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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Literatura: Os Melhores Livros de 2009



Um balanço (Ano IV)
Mais um fim de ano e pela quarta vez consecutiva chegou a altura de, neste blogue, fazer um pequeno balanço sobre as minhas predilecções literárias baseando-me nos livros que tive a oportunidade de ler e que foram editados durante o ano que agora termina.
Foi assim que começou a minha actividade na blogosfera: uma espécie de partilha sobre as sensações, mais ou menos agradáveis, decorrentes da leitura de determinado livro. Na altura defini como critério – discutível, pois claro, como deveriam ser todos os outros que nos são impostos, fazendo apelo à minha veia libertária – escrever sobre livros publicados em Portugal durante o ano corrente. Poupava-me tempo e esforço, e era o suficiente para obter as minhas doses de escapismo de periodicidade curta: divagar e colocar no ciberespaço os meus devaneios sobre livros, literatura, autores e críticos. Porém, desde muito cedo, apercebi-me de que discorrer sobre os méritos e as fraquezas de um livro não era terreno fácil. Não falo, é evidente, das fortes condicionantes endógenas de natureza técnico-científica que fatalmente me poderiam afectar no campo da teoria da literatura. Sou, nunca o escondi, um homem das finanças empresariais, que divergiu, no campo estritamente académico, das letras no ensino complementar do secundário, numa altura em que a literatura era para mim o Eça dos Maias, o Garrett de As Viagens…, ou os Lusíadas – mortinhos por chegar ao canto IX. Falo, isso sim, sem atavios ou eufemismos, daqueles que procuram nos outros a base de todas as suas frustrações, ou porque querem escrever e não podem, ou porque escrevem e não conseguem. Aprendi que elaborar um texto sobre um livro era uma arma de arremesso aos hermeneutas da palavra escrita, aos recenseadores do regime, aos letrados que gostam dos numerus clausus no mister opinativo. Ou então, acusado sem defesa, um trampolim para o conforto, ou tentativa vã e ignara de me pôr em bicos de pés para arranjar uma mesada numa revista, jornal ou suplemento da especialidade – esses falavam de uma forma criptodiletante de Dante Gabriel Rossetti, de De Quincey, do Dr. Johnson ou até de Saussure como se fossem parceiros de uma jogatina do mais alto calibre literário, mas que na realidade desconheciam o que ia mais além dos chavões de circunstância. A vontade foi-se esfumando, diminuía a cada retorno. Até que acabou, por fim.
Regressando ao que aqui me trouxe e como mero exercício de recordação, eis os meus livros de ficção preferidos (regra 1 por ano) desde que iniciei a minha actividade na blogosfera:
  • 2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis, Gradiva (Never Let Me Go, 2005);
  • 2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação, Assírio & Alvim (Priglasheniye na kazn, 1936);
  • 2007 – (2 obras ex aequo) Colm Tóibín, O Mestre, Dom Quixote (The Master, 2004) + Jonathan Littell, As Benevolentes, Dom Quixote (Les Bienveillantes, 2006);
  • 2008 – Robert Musil, O homem sem qualidades, vols. I e II, Dom Quixote (Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942).
Durante o corrente ano mencionei, entre romances, novelas, contos, ensaios, memórias, biografias ou relatos dialógicos, um total de 47 livros editados (ou reeditados) em Portugal em 2009 – excepto num caso, não houve qualquer texto que se aproximasse sequer de uma análise crítica. Assim, quando anteriormente do lado direito do blogue figurava uma listagem de livros devidamente classificados, com a respectiva hiperligação ao texto, hoje surge apenas uma listagem, hierarquizada, é verdade, mas despida de qualquer texto de suporte. Só me resta hierarquizar ainda mais aqueles que mais me disseram no exercício do meu prazer (não carnal) preferido: ler.
Com efeito, durante o ano de 2009 distribuí os 47 livros publicados nesse ano por 6 categorias (“5+1” como prefiro chamar, já que a classificação máxima é atribuída a título excepcional): 3 obras-primas (6 estrelas); 15 livros com “Muito Bom” (5 estrelas); 11 com “Bom” (4); 9 com a designação “A Ler” (3); 7 com “Medíocre” (2); e 2 com “Mau” (1).
Pela primeira vez farei a distinção entre as categorias de “Ficção” e de “Não-Ficção”.
Mas antes de prosseguir, deixo aqui ficar uma breve homenagem ao “colosso” como se lhe referiu há uns meses Philip Roth –, que partiu nos idos de Janeiro deste ano, com as próprias palavras desse “colosso” sem Nobel, e que definem toda a sua brilhante literatura de ficção (sem tradução por motivos de não profanação das palavras):

«I’ve led in some ways a sheltered life. I’ve not been wounded in Italy like Hemingway and I’ve never fought marlin at see. I’m a product of the nearly forty years of Cold War. So naturally I’ve written about domestic, rather peaceable matters, while trying always to elicit the violence and tension that does exist beneath the surface of even the most peaceful-seeming life. That is, I think I see human life as basically difficult and paradoxical. Just being a thinking animal puts us into a paradoxical and somewhat painful situation: we are a death-foreseeing animal and an animal of mental appetite; we have a Faustian side, always wanting more or something else.»
James Plath (editor), Conversations with John Updike. Jackson, MS: University Press of Mississippi, May, 1994, 308 pp. (citação: p. 192)

Dez Melhores Livros de Ficção de 2009 (por ordem de preferência):
  1. John Updike, Coelho em Paz , Civilização (Rabbit at Rest, 1990);
  2. Thomas Mann, A Montanha Mágica, Dom Quixote (Der Zauberberg, 1924);
  3. Cormac McCarthy, Suttree, Relógio D’Água (1979);
  4. Paul Auster, Invisível, Asa (Invisible, 2009);
  5. David Lodge, A Vida em Surdina, Asa (Deaf Sentence, 2008);
  6. Daphne du Maurier, O Outro Eu, Relógio D’Água (The Scapegoat, 1957);
  7. Ernesto Sabato, O Túnel, Relógio D’Água (El túnel, 1948);
  8. Sebastian Barry, Escritos Secretos, Bertrand (The Secret Scripture , 2008);
  9. John Fante, Pergunta ao Pó, Ahab (Ask the Dust, 1939);
  10. Atiq Rahimi, Pedra-de-Paciência, Teorema (Syngué sabour. Pierre de patience, 2008).
Menções Honrosas
  • Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe, Cotovia (2009);
  • Kazuo Ishiguro, Nocturnos, Gradiva (Nocturnes, 2009).
Cinco Melhores Livros de Não-Ficção de 2009 (por ordem de preferência):
  1. Ian Kershaw, Hitler: Uma Biografia, Dom Quixote (Hitler, 2008);
  2. Umberto Eco & Jean-Claude Carrière, A Obsessão do Fogo, Difel (N’espérez pas vous débarrasser des livres, 2009);
  3. Thomas Bernhard, Os Meus Prémios, Quetzal (Meine Preise, 2009);
  4. Slavoj Zizek, Violência – Seis Notas à Margem, Relógio D’Água (Violence: Six Sideways Reflections, 2008);
  5. Jean Daniel, Com Camus – Como aprender a resistir, Temas e Debates (Avec Camus : Comment résister à l’air du temps, 2006).
Menção Honrosa
  • David Lodge, A Consciência e o Romance, Asa (Consciousness and the Novel, 2003).

