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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por fim, fecharam-se os lábios

«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»


(West Point, NY, 3/Outubro/1925 – Hollywood Hills, CA, 31/Julho/2012)

Parte do que eu poderia dizer, já o disse.
O que dizem eles, pobre e atabalhoadamente.
E o que diz o João, porventura o maior admirador e conhecedor da vida e da obra deste americano, feroz e mordaz, neste Portugal (dos pequeninos) que quase o ignora.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um enorme pesar

Pôncio Monteiro
(Peso da Régua, 1940 - Porto, 2010)

Até sempre, DRAGÃO.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

“Frank Drebin”

Leslie Nielsen
(Regina, SK, Canadá, 26/02/1926 – Fort Lauderdale, FL, EUA, 28/11/2010)
Nunca fui de lágrima fácil, tanto na alegria, como na tristeza, sou um acumulador, porventura reprimido (vou-me dando conta disso à medida que envelheço), de fenómenos (emocionais) de exteriorização de sentimentos perante terceiros, mas este homem, que ontem desapareceu ao 84 anos, vítima de uma pneumonia, foi um dos principais responsáveis por algumas das fortes gargalhadas, acompanhadas de incontidos jorros de lágrimas, em muitos momentos da minha vida. Poderia não ser um Peter Sellers, um Buster Keaton, ou um Jacques Tati (e este é, sempre que o recordo, um trio arrepiantemente assombroso e hilariante), até pela sua ausente vertente de “autor”. Todavia, Nielsen, em conjunto com os fabulosos irmãos Zucker e Jim Abrahams, permanecerá para todo o sempre no meu imaginário como um dos grandes protagonistas de filmes cómicos: a sua aparência respeitável, séria, a sua ilusória formalidade e até assertividade, conjugavam de forma sublime com as suas inocência e atrapalhação nos momentos mais aflitivos, redundando nas situações mais rocambolescas. Era um histrião de smoking, o pinga-amor desajeitado, o sedutor tortuoso e irresistível, e actualmente o mais fidedigno representante do burlesco cândido. Mesmo com 84 anos, a sua aparição no grande ou no pequeno ecrã fazia rir mesmo o mais sisudo empedernido.
Em jeito de homenagem, deixo ficar uma das melhores cenas retiradas da curta (pelo fracasso nas audiências), porém extraordinária, série televisiva Police Squad (a fonte de inspiração da trilogia Naked Gun):

domingo, 31 de outubro de 2010

Oito

Não me canso de repetir e fazer-me ouvir: “São apenas datas, um sinal no calendário igual aos demais que se repetem três centenas e meia num ano.” E assim tento enganar, ludibriar a dor inextinguível da saudade de outros, que também é minha, e que deste modo se multiplica e intensifica pela estúpida mentira que estipulei seria dita àqueles que mais amo no dia fatal. Todavia, fico com a dúvida que a mera percepção da estupidez cometida possa servir como indicador de algum resquício de lucidez que julgara definitivamente perdida.

«Pelo menos sabes que és a pessoa mais estúpida que jamais viveu neste mundo. Quantas pessoas terão a inteligência necessária para admitir uma coisa dessas?»
Paul Auster, Sunset Park, pág. 188 [Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2010, 231 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Sunset Park, 2010.]
Contudo, o dia passou, permanece a dor… 8, que se declina para o infinito.

domingo, 12 de setembro de 2010

Claude

Claude Chabrol
(24 de Junho de 1930 – 12 de Setembro de 2010)
É o segundo a partir este ano, e do grupo de cinco, já só restam dois, os “jotas”: Jacques e Jean-Luc. Claude Chabrol morreu hoje na sua Paris natal.
Conjuntamente com François Truffaut (1932-1984), Eric Rohmer (1920-2010), Jean-Luc Godard (n. 1930) e Jacques Rivette (n. 1928), Chabrol foi um dos pais fundadores do denominado movimento do cinema francês da “Nouvelle Vague”, cuja semente provém da revista Cahiers du Cinéma, onde o quinteto, fomentado pelo seu fundador André Bazin, escrevia artigos de crítica, e cujas arte, visão e estética se materializariam em centenas de filmes que, a partir do final da década de 50 do século passado, marcaram em definitivo o rumo do cinema francês e europeu, com fortes repercussões do outro lado do Atlântico.
Deste grupo, Chabrol foi o seu elemento mais prolífico começando com o notável Um Vinho Difícil (Le beau Serge, 1958) e terminando com Bellamy (2009) – com promessas de estreia em Portugal nunca concretizadas.
Não escondo, e nunca escondi, a minha predilecção por Rohmer e por Chabrol, apesar de a reverência ao Mestre Godard ser unânime no mundo da intelectualidade, de a marca de originalidade ser normalmente atribuída a Rivette e das superioridades técnica e estética usualmente apontadas a Truffaut. Chabrol, para além do mais produtivo, era também o mais comercial – ou mainstream, como alguns gostam de chamar – de entre os cinco: o Hitchcock de Paris.
Muito poderia, aqui e agora, destacar do excelso parisiense que hoje partiu – embora nos tenha deixado altruisticamente a sua arte para ser contemplada –, são incontáveis os filmes que dele apreciei e reapreciei com deleite, mas irei apenas destacar o último original da sua filmografia que pude ver (o seu penúltimo), e por este ter sido quase negligenciado pela crítica: o excepcionalmente belo e desesperante A Rapariga Cortada em Dois (La fille coupée en deux, 2007) com a bela, sensual e lúbrica Ludivine Sagnier e o meu mui estimado François Berléand (onde já não apareceu a sua musa Isabelle Huppert):

sábado, 26 de junho de 2010

O Mural (nova versão)


