quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ameaça Gay

William BurroughsSeria um momento verdadeiramente divertido se não fosse trágico pelo apedeutismo modelar da espécie e a RTP Memória para nos recordar alguns dos momentos potencialmente candidatos a tesourinho deprimente™.

Uma comédia em três actos: o programa Jet 7, Margarida Mercês de Melo e…
Um modelo profissional chamado Nicola, a quem perguntaram, depois de uma tarde bem passada em convívio com uma turba de iguais numa praia deste país – lembrei-me agora de um óbice na formulação da teoria, a putativa insolação poderia servir de justificativo –, quais os eventuais riscos a que estavam expostos os modelos profissionais.
Nicola respondeu, de rosto severo, evidenciando não só a pertinência da pergunta que lhe foi colocada – Eh pá, agora é assunto sério! –, como também a necessidade de assumir as funções de um decano moralista para os jovens e futuros candidatos:

Resposta [cito de memória]: As drogas e a homossexualidade são os grandes perigos da carreira de modelo…

[aditamento aqui da casa] …e brincadeiras à Guilherme Tell. [imagem: o autor de Junkie e Queer, conta a história da (in)feliz pontaria em Naked Lunch].

Premio Príncipe de Asturias de las Letras 2007

Amos Oz Amos Oz
(n. 1939)

Segundo fontes bem informadas, o escritor israelita derrotou os, aparentemente, bem posicionados romancistas e ensaístas Martin Amis e Haruki Murakami, ambos nascidos em 1949, assim como o poeta espanhol Antonio Gamoneda (n. 1931).

שָׁלוֹם


Notas:
  1. O vencedor na categoria "Artes" em 2007 foi Bob Dylan;
  2. O vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras em 2006 foi Paul Auster;
  3. Se este blogue não houvesse adquirido a condição de blogue de texto abreviado – resolução tomada, e bem reflectida, para não lhe colocar um fim imediato, e vamos lá ver quanto tempo assim se mantém – discorreria sobre os escritores que o venceram em anos anteriores e sobre uma curiosa reflexão de Amis sobre os prémios literários no seu livro de memórias Experiência (Experience: A Memoir, 2000) – ainda volto ao 12-step program.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Coisas que te fascinavam (III)

A Tua revista de culto, com aqueles que admiravas: Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Miguel Esteves Cardoso, para além dos textos de Agustina.
Assinei a revista. Tinha dezoito anos e tu apenas quinze e – lembras-te? –, na tua pueril impertinência, conseguias levar-me ao desespero se, no dia em que ela chegava à caixa de correio, não te desse pelo menos uma hora de leitura – que rica arma para quando nos zangávamos…
Lembras-te da crónica do MEC no n.º 10? Era aquela sobre o prurido jornalístico em nomear marcas de produtos e serviços.
Lembras-te do quadro com as marcas perfiladas por ordem alfabética, com um “obrigado” em cada apartado?
Até veio um “obrigado” à Doc Martens, orgulhosamente, e para grande desgosto dos nossos pais, os meus sapatos favoritos.


«Na crónica que se segue fazem-se referências a várias marcas e serviços. São as marcas e os serviços a quem devo grande parte da alegria da minha vida. São muitas. Não sei se isto é ou não publicidade. Sei é que estou a dizer a verdade.
As referências que farei às marcas e aos serviços a quem estou grato não foram pagas nem encomendadas nem sugeridas. Menciono-as por gratidão. Devo-lhes muito. Mais do que paguei por elas. Nalguns casos, estaria disposto a pagar uma pequena quantia em dinheiro pelo prazer de mencioná-las.
Obrigado, sim? Não sou um filisteu. Nenhum produto me trouxe o que me trouxeram os livros de Beckett ou da Agustina ou do João Miguel Fernandes Jorge. Mas também não sou parvo. Há muitos escritores de quem eu gosto que contribuíram menos para a minha felicidade (Gide, Chandler, Camilo) do que certos produtos como, por exemplo, o Volkswagen 1200, o Lexotan, o whisky Jamesons ou a Polaroid SX-70. Trocaria o usufruto vitalício de qualquer destas coisas pela impossibilidade de ler quaisquer daquelas obras. É horrível, não é? Mas é verdade. E eu tenho de dizer a verdade, mesmo que fique mal visto.
O dever do jornalista é dizer o que sabe. No caso do colunista, o que acha. Para mim não há diferença entre dizer bem de um filme e dizer bem de um sabonete. Se posso opinar que vale a pena ver o Rivette mais recente porque não poderei opinar que o Pears é um excelente sabonete e que vale a pena tomar banho nele? É publicidade? Para o Rivette também é preciso gastar dinheiro e beneficiar certas empresas para vê-lo, mas ninguém diz que é publicidade.
Porquê? Porque é arte? Esqueçamos o problema da definição, que só por si complicava as coisas. Finjamos que sabemos o que a arte é. Sendo assim sei que a Lídia Jorge é escritora e escreve romances que fazem parte da nossa literatura. Sei também que tem os seus admiradores. Eu não gosto, mas admito que tenha mau gosto. Sou é forçado a dizer esta verdade: que tenho muito mais respeito pela empresa que produz o leite Vigor. Aliás, para ser sincero, tenho mais respeito e acho que fazem mais falta à nossa sociedade os iogurtes Danone (de que gosto pouco) do que toda a obra literária e jornalística da Lídia Jorge.
O que interessa na vida não é distinguir o que é artístico do que é comercial, nem o que é jornalístico do que é publicitário e a razão não é por cada vez se confundirem mais. O que interessa é procurar distinguir o que é bom do que é mau e o que é verdade do que é mentira. O facto de ser impossível saber estas coisas com certeza não torna o objectivo menos nobre.
Já se sabe que tudo depende de tudo e que cada um tem a sua opinião mas, mesmo assim, há verdades mais verdadeiras que outras. É verdade, por exemplo, que os vinhos da Casa Ferreirinha são melhores que os vinhos da Camillo Alves. É verdade que Jorge Luis Borges escrevia melhor que Ferreira de Castro. É verdade que a comida para gatos da marca Whiskas é, segundo a opinião dos meus dois gatos, melhor do que a comida da Felix. É também verdade que um bom carpinteiro vale mais que um mau advogado, um bom contabilista mais que um matemático medíocre e um bom pintor de tabuletas mais que um péssimo poeta. Ou seja: não é por aquilo que as coisas calham ser (filmes ou marcas de jeans, profissões artísticas ou comerciais, notícias ou opiniões) que são mais ou menos susceptíveis de terem valor.
Como restaurante o Beira-Mar, em Cascais, é melhor do que o restaurante Muchaxo no Guincho. Isto é verdade. Mas também é verdade que, como restaurante português, o Beira-Mar tem, na minha opinião, um papel mais importante na nossa cultura que os romances da Lídia Jorge. (Peço desculpa a esta escritora pela insistência – não é alguém com quem eu embirre especialmente). Na minha opinião, seria pior que se perdesse a maneira de fritar os filetes de pescada que são servidos no Beira-Mar do que se se perdesse a maneira de escrever da Lídia Jorge.
Acho obsceno que eu possa dizer, como jornalista, que o professor Cavaco Silva é o melhor primeiro-ministro deste século, mas não possa dizer que a melhor manteiga portuguesa é a Atlântida. Acho obsceno que me seja permitido meter o nariz na política do governo irlandês, sem saber nada acerca do assunto, mas que me seja vedado recomendar o whisky irlandês Tullamore Dew que se vende no duty-free de Dublin e de Londres, acerca do qual sei até mais do que devia saber.
Acho obsceno que os jornalistas se pronunciem livremente sobre a política, que tem consequências fundamentais para a nossa vida comum, mas que se coíbam de confessar aos leitores se preferem o serviço da Avis ou da Hertz. Quando vejo, por exemplo, o espaço e a atenção que se tem dedicado ao PRD ao longo dos últimos anos, pergunto se não teria sido mais proveitoso e honesto aproveitar para publicitar o Hotel do Buçaco, ou o restaurante Pedro dos Leitões ou a Água do Luso? Há milhares de excelentes instituições portuguesas, de carácter comercial ou não, que não só não têm dinheiro para comprar publicidade, como podem morrer sem ela. São editoras, sapatarias simpáticas, fabricantes de bagaço, costureiras, tipografias, tascas, explorações agrícolas, industriais de calçado, companhias de táxis, lojas de segunda mão, viveiros de marisco… e não acaba.
No entanto se eu, como jornalista, me limitasse a publicitar as marcas e empresas pobres também estaria a faltar à verdade. E as ricas? Quero lá saber se a Lacoste gasta milhões de francos em publicidade todos os anos. Fabricam óptimas camisas de ténis. Como camisas são tão boas como o licor de ginja de Alcobaça fabricado por David Lopes que não tem muito dinheiro para gastar em publicidade. Tanto um como o outro merecem o meu apoio. Igualmente.
O dever do jornalista é dizer o que julga saber. Se, por pruridos anticomerciais, não revela aos seus leitores que achou excelente um acontecimento qualquer, está a exercer sobre si mesmo uma espécie de censura. O mal da censura é sempre o mesmo – uma vez que se aceita a sua existência é-se obrigado a discutir onde começa e onde acaba.
Sobre as grandes causas fala à vontade, quantas vezes com sobranceria e ignorância. Mas não é capaz de confessar que gosta de Chiclets. Promove políticos que vêm a mandar na nossa vida sem pensar duas vezes no que está a fazer, mas recusa-se a promover uma marca de pastilha elástica, que não afecta a nossa vida em quase nada.
Este pudor anticomercial é uma forma de censura. Não poder falar em marcas é um atentado à liberdade de expressão.
Pensar que essa liberdade convida à corrupção é irrelevante. Os mentirosos hão-de ser sempre mentirosos e os corruptos hão-de sempre ser corruptos. São os jornalistas que mentem e manipulam a informação política que são perigosos. Não são os que dizem bem (e justamente) do supermercado Euromarché.
O mundo é muito grande e tudo faz parte dele. Parece um truísmo, mas é um tabu. Não se pode falar de muitas coisas. Esse silêncio acaba por dar maior poder à publicidade. Se é verdade que uma grande campanha consegue (temporariamente!) impor, por exemplo, um iogurte merdoso, levando os consumidores a comprá-lo em vez de iogurtes melhores, esse efeito deletério deve-se sobretudo à censura anticomercial que reina no jornalismo. Os jornais que seriam capazes de assistir à falência de bons fabricantes de iogurtes, para não lhes fazerem publicidade gratuita, ao mesmo tempo que recebiam o dinheiro pago pelo fabricante merdoso, estariam a cometer uma imoralidade. Calando-se, faltariam à verdade. É como se se vendessem.
Quem diz a verdade nunca se vende. A ideia de eu me vender ao whisky Macallan, sobre o qual escrevi um artigo para a K é de morrer a rir. É de rir porque nunca me passaria pela cabeça dizer senão bem do Macallan porque o Macallan é mesmo um bom whisky de malte. Mas é de morrer a rir porque comete a suprema arrogância de julgar que um jornalista como eu é superior, como jornalista e apreciador de whiskies, ao Macallan como fabricante! Nem a Macallan precisa de me comprar nem eu sou ninguém, como entendedor do assunto, para ser sequer tido ou achado. Quem sou eu, o mero Miguel, para estar a pronunciar-me sobre um tão esplêndido whisky?
Seria o mesmo dizer que as motas da BMW são muito boas, ou que os jeans da da Levis duram que se fartam ou que a Água das Pedras é boa para as ressacas ou que os isqueiros Zippo nunca falham ou que a Leica fabrica boas máquinas fotográficas. Ao dizer estas verdades banais não só sinto que não me estou a vender como tenho a vergonha de me perguntar «Mas quem sou eu para estar a felicitar a Leica?» Quando se diz a verdade não custa tanto ver o valor do que se está a dizer. Os jornalistas estão convencidos que as empresas querem «comprá-los» e porque são – simplesmente – uns convencidos.
Se a Lee me pagasse 10 mil contos para escrever um anúncio explicando que eram melhores que a Levis seria capaz de aceitar, porque é muito dinheiro. Mas ficaria cheio de vergonha de mim mesmo. E não aceitaria nem 100 mil contos da Old Chap!
As marcas que alistei tornaram a minha vida mais fácil de suportar. Recomendo-as absolutamente. Não fiz a lista para provocar. Fi-la para agradecer. O mundo é um sítio complicado e nem sempre é simples determinar, por exemplo, se foi maior a influência na literatura norte-americana do escritor Scott Fitzgerald ou do bourbon Jack Daniels. Não gosto nem de um nem de outro, mas tenho de respeitá-los (e, ainda por cima, acho que foi mais importante o Jack Daniels). Também considero que a própria garrafa é mais significativa e rica, como ícone dos EUA, do que qualquer das pinturas de Larry Rivers ou de Robert Motherwell.
É tudo muito mais difícil do que se pensa. Seria bom, seria, um mundo arrumadinho e subdividido como existe no cérebro dos jornalistas bons e bem-intencionados como é o caso do Miguel Sousa Tavares. É por haver regras do que se pode e não pode dizer que é mais fácil falar. Reduzem-no à insignificância da nossa medida. Se não posso mencinar bebidas alcoólicas ou recomendar medicamentos que só podem ser vendidos com receita médica, por não ser deontológico (quanto mais mencionar as duas ao mesmo tempo), já não preciso de pensar se devo ou não correr o risco de dizer que misturar um Lexotan de 3 miligramas com um gin-tónico Bombay Sapphire com Schweppes provoca uma grande sensação de bem-estar.
Esta frase é totalmente irresponsável. Sei lá se há algum maluco que me está a ler e que decide experimentar e depois acaba no hospital. Mas é verdade. Se torno pública esta informação perigosa e irresponsável é porque já a transmiti a todas as pessoas que conheço e julgo sinceramente que é útil. Vindo de quem vem, vale o que vale: quase nada. Desde que os leitores tenham a inteligência de me reduzir à minha insignificância, porque é que não hei-de dizer aquilo que penso? Os comentadores públicos que se coíbem e censuram, que medem as palavras, que meditam nas consequências do que dizem, que têm a pretensão de serem pedagógicos faltam à verdade e faltam-nos ao respeito.»
Miguel Esteves Cardoso, “O Arco da Velha: A Resposta”. In: revista K, n.º 10, Julho de 1991, pp. 97-99.

