«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Luz. Trevas. Impotência.
terça-feira, 18 de maio de 2010
30 anos - O Melhor de Sempre
- Sam Riley como Ian Curtis
- Samantha Morton como Deborah Curtis
- Som de fundo: "No Love Lost" (1978), Warsaw
terça-feira, 15 de julho de 2008
Exploração Corbijn
Depois do êxito de Anton Corbijn com Control (2007), já seria de esperar que surgissem as famosas réplicas plutocinéfilas de exploração do sucesso alheio.
Inevitavelmente, seguir-se-á a fase de expansão da arqueologia mexeriqueira britânica, plena de resultados.
(Depois de ter lido na Harper's deste mês a recensão de William H. Gass sobre o 2.º volume da biografia do Mestre escrita por Sheldon M. Novick, estou convencido de que se irão descobrir uns quaisquer The Curtis Papers – guardados por uma velhinha esquizofrénica e a sua filha submissa e emocionalmente instável, curadoras da Lamb House – que desvendam, apesar da impossibilidade físico-cronológica, que Ian Curtis, prévia e devidamente apresentado pelo belo e jovem escultor americano-norueguês Hendrik Andersen, foi amante de Henry James enquanto este viveu na famosa casa em Rye, no East Sussex.)
sábado, 5 de julho de 2008
Ash / David J. / Haskins
[na imagem da esquerda para a direita: Haskins, Ash e David J.]
Uma querida amiga ofereceu-me um bilhete duplo para a sessão inaugural do Super Bock Super Rock que se realizou ontem no Parque da Cidade.
Só pude recusar, amavelmente, não era pelos Xutos & Pontapés (grupo por quem tenho uma inexplicável e especial embirração), muito menos pelo David Fonseca ou pelos xaroposos Crowded House e muito menos pelos horríveis ZZ Top (que me desculpem os fãs, mas trata-se de um ancestral ódio de estimação), que me iria encafuar num recinto com aquela turba festivaleira.
Lá pelo meio havia os Love and Rockets, grupo com alguma consideração nos meus anos de adolescência – sim, a idade não perdoa – materializada na posse da sua discografia completa na minha fonoteca particular:
- Da fase Beggar’s Banquet: Seventh Dream of Teenage Heaven (1985); Express (1986); Earth, Sun, Moon (1987) e Love And Rockets (1989);
- Da fase American: disponho do primeiro e único álbum que vale a pena, Hot Trip to Heaven (1994).
Ash, David J. e Haskins sem Murphy – O Vampiro – não é a mesma coisa que Sumner, Hook, Morris sem Curtis. Enquanto os primeiros como Love & Rockets, havendo rompido com sonoridade gótica e pós-punk dos Bauhaus, jamais conseguiram cativar da mesma forma os fãs da eterna antecessora; os segundos, os New Order, fizeram uma transição pacífica do inimitável som dos Joy Division, para o mundo da música electrónica que despontava no início dos anos 80 do século passado – como provam os três primeiros álbuns Movement (Fac 50, 1981) e Low-Life (Fac 100, 1985) com uma sonoridade ainda muito próxima dos Joy Division, intercalados pelo icónico álbum de ruptura Power, Corruption & Lies (Fac 75, 1983), ainda havia dedo de Tony Wilson, Rob Gretton e nos primeiros tempos de Martin Hannett; não esquecendo o extraordinário álbum de 2001, Get Ready (ainda com o co-fundador e baixista do grupo, Peter Hook) com uma dezena de músicas excepcionalmente bem estruturadas, com a mãozinha do produtor Steve Osborne.
