domingo, 10 de junho de 2007

Extinção

Fundo preto. Um quadrado negro – transformado em rectângulo na versão portuguesa – finamente debruado a vermelho – thin red line, ou a pequena distância que nos separa do abismo – destacando-se no centro, em letras brancas, inscrita como uma sentença, a palavra EverymanTodo-o-Mundo na recente edição portuguesa da Dom Quixote. Uma lápide onde está inscrita a verdade absoluta sobre a natureza do Homem: a sua inescapável transitoriedade, a morte.
Em Dezembro de 2005, o jornalista dinamarquês Martin Krasnik conseguiu a rara proeza de entrevistar o autor norte-americano Philip Roth, publicada posteriormente no jornal inglês The Guardian. No título figurava a seguinte asserção proferida por Roth no decurso da inusitada entrevista: “Já não sinto como uma grande injustiça o ter de morrer.” [tradução: AMC]
Pois, acredito que não. Principalmente, havendo sido proferida por um homem que, através do sortilégio da sua escrita, viveu uma vida cheia de êxitos e como dizia a canção de Anka imortalizada pelo deus dos deuses, Francis Albert Sinatra, já sente que “fez o seu caminho” no mundo dos mortais.
Philip Roth, nascido no dia 19 de Março de 1933 na cidade de Newark, Estado de Nova Jérsia, publicou com apenas 26 anos (1959) a sua primeira obra. Tratava-se da obra Goodbye, Columbus, que inclui a novela epónima e mais cinco contos, com a qual arrecadou no ano seguinte o prestigiado National Book Award.
A partir desse momento seguiu a sua imparável carreira com 26 romances publicados e um conjunto de prémios que faz inveja a qualquer dos seus contemporâneos.
Entre outros, destacam-se o seguintes:


Vencedor por três vezes do PEN/Faulkner Award for Fiction:

  • Operation Shylock em 1993;

  • A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2001;

  • Todo-o-Mundo (Dom Quixote) em 2007.

Vencedor por duas vezes do National Book Award for Fiction:

  • Goodbye, Columbus em 1960;

  • Teatro de Sabbath (Dom Quixote) em 1995.

Vencedor por duas vezes do National Book Critics Circle Award:

  • Counterlife em 1987;

  • Patrimony em 1992;

Vencedor do Pulitzer Prize for Fiction: Pastoral Americana em 1997.
Vencedor do Ambassador Book Award for Fiction: Casei com um Comunista (Dom Quixote) em 1999.
Vencedor do WH Smith Literary Award: A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2001.
Vencedor do prémio Medicis para melhor romance estrangeiro (França): A Mancha Humana (Dom Quixote) em 2002.
Vencedor do Sidewise Awards for Alternate History: A Conspiração contra a América (Dom Quixote) em 2004.
Vencedor dos prémios de carreira e obra literárias:

  • National Arts Club Medal of Honor em 1991;

  • National Medal of Arts em 1998;

  • American Academy of Arts and Letters’ Gold Medal for Fiction em 2001 (prémio atribuído de 6 em 6 anos);

  • Franz Kafka Prize em 2001 (República Checa);

  • National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters em 2002;

  • PEN/Nabokov em 2006 (bienal);

  • PEN/Saul Bellow em 2007 (bienal – prémio atribuído pela primeira vez).

De notar que, com a excepção do romance O Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) – até à data, a sua antepenúltima obra –, Roth venceu sempre um prémio por qualquer obra publicada a partir de 1990: começando com Patrimony (1991) e terminando com Todo-o-Mundo (Everyman, 2006).

O título do último romance de Roth não é, de forma deliberada, original. Everyman é o nome de uma obra dramática medieval, publicada pela primeira vez no final do século XV, da qual não se conhece o autor e cuja temática serviu de inspiração à presente obra.
Como refere Roth na referida entrevista ao jornal The Guardian, dando ao caso um relevo especial, a obra a que se reporta o seu romance foi publicada no longo interstício que decorreu entre a morte do autor dos Contos de Cantuária, Geoffrey Chaucer (circa 1343-1400), e o nascimento de William Shakespeare (1564-1616), quando a literatura e a dramaturgia funcionavam como um dos braços da propaganda da Igreja de Roma – recorde-se que Martinho Lutero nascia precisamente no final do século XV – mediante a interpretação dramática alegórica das normas de conduta, dos princípios e valores cristãos. Everyman não fugiu à norma, e tratou-se, à época, na sua essência, de mais uma obra moral.