Coisas que te fascinavam (II)

Chronos, especialmente estes, para quem a inexorabilidade do tempo era a maior ameaça.

Coisas que te fascinavam (I)

Pois, assevero agora, de nada me vale a pungente e lamuriosa rememoração pela Tua ausência.
Acordei com a viva certeza de que a melhor homenagem que te podia prestar seria dar-te, por esta provável via etérea de perpetuação do meu estado espírito, aquilo que te empolgava e arrebatava do torpor que a azáfama do teu rigorosíssimo zelo profissional apunha nos teus momentos de lazer.

Um dia, lembras-te, trouxe-te uma fotobiografia de James Newell Osterberg de uma livraria de Santiago de Compostela.
Era o Natal de 1995 e ainda me lembro da tua alegria chispante de miúdo de 20 anos pelos pequenos nadas do tamanho do mundo… a vida toda pela frente.

(Não era, de longe, tal como no meu caso, das tuas preferidas, mas o epíteto fica-te tão bem.)


Pela Tua vida breve

…um pequeno tributo por outra voz.

Too proud to die, broken and blind he died
The darkest way, and did not turn away,
A cold kind man brave in his narrow pride

On that darkest day. Oh, forever may
He lie lightly, at last, on the last, crossed
Hill, under the grass, in love, and there grow

Young among the long flocks, and never lie lost
Or still all the numberless days of his death, though
Above all he longed for his mother's breast

Which was rest and dust, and in the kind ground
The darkest justice of death, blind and unblessed.
Let him find no rest but be fathered and found,

I prayed in the crouching room, by his blind bed,
In the muted house, one minute before
Noon, and night, and light. The rivers of the dead

Veined his poor hand I held, and I saw
Through his unseeing eyes to the roots of the sea.
[An old tormented man three-quarters blind,

I am not too proud to cry that He and he
Will never never go out of my mind.
All his bones crying, and poor in all but pain,

Being innocent, he dreaded that he died
Hating his God, but what he was was plain:
An old kind man brave in his burning pride.

The sticks of the house were his; his books he owned.
Even as a baby he had never cried;
Nor did he now, save to his secret wound.

Out of his eyes I saw the last light glide.
Here among the light of the lording sky
An old blind man is with me where I go

Walking in the meadows of his son's eye
On whom a world of ills came down like snow.
He cried as he died, fearing at last the spheres'

Last sound, the world going out without a breath:
Too proud to cry, too frail to check the tears,
And caught between two nights, blindness and death.

O deepest wound of all that he should die
On that darkest day. Oh, he could hide
The tears out of his eyes, too proud to cry.

Until I die he will not leave my side.]

Dylan Thomas (1914-1953), Elegy (1953)

terça-feira, 26 de junho de 2007

Dois escritores e as suas escolhas

12.º Passo: o despertar espiritual, lev(ar)ei estes passos aos conhecimento dos outros.
(FIM)


Memórias de um homem das finanças empresariais (enquanto jovem) amante da Literatura... pois, não o foram.

«O mais do que isto/ É Jesus Cristo,/ Que não sabia nada de finanças/ Nem consta que tivesse biblioteca...» Fernando Pessoa


Termino justamente no dia anterior ao que completarias 32 anos.

Foi para ti e pelos livros que devoravas, meu querido T. (1975-2002).

Eis os livros da vida de dois dos meu autores favoritos: Paul Auster e John Banville (com a respectiva editora se editados e traduzidos em Portugal).