Fiquei em casa e sintonizei a SIC Radical, a esperança converteu-se em certeza, houve transmissão televisiva. O concerto do trio de Northampton foi fraco numa atípica noite chuvosa de Verão. Iniciou-se com “Ball of Confusion” e prosseguiu com algumas canções facilmente identificáveis: “Haunted When the Minutes Drag”, “An American Dream”, “No Big Deal”, “No New Tale to Tell”, etc. Como seria de esperar, apenas brilhou Ash, a alma da banda. Um David J. desafinado, e aparentemente desnorteado – vá-se lá saber porquê? –, e um Kevin Haskins aparentemente descoordenado estragaram o produto final, que ficou irremediavelmente perdido pelo omissão, deliberada ou não, do ainda hoje magnífico tema “So Alive” – êxito maior da banda britânica –, e isto apesar de Daniel Ash num dos intervalos entre canções haver articulado ao microfone as suas duas primeiras estrofes «I don't know what colour your eyes are, baby / But your hair is long and brown», sem reacção de um público que me pareceu, à imagem do grupo, artrítico; do célebre instrumental dedicado a Portugal “Saudade”, de “All in My Mind”, “Mirror People”, “Motorcycle”, “Kundalini Express” ou até de “Lazy”, nem vestígios.
Ash termina de uma forma “especial” (como proferiu) e o trio toca “Should I Stay, or Should I Go” de Strummer & Cª. (The Clash), despedindo-se com um lacónico «Thank you» – ao que dizem, este finale não é original, os Love and Rockets já o haviam feito num concerto nos E.U.A., trata-se, segundo consta, de uma forma de homenagem ao desaparecido Joe Strummer (1952-2002) e à organização que luta contra o aquecimento global por que deu a cara, The Carbon Neutral Company (anteriormente denominada de Future Forests).
A seguir chegariam os inefáveis senhores texanos quase sexagenários de barbas longas. A SIC Radical despede-se do concerto e inicia um longo serão dos escabrosos espectáculos do WWE que encandeia metade da geração fast food norte-americana, com rápido contágio na Europa e na Ásia ocidentalizada.
Amanhã haverá o frenético Jay Kay, mas falta-me a paciência que já tive para tanta excitação.
Retiro o som ao televisor, o meu mulherio já dorme, pego num livro rememorando os meus tempos de adolescente onde a música era uma parte central da minha vida despreocupada e os meus ícones se vão esfumando pela lei da vida ou, de forma mais excruciante, pela total ignorância da ocasião ideal para iniciar o gozo dos privilégios da reforma.
----------------So Alive--------------------
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Komakino
Excelente texto do Pedro Mexia sobre o “para além da melancolia” que caracterizou a (curta) vida da Ian Curtis (1956-1980).Ian jamais foi um melancólico, a sua índole era mais complexa, e dificilmente explicável pelas suas origens, por haver sido um produto da classe média suburbana da Manchester. Embora desde cedo houvesse demonstrado a sua necessidade de libertação das amarras de uma vida rotineira reverberada pelos seus pais e amigos, para uma vida independente onde pudesse dar vida às suas pulsões: confusas, entrecruzadas. Libertadas em letras maiúsculas, sempre em maiúsculas, no seu caderno preto.
O Pedro Mexia refere-se aos sete pecados capitais, retirados das palavras de Jon Savage apensas à reedição do primeiro álbum dos Joy Division: Uknown Pleasures, 1979. Culpa, medo, raiva, claustrofobia, repulsa, ódio de si mesmo e fatalismo. Todos eles vêm reflectidos nas letras que Ian nos deixou, a que eu juntaria um oitavo, impotência, que de alguma forma apura e explicita os restantes sete, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilado com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão*.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo.
Dando um pequeno salto histórico. Despoletou a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco de Atmosphere (1988) como em Control (2007), e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto-: pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difindiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Entre Closer e outros dispersos surgiu “Komakino”**, talvez levando à letra após uma tradução do alemão “Cinema Coma”, que foi distribuído e de forma gratuita pelas discotecas inglesas para quem o quisesse possuir em cerca de 35 mil cópias em flexi-disc (lembram-se dos singles promocionais que se dobravam como papel), sem capa. Foi em Junho de 1980, a voz cavernosa, gravada nesses milhares circulos de plástico flexível, de Ian Kevin Curtis já se havia calado na madrugada de 18 de Maio de 1980 (no seu gira-discos tinha acabado de rodar The Idiot da Iguana*).
