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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No dia em que...

Ajax Alçada, apeltroada em estivália sofocleira, tentou vitimolar-se em directo, entre lacrimúrias e tremulonias, perante analição certeira do sublipelidado Odisseu Viegas, teria merecido deste a bofeítação dos esproémios de Evohé Cortázar, mas em Português-Glíglico:

«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

Pertence ao cânone, cara e desvalorizada – talvez exista aqui uma contradição – Alçadajax.

Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico:

quinta-feira, 3 de abril de 2008

3,... [com novidades literárias]

III

Ele jamais havia pegado num cão e tinha medo de que ele escorregasse, assim embalou-o nos seus braços. Ele sentia-o quente na sua pele e muito mole, e de uma forma arrepiante, um pouco nojento. Tinha olhos cinzentos como pequenos botões. Chateava-o que a Enciclopédia não tivesse imagem alguma desta raça de cão. Um bulldog a sério seria uma raça violenta e perigosa, mas estes eram apenas cães castanhos. Ele sentou-se no braço da cadeira verde estofada com o cachorrinho no seu colo, sem saber o que fazer a seguir. Entretanto, a mulher chegara-se a ele e parecera-lhe que ela lhe fizera uma festa no cabelo, ele não tinha bem a certeza, porque o seu próprio cabelo era bastante espesso. Quanto mais o tempo passava mais certezas ia ganhado sobre o que fazer. A seguir, ela perguntou-lhe se ele queria beber água, que ele aceitou, ela dirigiu-se à torneira e abriu-a, dando-lhe a oportunidade de voltar a pôr o cão na caixa. Ela regressou com o copo de água e à medida que ele o agarrava ela deixou que o fino vestido se abrisse, exibindo os seus seios, como se fossem dois balões meio cheios, dizendo que não acreditava que ele apenas pudesse ter treze anos. Ele bebeu a água de um só trago e tentou devolver-lhe o copo, e de repente ela amarra-lhe a cabeça e beija-o. Em todo este tempo, por alguma razão, ele nunca foi capaz de lhe olhar para a cara, e quando o tentou fazer naquele momento só conseguia vislumbrar uma massa disforme e cabelo. Ela atirou-se a ele e de repente ele sente um arrepio na barriga das pernas. O arrepio intensificou-se, até quase lhe parecer que havia tocado no aro metálico de um casquilho ligado à corrente enquanto se substitui uma lâmpada fundida. Ele nunca seria capaz de se lembrar que se deitou no tapete – sentiu que uma torrente de água se esmagava no topo da sua cabeça. Recordou-se de ter entrado no seu calor e que a sua cabeça não parava de bater na perna do seu sofá. Ele estava perto de Church Avenue, onde teria de mudar para a linha de superfície do Culver, antes de se dar conta que ela não tinha ficado com os seus três dólares, ou de sequer ter chegado a um acordo para esse efeito, mas ele tinha no seu colo uma pequena caixa de cartão com um cachorrinho no seu interior ganindo em surdina. O arranhar das unhas no cartão arrepiavam-no. A mulher, agora lembrava-se, fez dois buracos no topo da caixa e o cachorrinho não parava de enfiar neles o seu nariz.