Um bom ano de 2010.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Erosão Conjugal

«Ocorre a Harry que a sua mulher é um canal [de televisão] que não se pode mudar. A mesma testa um pouco alta de mais, a mesma fresta lisa e tola entre os lábios, dia após dia, a todas as horas, na mesma emissora.»
John Updike, Coelho em Paz, p. 180
[Porto: Civilização, Setembro de 2009, 539 pp; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit at Rest, 1990]

Reinventar, é a chave. Há aqueles que compram um ecrã de cristais líquidos para testar o brilho que se perdeu por anos de monotonia. Alguns, aproveitando as liberdades que, apesar de tudo, outros vão conquistando por nós, apostam no contraste e agarram no plasma que se cristalizou na juventude dentro do armário, e partem à descoberta. Outros ainda, talvez mais sórdidos e não menos comodistas, cedem ao fastio e abrem os cordões à bolsa para uma subscrição extra de acrobacias em tecnicolor. Há ainda quem lhe custe abandonar o arrepio da descarga eléctrica do tubo catódico, munido para isso de uma auto-indulgência não pressentida, escreva em blogues, exercitando o músculo da sua caudalosidade desde há muito definhado, encapsulado. Faz um zapping. Tens de mudar de vida! [Rilke]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Finalmente em descanso

Termina em Portugal a “tetralogia do Coelho” com a publicação do seu último livro. John Updike (1932-2009, morreu a 27 de Janeiro) –, o “colosso” como há pouco tempo o definiu Philip Roth referindo-se ao espanto que sempre lhe provocou Updike não haver recebido o Prémio Nobel –, publicou em 1990 o último livro da tetralogia, sob o título original de Rabbit at Rest. Com ele venceu o Pulitzer em 1991 e o National Book Critics Circle Award em 1990. Em 2001, publica uma novela, “Rabbit Remembered”, inserida na sua colectânea de contos Licks of Love, uma pequena sequela que narra, sem a presença do personagem epónimo Harry “Rabbit” Angstrom, as vidas de alguns personagens que integraram a tetralogia e cujos destinos foram, de certa modo, forjados pelo personagem agora desaparecido, vogando como um espectro de destruição. Pede-se a sua publicação.

Frase de abertura:
«De pé no meio do bronzeado e exaltado gentio pós-natalício do Aeroporto Regional do Sudoeste da Florida, Coelho Angstrom tem a repentina e curiosa sensação de que aquilo com que se foi encontrar, o que flutua no invisível prestes a aterrar, não é o seu filho, Nelson, a nora, Pru, e os dois filhos destes, mas sim uma coisa mais agoirenta e intimamente sua: a sua própria morte, com a silhueta imprecisa de um avião.»
John Updike, Coelho em Paz, p. 9
[Porto: Civilização, Setembro de 2009, 539 pp; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit at Rest, 1990]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Essa difícil arte, a de editar

Escrevo este texto na suave transição de quinta 29 para sexta-feira 30 de Janeiro. Ele morreu a 27, na terça-feira da última semana de Janeiro de 2009. O tempo passa e os nossos sentidos insensibilizam-se perante a distância da ocorrência. Não era nosso, ou não nos pertencia – como gosto de referir quando partilho afectos –, a notícia dissemina-se na espuma dos dias, verde, bolorenta, ou amarela, enxofrada, por uma atmosfera carregada dos miasmas químicos produzidos pela nossa destrutiva existência. Estranha espécie. Matamo-nos uns aos outros no silêncio do nosso consumismo e a morte transforma-se numa ténue reminiscência daquilo que nos espera. Porventura é esse mesmo o nosso mecanismo de defesa: desligar os alarmes perante a inevitabilidade do saque que destroçará o nosso corpo. A alma…
Updike tinha 76 anos. A 18 de Março duplicaria o algarismo mágico. Publicou, entre romances, ensaios, antologias poéticas e colectâneas de críticas, mais de cinquenta obras. Nasceu em 1932 numa pequena comunidade rural do Estado da Pensilvânia, e agarrou-se à vida, esgadanhando-se para manter a cabeça à tona no lamaçal do negócio das letras – lá por ser arte, palavras soltas, preto no branco, que se formam pelo toque do génio e que se transformam em quimeras aos olhos dos seus leitores, não deixa de ser um negócio como outro qualquer: mercado, volume, margens, lucro.
Morreu a publicar. O seu último romance foi editado no último trimestre de 2008, quando as metástases da doença decerto o impediriam de articular verbalmente as palavras que sempre gostou de proferir. No seu canto isolado no Massachusetts. Nova Iorque, pressentira havia anos, destruí-lo-ia e devoraria a sua notável obra. Espectral como um vitral iridescente de uma igreja medieval, os seus escritos conquistaram a pulso tudo o que havia para vencer, Pulitzer, National Book Award, PEN/Faulkner, American… excepto o Nobel. Escrita regional que não participa no grande diálogo da literatura, poderia referir o sueco indiscreto. Uma imagem borgiana, uma biblioteca em que se produz um diálogo tal – algazarra, vozearia – que destrói a verdadeira essência de um livro, o diálogo interior entre autor e leitor através das letras impressas, mil vezes ampliado em colunas de agudos, médios e graves de imaginosas viaturas de tuning, dispostas em filas organizadas nos corredores da biblioteca high-tech.
Vários obituários, elegias e notas comoventes de uma perda imensa para a Literatura, produzidos por colegas escritores, críticos literários, editores, gente anónima.
Em Portugal, com a excepção de dois ou três jornais, os de referência – a literatura não mata a fome e o tempo é de crise, aliás, por essa perspectiva, infiro que andamos todos saciados, como um bom país de iletrados –, como dizia, poucos se referiram à morte de um dos maiores vultos da literatura mundial.
A sua edição em no nosso país, apenas conheceu alguma fase de prosperidade desde há dois ou três anos, medida pelo número de títulos publicados. Uma editora, aqui da minha terra, a Civilização publicou e completará (espera-se) a tetralogia do Coelho – acreditando que prossiga com a 5.ª parte, ou com a meia parte após o 4.º romance, a novela póstuma de Harry Angstrom, Rabbit Remembered (2001) agora publicada separadamente da antologia de contos Licks of Love (2000) – assim como publicou o feérico Brasil (Brazil, 1994) uma extrapolação de Tristão e Isolda, Procurai a Minha Face (Seek My Face, 2002) e O Terrorista (The Terrorist, 2006). No mercado podemos ainda encontrar S. (1988; ed. port. Livros do Brasil), O Centauro (The Centaur, 1963; ed. port. Europa-América) e o fascinante, fracturante e monumental Casais Trocados (Couples, 1968; reimpressão/ed. port. Modo de Ler/Inova).
Quando soube da notícia, procurei em vão na sua editora portuguesa textos, algumas palavras, uma frase apenas que descrevesse a honra de o haver editado e talvez uma manifestação de interesse, firme e inequívoca, pela continuidade na publicação das suas obras inéditas neste país de filisteus. Nada de nada. Nem uma linha. Nem uma nota de pé de página. Apenas a estrepitosa publicidade ao primeiro romance de Richard Yates (1926-1992), publicado com 47 anos de atraso, tudo porque o filme estreou hoje em Portugal, que ressuscita o casalinho do horripilante Titanic (1997) de James Cameron.
Pois claro, o mercado não se compadece com episódios de morte. Com lamechices e a amaricada (antimariálvica) exteriorização de sentimentos de perda. Porém, para mim, talvez um palerma de um idealista, isto não é editar. Qualquer semelhança com essa nobre arte é pura coincidência. Estariam melhor em Mirandela, assim que o frio se anuncia, a atiçar o fogo para a produção dos famosos enchidos em forma de “U”. Páginas queimadas que nos matam a fome.
Falta-me a palavra certa.

