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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Regresso seguido de “O Opróbrio” (act.)

Numa operação inédita com Auster, que gerou o contentamento geral nos fãs lusos do autor, a antiga editora portuense Asa – hoje propriedade do grupo LeYa –, anunciou no início do ano a publicação em Portugal do 13.º romance do autor de Nova Jérsia – nos dias que correm, um filho dilecto do distrito de Brooklyn em Nova Iorque com direito a um dia no calendário a ele dedicado –, em simultâneo com a sua saída para o mercado literário nos Estados Unidos.
Paul Benjamin Auster (n. 1947), para muitos a voz contemporânea mais autorizada para carregar o epíteto de “o poeta do acaso”, considerado por outros tantos como o mais europeu dos escritores norte-americanos vivos, seguido por um alargado grupo de fãs espalhados por todo o mundo, (coeso embora heterogéneo nos elementos que o estabelecem, genuíno pelo ostentado deleite por todo o imaginário das suas histórias, que se constitui como uma espécie de milícia de defesa acérrima do seu processo criativo, mesmo quando o defendido se confessa cansado e vulnerável, na iminência de um ataque da terrível síndrome de que padecem alguns dos eminentes profissionais da palavra escrita, conhecida como “bloqueio do escritor”), parece ter feito a vontade àqueles que há anos vêm denunciando o desvio do rumo da sua prosa, para um intricado de convulsões metaficcionais – Invisível, cedo se provou como o regresso do ícone Auster .
Paul Auster é idolatrado em França e em Espanha – neste último pude constatar in loco a efervescente austeromania –, elevado ao estatuto de chanceler do pós-modernismo na Alemanha, autor de culto dos nórdicos e, paradoxalmente, quase censurado no seu país natal, recebendo sempre críticas que abrangem todo o espectro de qualificativos do soberbo ao hórrido, e glosado como ligeiro no Reino Unido – jamais separando o homem da sua obra na adjectivação empregada –, apesar de já se pressentir que, bem ao longe e de forma tímida, a brisa que hoje se anuncia já é parte integrante do silvo dos ventos de mudança opinativa da crítica profissional anglófona. Com efeito, Auster era (e ainda é) criticado por ser ele mesmo, independentemente da obra analisada. A cada novo romance seu, a escrita automática dos recenseadores anglófonos, especialmente os britânicos, onde o insulto travestido em frases mais ou menos buriladas porventura pelo medo imanente de uma assertividade que se transformaria em alvo de censura pública, saltava para as páginas dos jornais e revistas mais reputados em assuntos literários – com excepção do Independent, a crítica dos jornais londrinos está aí para corroborar a tal mudança.
A sua última obra de ficção, Invisível, confirma o retorno de Auster a Leviathan, à Música do Acaso, à Trilogia, ou a Palácio da Lua – obras que consolidaram, há muito, o seu estilo literário, quer se goste ou não, quer se ridicularize ou idolatre. Apesar de não abandonar por completo os seus dilectíssimos jogos metaficcionais – bem presentes nos seus dois últimos romances, eminentemente auto-referenciais, labirínticos, de uma impudica ostentação da omnisciência autoral e de mero exercício de forma literário –, porquanto nesta obra ainda se consegue pressentir o pulsar de Auster na fina camada primordial do quadro narrativo, em Invisível os três narradores que integram os quatro segmentos narrativos interdependentes, com estilos e vozes diferentes, ampliando a um nível de exigência extrema a gama diegética, são o sal mas não o fulcro de uma história com uma ímpar densidade psicológica dos seus personagens; o que outrora (especialmente em Viagens no Scriptorium e Homem na Escuridão) era a matéria-prima fundamental, assume nesta obra o papel de mero elemento adjuvante, embora necessário, não é de todo a sua alma, a essência, o espírito que paira por sobre as nossas cabeças mal lemos «Para o resto da minha vida, onde quer que me encontre, faça eu o que fizer, aquele som estará sempre comigo.» (p. 236) – que entendi como um apelo, através da alegoria, ao horror concentracionário das diversas formas de agrilhoamento do Homem que subsistem no mundo em que vivemos – e que nos assombra pelo manancial de interpretações que daí poderão ocorrer – as pontas soltas que o romancista não quis atar; o seu cunho literário mais marcante de um anti-Deus ex machina, e que induzem a um inebriamento que obriga a uma releitura.
Negro como A Trilogia de Nova Iorque. Obstinado como A Música do Acaso. Cativante, glamoroso e comovedor como Leviathan. Desesperado e descoroçoante como Palácio da Lua. Sufocante e devastador como No País das Últimas Coisas. Terno e fracturante como Mr. Vertigo. Invisível é a súmula de uma obra ímpar no panorama literário mundial. Muitos descrevem-na como a sua melhor obra de ficção. Eu como fã quase incondicional do homem de ascendência judaica nascido há 62 anos entre os despojos materiais e humanos da II Guerra Mundial, acrescento mais um traço às suas obras de ficção de minha eleição.
