Mostrar mensagens com a etiqueta Bret Easton Ellis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bret Easton Ellis. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Stoppard devora Franzen

Se há expressão corrente que mais me fascina, pela sua pseudo-singeleza metafórica, é aquela que retrata um bibliómano como “um devorador de livros” – sintetizando, um bibliófago –, um vulgar verme que se alimenta de papel. Todavia, este meu indomável fascínio atinge o seu clímax quando, pela metonímia, se antropomorfiza o verme criando um leitor de homens que, embebido na metáfora, se transforma num antropófago.
Na selecção anual dos melhores livros de 2010 pela insuportável equipa de críticos do diário britânico The Guardian, foi pedida a contribuição de autores consagrados, de cineastas e até do público leitor (desconheço, neste último caso, de que forma se revestiu e qual o peso atribuído à participação). Na listagem final o inevitável afilhado de Oprah, o enfatuado, e assumidamente invejoso, Jonathan Franzen, lá conquistou o lugar cimeiro com o calhamaço Freedom – uma pretensa bofetada inglesa aos seus ex-colonos americanos que ousaram em não lhe atribuir o National Book Award – e, depois, verifiquei, alvoraçando-me as entranhas, que até Bret Easton Ellis consta da lista dos 29 melhores, com aquela coisa inenarrável entre a novela e o romance em forma de livro (o que eu já aqui espumei devido à mera existência dessa bagatela literária!) Se fizerem uma simples pesquisa googliana e introduzirem as expressões “snubbed” “freedom” e “franzen” chegam a um resultado próximo das 13.300 páginas. Mas, se substituírem as duas últimas expressões na barra de pesquisa por “solar” e “mcewan” obtém-se um resultado a rondar as 1980 páginas da internet (e na maioria delas o termo “ignorado, com alguma premeditação”, nem está associado aos restantes dois). É triste, e logo na obra mais alegre e desassombrada do, a par de Ishiguro, melhor escritor inglês vivo.
Continuando nas escolhas do Guardian, constatamos que o dramaturgo Tom Stoppard também participou nos jogos florais de fim de ano, e depois de no primeiro parágrafo se haver referido, com alguma ironia, à miríade de livros que leu, logo no dealbar do ano que agora termina, sobre a implosão de Wall Street, abordou a parte mais importante e séria no segundo:
«Também este ano, retirei um enorme prazer das últimas 518 páginas do livro de Jonathan Franzen The Corrections (Fourth Estate)*, que havia posto de parte em 2001 para o ler quando tivesse tempo. Encontro-me agora na página 14 de Freedom. Altamente recomendado.» [tradução livre: AMC; nota minha: *romance publicado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote, sob o título Correcções, que na sua 1.ª edição continha 512 páginas; já a versão referida por Stoppard contém 526 páginas (1.ª edição britânica em 2001).]