Paul Auster (n. 1947, Newark, NJ, Estados Unidos)

  1. O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha – Miguel de Cervantes (Relógio D’Água)
  2. Guerra e Paz – Lev Tolstoi (Presença)
  3. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  4. Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski (Presença)
  5. Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust (Relógio D’Água)
  6. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  7. A Letra Encarnada – Nathaniel Hawthorne (Assírio & Alvim)
  8. O Castelo – Franz Kafka (Relógio D’Água)
  9. Molloy / Malone está a morrer / O Inominável (trilogia francesa) – Samuel Beckett (Relógio D’Água / Dom Quixote / Assírio & Alvim)
  10. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy – Laurence Sterne (Antígona)

John Banville (n. 1945, Wexford, Irlanda)

  1. Mal Visto Mal Dito – Samuel Beckett (Quasi)
  2. Cadernos do Subterrâneo – Fiodor Dostoievski (Assírio & Alvim)
  3. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  4. Doutor Fausto – Thomas Mann (Dom Quixote)
  5. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  6. Lolita – Vladimir Nabokov (Teorema)
  7. Austerlitz – W.G. Sebald (Teorema)
  8. La neige était sale – Georges Simenon (Sangue na Neve [edição brasileira, Nova Fronteira])
  9. Viagens de Gulliver – Jonathan Swift (Livraria Sá da Costa)
  10. A Feira das Vaidades – W.M. Thackeray (Europa-América)

segunda-feira, 25 de junho de 2007

No se puede vivir sin amar

11.º Passo: oração e meditação para consumar uma vontade inaudita de desprendimento.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)

Um dos livros da minha vida:


«Mas ali nada havia: nem cimos, nem vida, nem subidas. Nem aquele cume era afinal bem um cume; não possuía matéria, nem base firme. Além disso, o que quer que fosse que o sustentava começava a desintegrar-se, enquanto ele próprio ia caindo, caindo para dentro do vulcão; contudo devia ter conseguido subi-lo antes, pois agora rugia-lhe aos ouvidos o som obcecante da lava; tratava-se de uma erupção terrível e, contudo, não era o vulcão; era o próprio mundo que explodia, explodia, com negros jactos de aldeias catapultadas no espaço, com ele próprio a cair por entre tudo aquilo, por entre o pandemónio inconcebível de um milhão de tanques, por entre o imenso braseiro de dez milhões de corpos a arder, caindo, caindo, numa floresta...» (Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, Livros do Brasil; tradução de Virgínia Motta)

domingo, 24 de junho de 2007

Romantismo

10.º Passo: prossegue o inventário pessoal, admitindo com convicção os nossos erros.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)




Poderia começar por dizer que todos os romances felizes são parecidos, cada romance infeliz é infeliz à sua maneira. Poderia, ademais, para ser mais preciso, trocar o substantivo “romance” pela forma elíptica adjectivada “clássico”, se bem que tivesse de acrescentar a locução adjectiva “menos conseguido”. E, por último, transmudar a célebre asserção tolstoiana das “famílias” para os “romances”, para além de encerrar uma arteirice discursiva, jamais se poderá comparar uma “família”, essa unidade social basilar na evolução do homem, com um “romance”, uma mera invenção de uma mente, normalmente, perturbada…

Recomeço…
Pais e filhos é um “romance” sobre “famílias” como reflexo de todo um sistema social tipicamente feudal da Rússia de meados do século XIX. Bom, adiante…

Pais e Filhos, romance escrito por Ivan Turguéniev (1818-1883) – considerado como o “mais ocidental” dos autores russos novecentistas –, foi originalmente publicado em 1862, ano que, de forma indelével, assinalou nos anais da História do império dos czares o surgimento do movimento cultural do niilismo russo – cuja etimologia deriva da expressão do Latim “nihil”, que significa…

[pressinto o fim, nasce em mim uma vontade de divagar, como se ao exceder um imaginário limite de palavras, o inebriamento que o vício nos dissemina nas entranhas perdurasse para além do limite que estipulámos, o fim].

[O niilismo russo] que defendia o fim do opressivo sistema feudal, fortemente hierarquizado e dominado por uma classe aristocrática corrupta, frívola e indolente e que se limitava a explorar os desprotegidos que, imbuídos de uma religiosidade acerba e de um tradicionalismo paralisante, não contestavam o poder despótico das instituições de governo do império influenciadas por essa aristocracia.
Turguéniev, um admirador confesso das democracias, das sociedades e das escolas de pensamento ocidentais, designadamente das francesa e inglesa, constrói uma narrativa que, de uma forma veemente, através do seu personagem principal Evguéni Vassílitch Bazárov, condena a eslavofilia, machista, absoluta e servil, intensamente arreigada na sociedade russa que lhe foi contemporânea – note-se que a acção decorre no ano de 1959, logo após o términos do reinado tirânico de Nicolau I (m. 1855), encontrando-se a Rússia nos primeiros anos de governação do seu filho, o czar Alexandre II, cujo assassinato em 1881 iria marcar o fim deste movimento, indecorosamente confundido com e absorvido pelo movimento anarquista.
Bazárov, com o seu austero niilismo, condena todo o tipo de romantismo ou de arte, que considera como palavras sinónimas entre si, assim como com inutilidade, sem qualquer tipo de valor, trata-se apenas da «arte de acumular dinheiro, ou de acabar com as hemorróidas!»: «um bom químico é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta» (pág. 32)
Arkádi Nikoláevitch Kirsánov regressa a casa, à cidade de X… (denominada por Marino pelo pai Nikolai Petróvitch Kirsánov, que vive com o seu irmão Pável), após a frequência da Universidade em São Petersburgo, trazendo consigo o seu colega, amigo e, de certa forma, mentor e iniciador no niilismo, Bazárov. Este é o ponto de origem de todo o conflito geracional que se arrasta pela obra.
Atente-se em parte de um delicioso diálogo estabelecido entre Arkádi e Bazárov sobre o pai do primeiro:

«(…)
– Anteontem dei com ele a ler Púchkin – continuou Bazárov entretanto. – Fá-lo ver, por favor, que isso já não serve para nada. Ele não é nenhum rapazinho, é tempo de deixar essas tolices. E que gosto esse de ser romântico nestes tempos! Dá-lhe qualquer coisa sensata para ler.
– Dar-lhe o quê? – perguntou Arkádi.
– Sim, eu acho que o
Stoff und Kraft
, de Büchner, para começar.
– Eu também acho – aprovou Arkádi. –
Stoff und Kraft está escrito numa linguagem popular.» (pág. 54)

Repleto de personagens fascinantes, cujos passados, minuciosamente descritos, justificam, como uma herança genética, as distintas maneiras de ver o mundo, fortemente influenciadas pelo espírito do tempo por que a Rússia atravessava, quer por aceitação ou resignação, quer por reacção ou denegação, em contraposição com o desenvolvimento das democracias ocidentais que, pela filosofia aplicada à ciência, caminhavam rumo a um materialismo visto como libertador das amarras da crendice, da servidão humana e do preconceito, Pais e Filhos é, todavia, um tratado sobre a moderação, sobre o necessário diálogo geracional, o meio-termo que evita a potencial devastação pelo recrudescimento dos radicalismos de pólos contrários, tão bem consubstanciado nas capacidades curativas do “amor” – o paroxismo do romantismo –, na arte como o veículo para essa redenção, aqui entendido como a mola impulsora, conscientemente rejeitada pelo embaraço do Homem – o seu esforço inglório de racionalização de todo o comportamento humano, rejeitando qualquer tipo de sentimento –, para alcançar a plenitude da alma.

Esta edição da obra-prima de Turguéniev, com chancela da Relógio D’Água, inclui um posfácio de Vladimir Nabokov, de mera análise literária.
Na sua primeira frase, Nabokov afirma que «Pais e Filhos não é só o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX.» (pág. 219)
Concordo com a afirmação, desde que se ressalve a posição cimeira de Tolstoi (1828-1910) e de Dostoievski (1821-1881) – inimigo visceral de Turguéniev e objecto de alguma censura literária por Nabokov – enquanto romancistas e na quantidade de obras-primas que trouxeram ao mundo na arte de romancear, onde permanecem (quase) imbatíveis decorrido mais de um século.
Porém, o seu a seu dono, e o mérito com quem o tem, sem ser uma obra-prima da dimensão das engendradas pelos dois autores supramencionados e seus contemporâneos:

Classificação: ***** (Muito Bom).

Referência bibliográfica:
Ivan Turguéniev, Pais e Filhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Maio de 2007, 251 pp. (tradução de António Pescada; obra original: Отцы и Дети, 1862).

sábado, 23 de junho de 2007

Seguindo os passos de Chesterton, Waugh e Greene

9.º Passo: As compensações às pessoas que prejudicámos deverão ser suspensas sempre que com esse acto as possamos prejudicar. (Este é lindo!)
(seguindo os passos até ao São João)



Aproxima-se o fim do mandato e correm rumores que, em breve, Tony Blair anunciará a sua conversão ao Catolicismo, seguindo não só a crença da sua persuasiva mulher, Cherie, mas também a conversão de alguns ilustres compatriotas como a do Cardeal John Henry Newman (1801-1890) – de quem Blair mostrou e ofereceu hoje três fotografias emolduradas ao Papa Bento XVI –, assim como a dos escritores Evelyn Waugh (1903-1966), Graham Greene (1904-1991) e G.K. Chesterton (1874-1936).

Pelo menos, deixará a sucessão a um G. Brown

O fim do romance anglo-saxónico?

8.º Passo: Fazer uma lista de pessoas a quem causamos danos, para as poder compensar.
(seguindo os passos até ao São João)

Felizes os podcasts da estação de televisão pública. Eis a plataforma que evita a incompatibilidade de horários no mundo… isto é, o do telespectador com o dos seus programas favoritos. Assim seja.
Câmara Clara, programa da
RTP2, apresentado pela faiscante Paula Moura Pinheiro, cujo título foi decalcado do último trabalho publicado em vida de Roland Barthes, o ensaio filosófico de 1980 em que Barthes discorreu sobre a fotografia e os seus elementos vivos e essenciais, o studium e o punctum: o primeiro resulta da nossa concepção geral do mundo, onde a fotografia reflecte o nosso interesse apenas como objecto; o segundo é aquele que transforma a fotografia de novo em sujeito, não só pelo simples pormenor que torna a fotografia única a cada indivíduo, visto no momento ou resultante de um processo apuramento da memória, mas também, de forma mais arrebatadora, a consciência da morte ou da sua chegada iminente, porque representa no tempo um momento que deixou de existir… Bom, basta de filosofias!

