteira do Oeste selvagem da vida nocturna americana, ou se é uma casa Quadrada, apanhado nas teias totalitaristas da sociedade americana, condenado ao conformismo sem apelo nem agravo, se se quiser triunfar.»
Norman Mailer (pág. 9)


Depois veio a dilacerante frase de abertura de McInerney:

«A capacidade de ter amigos é a maneira de Deus pedir desculpas pelas famílias que temos.» (pág. 13)


(Descontinuidade voluntária, para não danificar o que ficou para trás. Notas e referências no final. Publicação prevista, 6 de Junho às 0:30 WEST)

sábado, 10 de novembro de 2007

Galeria dos Sem Nobel

Norman Mailer morreu. De insuficiência renal, dizem, no Hospital Mount Sinai em Nova Iorque.
A ironia da sua morte: a Academia Sueca juntou-o a Tolstói, Joyce, Proust, Musil, Borges, Nabokov, Walser, etc.

Norman Mailer


Norman Mailer

(Nova Jérsia, 31 de Janeiro de 1923 – Nova Iorque, 10 de Novembro de 2007).

Nota: é, segundo dizem, a lei da vida, Manel.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

The Twofer

Michiko KakutaniRoth já o havia confirmado, Nathan Zuckerman – para muitos o alter-ego do autor norte-americano – despede-se do público com Exist Ghost, o nono livro a contar com o atormentado personagem – décimo com a compilação Zuckerman Bound (1985) –, havendo intervindo em seis como protagonista (incluindo o mais recente) e nos restantes como narrador e personagem secundário.
Depois da valente zurzidela em Todo-o-Mundo (Everyman, 2006), que foi devidamente precedida por outras impiedosas recensões, com destaque para Teatro de Sabbath (Sabbath’s Theater, 1995), Michiko Kakutani, crítica literária residente do periódico
The New York Times, vencedora do Pulitzer para a Crítica em 1998 pela sua «escrita apaixonada e inteligente sobre livros e literatura contemporânea» [tradução AMC], aprova o último romance de Philip Roth – o que pode significar que, de facto, o achou uma maravilha, dada a sua embirração com o escritor de Newark e quejandos (já lá vamos…)
Em boa verdade, para a letrada nipo-americana nem tudo é mau com Roth. Kakutani sempre se confessou como admiradora incondicional da Trilogia Americana (do pós-guerra), com especial destaque para Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) – curiosamente, o meu romance preferido, entre a dezena que tive a oportunidade de ler de Philip Roth.
Porém, a misoginia latente nas restantes obras do autor, a informal, solta e obscena linguagem usada – na minha óptica, um dos temperos que contribuem para a excepcionalidade do produto final rothiano –, acrescentando-se, segundo palavras da própria, a superficialidade ou lhaneza de algumas das suas últimas obras como Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) e de Todo-o-Mundo, deram-lhe o ensejo para desancar, através de uma prosa rebuscada, perifrástica e com grande intensidade adjectival, usando a sua página no The New York Times Book Review como veículo da sua verrina, um dos mitos vivos da literatura norte-americana, cuja obra será publicada na íntegra, e ainda em vida, na Library of America.
Mas Philip Roth não é a única presa nas garras do falcão desgrenhado de origem japonesa. Aliás, Kakutani é suficientemente conhecida pela sua acerba implicância com os escritores anglo-saxónicos, brancos e do sexo masculino, e quase todos pertencentes à mesma geração: Updike e Pynchon, para além do já ido pai Bellow, e, em especial, Norman Mailer, com quem já se envolveu em ferozes altercações, chegando ao ponto de este último se ter visto na obrigação de defender Roth, com o qual mantém uma animosidade surda, de origem bellowniana, quando Kakutani trucidou Teatro de Sabbath.
Em 2005, em entrevista à revista Rolling Stone, Mailer disse:
«Kakutani é uma mulher kamikaze. Ela despreza os escritores masculinos e brancos, e eu sou o seu alvo preferido […] Todavia, os editores do Times não a podem despedir. Eles têm medo dela. Com as leis de discriminação e por aí fora, bom, ela é uma “três em um”[1]… Asiática, feminista, e… ah, qual é a terceira? Bom… vamos antes chamá-la de “dois em um”[2]… Ela é um adereço, e, provavelmente, lá no fundo, ela sabe disso.» [tradução AMC]

Shame on you, Mr. Mailer. (O autor deste blogue a aderir ao p.c.)