sábado, 25 de setembro de 2010

Náuseas Imperiais

Lisboetizando-me, trata-se daquelas carregadas de cevada, a cheirar a fermentação e a um insistente processo de levedação, alcoolicamente proibitivas, denunciadas pelo cheiro a benzina, pela dor de cabeça latejante e o inevitável vómito biliar que se nos apresenta de forma eruptiva no dia seguinte.
É assim o último romance do chavalo BEE da cidade dos anjos que resolveu repescar o seu sucesso de há 25 anos e escrever no mesmo estilo incipiente e cadavérico, perdoável, e até honorável, num jovem de vinte anos que se atirou de cabeça no mundo literário para contar as suas vacuidades burgueso-criminosas sob a forma de pseudónimos e sexos trocados, todavia inadmissível num jovem de 46 anos que não aprendeu a lidar com os seus traumas.
Mas se a história é deploravelmente enjoativa, a sua tradução para a nossa língua é repulsiva. Não há página, entre as 177, com letra de tamanho 12 e espaço e meio entre linhas, que não tenha o seu erro de palmatória em língua portuguesa. É o advérbio “demais” usado e abusado quando se pretende referir o excesso de alguma coisa; é o verbo “haver”, impessoal na sua acepção de “existir”, apresentando nesta situação formas verbais em todas as pessoas do singular ao plural; é a inconsistência no uso do “porque” e do “por que”, já de si uma fonte de polémica entre linguistas nacionais; é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “vir” – “vêm” – substituída, quiçá por problema oftalmológico do tradutor, por “vêem”; são às dezenas as passagens de discurso directo ao indirecto que estão por assinalar devidamente pelo escolhido travessão, ou então, são incontáveis as vezes em que os diálogos são todos processados num só parágrafo, numa orgia gráfica entre “vírgulas”, “pontos finais” e “travessões” que fariam corar o José Castelo Branco, até pela terceira via de “género”; e, parafraseando este último, até é fino que apareça “New York” ao invés da forma portuguesa da Grande Maçã, “Nova Iorque”; mas depois vem o “112” em vez do “911”, o que é admissível, no entanto incoerente, e mesmo aviltante, quando se traduz a referência do narrador na página 114 que esteve “à porta do ER em Cedars-Sinai” (pág. 114) – o “ER” são as “urgências” e o “Cedars-Sinai” o famosíssimo hospital-universidade de Los Angeles, e não uma sala VIP de um clube nocturno exclusivo de Hollywood.
Um Nausef. E pronto. Acabei de tomar um antiemético muito conhecido sem nada receber por isso, nem uma viagem a um importante congresso à República Dominicana.
Referência bibliográfica
Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais. Lisboa: Teorema, Agosto de 2010, 177 pp. Tradução de José Luís Luna, com revisão de José Costa; obra original: Imperial Bedrooms, 2010.

domingo, 4 de julho de 2010

O regresso do fedelho

Tem sido lento o processo criativo do autor norte-americano, nascido em Los Angeles em 1964, Bret Easton Ellis. De facto, Ellis acabou de publicar o seu sétimo romance, depois de se haver estreado auspiciosamente com o seu minimalista e desbastado de eloquência lírica, epítome da, na altura, recém-criada geração MTV, Menos que Zero (Less Than Zero, 1985) quando tinha apenas vinte anos. Seguiram-se o fraquinho As Regras da Atracção (The Rules of Attraction, 1987), o tenebrosamente estranho e prodigioso Psicopata Americano (American Psycho, 1991), o modesto e sem qualquer valor acrescentado literário (um novo conceito, porventura mensurável) Os Confidentes (The Informers, 1994) – muito menos o filme que nele se baseou, o paupérrimo Os Informadores, do australiano Gregor Jordan –, o magnífico, cru e tão houellebecquiano Glamorama (1998) e, finalmente, o thriller existencialista, de certa forma desequilibrado pela estranha mescla de sentimentos contraditórios que me assomaram durante a sua leitura, e carregado de um pathos inédito em Ellis, Lunar Park (2005) – afinal, o homem não é de pedra, frio, hedonista e sem adiposidades sentimentais, e talvez por aquele ter sido escrito durante os seis anos de quase idílio amantético com o escultor Michael Wade Kaplan (1974-2004), que terminou de forma abrupta, Kaplan morre com apenas trinta anos, vítima de um fulminante ataque cardíaco; na realidade, este triste episódio acaba por fazer despertar o autor do torpor passional e pôr um fim à longa travessia do deserto em assuntos literários.
Em 2010, Ellis reaparece no mercado editorial com Imperial Bedrooms (uma vez mais tendo Elvis Costello como inspiração para o título), que o autor confirma, para depois parecer contestar a evidência – dado porventura o anátema normalmente associado ao vocábulo –, tratar-se de uma sequela da sua obra de estreia, incluindo os jovens personagens frívolos, mimados, degradantes e celerados, agora na idade adulta na Los Angeles da actualidade, um Menos Que Zero (na sua mais recente reedição) com upgrade: um par de cornos. Eles são adultos diplomados, com mais posses e poder, e por isso com maior capacidade de abrir o leque de horrores psicopatológicos. Senão atente-se no parágrafo de abertura da obra:

«Eles fizeram um filme sobre nós. O filme baseou-se num livro escrito por alguém que conhecíamos. O livro baseava-se numa história simples sobre quatro semanas passadas na cidade em que crescemos e na sua grande parte reproduzia um retrato fiel. Foi catalogado como ficção mas apenas alguns detalhes foram alterados, os nossos nomes não o foram e não havia nada nele que não houvesse ocorrido. Por exemplo, houve de facto a projecção de um filme snuff naquele quarto em Malibu numa tarde de Janeiro, e sim, eu abandonei o quarto e dirigi-me ao terraço mirando distraidamente o Pacífico onde o autor tentou consolar-me, assegurando-me que os gritos produzidos pelas crianças ao serem torturadas eram falsos, mas ele sorria enquanto proferia tudo isto e eu tive de me retirar. Outros exemplos: a minha namorada na realidade atropelou um coiote nos desfiladeiros sob Mulholland e foi fielmente relatado um jantar de natal com a minha família no Chasen’s que deplorei e, por casualidade, contei ao autor. E uma rapariga de doze anos foi mesmo violada em grupo – eu estava com o autor naquele quarto de West Hollywood, que no livro apenas descreve uma vaga relutância de minha parte e falhou em descrever com exactidão aquilo que eu realmente sentira nessa noite – o desejo, o choque, o medo que eu tinha do autor, um rapaz louro e solitário por quem a rapariga com que eu andava estava meio apaixonada. Mas o escritor jamais corresponderia ao seu amor porque estava demasiado perdido na sua própria passividade para estabelecer a ligação de que ela necessitava, e assim ela regressou a mim, mas na altura já era tarde de mais, e como o escritor ficou ressentido quando ela voltara a dar-me atenção, eu tornei-me no belo e nebuloso narrador, inabilitado no amor e na bondade. Foi desta forma que me tornei no perturbado rapaz das festas que vagueia pelos despojos, com sangue a correr do nariz, fazendo perguntas que não carecem de resposta. Foi desta forma que me tornei no rapaz que nunca compreendeu o funcionamento das coisas. Foi desta forma que me tornei no rapaz que jamais conseguiria manter uma amizade. Foi desta forma que me tornei no rapaz que não pôde amar a rapariga.» [tradução impudicamente livre: AMC, 2010]
Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms, pp. 3-4 [New York: Knopf, first edition, June 2010, 192 pp.]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Capitão Metro

Uma fábula do n.º 7, o não-whitmaniano Capitão, Meu Capitão (a jornada assustadora prossegue): «Perguntem ao Carlos Queiroz.»
«Vivo no 11.º andar do edifício American Gardens na West 81st Street. Chamo-me Patrick Bateman e tenho 27 anos. Eu creio no cuidar de nós próprios com uma dieta equilibrada e um rigoroso programa de exercícios. De manhã, se a minha cara está um pouco inchada, aponho-lhe um saco de gelo enquanto faço abdominais – agora, já chego aos mil. Depois de retirar o saco de gelo, uso uma loção forte de limpeza dos poros. No duche, uso um gel refrescante de limpeza. De seguida utilizo uma escova com creme de mel e amêndoas e na cara esfrego um gel esfoliante. Depois aplico uma máscara de ervas e menta, que deixo na cara durante dez minutos enquanto preparo o resto da minha rotina. Uso sempre uma loção aftershave com o mínimo ou mesmo sem álcool, porque este seca-nos a pele do rosto e faz-nos parecer mais velhos. Depois vem o hidratante e de seguida aplico o bálsamo anti-rugas para os olhos, a que se segue a loção protectora hidratante final. Existe uma ideia de um Patrick Bateman, um género de abstracção, mas na realidade não existe um eu; é apenas uma entidade, algo de ilusório. E embora consiga esconder o meu olhar frio e até me consigam dar um aperto de mão e sentir a minha carne a envolver firmemente a sua carne, e até sentir que os nossos estilos de vida são provavelmente comparáveis; eu, simplesmente, não estou lá.»
Do argumento do filme Psicopata Americano (American Psycho, 2000), adaptado ao cinema por Mary Harron e baseado no romance homónimo, publicado em 1991, de autoria do escritor californiano Bret Easton Ellis.
Trabalhar? Com toda esta beleza e preparos, com ecrãs gigantes que me procuram e fixam, em que atesto as formas etéreas do meu rosto, senão do corpo inteiro, a cada cinco segundos!? Gritos histéricos de mulherio (e não só, valha-nos a sorte da lucrativa ambiguidade!) esfaimado… Trabalhar, unir esforços, respeitar hierarquias, lutar por um ideal. Assumir as funções de Capitão, que não passam apenas por ostentar aquela liga que nos aperta o braço, o mais fino adorno futebolístico que nos permitem usar em campo – deveria ser cravado de diamantes, tal como os círculos que enfeitam as minhas frágeis orelhas no pós-desafio. Porém, uma marca não faz isso, quando muito é multinacional, global na sua abstracção. Eu não existo. 
¡Hala Madrid!... y, pues que, con “El Especial” y los euros.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Do Empurrão