«A raiz da palavra hipócrita em grego antigo encontra-se no verbo hypokrino, que possuía um conjunto de sentidos, podendo ir do simples discurso, à oratória, à representação cénica, à dissimulação ou à falsidade.»* [tradução AMC]
Robert Scholes, The Rise and Fall of English [em tradução livre A Ascensão e Queda da Língua Inglesa], p. 81 [Yale University Press, February 1998, 220 pp.]
Houve de tudo, viu-se de tudo, falou-se de tudo, mas com uma deformação sectária apriorística capaz de fazer retinir as campainhas da pura náusea ao ser mais resistente das intoxicações de pendor unanimista. A intelligentsia estava presente. O camarada Jerónimo discursou, o coordenador Louçã (o eufemismo mais bem esgalhado da política portuguesa, que o diga Joana Amaral Dias que foi bem co-ordenada rumo à empoeirada prateleira trotskista, onde porventura jazem uma famosa picareta e a expressão, com o mesmo prefixo, “colaborador”) vituperou, usando todo o seu fel – cujas reservas parecem não se esgotar –, levantando o seu queixo anguloso e bradando com toda a sua acrimónia facciosa, o mais alto magistrado da nação.
António Costa, numa atitude nobre, sem nunca deixar os seus laivos de populismo – está-lhe na massa do sangue e acautela-se já o problema sucessório –, ao franquear as portas da Câmara Municipal de Lisboa, previu um velório, seguido de funeral em homenagem ao notável escritor recentemente desaparecido. Porém, e basta seguir a voragem da apropriação com que se digladiam as esquerdas nacionais, o velório passou num ápice a comício, cujos senhores disseminadores da moral, proprietários do pacifismo e edificadores da ética (republicana, tão em moda) organizaram sob o pretexto da morte de mais um sectário, cujas tragédias monstruosas do século XX não desfizeram a irredutibilidade das suas posições de apoio incondicional à tirania comunista, um verdadeiro espectáculo de multimédia (só faltou a pirotecnia, não se esquecendo, porém, da useira piromania ad hominem) com comentários de circunstância, intervenções da laia de flash interviews, conferências de imprensa, comunicados, uma espécie de feijoada da Caras da Bibá, um “quem é quem” à moda portuguesa, a que só faltou a destreza criativa com as t-shirts estandardizadas previamente distribuídas.
Falou-se de um tal de Lara – o mesmo que fez parte da turba Moderna e foi um dos condenados no processo da famosa Universidade, sentenciado em 2003 a dois anos de prisão com pena suspensa pelo crime de “administração danosa” –, que nos idos de 1992, então Subsecretário de Estado da Cultura de Santana Lopes num Governo de Cavaco Silva, vetou o acesso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo à lista de candidatos do Prémio Literário Europeu. E este incidente lamentável com dezoito anos, serviu para, na hora do luto, apoucar, depreciar, enxovalhar o Presidente da República Portuguesa apelidando-o de iletrado, mesquinho, revanchista, ressentido, tacanho e provinciano, chegando mesmo em diversos foros à desfaçatez do insulto brejeiro, boçal e ordinário que me eximo de expor neste texto. De banal e medíocre o defunto já o houvera insultado. Deixou, no entanto, os sequazes colectivistas para terminar a obra, de cujas agitação, histeria, insensatez e imundície provêm do acto eleitoral onde o candidato-Alegre-trovador-combatente-intelectual-humanista – um homem sisudo, poeta de primeira água, todavia, um prosador mais que mediano, político resvaladiço e volúvel, plantado num campo de paradoxos movido por um tropismo meramente eleitoralista – disputará com aquele demónio de Boliqueime – o tal sobre quem caíram os pecados do mundo da dialéctica em espiral.
Cavaco (tal como Gama, a 2.ª figura na hierarquia do Estado) pode ter errado ao não comparecer no funeral-comício aos Paços do Concelho de Lisboa (onde da mesma forma e com o mesmo matiz rubro se celebrou, uns meses antes, a vitória rara do clube do regime); mas com toda a certeza não se enganou nos valores democráticos e de liberdade, de uma imutabilidade recalcitrante, preconizados pelo camarada-defunto (demonstrados à saciedade em pleno PREC), baseados na filosofia, na doutrina e na práxis dos quatro acima representados no mural – é essa moral deles. Não foi a estética, muito menos a técnica, mas porventura a moral, assim grafada, das diversas diatribes e anátemas do camarada-defunto que estiveram na origem da omissão presencial, que no entanto se fez representar pelo segundo elemento da hierarquia do círculo presidencial. E se acima disse que Cavaco pode ter errado, restrinjo o campo de acção do verbo apenas à falta de iniciativa de elevar as exéquias fúnebres à condição de “nacional”, num país em que é constitucionalmente garantida a plena liberdade de expressão e consagrado o livre pensamento, independentemente da maior ou menor identificação com os conceitos do homenageado.
E facilmente se percebe o que a ambos, em vida, os distinguia, através de uma simples análise dos presentes. Se para uns a Coreia do Norte é quase uma democracia, para outros o Terror Vermelho trotskista era um mal necessário. E no século XXI continuamos a discutir Maiakovsky contra Mandelstam. Purgas contra a luta pela sobrevivência das diferenças num espaço comum de liberdades. Os Gulags, o colectivismo intelectual, o pensamento único contra a energia criadora em cada um de nós.