A mãe dele deu um salto quando ele desatou a corda e o cachorrinho se levantou e se espalhou no chão, dando latidos. “O que é que ele está a fazer?” gritou, com as mãos no ar como se estivesse prestes a ser atacada. Nesta altura, ele já havia perdido o medo do cão e segurou-o nos braços, deixando que lhe lambesse a cara, vendo isto a mãe acalmou-se um pouco. “Terá fome?” perguntou ela, e permaneceu com a boca ligeiramente aberta, pronta para alguma coisa, enquanto ele punha de novo o cão no chão. Ele disse que sim, que talvez ele tivesse fome, mas pensou que ele apenas pudesse comer coisas moles, apesar de os seus pequenos dentes já serem tão aguçados como alfinetes. Ela tirou uma pasta cremosa de queijo para barrar e colocou um pequeno pedaço no chão, mas o cão farejou-o e fez chichi. “Deus do Céu!” gritou ela, e rapidamente pegou num bocado de jornal para absorver a mancha de urina. Quando ela se agachou daquela forma, ele lembrou-se, ao mesmo tempo que abanava a cabeça, do calor da mulher e ficou envergonhado. De repente o nome dela veio-lhe à memória – Lucille – ela havia-o mencionado quando ambos já se encontravam no chão. No preciso momento em que a penetrava, ela abriu os olhos e disse, “Chamo-me Lucille.” A mãe dele trouxe numa taça esparguete que havia sobrado do jantar de ontem e colocou-a no chão. O cachorrinho levantou a sua patinha e entornou a taça, espalhando um pouco de sopa de galinha que havia no fundo. Lambeu-a avidamente do linóleo. “Ele gosta de caldo de galinha!” gritou alegremente a mãe, e num instante decidiu que ele haveria de gostar de ovo e então pôs água a ferver. De algum modo o cão soube que era a ela quem deveria seguir e caminhou atrás dela, para a frente e para trás, do forno ao frigorífico. “Ele segue-me!” disse a mãe, rindo de contentamento.

No dia seguinte, enquanto regressava a casa vindo da escola, parou numa drogaria e comprou uma coleira para cachorros por setenta e cinco cêntimos, e Mr. Schweckert ofereceu-lhe um pedaço de corda de estendal para servir de trela. Todas as noites quando adormecia, vinha-lhe à mente Lucille, como algo saído de um caixa de tesouros secreta e interrogava-se se poderia atrever a telefonar-lhe e talvez encontrar-se de novo com ela. O cachorrinho, a que ele chamara Rover, de dia para dia parecia crescer a olhos vistos, embora continuasse a não ostentar qualquer sinal de que se tratasse de facto de um bulldog. O pai do rapaz era da opinião que o Rover deveria permanecer na cave, contudo, lá em baixo o local era muito solitário e ele não pararia de ganir. “Ele sente a falta da mãe dele,” disse-lhe a mãe; assim todas as noites o rapaz começava por o colocar na cave dentro de um antigo cesto de roupa com uns trapos, e quando latisse o suficiente o rapaz estava autorizado a trazê-lo para cima e a deixá-lo dormir na cozinha aconchegado nesses mesmos trapos, todos ficavam agradecidos pelo sossego. A mãe dele tentou passeá-lo pela rua calma onde viviam, mas o cão teimava em emaranhar a corda nos tornozelos da mãe, e pelo medo que esta tinha de o magoar, ficava exausta só de o seguir em todos aqueles ziguezagues. Não acontecia sempre, mas muitas vezes quando o rapaz olhava para Rover pensava em Lucille e quase que começava a sentir aquele calor de novo. Ele sentava-se nos degraus do alpendre afagando o cão a pensar nela, no interior das suas coxas. Contudo, ele continuava a não conseguir divisar a sua cara, apenas os seus longos cabelos pretos e o pescoço robusto.
(continua)

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. III: 4824 caracteres)

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Novidades (literatura):
  • A revista Ler já mexe. O Francisco deu início ao blogue de suporte à revista, supostamente de periodicidade mensal.
  • 7 de Abril – saem para o mercado, com mais de dois anos de atraso (responsabilidade da editora) e numa data muito próxima à comemoração dos 66 anos da morte do autor na Suíça em 15 de Abril de 1942, os dois primeiros volumes de O Homem Sem Qualidades do notável autor austríaco Robert Musil (1880-1942) editados pela Dom Quixote, com a tradução de um dos mais ilustres germanófilos portugueses, o tradutor, ensaísta e crítico literário João Barrento. [apenas uma chamada de atenção para o último Câmara Clara (16 de Março) de Paula Moura Pinheiro, que juntou na mesma mesa Barrento e Pedro Tamen. Foi um programa riquíssimo para quem anda sedento de ouvir falar de literatura a sério na televisão.]

sábado, 23 de junho de 2007

O fim do romance anglo-saxónico?