«Com uma ominosa frequência, não consigo pensar na palavra certa. Eu sei que existe a palavra; não consigo vislumbrar a forma exacta que ela ocupa no quebra-cabeças da língua inglesa. Mas a própria palavra, com a sua precisa expressividade e o seu matiz único de significação, aguarda no limiar nebuloso da consciência.»
John Updike, “The Writer in Winter”, AARP The Magazine, November/December, 2008.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Updike – II

John Updike em 1955

Perfeição desperdiçada

E outra coisa lamentável sobre a morte
é o cessamento da tua marca de magia,
que te levou uma vida inteira a desenvolver e promover –
os motejos, os gracejos, o remoque
adequados a uns poucos, aqueles seres amados próximos
da orla do palco, as suas faces suaves empalideceram
nas luzes da ribalta, o seu riso próximo das lágrimas,
o seu quente respirar compassado com o bater do teu coração,
as suas respostas e a tua performance irmanadas.
As piadas ao telefone. As memórias empilhadas
em ficheiros de rápido acesso. Todo o acto.
Quem o voltará a fazer? É isso: ninguém;
imitadores e descendentes não são a mesma coisa.

John Updike, “Perfection Wasted” (24/Jan/1990) [versão: AMC, 2009].

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Em choque

Soube apenas agora, enquanto escrevia um texto para publicar neste blogue.
Não tenho palavras para descrever a emoção que me assolou ao saber da morte de um dos melhores escritores do mundo na 2.ª metade do século XX, ainda em plena actividade nestes primeiros oito anos do século XXI, despediu-se com a sequela de uma das suas obras mais famosas The Widows of Eastwick (2008) – epílogo de As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984). Para quem costuma ler os meus textos não é nenhuma novidade, Updike era um dos meus mais estimados autores.
A tetralogia do Coelho, Brasil,… (é só carregar no tag)
Silêncio… Uma concavidade que lhe foi muito cara. Regressa, Coelho.

«Encontra esta curva côncava e desliza por ela, dorme. Ele. Ela. O.K.?»


John Updike

(Reading, Penn., 18 de Março de 1932 – Beverly Farms, Mass., 27 de Janeiro de 2009).

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As Bruxas Enviuvaram

O provocante, arrebatador e célebre trio formado por Alexandra, Jane e Sukie – meninas agora enviuvadas por um defeito da sua malignidade –, regressou ao sortilégio histérico pela pena (por vezes misógina, daí o histerismo aqui explícito, e por lá subliminar) de John Updike, que há vinte e quatro anos publicou As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984) – obra editada em Portugal em 1987 pela Gradiva, que, de forma incompreensível e sobremaneira irritante, se encontra esgotada há anos no nosso mercadozinho editorial.

A obra será lançada na próxima semana nos Estados Unidos, e se provas faltassem quanto à comunicabilidade intercultural e às versatilidade e desinsularidade literárias de Updike, atente-se na sua vasta obra, que vai desde a crónica da conturbada vida familiar americana – recordemo-nos, por exemplo, da tetralogia do Coelho e do romance provocador e, à época, fracturante Casais Trocados (Couples, 1968) – aos meandros da política e dos meios artístico e literário, até aos grandes temas que preocupam ou preocuparam a população americana, como o terrorismo, o fundamentalismo assassino das seitas religiosas davidianas, e até, diga-se para que honra lhe seja feita, da condição feminina, chegando ao puro domínio da fábula e da fantasia onde As Bruxas de Eastwick e o extraordinário e inesquecível romance Brasil (Brazil, 1994) são o seu expoente máximo.

Quem me visita e tem paciência para ler os meus textos, já o sabe: sou um admirador da ficção norte-americana contemporânea e, em particular, da de John Updike. De todas as suas obras por onde passaram os meus olhos de leitor atento – e, acreditem, trata-se já de uma parte substancial do seu catálogo romanesco que foi publicado em português –, apenas Procurai a Minha Face (Seek My Face, 2002) e O Terrorista (The Terrorist, 2006) abalaram as já firmes expectativas de um updikiano convicto. Ambas, e refiro-o com alguma frustração (felizmente curável), ficaram abaixo do nível de perfeição e de rigor estético que o autor da Pensilvânia nos habituou, e foi apenas isso, não se devendo a qualquer irrupção varicosa de má qualidade literária.
Por publicar, em Portugal, está a totalidade da sua poesia, dos seus contos e, mais importante e simultaneamente frustrante, todos os seus ensaios sobre arte e literatura, e principalmente o seu aclamado livro de memórias, publicado em 1989, Self-Consciousness – situação que, no meu caso, poderia ser de fácil resolução, não fora a minha teimosia de não ler em inglês nas horas de lazer pelo seu forte odor a trabalho e pelos sinais mentais de alerta de vivificação da desejadamente adormecida rotina quotidiana.