E se muitos, fornidos do magnésio para a memória – fumos, injecções e aspirações – não se esquecem da negra data de 1992, eu, como muita boa gente, não me esqueço de uma outra, mais negra e inquietante: 17 de Outubro de 1998 (e por curiosidade, os números têm destas coisas, a data combina-se para formar a cosmogonia do terror; ah, aquele Outubro juliano!...) Foi um sábado, no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos (cf. Pravda Lusitano, de 22/10/1998), a noite da infâmia: enquanto milhares são martirizados e assassinados por delito de opinião nas prisões cubanas, enquanto nesse sítio os “laras” estão armados de Kalashnikov, investidos com a mão de ferro da tortura, munidos do livro vermelho que suspende os direitos do Homem em prol de uma ideologia totalitária, Saramago entra em palco de braço dado a Fidel Castro, discursa em primeiro lugar e ouve de seguida, embevecido, hipnotizado, o comandante durante horas a fio a ditar o discurso estafado de quase quarenta anos (na altura, hoje já são mais de cinquenta). E como dizia Isaiah Berlin em The First and the Last (1999; NYRB, p. 57): «Causar dor, matar e torturar são actos geralmente condenados; mas se não forem cometidos para meu benefício pessoal e sim em prol de um ismo – socialismo, nacionalismo, fascismo, comunismo, de crenças religiosas fanáticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da História –, então, esses actos são aceitáveis.»**
Mas esses (e regressemos à citação inicial do eminente filólogo Robert Scholes, aludindo aos descendentes da voz grega hypokrino), os que agora criticam, vituperam e desancam o mais elevado magistrado da nação – com espaços bem remunerados nos jornais, rádios e televisões, dominados historicamente pela esquerda mais radical e sectária – foram os mesmos que boicotaram a prestação do devido e merecido tributo na Assembleia da República ao poeta, ensaísta, dramaturgo António Manuel Couto Viana (1923-2010) que, curiosamente, tinha a mesma idade de Saramago e morreu apenas dez dias antes, sob o pretexto de supostas ligações fascistas de outrora, aventando-se a possibilidade de se haver alistado ao lado de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) – seria um rapaz precoce que entre os 13, no mínimo, e os 16 anos, no máximo, já combatia por terras espanholas em nome de um ideal. Pobre país em que 20% da população votante se faz representar por gente deste calibre, onde a verdade, a honestidade intelectual e a transparência de procedimentos são aniquilados em nome de um colectivismo cuja História mostrou a índole e a prática torcionária e aniquiladora das liberdades individuais. Foram alguns desses que nos idos de 1980 festejaram a morte trágica do Primeiro-Ministro e do Ministro da Defesa nacionais, quando voavam sobre Camarate com destino ao Porto, e um rapaz incrédulo, com apenas 8 anos, e com alguma memória, questionava a autoridade familiar mais provecta a razão de ser das garrafas de champanhe, dos foguetes e dos urros de alegria perante as vidas despedaçadas naquele 4 de Dezembro.
Porém, a verdade, que todos querem arrebatar, subsiste e remanescerá pelos tempos nos escritos feéricos do autor da Azinhaga do Ribatejo. A verdade está nas narrativas inovadoras na, já de si, tão maltratada língua portuguesa e pungentes no seu lirismo, cuja ficção foi estonteando o mundo pela sua arte de contar histórias. A verdade está na sua ficção: no Memorial do Convento (1982), em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1986) e em As Intermitências da Morte (2005; e, após um período de dura resistência, o meu primeiro de muitos contactos com a ficção saramaguiana) – a minha trilogia pessoal.
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Para terminar, uma curiosa passagem de um interessantíssimo artigo, publicado em 2007:
«Há cinco anos, [Saramago] conseguiu provocar um escândalo à escala global quando, numa visita à Faixa de Gaza, comparou a situação nos territórios palestinianos a “Auschwitz”.
»Para o crítico literário Harold Bloom, a comparação com Auschwitz foi “de uma falta de imaginação e de humanidade imperdoável” por parte de um romancista que ele considera “o segundo melhor, apenas atrás de Philip Roth” entre os escritores vivos. “Os romances de Saramago são ilimitadamente inventivos, ilimitadamente bondosos, ilimitadamente engenhosos”, disse-me Bloom, “mas deixa-me perplexo como é que o homem não consegue crescer politicamente. Em 2007, ser um português estalinista significa simplesmente não estar a viver no mundo real.”»
Fernanda Eberstadt, “José Saramago, the Unexpected Fantasist”, The New York Times, August 26, 2007.
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Notas: *Citação reproduzida da fonte primária, por sugestão da obra autobiográfica O Regresso do Hooligan, de Norman Manea (ed. port. Asa; p. 300).
**Citação retirada de Paul Hollander, O Fim do Compromisso (ed. port. Pedra da Lua, Fev/2009, p. 32, trad. de Virgílio Viseu).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Luz. Trevas. Impotência.