8.º Passo: Fazer uma lista de pessoas a quem causamos danos, para as poder compensar.
(seguindo os passos até ao São João)

Felizes os podcasts da estação de televisão pública. Eis a plataforma que evita a incompatibilidade de horários no mundo… isto é, o do telespectador com o dos seus programas favoritos. Assim seja.
Câmara Clara, programa da
RTP2, apresentado pela faiscante Paula Moura Pinheiro, cujo título foi decalcado do último trabalho publicado em vida de Roland Barthes, o ensaio filosófico de 1980 em que Barthes discorreu sobre a fotografia e os seus elementos vivos e essenciais, o studium e o punctum: o primeiro resulta da nossa concepção geral do mundo, onde a fotografia reflecte o nosso interesse apenas como objecto; o segundo é aquele que transforma a fotografia de novo em sujeito, não só pelo simples pormenor que torna a fotografia única a cada indivíduo, visto no momento ou resultante de um processo apuramento da memória, mas também, de forma mais arrebatadora, a consciência da morte ou da sua chegada iminente, porque representa no tempo um momento que deixou de existir… Bom, basta de filosofias!

Ponto de ordem: prosseguindo…
Pablo Picasso - Les Demoiselles d'Avignon (1907)No passado dia 27 de Maio, o Câmara Clara, no meu entender o melhor programa de produção exclusivamente portuguesa no descoroçoante panorama televisivo nacional, contou com a presença do all-in-one das artes e das letras nacionais Jorge Silva Melo. Da ficha do programa destacava-se a celebração dos cem anos de nascimento do actor norte-americano John Wayne – nasceu a 26 de Maio de 1907. Por outro lado, dela constava a promessa de uma boa conversa sobre livros, particularmente daqueles que acompanharam o convidado de honra ao longo da sua vida e da sua carreira literária, discutindo-se, em simultâneo, o estado da arte do mercado editorial português, bem a propósito da abertura da 77.ª edição das feiras do livro de Lisboa e do Porto.

Jorge Silva Melo, quer se goste ou não da sua idiossincrasia e/ou das suas ideias ou reflexões, é uma personalidade que se ouve por vício, tem uma capacidade comunicacional ímpar no meio cultural português, pelas fluidez do discurso e limpidez de raciocínio.
Sobre John Wayne, de quem Silva Melo confessou a sua profunda admiração, especialmente nos filmes em que foi dirigido pelo mestre Howard Hawks – de forma notável, referiu, para o efeito e através da exibição de um excerto do filme de 1959 Rio Bravo, a introdução do elemento fragilidade nos personagens interpretados por Wayne quando dirigido por Hawks, comummente apresentado com um homem de ferro por outros realizadores –, evocou um facto curioso que demonstra a perenidade da arte no espírito humano através das suas constantes revoluções e contra-revoluções: recordou que no preciso ano em que Wayne soltava o primeiro choro no Iowa nos Estados Unidos – certamente já instilando, no seu estilo pastoso, a sua voz cava –, Pablo Picasso pintava Les Demoiselles d’Avignon (óleo sobre tela, com as descomunais dimensões de 2,44 por 2,34 metros, actualmente propriedade do MoMA em Nova Iorque) e com ele revolucionou as artes plásticas mundiais, o grande ponto de viragem, o início de um novo paradigma estético que se alastrou às demais artes.

