«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Rapsódia em Azul – Manhattan
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Prémio Nobel da Paz 2009 (act. – “desvarios asininos”)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Sensibilidade e Bom Senso*
Uma assistente na plateia, Katie Hamm, faz a pergunta:
«Deveriam os Estados Unidos respeitar a soberania do Paquistão e não perseguir os terroristas da Al-Qaeda que aí mantêm bases, ou deveriam atravessar outras fronteiras e perseguir os nossos inimigos, como fizemos no Camboja durante a Guerra do Vietname?» [tradução: AMC]O que se seguiu? Tenho a certeza de que a maioria dos que agora lêem estas linhas se lembra do escarnecimento e do sarcasmo de McCain – puerilidade, senilidade ou dificuldade em enfrentar os factos perante os apoios passados comprometedores prestados através de voto no Senado? – ante a resposta de Obama à pergunta formulada pela espectadora.
No fim do 4.º minuto, Obama torna a explicar a sua posição circunstanciada e clarividente; McCain na réplica veste a sua pose artrítica e sofredora e puxa dos lustrosos galões do sofrimento vietnamita…
Depois dos ataques de 26 de Novembro em Mumbai (antiga Bombaim) na Índia, que se prolongaram até anteontem, dia 29, que mataram e feriram centenas de civis inocentes, mais alguém* tem dúvidas sobre a tal “necessidade de mudança” que, felizmente, irá operar-se no próximo dia 20 de Janeiro na Casa Branca?
Notas: *Este blogue passa, claramente, pela sua fase mais austeniana de sempre.
**E usei a expressão “mais alguém” porque os próprios apoiantes lusos de Obama, um pouco por todo o lado, da televisão aos jornais, das rádios aos blogues, apostrofaram como infelizes aquelas declarações (eufemismo que o verbo não deixa demonstrar em toda a sua característica brandura) – alguns chamavam-lhe já o novo “falcão”.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Exteriorização

quinta-feira, 10 de maio de 2007
O Dia da Memória
Faltam 5 dias…Maio, dia 15, dia de estreia mundial do 14.º romance de Don DeLillo (n. 1936, Nova Iorque), depois de (1) Americana, 1971; (2) End Zone, 1972; (3) Great Jones Street, 1973; (4) Ratner's Star, 1976; (5) Players, 1977; (6) Running Dog, 1978; (7) The Names, 1982 (Os Nomes, Relógio D’Água); (8) White Noise, 1985 (Ruído Branco, Presença); (9) Libra, 1988 (Libra, Presença); (10) Mao II, 1991 (Mao II, Relógio D’Água); (11) Underworld, 1997; (12) The Body Artist, 2001 (O Corpo enquanto Arte, Relógio D’Água) e (13) Cosmopolis, 2003 (Cosmópolis, Relógio D’Água).
O primeiro Grande a escrever sem rodeios sobre o Dia da Memória: 11/09/2001.
«It was not a street anymore but a world, a time and space of falling ash and near night. He was walking north through rubble and mud and there were people running past holding towels to their faces or jackets over their heads. They had handkerchiefs pressed to their mouths. They had shoes in their hands, a woman with a shoe in each hand, running past him. They ran and fell, some of them, confused and ungainly, with debris coming down around them, and there were people taking shelter under cars.
The roar was still in the air, the buckling rumble of the fall. This was the world now. Smoke and ash came rolling down streets and turning corners, busting around corners, seismic tides of smoke, with office paper flashing past, standard sheets with cutting edge, skimming, whipping past, otherworldly things in the morning pall.»
Don DeLillo, The Falling Man (Scribner).
terça-feira, 1 de maio de 2007
BHL - 4 [actualizado]
Nota: Charlie Rose também é mencionado no livro de BHL, é parte integrante de um nostálgico e delicioso episódio onde Rose regressa à sua terra natal, Henderson, na Carolina do Norte. O episódio (subcapítulo) intitula-se "Home with the wind" (BHL, Vertigem americana, ..., pp. 227-230, op. cit.)