Ponto de ordem: prosseguindo…
Pablo Picasso - Les Demoiselles d'Avignon (1907)No passado dia 27 de Maio, o Câmara Clara, no meu entender o melhor programa de produção exclusivamente portuguesa no descoroçoante panorama televisivo nacional, contou com a presença do all-in-one das artes e das letras nacionais Jorge Silva Melo. Da ficha do programa destacava-se a celebração dos cem anos de nascimento do actor norte-americano John Wayne – nasceu a 26 de Maio de 1907. Por outro lado, dela constava a promessa de uma boa conversa sobre livros, particularmente daqueles que acompanharam o convidado de honra ao longo da sua vida e da sua carreira literária, discutindo-se, em simultâneo, o estado da arte do mercado editorial português, bem a propósito da abertura da 77.ª edição das feiras do livro de Lisboa e do Porto.

Jorge Silva Melo, quer se goste ou não da sua idiossincrasia e/ou das suas ideias ou reflexões, é uma personalidade que se ouve por vício, tem uma capacidade comunicacional ímpar no meio cultural português, pelas fluidez do discurso e limpidez de raciocínio.
Sobre John Wayne, de quem Silva Melo confessou a sua profunda admiração, especialmente nos filmes em que foi dirigido pelo mestre Howard Hawks – de forma notável, referiu, para o efeito e através da exibição de um excerto do filme de 1959 Rio Bravo, a introdução do elemento fragilidade nos personagens interpretados por Wayne quando dirigido por Hawks, comummente apresentado com um homem de ferro por outros realizadores –, evocou um facto curioso que demonstra a perenidade da arte no espírito humano através das suas constantes revoluções e contra-revoluções: recordou que no preciso ano em que Wayne soltava o primeiro choro no Iowa nos Estados Unidos – certamente já instilando, no seu estilo pastoso, a sua voz cava –, Pablo Picasso pintava Les Demoiselles d’Avignon (óleo sobre tela, com as descomunais dimensões de 2,44 por 2,34 metros, actualmente propriedade do MoMA em Nova Iorque) e com ele revolucionou as artes plásticas mundiais, o grande ponto de viragem, o início de um novo paradigma estético que se alastrou às demais artes.

Depois, chegou o momento dos livros. Antes de referir as sugestões de Filipa Melo, consultora de Literatura do Câmara Clara, dou um salto cronológico até Rui Zink para logo regressar a Silva Melo, que discorre sobre o estado do romance anglo-saxónico da segunda metade do século XX.
O último romance de Martin Amis, A Casa dos Encontros (Teorema, 2007), foi destacado mediante a exibição de uma pequena peça jornalística, por Luís Caetano, na qual o hiperbólico Rui Zink, após haver falado do horror dos gulags, exprimiu a sua imensa admiração pelo escritor de Oxford, filho de Kingsley Amis, nestes termos: «o Martin Amis é para mim, simplesmente, o melhor escritor de língua inglesa do mundo… e é-o desde há vinte anos.»
Não podia estar mais em desacordo, embora conheça mal a obra de Amis – devo ter lido, ao todo, 4 ou 5 obras – havendo-me recordado naquele preciso momento de pelo menos dez nomes que, segundo os meus padrões estético-literários, são consideravelmente superiores ao autor de O Cão Amarelo.
Para não os nomear e, para além disso, ter de puxar pela memória e encontrar mais uma meia dúzia escritores de língua inglesa, com obra publicada nos últimos 20 anos, cuja qualidade considero superior a Amis, basta-me fazer de novo um recuo no programa e falar dos quatro gigantes literários norte-americanos propostos por Filipa Melo, no pressuposto – quanto a mim um pouco lírico, a Internet tomou em definitivo esse lugar – de que nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto poderíamos encontrar os livros que, por razões de espaço, há muito abandonaram os escaparates das livrarias portuguesas:
Saul Bellow, Philip Roth, John Updike e Gore Vidal.
Considero qualquer um daqueles quatro nomes com uma razoável distância qualitativa, para melhor, em relação a Martin Amis. No futuro, quem sabe, se lá não chegará… E mais, Zink traduziu Bellow…
Confrontado com os quatro nomes, Silva Melo diz não considerar Gore Vidal como um ficcionista de primeira linha, apesar de ser uma personalidade fascinante [talvez um cínico?, pergunto eu]*; de Philip Roth confessa-se um leitor irregular, lê três obras de Roth de enfiada para depois ficar anos sem o ler, processo que curiosamente metaforiza como de ir «por ataques, são abcessos [sic] de leitura»; de seguida, JSM revela o seu enorme fascínio por Saul Bellow e pelas suas obras, que acompanhava a cada nova publicação, chamando-lhe o fenómeno (de leitura) da «continuidade permanente», cujo processo apenas durou até ao romance Dean’s December, o décimo de quinze romances que Bellow – Nobel da Literatura em 1976 – publicou – morreu a 5 de Abril de 2005; nunca leu com muito interesse as obras de John Updike, apesar de o achar «inteligente, cerebral e pertinente».
Depois veio uma reflexão potencialmente assassina e a apelar para alguma reflexão da blogosfera que se interessa por e admira a Literatura anglo-saxónica (como é, sem qualquer sombra de dúvida, o meu caso):

«Eu tenho algumas dúvidas com a ficção anglo-saxónica desta segunda metade do século XX, ou seja, até justamente Saul Bellow, Graham Greene, Doris Lessing fui um leitor fiel… depois comecei a achar… a ficar um pouco aborrecido com esta hipótese de contar histórias, com esta hipótese de acreditar na ficção e nas personagens sem ter passado pela era da suspeita de que falava tão bem a Nathalie Sarraute.»


Qual foi a Demoiselles d’Avignon da segunda metade do século XX?
Para reflectir enquanto ando nesta tentativa de desintoxicação blogólica. Estarei limpo no dia de São João, ou seja, amanhã…?


Nota: *A propósito de Gore Vidal e das suas qualidades enquanto personalidade do show business americano, há um episódio – para além de outros deliciosos protagonizados com os ex-amigos Capote ou Mailer, ou até com William F. Buckley (a quem, em directo na cadeia de televisão ABC, Vidal chamou de “proto ou cripto-nazi”, motivando a seguinte resposta de Buckley: “Now listen, you queer, stop calling me a crypto-Nazi or I'll sock you in your goddamn face, and you'll stay plastered”) – contado por Fred Kaplan no seu livro de 1999 Gore Vidal: A Biography, em que Saul Bellow, em conversa com Vidal, lhe confessou que um dia gostaria de lhe apresentar o seu filho, para este último ficar a conhecer alguém verdadeiramente cínico.

Promessa: Depois de ouvir JSM, vou ler a obra por ele recomendada Aqui nos Encontramos de John Berger. Já era dela possuidor desde o início do ano. Neste momento passou para a lista de prioridades no enorme arquivo de não-lidos que repousam nas estantes e atulham a minha biblioteca.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Правда

7.º Passo: Por favor, livrai-nos de todas as imperfeições!
(seguindo os passos até ao São João)

A 9 de Maio de 2006 disse isto. A 27 de Julho do mesmo ano acrescentei isto.
Mas a imprensa da Capital do Império, assim como alguns bloggers lisboetas elevaram-no à condição divina. Um Rio em cada esquina, seria até uma medida parcimoniosa... Os meus incontáveis apelos, de uma exasperação angustiante, à exportação do xerife cá do burgo foram em vão! Os que por ele clamavam não passaram aos actos.
Bom, já passa das 2 da manhã. O cansaço e a náusea que me provocam as arbitrariedades de gentalha desta estirpe levam-me apenas ao acto quase reflexo de anunciar este novo blogue, à laia de ode ao nosso Querido Líder.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Anotações e Transcrições – 9

6.º Passo: Libertação de todos os nossos defeitos de carácter
(seguindo os passos até ao São João)

Um dos traços que define a liberdade de expressão (em potência) da blogosfera é a hipótese de se poder pôr em prática a denominada interactividade dos seus utilizadores de forma quase irrestrita. Um dos veículos que contribui para o reforço dessa tal interactividade, e que se encaixa de forma quase perfeita na benfazeja reciprocidade, é o de manter em funcionamento uma caixa de comentários, apesar dos riscos que lhes estão subjacentes, designadamente o do spam publicitário e o da possibilidade de surgirem os inevitáveis impropérios ou de observações grosseiras (ou mesmo extravasando o limite da decência), falaciosas e de eminente ataque pessoal, completamente fora do espírito preconizado pela própria blogosfera.
Todavia, ciente dessas potenciais ameaças, nunca me passou pela cabeça eliminar a hipótese de dar a liberdade a quem me lê de poder comentar os meus textos, reservando-me sempre ao direito de, como autor de um espaço de liberdade, eliminar aqueles que se revelaram manifestamente ofensivos à luz de um inescapável critério de avaliação pessoal – que outro poderia ser?
Há uns tempos JPP suscitou algum alarido quando, em tom ensaístico, decidiu discorrer sobre “a fauna que enxameia as caixas de comentários” – apesar de aquele não possuir qualquer tipo de caixa de comentários no seu Abrupto, desde que me conheço como blogger. Certeiro em certos tópicos que referiu e desenvolveu a propósito do assunto, acabou por tomar o todo pela parte e resolveu nomear alguns dos excelsos comentadores da blogosfera que, recorrentemente, utilizam as ditas caixas sob pseudónimo, alguns deles até dispunham dos seus próprios blogues.
Ultrapassando todas as questões que tal polémica suscitou, volto a este assunto pelo incentivo de pura criatividade que o meu texto imediatamente anterior deu a este comentador anónimo, ao transformar o mundo dos jovens autores portugueses num grandioso combate de boxe, com vários assaltos, disputado pelas livrarias mais conhecidas deste país. Só não entendo o anonimato…

And now for something completely different…
Mantendo-me no mundo da Literatura, aproveito para descarregar a bílis sobre a tradução, a todos os títulos hiper-realista, de Nuno Batalha do romance Sangue Sábio de Flannery O’Connor (Cavalo de Ferro, 1.ª ed., 2007) do american-english para a língua portuguesa. O afã do tradutor em não trair o pensamento e o fio condutor da narrativa da autora norte-americana é tanto e tão obsessivo que, na minha opinião, acaba por ter, precisamente, o efeito contrário: irritar o leitor e com isso desvirtuar a obra.