Depois, chegou o momento dos livros. Antes de referir as sugestões de Filipa Melo, consultora de Literatura do Câmara Clara, dou um salto cronológico até Rui Zink para logo regressar a Silva Melo, que discorre sobre o estado do romance anglo-saxónico da segunda metade do século XX.
O último romance de Martin Amis, A Casa dos Encontros (Teorema, 2007), foi destacado mediante a exibição de uma pequena peça jornalística, por Luís Caetano, na qual o hiperbólico Rui Zink, após haver falado do horror dos gulags, exprimiu a sua imensa admiração pelo escritor de Oxford, filho de Kingsley Amis, nestes termos: «o Martin Amis é para mim, simplesmente, o melhor escritor de língua inglesa do mundo… e é-o desde há vinte anos.»
Não podia estar mais em desacordo, embora conheça mal a obra de Amis – devo ter lido, ao todo, 4 ou 5 obras – havendo-me recordado naquele preciso momento de pelo menos dez nomes que, segundo os meus padrões estético-literários, são consideravelmente superiores ao autor de O Cão Amarelo.
Para não os nomear e, para além disso, ter de puxar pela memória e encontrar mais uma meia dúzia escritores de língua inglesa, com obra publicada nos últimos 20 anos, cuja qualidade considero superior a Amis, basta-me fazer de novo um recuo no programa e falar dos quatro gigantes literários norte-americanos propostos por Filipa Melo, no pressuposto – quanto a mim um pouco lírico, a Internet tomou em definitivo esse lugar – de que nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto poderíamos encontrar os livros que, por razões de espaço, há muito abandonaram os escaparates das livrarias portuguesas:
Saul Bellow, Philip Roth, John Updike e Gore Vidal.
Considero qualquer um daqueles quatro nomes com uma razoável distância qualitativa, para melhor, em relação a Martin Amis. No futuro, quem sabe, se lá não chegará… E mais, Zink traduziu Bellow…
Confrontado com os quatro nomes, Silva Melo diz não considerar Gore Vidal como um ficcionista de primeira linha, apesar de ser uma personalidade fascinante [talvez um cínico?, pergunto eu]*; de Philip Roth confessa-se um leitor irregular, lê três obras de Roth de enfiada para depois ficar anos sem o ler, processo que curiosamente metaforiza como de ir «por ataques, são abcessos [sic] de leitura»; de seguida, JSM revela o seu enorme fascínio por Saul Bellow e pelas suas obras, que acompanhava a cada nova publicação, chamando-lhe o fenómeno (de leitura) da «continuidade permanente», cujo processo apenas durou até ao romance Dean’s December, o décimo de quinze romances que Bellow – Nobel da Literatura em 1976 – publicou – morreu a 5 de Abril de 2005; nunca leu com muito interesse as obras de John Updike, apesar de o achar «inteligente, cerebral e pertinente».
Depois veio uma reflexão potencialmente assassina e a apelar para alguma reflexão da blogosfera que se interessa por e admira a Literatura anglo-saxónica (como é, sem qualquer sombra de dúvida, o meu caso):

«Eu tenho algumas dúvidas com a ficção anglo-saxónica desta segunda metade do século XX, ou seja, até justamente Saul Bellow, Graham Greene, Doris Lessing fui um leitor fiel… depois comecei a achar… a ficar um pouco aborrecido com esta hipótese de contar histórias, com esta hipótese de acreditar na ficção e nas personagens sem ter passado pela era da suspeita de que falava tão bem a Nathalie Sarraute.»


Qual foi a Demoiselles d’Avignon da segunda metade do século XX?
Para reflectir enquanto ando nesta tentativa de desintoxicação blogólica. Estarei limpo no dia de São João, ou seja, amanhã…?


Nota: *A propósito de Gore Vidal e das suas qualidades enquanto personalidade do show business americano, há um episódio – para além de outros deliciosos protagonizados com os ex-amigos Capote ou Mailer, ou até com William F. Buckley (a quem, em directo na cadeia de televisão ABC, Vidal chamou de “proto ou cripto-nazi”, motivando a seguinte resposta de Buckley: “Now listen, you queer, stop calling me a crypto-Nazi or I'll sock you in your goddamn face, and you'll stay plastered”) – contado por Fred Kaplan no seu livro de 1999 Gore Vidal: A Biography, em que Saul Bellow, em conversa com Vidal, lhe confessou que um dia gostaria de lhe apresentar o seu filho, para este último ficar a conhecer alguém verdadeiramente cínico.

Promessa: Depois de ouvir JSM, vou ler a obra por ele recomendada Aqui nos Encontramos de John Berger. Já era dela possuidor desde o início do ano. Neste momento passou para a lista de prioridades no enorme arquivo de não-lidos que repousam nas estantes e atulham a minha biblioteca.