[Eis a minha contribuição para o exercício de memória sobre os Joy Division, notavelmente organizado pelo Manuel A. Domingos no seu blogue sob o título Licht und Blindheit (inspirado no EP de 1980, com número limitado de cópias, da pequena e selectiva editora francesa Sordide Sentimental, e no ensaio de um dos seus fundadores, Jean-Pierre Turmel), a propósito da passagem dos 30 anos da morte trágica de Ian Curtis.]
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988.
Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”.
Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos.
Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilando com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo.
Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou:
«A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]

terça-feira, 18 de maio de 2010

30 anos - O Melhor de Sempre

Ian Kevin Curtis
(15/Julho/1956 - 18/Maio/1980)
«Human beings are dangerous and they call me in the dark.»
(verso retirado da letra de "At A Later Date" (1977), Warsaw)

 
Vídeo elaborado por um fã, com imagens do memorável e brilhante filme de Anton Corbijn, Control (2007):
  • Sam Riley como Ian Curtis
  • Samantha Morton como Deborah Curtis
  • Som de fundo: "No Love Lost" (1978), Warsaw

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Morreu o pai de “Holden Caulfield”


[Nova Iorque, 1 de Janeiro de 1919 – Cornish, NH, 27 de Janeiro de 2010]
Em vida deixou-nos dois romances (À Espera no Centeio/Uma Agulha no Palheiro – The Catcher in the Rye, 1951; Franny e ZooeyFranny and Zooey, 1961), uma colectânea de contos (Nove Contos – Nine Stories, 1953) e duas novelas, publicadas inicialmente em 1955 e 1959, respectivamente, na revista The New Yorker, condensadas mais tarde num só livro, (Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira e Seymour: Uma Introdução – Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour: An Introduction, 1963). Segundo se dizia, após a fuga definitiva às luzes da ribalta em 1953, nunca parou de escrever, tendo prometido que iria deixar os imensos manuscritos como legado para publicação póstuma – esperando que tenha abandonado a prodigiosamente enfadonha “família Glass”.
Um pequeno mimo do alter ego:
«Os actores com a sua simples presença convencem-me sempre, para meu horror, de que a maior parte do que até agora escrevi sobre eles é falso. É falso porque escrevo sobre eles com um amor inalterável (mesmo agora, ao escrevê-lo, também isto se torna falso), mas com variável talento, e este talento variável não retrata os actores reais de modo vivo e correcto, perdendo-se antes apagadamente neste amor que nunca se satisfará com tal talento e que por isso pensa que está a proteger os actores ao impedir este talento de se exprimir.
»É como se (para o descrevermos figurativamente) um autor se tivesse enganado ao escrever uma palavra e esse erro de escrita tomasse consciência de si mesmo. Talvez não fosse um erro, mas, num sentido muito mais elevado, uma parte essencial de todo o texto. É como se, então, este erro de escrita se revoltasse contra o autor, movido pela animosidade que lhe dedica, como se o proibisse de o corrigir e como se dissesse: “Não, não permito que me apagues, quero manter-me como um testemunho contra ti, de que não passas de um bem fraco escritor”.»
J.D. Salinger, “Seymour: Uma Introdução”, in Carpinteiros, Levantai… op. cit., p. 79
[Algés: Difel, Outubro de 2006, 168 pp; tradução de José Lima]