Há uns tempos disseram-me que estava na forja das letras norte-americanas um sucessor de McInerney e de Easton Ellis, nascido nos anos oitenta, logo já a amadurecer neste século inevitavelmente marcado pelo “11 de Setembro” e pelos terríveis acontecimentos que se lhe sucederam.
Aos 17 anos de idade escreveu um romance, Doze (Twelve, 2002) ao estilo dos celebrados Menos Que Zero (Less Than Zero, 1985) de Bret Easton Ellis (n.1964) e As Mil Luzes de Nova Iorque (Bright Lights, Big City; 1984) de Jay McInerney (n. 1955).
Chama-se Nick McDonell, nasceu a 18 de Fevereiro de 1984 em Nova Iorque e é filho do director da famosa revista desportiva Sports Illustrated, apadrinhado pelo truculento autor, falecido em 2005, Hunter S. Thompson, e pelos escritores Joan Didion e Richard Price, sendo o avô o presidente da Grove/Atlantic Inc., empresa que inclui a famosa revista literária The Atlantic (antes, The Atlantic Monthly) e a editora Grove Press que, por obra do destino, publicou ambos os romances do neto.
Com uma entourage destas, ao pobre Nick estava-lhe, desde logo, vedada a carreira na construção civil – caso o pretendesse.
Mas não. Nick quis ser escritor. E ao contrário da esmagadora maioria dos jovens que, como ele, se decidem pela aventura no mundo da literatura, viu o seu primeiro romance aprovado à primeira tentativa, caindo logo nas graças da temperamental e extravagante Michiko Kakutani. E depois… Depois, colheram-se os frutos do rótulo McInerney/Easton Ellis
Ora, independentemente do apadrinhamento de luxo, não considero, em primeiro lugar, que o mercado sinta a necessidade de encontrar sucessão para dois escritores já estabelecidos que, neste momento, entram na etapa de maturidade das suas vidas literárias e na fase normal de consolidação das suas carreiras, como provaram os seus últimos escritos. Em termos gerais, não se inova, imita-se, e só a arte sai a perder.
Depois, a um nível mais pessoal, considero assaz pernicioso o uso indiscriminado deste tipo de comparações de carreira e estilo literários, com ou sem as colaboração e anuência tácitas do comparado. No primeiro caso, (independente da sua vontade), exige o dobro do esforço do autor para despir a roupagem envergada à força, em segunda mão, de todo não desejada, quando aquele decidiu enveredar pelas artes literárias empreendendo um trilho eminentemente solitário e pessoal. No segundo caso, aproveita-se a boleia das eminências pardas já estabelecidas e usa-se e abusa-se da sua douta jurisprudência como um estridente e proveitoso slogan publicitário, que normalmente prenuncia, para um amante de literatura, o vazio de conteúdo do publicitado – é nestas situações que, por exemplo, conseguimos ler as mais aberrantes frases de caracterização da obra e do seu autor, parecendo resultar de metamorfoses samsianas, vítima de enxertias insólitas (Woody allen com Kafka, Lynch com Murakami, e por aí em diante).