Notas:
[1] Tradução aproximada para “Threefer”, uso mais correcto em “conjunto de três produtos pelo preço de um”.
[2] Tradução aproximada para “Twofer”, mais correcto “conjunto de dois produtos pelo preço de um”. Pode também utilizar-se para mencionar uma pessoa pertencente a dois grupos minoritários ou objecto de discriminação, beneficiária por duas vias de um sistema de quotas (cf. "
twofer." Dictionary.com Unabridged (v 1.1). Random House, Inc. 04 Oct. 2007. No caso Mailer referia-se à condição de “mulher asiática”.

Recomendação: Ler o artigo The Twilight of the Old Goats de autoria do jornalista, crítico literário e ensaísta D.T. Max, publicado em Maio de 1997 na revista digital Salon.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Estabilização dos fluidos

Terminou a contraditória excitação estival em busca do sossego pretendido – ou ainda perdura, naturalmente sem o apodo semântico de insensatez, disfarçada de idoneidade intelectual ou de uma vontade inaudita de retomar os afazeres que fui abandonando em razão da manutenção de alguma da minha sanidade mental.
Carreguei uma pilha de livros para três lugares distintos deste nosso lindo Portugal. Descansei, o que se pode traduzir por boas leituras. Levei comigo algumas novidades editoriais, porém, dediquei-me, quase em exclusivo, à leitura daqueles livros que teimavam em ganhar pó – e este, juro-vos, não se consegue rentabilizar pela simples inspiração – na minha imensa estante, de proporções quase límbicas, de obras em lista de espera.
Já aqui dei conta dos três primeiros, aos que agora acrescento quatro, cujo grau de satisfação percorreu de lés a lés o meu espectro classificativo.
Sucintas notas de prova, por ordem de leitura:

Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2007, 341 pp.) [tradução de José Colaço Barreiros; obra original: El baile de la Victoria, 2003]
Eis o último romance do laureado escritor chileno, nascido em Antofagasta em 1940, autor do romance mais que sobreavaliado O Carteiro de Pablo Neruda (Ardiente paciencia, 1985) – transposto para o cinema em 1994 pelo realizador indo-britânico Michael Radford.
A Dança de Victoria é um amontoado de clichés, de lirismos anacrónicos com cheiro a naftalina; diálogos fúteis e pueris, metáforas perfeitamente inacreditáveis, quase sempre risíveis pela absurdez, com um enredo de base que pede meças a uma qualquer novela mexicana, onde nem sequer falta um vendável fim semi-trágico, à laia da necessária sangria para salvar do pecado capital as personagens que ficam para contar a história.
De escrita (demasiado) fluida e simples, por vezes intervalada por curtas deambulações poéticas desconexas, e com uma base narrativa a apelar ao realismo mágico sul-americano dos seus inalcançáveis predecessores mais imediatos como García Márquez ou de Vargas Llosa – apelo que se fica por um zunir quase inaudível ao ouvido atento da qualidade literária –, a mediania grassa por toda a obra.
Eis um bom exemplo:
«Ao entrar na zona, o jovem não pôde impedir que dele transbordasse felicidade. Era como se um duche de pistões, semelhante ao que usam para pintar a carroçaria dos automóveis, lhe tivesse varrido o sarro que acumulava nas suas entranhas. Sentia-se limpo, leve, e ao dar-se conta de que estava prestes a fazer em plena rua uma cabriola de dança, compreendeu pela primeira vez aqueles heróis dos musicais de Hollywood que se punham a cantar ou a dançar quando entravam em êxtase.» (pág. 239)
Classificação: ** (Medíocre)