Apenas dois exemplos: um injustificadíssimo brasileirismo «marcha-à-ré» (pág. 56) para designar marcha-atrás; e uma, entre centenas, de expressões incomodativamente coloquiais sempre que existe um diálogo «Ah, nã foi nada […] E que tal s’a gente fôssemos ó Walgreen beber um sumo? ‘Inda nã há discotecas abertas a esta hora.» (pág. 36).

E depois… depois, a leitura demora – nem sequer cheguei a meio do livro – e a obra é que paga! Pobre Flannery!...

terça-feira, 19 de junho de 2007

Rotina

5.º Passo: Admitir a natureza exacta dos nossos erros
(seguindo os passos até ao São João)



«Porque nunca nos basta a felicidade que temos?» (pág. 18)
Paulo Kellerman, nascido em Leiria em 1974, será certamente um dos jovens criadores literários mais seguros e consistentes da literatura portuguesa contemporânea, com todas as faculdades para, num futuro muito próximo, se bater de igual para igual com nomes já confirmados como Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, Frederico Lourenço ou José Luís Peixoto. E será, uma vez que a obra publicada e a versatilidade literária – que se conquista também com a quantidade – ainda não lhe permitem alcançar esse estatuto de certeza no panorama literário português.
Em 2005 com a sua colectânea de contos Gastar Palavras, Kellerman arrecadou o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da APE.
Em 2007 publica uma nova colectânea que reúne vinte histórias, intitulada Os Mundos Separados que Partilhamos.
Com esta última obra, Kellerman segue os passos da sua premiada obra anterior, através de uma escrita descomplexada, sem atavios – porém de forte imanência poética –, crua e simultaneamente violenta, embora subliminar e profundamente introspectiva.
A angústia da solidão acompanhada, que emana da rotina e que de forma tão forte caracteriza a inexorabilidade dos nossos dias, é transversal a todos os trechos quer sejam relatados por homens ou mulheres, por jovens ou velhos, por solteiros ou casados.
A melancolia, o tom amarguradamente sombrio e, à boa maneira de Carver, o pendor minimalista da narrativa, cedo se materializaram na imagem de marca de Paulo Kellerman – e não se julgue que isso se deve a um qualquer defeito da sua destreza literária.
Os contos de Kellerman não são, de uma forma deliberada, narrativas de personagens, do seu desenvolvimento ao seu mais íntimo pormenor. Quedam-se pela estrutura – a sua base conceptual – sem que se desperdice talento. Ao invés, o fino esboço dos contornos e o não esquadrinhamento das potencialidades idiossincráticas dos diversos caracteres que cruzam a sua prosa constituem-se como a sua grande mais-valia, investida em prol de um objectivo bem definido e delineado. A sua escrita, segura e indobrável, procura estereotipar nas diversas individualidades a dor do mundo, a perene insatisfação que se apoderou das sociedades ocidentais que inculca no espírito dos seus membros a ilusão de um afastamento constante do caminho da felicidade. É o fantasma da frustração das expectativas, do ressentimento, da inveja e da cobiça, do desamparo e da fragilidade espiritual, que persegue e espanta todo e qualquer objecto indutor de contentamento, de realização pessoal e de aperfeiçoamento da alma. Como se uma bandeira, estacada em terra firme, num longo mastro portentoso e esguio, pudesse ostentar toda a felicidade do mundo, exalando-a por movimentos lúbricos e acintosos desde a margem contrária, longínqua e inacessível, apenas ao alcance dos outros, aparentemente tão satisfeitos com a trivialidade das suas vidas.
Em “Areia” – inspirado na contemplação do óleo sobre tela de 1891, Melancolia, de Edvard Munch – a mesma história é-nos contada sob duas perspectivas – o “Lado A” e o “Lado B”, tal como no conto “Investir em ti” –, dois homens que, sem se conhecerem, repartem o mesmo amor pela mesma mulher, e cujo amor carnal e efectivo de um, e o amor destroçado e ressentido de outro, acabam por reflectir, em lados aparentemente opostos, a mesma dúvida existencial: «Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero» (pp. 99 e 103). Em “As sirenes” as duas perspectivas manifestam-se no “[Cá]” e no “[Lá]”, no jogo de espelhos entre a tortura quotidiana e o idílio do distante, e no desencorajante reflexo da brutalidade de e na percepção da dor pelo sonho acalentado e posteriormente desfeito...
Porém, na minha mui particular apreciação literária, foi em contos como “Ai” – inspirado no óleo sobre tela de Marc Chagall, As Três Velas, 1938-1940 –, e especialmente, “Numa rua anónima de uma cidade qualquer”, que me revi enquanto leitor, talvez pela verosimilhança da tortura originada por uma palavra não dita, por um manancial de constrangimentos que nos foram injectando ao longo da vida, no momento em que sentimos a profunda necessidade de a soltar para lograr alcançar alguma paz de espírito, dando livre curso às nossas emoções, mas há apenas frustração: o triunfo do racional sobre o emocional; a ridicularização social na exteriorização dos sentimentos.

Os Mundos Separados que Partilhamos é um livro para se ler devagar, porquanto uma leitura apressada poderá transmitir-nos a falsa sensação de uma sucessão de circunlóquios, de uma amálgama de vinte narrativas que espremidas se subsumem a um mesmo objecto com personagens diferentes.

Apesar de Paulo Kellerman, segundo a sua curta biografia disponível na badana, se indignar contra aqueles que consideram a narrativa curta como arte menor relativamente ao romance e à poesia no mundo da literatura, sinto uma certa curiosidade por uma obra de fundo sua, escrita com este desassossego, sobretudo para um amante declarado, como é o meu caso, da prosa ficcional do mestre Samuel Beckett

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Paulo Kellerman, Os Mundos Separados que Partilhamos. Porto: Deriva, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 109 pp.

sábado, 16 de junho de 2007

Está tudo lá dentro?

4.º Passo: Um minucioso inventário
(seguindo os passos até ao São João)



Óptimo!
Shortbus, o pequeno autocarro, por comparação aos grandes, bojudos, gordalhões e normalizados autocarros amarelos de transporte escolar americanos – por onde passou qualquer cidadão “normal” enquanto criança –, shortbus – qualquer coisa como um bar de liberdade incondicional, hedonista –, o lugar, o salão para os prodigiosos e os incapacitados; em suma, para os inadaptados desta vida, cuja instabilidade emocional deriva de uma sociedade massificada e da incontornável padronização comportamental.

Dito assim, teríamos certamente matéria mais do que suficiente para um argumento de um filme de baixo orçamento sobre a disfuncionalidade, a inadaptação e a opressão dos que, por escolha e/ou faculdade desenvolvida, habitam as franjas de uma sociedade instrumentalizada e alienada. Porém, John Cameron Mitchell, simultaneamente o realizador e o argumentista do filme, foi mais além (ambição) e decorou o filme com cenas de sexo explícito, cuja intensidade vai diminuindo com o correr da película, mas que serão suficientes para provocar alguns engasgamentos aos espectadores menos avisados.
Em Shortbus há de tudo. Autofelação – de um admirável, e de certa forma invejável, talento acrobático –, fetichismo, voyeurismo, sodomia, masturbação em ambos os géneros, exibicionismo, cunnilingus, toda uma variedade de objectos de indução de prazer de índole sexual – ao que obriga um desejado eufemismo! – e respectiva demonstração para a sua correcta utilização, beijos negros, o hino americano cantado para o recto – sim, isso mesmo, parte anterior ao ânus –, uma conselheira sexual que nunca atingiu um orgasmo, um triângulo equilátero brochista que se transmuta – seguindo uma geometria perfeita – a meio da parada, um ovo vibratório intravaginal com telecomando para o tipo de sensações pretendido, um antigo e geriátrico presidente da câmara de Nova Iorque – que diz que a Grande Maçã é fascinante porque é o lugar onde toda a gente vem para foder e o último lugar onde as pessoas se dobram para deixarem entrar o novo… e o velho –, uma dominatrix profundamente carente e a desejar uma vida normal; enfim, tudo o que se possa imaginar, apenas com um simples pormenor: tudo isso foi filmado sem rodeios e incluído no filme para ser exibido e tentar contar uma história de uma forma irreverente – o uso do baque emocional gratuito através do sexo, vulgo pornografia – que se revelou de uma banalidade nauseante – estas últimas palavras, quando conjugadas em simultâneo, fazem-me lembrar o John Doe (Kevin Spacey) quando relata a Mills (Brad Pitt) e Somerset (Morgan Freeman) o vómito induzido pela banalidade da conversa mantida com uma senhora comum no autocarro…

Não é que, de alguma forma, as cenas de sexo explícito me repugnem, bem pelo contrário, estimulam aquilo que, segundo muitos, temos de mais primitivo, o desejo sexual; no entanto, como referi no parágrafo anterior, em Shortbus sente-se a dispensabilidade da exibição crua e sem artificialismos da maioria das cenas que envolvem sexo, como demonstra a deliciosa e perturbadora conversa entre o mestre (o ex-presidente da câmara) e o efebo (o último vértice do triângulo), onde se experimenta uma forte tensão, e que apenas terminou com a ternura de uma mão no cocuruto e um simples beijo nos lábios.
Por vezes o mais simples torna-se o mais difícil de transmitir, e a arte e o prazer estético que dela retiramos resultam dessa destreza comunicacional entre o artista e o seu receptor.
Coisa que, de todo, não ocorre com esta fita.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Zelo de um diletante