O Terceiro Irmão (The Third Brother, 2005) é uma amálgama de lugares-comuns dividida em três partes desconexas. Se a intenção do jovem autor era a de criar uma nova trilogia da Grande Maçã com passagem pelas corrupção e sordícia de Banguecoque e pelos efeitos do 11 de Setembro, relatando o desamparo, a solidão e a descaracterização progressiva dos personagens face à perda de valores da família tradicional americana e à voracidade da sociedade contemporânea, numa sucessão de causa e efeito, afirmo, sem qualquer tipo de pruridos, que falhou em toda a linha.
O romance está dividido em três partes desiguais, pelo menos em tamanho: a parte I é constituída por 59 capítulos e ocupa 168 páginas na versão portuguesa; a parte II, por 29 capítulos e desperdiça 70 páginas; a parte III por 20 capítulos e inutiliza 46 páginas.
O protagonista, o jovem e recém-licenciado Mike, vai estagiar para uma publicação em Hong Kong dirigida por um amigo do pai (curiosa identificação, talvez subliminar, entre nepotismos ficcionais e reais) chamado Elliot Anaclet, que o incumbe de elaborar uma reportagem sobre os jovens estrangeiros que procuram a Tailândia como paraíso hedonista, dedicando-se ao consumo de ecstasy. Para além disso, foi-lhe atribuída a função extraordinária de detective particular no estranho caso do desaparecimento de um amigo de faculdade de Anaclet e do Pai, Christopher Dorr, que se perdeu pelas ruas de Banguecoque – um estranho, e mais tarde descrito, episódio marca a separação do trio fraternal no passado.
Na viagem, Mike é acompanhado por um jornalista sénior da revista, Thomas Bishop, que desaparece de circulação desde o primeiro dia de estada na capital tailandesa.
Enquanto Mike deambula pelas ruas de Banguecoque, vão surgindo vários flashbacks que retratam inúmeros episódios das suas infância e adolescência no seio da sua família milionária disfuncional, com uma mãe alcoólica e ausente, com um historial de traição, um pai protector e um irmão obsessivo, vividas entre suas casas nos Hamptons e em Manhattan junto ao Central Park.
Em Banguecoque abundam os episódios mais ou menos sórdidos que qualquer turista poderá verificar in loco, a prostituição, as drogas, a corrupção e a brutalidade policiais, os estrangeiros “farangs” que por lá vão ficando pela depravação reinante – tudo o que foi descrito do ambiente exterior foi por mim comprovado apenas com cinco dias de estadia na fabulosa capital tailandesa, permanecendo na minha memória sem uma única linha escrita.
A parte II inicia-se com Mike a regressar a Nova Iorque devido a um acontecimento trágico que envolveu Lyle, o seu irmão, e os seus pais. Transfere-se de Harvard para a Columbia University e é um dos muitos nova-iorquinos que testemunha os acontecimentos da manhã de 11 de Setembro de 2001 nas torres gémeas do World Trade Center. Banguecoque fica definitivamente para trás, assim como a estranha prostituta menor “Tweety”, com quem se envolveu, assim como Bishop, Dorr e o grupo de jornalistas que se auto-intitulava de “Circo Voador” – talvez por referência aos Monty Python – e que dominava os meandros da cidade.
Mike parte numa busca desesperada pelo irmão, emocionalmente instável, numa viagem pelos destroços deixados pelo colapso das torres. Encontra-o, finalmente, para o tornar a perder de seguida… definitivamente.
Inicia-se a parte III, mais reflexiva e voltada para o interior da natureza humana.
Eis a estranha introdução:
«Mais cedo ao mais tarde, todos nós sofremos danos. Quando se apercebeu disto, Mike decidiu que seria mais fácil falar com pessoas que nunca existiram.» (pág. 239)
Seguindo-se esta preciosíssima meditação, que aqui destaco pelas frivolidade e risibilidade literárias, pelas questões pseudometafísicas que pretende levantar:
«A dor não é herdada, de geração em geração, como os genes. Será que alguns genes contêm em si dor? Será que tem de ser assim? Será que é essa a essência das famílias? Experiência. Sorte.» (pág. 241)
Todo o livro está recheado de pensamentos similares, de clichés (na maioria das vezes assumidos pelo próprio autor, porém não houve a vontade suficiente para os retirar do corpo da narrativa) e de aforismos de pacotilha, que como dizia espirituosamente Thomas Bernhard se imiscuem no meio da filosofia como uma praga de escaravelhos nos veados.

O Terceiro Irmão é um livro sem consistência, desgarrado, cheio de pontas soltas, de onde por vezes parece emergir a estrita necessidade de gastar páginas escritas para adensar o volume final da obra.
A prosa de McDonell nem sequer chega a ser minimalista, como pretendem os habituais catalogadores. Trata-se, sobretudo, de um aglomerado de palavras que não formam um todo coerente, assemelhando-se a uma compilação de notícias de jornal, sobre os mais diversos assuntos cujo elo de ligação não é visível a olho nu, ou então, estamos no domínio do puro esoterismo, cuja trama é apenas inteligível a mentes mais abertas e esclarecidas.
Atrevo-me a dizer que qualquer editora digna desse nome, funcionando em qualquer parte do mundo, rejeitaria liminarmente um manuscrito desta índole ou, no mínimo, exigiria uma reformulação integral encontrando-se, porventura e por ventura, alguma legitimidade artístico-literária na base da história, seguido, necessariamente, de um aturado e exaustivo trabalho de revisão editorial.
Publicá-lo?!... Só mesmo com um empurrão (já dizia o outro barbudo da voz rouca: with a little help of my friends... and family, acrescento).