O Fim da História e o Choque das Civilizações
BHL, empresário, escritor e filósofo francês, nascido na Argélia em 1948, de ascendência judaica, aluno de Derrida e de Althusser na École Normale Supérieure em Paris, é considerado o pai do movimento dos “Novos Filósofos”, surgido no início dos anos 70 do século passado em Paris, incluindo nomes como André Glucksmann ou Christian Jambet, entre outros, que, pretendendo romper com a tendência marxista (o capitalismo era tido como a origem de todos os males) dos seus antecessores pós-estruturalistas (e.g. Derrida, Foucault, Deleuze) fortemente arreigada na ideologia de base de regimes totalitários e afastando-se das suas nefastas sequelas sobre a realidade humana envolvente, denuncia o afastamento daquelas escolas do pensamento de uma necessária e inevitável abordagem centrada no indivíduo, de uma ligação mais concreta ao cenário internacional e de uma maior visibilidade do pensamento filosófico através dos meios de comunicação social.
A Nova Filosofia, mereceu como é óbvio a forte contestação do establishment do pensamento filosófico francês, entre os principais críticos destaque-se Gilles Deleuze que, em entrevista concedida à revista Minuit de Maio de 1977, chega a afirmar que para ele os Novos Filósofos «nada» representam, acrescentando que crê «que o pensamento deles é nulo.» Lançando de seguida fortes ataques a BHL, em jeito de resposta a ideias por ele professadas: «Ele diz que existe uma ligação profunda entre o Anti-Édipo e “a apologia do podre perante a miséria da decadência” (e é assim que ele o diz), uma ligação profunda entre o Anti-Édipo e os consumidores de drogas. Pelo menos, isto fará rir os drogados. Ele diz, também, que o CERFI [Centre d’études, de recherches et de formation institutionnelles, fundado por Félix Guattari, do qual fez parte Deleuze, e co-autor de O Anti-Édipo] é racista: ora isso é ignóbil.»
Enfim, pretendeu-se aqui dar apenas uma pequena amostra da truculência opinativa, e da instabilidade provocada, de BHL na difícil interacção com o seu meio de explanação intelectual, que, de todo, não é o assunto principal deste texto.
BHL, a convite da revista norte-americana Atlantic Monthly percorreu durante um ano o território americano, 170 anos depois do seu compatriota Alexis de Tocqueville haver imergido na América profunda, por ofício do Governo francês, com o objectivo inicial de estudar o sistema prisional americano. Porém, Tocqueville, na companhia de Beaumont, acabou por ir mais além e desenvolver o fabuloso e celebérrimo tratado Da Democracia na América.
O livro, para além do prefácio de Freitas do Amaral na edição portuguesa, está dividido em três partes fundamentais: a primeira trata das expectativas e dos preparativos para viagem de BHL; a segunda, que ocupa grande parte do livro, dedica-se aos relatos da viagem (dividida em 7 partidas); e a terceira e última, o epílogo, a que o autor dedica uma aprofundada análise filosófica, baseada na experiência, sobre o conceito de se ser americano; sobre a ideologia americana e a sua relação com emergência do terrorismo após o 11 de Setembro de 2001; e uma reflexão sobre a essência da América, sobre os estereótipos do imperialismo, do fundamentalismo e do neoconservadorismo; para além de um post-scriptum sobre o furacão Katrina e das longas fracturas reveladas da sociedade americana, já quando BHL havia concluído a sua viagem e se encontrava a elaborar os remates finais do livro.
América, terra de contrastes (não é novidade). Local onde coabitam numa estranha harmonia o maior dos sonhos, o idílio de uma vida dourada, e o mais negro dos pesadelos, a pobreza e a exclusão (também aqui não resulta nada de novo para os nossos estafados ouvidos europeus). Caldeirão de culturas, de religiões e de raças (idem). A venda livre de armas, a mercantilização da religião e dos seus templos, o endeusamento da iniciativa privada e da privatização dos serviços públicos e das funções do Estado (designadamente da Saúde, da Segurança Social e até de parte do sistema prisional), …
Tudo isto não é novo, porém a beleza da obra resulta das reflexões de BHL que se entrecruzam nos diversos relatos; no seu esforço de se desintoxicar dos apriorismos de um francês cultivado de lugares-comuns antiamericanos; em suma, procura desempenhar o papel de observador neutro e descomplexado para captar a verdadeira essência daquele todo social, sobre a qual, a pedra angular, se constrói aquela babilónia de formas de pensar, de sentir e de agir e que se consubstancia num padrão comportamental social único, por vezes ininteligível para o cidadão europeu.
