domingo, 10 de junho de 2007

Criticismo

No limite, como produto final de um juízo preconcebido, a crítica literária é uma total aberração. É, normalmente, dirigista, presunçosa e – passe o pleonasmo – ardilosamente falaciosa, na medida em que os fins que pretende alcançar já se encontram delineados antes sequer da abertura da obra. Analisa-se uma obra, um autor ou uma suposta corrente literária – e neste último caso já existe preconcepção – segundo padrões estéticos eminentemente subjectivos. É inegável e confesso que seria certamente redundante obrigar a afirmar-se essa subjectividade valorativa como uma cláusula de advertência ao público menos avisado. Felizmente, a arte é como um bicho indomável que, por vias e graus diferentes, se entranha na pele que cobre a alma mais ou menos sensível e é, na sua essência, desregulamentadora; quebra tabus; derroga moralismos de fachada, esconsos, vazios, aparentemente solidificados pela inércia interventiva dos que se autoproclamaram como oprimidos de uma classe privilegiada.
Como é óbvio e convém esclarecer face a possíveis interpretações erróneas perante o supramencionado – quer seja por dolo ou por simples negligência –, não pretendo, de modo algum, pôr em causa a liberdade plena do exercício da crítica, ao invés considero-a como um direito fundamental e inalienável. Aliás, estou convicto de que a Literatura não sobreviveria sem crítica literária, tal como, evidentemente, a primeira jamais existiria sem a segunda.
Uma crítica é uma simples opinião e não um dogma ditado por um reconhecido sumo-sacerdote com poderes divinatórios, previamente inoculado da hermenêutica suprema. E se escrevo isto nesta mísera página alojada na plataforma facultada pelo Blogger, é porque me insurjo com os críticos sentenciadores que, para além de assumirem o todo pela parte, se arrogam do direito de julgar, sem hipótese de apelo, o público consumidor. Apesar da raiz etimológica grega da palavra, apelo à semiologia e à dinâmica que ela encerra para afirmar que um crítico, no meu entender, deve ser um guia e não um juiz da causa literária, um pedagogo e não um escriba escarninho, empertigado e fatalista, que não indica caminhos e que pretende apagar o caminho da redenção de cujo mapa se julga possuidor. Mas é talvez na sua subjectividade, onde o contraditório se reveste normalmente do mesmo poder valorativo, num confronto de ideias sem hipótese de resolução da contenda – tentar transformar o eminente subjectivismo numa objectividade absoluta é impossível, para não ir mais longe e discorrer sobre o absurdo de tal empreendimento –, que reside o inebriamento pela crítica, na ilusão da propriedade de um bem público que jamais se poderá privatizar por muito hayekianosarrojistas na lusa pátria – que possamos ser.

Ao longos destes últimos 6 meses e 8 dias, tal como fiz no Porque entre Dezembro de 2005 e Setembro de 2006, publiquei textos que jamais tiveram a pretensão de revestir o carácter canónico – se é que existe! – de uma recensão. Limitei-me a despejar, de forma mais ou menos poética, mais ou menos feliz – cabe aos outros julgar, neste espaço de liberdade opinativa – os meus encantamentos e as minhas frustrações, as sensações experimentadas pela leitura de determinada obra literária que, ao contrário da tal crítica canónica, nunca obedeceu a um critério imposto por um dono do espaço em busca de rentabilidade, ou seja, prevaleceram apenas os meus critérios – his master's voice, is my own voice –, por exemplo na selecção das obras sobre as quais postaria a minha opinião enquanto leitor, originando, porventura, um resultado viciado à partida: apenas seleccionei obras de autores cujo meu conhecimento anterior dificilmente iria produzir, da minha parte, uma crítica negativa ou aquelas previamente seleccionadas por críticos profissionais ou não, de quem senti existir, com o tempo, alguma afinidade estética – nada mais. E como só me leu quem quis e se escrevo é para ser lido, com o fim de poder partilhar a minha visão do mundo, só me resta agradecer a esses (poucos) leitores com os quais se verificou uma reciprocidade leitora, o sal deste mundo imparável a que se convencionou chamar de blogosfera.

2 comentários:

allen disse...

«Mas é talvez na sua subjectividade, onde o contraditório se reveste normalmente do mesmo poder valorativo, num confronto de ideias sem hipótese de resolução da contenda – tentar transformar o eminente subjectivismo numa objectividade absoluta é impossível...»

Arrisco dizer que, objectivamente, é isto.

Mónica (em Campanhã) disse...

absolutamente de acordo. só espero que este post signifique que assim vai continuar.