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pensar nos interstícios

Jardelizar um texto. Ele prossegue. Este fragmento humano que, por vezes, escreve neste espaço, com intervalos entre textos cada vez maiores – os intervalos, claro está –, não assinalou os 50 anos da morte do estimadíssimo argelino do Combat – denegrido pela esquerda vesga, vulgo sartriana, que após a morte lhe dedicou uma elegia pungente de falsa admiração – e, para agravo do eu (ou ele? o dele) já macerado, deixou passar em claro o desaparecimento físico, imortalizado na tela, de Sax von Stroheim, mas que por inversão nome/apelido dos estetas apreciados preferiu ser conhecido por Éric Rohmer (1920-2010); Maurício Henrique deixou moral e finalmente a casa de Maud – e quantas Claires, em doces movimentos rotulares, existirão no éter para amimar o Mestre? (na imagem, le genou) – para se encontrar com o grande Francisco, que abalou cedo nos idos de 1984, onde ainda deixou o João-Lucas, o Cláudio e o Tiago (ou Jaime, para quem preferir esta parte da raiz bifurcada), na casa dos oitenta a transpirar beleza por todos os poros. Desistam da reputada beleza nabokoviana da parelha Astrea & Celadon, com os seus toques mamilares subtis, do corpo enquanto arte – até ver, encaixa-se no que vem a seguir.
E vou tendo notícias sobre os que ainda me alegram a vida pela arte que vão lançando a cada nova etapa de suas vidas. Há um Point Omega de um pós-modernista muito odiado pelo reaccionário de Harvard, aquele sebento emproado que escreve panfletos na New Yorker, e cuja carneirada se agarra para calibrar os seus gostos literários – ó pobreza de espírito. De alfa a ómega… a idiotia no seu estado mais puro dos literatos de pacotilha.
E aquela abertura que há pouco passou pelos meus olhos num inglês burilado por fluxos que emergem das profundezas do subconsciente, dava um filme do mago Jarmusch… mas não deu já? Axioma: Sem limites, não há controlo; rédea solta a uma realidade arbitrária e subjectiva, não artificial mas imaginária, cujos reflexos são mais vívidos que os objectos reflectidos.
Vejamos:
«A vida real não é redutível às palavras faladas e escritas, por ninguém, nunca. A vida real desenrola-se quando estamos sós, a pensar, a sentir, perdidos na memória, sonhadoramente autoconscientes, os momentos submicroscópicos. Ele disse isto por mais do que uma vez, Elster fê-lo, de diferentes formas. A sua vida surgiu, disse ele, quando se sentou a fitar uma parede em branco, reflectindo sobre o jantar.
»Uma biografia de oitocentas páginas não é nada mais que uma conjectura sem vida, disse ele.
»Eu quase acreditava nele sempre que ele proferia este tipo de coisas. Ele dizia que nós fazemos isto o tempo todo, todos nós, começamos a ser nós próprios sob a força de pensamentos correntes e imagens difusas, indagando indolentemente sobre quando iremos morrer. Esta é a forma como vivemos e pensamos, quer a reconheçamos ou não. Estes são os pensamentos desordenados que nos sobrevêm quando olhamos através da janela do comboio, as pequenas e enfadonhas manchas de pânico meditativo.»
Don DeLillo, Point Omega [Scribner, February 2010, 128 pp.; tradução livre: AMC].
E vejo, por aqueles olhos orientais transversais (cuja perfeita perpendicularidade vulvar – ah, o eu concupiscente e ominoso – não se olvida da bela compatriota, ficara gravada no limiar do consciente que se enraíza na fantasia, materializada em cena babélica-stoniana) que se cruzam num faiscar diáfano com a fleuma assassina de Bankolé, os moinhos de vento tecnológicos nas planícies inóspitas da Andaluzia enquadradas por uma janela do comboio de alta velocidade: «Aqueles que julgáramos connosco, não estão entre nós.»

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O “Zé do Boné”: 25 Anos



Era ainda muito novo… mas, até ao último fôlego do meu ser, ninguém me poderá roubar a imagem do fim do jejum de 19 anos e da alegria esfusiante de milhares de portistas nas ruas da cidade terminado o desafio da última jornada com o Braga (4-0), que culminou, na época seguinte, com o inesquecível jogo com o Barreirense (4-1), numa tarde tórrida de um domingo de fim de Primavera no desaparecido Estádio da Antas, onde, com apenas 6 anos, assisti da arquibancada, na companhia da minha família (pais, avós, tios e primos direitos) e de diversos casais amigos de meus pais, à conquista do bicampeonato: 1977/78 e 1978/79 (que, segundo rezam as crónicas, um tal de Manaca não deixou que fosse “tri”).
Na alegria e na tristeza… com apenas 12 anos, numa tarde fria e cinzenta de Janeiro, postei-me no passeio da praça Teixeira de Pascoaes e assisti ao cortejo fúnebre que partiu da Igreja de Santo António das Antas (local onde fui baptizado, junto ao antigo Estádio) e que por mim passou, num silêncio carregado produzido por dezenas de milhares de pessoas cuja atmosfera jamais esquecerei. Uma torrente de pesar provinda da rua de S. Crispim descia a Carlos Malheiro Dias, encetando a subida pela Constituição até ao Marquês, e que se dirigia ao cemitério de Agramonte na Boavista (a cerca de 5 quilómetros do ponto de partida). Já o carro que transportava o eterno “Zé do Boné” desaparecia no horizonte sob os plátanos do Marquês e a multidão que o seguia a pé parecia inextinguível, ainda não havia cessado em S. Crispim. Uma massa compacta de cabeças parecia formar um rio pardacento que, de forma lúgubre, inundara a Constituição. Uma imagem angustiante pela causa que a motivou, porém memorável pela homenagem sentida que milhares de pessoas vindas de todo o país quiseram prestar ao “Mestre” prematuramente desaparecido: o tal que, em democracia, mudou para sempre o rumo do futebol português e a dimensão do meu clube do coração, o Futebol Clube do Porto.

