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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Push Oprah, Push

Good salesgirl! E nem com toda a sua massa (apelo à polissemia) Oprah conseguiu dar o empurrão necessário, e nem tão-pouco o privilégio de ser capa da Time Magazine (edição de 23 de Agosto de 2010, com recensão do razoável crítico e miserável escritor Lev Grossman) trabalhou como um meio de pressão adicional para a sua promoção.
Descodificando. Foram anteontem anunciados, por Pat Conroy a partir da casa onde Flannery O’Connor passou a sua infância em Savannah no Estado da Geórgia (hoje uma fundação), os autores e respectivas obras finalistas nas diversas categorias do National Book Award e, de forma heteróclita e até aberrante, não se fala de outra coisa na imprensa especializada que não seja o crime da não nomeação do escritor Jonathan Franzen (n. 1951), com o seu mais recente candidato a calhamaço Freedom. Em todo lado se lê um “snubbed” indignado à obra e/ou ao autor, que muitos consideram, e não fazem a coisa por menos e de forma infundamentada, como um sucessor de Bernhard (talvez pela proximidade dos títulos de uma das obras) ou de Pynchon. Franzen é abertamente contra os escritos, que designa como obscuros, de autores deste calibre, elegendo como epítome do obscurantismo literário William Gaddis, em nome do realismo pop tão defendido pelos polícias da cristalização literária e do decalque oitocentista como B.R. Meyers ou James Wood. Frazen afirma que esse género de escritores (Joyce, Beckett ou Gaddis, como os seus prosélitos pós-modernos) – os tais de escrita complexa e ininteligível – desrespeita o público e causa danos comerciais irreparáveis à indústria literária.
Num famoso ensaio de 2005 do destemido escritor e crítico norte-americano Ben Marcus, publicado na edição de Outubro desse ano da Harper’s, Marcus desanca com toda a virulência em críticos como o citado Meyers e principalmente em autores como Franzen. A despeito do conceito primordial de elite, estes defensores do comercial e da clareza da palavra escrita, tornaram-se em verdadeiros elitistas que reconhecem como genuínos «aqueles [escritores] que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso literário, aqueles que insistem que os sucessos narrativos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Neste ambiente, o sucesso artístico é um legado e os escritores são encorajados a comportarem-se como grupos que se dedicam a cantar versões musicais, adornando os clássicos, talvez, enquanto se asseguram de que a canção encerra uma velha e familiar melodia que nos faz sorrir pelo simples reconhecimento, para que possamos ler mais de memória do que pelo esforço de concentração.
»Os verdadeiros elitistas no mundo literário são aqueles que se enfastiam perante a ambição literária sob qualquer forma, aqueles que transfiguraram na sua totalidade o verdadeiro significado da palavra ambição, que agora se traduz como um mero acto de desprezo, de hostilidade perante o pobre leitor comum, que jamais deveria ser chamado a fazer algo que lhe possa provocar uma lesão muscular. (Que alívio ouvir isto, não há necessidade de nos preocuparmos com um livro que possa parecer agreste, ou abstracto, ou invulgar.) Os elitistas são aqueles que ficam zangados quando se lhes sugere que um livro pouco vendido possa merecer um prémio, como aconteceu, no ano passado, com o National Book Award na categoria de ficção*.»
Ben Marcus, “Why experimental fiction threatens to destroy publishing, Jonathan Franzen, and life as we know it: A correction”, Harper’s, October 2005, pp. 40 [tradução: AMC; *N.T. – Marcus refere-se ao NBA de 2004, atribuído a Lily Tuck pelo seu romance The News from Paraguay (obviamente não editado em Portugal)]
E tanta verborreia, para aqui deixar a listagem dos finalistas na categoria de ficção do National Book Award de 2010 (Carey entre mulheres, e é dele o único dos cinco romances, por agora, editado em Portugal):
  • Jaimy Gordon, Lord of Misrule
  • Karen Tei Yamashita, I Hotel
  • Lionel Shriver, So Much for That
  • Nicole Krauss, Great House
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
Nota: A portentosa Patti Smith está nomeada na categoria de não-ficção com livro de memórias Just Kids, que relata o seu relacionamento com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ao que dizem, e segundo as minhas leituras, trata-se de um assombroso e comovente retrato dessa relação turbulenta que ocorreu nas décadas de 60 e 70 do século passado – espera-se, porventura em vão, pela edição portuguesa.