Halldór Laxness, Gente Independente (Lisboa: Cavalo de Ferro, 2.ª edição, Junho de 2007, 483 pp.) [tradução de Gudlaug Rún Margeirsdóttir; obra original: Sjálfstætt fólk, 1933-1935]
Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), escritor islandês, vencedor do Nobel da Literatura em 1955 – um ano após Hemingway – escreveu Gente Independente em duas partes distintas (porém interligadas) entre os anos de 1932 e 1935, enquanto vagueava pela Europa.
Gente Independente é um épico sobre a Islândia e as suas insularidade e ruralidade, particularidades em profundo confronto com uma Europa capitalista, moderna, cujos sistemas político, económico, social e tecnológico se transmutaram em torno da produção massificada, naquela que ficaria conhecida como a segunda vaga da revolução industrial, iniciada em meados do século XIX – a acção decorre entre os primeiros anos do século XX e o final da I Guerra Mundial.
À narrativa não é alheia a simpatia do autor pela emergência do ideal socialista de Marx e Engels, que se ia corporizando na Rússia ex-czarista no pós-1917 – que mais tarde, na década de 50, foi objecto do mais veemente repúdio pelo autor, após a constatação in loco da tirania do regime soviético em nome de um ideal irrealizável –, como contraponto à crescente desumanização e à ruína do pequeno proprietário provocadas pela prevalência do capitalismo como o sistema económico.
A história centra-se na vida de um homem obstinado, rústico, tradicional – Bjartur das Casas de Verão – que, a dada altura da sua vida, tenta prosseguir o sonho de se tornar definitivamente independente dos senhores que o albergavam em troca da sua força de trabalho, num sistema tipicamente feudal na Islândia dos primórdios do século passado. Seguindo um enquadramento histórico exemplar, sucedem-se os episódios numas vezes carregados de um fundo cómico proporcionado pela perseverança cega de um personagem fascinante, bem estereotipado e ricamente trabalhado, noutras, porém, emergindo a crueza, a que o autor não se furta, de um sonho que se desfaz ou de uma vitória que se conquista à custa da vida daqueles que o rodeiam, correspondendo à materialização da ideia subjacente à obra de uma independência que jamais se alcança, perante a corrupção do poder e a perversidade de um sistema que, de forma ilusória, se vende e que, simultaneamente, se alimenta das esperanças dos mais fracos.
Gente Independente é um tratado sobre a Teoria Económica sob a forma de romance. Indispensável para compreender a génese do mundo, globalizado, como hoje o conhecemos.
Classificação: ***** (Muito Bom)


Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer (Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Julho de 2007, 115 pp.) [tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Kreutzerova sonata, 1889]
O que dizer desta pequena maravilha da literatura mundial? Que palavras nos restam para classificar pouco mais de cem páginas de uma novela, onde se descobre que o dom inato de um homem, do mesmo autor, para contar histórias curtas irradia com o mesmo brilho, as mesmas intensidade e integridade relativamente àquele que se evidencia pela simples leitura dos seus imortais romances enciclopédicos?
Há muito que Tolstói passou a desempenhar a função de adjectivo, sinónimo de “excelência literária” ou de “grau dificilmente alcançável de perfeição literária” ou simplesmente de “obra-prima”.
Depois dos colossais Guerra e Paz (1869) e Anna Karénina (1877), A Sonata de Kreutzer surge na fase espiritual da vida de Tolstói, iniciada com a publicação de cariz autobiográfico A Minha Confissão (1882), e na sequência da publicação de uma outra obra-prima, A Morte de Ivan Ilitch (1886) frequentemente usada com termo de comparação com a primeira. Se em Ivan Ilitch, Tolstói reflecte sobre a iminência da morte como epifania para a ainda tão contemporânea solidão acompanhada e do egoísmo imanente à espécie humana, em A Sonata de Kreutzer o autor russo reflecte sobre o ciúme, a mulher e o sacramento do casamento, onde a morte surge como instrumento manipulável, reverberando a sua conturbada vida marital após a sua recente conversão: a assunção da razão da moral cristã como princípio de vida e norma de conduta, independente do Homem ou da Igreja – que considera dissoluta, e lhe valerá a pena de excomunhão.
O mais admirável em Tolstói, engenhosamente evidenciado nesta pequena obra-prima, é a sua destreza na manipulação dos personagens, a sua capacidade divina de tão depressa as evidenciar, elevando-as à condição de protagonistas, como num passe de mágica as fazer desaparecer e colocar em primeiro plano uma outra que nada mais é que a ideia central, a moral, se quisermos, da história que nos pretende contar.
Tolstói foi unanimemente considerado pelos seus contemporâneos (Proust, Joyce, Dostoievski, Flaubert, Turguéniev ou Tchékhov) como o génio da Literatura. Morreu sozinho e isolado em 1910 – em 1901 foi atribuído o primeiro Prémio Nobel da Literatura, galardoou o autor francês Sully Prudhomme...
Classificação: ****** (Obra-prima)