De Newport a Des Moines, passando por Montana, de Seattle a San Diego, de Las Vegas a Tempe, de Austin (capital do Texas) a Little Rock, de Miami a Pittsburgh, passando por Washington, D. C. e terminando em Cape Cod, ficam as marcas em: a descrição do sistema prisional, onde Guantánamo é uma síntese daquilo que pôde observar no resto do país; as cidades desproporcionalmente grandes para as necessidades da comunidade; o estado de abandono de Detroit (outrora a sede de uma indústria automóvel em expansão) e as cidades fantasma; a incomensurabilidade de Los Angeles (a anti-cidade, sem um centro de referência) que se estende desde a costa do Pacífico por 70 km para Leste e cerca de 80 km para Sul desde o ponto mais a norte; a sua paixão por cidades como Seattle, Savannah, Nova Orleães e Boston, cidades que escolheria para viver se emigrasse para os EUA; os republicanos que votaram Kerry em 2004 e os democratas (e extremistas de esquerda) que votaram Bush; o encantamento pela mente esclarecida de Warren Beatty, por Woody Allen e a sua paixão pelo seu clarinete; uma certa decepção com Kerry e a sua comitiva; a conversa com Norman Mailer; as conspirações sobre o suicídio de Hemingway; os índios republicanos e anti-semitas; a exagerada propensão para a entronização da banalidade em museus (o exemplo picaresco da tábua de queijos como obra de arte em exposição); as comunidades herméticas de velhos reformados onde não é autorizada a permanência a menores de 55 anos, onde apenas se subsiste contando os dias para o fim da vida numa condição quase que pueril (aquilo que BHL designa como o apartheid dourado); as feiras de armamento abertas ao público, onde BHL foi revistado à entrada enquanto casais, tipicamente pertencentes à classe média, saíam com espingardas a tiracolo; a imensa mole de cubanos cristalizados no tempo que ocupam grande parte da cidade de Miami; a forma peculiar de conservação da natureza, que se pode encontrar nos pântanos do Everglades; a história tenebrosa por detrás do icónico Mount Rushmore; a vigilância da fronteira com o México e a política de recrutamento dos guardas fronteiriços; a emergência do criacionismo e a sua influência, por exemplo, na formação do Grand Canyon; os mórmones, os quakers e as seitas apocalípticas.
Enfim, uma multiplicidade de encontros e desencontros com as práticas civilizacionais europeias.
Será que, através desta análise em solo americano, poderemos vislumbrar o fim da História (Hegel ou Marx, ou…)? Ou pelo contrário, ela sobrevive pelo iminente e inevitável choque civilizacional?
Numa interessante análise final, BHL parte de dois paradigmas e aplica-os à situação corrente da maior potência mundial:
Francis Fukuyama vs. Samuel Huntington.
O fim da História por Fukuyama, a era da pós-historia, pela queda do comunismo, pelo esboroamento das ideologias fundadas na dicotomia capitalismo (por oposição) versus comunismo e pela emergência (vitória) da democracia liberal (economia neoliberal) como único sistema sem contraditório porque vazia de ideias sujeitas a discussão, desempenhando a política uma função meramente administrativa.
A refutação desse fim anunciado, onde Huntington professa que finda a guerra das ideologias, ela será de imediato substituída pelo choque de civilizações que forçosamente manterão viva a História, embora esse prognóstico sirva de instrumento teórico, como refere BHL, para a barbárie contra a grande comunidade hispânica (e não só) nos EUA, tal como sucedeu no início do século XX, segundo Huntington: «“a plebe amorfa multicolor” de “eslavo-latinos” e de “judeus do oriente” que vinham corromper “a personalidade política e moral dos Estados Unidos”» havendo-se perdido «o credo britânico que fez a nossa boa e bela nação» (pág. 287).