Por fim, reveste-se como obrigatório salientar que há muito que Auster não gozava de uma crítica tão favorável no mundo da anglofonia, e a crítica lusa é quase unânime na aclamação ou louvor da obra – e ainda faltam as recensões alemãs, francesas, espanholas, italianas e escandinavas, já que em muitos desses países o romance ainda não foi publicado. Como consequência, face a uma quase unanimidade da crítica anglófona sobre a arte desta última obra, era mais do que esperado o surgimento de…
O que James Wood (n. 1965) fez no alargadíssimo espaço de crítica que lhe é reservado na revista The New Yorker no passado mês de Novembro, só pode ser entendido no estreitíssimo campo semântico do opróbrio que atrás falei de forma meramente alusiva. O texto de Wood é um manifesto ataque ad hominem, com todos os seus ingredientes de confusão mental entre produção literária e carácter do criador – e qual a necessidade de gastar mais palavras e quatro páginas, mais espaço precioso no n.º 39 do volume 85 da afamada revista americana, crime que se agrava por haver sido perpetrado na vizinhança da Cimeira de Copenhaga, quando ao 7.º parágrafo (num total de 20) Wood afirma: «Embora existam coisas de apreciar na ficção de Auster, a prosa nunca está entre elas»? [tradução livre de minha responsabilidade] E o mais confrangedor é que o opróbrio vem primorosamente adornado com uma excelente caricatura de Paul Auster pelas mãos do nosso André Carrilho.
De facto, depois de haver lido dezenas de críticas e um ou outro livro do grande paladino das letras contemporâneas em defesa do realismo e das vicissitudes monomaníacas do “discurso indirecto livre” na Literatura (ou na ficção?) – esse nobre recurso estilístico, magno promotor da invisibilidade autoral na obra, uma espécie de Frankenstein narrativo –, um David em Elah contra os malefícios das aviltantes correntes do modernismo e do pós-modernismo, profanos enquanto fautores do festim orgiástico entre criador e personagens, qualquer pessoa moderadamente identificada com Auster e a sua obra não pode deixar de apresentar sintomas de algum desconforto perante este exercício de uma frivolidade inusitada, a roçar o maniqueísmo pueril, em conflito com o reconhecimento académico, e não só, do recenseador em questão.
Não vale a pena desbaratar mais palavras com o chorrilho de asserções sem substância, com um exercício formal de puro enxovalho. O tempo encarregar-se-á de separar as águas. O crítico britânico exportado como pré-vintage para a Ivy League, já nos habituou a estes meros panfletos que denunciam a heresia contra a teologia da sua literatura – vista, pela sua igreja, como uma entidade isolada, asséptica, do ambiente cultural que a rodeia. É certo que sem o grau ominoso e de amarga verborreia de fusão da criatura com o criador como neste caso, contra tudo que não derive do realismo novecentista de Flaubert ou de Henry James – que até são autores muito cá da casa –, erigindo, entre outros, DeLillo, Rushdie ou Pynchon como alvos, perdoando, em simultâneo, os passos em falso de alguns dos seus contemporâneos e conterrâneos, nos casos mais notáveis de Christopher Hitchens e Martin Amis.
Mas o erro crasso, o pecado primordial, adveio de quem teve a ousadia de o comparar com Edmund Wilson. A partir de um acontecimento com essa natureza contrafactual, emerge uma soberba declaradamente adiposa que costuma obnubilar a mente preclara, outrora livre da placa bloqueante do fausto louvaminheiro. É que um louvaminheiro astuto tem de ser selectivo, sob pena de não ver sancionados os seus ataques no pós-desferimento e cair, sem apelo, na mais sombria das indigências.  
Indo um pouco mais longe, não nos podemos esquecer que Wood – emprego, sem pedir meças, a sua técnica da asserção gratuita – é, aos 44 anos, um romancista frustrado. Para afiançar a validade de tal certeza, basta ler as críticas a The Book Against God, publicado em 2003, que curiosamente se socorre de um tique pós-modernista, que o próprio censura nos outros, mas que não se coibiu de usar no seu título e na sua abertura distintamente kitsch, usando o cliché sem ironia, isto é, de forma séria, sem itálicos…
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[actualizado às 23:39, 08/12/2009]: Auster, entrevistado no jornal espanhol La Vanguardia, é confrontado com a crítica de Wood, dissonante da publicada no New York Times Book Review, que considera Invisível como o seu melhor romance [dias mais tarde, o respeitado periódico nova-iorquino considerou-o como uma das 50 melhores obras de ficção publicadas em 2009]:
«JORNALISTA: […] nesta semana James Wood investe contra si na The New Yorker.
AUSTER: Não li a crítica. Não leio nenhuma crítica há quatro ou cinco anos, embora a conheça. Sei que me ataca. Não tenho nada de pessoal contra ele, mas é sempre assim. Muitos amigos perguntam-me qual é o problema. É um reaccionário. Não quero preocupar-me. Siri, a minha mulher, que está em viagem, telefonou para mo comentar. Disse que era como se fosses na rua e um desconhecido te desferisse um murro na cara.»
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Nota: E já agora, intervindo aqui apenas como um leitor interessado e noviço da liturgia woodiana – afirmações circunstanciadas na sua obra minimal –, será que Wood já releu a Parte II de Dom Quixote? Deixo essa tarefa indagadora a Deresiewicz.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Irrealismo pós-histérico