Norman Mailer, O Fantasma de Hitler (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Agosto de 2007, 460 pp.) [tradução de Octávio Gameiro; obra original: The Castle in the Forest, 2007]
Com 84 anos, Norman Mailer publica a sua 46.ª obra, O Fantasma de Hitler, uma obra entre a ficção e o ensaio, tal como dezenas de obras da sua extensa bibliografia, que poderemos classificar como “não-ficção criativa”.
Desta vez a personagem é Adolf Hitler (1889-1945) e os primeiros anos da sua existência na sua Áustria natal – romance biográfico tal como Mailer havia feito anteriormente com Lee Harvey Oswald, Jesus Cristo, Pablo Picasso, ou a sua experiência de combate durante a II Guerra Mundial no seu livro, internacionalmente aclamado como a obra-prima, Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead, 1948).
O Fantasma de Hitler é uma história narrada por um personagem chamado Dieter – ou D. T., forma como pede aos leitores que o tratem – presumivelmente um pequeno demónio que mais tarde, a partir de 1938, se materializou como ex-oficial das SS de Heinrich Himmler, e agora, à distância de décadas, radicado nos Estados Unidos conta a história das suas inoculações malévolas ao jovem Adolf, sob a direcção do Mestre – supostamente Satanás – numa luta eterna, sem quartel, baseada na luta dos Dois Reinos descrita por Milton no seu Paraíso Perdido, pela conquista das almas com D. K. – abreviatura para Dummkopf, epíteto jocoso para Deus – e o seu exército de Bastões, como são apelidados os anjos:
«É capaz de ser por isso que o Maestro nos encoraja a falarmos de Deus como o D. K. (pelo menos a nós que trabalhamos em regiões onde se fala alemão. Na América, é o D. A. – dumb ass! Em Inglaterra, o B. F. – bloody fool! Para a França, A. S. – l’âme simple. Na Itália, G. C. – gran cornuto! Entre os espanhóis, G. P. – gran payaso.) […] Isto não quer dizer que consideremos Deus estúpido – isso nunca! […] O nosso uso da palavra Dummkopf advém, penso eu, do desejo do Maestro de nos desabituar da nossa maior fraqueza – a admiração relutante que sentimos pelo Omnipotente. Tal como o Maestro nos relembra constantemente. Deus pode ser Poderoso, mas não é Todo-Poderoso. Isso dificilmente. Nós, ao fim e ao cabo, também cá estamos. Se o D. K. é o Criador, nós somos os Seus críticos mais perspicazes e bem sucedidos.» (pág. 98)
Com este livro, Mailer dá-nos, partindo de factos verídicos recolhidos numa extensa bibliografia sobre Hitler, a visão romanceada da génese de um tirano, cuja subida ao poder em 1933, e o seu reinado de doze anos, mostrou ao mundo um dos maiores facínoras da História, responsável pela aniquilação de milhões de judeus e pela destruição de grande parte dos territórios europeus.
O pequeno Adi – diminutivo de Adolf – surge no seio de uma família cujas práticas ancestrais de incesto vão envenenando os genes das gerações vindouras. Para além de se sugerir que Alois – pai de Adolf – pode de facto ter sangue judeu – que não deixa de ser uma ironia do destino –, sabe-se, com toda a certeza, que Klara – mãe do jovem Hitler – é sobrinha do seu próprio marido, ou possivelmente filha – o estudo genealógico não conseguiu provar esta última tese.
Outro facto cómico surge no momento de concepção de Adolf. Segundo Mailer, Hitler terá sido concebido após um exercício prévio de sexo oral recíproco e simultâneo – prática sexual inovadora para o casal –, vulgo “69”:
«Klara virou-se dos pés para a cabeça, e pôs a sua parte mais indecorosa no nariz e na boca dele [Alois]
que respiravam com dificuldade, e levou o velho aríete dele aos lábios.» (pág. 72)
Após a excitação inicial o próprio Demónio participou no coito vaginal que se seguiu e:

«Assim como Anjo Gabriel foi o servo de Jeová numa noite solene em Nazaré, também eu estava lá com o Demónio nesta concepção nessa noite de Julho, nove meses e dez dias antes de Adolf Hitler ter nascido a 20 de Abril de 1889.
» (pág. 73)
Para além das práticas incestuosas, conhecidas à época como “mal de sangue” e de uma atracção inusitada pelos excrementos, há uma estranha alegoria que perpassa toda a narrativa: o simbolismo da apicultura. A organização escrupulosa, hierarquizada e funcionalmente irrepreensível das abelhas no seu meio, possivelmente usada mais tarde na estrutura de comando nazi.
A fluidez discursiva e a comicidade que o autor norte-americano apõe à sua extensa narrativa, são sem dúvida os pontos mais fortes de uma obra que parece ter sido abandonada a meio do percurso por falta de fôlego – aliás como Mailer recorrentemente alerta no decurso da obra, através das inúmeras reticências ou promessas de uma nova obra que vai deixando no texto.
O que pesará na minha singela avaliação? A destreza descritiva? Ou, sobretudo, parodiando, a lassidão e a inconsistência da profusão escatológica ao longo da obra?
Ao ler este romance de Mailer dominou-me um sentimento de fervorosa aquiescência com os encómios habitualmente a ele dirigidos pelo seu amigo – o mais famoso língua de prata da literatura norte-americana – Gore Vidal
Apesar de tudo:
Classificação: *** (A Ler)

sexta-feira, 30 de março de 2007

Encontro Literário

Um título com um pequeno sofisma, porém ele (o tal encontro) realizou-se no dia de São Valentim (o acaso tem disto!), na Cidade do México, em 1976.
O encontro (literário) entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa deu nisto:

Gabriel García Márquez

Pobre Gabo!

Ao que parece, este recontro literário internacional deu-se devido ao excesso de paixão do colombiano, havendo atingido um ponto tal que se estendeu à mulher do peruano.

Vem tudo aqui no insuspeito The New York Times, incluindo um entrevista ao fotógrafo mexicano Rodrigo Moya. Segundo diz Moya, Gabo pediu-lhe que o fotografassem naquele estado dada a eventual escassez de oportunidades de, no futuro, se poder vir a apresentar com um olho negro (crente ou mentiroso?)

Nota: o autor do artigo, Noam Cohen, para além do título, com um coloquialismo ímpar «Olho à belenenses termina os seus 31 anos de omissão.» (tradução livre: por minha culpa, minha tão grande culpa [bato com a mão no peito], talvez "quietação" não ficasse mal, mas para o efeito pretendido fica melhor "omissão"), brilha quando recorda outros grandes encontros na História da literatura, à laia de Rocky Balboa:

  • Lillian Hellman vs. Mary McCarthy;
  • Vladimir Nabokov vs. Edmund Wilson;
  • Norman Mailer vs. Gore Vidal.