domingo, 25 de outubro de 2009

A morte de um poeta

A 25 de Dezembro de 1956, Robert Walser foi encontrado morto nos campos que circundavam o sanatório de Herisau, na Suíça. Em 1929, retirou-se voluntariamente do mundo e da literatura como reacção à diagnosticada esquizofrenia e às sequelas que daí adviriam ostentadas num mundo sem compaixão, ou tempo a perder com indulgências, no seu afã de tentar, por caminhos ínvios e erróneos, ser feliz.
Quarenta e nove anos antes, Walser escrevia assim sobre o seu poeta “Sebastian”, o jovem idealista que se afastara de mundo rumo à natureza para compor poemas e de quem o mundo se compadecia, não só pela sua faceta burlesca, mas também pela sua evidenciada melancolia, como uma espécie de “indemnização para a negligência” deste perante tão jovem alma errante ao “propor-lhe tarefas que pudessem satisfazer a sua vontade de acção.” (pp. 53-54).
Palavras proféticas, de um dos mais consagrados “escritores do não”, como diria Vila-Matas (seguir o marcador “Robert Walser” neste blogue):

«Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente. […] Que repouso grandioso este, jazer aqui imóvel debaixo dos ramos de pinheiros, na neve. É o melhor que podias ter feito. As pessoas tendem sempre a magoar excêntricos como tu e a rir-se do sofrimento. Transmite as minhas saudações aos mortos amáveis e silenciosos que estão debaixo da terra e não ardas por muito tempo nas chamas eternas da inexistência.»
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, pp. 86-87.
[Lisboa: Relógio D’Água, Setembro de 2009, 233 pp; tradução de Isabel Castro Silva; obra original: Geschwister Tanner, 1907.]

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bartleby Sphere, foi há 27 anos

Nove da manhã. A efeméride anunciava-se na rádio e, ante a voracidade dos contratos publicitários da estação, cerca de 30 segundos de um som etéreo foram considerados suficientes para lhe render a homenagem. O dia de hoje marca os 27 anos da morte de um dos mais icónicos e bartlebianos (síndrome que o atacou no momento em que a sua carreira atingia o auge) pianistas e compositores de Jazz de sempre: a 17 de Fevereiro de 1982, morria em Weehawken, Nova Jérsia, Thelonious Sphere Monk, Jr. (1917-1982); conjuntamente com o eterno “BirdCharlie Parker, um dos pais fundadores do Bebop.
A sua última actuação ao vivo tinha ocorrido numa fugaz aparição em 1976 no famoso Bradley’s, em Greenwich Village em Nova Iorque, onde tocou apenas duas músicas e saiu de forma intempestiva da sala. Nas palavras do seu amigo pianista e compositor Randy Weston (n. 1926) «Ele [Monk] veio, exteriorizou a beleza e saiu.» [cf. The Nesuhi Ertegun Jazz Hall of Fame (Jazz at Lincoln Center Hall of Fame); tradução: AMC].

Volto ao célebre artigo de Don DeLillo de onde foram retiradas as palavras que constam da epígrafe deste blogue (e integram o segundo texto da 3.ª fase da minha vida na blogosfera: Nunca Mais), e volto, por força das palavras impressas, a O Náufrago de Thomas Bernhard, o abismo do isolamento – que DeLillo afirma ser uma forma abreviada de uma execução dentro da lei –, talvez simbolizado pela Moenchsberg [tradução literal na versão inglesa Monk’s Mountain (A Montanha do Monge)]:

«[…] Moenchsberg, a que se chama também o Monte do Suicídio porque é o que há de mais apropriado para um suicídio e, realmente, três ou quatro suicidas por semana, pelo menos, despenham-se do seu cume. Os suicidas sobem no elevador instalado no interior do monte, dão meia dúzia de passos e precipitam-se sobre a cidade. Sempre me senti fascinado por aqueles que vinham esborrachar-se na rua, e eu próprio subi muitas vezes ao Moenchsberg, a pé ou no ascensor (como aliás também o Wertheimer), na intenção de me atirar dele abaixo, mas não me atirei (e o Wertheimer também não!). Por várias vezes estive pronto a atirar-me, mas, tal como o Wertheimer, nunca cheguei a fazê-lo. Voltei as costas ao precipício. É evidente que até hoje houve muitos mais a voltar as costas do que a saltar, pensei.»
Thomas Bernhard, O Náufrago, p. 12.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1987, 144 pp; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Der Untergeher, 1983)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Morreu o Psychobilly

Morreu, ontem, de complicações cardíacas (quem diria?) Erick Lee Purkhiser, mais conhecido pelo pseudónimo Lux Interior, o pai do movimento Psychobilly – movimento que resultou de uma mistura entre o Punk e o reinante rockabilly, com a arte performativa dos filmes de terror série B, e que apenas teve expressão com um número restrito de bandas, como por exemplo os The Meteors ou os King Kurt.
A sua banda, The Cramps, fundada conjuntamente com Poison Ivy, a sua mulher de sempre, foi, na minha opinião, uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Acompanhou os meus bons e saudosos tempos de adolescente inconsequente durante a década de 1980.
Muitas seriam as músicas que poderia aqui nomear, “The Human Fly”, “She Said”, “Goo Goo Muck”, “The Way I Walk”, “Under the Wires”, “New Kind of Kick”, entre muitas outras, para além do maravilhoso álbum A Date with Elvis (1986), e alguns covers onde se inclui o excelente “Fever”, canção celebrizada por Peggy Lee. Para a posteridade fica a inesquecível “The Crusher”… e que bem que lhe fica o epíteto dado pela canção.
(A música será colocada aqui, quando houver menos tráfego)