Alguns afazeres inadiáveis por estes dias têm-me afastado do blogue e feito da única leitura do momento – o último romance de Salman Rushdie editado entre nós – um exercício de entretenimento sincopado pelo necessário achamento do fio meada da dita obra que, se mais não bastasse, tinha de ser do babilónico-hermético escritor indo-britânico.
Talvez seja das sucessivas interrupções, algumas bastante longas, ou quiçá de um preconceito inultrapassável perante o autor da obra, mas parece-me que A Feiticeira de Florença é uma manta de retalhos muito mal cerzida. Mas a falta da visão global, que se adquire após a última página, prejudica, para já, qualquer análise minimamente séria.
Há, no entanto, passagens que têm o condão de fazer soar o alarme que me alerta para o atingimento de um nível estético notavelmente baixo, para não falar do ético, essencialmente pela sua impudica e descarada desarmonia com o texto, como se tentasse colar uma ideia que sobreveio inusitadamente a uma mente subitamente tortuosa – e espera-se, sem qualquer relação com a experiência, difícil de vislumbrar pela conhecida garbosidade da contraparte. Verosímil, pode ser; real, infelizmente sim; necessária, jamais, atendendo ao contexto, de uma Florença dissoluta, expulsos os Chorões corporizados em Savonarola e o seus sequazes, largamente descrita ao longo da obra.
Rushdie ultrapassou o histerismo, na medida em que ele é resolvido pelos devaneios lascivos perfeitamente secundários dos seus personagens, tautológicos e recalcitrantes, e que parecem resultar de um falhadíssimo pastiche da marca distintamente lúbrica de Philip Roth, ética e esteticamente irrepreensíveis.

Veja-se esta passagem… ou melhor, leia-se este retalho, que deveria voltar ao lugar de onde saiu, à mente maltratada… retalhada:

«Todas as noites se punha a olhar para a sua mulher à mesa e não encontrava nada para lhe dizer. Marietta, era esse o seu nome, e aqui estavam os seus filhos, os filhos de ambos, os seus muitos, muitos filhos; era, portanto, verdade que ele se casara e tivera filhos a exemplo das pessoas como deve ser, mas isso era noutra época, na época da grandeza negligente, em que todos os dias fodia com uma rapariga diferente para se manter vigoroso e vivo, e fodia também com a mulher, claro, seis vezes, pelo menos. Marietta Corsini, a mulher, que lhe passajava as camisolas interiores e toalhas e não sabia nada de nada, que não compreendia a sua filosofia nem se ria das suas piadas. Todos os demais no mundo o achavam engraçado, mas ela tomava tudo à letra, pensava que um homem queria dizer exactamente o que dizia e as alusões e metáforas eram apenas as ferramentas de que os homens se serviam para enganar as mulheres, para as fazerem pensar que não sabiam o que se passava. Ele amava-a, é certo. Amava-a como um membro da sua família. Como uma irmã. Quando fodia com ela sentia-se levemente pecaminoso. Sentia-se incestuoso, como se estivesse a foder com a irmã. Aliás, essa noção era a única coisa capaz de o excitar quando se deitava com ela. Estou a foder com a minha irmã, dizia para consigo, e vinha-se.»
Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, pp. 230-231.
[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2008, 343 pp.; tradução de J. Teixeira de Aguilar; obra original: The Enchantress of Florence, 2008.]