Sem mais delongas, aqui fica o início traduzido – pois claro – do romance que Updike publicou aos 76 anos:

«O conventículo reconstituído

Aqueles que entre nós estão a par da sua história sórdida e escandalosa não ficarão surpreendidos se ouvirem, mediante os rumores provenientes dos mais diversos locais onde as feiticeiras assentaram arraiais depois de escaparem da nossa venerável vila de Eastwick, Rhode Island, que os maridos que as três infames mulheres, através das suas artes negras, forjaram para elas próprias, não se revelaram duradouros. Métodos ruins fabricam produtos ruinosos. Satanás, claro, falsifica a Criação, mas através de deuses inferiores.
»
John Updike, The Widows of Eastwick (2008) [tradução: AMC]

domingo, 12 de outubro de 2008

Perpetuidade

«Quando tiveres a minha idade, dar-te-ás conta disso. Na minha idade, se levares às costas todas as tristezas que viste na vida, não te conseguirás levantar da cama todas as manhãs.»
John Updike, Coelho Enriquece, pág. 404.
[Porto: Civilização, Setembro de 2008, 498 pp.; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit is Rich, 1981]

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Harry “Coelho” Angstrom, de novo

A editora portuense Civilização acaba de lançar no mercado o 3.º livro da tetralogia (+ ½) do Coelho de autoria do escritor norte-americano John Updike (n. 1932): Coelho Enriquece (Rabbit is Rich, 1981).
Recorda-se aqui que já foram publicados em Portugal pela mesma editora as primeira e segunda partes da vida do americano arquetípico Harry “Coelho” Angstrom: Corre, Coelho (Rabbit, Run; 1960) em Fevereiro de 2007 e Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971) em Março deste ano. Ainda por publicar estão o 4.º livro Rabbit at Rest de 1990 e a novela de 2001, integrada na colectânea de contos do autor Licks of Love, Rabbit Remembered.

Este livro venceu três dos mais importantes prémios literários atribuídos a uma obra de ficção publicada originalmente nos Estados Unidos da América:

  • National Book Critics Circle Award for Fiction em 1981;
  • Pulitzer Prizer for Fiction em 1982;
  • National Book Award for Fiction (Hardcover) em 1982.

«“A gasolina está a acabar-se”, pensa Coelho Angstrom […] Este mundo de merda está a ficar sem gasolina. […] A gasolina a noventa e nove ponto nove cêntimos o galão e noventa por cento das estações de serviço a fecharem ao fim-de-semana. […] os camionistas que não conseguem gasóleo disparam contra os próprios camiões […] As pessoas estão a perder a cabeça, os seus dólares não valem um cêntimo, retraem-se como se não houvesse amanhã.»
John Updike, Coelho Enriquece, pág. 7
[Porto: Civilização, Setembro de 2008, 498 pp. (tradução de Carmo Romão)]


A acção desenrola-se em pleno 2.º Choque Petrolífero que ocorreu em 1979. A actualidade da citação é mais do que angustiante. A América e o mundo ocidental ou ocidentalizado tardam em aprender com os erros passados. Porém, é óbvio que esta aprendizagem foi plenamente assumida, o que a torna, hoje em dia, num perigoso sofisma à disposição de políticos sem escrúpulos e de outros sem coragem para denunciar a acções concertadas e criminosas daqueles com os grandes interesses do petróleo, disseminados pelos opacos mercados de capitais (desregulamentados) que vomitam anonimamente gigantescas mais-valias nas operações financeiras sem o devido suporte de operações reais ou económicas. A avidez pelo capital destrói a essência do capitalismo, deixando o cidadão desprotegido e sem forças para lutar perante a ressuscitação das teorias económicas que comprovadamente conduziram à coarctação das liberdades política, económica, social, artística, etc.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Enfim, a Civilização


Habitual deambulação pela Fnac, constatação (que me valeu o empobrecimento em 17,91 euros): A Civilização acaba de lançar no mercado editorial português o segundo livro da tetralogia do Coelho de John Updike (n. 1932).
Nem de propósito. Há dias, devido às encarniçadas batalhas editoriais portuguesas na conquista do território da literatura histórica, prolíficas no desbarato de papel impresso, por um lado, e ao filme das maninhas Bolena em disputa das virtudes de um rei, cujo romance de base havia sido prontamente publicado sob um verde fulgurante da indumentária real pela Civilização Editora, por outro, falei da estranheza do não prosseguimento da publicação dos restantes livros que compõem a mais famosa das tetralogias da literatura contemporânea – e, por favor, não nos esqueçamos que, em 2001, Updike publicou, em formato de novela, uma breve elegia ao seu personagem mais célebre, inserido numa colectânea de contos de sua autoria, traduzível por Lambidelas de Amor.
Assim, deixo para a posteridade a assunção de um mea culpa pela precipitação, que só não é de uma magnitude sísmica, porque para um amante da literatura e dos escritos do provecto autor norte-americano os intervalos entre publicações deveriam ser mais curtos: Corre, Coelho foi publicado em Fevereiro de 2007.
Tal como o livro que deu início à tetralogia, o livro agora publicado, Regressa, Coelho (Rabbit Redux, 1971), não conseguiu vencer qualquer prémio literário, contrastando com a verdadeira chuva de prémios que inundou as duas obras que completaram o quarteto: dois Pulitzer, dois National Book Critics Circle Award e um National Book Award. Enquanto estes últimos não chegam, aqui fica o primeiro parágrafo, com uma curtíssima revelação do início do segundo parágrafo (quem leu Corre, Coelho, entende-me…):

«Às quatro em ponto, os homens emergem pálidos da pequena tipografia, como fantasmas pestanejantes, até que a luz do exterior vence o olhar constante da iluminação interior que a eles se agarra. No Inverno, a esta hora, a Pine Street está na penumbra, a escuridão insiste desde cedo para se estender desde a montanha erguida sobre a estagnada cidade de Brewer; mas agora, no Verão, os passeios de granito salpicados de mica e as filas de casas diferenciadas pelo revestimento manchado de tábuas falsas e pelos pequenos e esperançosos alpendres com os seus arcos irregulares e as caixas cinzentas para as garrafas de leite e árvores ginkgo sujas de cinza e os carros a cozerem no passeio estremecem sob o brilho de uma explosão gelada. A cidade, na intenção de reanimar o centro decadente, derrubou quarteirões de edifícios para criar parques de estacionamento, de modo que as ruas, outrora compactas, são invadidas por uma vastidão desolada de ervas e entulho, expondo as fachadas das igrejas nunca vistas ao longe e gerando novas perspectivas de entradas traseiras e pequenos becos e intensificando a cruel grandiosidade da luz. O céu está limpo mas incolor e dele paira uma humidade esbranquiçada ao estilo típico dos Verões da Pensilvânia, que só servem para fazer crescer as coisas verdes. Os homens nem sequer se bronzeiam; cobertos por uma película de transpiração, amarelecem.
Um homem e o seu filho – Earl Angstrom e Harry – encontram-se entre os tipógrafos que saem do trabalho.
(…)»
John Updike; Regressa, Coelho (Civilização, 2008, pág. 7; trad. Carmo Romão).