Lux Interior
(Stow, OH, 21 de Outubro de 1946 – Glendale, Calif., 4 de Fevereiro de 2009)

«Life is short, filled of stuff. Don’t know what for, I ain't had enough.»
New Kind of Kick

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Em choque

Soube apenas agora, enquanto escrevia um texto para publicar neste blogue.
Não tenho palavras para descrever a emoção que me assolou ao saber da morte de um dos melhores escritores do mundo na 2.ª metade do século XX, ainda em plena actividade nestes primeiros oito anos do século XXI, despediu-se com a sequela de uma das suas obras mais famosas The Widows of Eastwick (2008) – epílogo de As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984). Para quem costuma ler os meus textos não é nenhuma novidade, Updike era um dos meus mais estimados autores.
A tetralogia do Coelho, Brasil,… (é só carregar no tag)
Silêncio… Uma concavidade que lhe foi muito cara. Regressa, Coelho.

«Encontra esta curva côncava e desliza por ela, dorme. Ele. Ela. O.K.?»


John Updike

(Reading, Penn., 18 de Março de 1932 – Beverly Farms, Mass., 27 de Janeiro de 2009).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Alçada

Não li muitos livros de Alçada Baptista, embora tenha lido alguns textos, sobretudo ensaios e crónicas do tempo. Porém, o seu nome ficará indelevelmente marcado na minha memória de bibliómano pelo seu romance de 1994, não lido há muitos anos, O Riso de Deus.
Recordo-me sobretudo de uma narrativa translúcida, sem atavios, directa, que a certa altura, pela delicadeza do tema central e a forma descomplexada como é retratado – o amor sem barreiras ou limites, como um sentimento avassalador que não pode conhecer fronteiras estatuídas pelo homem – nos atinge de uma forma brutal, como se de um verdadeiro murro no estômago se tratasse.
Não li muito mais. Dos seus escassos romances, li o Tecido do Outono (o seu último romance), para além do acima mencionado. Li, contudo (com vontade de reler), o seu último livro, uma colectânea de textos A Cor dos dias: Memórias e Peregrinações, que anda à volta da suas inquietações ensaísticas do início de carreira: a religião, a política, o relacionamento com o Estado Novo e as suas figuras, as mulheres… sempre as mulheres. A propósito da sua publicação, em entrevista dada ao JL, pressagia (ou tratou-se apenas de, como dizia “A Voz”, vivi uma vida em cheio, e termino como comecei): «Acho que este é o meu último livro.»
Para memória futura deixo ficar os três primeiros parágrafos do deslumbrante O Riso de Deus (que em parte, já havia referido aqui em Agosto de 2006). Livro dedicado a Edgar Morin, e a Zélia e Jorge Amado. Ao primeiro por causa da sua amizade, aos segundos porque «souberam descobrir que o afecto é o nosso destino.» [destaque meu]
Com epígrafes de Pessoa e Borges e:

«O homem pensa, Deus ri.»
Provérbio judeu

António Alçada Baptista

(Covilhã, 29 de Janeiro de 1927 – Lisboa, 7 de Dezembro de 2008)

«A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso.
Quando penso na minha vida e nas circunstâncias atribuladas do tempo que me foi dado viver, pressinto o que será a incomodidade dum bêbedo no dia seguinte ao da sua bebedeira, porque nos encharcámos de razão e esperança terrena e tudo ficou aquém de todas as promessas: tudo mais pequenino e mais cruel. Pior: é uma sensação misturada da ressaca do bêbedo com uma certa forma de orfandade: um desamparo perante a perda da herança prometida no texto fundador que fixou o projecto da nossa condição, como se, ao decretar-se a morte de Deus, ele tivesse levado consigo todos os seus bens. É isso que me leva a olhar para tudo o que vivi como se fosse um ensaio falhado duma harmonia possível.
Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos poderiam fluir conforme o que está inscrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias – que, muitas vezes, são poderosas e reais – só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
»
António Alçada Baptista, O Riso de Deus, p. 13
[Lisboa: Presença, 16.ª edição, Novembro de 2005, 206 pp.]

domingo, 28 de setembro de 2008

Epílogo de uma morte anunciada

No final da Primavera deste ano ficámos a saber que Paul Leonard Newman padecia de um tipo fulminante de cancro de pulmão – a fina ironia para quem testou a resistência da própria vida ao limite no asfalto das pistas de velocidade.
Anunciaram-no, já o sabíamos. Afastado dos palcos por vontade própria desde 2007, a sua vida estava pendurada pela expectativa de semanas ou pouco meses. Morreu na passada sexta-feira, tinha 83 anos.