Este é o instante em que emergem os mistérios
Uma estranheza tão difícil de entender
Um momento tão comovente que atinge em cheio o teu coração
A visão que nunca se concretizou
A atracção que lá dentro se sustém como um fardo pesado
Algo que jamais esquecerei
O padrão está definido, a reacção vai iniciar-se
Completa mas tão cedo rejeitada
Antecipando a agonia de cada lágrima
Evoca a vida que conhecêramos
A sombra que se manteve na beira da estrada
Faz-me sempre lembrar de ti
Como poderei encontrar a maneira correcta para controlar
Todos os conflitos interiores, todos os problemas expostos
À medida que surgem as perguntas e as respostas não encaixam
Na minha forma de vida
Na minha forma de vida
Ian Curtis, Komakino, Março de 1980 [versão de AMC, 2008]
Notas:
**Na barra direita deste blogue, até me fartar.
sábado, 24 de novembro de 2007
IAN [republicação]
Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis. Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.
Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Mais Perto (Curtis, Dia D)
O amor voltará a destruir-nos
Quando a rotina castiga de forma severa,
E já são curtas as ambições,
E um forte ressentimento prospera,
Sem que irrompam as emoções.
E vamos mudando os nossos caminhos,
Percorrendo estradas diferentes.
Então o amor, o amor voltará a destruir-nos.
Por que está o quarto tão frio?
Viraste-te na cama para o outro lado.
Falhei o momento correcto?
Esgotou-se o nosso respeito.
Porém ainda resiste esta atracção
Que guardámos nas nossas vidas.
Mas o amor, o amor voltará a destruir-nos.
Choras durante o sono,
Expões todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
Sempre que o desespero aperta.
Apenas isto, algo tão bom
Que já não pode funcionar.
Enquanto o amor, o amor voltará a destruir-nos.
Versão II*: AMC, Nov/2007. Love Will Tear Us Apart, Joy Division (1980).
*versão corrigida. Menos preocupada com as rimas e mais brutal. A destruição da relação, ao invés do eufemista "afastamento", ou "distanciamento" – que adveio de Touching from a Distance.
Boa sessão!
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Mais Perto (Curtis, 1d)
«Era pequeno e estava embrulhado de cabeça aos pés em andrajos sujos, enfaixado como um bebé recém-nascido. Estava suspenso do poste do telefone e abanava ao sabor da brisa antes de descer docemente. Como uma folha de Outono, aterrou suavemente no regato e a sua forma aerodinâmica deslizou rapidamente na superfície da água, desaparecendo na distância. Espremi todo o meu corpo para gritar, mas à medida que caminhava a única coisa que ouvia eram os meus soluços abafados.
A minha filha pequenina aninhou-se mais a mim e tentou consolar-me: “Não chores, mãezinha. Não chores.”
A minha mãe abriu a porta e mesmo na escuridão conseguiu ver qual de nós estava a chorar.»
Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 17, (Lisboa: Assírio & Alvim, Março de 1996, 197 pp.; tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from a Distance, 1995).
Aqui fica o vídeo de Atmosphere – curiosamente realizado por Anton Corbijn em 1988 – canção de Ian Curtis (Joy Division), gravada em 1979 e editada postumamente em Setembro de 1980.
Atmosfera
Caminha em silêncio
Não fujas em silêncio
Vê o perigo
Sempre perigo
Conversa sem fim
Voltar a construir a vida
Não fujas
Caminha em silêncio
Não abdiques em silêncio
Tua confusão
Minha ilusão
Usada como uma máscara de autoflagelação
Confronta e a seguir morre
Não fujas
Pessoas como tu pensam que é fácil
Ansiando por ver
Andando no ar
Caçando nas margens dos rios
Percorrendo as ruas
Todas as esquinas cedo abandonadas
Alcançadas com o devido cuidado
Não fujas em silêncio
Não fujas.
Versão: AMC, Nov/2007. Atmosphere, Joy Division (1980).
sábado, 7 de julho de 2007
Interpol
Atentem nos acordes arrancados da guitarra principal por Daniel Kessler, isolem-nos… a típica harmonia, etérea, feérica, de Joey Santiago.
Momento do curto solo de baixo (dos 2’05’’ aos 2’12’’) temos Carlos D. no papel do magistral Peter Hook – tanto do seu som é Joy Division.