domingo, 23 de novembro de 2008

Realismo e a visão cinemática

I

«Ao sabor do acaso, subia o Quartier Latin, habitualmente tão tumultuoso, mas deserto naquela época, porque os estudantes tinham partido para casa da família. Os grandes muros das escolas, como que alongados pelo silêncio, tinham um aspecto ainda mais taciturno; ouviam-se todas as espécies de ruídos calmos, batimentos de asas nas gaiolas, o fragor de um torno, o martelo de um sapateiro; e os vendedores de roupa, no meio das ruas, interrogavam com o olhar cada janela, inutilmente. No fundo dos cafés solitários, a mulher que atendia ao balcão bocejava entre as garrafas cheias; os jornais permaneciam arrumados na mesa dos reservados de leitura; na oficina das engomadeiras, as roupas estremeciam sob as lufadas do vento tépido. De vez em quando, detinha-se diante da montra de um alfarrabista; um ónibus, que descia roçando o passeio, fazia-o voltar-se; e, chegado em frente do Luxembourg, não ia mais além.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental, p. 59.
[Lisboa: Relógio D’Água, Outubro de 2008, 367 pp.; tradução de João Costa; obra original: L’Éducation sentimentale, 1869.]


II

«Isto foi publicado em 1869, mas podia ter surgido em 1969; muitos romancistas soam essencialmente ao mesmo. Flaubert parece perscrutar as ruas de uma forma indiferente, como uma câmara. Enquanto assistimos a um filme não somos capazes de determinar aquilo que foi excluído, aquilo que ficou de fora das margens do enquadramento da câmara, da mesma maneira que não somos capazes de assinalar o que Flaubert decidiu não assinalar. E já não reparamos que aquilo que ele escolheu não foi, como é óbvio, casualmente procurado mas ferozmente bem escolhido, em que cada pormenor é quase coalhado no seu soro de escolhimento. Quão soberba e magnificamente isolados estão estes pormenores – a mulher a bocejar, os jornais, por ler, arrumados, as roupas a estremecer ao vento tépido.»
James Wood, How Fiction Works, p. 33. [tradução: AMC]
[London: Jonathan Cape, 2008, 194 pp.]

Nota: uma vez mais, apesar da promessa de não intervenção autoral no domingo das citações, vejo-me obrigado a deixar umas pequenas anotações para, lá está, dar o devido enquadramento, de natureza não especulativa – senão largava-as tout court –, àquilo que acima foi reproduzido.
James Wood é um admirador confesso de Flaubert, atribuindo-lhe a paternidade do realismo literário e o papel de precursor da narrativa moderna – assim como João Baptista para os vários cristos (os ungidos da modernidade), sem, no entanto perder a cabeça por uma Salomé… não, esse foi o pai do Eterno Retorno… [passagem bem demonstrativa da precariedade humorística que atravessa este blogue].
Para além das longas divagações woodianas sobre o uso e abuso do “discurso indirecto livre”, uma marca distintiva em Flaubert e em Henry James, o crítico britânico fica fascinado pela forma como o escritor francês trabalha a sua narrativa em torno da invisibilidade autoral, ou do processo em que as palavras do protagonista parecem cortar o cordão umbilical que o liga ao criador, actuando com vida própria, semelhante à vida, criando no leitor uma espécie de assombro. Nas palavras de Flaubert, retiradas do livro de Wood (p. 34,; tradução: AMC):

«Um autor no seu trabalho tem de ser como Deus no universo, presente em todo a parte e visível em nenhuma.»

