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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consenso

Altruísmo, palavra tão morta para os que exercem o poder, como negociar simboliza uma acção impraticável e cedência uma impossibilidade constatada. Soberba no seu mais elevado grau de pureza que se conquistou com o exercício reiterado da teimosia, surda e manhosa, sobre as ruínas de um mundo em decomposição, enfraquecido por lutas intestinas na frente adversária. Obstinação, egoísmo que num jogo dialéctico com os patronos do consenso, uma forma espúria e perigosa de altruísmo, se sintetiza em ironia – vazia, sem consequências, como mera constatação do fracasso.
«(…)
De que forma a catástrofe,
traz perturbações ao velho método
de aplicar uma distância ao mundo?
Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo dos seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso.
Só depois deste grito a ironia regressa,
dizendo, quando muito:
morro, é certo, mas mesmo assim
guardo uma elegante distância em relação
à minha morte.
(…)»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, pp. 37-38 (Canto I: 24-26). [Alfragide: Caminho, 1.ª edição, Outubro de 2010, 478 pp.]
Regresse à casa da partida e receba 2.000$00. Consenso: só mais um esforço. Ironia?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tiro de partida: Maratona

Provavelmente, o livro na imagem será o último dos editados em 2007 que irá ser objecto de apreciação aqui neste blogue. São 895 páginas quase desprovidas de parágrafos, carregadas de caracteres que formam palavras esparsamente visíveis a olho nu.
Inicia-se a maratona literária cujos primeiros vestígios da linha de meta serão talvez divisados nas cercanias da consoada, tudo dependerá da minha condição física e espiritual ao quilómetro trinta
Até lá, com alguma hipótese de cumprimento, e sem que disso se faça uma promessa política – leia-se mentira –, divulgarei as minhas notas de prova sobre o confuso e atarantado Homem em Queda de DeLillo e do empolgante Aprender a rezar na Era de Técnica, escrito pelo talentoso e incansável, nas imediações de Borges – é a minha opinião –, Gonçalo M. Tavares. Na realidade, o último livro da tetralogia "O Reino" é uma obra a roçar a perfeição, pela profundidade da reflexão, pela genialidade do simbolismo e, sobretudo, pelas suas originalidade e criatividade; porventura, face ao actual panorama das letras lusas, tratar-se-á de um romance inigualável nos tempos mais próximos – infelizmente, Agustina não é eterna...



«(…) as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo.»
Jonathan Littell, As Benevolentes (Dom Quixote, 1.ª ed., pág. 13; trad. Miguel Serras Pereira).