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Autodestruição, o paradoxo do (pós-)modernismo

«Ser-se moderno implica encontrarmo-nos numa atmosfera que nos promete aventura, poder, prazer, crescimento, transformação de nós próprios e do mundo – e, ao mesmo tempo, que ameace destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos.»

Marshall Berman, All That Is Solid Melts Into Air (1982) [tradução do inglês: AMC, 2008]

Lido algures… Onde?

(Apreciações para depois, quando a lanterna – ou porventura, o disco digital versátil – chegar a esta terra que o país vai abandonando.)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Escolhas [actualizado]

Na edição n.º 960 do JL (a última nas bancas) João Tordo e José Luís Peixoto postam, sem mais comentários, as suas preferências literárias – secção “os livros da minha vida” – subdivididas por duas tabelas de dez entradas cada: (1) obras de autores portugueses e (2) obras de autores estrangeiros.
Deixando de parte as escolhas nacionais, onde constam nomes como Vergílio Ferreira, Aquilino, Torga e Cardoso Pires para Tordo e Raul Brandão, Herberto Hélder, Herculano, Soeiro Pereira Gomes e Ruy Belo para Peixoto, unindo-os autores como os imprescindíveis Eça, Saramago, Lobo Antunes e Pessoa – não lhes perdoando, apenas, o pecadilho de não haverem incluído, pelo menos, uma obra de Agustina–, são mais interessantes as escolhas de obras de autores estrangeiros, desde logo porque, pela primeira vez, desde que o JL publica a referida secção, com elas irmano os meus gostos literários.
Embora não tema o costumeiro e blogosférico apodo de intruso no campo das letras, atrevo-me a asseverar que, tanto João Tordo (n. 1975), como José Luís Peixoto (n. 1974) são já, no ano da Graça de 2007, valores seguros da literatura nacional, prometendo, se a vida lhes permitir, o não fenecimento de um género literário que muito me agrada e que muitos rotulam, jocosamente, de pós-modernista.
Ao contrário dos rotuladores do regime, não entendo, por um lado, em toda a sua plenitude semântica, o conceito de pós-modernismo; descortino-lhe alguns traços, porém não lhe vislumbro uma estrutura sólida, hermética, com objecto, missão, meios e, talvez, alvos pré-definidos. Por outro lado, se ser pós-modernista permite dá o direito ao autor de se incluir num grupo constituído por Beckett, Pynchon, Ishiguro, Borges, McEwan, DeLillo, Bellow, Auster ou Philip Roth, então, quem tem medo do pós-modernismo?

Eis a selecção oficial (efectuei algumas correcções e acrescentei a editora, no caso de a obra se encontrar editada em Portugal):

João Tordo
  • Edgar Allen Poe – Histórias Completas (Arcádia);
  • Javier Cercas – O Inquilino (Asa);
  • William S. Burroughs – Junky (Editorial Notícias);
  • Ian McEwan – Expiação (Gradiva);
  • Patrick McGrath – Spider, A Teia da Loucura (Presença);
  • George Orwell – Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Antígona);
  • Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque (Asa);
  • Fiodor Dostoievski – Crime e Castigo (Presença);
  • Herman Melville – Moby Dick (Relógio D’Água);
  • James Joyce – Gente de Dublin (Livros do Brasil).

José Luís Peixoto

  • Walt Whitman – Canto de Mim Mesmo (Assírio & Alvim);
  • Albert Cohen – Bela do Senhor (Círculo de Leitores);
  • William Faulkner – O Som e a Fúria (Dom Quixote);
  • Fiodor Dostoievski – O Idiota (Presença);
  • Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano (Ulisseia);
  • Juan Rulfo – Pedro Páramo (Cavalo de Ferro);
  • Charles Bukowski – Ham on Rye;
  • L.F. Céline – Viagem ao Fim da Noite (Ulisseia);
  • Dave Eggers – What is the What;
  • Peter Singer – Ética Prática (Gradiva).

Eu (n. 1972) identifico-me com esta geração. Para além das obras de sua autoria, a quase totalidade dos seus 20 livros faz parte de Os Meus Livros.

[Adenda, às 23:24]: a (minha) identificação atrás referida, parte do princípio (talvez erróneo) que os autores procuraram construir as suas listas seleccionando, na sua maioria, obras pertencentes à literatura contemporânea de ficção. Como notou o Henrique, com algumas excepções, faltam os grandes clássicos e as grandes obras ou tratados filosóficos. Suponho não ter sido esse o espírito do desafio. Mas como referi, trata-se apenas de uma suposição minha… talvez, crédula e pueril, porém, válida.