Em 1987, primou ostensivamente pela ausência no Dorothy Chandler Pavilion, onde lhe seria atribuído o único Óscar não honorário: Melhor Actor em A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986) de Martin Scorsese. [No mesmo ano, outros vencedores, como Woody Allen, que à mesma hora tocava clarinete em Nova Iorque (Melhor Argumento Original por Ana e as Suas Irmãs), Michael Caine (Melhor Actor Secundário por Ana e as Suas Irmãs) e Ruth Prawer Jhabvala (Melhor Argumento Adaptado por Quarto com Vista sobre a Cidade, baseado num romance de E.M. Forster e realizado pelo seu eterno parceiro cinematográfico James Ivory, parceria que sempre incluiu o já falecido produtor indiano Ismail Merchant), decidiram não comparecer à apetecível noite de entrega das famosas estatuetas douradas da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood. O Óscar de Newman foi curiosamente recebido, em seu nome, por Robert Wise.]

«Rocky: Sabes, tenho tido sorte. Alguém lá em cima gosta de mim [NT: título do filme, se traduzido à letra para português].
Norma: Alguém cá em baixo também.
»
Diálogo entre Rocky Graziano, interpretado por Paul Newman, e a sua mulher Norma, papel interpretado pela actriz italiana Pier Angeli, no fabuloso filme Marcado pelo ódio (Somebody Up There Likes Me, 1956) do mestre Robert Wise, baseado na autobiografia do pugilista Rocky Graziano [tradução: AMC].

Paul Newman


Paul Newman

(Shaker Heights, Ohio, 26/Janeiro/1925 – Westport, Connecticut, 26/Setembro/2008)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Choque

Um pequeno contratempo fez com que regressasse de férias uns dias mais cedo, apesar de ter prontamente estabelecido que a estocada final, nessa sempre efémera palavra, só irá ser dada no domingo à noite por terras durienses.
Quase um mês fora, e a tralha que trouxe ainda se espalha pelos corredores e quartos à espera da habitual triagem: para guardar, lavar, arrumar até para o ano, etc.
Ontem, chegámos tarde e o ritmo ainda é lento, como se actuasse uma força estranha que, de forma perseverante, nos vai impedindo a cessação da boa preguiça adquirida durante esse mês.
Duas da manhã, a casa ficou finalmente em silêncio. Abri o Público, ainda inviolado, que havia comprado à hora do almoço julgando que ainda me esperavam cinco dias pela frente – no Verão, a regra de não dar um cêntimo por jornais costuma ser langorosamente derrogada.
Página 9 do caderno P2. Choque: morreu David Foster Wallace. Obituário de Alexandra Prado Coelho. As presumíveis circunstâncias da sua morte só serviram para acirrar a minha inquietação. O homem tinha tudo para se tornar no grande sucessor dos grandes ficcionistas americanos da segunda metade do século XX… O sucessor de Pynchon, diziam. Dois romances, entre eles o descomunal Infinite Jest de 1996 – o seu segundo e último –, diversos contos, ensaios e peças jornalísticas publicados em diversas colectâneas.
Em Portugal permanece quase desconhecido. Que eu saiba apenas tem um conto traduzido: “Encarnação de uma geração queimada”, na colectânea de jovens contistas americanos Geração Queimada da América, editada pela Bico de Pena e organizada pela realista histérica (qualificativo glosado através de Wood) Zadie Smith. Tal como tive oportunidade de referir na altura, é o melhor conto da desequilibrada antologia.
O desespero…


David Foster Wallace


David Foster Wallace

(Ithaca, Nova Iorque, 21 de Fevereiro de 1962 – Claremont, Califórnia, 12 de Setembro de 2008)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A Verdade

Morreu aos 89 anos, aquele que pela verdade viu ser-lhe retirada por decreto a sua amada nacionalidade e foi obrigado ao exílio em 1974 por ter aceitado receber o Prémio Nobel da Literatura, atribuído em 1970 pela Academia Sueca – regressou à Rússia em 1994.
Acusado por muitos de anti-semitismo e de um desmedido fervor religioso Ortodoxo, ninguém lhe retira o mérito das suas denúncias de opressão de um regime totalitário e de haver escrito O Arquipélago de Gulag, o seu magnum opus. Escrita entre 1958 e 1968, a obra circulou clandestinamente pela União Soviética até ser publicada pela primeira vez no ocidente em 1973, pondo a nu a brutalidade e perversidade do regime comunista soviético entre 1918 e 1956, condenando milhões aos campos de trabalhos forçados designados pelo acrónimo Gulag (transliterado em Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey – Administração dos Campos de Trabalho ou de Reeducação).

Aleksandr Solzhenitsyn

Aleksandr Solzhenitsyn
(Kislovodsk, 11 de Dezembro de 1918 – Moscovo, 3 de Agosto de 2008)

«Os provérbios acerca da verdade são muito apreciados em russo. Eles dão uma expressão firme e por vezes surpreendente da não negligenciável dura experiência nacional:
UMA PALAVRA DE VERDADE DEVE PREVALECER SOBRE O MUNDO INTEIRO.
E é aqui, num imaginário de fantasia, uma violação do princípio da conservação da massa e da energia, em que eu fundamento tanto a minha actividade, como o meu apelo a todos os escritores do mundo inteiro.
»

Aleksandr Solzhenitsyn, parte da habitual prelecção Nobel entregue à Academia Sueca, que não chegou a ocorrer devido a impedimento das autoridades soviéticas e por alguns pruridos da Academia em entregar o prémio na embaixada sueca em Moscovo.