BHL, por fim deixa nas entrelinhas e sobre a forma interrogativa pistas que nos dão a ideia dos EUA como um país laico e de pendor não imperialista, ao contrário dos preconceitos dos seus preclaros concidadãos europeus.
Vertigem Americana é um bom livro (embora entediante a espaços, por exemplo quando o autor parece perder-se em algumas divagações filosóficas), que se segue com interesse pela quase inatingível capacidade enciclopédica ao abarcar o mosaico social multicolor de um país que continua, hoje em dia, a despertar o maior dos fascínios ao cidadão estrangeiro, mesmo naqueles que, de forma categórica, exprobram a sua bandeira, as suas cores, enfim, the american way of life.
E não será essa execração antiamericana uma forma de fascínio?
Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
Bernard-Henri Lévy, Vertigem Americana. Porto: Caderno (Asa), 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 366 pp. (tradução de Carlos Aboim de Brito; obra original: American Vertigo, 2006).
quinta-feira, 26 de abril de 2007
BHL – 2
Ponto de ordem (regresso a BHL): não é que nas escassas duzentas páginas que até agora traguei tenha encontrado um discurso literário exemplar, dentro do limite estético que uma obra sobre um relato verídico de uma grande viagem permite; em abono da verdade, até encontrei em algumas passagens um tipo de dissertação eivada de preconcepções e de uma visão europeísta sobranceira que, por muito esforço de despoluição que se tenha empreendido, contamina uma realidade, apesar de tudo, díspar.
Acabei de sentir um impulso irreprimível para neste espaço escrever qualquer coisa sobre um dos episódios que acabei de ler e que, fruto do tempo ou quiçá de uma instabilidade emocional – e que se fodam os presumidos coriáceos que nunca verteram uma lágrima perante o belo, na miríade de formas que este pode assumir –, me comoveu profundamente pelo exemplo de coragem, de abnegação por uma causa sem proveito próprio, pelo carácter de dois homens que, como BHL os definiu, são «duas personagens admiráveis» (pág. 193): Morris Seligman Dees, Jr. e Jim Carrier.
Liberdade!
terça-feira, 24 de abril de 2007
BHL
BHL é a sigla por que ficou conhecido o filósofo francês contemporâneo Bernard-Henri Lévy. O prefácio da edição portuguesa de Vertigem Americana (Caderno, 2007) foi redigido pelo inefável DFA. Cansado da vida política após uma curta estadia no MNE patrocinada pelo Eng.º (?) JS, leccionará a última aula da sua longa carreira de professor universitário (entretanto jubilado) no próximo dia 22 de Maio na FDUNL, enquanto calcorreia o país em conferências, ladeado pelo seu grande neoamigo MS com todo o fervor oratório anti-imperialismo americano.
Lido o prefácio de escassas seis páginas, certamente estudado com a mais cuidadoso detalhe, dada a forte sensibilidade mediático-explosiva que o seu nome angariou na opinião pública e na dita publicada em tempos de excitação ideológica de certa forma sinuosa, destaco uma singela asserção que, vinda de quem veio, abalou o cerne das minhas (poucas) certezas:
Os EUA como o «país mais maravilhoso da História!» (pág. 15, 1.ª ed.)
Para um americanófilo empedernido como eu, no que respeita à literatura, ao cinema, à música e até à filosofia inerente ao seu sistema democrático, compreendereis decerto a magnitude do tremor que aquelas palavras me provocaram…
Adiante! Daqui a uns dias postarei a minha apreciação, sem ruído literário de outra espécie que a possa perturbar.
GbA!
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
My home sweet home

Depois de haver acolhido Salman Rushdie, esse anglo-indiano que provocou a ira desse pacifista e ponderado Ayatollah Khomeini, a tal ponto que este se viu obrigado a declarar-lhe uma fatwa, os Estados Unidos recebem um potencial genocida literário – talvez pela envergadura da obra – de nome Pamuk, que se recusou a negar o genocídio arménio perante os seus concidadãos em nome da verdade histórica.
Daí perfilhar estas singelas, porém acutilantes, palavras do Eduardo Pitta em três orações: “Pamuk fez as malas e partiu. Para o sítio do costume.”