Sobre este último fica a presença de espírito de Vidal quando derrubado. Ainda no chão diz: «Uma vez mais, faltaram-te as palavras, Norman Mailer.» [Tradução livre: AMC]

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Memórias de um Nazi

Enquanto uns vão descascando cebolas e outros apequenando as memórias, alguns, como Littell, vão discorrendo sobre as eventuais memórias dos cooperadores do III Reich. Todavia, ao passo que o romance daquele, As Benevolentes, já viu confirmada a sua edição em Portugal, o recentíssimo The Castle in the Forest de Norman Mailer – com estreia mundial marcada para a próxima terça-feira nos Estados Unidos – irá, decerto, penar nas teias economicistas e avarentas das editoras nacionais.

Para a posteridade, eis a abertura do novo romance de Mailer:

«Podem tratar-me por D. T. Este é o acrónimo para Dieter, um nome alemão, e D. T. ajusta-se perfeitamente, agora que vivo na América, a esta nação peculiar. Se eu aqui recorro às reservas de paciência, é porque aqui o tempo passa sem que isso signifique algo para mim, e esse é um estado susceptível de levar alguém a rebelar-se. Será esta a razão por que escrevo um livro? Eu e os meus antigos parceiros tínhamos de jurar que nunca nos serviríamos de tal expediente. Em suma, eu fui membro de um incomparável grupo de Serviços de Informação. A sua designação era SS, Secção Especial IV-2a, e encontrávamo-nos directamente sob a supervisão de Heinrich Himmler. Hoje, o homem é visto como um monstro e, de qualquer forma, não estou disposto a defendê-lo – verdadeiramente, ele revelou-se um monstro. No entanto, Himmler dispunha de uma mente original e uma das suas teses está na origem das minhas pretensões literárias, que, prometo, não serão nada vulgares.»
[tradução livre, AMC]
Norman Mailer, The Castle in the Forest. New York: Random House, January, 2007, 496 pp.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Trio de Luxo em Janeiro


No mercado editorial norte-americano de ficção literária estreiam-se este mês 3 livros de 3 notáveis autores: No dia 16 Martin Amis com “House of Meetings” (já editado no Reino Unido em Setembro do ano passado) e no dia 23 Paul Auster com “Travels in the Scriptorium” (já editado no Reino Unido em Outubro do ano passado) e Norman Mailer com “The Castle in the Forest”.

Mailer, com quase 83 anos cumpridos, edita assim o seu primeiro romance após 10 anos de jejum (publicou em 1997 “The Gospel according to the Son”, ainda não editado em Portugal). O novo romance retrata, sob a perspectiva freudiana, a infância e a pré-adolescência de Adolf Hitler, cuja narrativa puramente ficcional é conduzida por um oficial das SS com uma estranha influência sobre o celerado ditador austríaco.
Amis retrata no seu novo romance uma dolorosa visita de um octogenário milionário e ex-exilado russo aos antigos gulags da desmembrada URSS, rememorando a experiência que aí viveu durante 14 tenebrosos anos da sua juventude.
Auster regressa um ano após a publicação do seu romance mais incaracterístico “As Loucuras de Brooklyn” e ao que dizem para exorcizar alguns do seus demónios passados. Segundo as críticas (bastante divididas, diga-se) é o regresso de Auster à narrativa beckettiana que catapultou o seu nome logo após a publicação do seu primeiro trabalho de ficção: “A Cidade de Vidro” de 1985 (integrado em “A Trilogia de Nova Iorque” em 1987). Em breve, como é óvio, ater-me-ei sobre este livro neste blogue.

Conjectura: quando me reformar, talvez em 2037, possivelmente teremos este trio editado na íntegra neste país de tão letrada gente.