Nota: A listagem, de elaboração própria – por enquanto mantida no segredo dos deuses por mera preguiça que, por sua vez, fica a dever-se a um temor informático dos potenciais problemas de formatação – já referida noutras ocasiões, de 50 obras essenciais de 10 autores norte-americanos contemporâneos (ou quase) nunca publicadas em português de Portugal, sofreu, com o acontecimento acima relatado, uma ligeira alteração: o “50” passa a “49”, número de obras não traduzidas. OK, está bem, revelo pelo menos os apelidos dos autores:
Barth, Barthelme (R.I.P.), Bellow (R.I.P.), DeLillo, Foster Wallace, Nabokov (R.I.P.), Pynchon, Roth, Rush e Updike.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Gotejamento literário

Em 2000, o actor norte-americano Ed Harris apresentava ao público o seu primeiro trabalho cinematográfico no campo da realização. Tratava-se de Pollock, filme baseado na volumosa obra literária de carácter biográfico Jackson Pollock: An American Saga, publicada originalmente em 1989 e escrita pela dupla Steven Naifeh e Gregory White Smith, que proporcionou a atribuição do Óscar para Melhor Actriz Secundária a Marcia Gay Harden na soberba interpretação do papel de Lee Krasner.
Em 2002, cumprindo, de certa forma, a tradição mimética e reprodutiva originada por qualquer obra cinematográfica de relativo sucesso em Hollywood – lembremo-nos do papel de Amadeus (1984) de Milos Forman na posterior febre informativa e indagativa que se acometeu do público pela obra e pelos aspectos biográficos de Mozart, ou, embora noutro registo, de O Silêncio dos Inocentes (1991), obra-prima de Jonathan Demme na profusão de filmes sobre os mais celerados psicopatas, cujas patologias advinham das mais estúrdias justificativas deformações mentais –, John Updike (n. 1932) publicava o romance Seek My Face, cujo intróito reza o seguinte:

«Este livro é uma obra de ficção […] No entanto, seria impossível negar que um grande número de pormenores procedem [sic] do admirável e exaustivo Jackson Pollock: An American Saga, de […] ou que algumas declarações dos meus artistas ficcionais estão estreitamente relacionadas com as recolhidas em Abstract Expressionism: Creators and Critics, uma esclarecedora antologia editada e apresentada por Clifford Ross». (pág. 5)

Dito isto, Updike abria a porta para uma arriscada e – dado o seu incontestável espírito inventivo – uma eventualmente profícua interpenetração da literatura ficcional ou romanesca nos domínios das artes plásticas, mais concretamente no território da Pintura do Expressionismo Abstracto norte-americano, com raízes e sede na Nova Iorque dos pós II Guerra Mundial, que viu Pollock como um dos seus expoentes máximos, ombreando, embora seguindo técnicas e uma estética distintas e obtendo obras finais profundamente idiossincráticas e identificáveis, com nomes como Mark Rothko, Willem De Kooning, Barnett Newman ou Adolph Gottlieb.
Procurai a Minha Face conta a história de uma pintora pré-octogenária, Hope Chafetz, ex-mulher do pintor Zack McCoy – aliás Jackson Pollock, logo Hope desempenha o papel de Lee Krasner – que refugiada no seu santuário idílico, o local da sua criação artística, numa localidade do Estado do Vermont, recebe, num dia de Abril, uma jovem jornalista nova-iorquina, Kathryn D’Angelo, para uma longa entrevista, que inesperadamente durará todo o dia.
No centro da narrativa, fortemente marcada pela tensão geracional e pelo choque conceptual das belas-artes entre entrevistadora e entrevistada, estão a solidão, o egotismo e a alienação profunda que marcam o artista no seu processo criativo e nas suas relações com o mundo, com um exterior que lhe parece hostil, sem capacidades de abstracção e de enlevação suficientes para conseguir compreender o fenómeno da manifestação artística e das suas emanações.
Como pano de fundo temos a evolução da Pintura no pós-guerra e a deslocação do seu eixo, do seu fulcro, da Europa, então destruída por seis anos de conflito, para os Estados Unidos, evoluindo do surrealismo, do expressionismo e da arte abstracta, esta última, epítome do grande criador Wassily Kandinsky, da primeira metade do século XX, para o expressionismo abstracto e mais tarde para a Pop Art – como resposta à primeira, tendo nos Estados Unidos como principais criadores Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jasper Jonhs e Roy Lichtenstein.
Hope, nascida em 1922 no seio de uma família Quaker na Pensilvânia, sintetiza esta evolução através das suas experiências no campo afectivo, ou melhor, subsumida nas suas relações amorosas, que culminaram em três casamentos – aqui um desvio em relação à figura histórica e real de Lee Krasner, viúva de Pollock, que depois da morte trágica deste, não voltou a casar para se dedicar, em exclusivo, à curadoria do espólio do marido.

Hope chega a Nova Iorque para frequentar a Women’s Art School da Cooper Union, onde estabelece uma primeira relação com Ruk, um russo, professor substituto, truculento e permanentemente ébrio, amigo de Hermann Hochmann – presumivelmente o pintor alemão, naturalizado americano, Hans Hofmann –, que passará a ser o seu mentor, quando esta, por convite do emérito professor, começa a frequentar as suas escolas em Nova Iorque e entrando, assim, de forma definitiva, em contacto com a realidade da artes plásticas e a nova corrente artística do expressionismo abstracto em plena fase de incubação.
Hope casa com Zack que morre de acidente de automóvel em 1956. Posteriormente conhece Guy Holloway – personagem ficcional que, através das obras referenciadas no romance, percebemos tratar-se de uma súmula das figuras mais conhecidas do movimento da Pop Art –, de quem tem três filhos e que funda o Hospice – curiosa referência à Factory de Warhol – onde aquele reúne os seus discípulos, supostamente entregues a práticas hedonistas como correia de transmissão para a profusão da arte aí produzida. Finalmente, conhece Jerry Chafetz, o seu último marido, negociante em arte e homem de Wall Street, com o qual Hope recomeça a pintar e vive finalmente em paz de espírito desde 1977 até à sua morte em 1986 por complicações renais.