«Já não sinto como uma grande injustiça o ter de morrer.»
A coerência é uma das marcas que notabiliza a já longa lista de obras escritas e publicadas por Philip Roth, principalmente plasmada no seu mais vivo personagem, o escritor Nathan Zuckerman – a quem Roth atribuiu, segundo refere nas suas memórias, alguma componente autobiográfica, mas que na realidade por vezes se transforma no seu alter-ego mais arrojado –, que protagonizou oito obras e que, segundo o próprio Roth, se prepara para a nona aparição, ao que parece a última, no próximo romance do autor, sob o título premonitório de Exit Ghost – depois do papel de narrador, secundarizado pela trama, na trilogia americana: Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A Mancha Humana (nesta última interpretado por Gary Sinise, entre Anthony Hopkins e Nicole Kidman, na adaptação cinematográfica de 2003 de Nicholas Meyer e com a realização de Robert Benton) – e cuja sequência começou com a sua obra de 1979 The Ghost Writer.
Depois temos David Kepesh, outro dos personagens que cruza a obra do escritor norte-americano. O lúbrico e aparentemente frívolo académico, fortemente autocentrado e concentrado no seu recalcitrante hedonismo, que faz a sua primeira aparição com o romance de 1972 sob o sugestivo título The Breast, onde Kepesh, seguindo os passos de Gregor Samsa de A Metamorfose de Kafka, se vê transformado num… seio. Este
é, certamente, o menos autobiográfico dos seus personagens. Após a terrível metamorfose, Kepesh reaparece no romance de 1977 desta feita com o título instrutivo The Professor of Desire; a última aparição do professor dá-se com o romance de 2001 O Animal Moribundo, onde surge este notável excerto: «Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos.» (cf. Philip Roth, O Animal Moribundo). Nesta última obra a mortalidade surge de uma forma irónica, com as vicissitudes da própria velhice, não há conclusões morais a retirar de uma vida potencialmente apelidada de devassa; o factor mais desencorajante reside na incapacidade física para a materialização dos jogos de sedução, que mesmo nos mais novos poderá surgir pela doença – transportada por Consuela – ou por um casamento mal sucedido amarrado a uma moralidade caduca e castradora da liberdade – onde figura o seu filho Kenny.

Tal como em A Conspiração contra a América (2004), com Everyman (2006) Roth atribui o protagonismo a um personagem eminentemente autobiográfico, o pequeno Philip – que era simultaneamente o narrador – na primeira obra e um personagem anónimo nascido no mesmo ano que Roth (1933) na cidade vizinha de Newark, chamada Elizabeth, na segunda.

Por outro lado, os temas assinaladamente identitários e profundamente inter-relacionados com o sexo e a morte, são uma imagem de marca do autor norte-americano. Se por intermédio do perturbado Portnoy – que por seu turno foi decalcado no seu romance Zuckerman Unbound (1985) quando o seu personagem-escritor Nathan Zuckerman é acossado pelo público após haver decidido escrever o seu romance Carnovsky (o equivalente ficcional a O Complexo de Portnoy de 1969) –, a narrativa é marcada pela forte tensão sexual que assalta o protagonista pela vida dissoluta, mediante o relato ao seu psiquiatra com descrições explícitas das práticas carnais que o perturbam e cuja recordação não alimenta a sua lubricidade; em Counterlife (1986) o complexo desaparece pelo desejo de continuar essa dissolução e de reviver uma vida que parecia destroçada pela doença, no romance mais meta-ficcional de Roth.
Todo-o-Mundo começa com a morte num cemitério destroçado, onde os personagens principais vão-nos sendo apresentados à medida que, agarrando um punhado de terra para arremessar ao caixão, discursam sobre as qualidades do defunto que não sobreviveu à sua última intervenção cirúrgica.
Recorrendo à Parábola dos Talentos (S. Mateus, 25: 14-30), Roth descreve-nos, de uma forma brutal e desoladora, a iminência da morte sentida por um publicitário reformado que, após três casamentos desastrosos e outros tantos filhos – dois rapazes do primeiro casamento que se afastaram do pai pelo seu abandono do lar, e uma filha, Nancy, fruto do seu segundo casamento e com a qual o pai se identifica – e uma infindável sucessão de cirurgias cardiovasculares assim que entra no ocaso da vida, rememora a sua existência como uma pungente inutilidade que redundou no seu isolamento e na perda daqueles que mais amava, o tal desperdício de talentos de que nos fala a parábola, uma vida mal vivida por quem a recebeu e não soube investir para a dignificar e valorizar, «porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.» (Mateus, 25: 29-30).
Chegou o momento da expiação e do despertar para o sofrimento que provoca a decadência física, «onde o simples pensar já é sofrer…» (verso de um poema de Keats, que serve de epígrafe ao romance), e como Roth definiu em uma das mais brilhantes passagens do livro, a dos dilacerantes telefonemas que efectuou aos seus ex-companheiros de trabalho ou respectivas famílias, «o assalto inevitável que é o fim da vida»:

«Tivesse ele sabido do sofrimento mortal de todos os homens e mulheres que por acaso tinha conhecido durante todos os seus anos de vida profissional, da história penosa de desgosto, sofrimento e estoicismo, de medo, pânico, isolamento e pavor de cada uma dessas pessoas, tivesse ele sabido de todas as coisas, até à mais insignificante, que elas tinham deixado para trás depois de em tempos terem sido estruturalmente suas, e da forma sistemática como estavam a ser destruídas e teria sido obrigado a ficar ao telefone o resto do dia e pela noite fora, fazendo pelo menos mais cem chamadas. A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.» (pp. 154-155)

Com Everyman, Roth demonstra uma vez mais o largo espectro em que se move toda a sua destreza literária, desde o grande romance à mais curta narrativa, e por que razão é considerado actualmente como um dos melhores escritores de todo-o-mundo, ao qual tem faltado o mais que merecido Prémio Nobel da Literatura.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Philip Roth, Todo-o-Mundo. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Maio de 2007, 179 pp. (tradução de Francisco Agarez; obra original: Everyman, 2006).

1 comentário:

Robin disse...

Este homem está impregnado de modernidade.
Escreve, com a mesma segurança, sobre sexo e tecnologia cirúrgica cardiovascular.
Excelente trabalho de casa.
Os amigos, a família, as mulheres, a doença e a morte.
Uma memória glacial.
Estava a contar com ficção e sai-me mais um livro técnico.