3.º Passo: A vontade e a vida aos cuidados da Providência
(seguindo os passos até ao São João)



Bullshit! [merda de touro; trad. AMC]

Até seria um bom tema que decerto traria para este espaço uma boa discussão metafísica: a vontade individual como determinante principal na prossecução da tarefa, demasiada e ditosamente humana, de cartografia do nosso destino; e depois, tendo de condescender e afirmar que, seguindo Schopenhauer, a própria vontade é por vezes determinada por aquilo que somos. E isso não significa, porém, uma adesão total ao pessimismo filosófico. A perpetuação do sofrimento, como resultado das nossas mais duras e pungentes experiências e da observação dos males que assolam o mundo, deverá ter um fim ou, pelo menos, um agente paliativo, para que a existência, apesar da sua aspereza, não se reproduza numa sucessão imparável de actos eminentemente masoquistas.
Foi este o princípio que me trouxe à blogosfera.
Schopenhauer via a arte como redenção, uma suspensão de juízo que nos afasta da angústia do desejo. Freud entendia-a como um desvio dos nossos impulsos sexuais anteriormente reverberados e recalcados pelo superego.
A arte consubstanciada nos livros. Um retrato da angústia existencial que alguém, pelo raro talento de disfarce da eterna insatisfação, nos quis transmitir. E deste lado, do lado de um simples receptor que encobre a desilusão por possível erro, ou mero ruído, no problemático desenvolvimento ontogenético, na afirmação do seu eu, remanesce, por vezes, um desejo de desassombrar a alma dessa terrível e dolorosa constrição através da escrita.
Encadeamento: ler para depois escrever para ser lido. Eis a blogosfera e com ela esse desanuviamento – uma descarga, em certos momentos, puramente emocional.

Mas como dizia um poema de um cantautor inglês que há pouco tempo consegui tra(duz)ir, mesmo aquilo que é bom, um dia, mais ou menos longínquo, tem de terminar. Por cansaço ou por falta de tempo, por… tudo, quando sentimos o nó a apertar. E, na maioria das vezes, a exigência que apomos a algo, que, embora sendo tarefa amadora, nos enche plenamente as medidas, transforma-se, de súbito, no seu próprio carrasco.

Bem, para concluir, acabei por não escrever tudo aquilo que aqui queria ter dito.
O mote era a blogosfera e com ela a desmultiplicação de personalidades que, anteriormente, desconhecíamos ou julgáramos entregues ao letargo da inconsciência, após uma breve epifania. E, seguindo o tema, introduziria uma das inúmeras citações possíveis do magistral O Duplo do gigante Fiodor Dostoievski que, entrementes, incluiria algo do género:

«Como posso, por fim, descrever-vos esses cavalheiros brilhantes e graduados, divertidos e sisudos, jovens e idosos, alegres e decentemente nebulosos, que, nos intervalos entre as danças, numa sala afastada, fumavam os seus cachimbos, e os que não fumavam cachimbo…» (Dostoievski, O Duplo, Editorial Presença, 1.ª edição, Julho de 2003, pág. 34; tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).

Era para falar desses seres inefáveis que inundam o nosso quotidiano. Mas, de repente, entre a página 104 e 121 avistei um maço de folhas A4 dobradas a meio que – lembrei-me! – quando o lera, num manifesto gesto de leitor zeloso e de miserável consumidor para reclamar os seus direitos, imprimira da versão inglesa disponível em texto completo na internet. Ironia: transformei O Duplo num romance bilingue. As páginas soltas e por mim elaboradas abarcam o final do capítulo 10 e o início do 11, porque a Editora fez-me o favor de vender um livro que, ao invés de ter as 150 páginas que constam do romance traduzido, surgiu nos escaparates com 134 (da 1 à 104 e da 121 à 150).
E os editores e revisores estariam a dormir quando o livro chegou da tipografia?
Numa altura em que se discute os críticos que recenseiam livros sem os haverem lido, e quando se fala da manifesta falta de qualidade de algumas editoras, no que diz respeito aos conteúdos, ao grafismo, à qualidade do papel, à deficiente tradução, etc., este episódio serviu para demonstrar – sem qualquer espécie de presunção ou sombra de auto-elogio – que, em Portugal, o zelo está apenas do lado do leitor…

Eximir de responsabilidades pelos responsáveis e inverter os papéis – como ultimamente o ónus da prova na caça ao pobre e pequeno contribuinte –, eis uma das mais incrustadas características da minha (nossa) ditosa pátria!

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Impac(to) Norueguês

2.º Passo: Um Poder Superior que restitua a sanidade
(seguindo os passos até ao São João)


Per PettersonPer Petterson. Este nome diz-vos alguma coisa?
É norueguês, nasceu em Oslo em Julho 1952. Escreve romances e acabou de ganhar 75 mil euros (e de perder 25 mil para a tradutora do seu livro de norueguês para inglês, Anne Born).

Per Petterson, com o seu romance Out Stealing Horses, acabou de vencer a edição de 2007 do mais generoso prémio literário do mundo a galardoar uma obra de ficção: o International IMPAC Dublin Literary Award.

Petterson derrotou obras dos também finalistas: J.M. Coetzee, Cormac McCarthy, Salman Rushdie, Julian Barnes, entre outros.
Curiosamente, a obra do escritor norueguês, originalmente publicada na sua língua nativa em 2003 (sob o perceptível título: Ut og stjæle hester), integrou, apenas, a lista inicial de 138 romances porque foi nomeado por 2 das 3 bibliotecas norueguesas participantes na selecção inicial (a de Oslo e a de Stavanger) num total de 169 bibliotecas participantes pertencentes a 49 países – Portugal participou com as bibliotecas públicas do Porto e de Lisboa, com
escolhas exemplares, diga-se.
De referir que do júri deste ano, composto por 6 elementos, fazia parte o escritor português Almeida Faria (n. 1943).

Aqui fica um excerto – os dois primeiros parágrafos – do romance vencedor:

«Early November. It’s nine o'clock. The titmice are banging against the window. Sometimes they fly dizzily off after the impact, other times they fail and lie struggling in the new snow until they can take off again. 1 don't know what they want that I have. I look out the window at the forest. There is a reddish light over the trees by the lake. It is starting to blow. I can see the shape of the wind on the water.
«I live here now, in a small house in the far east of Norway. A river flows into the lake. It is not much of a river, and it gets shallow in the summer, but in the spring and autumn it runs briskly, and there
are trout in it. I have caught some myself. The mouth of the river is only a hundred metres from here. I can just see it from my kitchen window once the birch leaves have fallen. As now in November. There is a cottage down by the river that I can see when its lights are on if I go out onto my doorstep. A man lives there. He is older than I am, I think. Or he seems to be. But perhaps that's because I do not realise what I look like myself, or life has been tougher for him than it has been for me. I cannot rule that out. He has a dog, a border collie.»
Per Petterson, Out Stealing Horses (Harvill Secker, 2005)


Notas:
  1. Não há qualquer obra de Per Petterson editada em português de Portugal;
  2. Colm Tóibín foi o vencedor da edição de 2006 – tornando-se o primeiro irlandês a vencer este prémio – com a sua obra-prima The Master – editado em Portugal pela Dom Quixote como O Mestre, que no meu entender é, para já, a melhor obra editada no nosso país em 2007.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Hermenêutica do Racismo [corrigido]

1.º Passo: Impotência e Ingovernabilidade (assunção)
(seguindo os passos até ao São João)


Enquanto Lisboa dorme, o mundo trabalha, e uma vez mais o júri do Man Booker International Prize trabalhou (mal, na minha opinião de metediço em assuntos literários… atem-te às Finanças Empresariais, porra! – diz-me a voz interior) e resolveu ignorar os americanos – esses imperialistas… – Philip Roth e Don DeLillo, nascidos na década de 1930, tal como o vencedor, o romancista, contista, poeta, ensaísta e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) – apenas com dois livros publicados em Portugal – celebrizado pelo seu primeiro romance Things Fall Apart (1958) e pela crítica feroz ao racismo demonstrado por Joseph Conrad na sua obra-prima O Coração das Trevas, numa prelecção dada na Universidade de Massachusetts em Fevereiro de 1975, sob o título An Image of Africa: Racism in Conrad's Heart of Darkness – mais tarde publicada na Massachusetts Review vol. 18 (1977).
Achebe é ademais conhecido pela defesa intransigente dos valores culturais africanos perante a constatação das suas flexibilidade e demissão ante o mundo ocidental, como resquícios de um colonialismo político-administrativo que imperou durante séculos, e que mais tarde se transmutou em dependência económica, tecnológica e cultural.

Títulos de Chinua Achebe publicados em Portugal:

  • A Flecha de Deus, Edições 70, 1979 (obra original: Arrow of God, 1964);
  • Um Homem Popular, Editorial Caminho, 1987 (obra original: A Man of the People, 1966).

Nota: consultar a press release página oficial do Man Booker International Prize para mais informações (inclui os comentários de Colm Tóibín e de Nadine Gordimer, dois dos três elementos do júri deste ano).