«Cheguei à conclusão de que as pessoas que se dedicam às finanças são mais felizes do que as que se dedicam à arte. Não estão sempre preocupadas, podem descontrair-se sem ficar a cair de bêbedas. O Jerry jogava ténis, lia romances e até poesia, gostava de cozinhar, lia livros de cozinha, media as quantidades de todos os ingredientes com exactidão, enquanto o Guy só se importava com a comida se tinha de fazer um hambúrguer de gesso ou de pintar uma fila de bolos na montra de uma padaria. E o Zack, bem, o Zack teria caído em cima do fogão.» (pág. 221)

Jackson Pollock foi o grande mestre do Action Painting e da técnica de pintura de gotejamento (dripping painting). Com a tela colocada no chão do seu estúdio e usando normalmente tintas para fins industriais, Pollock arremessava-a directamente na tela, rodeando-a por todos os lados, deixando a tinta escorrer, criando pontos e linhas irregulares e aleatórias, como manifestações e representações do seu inconsciente – o apelo aos arquétipos de Jung.
John Updike arriscou. Tentou reproduzir com o seu romance a exuberância da história das artes plásticas americanas da segunda metade do século XX, reflectindo, como já referi, sobre a solidão, a loucura, o egoísmo dos mestres que a História reconheceu e os seus efeitos colaterais na esfera íntima e social daqueles que os rodeavam, e particularmente, na condição feminina – tema obsessivamente recorrente em Updike – e no quase instintivo processo de apagamento ou de secundarização das mulheres em favor do bem-estar e das carreiras dos homens que enxameiam as suas vidas de entrega, coragem e de estoicismo.
No entanto, se a espontaneidade e a criatividade são as marcas indeléveis da obra daqueles que procurou retratar, Updike, ao apoiar-se em e ao decalcar com a precisão de um copista a biografia supramencionada de Jackson Pollock, dando-se, apenas, ao trabalho de alterar os nomes – que neste caso é de todo desnecessário, dada a meia confissão intodutória da cópia e que se vai constatando através da leitura do romance –, que mesmo assim são perfeitamente identificáveis (curiosamente, a capa da edição portuguesa, reproduz o estúdio do pintor norte-americano), e nos testemunhos reais dos protagonistas do expressionismo abstracto compilados por Clifford Ross, coarctou a sua própria liberdade criativa, resultando num pastiche suficientemente preguiçoso e aborrecido, sem ritmo, que se prolonga, numa torturante modorra, por pouco mais de duas centenas e meia de páginas, apenas atenuada por algumas passagens descritivas e razoavelmente demonstrativas do puro génio literário a que o autor norte-americano nos habituou em obras anteriores e que vão fazendo dele um dos putativos candidatos ao Nobel da Literatura.

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
John Updike, Procurai a Minha Face. Porto: Civilização, 1.ª edição, Agosto de 2007, 266 pp. (tradução de Carmo Romão; obra original: Seek My Face, 2002)


Nota: Para mais informação sobre a obra e a sua recepção no meio literário americano, ler as recensões arrasadoras de
John Banville e de Michiko Kakutani no The New York Times, e de Ron Charles no The Christian Science Monitor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Updike, de novo

A Civilização Editora prossegue a sua excelente empreitada na publicação das obras do escritor norte-americano John Updike – um dos meus preferidos.
Já disponível nas livrarias está o antepenúltimo romance do autor até à data: Procurai a Minha Face (Seek my Face, 2002).


«O meu coração pressente os teus dizeres:
“Procurai a minha face!”
É a tua face, senhor, que eu procuro
».

Salmo 27, 8 (epígrafe do romance, pág. 7, trad. Carmo Romão)


Nota: Depois da publicação do admirável e dilacerante Corre, Coelho no início deste ano (Rabbit, Run; 1960), espero que a editora portuense prossiga com a edição dos restantes três livros que compõem a tetralogia Harry “Rabbit” Angstrom, assim como a novela, à laia de epílogo, Rabbit Remembered, publicada em 2001 na colectânea de contos Licks of Love.

sábado, 23 de junho de 2007

O fim do romance anglo-saxónico?

8.º Passo: Fazer uma lista de pessoas a quem causamos danos, para as poder compensar.
(seguindo os passos até ao São João)

Felizes os podcasts da estação de televisão pública. Eis a plataforma que evita a incompatibilidade de horários no mundo… isto é, o do telespectador com o dos seus programas favoritos. Assim seja.
Câmara Clara, programa da
RTP2, apresentado pela faiscante Paula Moura Pinheiro, cujo título foi decalcado do último trabalho publicado em vida de Roland Barthes, o ensaio filosófico de 1980 em que Barthes discorreu sobre a fotografia e os seus elementos vivos e essenciais, o studium e o punctum: o primeiro resulta da nossa concepção geral do mundo, onde a fotografia reflecte o nosso interesse apenas como objecto; o segundo é aquele que transforma a fotografia de novo em sujeito, não só pelo simples pormenor que torna a fotografia única a cada indivíduo, visto no momento ou resultante de um processo apuramento da memória, mas também, de forma mais arrebatadora, a consciência da morte ou da sua chegada iminente, porque representa no tempo um momento que deixou de existir… Bom, basta de filosofias!

Ponto de ordem: prosseguindo…
Pablo Picasso - Les Demoiselles d'Avignon (1907)No passado dia 27 de Maio, o Câmara Clara, no meu entender o melhor programa de produção exclusivamente portuguesa no descoroçoante panorama televisivo nacional, contou com a presença do all-in-one das artes e das letras nacionais Jorge Silva Melo. Da ficha do programa destacava-se a celebração dos cem anos de nascimento do actor norte-americano John Wayne – nasceu a 26 de Maio de 1907. Por outro lado, dela constava a promessa de uma boa conversa sobre livros, particularmente daqueles que acompanharam o convidado de honra ao longo da sua vida e da sua carreira literária, discutindo-se, em simultâneo, o estado da arte do mercado editorial português, bem a propósito da abertura da 77.ª edição das feiras do livro de Lisboa e do Porto.

Jorge Silva Melo, quer se goste ou não da sua idiossincrasia e/ou das suas ideias ou reflexões, é uma personalidade que se ouve por vício, tem uma capacidade comunicacional ímpar no meio cultural português, pelas fluidez do discurso e limpidez de raciocínio.
Sobre John Wayne, de quem Silva Melo confessou a sua profunda admiração, especialmente nos filmes em que foi dirigido pelo mestre Howard Hawks – de forma notável, referiu, para o efeito e através da exibição de um excerto do filme de 1959 Rio Bravo, a introdução do elemento fragilidade nos personagens interpretados por Wayne quando dirigido por Hawks, comummente apresentado com um homem de ferro por outros realizadores –, evocou um facto curioso que demonstra a perenidade da arte no espírito humano através das suas constantes revoluções e contra-revoluções: recordou que no preciso ano em que Wayne soltava o primeiro choro no Iowa nos Estados Unidos – certamente já instilando, no seu estilo pastoso, a sua voz cava –, Pablo Picasso pintava Les Demoiselles d’Avignon (óleo sobre tela, com as descomunais dimensões de 2,44 por 2,34 metros, actualmente propriedade do MoMA em Nova Iorque) e com ele revolucionou as artes plásticas mundiais, o grande ponto de viragem, o início de um novo paradigma estético que se alastrou às demais artes.