Anotação à nota anterior: este capítulo do livro de Wood é verdadeiramente uma delícia para quem gosta e se interessa por Literatura (palavra intencionalmente grafada desta forma), principalmente com a riqueza dos exemplos reveladores, não só de trabalho árduo (investigação), mas sobretudo de uma memória e de uma erudição ímpares. A seguir, ainda neste registo, faz-se a comparação entre o famoso poema de Auden perante a observação do picaresco quadro de Brueghel, A Queda de Ícaro; a atitude de Andrómaca perante a recentíssima morte de Heitor, o seu marido, no Canto XXII da Ilíada; o famoso traveling narrativo de McEwan em Expiação, quando Robbie deambula no cenário de devastação na praia de Dunquerque.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Irrealismo pós-histérico

Alguns afazeres inadiáveis por estes dias têm-me afastado do blogue e feito da única leitura do momento – o último romance de Salman Rushdie editado entre nós – um exercício de entretenimento sincopado pelo necessário achamento do fio meada da dita obra que, se mais não bastasse, tinha de ser do babilónico-hermético escritor indo-britânico.
Talvez seja das sucessivas interrupções, algumas bastante longas, ou quiçá de um preconceito inultrapassável perante o autor da obra, mas parece-me que A Feiticeira de Florença é uma manta de retalhos muito mal cerzida. Mas a falta da visão global, que se adquire após a última página, prejudica, para já, qualquer análise minimamente séria.
Há, no entanto, passagens que têm o condão de fazer soar o alarme que me alerta para o atingimento de um nível estético notavelmente baixo, para não falar do ético, essencialmente pela sua impudica e descarada desarmonia com o texto, como se tentasse colar uma ideia que sobreveio inusitadamente a uma mente subitamente tortuosa – e espera-se, sem qualquer relação com a experiência, difícil de vislumbrar pela conhecida garbosidade da contraparte. Verosímil, pode ser; real, infelizmente sim; necessária, jamais, atendendo ao contexto, de uma Florença dissoluta, expulsos os Chorões corporizados em Savonarola e o seus sequazes, largamente descrita ao longo da obra.
Rushdie ultrapassou o histerismo, na medida em que ele é resolvido pelos devaneios lascivos perfeitamente secundários dos seus personagens, tautológicos e recalcitrantes, e que parecem resultar de um falhadíssimo pastiche da marca distintamente lúbrica de Philip Roth, ética e esteticamente irrepreensíveis.

Veja-se esta passagem… ou melhor, leia-se este retalho, que deveria voltar ao lugar de onde saiu, à mente maltratada… retalhada:

«Todas as noites se punha a olhar para a sua mulher à mesa e não encontrava nada para lhe dizer. Marietta, era esse o seu nome, e aqui estavam os seus filhos, os filhos de ambos, os seus muitos, muitos filhos; era, portanto, verdade que ele se casara e tivera filhos a exemplo das pessoas como deve ser, mas isso era noutra época, na época da grandeza negligente, em que todos os dias fodia com uma rapariga diferente para se manter vigoroso e vivo, e fodia também com a mulher, claro, seis vezes, pelo menos. Marietta Corsini, a mulher, que lhe passajava as camisolas interiores e toalhas e não sabia nada de nada, que não compreendia a sua filosofia nem se ria das suas piadas. Todos os demais no mundo o achavam engraçado, mas ela tomava tudo à letra, pensava que um homem queria dizer exactamente o que dizia e as alusões e metáforas eram apenas as ferramentas de que os homens se serviam para enganar as mulheres, para as fazerem pensar que não sabiam o que se passava. Ele amava-a, é certo. Amava-a como um membro da sua família. Como uma irmã. Quando fodia com ela sentia-se levemente pecaminoso. Sentia-se incestuoso, como se estivesse a foder com a irmã. Aliás, essa noção era a única coisa capaz de o excitar quando se deitava com ela. Estou a foder com a minha irmã, dizia para consigo, e vinha-se.»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 230-231.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]