Classificação: * (Mau)

Referência bibliográfica:
Nick McDonell, O Terceiro Irmão. Lisboa: Teorema, Abril de 2008, 284 pp. (tradução de Rita Graña; obra original: The Third Brother, 2005).

sábado, 5 de maio de 2007

Auto...

«O risco profissional a longo prazo de fazermos espectáculo de nós próprios consiste em, a dada altura, também comprarmos o bilhete.»

Uns são auto-indulgentes, outros auto-referenciais, outros ainda auto-iludidos e a nova estirpe, que brotou da terra como um géiser incontinente – que metáfora tão fraquinha, a roçar os limites do irrepreensivelmente deplorável (lá está!) –, os autodepreciadores.

Eu explico (soberba, aí vem a auto-referência). Terminada a leitura de Salammbô de Flaubert – mais tarde colocarei aqui a minha avaliação (auto-ilusão, ou seja, megalomania, com laivos de alguma histrionia…) –, pronto para regressar a mais umas linhas – poucas, talvez mais um artigo – do Caranguejo de Eco e para escolher o próximo livro que nos próximos tempos me acompanhará nas noites em que o buliçoso mulherio que comigo reparte o lar estiver, justa e convenientemente, a dormir a sono solto.
Segui o critério – sempre a postos para uma pequena derrogação – e percorri as lombadas do cemitério dos livros não lidos – dava um bom título! – peguei em DeLillo – não, o próprio, que, para além de não gostar de andar com desconhecidos ao colo, julgo eu deambula no momento pelos subúrbios de Nova Iorque – Cosmópolis, para finalmente poder imolar-me numa troca de mimos literários com o Rogério. No entanto, numa espécie de epifania arcangélica, uma lombada em tons de ciano, com letras impressas a negro encimadas pelo logótipo da Teorema, fez-me recuar e reflectir sobre o motivo daquela, em concreto, estar postada ao lado das lombadas dos “não lidos”.
Auto-expliquei-me: com o excepcional ano editorial de 2005 em Portugal, lembro-me que para não ter de rogar a um deus desconhecido que os dias tivessem 48 horas, deixei o último romance de Bret Easton Ellis, Lunar Park, no triste recanto do olvido este tempo todo, ofuscado por outros, porventura menores, não lhe havendo servido de nada a grossa lombada fosforescente que ampara as cerca de 420 páginas.
Bom, a triste conclusão: a tal epifania levou-me finalmente à sua desfloração (outra bela metáfora!)

Enfim, termino com o belo início autobiográfico do livro que não tem uma abertura. Ou melhor, até tem e para não recorrer a uma auto-referência sobre as frases de abertura, aqui fica:

«“Fazes uma esplêndida imitação de ti próprio.”
«Esta é a primeira linha de
Lunar Park e, na sua brevidade e simplicidade, deveria ser um regresso à forma, um eco, da linha de abertura do meu romance de estreia, Menos Que Zero.
«“As pessoas têm medo de se fundir nas auto-estradas de Los Angeles.”
«Desde então, as frases de abertura dos meus romances – por mais bem compostas que fossem – tinham-se tornado demasiado complexas e ornamentadas, carregadas de uma ênfase pesada e inútil nos pormenores.
» (pág. 9)

Ah, é verdade! A citação inicial pertence, segundo BEE – olha, o Abelha! – (epígrafe, pág. 7) ao romance de 1978 Panama do escritor norte-americano Thomas McGuane, considerado como o mais autobiográfico do autor... autor.

Referência bibliográfica:
Brest Easton Ellis, Lunar Park. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Outubro de 2005, 413 pp. (tradução de Maria Augusta Júdice; obra original: Lunar Park, 2005).