Depois, chegou o momento dos livros. Antes de referir as sugestões de Filipa Melo, consultora de Literatura do Câmara Clara, dou um salto cronológico até Rui Zink para logo regressar a Silva Melo, que discorre sobre o estado do romance anglo-saxónico da segunda metade do século XX.
O último romance de Martin Amis, A Casa dos Encontros (Teorema, 2007), foi destacado mediante a exibição de uma pequena peça jornalística, por Luís Caetano, na qual o hiperbólico Rui Zink, após haver falado do horror dos gulags, exprimiu a sua imensa admiração pelo escritor de Oxford, filho de Kingsley Amis, nestes termos: «o Martin Amis é para mim, simplesmente, o melhor escritor de língua inglesa do mundo… e é-o desde há vinte anos.»
Não podia estar mais em desacordo, embora conheça mal a obra de Amis – devo ter lido, ao todo, 4 ou 5 obras – havendo-me recordado naquele preciso momento de pelo menos dez nomes que, segundo os meus padrões estético-literários, são consideravelmente superiores ao autor de O Cão Amarelo.
Para não os nomear e, para além disso, ter de puxar pela memória e encontrar mais uma meia dúzia escritores de língua inglesa, com obra publicada nos últimos 20 anos, cuja qualidade considero superior a Amis, basta-me fazer de novo um recuo no programa e falar dos quatro gigantes literários norte-americanos propostos por Filipa Melo, no pressuposto – quanto a mim um pouco lírico, a Internet tomou em definitivo esse lugar – de que nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto poderíamos encontrar os livros que, por razões de espaço, há muito abandonaram os escaparates das livrarias portuguesas:
Saul Bellow, Philip Roth, John Updike e Gore Vidal.
Considero qualquer um daqueles quatro nomes com uma razoável distância qualitativa, para melhor, em relação a Martin Amis. No futuro, quem sabe, se lá não chegará… E mais, Zink traduziu Bellow…
Confrontado com os quatro nomes, Silva Melo diz não considerar Gore Vidal como um ficcionista de primeira linha, apesar de ser uma personalidade fascinante [talvez um cínico?, pergunto eu]*; de Philip Roth confessa-se um leitor irregular, lê três obras de Roth de enfiada para depois ficar anos sem o ler, processo que curiosamente metaforiza como de ir «por ataques, são abcessos [sic] de leitura»; de seguida, JSM revela o seu enorme fascínio por Saul Bellow e pelas suas obras, que acompanhava a cada nova publicação, chamando-lhe o fenómeno (de leitura) da «continuidade permanente», cujo processo apenas durou até ao romance Dean’s December, o décimo de quinze romances que Bellow – Nobel da Literatura em 1976 – publicou – morreu a 5 de Abril de 2005; nunca leu com muito interesse as obras de John Updike, apesar de o achar «inteligente, cerebral e pertinente».
Depois veio uma reflexão potencialmente assassina e a apelar para alguma reflexão da blogosfera que se interessa por e admira a Literatura anglo-saxónica (como é, sem qualquer sombra de dúvida, o meu caso):

«Eu tenho algumas dúvidas com a ficção anglo-saxónica desta segunda metade do século XX, ou seja, até justamente Saul Bellow, Graham Greene, Doris Lessing fui um leitor fiel… depois comecei a achar… a ficar um pouco aborrecido com esta hipótese de contar histórias, com esta hipótese de acreditar na ficção e nas personagens sem ter passado pela era da suspeita de que falava tão bem a Nathalie Sarraute.»


Qual foi a Demoiselles d’Avignon da segunda metade do século XX?
Para reflectir enquanto ando nesta tentativa de desintoxicação blogólica. Estarei limpo no dia de São João, ou seja, amanhã…?


Nota: *A propósito de Gore Vidal e das suas qualidades enquanto personalidade do show business americano, há um episódio – para além de outros deliciosos protagonizados com os ex-amigos Capote ou Mailer, ou até com William F. Buckley (a quem, em directo na cadeia de televisão ABC, Vidal chamou de “proto ou cripto-nazi”, motivando a seguinte resposta de Buckley: “Now listen, you queer, stop calling me a crypto-Nazi or I'll sock you in your goddamn face, and you'll stay plastered”) – contado por Fred Kaplan no seu livro de 1999 Gore Vidal: A Biography, em que Saul Bellow, em conversa com Vidal, lhe confessou que um dia gostaria de lhe apresentar o seu filho, para este último ficar a conhecer alguém verdadeiramente cínico.

Promessa: Depois de ouvir JSM, vou ler a obra por ele recomendada Aqui nos Encontramos de John Berger. Já era dela possuidor desde o início do ano. Neste momento passou para a lista de prioridades no enorme arquivo de não-lidos que repousam nas estantes e atulham a minha biblioteca.

sábado, 21 de abril de 2007

Foste mesmo Puta?

A interrogação enunciada desta forma por Harry “Coelho” Angstrom é uma das inúmeras chaves que voluteiam pelo texto e, talvez, aquela que de uma forma cabal permite descodificar parte da aura de cruel ingenuidade do protagonista da obra literária Corre, Coelho (Rabbit, Run; 1960) do escritor norte-americano John Updike (n. 1932), este mês publicada pela Civilização Editora.
Corre, Coelho foi o segundo romance publicado por John Updike, tinha apenas 28 anos e já alguns contos e poemas publicados. A crítica foi quase unânime, este romance veio abalar os supostamente sólidos cânones da sociedade americana que lhe foi contemporânea, não só pelos recursos literários que empregou, mas sobretudo pela fidelidade do retrato de uma sociedade empenhada na prossecução do Sonho Americano, perdida no emaranhado de caminhos que conduzem à alienação do indivíduo em nome de valores sociais, morais e religiosos, cujo choque inter-relacional contribui, de forma quase inevitável, para a criação dos tais muros que o apartam da sociedade, promovendo o individualismo profundamente egocêntrico e a excruciante solidão.
Considerado pela revista Time como um dos 100 melhores romances publicados originalmente em língua inglesa entre 1923 e 2005, e eleito pelo
The New York Times – em conjunto com os restantes livros da tetralogia do Coelho, reunidos num só volume – como uma das melhores obras de ficção americana do último quartel do século XX – a par de obras de Roth, DeLillo, McCarthy e Toni Morrison –, Corre, Coelho consegue ser simultaneamente arrebatador e perturbador, com passagens de texto dilacerantes, onde se ergue o tal anel de corda interior que nos sufoca pelas suas secura e aspereza.