Correcção: voz avisada alertou-me para um erro (gerúndio) no título do 1.º romance de Achebe, prontamente corrigido.

domingo, 10 de junho de 2007

Hermenêutica do ilustre epigramatista

(recurso imagético)





ta ta

Reavaliação

O tempo por vezes clarifica a razão, até por algum distanciamento emocional em razão dos pedaços que infeliz e inevitavelmente se vão perdendo pelo caminho.
Assim, reavaliei para a posteridade duas das 19 obras que figuram na minha tabela de apreciação literária relativamente a romances publicados em Portugal durante o ano de 2007.
Eis as 10 melhores obras de ficção de 2007 (por ordem alfabética – 1.º nome do autor):
  • Colm Tóibín - O Mestre (Dom Quixote)
  • Cormac McCarthy - A Estrada (Relógio D'Água)
  • Gustave Flaubert - Salammbô (Relógio D'Água, reedição)
  • Hisham Matar - Em Terra de Homens (Civilização)
  • Ian McEwan - Na Praia de Chesil (Gradiva)
  • Iris Murdoch - Um Homem Acidental (Relógio D'Água)
  • John Updike - Corre, Coelho (Civilização, reedição)
  • Philip Roth - Todo-o-Mundo (Dom Quixote)
  • Saul Bellow - Aproveita o Dia (Texto Editores)
  • W.G. Sebald, Vertigens. Impressões (Teorema)

Nota: o melhor entre os dez mencionados a bold.

Extinção

Fundo preto. Um quadrado negro – transformado em rectângulo na versão portuguesa – finamente debruado a vermelho – thin red line, ou a pequena distância que nos separa do abismo – destacando-se no centro, em letras brancas, inscrita como uma sentença, a palavra EverymanTodo-o-Mundo na recente edição portuguesa da Dom Quixote. Uma lápide onde está inscrita a verdade absoluta sobre a natureza do Homem: a sua inescapável transitoriedade, a morte.
Em Dezembro de 2005, o jornalista dinamarquês Martin Krasnik conseguiu a rara proeza de entrevistar o autor norte-americano Philip Roth, publicada posteriormente no jornal inglês The Guardian. No título figurava a seguinte asserção proferida por Roth no decurso da inusitada entrevista: “Já não sinto como uma grande injustiça o ter de morrer.” [tradução: AMC]
Pois, acredito que não. Principalmente, havendo sido proferida por um homem que, através do sortilégio da sua escrita, viveu uma vida cheia de êxitos e como dizia a canção de Anka imortalizada pelo deus dos deuses, Francis Albert Sinatra, já sente que “fez o seu caminho” no mundo dos mortais.
Philip Roth, nascido no dia 19 de Março de 1933 na cidade de Newark, Estado de Nova Jérsia, publicou com apenas 26 anos (1959) a sua primeira obra. Tratava-se da obra Goodbye, Columbus, que inclui a novela epónima e mais cinco contos, com a qual arrecadou no ano seguinte o prestigiado National Book Award.
A partir desse momento seguiu a sua imparável carreira com 26 romances publicados e um conjunto de prémios que faz inveja a qualquer dos seus contemporâneos.
Entre outros, destacam-se o seguintes:


Vencedor por três vezes do PEN/Faulkner Award for Fiction:

  • Operation Shylock em 1993;

  • A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2001;

  • Todo-o-Mundo (Dom Quixote) em 2007.

Vencedor por duas vezes do National Book Award for Fiction:

  • Goodbye, Columbus em 1960;

  • Teatro de Sabbath (Dom Quixote) em 1995.

Vencedor por duas vezes do National Book Critics Circle Award:

  • Counterlife em 1987;

  • Patrimony em 1992;

Vencedor do Pulitzer Prize for Fiction: Pastoral Americana em 1997.
Vencedor do Ambassador Book Award for Fiction: Casei com um Comunista (Dom Quixote) em 1999.
Vencedor do WH Smith Literary Award: A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2001.
Vencedor do prémio Medicis para melhor romance estrangeiro (França): A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2002.
Vencedor do Sidewise Awards for Alternate History: A Conspiração contra a América (Dom Quixote) em 2004.
Vencedor dos prémios de carreira e obra literárias:

  • National Arts Club Medal of Honor em 1991;

  • National Medal of Arts em 1998;

  • American Academy of Arts and Letters’ Gold Medal for Fiction em 2001 (prémio atribuído de 6 em 6 anos);

  • Franz Kafka Prize em 2001 (República Checa);

  • National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters em 2002;

  • PEN/Nabokov em 2006 (bienal);

  • PEN/Saul Bellow em 2007 (bienal – prémio atribuído pela primeira vez).

De notar que, com a excepção do romance O Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) – até à data, a sua antepenúltima obra –, Roth venceu sempre um prémio por qualquer obra publicada a partir de 1990: começando com Patrimony (1991) e terminando com Todo-o-Mundo (Everyman, 2006).

O título do último romance de Roth não é, de forma deliberada, original. Everyman é o nome de uma obra dramática medieval, publicada pela primeira vez no final do século XV, da qual não se conhece o autor e cuja temática serviu de inspiração à presente obra.
Como refere Roth na referida entrevista ao jornal The Guardian, dando ao caso um relevo especial, a obra a que se reporta o seu romance foi publicada no longo interstício que decorreu entre a morte do autor dos Contos de Cantuária, Geoffrey Chaucer (circa 1343-1400), e o nascimento de William Shakespeare (1564-1616), quando a literatura e a dramaturgia funcionavam como um dos braços da propaganda da Igreja de Roma – recorde-se que Martinho Lutero nascia precisamente no final do século XV – mediante a interpretação dramática alegórica das normas de conduta, dos princípios e valores cristãos. Everyman não fugiu à norma, e tratou-se, à época, na sua essência, de mais uma obra moral.

«Já não sinto como uma grande injustiça o ter de morrer.»
A coerência é uma das marcas que notabiliza a já longa lista de obras escritas e publicadas por Philip Roth, principalmente plasmada no seu mais vivo personagem, o escritor Nathan Zuckerman – a quem Roth atribuiu, segundo refere nas suas memórias, alguma componente autobiográfica, mas que na realidade por vezes se transforma no seu alter-ego mais arrojado –, que protagonizou oito obras e que, segundo o próprio Roth, se prepara para a nona aparição, ao que parece a última, no próximo romance do autor, sob o título premonitório de Exit Ghost – depois do papel de narrador, secundarizado pela trama, na trilogia americana: Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A Mancha Humana (nesta última interpretado por Gary Sinise, entre Anthony Hopkins e Nicole Kidman, na adaptação cinematográfica de 2003 de Nicholas Meyer e com a realização de Robert Benton) – e cuja sequência começou com a sua obra de 1979 The Ghost Writer.
Depois temos David Kepesh, outro dos personagens que cruza a obra do escritor norte-americano. O lúbrico e aparentemente frívolo académico, fortemente autocentrado e concentrado no seu recalcitrante hedonismo, que faz a sua primeira aparição com o romance de 1972 sob o sugestivo título The Breast, onde Kepesh, seguindo os passos de Gregor Samsa de A Metamorfose de Kafka, se vê transformado num… seio. Este
é, certamente, o menos autobiográfico dos seus personagens. Após a terrível metamorfose, Kepesh reaparece no romance de 1977 desta feita com o título instrutivo The Professor of Desire; a última aparição do professor dá-se com o romance de 2001 O Animal Moribundo, onde surge este notável excerto: «Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos.» (cf. Philip Roth, O Animal Moribundo). Nesta última obra a mortalidade surge de uma forma irónica, com as vicissitudes da própria velhice, não há conclusões morais a retirar de uma vida potencialmente apelidada de devassa; o factor mais desencorajante reside na incapacidade física para a materialização dos jogos de sedução, que mesmo nos mais novos poderá surgir pela doença – transportada por Consuela – ou por um casamento mal sucedido amarrado a uma moralidade caduca e castradora da liberdade – onde figura o seu filho Kenny.

Tal como em A Conspiração contra a América (2004), com Everyman (2006) Roth atribui o protagonismo a um personagem eminentemente autobiográfico, o pequeno Philip – que era simultaneamente o narrador – na primeira obra e um personagem anónimo nascido no mesmo ano que Roth (1933) na cidade vizinha de Newark, chamada Elizabeth, na segunda.

Por outro lado, os temas assinaladamente identitários e profundamente inter-relacionados com o sexo e a morte, são uma imagem de marca do autor norte-americano. Se por intermédio do perturbado Portnoy – que por seu turno foi decalcado no seu romance Zuckerman Unbound (1985) quando o seu personagem-escritor Nathan Zuckerman é acossado pelo público após haver decidido escrever o seu romance Carnovsky (o equivalente ficcional a O Complexo de Portnoy de 1969) –, a narrativa é marcada pela forte tensão sexual que assalta o protagonista pela vida dissoluta, mediante o relato ao seu psiquiatra com descrições explícitas das práticas carnais que o perturbam e cuja recordação não alimenta a sua lubricidade; em Counterlife (1986) o complexo desaparece pelo desejo de continuar essa dissolução e de reviver uma vida que parecia destroçada pela doença, no romance mais meta-ficcional de Roth.
Todo-o-Mundo começa com a morte num cemitério destroçado, onde os personagens principais vão-nos sendo apresentados à medida que, agarrando um punhado de terra para arremessar ao caixão, discursam sobre as qualidades do defunto que não sobreviveu à sua última intervenção cirúrgica.
Recorrendo à Parábola dos Talentos (S. Mateus, 25: 14-30), Roth descreve-nos, de uma forma brutal e desoladora, a iminência da morte sentida por um publicitário reformado que, após três casamentos desastrosos e outros tantos filhos – dois rapazes do primeiro casamento que se afastaram do pai pelo seu abandono do lar, e uma filha, Nancy, fruto do seu segundo casamento e com a qual o pai se identifica – e uma infindável sucessão de cirurgias cardiovasculares assim que entra no ocaso da vida, rememora a sua existência como uma pungente inutilidade que redundou no seu isolamento e na perda daqueles que mais amava, o tal desperdício de talentos de que nos fala a parábola, uma vida mal vivida por quem a recebeu e não soube investir para a dignificar e valorizar, «porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.» (Mateus, 25: 29-30).
Chegou o momento da expiação e do despertar para o sofrimento que provoca a decadência física, «onde o simples pensar já é sofrer…» (verso de um poema de Keats, que serve de epígrafe ao romance), e como Roth definiu em uma das mais brilhantes passagens do livro, a dos dilacerantes telefonemas que efectuou aos seus ex-companheiros de trabalho ou respectivas famílias, «o assalto inevitável que é o fim da vida»:

«Tivesse ele sabido do sofrimento mortal de todos os homens e mulheres que por acaso tinha conhecido durante todos os seus anos de vida profissional, da história penosa de desgosto, sofrimento e estoicismo, de medo, pânico, isolamento e pavor de cada uma dessas pessoas, tivesse ele sabido de todas as coisas, até à mais insignificante, que elas tinham deixado para trás depois de em tempos terem sido estruturalmente suas, e da forma sistemática como estavam a ser destruídas e teria sido obrigado a ficar ao telefone o resto do dia e pela noite fora, fazendo pelo menos mais cem chamadas. A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.» (pp. 154-155)

Com Everyman, Roth demonstra uma vez mais o largo espectro em que se move toda a sua destreza literária, desde o grande romance à mais curta narrativa, e por que razão é considerado actualmente como um dos melhores escritores de todo-o-mundo, ao qual tem faltado o mais que merecido Prémio Nobel da Literatura.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Philip Roth, Todo-o-Mundo. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Maio de 2007, 179 pp. (tradução de Francisco Agarez; obra original: Everyman, 2006).

Criticismo

No limite, como produto final de um juízo preconcebido, a crítica literária é uma total aberração. É, normalmente, dirigista, presunçosa e – passe o pleonasmo – ardilosamente falaciosa, na medida em que os fins que pretende alcançar já se encontram delineados antes sequer da abertura da obra. Analisa-se uma obra, um autor ou uma suposta corrente literária – e neste último caso já existe preconcepção – segundo padrões estéticos eminentemente subjectivos. É inegável e confesso que seria certamente redundante obrigar a afirmar-se essa subjectividade valorativa como uma cláusula de advertência ao público menos avisado. Felizmente, a arte é como um bicho indomável que, por vias e graus diferentes, se entranha na pele que cobre a alma mais ou menos sensível e é, na sua essência, desregulamentadora; quebra tabus; derroga moralismos de fachada, esconsos, vazios, aparentemente solidificados pela inércia interventiva dos que se autoproclamaram como oprimidos de uma classe privilegiada.
Como é óbvio e convém esclarecer face a possíveis interpretações erróneas perante o supramencionado – quer seja por dolo ou por simples negligência –, não pretendo, de modo algum, pôr em causa a liberdade plena do exercício da crítica, ao invés considero-a como um direito fundamental e inalienável. Aliás, estou convicto de que a Literatura não sobreviveria sem crítica literária, tal como, evidentemente, a primeira jamais existiria sem a segunda.
Uma crítica é uma simples opinião e não um dogma ditado por um reconhecido sumo-sacerdote com poderes divinatórios, previamente inoculado da hermenêutica suprema. E se escrevo isto nesta mísera página alojada na plataforma facultada pelo Blogger, é porque me insurjo com os críticos sentenciadores que, para além de assumirem o todo pela parte, se arrogam do direito de julgar, sem hipótese de apelo, o público consumidor. Apesar da raiz etimológica grega da palavra, apelo à semiologia e à dinâmica que ela encerra para afirmar que um crítico, no meu entender, deve ser um guia e não um juiz da causa literária, um pedagogo e não um escriba escarninho, empertigado e fatalista, que não indica caminhos e que pretende apagar o caminho da redenção de cujo mapa se julga possuidor. Mas é talvez na sua subjectividade, onde o contraditório se reveste normalmente do mesmo poder valorativo, num confronto de ideias sem hipótese de resolução da contenda – tentar transformar o eminente subjectivismo numa objectividade absoluta é impossível, para não ir mais longe e discorrer sobre o absurdo de tal empreendimento –, que reside o inebriamento pela crítica, na ilusão da propriedade de um bem público que jamais se poderá privatizar por muito hayekianosarrojistas na lusa pátria – que possamos ser.

Ao longos destes últimos 6 meses e 8 dias, tal como fiz no Porque entre Dezembro de 2005 e Setembro de 2006, publiquei textos que jamais tiveram a pretensão de revestir o carácter canónico – se é que existe! – de uma recensão. Limitei-me a despejar, de forma mais ou menos poética, mais ou menos feliz – cabe aos outros julgar, neste espaço de liberdade opinativa – os meus encantamentos e as minhas frustrações, as sensações experimentadas pela leitura de determinada obra literária que, ao contrário da tal crítica canónica, nunca obedeceu a um critério imposto por um dono do espaço em busca de rentabilidade, ou seja, prevaleceram apenas os meus critérios – his master's voice, is my own voice –, por exemplo na selecção das obras sobre as quais postaria a minha opinião enquanto leitor, originando, porventura, um resultado viciado à partida: apenas seleccionei obras de autores cujo meu conhecimento anterior dificilmente iria produzir, da minha parte, uma crítica negativa ou aquelas previamente seleccionadas por críticos profissionais ou não, de quem senti existir, com o tempo, alguma afinidade estética – nada mais. E como só me leu quem quis e se escrevo é para ser lido, com o fim de poder partilhar a minha visão do mundo, só me resta agradecer a esses (poucos) leitores com os quais se verificou uma reciprocidade leitora, o sal deste mundo imparável a que se convencionou chamar de blogosfera.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Devastação

«Os dias passavam, vagarosos, sem que ninguém os contasse, os assinalasse num calendário. Lá longe, ao longo da interestadual, enormes filas de carros calcinados e cobertos de ferrugem. O metal despido das jantes mergulhado numa pasta dura e cinzenta de borracha derretida, em anéis enegrecidos de arame. Os cadáveres incinerados, mirrados até ao tamanho de crianças e apoiados nas molas nuas dos assentos. Milhares de sonhos sepultados naqueles corações reduzidos a lascas de pedra. Eles continuaram a caminhar. Palmilhavam o mundo sem vida como ratinhos numa roda. De noite, silêncio de morte e trevas sepulcrais. Tanto frio.» (pág. 179)
Trevas. Suponhamos a Terra definitiva e perenemente coberta de nuvens negras, fuliginosas, que raramente deixam entrever os raios do astro-rei que outrora fora a fonte criadora de vida. A superfície da América é apenas um deserto cruzado por uma intricada rede de estradas de asfalto negro derretido, por onde deambulam seres humanos em busca de alimento, revirando os despojos de uma devastação de chamas, de árvores queimadas, cidades inteiras destruídas, onde já nem se escuta o trinado dos pássaros que cruzavam os céus. O Homem sozinho com ele mesmo, curiosamente o único ser que remanesceu à barbárie por ele ocasionada; o Homem e a sua desmesurada inteligência, desviada apenas para o objectivo último de sobreviver numa paisagem hostil que ele próprio criou no seu afã de conquista, de poder, de dominar a indomável Natureza.

Pai e filho caminham sós por essa imensa estrada, unindo-os uma relação de amor incondicional, resquícios dos afectos de um tempo que já passou. Pequenos nadas que se consolidaram numa liga indestrutível perante a miséria.
Pai e filho caminham para Leste, em direcção ao mar. Talvez a única força viva da Natureza que, pela distância – na memória do pai – ou pelo desconhecimento que não seja através de uma memória secundária – no caso do filho –, simboliza todo o fulgor e o fascínio que necessariamente o simples acto de viver, toda uma existência, requer para lhe atribuir um significado, um propósito, um objectivo cuja génese incognoscível – Deus? – poderá encerrar algo de absolutamente aterrador, mas que decerto conduz à libertação... à luz.
Pela estrada deambulam pessoas em busca de alimento, quando não pertencem e nem se encontram organizados em comunas fortemente hostis ao contacto com o exterior despedaçado. No pai subsiste a memória de um espaço de luz e toda a aprendizagem de um processo que conduziu o planeta ao apocalipse. Ao filho resta-lhe a obediência cega à voz da experiência do seu velho companheiro de caminhada, e um coração puro, não contaminado, desconhecedor das atrocidades praticadas e, principalmente, da razão de ser para aquele cenário de autodestruição: «Está bem», simboliza a tal obediência que é simultaneamente o epítome de um sentimento arrebatador que extravasa toda a degradação; e, enfim, a caridade que, como dizia o Profeta, recolherá os seus frutos num tempo que há-de vir.

Cormac McCarthy conquistou com este livro o prémio Pulitzer 2007 para a melhor obra de ficção literária. Nas cerca de 190 páginas do romance, que se lêem de um só fôlego, o escritor norte-americano faz jus às atribuídas solidez e integridade narrativas, especialmente difícil numa obra de carácter distópico.
Com alguma crueza em determinados relatos – vide a descrição, tão discutida pela crítica, do bebé canibalizado – e, por outro lado, sem haver deixado algum do barroquismo que caracteriza a sua bibliografia ficcional activa, esta é, no meu entender a sua melhor obra e, seguramente um dos romances do ano editorial português, uma vez mais com a chancela de uma das minhas editoras preferidas, a
Relógio D’Água.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Cormac McCarthy, A Estrada. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Março de 2007, 187 pp. (tradução de Paulo Faria; obra original: The Road, 2006).