Com reminiscências (influências) assim, eis os melhores newcomers da actualidade (banda fundada em 1998, a tocar a sério desde o Verão de 2002):
Nota: a versão original de Slow Hands tem mais som de Boston do que de Manchester…
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Encomendas Simultâneas
Curiosamente, a pedido da mesma pessoa, a Mónica Granja.
Enfio a viola no saco (put the guitar in the bag), dou o braço a torcer (giving my arm to twist) e deixo a poesia aos poetas…
Lembrei-me daquela do sapateiro e do rabecão (how dare you, shoemaker, to play contrabass), e regresso para o que sei ou julgo saber…
segunda-feira, 4 de junho de 2007
IAN
Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis.Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).
Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.
Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.
Por pedido expresso da Mónica, fica aqui a minha versão em tradução eminentemente livre da letra cuja magia osmótica com a música não se deixou cair no olvido, atravessando gerações há 27 anos. Seguindo as palavras de Kundera sobre a imortalidade e adaptando-as ao caso concreto, Ian Curtis sim, pensou na morte ao sonhar com a imortalidade, pertencendo ao grupo restrito daqueles que serão recordados no espírito dos que nunca o conheceram – a distintiva da grande imortalidade e sem traços de risibilidade…
Quando a penosa rotina magoa,
e frágeis são as ambições,
e o ressentimento alto voa,
mas não crescerão as emoções.
E estamos a mudar os nossos caminhos, seguindo por estradas diferentes.
Então o amor, o amor afastar-nos-á de novo.
Por que está o quarto tão frio?
Voltaste-te para teu lado do leito.
Não intervim em tempo digno?
Expirou o nosso mútuo respeito.
Porém ainda resiste esta atracção que sobreviveu às nossas vidas.
Mas o amor, o amor afastar-nos-á de novo.
Choras durante o teu sono,
expõem-se todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
sempre que o desespero aperta o laço.
E como algo tão bom deixou de poder continuar.
Enquanto o amor, o amor afastar-nos-á de novo.
Ian Curtis, Love will tear us apart, 1980 [versão: O amor afastar-nos-á, AMC, 2007]
terça-feira, 29 de maio de 2007
A célebre profecia de Ian
A original para os mais esquecidos:
quarta-feira, 23 de maio de 2007
A Apologia do Esquecimento
Henrique – não gosto do “meu caro” em situações de altercação, seja de que índole for, pela rudeza da expressão – não foi atrevimento, mas tentativa de estabelecer contacto, sobre um tema que me diz muito.
Quando o Lourenço falou dos Beatles, houve logo uma agitação pela necessidade de contestação – ou de contraponto – e aos Beatles juntou-se, por comparação, um trio de meter medo, para que não restassem dúvidas e de uma assentada: The Doors, Velvet Underground e Rolling Stones.
Dois dias depois disse, em tom de desafio, que julgara salutar – mas, afinal estava enganado –, que os melhores – no meu entender – eram estes e hoje, quatro dias depois, via réplica futebolística, descobriram-me, finalmente, as frivolidade e vacuidade opinativas, a tal caruma… e eu digo que o problema se restringe ao campo semântico, não foi da caruma, mas da pinha!
Para melancolizar os espíritos, meus caros (agora sim!), aqui fica She lost control num vídeo apócrifo:
PS – apesar da minha inexorável falta de bom senso, parabéns pelos dois anos de blogosfera.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Os Melhores de Sempre
Porém, permitam-me discordar, quais Jagger & Richards, Lennon & McCartney, talvez só Cale, Reed & Companhia!
Eis os melhores de sempre (posição irredutível e que me acompanhará até ao último suspiro):
1976-1980, primeiro como Warsaw, depois como Joy Division
I wish I were a Warhol silk screen
Hanging on the wall
Or little Joe or maybe Lou
I’d love to be them all
All New York city’s broken hearts
And secrets would be mine
I’d put you on a movie reel
And that would be just fine
Ian Curtis (1956-1980), St Valentine’s Day poem from Ian to Debbie (1973)*
*poema de Ian Curtis (contava 16 anos) retirado da pág. 13 do livro de Deborah Curtis, Carícias Distantes: Ian Curtis e Joy Division (c/ prefácio de Jon Savage). Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 1996, 197 pp. (tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division, 1995).