«Decide dar a volta ao quarteirão para aclarar as ideias e escolher o caminho que deve seguir. É curioso que aquele que nos faz ir seja tão simples e aquele por onde devemos ir esteja tão cheio de gente.» (pág. 300)

Harry Angstrom, o Coelho, é um jovem de 26 anos, casado com Janice Springer, de quem tem um filho de dois anos, Nelson. Vive em Mount Judge, no Estado da Pensilvânia. Ex-estrela de basquetebol do liceu local, trabalha como anódino vendedor de descascadores de legumes e tubérculos MagiPeel, fazendo demonstrações das façanhas do utensílio ao domicílio.
Um dia perante o reiterado cenário onde figura a mulher prostrada em frente do televisor, completamente ébria, grávida de 7 meses e com um filho para cuidar – nesse dia ao cuidado da mãe, Mrs. Angstrom –, Coelho sai para comprar cigarros e desaparece de carro, abandonando mulher e filho.
Após uma curta deambulação de carro – durou um dia – com o objectivo de se afastar tanto quanto possível de Mount Judge, Coelho inverte a marcha e detém-se em Brewer – terra vizinha de Mount Judge –, procura o seu antigo treinador, o decadente Tothero, e envolve-se com uma prostituta, Ruth, com a qual passará a viver durante dois meses. À medida que se vai envolvendo na sua segunda vida, Coelho conhece o jovem Reverendo Eccles – que o procura –, pastor da Igreja Episcopaliana, à qual pertencem os seus sogros. Eccles será o elo de ligação de Harry com Janice, os Springers e os Angstroms, aconselhando-o a voltar para refazer o lar que acabara de destruir.
Ao fim de dois meses recebe de Eccles a notícia que a sua mulher se encontra no hospital local em trabalho de parto… Harry corre. Corre, Coelho!

Esta é a história de um rapaz que não cresceu apesar de já haver dobrado a segunda metade da sua terceira década de existência.
A culpa, tão humana, a mácula do mundo que se materializa no pesado fardo da vivência quotidiana, volatiliza-se em Coelho, tendo por reagente a marca indelével e distintiva do seu profundo egoísmo, a carapaça protectora que lhe foram construindo e que o aparta dos outros, tornando impossível o estabelecimento de uma relação humana e afectiva duradoura, porque esse é Coelho, o eterno insatisfeito, irascível, pronto a conceder a indulgência do perdão – a culpa acaba sempre por ser dos outros – e a transforma mais tarde num ódio incontrolável, denegando a importância dos sentimentos dos que lhe são próximos por justaposição com o seu imensamente superior sofrimento.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
John Updike, Corre, Coelho. Porto: Civilização, 1.ª edição, Abril de 2007, 301 pp. (tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit, Run, 1960).

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Enfim, a Civilização…

Eis a reedição do primeiro livro da tetralogia de John Updike "Corre, Coelho" (Rabbit, Run; 1960) sobre as atribulações do personagem Harry “Rabbit” Angstrom, que prosseguem com Rabbit Redux (1971), Rabbit Is Rich (1981, vencedor de 3 prémios literários: o National Book Critics Circle Award, o Pulitzer e o American Book Award) e Rabbit At Rest (1990, vencedor de 3 prémios literários: o National Book Critics Circle Award, o Pulitzer e o The Howells Medal by the American Academy of Arts and Letters), terminando com uma pequena novela Rabbit Remembered publicada num livro de contos em 2001 (poderia ser uma pentalogia...)

O livro havia sido editado em Portugal, no longínquo ano de 1965, pelas Publicações Europa-América, com tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, prontamente banido pela Censura do benevolente regime do recentemente entronizado Grande Português.

Uma verdadeira pedrada no charco no vaporoso mercado editorial luso.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Corre, Coelho!

Este título assentar-lhe-ia tão bem, pelo previsível desfecho – inconclusivo – dos trabalhos da comissão especial do Parlamento Europeu sobre os alegados voos da CIA sobre território europeu. Porém, não é disso que se trata.
Em Novembro último, uma boa notícia agitou o tipicamente acabrunhado panorama editorial português no domínio da tradução de obras literárias estrangeiras: a Civilização Editora irá editar em Portugal o primeiro livro da tetralogia sobre o personagem Harry “Rabbit” Angstrom, Rabbit, Run escrito por John Updike e publicado originalmente em 1960.
A sua edição em Portugal na língua de Camões não é uma novidade. Em 1965 a Europa-América publicou “Corre, Coelho: romance” traduzido pela insigne poetisa, dramaturga e prosadora Fiama Hasse Pais Brandão, livro que foi prontamente censurado pela Ditadura. Segundo o relato de José Brandão a limpeza ideológica às editoras teve um novo clímax proibicionista em 14 de Junho de 1965, de «uma só vez, a editora Europa-América teve 73 mil livros apreendidos e 23 títulos proibidos», entre os quais constava o de Updike.

A tetralogia*:

  • Rabbit, Run (1960);
  • Rabbit Redux (1971);
  • Rabbit Is Rich (1981) – vencedor do Pulitzer Prize (ficção) em 1982;
  • Rabbit At Rest (1990) – vencedor do Pulitzer Prize (ficção) em 1991.



Em 2001, Updike publica um livro de contos (Licks of Love: Short Stories and a Sequel, "Rabbit Remembered"), onde se inclui sob a forma de epílogo, a novela “Rabbit Remembered” versando sobre os despojos e as consequências terrenas da vida do indomável Harry “Rabbit” Angstrom entretanto falecido.

*Esta tetralogia como um todo, foi eleita como uma das melhores obras de ficção americana dos últimos 25 anos pelo The New York Times Book Review, a par de obras como “UnderworldDon DeLillo (não editado em Portugal), “Pastoral Americana” de Philip Roth e “Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste” de Cormac McCarthy.

Entre as obras editadas no mercado português destacam-se S., O Centauro, Brasil, o inevitável romance As Bruxas de Eastwick, Uma Questão de Confiança, o excelente – sendo, sem dúvida, um dos livros do ano – O Terrorista (editado em Portugal em Novembro passado pela Civilização) e o sísmico Casais Trocados, cuja publicação conseguiu abalar os frágeis alicerces da presumidamente modelar e conservadora estrutura familiar dos Estados Unidos nos finais da década de 60. Casais Trocados (Couples, 1968) valeu a Updike a capa da revista Time em 26 de Abril de 1968, sob o título The Adulterous Society.

John Updike, nasceu em Reading, no Estado da Pennsylvania a 18 de Março de 1932.
Para quando o Nobel da Literatura?

(sugestão da casa: John, filia-te num PC qualquer e faz muito barulho, sem substância concretizadora – por isso ruído –, pelos direitos humanos e depois do galardão confessa qualquer coisa como uma breve militância no KKK ou então uma episódica, e felizmente curada, simpatia pelo Benfica).